Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2020

Fados para uma cidade tristonha

O poeta António Carlos Cortez escreveu um poema-letra para esta Lisboa cujo fado não se tem podido ouvir, um fado sobre a Lisboa deserta, que publicou na sua página do Facebook (António Carlos Cortez Letras). Depois desafiou-me a dar-lhe resposta, como numa autêntica desgarrada, propondo um mano-a-mano que podia ser giro, mas demorado. Aceitei dar a primeira resposta, mas logo lhe disse que estava em teletrabalho e não poderia prosseguir «a conversa». Então, para não quebrar a corrente, combinámos que desafiaríamos outros poetas para escreverem fados sobre este momento do confinamento. E não só os poemas apareceram muito naturalmente (de Mário Cláudio, Nuno Júdice, Luís Filipe Castro Mendes, José Carlos Barros, Rui Cóias, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta..., alguns dos quais até repetiram a dose), como o apelo estendeu-se a alguns autores menos conhecidos e até a poetas populares que quiseram arriscar. Qualquer dia ainda temos antologia... Deixo-vos o meu fado, mas procurem os outros na página que referi, pois valem muito a pena.


 


«Fado da Lisboa doente»


 


Quem a viu e quem a vê,


Esta Lisboa onde moro.


Mas não perguntem porquê.


Pois, se explicar, ainda choro.


 


Na padaria da esquina


Já só se entra às pinguinhas


E até se tornou rotina


Estar a um metro das vizinhas.


 


Há fila para a farmácia,


Fila pró supermercado;


E nem é precisa audácia


Para se andar mascarado.


 


Nas traseiras do meu prédio


Uma jovem namorada


Tenta combater o tédio


Com uma videochamada.


 


A uns metros de distância


Parte um atleta em corrida;


Para manter a elegância


Há que fazer pela vida.


 


De resto, com a emergência,


Ficam as ruas desertas.


Podemos conferir a ausência


Pelas janelas abertas.


 


Está tudo em teletrabalho,


A olhar p’ró monitor.


Mas não encontro o atalho


Para vos falar de amor.


 


Dar beijos é só por escrito,


Que o vírus mata a valer.


E está tudo tão aflito


Que nem apetece ler.


 


Ai Lisboa, que saudade


Da tua irrequietude.


Mesmo que, em boa verdade,


Mais importante é a saúde.


 


Que tudo passe ligeiro,


E não afecte o meu ninho.


Da Praça do Areeiro


Envio um tele-beijinho!


 


Hoje proponho como leitura Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, com tradução de Ana Saldanha. (Dedico esta leitura às mulheres que estão desesperadas a pensar que não conseguem arranjar o cabelo até final de Maio...)

As personagens cumprimentam-se

Tenho passado os dias a ler: provas de livros que serão publicados, obras originais de potenciais autores, livros publicados no estrangeiro para ver se me interessa traduzi-los, livros cá publicados (à noite, antes de dormir). E noto que a leitura recorrente de notícias sobre o Coronavírus e o isolamento forçado me estão a afectar mais do que gostaria quando dou por mim a já não conseguir separar as águas... Por exemplo, li agora uma cena de um livro em que os avós acenavam de longe a um rapazinho, num jardim das Caldas da Rainha, e pareceu-me bem; mas, quando eles resolvem ir ter com ele e sentarem-se todos numa esplanada, só pensava que deviam estar doidos e que nunca deveriam ter saído de casa. Infelizmente, sempre que aparece no texto que estou a ler um aperto de mão, um abraço, alguém que cumprimenta com um beijo, em vez de achar natural e passar adiante, não consigo deixar de pensar no perigo de contágio... Mas para onde me havia de dar, raios! Devo estar a ficar maluquinha com o encerramento... Por acaso acontece o mesmo a algum Extraordinário ou sou eu que sou mesmo um caso perdido (coisa que o nosso Anónimo de estimação adoraria)?


Para hoje sugiro O Filho, de Philipp Meyer, um livro em que o protagonista só se salvou do jugo dos índios porque estava vacinado...

Crónica e paciência

Hoje é dia de crónica e o link aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-mar-2020/um-virus-com-estilo-11894110.html


Os pais de crianças mais pequenas devem andar um bocado desesperados, obrigados que estão a mantê-las confinadas ao espaço da casa, e sabendo nós como algumas das casas devem ser pequenas... Sobretudo os que, além de tomar conta dos filhos, estão em teletrabalho. Mas há um livro bonito que ensina as crianças a aceitar situações diferentes. Chama-se A Aldeia Verde e Vermelha, é de Paulo M. Morais, tem ilustrações de Sandra Sofia Santos, e foi publicado pela Tcharan. É a minha sugestão para hoje. Para os mais velhos, Pátria, de Fernando Aramburu, sobre a ETA, o País Basco e o que une e separa duas famílias tão amigas. Bom fim-de-semana.

Esqueci-me

E não é que me esqueci do post para hoje? Isto é do confinamento forçado, desculpem... Bem, agora também não tenho tempo para quase nada. Vou por isso socorrer-me do jornalista João Morales, que gravou recentemente conversas espontâneas com escritores e outras personalidades na última edição das Correntes d'Escritas que vão sendo colocadas no Blog BranMorrighan. A primeira é com a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, justamente os “pais” das Correntes d' Escritas. Desculpem o mau jeito. Obrigada, João Morales. Aqui vai o link.


https://www.branmorrighan.com/2019/03/conversas-de-correntes-joao-morales.html


Aproveito para sugerir um clássico: Fome, de Knut Hamsun. A edição que me espreita ali da estante é da Cavalo de Ferro e a tradução de Liliete Martins (imperdoável esquecimento nos outros casos em que aconselhei livros não ter mencionado os tradutores, desculpem).

Os dias da poesia

Sábado passado foi Dia Mundial da Poesia, embora a poesia devesse ser de todos os dias. Como é habitual de há vários anos para cá, a Casa Fernando Pessoa tinha um programa de actividades muito cheio para sábado: a feira do livro de poesia no Jardim da Parada, que tem sempre edições difíceis de encontrar nas livrarias, e várias sessões de leitura no auditório da Casa, entre elas uma realizada por Maria Rueff. Mas nada disso pôe fazer-se, pois manda a lei que estejamos bem recolhidinhos em casa para evitar o contágio. Em todo o caso, a directora da Casa Fernando Pessoa não parou para nos poder oferecer uma série de «poemas que ficam no ouvido», lidos não apenas pela actriz, mas por muitíssimas pessoas, algumas das quais se voluntariaram para alegrar os nossos dias. A sessão pode ser vista a partir daqui:


https://www.youtube.com/watch?v=FHaRx5FOJEU&list=PLGrO2Wlu5PWBNei9EFnPExNdkJjODkAYc&index=2&t=0s


Hoje, aconselho Stoner, de John Williams, um grande romance sobre um homem que, como nós, adorava os livros.

Grande artista escondido

Há muitos anos, quando comecei, ainda tão nova, a ir à Feira do Livro de Frankfurt, conheci um casal da edição do qual nunca mais me separaria: a Maria da Piedade Ferreira, que é hoje a editora de António Lobo Antunes na LeYa, mas passou por variadísimas chancelas, como a Bertrand, a Difel, a Quetzal e a Gótica; e o Rogério Petinga, um artista que fez algumas das capas de livros mais lindas que Portugal já teve. Ambos, com Maria Carlos Loureiro e Francisco Faria Paulino, foram os fundadores da editora Quetzal, que primou sempre pelo bom gosto extraordinário quer na escolha dos autores (Duras, Tabucchi, Julian Barnes...), quer na imagem gráfica. Fico orgulhosa de ter publicado lá o meu primeiro livro de poesia, com capa de Rogério Petinga. Na Gótica, que os dois fundaram mais tarde, foi também ele que fez as capas dos meus livros seguintes. Infelizmente, este grande artista escondido (sim, era um homem discreto e metido consigo) deixou-nos na sexta-feira passada. Espero que a sua obra gráfica possa ser um dia mostrada a todos, pois é notável. Paz para ele.


Sugiro hoje um livro que foi editado originalmente pela Quetzal com capa do Rogério Petinga: O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Imperdível ainda hoje.

Vendas de livros

No Reino Unido, com a situação de confinamento provocada pelo Coronavírus, as vendas de livros dispararam. Nada melhor para enriquecer o espírito, aprender, desenvolver capacidades e passar bem o tempo. Os britânicos já sabem disso há muito (já tiveram 86% de pessoas que compravam e liam livros regularmente); mas em Portugal não sabemos ainda o que vai acontecer, até porque passámos do analfabetismo real ao funcional num abrir e fechar de olhos e nunca conseguimos formar uma população francamente leitora. Ainda assim, tenho recebido imensos e-mails e mensagens com iniciativas e actividades em redor da leitura, da escrita e dos escritores que podemos acompanhar de casa. E achei especialmente graça a uma delas: a criação de um clube de leitura da Josefinas, uma boa marca nacional de sabrinas (e outros sapatos). Chama-se Josefina's Book Club e pode ser acompanhado no Instagram da marca. Foi criado sob o signo de Malala Yousafzai: «Um professor, uma criança, um livro, uma caneta, pode mudar o mundo.» Mesmo sem fazer parte do clube, hoje aconselho, por sugestão de um Extraordinário, a leitura de A Lição de Anatomia, de Philip Roth. Humor não lhe falta e precisamos dele nestes dias.

Crónica e solidariedade

Hoje é dia de crónica, e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/29-fev-2020/o-estado-da-arte-11870714.html


Aproveito para saudar todos os artistas que têm estado a dar concertos em directo de suas casas, às vezes cantando a capella por falta de outros recursos, como foi o caso de Cristina Branco, que acompanhei; ouvi também Boss AC, que tinha a música gravada e «falava» em cima; e António Zambujo, mas ele toca guitarra e assim fica mais fácil). Lembro que, com tantos concertos anulados, os músicos e intérpretes são obviamente muitíssimo atingidos por este período de confinamento, pois o que ganham é normalmente das tournées e espectáculos que realizam em Portugal e no estrangeiro, já que quase ninguém compra CD. Faço um apelo para que comprem uns discos nas lojas virtuais para os ajudar (mesmo que os direitos de autor sejam pouca coisa), e a talho de foice digo a mesma coisa para os livros. Os escritores também andam por aí a ler excertos da suas obras nas redes sociais e a fazer workshops, leituras e conferências por skype, na maioria gratuitamente. Nestes tempos difíceis, esta gente precisa de ser apoiada por nós.

O quarentão

Um dos Extraordinários (perdoe-me sinceramente não referir o seu nome, mas já não sei em que post pôs o seu comentário) lembrou, e bem, que o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, fez 40 anos e eu nem uma palavrinha escrevera sobre o assunto. Diabo, realmente foi um esquecmento imperdoável e uma grande injustiça. Comprei o primeiro número do JL, andava ainda na faculdade, descobrindo que um dos meus professores favoritos (Mário Jorge Torres Silva) escrevia no semanário (na altura era semanário) sobre cinema. Porém, outro dos meus professores da altura chamou-lhe A Bola da literatura e aconselhou-nos a ler, em vez dele, coisas mais académicas. As opiniões, enfim, dividiram-se sempre, mas o que é certo é que nunca apareceu outro jornal de livros, exposições, música, etc., que circulasse por toda a lusofonia, que resistisse 40 anos e que, com recursos mínimos, conseguisse fazer mais pela literatura e as outras artes portuguesas do que muitos outros meios de comunicação. Parabéns, quarentão. Continua assim. Deixo-vos um link com capas dos 40 anos:


https://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2020-03-11-jl-40-anos-40-capas/#&gid=0&pid=1


 

Teletrabalho

Há muita gente que, estando a trabalhar em empresas, desejaria ardentemente trabalhar a partir de casa. Pois eu sou o contrário: como preciso de trabalhar em casa por motivos pessoais (uma crónica semanal, este blogue, etc.), se trabalho em casa para a LeYa é certo e sabido que depois já não me apetece trabalhar para mim, porque deixa de haver um corte, de horário e de lugar. Além disso, agora tenho de fazer almoço, e eu detesto cozinhar. O meu irmão, que é professor universitário, diz também que lhe é muito mais difícil ensinar pela Internet do que dar as aulas presencialmente. E com os professores do Secundário e do Básico imagino que aconteça o mesmo, ou seja ainda pior, apesar de os principais editores escolares terem aberto de forma gratuita as suas plataformas para os ajudarem. (Pelo menos, não aturam a má-criação.) Tenho dificuldade em perceber o que acontecerá mais para a frente, se a reclusão se prolongar, inclusivamente porque conheço alguns efeitos secundários do isolamento social e não são bons. E mesmo ler, que podia resultar bem em ambiente doméstico, agora não funciona: ora porque estamos sempre a receber emails e whatsapps da empresa (temos de comunicar de alguma maneira), ora porque com o computador ligado estamos atentos a todos os alertas do vírus, ora porque a situação é muito grave e não conseguimos concentrar-nos. Pode parecer uma parvoíce, mas não é que tenho saudades de ir para o emprego...?

«Coronaleituras»

O isolamento social está recomendado e é imprescindível neste momento; mas também é chato e muito custoso de passar, principalmente se as pessoas (e há muitas) não souberem ocupar os tempos livres ou não estiverem, como eu, em regime de teletrabalho. Mas é importante manter o sentido de humor para fugir ao pânico e não estar obcecado com a doença a tempo inteiro, até porque circula muita informação errada, veiculada propositada ou inocentemente, e isso não ajuda nada a manter a lucidez. O que ajuda é, por exemplo, ver como um grande jornal (o britânico The Guardian), com um grande sentido de oportunidade, nos oferece um artigo com sugestões de «coronaleituras», obras de algum modo relacionadas com os tempos que estamos a viver. E em modo de ficção, o que, evidentemente, é mais ligeiro e melhor para o espírito. Deixo-vos o link e lembrem-se: há alguns destes livros traduzidos e há livrarias virtuais!


https://www.theguardian.com/books/2020/mar/13/your-coronavirus-reading-list-reader-suggestions-to-bring-joy-in-difficult-times?utm_term=RWRpdG9yaWFsX0Jvb2ttYXJrcy0yMDAzMTU%3D&utm_source=esp&utm_medium=Email&CMP=bookmarks_email&utm_campaign=Bookmarks


 

Cortázar

Rayuela é um longo romance, mas se vai ficar em casa por precaução (o meu caso) e não tiver de trabalhar, aproveite para conhecer através dele o seu autor, Julio Cortázar, que transgrediu a construção de uma história e a própria língua. Cortázar era argentino, mas nasceu na Bélgica (“O meu nascimento foi um produto do turismo e da diplomacia”, disse) e é exemplar como contista, embora Rayuela (que é o jogo da macaca) seja talvez a sua obra mais emblemática. Deixo algumas das suas maravilhosas frases para abrir o apetite:


«Cada vez sentirei menos e lembrarei mais, mas o que é a recordação senão a língua dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos ao discurso.»


«Meu amor, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me chame para te amar, amo-te porque não és minha, porque estás do outro lado, nesse lado donde me convidas a saltar e eu não consigo dar o salto […].»


«Aquilo a que muita gente chama ‘amar’ consiste em escolher uma mulher e casar-se com ela. Escolhem-na, juro-te, já os vi fazê-lo. Como se no amor se pudesse escolher, como se ele não fosse um raio que nos parte os ossos e nos faz estacar a meio do pátio.»

Crónica e etimologia

Hoje é dia de crónica e sexta-feira 13. A crónica foi publicada no sábado de Carnaval e é por isso que tem o nome que tem (e não por causa das máscaras protectoras que não se sabe se protegem assim tanto e estão esgotadas). O link (ou a ligação, se preferirem) aí vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-fev-2020/mascarada-11833563.html


 


Já sobre o vírus maligno e a sua etimologia, junto um outro link para se entreterem os que gostam de aprender sobre os idiomas e as raízes de certas palavras. Frederico Lourenço, professor de Clássicas, tradutor de clássicos, dá-nos uma lição bem boa, e sem termos de ir à faculdade, sobre o Coronavírus. Aqui vai:


https://www.facebook.com/frederico.maria.lourenco/posts/2951449168241381?__tn__=K-R


 


 

O vírus e a leitura

O Covid-19 está a tomar conta das nossas vidas: eu, por exemplo, já cancelei duas viagens. Uma delas dizia respeito ao Dia da Poesia e acontecia em Roma. Logo a seguir a ter anulado a minha participação, a organização do evento decidiu adiá-lo para o Outono (se no Outono já se tiverem livrado da pequena besta). A outra seria em final de Abril, mas não me apetece neste momento meter-me em aviões e correr o risco, não só de apanhar a doença com alguém, mas de, não a apanhando, ter de ficar de quarentena longe de casa. Como eu, há muitos, e isso chama-se bom senso. Mas também já existe muita gente que não vai a centros comerciais, ginásios, clínicas onde haja salas de espera com muitos pacientes (conheço uma pessoa que anulou a fisioterapia e outra, o dentista). O isolamento social está indicado por precaução, claro (embora tenha aqui um artigo na gaveta que diz que, em ratinhos, está provado que o isolamento social os torna muito mais agressivos); porém, se não for longo demais, além de evitar que o víus se espalhe, é uma boa oportunidade para ler. Será que é desta que vai recuperar o mercado editorial e livreiro com tanta gente fechada em casa? Haverá mesmo males que vêm por bem....?

Uma coisa e outra coisa

Hão-de lembrar-se ou ter ouvido contar que, no dia em foram entregues os prémios César do cinema, quando foi anunciado o prémio de melhor realizador para Roman Polanski, houve um sururu na sala, que muitas mulheres abandonaram a vocieferar (especialmente uma que foi presumivelmente vítima dos seus abusos), e um sururu ainda maior cá fora, uma manifestação contra o cineasta com cartazes em que estava escrita a palavra «violador». Bem, costuma dizer-se que, até se ser sentenciado, se é inocente, mas, além disso, não se pode confundir o homem com o artista, embora haja muita gente que não perceba isto, não queira perceber, ou simplesmente não consiga separar as águas. Uma coisa do mesmo tipo está agora a suceder a Woody Allen, cuja autobiografia, depois de ter sido comprada por uma editora francesa, foi afinal abandonada sob pena de o pessoal feminino da editora se demitir em massa. Oh, céus! Não só o senhor Allen foi ilibado das acusações, como o pessoal dessa editora não deve ser assim tão imprescindível, se não consegue perceber a diferença entre autor e pessoa. Estamos, infelizmente, no mundo que censura a obra por não gostar do homem e isso é que é um escândalo.

Raridade

Hoje passo a correr, apenas para dar uma notícia, pois tenho o trabalho demasiado atrasado e não posso mesmo perder tempo. Em todo o caso, a novidade é boa, é mesmo uma raridade: abriu uma livraria! A BL Livreiros by BooksLive, uma livraria independente e de origem nacional abriu as suas portas há pouco mais de uma semana nas Galerias Alto da Barra, em Oeiras, perto da Estrada Marginal. Tem, ao que se diz no seu press-release, um conceito de loja inovador «que privilegia a exposição dos livros de uma forma mais moderna e original, mas sem nunca esquecer o trabalho livreiro de atendimento personalizado e a organização de eventos culturais». É uma livraria generalista, venderá também livros estrangeiros (aceita encomendas) e promete dar atenção aos livros dos pequenos editores. Entrega gratuitamente em casa nos concelhos de Cascais e Oeiras e propõe-se encontrar livros antigos ou raros que procure.Aceita livros usados com o objectivo de os revender e no final de cada ano doar uma percentagem a uma instituição de solidariedade social. Até amanhã.

30 anos

Ignorando as provocações anónimas (já que nem quando ponho a palavra «risos» entre parênteses são capazes de perceber quando estou a brincar), queria dizer-vos que me senti muito orgulhosa de o meu mais jovem autor, Afonso Reis Cabral, ter sido convidado para dirigir um Especial do jornal Público, no dia em que este diário completou 30 anos e foi oferecido aos leitores. E chamo a atenção de todos os Extraordinários para este caderno, pois nele têm voz os de 30 anos, claro, mas também muitos que hoje têm mais do dobro. É muito importante este «Veja as diferenças» e, no caso da literatura, que é o que aqui nos reúne, louvo os magníficos textos de Mário Cláudio e Ana Bárbara Pedrosa. Posto isto, queria também partilhar convosco os livros escolhidos anualmente pelo jornal Público nos últimos 30 anos, outra ideia de Afonso Reis Cabral para o aniversário, que a jornalista Isabel Coutinho suou para encontrar nos suplementos «Leituras», «Milfolhas» e «Ípsilon». Tem graça olhar para trás. Até amanhã e divirtam-se com o seguinte link:


https://www.publico.pt/culturaipsilon/interactivo/cronologia-livros-30-anos-escolhas?fbclid=IwAR2Jb7p4MNJxhObESPC6mCF9XvvwMhTDx6mU0fdqxmCXYV7XB83xe74a4iM#14

Crónica e agradecimento

Hoje é dia de crónica. Aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-fev-2020/maes-e-filhas-11819210.html


Aproveito para agradecer aos Extraordinários a falta de histerismo e a calma desejável em situações como a actual. Na verdade, estava à espera de que, mal se soube da notícia de que Luís Sepúlveda estava infectado depois de ter estado nas Correntes com o vírus que anda a fazer das suas no mundo inteiro, aqui no blogue me viessem falar do assunto, perguntar se tinha estado com ele e dar conselhos. Mantiveram a discrição, e ainda bem. Eu estou ainda de quarentena (o período de 14 dias acabará amanhã à noite), mas bem, a trabalhar a partir daqui, e vigilante. Todos os dias nos liga alguém do SNS a saber como estamos, medimos a febre, lavamos as mãos, estamos atentos. Queremos que Luís Sepúlveda recupere depressa, isso, sim. E que desse lado, nenhum Extraodinário se veja na iminência de apanhar o vírus ou conhecer alguém que o tenha, pois é bem chato o isolamento. Boa sorte a todos.

Livro do ano Bertrand

Vale o que vale, mas não vem mal ao mundo divulgar este prémio (mesmo que quem vote não tenha necessariamente know-how literário). Decorre neste momento a votação da 4.ª edição do primeiro prémio literário português atribuído por livreiros e leitores, o Prémio Livro do Ano Bertrand, ao qual se apresentaram mais vinte e duas obras do que na edição anterior. Os 171 títulos estão distribuídos por quatro categorias – Ficção lusófona, Ficção estrangeira, Poesia e Reedição de obras essenciais em prosa –, e a pré-seleção contou com o contributo dos jornalistas Inês Fonseca Santos e Sérgio Almeida. Este ano, as votações dos Livreiros serão distintas das dos Leitores, pelo que haverá mais premiados (a menos que os gostos de uns e outros coincidam). Esta primeira fase decorre até 16 de março, data em que se encontrarão 40 finalistas, cinco de cada categoria. Destes, serão escolhidos os vencedores, que serão anunciados no Dia do Livro, 23 de Abril. Se tem cartão Bertrand, vote. Se quiser ser mesmo Extraordinário, vote em Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, e Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio, que fui eu que publiquei (risos). Aqui vai o link:


 


https://www.bertrand.pt/destaques/2-ficcao-lusofona-premio-livro-do-ano-bertrand-2019/00/00/9784

Um bebé que não chegou a Auschwitz

Imagem

Era uma vez um casal de lenhadores muito pobres que vivia numa floresta, por onde passava um comboio de mercadorias. Como estavam em guerra e era inverno, não tinham quase nada para comer. Por isso, a lenhadora sonhava que um dia alguém lhe atiraria uma coisa deliciosa do comboio. Os lenhadores não tinham filhos, o que para ele era um alívio mas, para ela, um desgosto. Era uma vez um casal de judeus que viajava num comboio com dois bebés praticamente recém-nascidos. O pai sabia que não iam para um lugar bonito e, ao atravessar a floresta, teve uma ideia insensata… Este é, enfim, o argumento de A Mais Preciosa Mercadoria, de Jean-Claude Grumberg, um francês cujo pai e avô foram levados para Auschwitz. Trata-se de uma fábula sobre o Holocausto que, só em França, já vai em mais de 90 000 exemplares impressos e que pode ser lida por pessoas de praticamente todas as idades. Uma beleza de livrinho cheio de ternura que me aconselhou o escritor Itamar Vieira Junior, a quem agradeço a boa sugestão, e que agora vos aconselho eu.


 


9789722069465_a_mais_preciosa_mercadoria.jpg

Book nook

Uma das coisas mais interessantes quando se tem um blogue é a possibilidade de os seus leitores darem ideias para posts... Isso aconteceu-me recentemente com um Extraordinário (Luís Vieira) que, embora não esteja entre os comentadores assíduos, achou que o assunto merecia divulgação. E merece, até porque presumo que, como aconteceu comigo, a maioria dos leitores do Horas Extraordinárias não sabe o que é um book nook... E o que é? Bem, algo que pode tornar bem mais viva e bonita uma estante de livros. Imagine, por exemplo, que entre os seus livros de espeleologia põe um book nook com uma gruta ou que, ao lado de O Livro da Selva, põe um book nook com animais selvagens? A descrição fica aquém, bem sei, e nada como ver com os seus próprios olhos para perceber a coisa em toda a sua extensão. Então, aqui vai o link que Luís Vieira me enviou, para que vejam também um série de book nooks e possam escolher ou fabricar os vossos próprios:


 


https://www.buzzfeed.com/christopherhudspeth/book-nooks-bookcases-shelves-creative-art-diy


 

O que ando a ler

Embora o tempo tenha andado soalheiro, leio Chuva Miúda, de Luis Landero, um romance de um autor já veterano, mas de quem ainda nunca tinha «experimentado» um livro. Disseram-me que este que leio foi eleito o melhor de 2019 em toda a Espanha, mas nem foi por isso que fui lê-lo a correr: a verdade é que o argumento me interessava. Gosto de romances em que se conta a mesma história de uma série de perspectivas, e este é exactamente assim. Aurora (a pobre Aurora) é a ouvinte dos desabafos, memórias e vivências de Sonia e Andrea, suas cunhadas, e de vez em quando, embora menos, também da sogra e até do marido. E, quando o assunto muda de boca, a verdade é que a culpa, o ressentimento, a mentira, recaem num membro da família que não era o acusado quando esse mesmo episódio fora contado por outra personagem. E isso leva Aurora a tentar perceber quem diz a verdade e quem exagera ou inventa e, por outro lado, a compreender como é realmente o homem com quem está casada e que, afinal, talvez nem conheça. Há decerto que chegar ao fim para descobrir o fundamental, mas ainda me faltam umas cinquenta páginas... A ler, a ler.