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A mostrar mensagens de setembro, 2014

Por mãos alheias

Agatha Christie é, provavelmente, uma das autoras que mais exemplares venderam das suas obras (milhões e milhões em todo o mundo). Com a sua morte, em 1976, desapareceram para sempre heróis como Miss Marple ou Hercule Poirot, igualmente celebrizados em filmes, alguns dos quais com grande sucesso de bilheteira. Os herdeiros não pareciam, de resto, interessados em ressuscitá-los, mas eis que uma romancista e poetisa de 43 anos, Sophie Hannah, admiradora da obra da grande senhora do crime, enviou para uma grande editora cem páginas de um original que tinha Poirot como protagonista… Mathew Pritchard, neto de Agatha, conta como a família se sentiu imediatamente arrebatada por esse início de romance e logo se apaixonou pela possibilidade de continuar a obra da sua avó. O livro, intitulado Os Crimes do Monograma, cuja acção decorre em 1929 e abarca três mortes num hotel de Londres, surgiu nas livrarias este mês, trinta e oito anos depois de ter sido escrito o último Poirot pela sua inventora (Crime Adormecido). A obra de Sophie Hannah já foi comprada para 50 países e será traduzida em 30 línguas, oportunidade para os amantes do detective matarem saudades… e os herdeiros de Agatha Christie somarem fortuna, claro.

Ler Saramago

Vem aí o romance inacabado de José Saramago, a obra que tinha em mãos quando a morte o apanhou e já não o deixou ficar connosco. Chama-se Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (d’après Gil Vicente) e contém, além dos três capítulos concluídos pelo nosso Prémio Nobel da Literatura e de alguns apontamentos da sua autoria sobre o romance, ilustrações de Günther Grass e dois textos inéditos de homenagem: um de Roberto Saviano (jornalista italiano que é perseguido pela máfia) e o outro do poeta e ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera. A obra é lançada publicamente no dia 2 de Outubro, no Teatro D. Maria II, ao Rossio, e nesse mesmo dia iniciar-se-á a Comunidade de Leitores «Ler Saramago», que terá uma segunda sessão no final do mesmo mês. Orientada por Maria Leiria, professora de Literatura, e a decorrer na Fundação José Saramago, sita na Casa dos Bicos, em Lisboa, desta feita a comunidade dedicar-se-á àquele que é tido muitas vezes como o melhor romance de Saramago (mesmo que o mais popular seja O Memorial do Convento): O Ano da Morte de Ricardo Reis. As inscrições estão abertas e o valor é de 15 Euros mensais. Para mais informações, contactem a responsável por e-mail ou telefone:


marialeiria@gmail.com


917 462 561


Boas leituras, com o novo romance ou com o velho.

Vegetarianismo linguístico

Cada vez conheço mais gente que deixou de comer carne. Reconheço que a carne, sobretudo a vermelha, não faz muito bem à saúde – e até como bastante peixe quando estou na Ericeira, porque lá é bom e fresco – mas não sei se estaria pronta para me alimentar apenas de vegetais, como algumas pessoas que conheço. Em todo o caso, a nossa língua também pode ser vegetariana e, mesmo assim, rica. Quanto a fruta, temos desde logo um homem bonito a quem se pode chamar um figo e que, para algumas mulheres, é um pêssego. Se esse homem usa uma barba reduzida, usa pêra, embora também possa levar um pêro se houver briga e a coisa azedar (o que não é pêra doce). Se nos deixa na mão, ficamos, pois claro, com um melão. Conhecemos pessoas de ginjeira, se as conhecemos bem. Um banana é um parvo, enquanto uma coisa aborrecida é uma pessegada. Todos temos maçãs no rosto e os homens ainda têm maçã-de-adão. Uma coisa de assombro é de escacha-pessegueiro (já tinham ouvido esta?) e, quando é simplesmente areia demais para a nossa camioneta, dizemos vulgarmente que é muita fruta. Com os legumes, o português é igualmente criativo. Uma pepineira é uma pechincha e o que é seguro são favas contadas. Anda-se à batatada quando há tareia. Pode ter-se cabeça de abóbora e de alho chocho. Os lisboetas são alfacinhas, os desajeitados são nabos, os ruivos são cenouras, os narizes grandes são pencas. Ficamos num molho de brócolos quando estamos de rastos (se calhar em virtude de nos termos metido numa alhada). Os tomates são o nome mais comum dos testículos. Ficar com os louros também é comum a quem rouba vitórias alheias. Se o nosso interlocutor não quer perceber o que lhe dizemos, podemos comentar: Olha, batatinhas… Um relógio grande é uma cebola e uma confusão é uma salada. Viram como podemos ser vegetarianos de vez em quando?

Ler na retrete

Em tempos que já lá vão, trabalhei numa editora que publicava em Portugal, por acordo com uma congénere brasileira, algumas obras cujos direitos mundiais para a língua portuguesa tinham sido adquiridos por esta última, inibindo uma edição em Portugal. Os mercados eram diferentes, bem sei, mas mesmo assim havia uma série de livros de auto-ajuda que vendiam muito dos dois lados do Atlântico (a série Marte & Vénus, de John Gray, cujo primeiro título tinha estado mais de 250 semanas seguidas na listas dos livros mais vendidos nos EUA). Foi num título desta colecção que li (como se ninguém o soubesse) que os homens e as mulheres eram diferentes e que havia coisas tipicamente femininas e tipicamente masculinas. Não se ofendam os leitores machos deste blogue, mas entre as últimas constava o hábito de levar revistas ou livros para a retrete... E, se falo disto, não é para insinuar que, ao contrário das mulheres, os homens confundem literatura com m..., mas apenas para abordar uma notícia que a Kobo, fabricante de dispositivos de leitura digital (os e-readers que a FNAC vende), recentemente divulgou: O novo Kobo Aura H2O é à prova de água! Ora, como não nos estou a ver a ler na praia enquanto nadamos, nem de garrafa de oxigénio às costas a consultar guias de peixes enquanto realizamos pesca submarina, pergunto-me para que serve realmente um e-reader à prova de água senão para esses acidentes que têm acontecido a alguns com os telemóveis – deixá-los cair sem querer na retrete em certas alturas menos próprias... Pois bem, os homens modernos e amantes da tecnologia já podem ler e-books à vontade na casa de banho sem medo de perder o resto do livro num momento de distracção.

A fúria do mar

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No ano passado, entre outras novidades, tive o prazer que publicar o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão que se atreveu à ficção e logo se viu que a devia ter escrito toda a vida, nem que fosse apenas dentro de si. Essa obra de estreia tinha como título um verso de uma canção de Zeca Afonso – Que Importa a Fúria do Mar – e recebeu, como merecia, encómios da crítica e dos leitores, sendo reeditada pouco depois, o que é um feito raro tratando-se do livro de uma autora até então desconhecida. O enredo dividia-se por dois tempos distintos – o da ditadura, com um protagonista enviado para o Tarrafal, e o presente, com uma jornalista que entrevista esse homem, agora velho, para um programa de televisão; e muito se poderia dizer desse encontro, mas nada substitui a leitura do romance. Em todo o caso, vai ser muito bom ouvir falar dele logo à noite, na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, numa sessão organizada por António Redol, filho do escritor Alves Redol, e apadrinhada pelo Museu do Neo-Realismo, na qual contaremos com a presença de Domingos Lobo a apresentar o livro. Se estiver por perto, não deixe de aparecer. Senão, leia o livro.


 


Brincar com o sério

Ter-me-ão explicado em tempos – possivelmente na Faculdade, já não sou capaz de me lembrar – que se era irónico quando se falava demasiado a sério de uma coisa irrisória, insignificante, ou quando se brincava com o que era realmente grave. Ironias à parte, há coisas com as quais, pelos vistos, ninguém deve brincar – e que o diga o escritor Martin Amis, cujo último romance, The Zone of Interest, é nada mais nada menos do que uma «comédia» sobre o Holocausto passada em Auschwitz. Pois bem: os seus habituais editores alemão e francês (a Hanser e a Gallimard) não gostaram, por certo, das «piadas» e recusaram-se a publicar a tradução do livro. E, embora tenha aparecido logo um outro editor francês disponível para o fazer (uma oportunidade de negócio, diria eu, com a polémica entretanto instalada), na Alemanha ainda ninguém fez o mesmo, quiçá deixando o britânico com um livro por traduzir num país onde a sua obra tem estado sempre representada. Alguns críticos ingleses pensam que The Zone of Interest é o melhor livro publicado no Reino Unido nos últimos vinte e cinco anos (mas os ingleses devem ser muito mais receptivos a um certo tipo de humor do que outros povos, digo eu), mas o editor alemão achou-o simplesmente «demasiado frívolo». Martin Amis crê que não perceberam a obra, mas está visto que o assunto nela tratado e as suas personagens (os comandantes de três campos de concentração, um dos quais quer que a Alemanha perca a guerra) gerou mal-estar... Resta ver se em Portugal o editor de Martin Amis se pronuncia contra ou a favor.

Primeira e última

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Há mais de dez anos, publiquei um livro de um então jornalista do Expresso, Orlando Raimundo, baseado num grupo de reportagens que ele escrevera para o jornal e cujo denominador comum era Marcello Caetano. O ensaio central dessa obra contava uma história pouco conhecida: a da sua filha Ana Maria que, por causa da doença nunca publicitada da mãe, teve de fazer as vezes de Primeira-Dama ao lado do pai, renunciando a uma vida própria e até a um casamento que já estava agendado. Mas nessa altura Orlando Raimundo não disse tudo o que sabia e, com o tempo, investigou também sobre outros assuntos directamente relacionados com o último Presidente do Conselho do Estado Novo, refazendo a obra e acrescentando-a de forma significativa, de modo a torná-la um ensaio biográfico de Marcello Caetano muito vivo; nele aprenderemos tudo sobre as suas origens, as ajudas que recebeu no período de formação (de um homem de esquerda, o que é muito curioso), a história de amor com Teresa Barros – a mulher que sofria de um distúrbio grave –, o grupo de pressão que o ajudou a chegar ao poder e também o seu posicionamento em relação a África e à manutenção das Colónias. Com uma linguagem simples e factos pouco conhecidos da maioria do público – como a identidade do noivo de que Ana Maria Caetano teve de desistir –, A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo é uma obra fundamental sobre a nossa história recente.


 


Centenário

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de um dos maiores escritores argentinos do século XX, Julio Cortázar, conhecido sobretudo pelo original Rayuela (romance experimental de 1963, traduzido e publicado em Portugal com a chancela da Cavalo de Ferro) e pelos seus contos especiais e marcantes. Descrito por Carlos Fuentes como o «Simon Bolívar do romance», Cortázar – apoiante da revolução sandinista, de Fidel Castro e de Salvador Allende – foi perseguido nos anos 1940 na Argentina pelos peronistas e exilou-se na Europa, tendo vivido em Paris e trabalhado para a UNESCO como tradutor. De tal modo a sua prosa era requintada e original que, já em criança, a própria mãe desconfiou de que o rapazinho copiava o que escrevia... Mas não, o filho era mesmo um génio e os tempos acabaram por trazer-lhe o reconhecimento que merecia. Este ano haverá, pois, em várias partes do mundo um sem-número de celebrações dos cem anos do seu nascimento, entre as quais se destaca uma grande exposição, Los Otros Cielos (o título é roubado a um dos seus contos), no Museu Nacional de Belas-Artes de Buenos Aires, que constituirá uma retrospectiva da vida do escritor com base nos arquivos que deixou – correspondência, fotografias, filmes e até móveis – e espera milhares de visitantes. Paralelamente, estarão igualmente expostos retratos do escritor realizados por vários fotógrafos profissionais e haverá debates e conversas à volta da sua obra um pouco por todo lado. Em Portugal, a revista Blimunda da Fundação José Saramago dedicou o seu número de Agosto ao autor argentino. Se não o conhece, esta é uma boa altura para começar a lê-lo.

O vão regresso

Não se ganha o Nobel da Literatura só porque sim – tem de haver nas obras do vencedor algo de francamente original e inovador (como agora se diz a torto e a direito, «fracturante»). Foi o que senti ao pôr os olhos no romance de estreia de Faulkner, A Recompensa do Soldado, um livro de 1926 que ainda hoje, apesar de algumas fragilidades, permanece moderno e deixa adivinhar a tal fractura que deve ter representado na época, com os seus jorros enérgicos de frases estranhas e inesperadas. O assunto é, grosso modo, o regresso de um soldado americano (o tenente Mahon) da Primeira Guerra Mundial – diminuído, cego, com uma terrível cicatriz na testa que o desfigura e mentalmente perturbado (e, curiosamente, ainda há quem tenha inveja do senhor por, ao contrário dele, ter voltado incólume, sem qualquer marca de heroísmo). Acompanham-no a casa dois «pajens» – a viúva de um outro soldado (mas só foi casada três dias, pelo que o desgosto não é significativo) e Gilligan, o cabo que se encarrega de trazer Mahon ao lar paterno (até porque é o único que parece não ter aonde regressar). Em casa, o pastor que é progenitor do soldado ferido – e que o julgava morto – não acredita que ele não possa recuperar e aposta tudo no casamento de Mahon com a noiva que tinha antes da guerra (que, além de estar já apaixonada por outro, não consegue enfrentar a ferida horrível do ex-namorado e anda literalmente maluca, sem saber o que fazer). Mas muita água correrá ao longo do romance – e vários são os intervenientes que se darão a conhecer na sua relação com o morto-vivo, o passado e até o futuro, numa narrativa que é sempre pujante e surpreendente. Em tempo de centenário da chamada Grande Guerra, não há como fugir à recompensa desta leitura.

Os sapatos de Agustina

Todos temos certamente saudades de ouvir falar de Agustina e de a ouvir a ela. Mas, enquanto não podemos fazê-lo, resta-nos prestar-lhe homenagem lendo o que escreveu. A Fundação Calouste Gulbenkian prepara-se para publicar, numa edição única com o título O Elogio do Inacabado, cinco manuscritos inéditos da senhora do Norte – que nos presenteou, entre outras obras-primas, com A Sibila –, precedidos por um prefácio da académica Silvina Rodrigues Lopes. A propósito desta notícia, não resisto a uma pequena história fútil. Não sou consumidora de alta-costura: primeiro, porque não tenho dinheiro; segundo, porque não tenho medidas (sou baixa e calço 35); terceiro, porque muitas das farpelas que por aí desfilam simplesmente não são vestíveis por ninguém com uma vida normal. Mas, curiosamente, houve uma coisa interessante sobre moda que aprendi com Agustina Bessa-Luís uma vez em que partilhei a sua companhia na Suíça. Estávamos num festival literário em Genebra e ela convidou-me para me juntar a ela e a Lídia Jorge numa visita ao centro da cidade. Eu desconhecia que íamos às compras e só o percebi quando ela repudiou a companhia de um macho-escritor que se preparava para ir connosco. A verdade é que Agustina trazia os catálogos dos grandes costureiros todos assinalados com o que queria ver e experimentar e, entre esses itens, estavam uns sapatos muito bonitos, uma criação Ferragamo. Entrámos na loja da marca e a escritora mostrou o que queria e disse que número calçava (se a memória não me falha, o 37). Quando a funcionária trouxe os sapatos, Agustina descobriu, porém, que lhe estavam um pouco apertados (o seu pezinho é gorducho) e calculei que a empregada se propusesse simplesmente trazer-lhe o número acima. Mas eis que, na alta-costura, para o mesmo comprimento de pé existem sapatos com a base estreita (para pés delgados) e com a base mais larga (ideais para os pés da nossa escritora). Uma grande ideia, claro, mas reservada apenas às lojas boas e caras. Com Agustina, enfim, aprende-se sempre qualquer coisa.

Caderno de memórias

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Ainda ontem falava aqui de palavras e é curiosamente também disso que trata um romance que saiu recentemente, da autoria de António Tavares, vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz que tem o pelouro da Cultura. O livro, que se intitula As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, é como a reprodução de um caderninho comprado na infância, em Moçâmedes, que vai sendo alimentado ao longo do tempo – com palavras, claro, mas também cabelos, fios, nódoas e outras recordações marcantes. Está é, em suma, uma história de crescimento em Angola, onde o autor nasceu, muito ao género de Cinema Paraíso – esse filme sublime – mas com livros; livros que vão parar à mão do protagonista e da sua pseudonamorada (uma rapariga que parece indiferente a tudo, menos aos limões, até descobrir a leitura) por causa de uma carrinha-biblioteca vendida à sucata onde ambos passam a maior parte do dia, lidando também com os despojos das memórias alheias. A aprendizagem dos números com uma fita métrica, o primeiro sexo, a descoberta do corpo, a paixão adolescente por uma actriz de cinema, bem como temas mais latos como a vida num bairro fechado, as perseguições da PIDE, a Guerra Colonial ou a influência da igreja católica no período anterior ao 25 de Abril, compõem um texto belíssimo e inspirador, que não por acaso foi finalista do Prémio LeYa no ano passado. Um caderno para abrir e ler de uma assentada.


 


P.S. Depois de amanhã, se estiver perto, assista à primeira apresentação do romance, às 18h30, na Assembleia Figueirense, a cargo do professor José Augusto Bernardes.


 


Palavrinhas

Certamente se lembram de que, antes das férias, prometi trazer uma vez por mês para este blogue palavras que estão tristemente a cair em desuso – na escrita, claro, mas sobretudo na oralidade, principalmente por desconhecimento dos mais novos. Decidi, assim, que o meio do mês é uma data boa para o fazer e, portanto, as palavrinhas giras de Setembro – quase todas com carga negativa – aqui vão: a primeira é «badameco» (eu uso e abuso porque a encontro mesmo expressiva), que se aplica a fedelhos malcriados, gente pretensiosa e também zés-ninguéns, e deriva da expressão latina «vade mecum», que significa «vem comigo» (gostamos, pelos vistos, de andar mal-acompanhados).


A segunda é «matarruano», o mesmo que labrego, mas com um toque mais ofensivo e cuja origem é desconhecida, mas pode vir de «mato», onde viveriam os não civilizados, os simplórios. A terceira é «moscambilha» (parece que é até mais correcto dizer «mescambilha»), que bem pode ser usada nos tempos que correm a respeito de certos políticos e banqueiros, pois quer dizer «trapaça» ou «tramóia». Segue-se-lhe «valdevinos» (a minha avó usava o termo a respeito do meu irmão mais velho, que era um pouco estroina) e que descobri vir de «Balduíno», nome comum de personagem de novelas de cavalaria, alguém certamente «saído da casca» (eis outra expressão que também já quase ninguém usa e as minhas professoras adoravam). Por fim, a única que ainda creio ser dita por alguns dos jovens – «ribaldaria» (estava convencida de que o primeiro I era um E, devo dizer), que todos aqui certamente sabem o que quer dizer e que vem do francês ribalt, malandro (mas uma malandrice não é nada ao pé desta ribaldaria). E pronto, por hoje chega. Usem, por favor, estas palavras para que não morram. Para o mês que vem há mais.

Para que serve um blogue

Ao longo de mais ou menos três anos, este blogue recebeu milhares de visitas. Algumas passaram por cá e logo foram à sua vida, outras demoraram-se na casa mais de um ano, mas acabaram por partir, outras ainda gostaram da mobília e fizeram das Horas Extraordinárias uma sala de estar onde se encontram diariamente para conversar. Nestes três anos, a anfitriã – ou seja, eu – foi podendo conhecer melhor uma série de pessoas sobretudo pelo que vão deixando escrito nos comentários. Mesmo assim, foi bastante bom poder pôr rostos nos nomes de alguns dos «passageiros frequentes» e, por isso, agradeço aos que têm aparecido em lançamentos de livros que publico ou passado pela Feira do Livro de Lisboa a cumprimentar e a apresentar-se. Recentemente, aconteceu até uma coisa muito bonita: uma leitora assídua deste blogue, que vive em França, veio de férias a Portugal e mostrou vontade de se encontrar com o Manel e comigo. Nunca nos tínhamos visto, mas, num jantar na «cantina» do nosso bairro com a sua fantástica família (marido e dois filhos ultra-afectuosos), de repente era como se nos conhecêssemos de toda a vida e só estivéssemos, afinal, a pôr a conversa em dia. A Extraordinária Carla Pais (que todos conhecem certamente daqui) adora ler e escrever e, antes de nós, já tinha estado com escritores que admira, aproveitando as férias para travar conhecimento com alguns deles. Não me passaria pela cabeça falar deste caso em particular (a minha gratidão, notem bem, é para com todos os leitores deste blogue) se não houvesse uma razão muito forte para o fazer, uma notícia que – estou certa – deixará contentes todos os Extraordinários: a Carla concorreu com um conto a um Concurso Literário na ilha da Madeira (Prémio Horácio Bento Gouveia) e foi a vencedora! Além disso, decidiu doar parte do valor ao Centro de Apoio Psicopedagógico de São Vicente (na mesma freguesia que atribui o galardão). Eu fiquei muito feliz por ela e partilho a boa-nova para que todos os que se sentam na sala-de-estar ao seu lado todos os dias lhe possam também dar os parabéns. Muito bem, Carla!

Original

Existem vários manuscritos de grandes obras guardados nas bibliotecas de todo o mundo (hoje, como quase toda a gente escreve directamente no computador, os manuscritos deixarão de existir e de ser mostrados em exposições); conta-se, porém, que o manuscrito de Viagem ao Fim da Noite, de L. F. Céline, publicado em 1932, foi vendido pelo próprio uma dezena de anos mais tarde (já depois do seu sucesso, evidentemente) a um marchand que terá dado por ele dez mil francos (na época, uma pequena fortuna) e ainda um pequeno quadro de Renoir. É provavelmente apenas mais uma história à volta de um dos escritores malditos do século XX (o que nada retira à obra notável atrás referida) sobre o qual se conta ainda ter levado as muitas páginas do original num carrinho de mão até ao local onde se terá encontrado com o comprador. A partir de 1943, ano da negociação, perdeu-se, de qualquer modo, o rasto ao manuscrito, até que em 2001 um alfarrabista terá sido contactado por um coleccionador inglês que estava na posse dessas mil e tal páginas, posteriormente adquiridas em leilão pela Biblioteca Nacional de França por uma quantia que ultrapassou o milhão e meio de euros (parece lenda, mas não é). O que é igualmente certo é que um fac-símile desse original vai ser agora levado à estampa por uma editora francesa, especializada em edições de manuscritos, que já publicou, entre outros, os de A Espuma dos Dias, de Boris Vian, ou La Belle et la Bête, de Cocteau. Vamos, enfim, poder ver a caligrafia de Céline – se quisemos ou pudermos pagar os cerca de 250 euros que nos pedem para isso…

Os Cinco somam e seguem

Quase todos os leitores da minha idade leram livros d’Os Cinco, de Enid Blyton, na juventude. Mas também os leram outros mais novos do que eu e outros mais novos do que esses. E ainda os lêem os miúdos de agora, porque, seja qual for o segredo do seu sucesso, a verdade é que Os Cinco parecem ter ingredientes que não passam de moda; não sei se são simplesmente as aventuras misteriosas, o suspense, os lautos pequenos-almoços, a maria-rapaz, os manos, os tios ou o cão, se calhar é tudo junto, mais o talento da autora para tornar o simples maravilhoso. A série teve adaptações televisivas ao longo dos tempos e um ou outro título deu origem a um filme (um dos quais alemão); mas agora houve uma produtora inglesa que se atirou aos famosos Cinco e se propõe fazer uma adaptação cinematográfica envolvendo os cerca de 20 títulos da colecção. Há quem receie que a passagem ao grande ecrã obrigue a uma modernização, com namoros mais carnais, mas, apesar das desconfianças, a notícia tem sido bem acolhida. Também uma grande produtora teatral, a Old Vic, está a trabalhar numa versão d’Os Cinco para palco – por isso, como é bom de ver, a série, que já vendeu mais de 100 milhões de exemplares, vai certamente continuar a ser lida por muita gente no futuro.

O doente opiómano

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Sigo, em regra, a obra de autores de que gosto – e Sándor Márai é um deles. Li, por isso, um dos seus últimos romances publicados em Portugal, mais concretamente A Irmã, que é também um dos mais estranhos dos que conheço do escritor. Assim que começa, percebemos que algo vai correr mal, com o tempo terrível que se instalou e o narrador apanhado pela tempestade numa albergaria de montanha, a poucos dias do Natal. Nesse mesmo local, encontra-se um músico outrora muito famoso, que desapareceu da ribalta ninguém sabe bem porquê e que partilha com o narrador a história da doença que o afectou, impedindo-o de voltar a tocar. Diz, aliás, que escreveu um texto sobre o período da doença e promete mostrá-lo ao seu interlocutor, mas desaparece da albergaria sem o chegar a fazer. Muitos anos mais tarde, depois da sua morte, o manuscrito vem, porém, parar às mãos do narrador, seguindo a vontade expressa pelo falecido. E é esse texto que constitui a segunda parte do romance, que é uma espécie de diário do doente num hospital em Itália, onde quatro irmãs cuidam dele à vez e lhe administram morfina para as terríveis dores que um estranho vírus lhe provoca. É bastante soturno, devo avisar, e algo misterioso também, pois a recuperação do músico depende do amor e há uma voz que lhe segreda uma noite que não o quer ver morrer, mas ele ignora a qual das irmãs pertence. Talvez àquela que lhe oferece uma dose que podia ser letal... A ler, embora não seja dos meus preferidos do escritor húngaro.


 


A realidade na ficção

Diz-se frequentemente que toda a literatura é autobiográfica, mas até onde podem ir os que se dedicam a ela quando inscrevem nos seus livros factos, personagens e circunstâncias reais, sobretudo contemplando aqueles que lhes são próximos? Bastará mudar os nomes das pessoas para que as personagens não possam ser identificadas com amigos, inimigos e parentes do escritor? Na Noruega, um ficcionista resolveu compor um romance épico de centenas de páginas sobre a sua vida e a da sua família que, como todas, possuía os seus podres, entre o pai sádico e a avó alcoólica ou a primeira mulher constantemente em depressão. Enquanto o escrevia, mostrou algumas partes à mãe, que o aconselhou a parar por ali ou, pelo menos, a esconder os nomes verdadeiros. Mas Karl Ove Knausgaard não aceitou a sugestão e, quando por fim foi dado à estampa Min Kamp (uma paródia ao título da obra de Hitler), o romance vendeu 450 000 exemplares por causa da polémica que o rodeou – mas, claro, a família nunca mais lhe dirigiu a palavra e até a segunda mulher declarou não poder continuar a viver com um homem capaz de contar todos aqueles horrores sobre os próprios parentes. O autor aceitou, dizendo que de facto ele fora recompensado, mas era sobre os outros que recaíra o achincalhamento. Também em França, a romancista Christine Angot, conhecida como a rainha da ficção-choque, usou uma ex-namorada do parceiro como personagem de um dos seus livros (Les petits) e, apesar de lhe ter dado outro nome, a visada sentiu-se de tal modo identificada e afectada que lhe pôs um processo em tribunal, alegando que o romance lhe estragou a vida e que tentou inclusivamente matar-se por causa dele. E o juiz acabou por lhe dar razão e obrigar a escritora a indemnizá-la. Poderá toda a escrita ser assim tão autobiográfica?

Viagem a Safara

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Quando lancei Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço, fizemos o lançamento na aldeia alentejana de Safara, o seu local de nascimento. No caminho para lá, desconhecia o que iria encontrar (aldeias alentejanas há muitas, sua palerma!) e fiquei francamente surpreendida à chegada e pela tarde fora com o que fui vendo. Safara tinha restaurantes e bares, prédios e ruas largas – enfim, não era muito parecida com o protótipo da aldeia de casas baixas e branquinhas do Alentejo. E tinha, sobretudo, muita gente boa e simpática que apareceu na hora da apresentação do livro e tornou a festa realmente fantástica. Pois bem, amanhã voltarei a Safara, desta feita para celebrar a saída de Mal Nascer, o novo romance de Carlos Campaniço que foi finalista do Prémio LeYa no ano passado. E, se da primeira vez tivemos a excelente companhia de Mário Zambujal, agora levaremos connosco de Lisboa a melhor gargalhada das nossas letras – ou não fosse Alice Vieira a mais optimista e positiva dos escritores portugueses. Se não conhece Safara e quer surpreender-se, venha também. Garante-se bom ambiente e muito divertimento!


 






Feios, porcos e maus

Tarantino e Comarc McCarthy têm afinidades óbvias e uma estética até semelhante. Digo isto a propósito da leitura de Filho de Deus, um pequeno romance do americano que a cada página desenha personagens para Tarantino recriar nos seus filmes: homens violentos, feios, insensíveis, brutos de uma forma gratuita. O protagonista, Lester Ballard, até podia ser um pobre diabo (igual a nós, diz o narrador), a quem tiraram a terra por «mau comportamento». Mas, embora o seja, é igualmente um tarado que dispara sobre os vivos (mormente raparigas) como quem aponta a arma a um passarinho só pelo gozo de lhe acertar. A pontaria é francamente boa – e daí resultam, claro, muitas mortes que fariam as delícias de Tarantino numa das suas fitas. Mas os assassínios não são o seu pior «pecado», porque Lester Ballard colecciona os cadáveres, a quem compra excitantes roupas novas e com quem pratica sexo. Um louco? Evidentemente, mas conseguimos, ainda assim, ter pena deste criminoso que não tem ninguém, que foi privado de bens e família, de amor, de lar, de tudo, até atingir uma degradação tão grande que o aproxima do homem das cavernas (cavernas onde, de resto, vive durante os últimos anos da sua vida, até ser finalmente preso e internado num hospital psiquiátrico – o único sítio onde terá um tratamento minimamente humano). McCarthy é um ás da escrita – podia ganhar o Nobel da Literatura em Outubro, que eu não me importava nada – mas este romance de 1973 incomoda, é para leitores que tenham um estômago de ferro.


 


P.S. Cortei a primeira frase deste post, que dizia que um filme dos irmãos Coen baseado numa obra de Cormac MacCarthy era de Tarantino (não sei como fui fazer tamanha confusão) e agradeço ao primeiro comentador a chamada de atenção. A quem ainda a leu, peço desculpa pela incorrecção.

Hora sem agá

Aqui há tempos chegou aos nossos jornais o anúncio de que o Brasil interrompera a aplicação do Novo Acordo Ortográfico por achar que muitas das alterações que continha não tinham sido bem pensadas e que sobre elas não tinham sido consultados os principais interessados – os professores de Língua Portuguesa, entre outros. Na altura, depois de a notícia ser francamente aplaudida pelos que aqui em Portugal se declaram contra o NAO, vim aqui prevenir, num post, que essa notícia não era necessariamente boa, uma vez que algumas pessoas mais informadas afirmavam que o Brasil não queria chumbar medidas, mas, afinal, acrescentar muitas outras ainda mais discutíveis e radicais. E tinha pelos vistos razão nesse aviso, pois parece que vai ser mesmo assim. Para começar, chega a proposta de suprimir de uma vez por todas o «h» inicial, tornando «hora» em «ora» e «homens» em «omens» pela simples razão de que, não tendo qualquer som, a letra não faz falta nenhuma e aparentemente só gera confusão (alegrem-se os que sempre confundiram «há» com «à», que são muitos). Mas não é tudo: o «ch» (como em «chumbar») também desapareceria para sempre, sendo substituído por um simples «x», explicando um dos responsáveis pela nova proposta que o objectivo é ter um sistema com um mínimo possível de regras e excepções (para não termos muito que pensar, enfim, pois pensar é cansativo e, segundo o senhor, quase ninguém no Brasil sabe escrever, pelo que o melhor é mesmo simplificar). E estas luminárias querem agora discutir a sua proposta por videoconferência com os outros países, como se a questão da língua fosse coisa de conversar por Skype… Está tudo dito. Que mais nos irá acontecer?

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Li há umas semanas um interessante artigo de Anabela Mota Ribeiro sobre Anne Frank a propósito de uma viagem da jornalista à casa desta, em Amesterdão, com uma sobrinha de dez anos. Para lá da bela prosa, tratava-se de um texto comovente e, ao mesmo tempo, muito lúcido sobre a forma de não deixar cair no esquecimento das gerações mais novas a barbárie que assolou o século XX, já os nossos pais eram vivos, mas de que os jovens estão cada vez mais distantes. Para a autora do artigo, a visita foi importante sobretudo por isso, por poder evocar as suas memórias da leitura do Diário à sobrinha, comparando-as ali ao vivo com o anexo onde Anne e mais sete pessoas viveram clandestinamente durante dois anos e donde saíram para campos de concentração depois de uma denúncia (nunca se soube quem a fez), sobrevivendo apenas o pai da rapariguinha judia que ficaria célebre postumamente pelo seu relato escrito do dia-a-dia vivido num anexo onde havia horas até para puxar o autoclismo. Embora o Diário de Anne Frank seja hoje uma espécie de lugar-comum literário, e se calhar os jovens de agora leiam mais depressa O Rapaz do Pijama às Riscas, obra mais recente sobre o mesmo tema e adaptada ao cinema, nada substitui o testemunho de alguém que viveu a tragédia em directo e sabe do que fala (além de saber também escrever com elegância e maturidade para os seus treze anos). Por isso, mesmo correndo o risco de parecer bota-de-elástico, aconselho vivamente a sua leitura aos adolescentes – e, indo a Amesterdão, a visita à casa da jovem escritora – para que não se possam esquecer nunca do que felizmente não tiveram de sofrer na carne. E, se puderem, leiam os Extraordinários o texto sensível da Anabela Mota Ribeiro (Público, suplemento «Fugas», 16 de Agosto) porque vale a pena.

O primeiro dia

Ui, que difícil é o primeiro dia depois das férias… E, como dia 1 calhou justamente a uma segunda, a semana vai parecer ainda mais comprida. Paciência. Temos de dar graças a Deus por termos um emprego a que regressar e podermos gozar umas boas férias (o tempo nem sempre ajudou, mas deu, pelo menos, para desligar). Agora é tempo de matar saudades dos Extraordinários e avisar que o blogue voltou ao activo. E, como hoje é dia de dizermos o que andamos a ler, falo, pois, de um livro – não do que está à minha espera em casa, mas do primeiro que li neste tempo de repouso: O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati. Era mais uma das minhas falhas e, como saiu agora com uma nova tradução de Nuno Camarneiro, não havia mesmo desculpas para não lhe lançar a mão. Trata-se de uma história de espera e desespero, sem amor nem mulheres (dizem-me que no filme de Zurlini com o mesmo título também só se vêem homens), pois o cenário é uma fortaleza e as personagens militares ansiando por um inimigo que justifique ali a sua permanência. Mas o inimigo parece não passar de uma miragem… E os dias tornam-se todos iguais para o tenente protagonista e todos os outros soldados, transformando-se a esperança em desespero e gastando-se a vida em coisa nenhuma – anos e anos em busca de um sinal, um indício, uma suspeita de ataque que, quando acontece, chega simplesmente demasiado tarde. Romance sobre uma juventude perdida, uma vida deitada às urtigas, sobre a frustração. Dito assim, parece desaconselhável. Mas não é. Bem-vindos mais uma vez às Horas Extraordinárias.