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A mostrar mensagens de fevereiro, 2012

As esperanças

Quando João Tordo venceu em 2009 o Prémio Literário José Saramago, era o terceiro autor que eu publicara a arrecadar o galardão. Generosamente, houve alguém que me chamou “preparadora física da selecção nacional” e, mais tarde, num programa de televisão emitido pelo Canal Q, o divertido Pedro Vieira chamou-me “Mourinho da literatura”. Nenhum editor treina escritores – estes já são escritores muito antes de terem editor – mas, mesmo assim, achei os epítetos bem aplicados porque acredito nas “esperanças” (roubo esta expressão ao futebol) e trabalho muito para as trazer ao conhecimento do público (é só esse, na verdade, o meu mérito, porque a paciência tem limites e muitos dos meus colegas já desistiram de o fazer). Um país sem jovens dotados não se renova e fiquei muito feliz recentemente ao saber da atribuição dos prémios no Festival de Cinema de Berlim a dois jovens cineastas portugueses (um dos quais já premiado em Cannes). Também na música e na pintura não faltam promessas. Conto, pois, com o talento desta geração para fazer a diferença neste Portugal tão cansado. Se, como dizia Agustina, esta é a era do homem comum, aplaudo obviamente todas as aberrações. Tenho, em suma, esperança nas esperanças.

Livros de cabeceira

A expressão «livros de cabeceira» é frequentemente incluída em entrevistas e inquéritos e diz normalmente respeito ao que se anda a ler (e, por isso, está ali bem a jeito quando nos deitamos – muita gente só tem mesmo tempo para ler na cama), mas também aos livros de que uma pessoa nunca se separa e que deixa à mão para reler e consultar sempre que lhe apetece. Pois bem: a revista Time Out inaugurou recentemente uma pequena secção intitulada “Mesa-de-Cabeceira” e o Manel foi escolhido para deixar fotografar a sua e comentar os livros que ali tem. Deu tudo certo, claro, e o montinho de exemplares foi fotografado com pó e tudo, para ser mais realista; mas a verdade é que, se tivesse sido eu a visada pela reportagem, teríamos tido de fazer batota: é que, por acaso, gosto muito mais de ler na sala do que no quarto e, normalmente, sobre a minha mesa-de-cabeceira jazem livros que iniciei com optimismo, mas quase sempre ficaram a meio por falta de entusiasmo, aguardando momentos de maior paciência ou fé raramente alcançados. As mais das vezes, quando me vou deitar é para dormir – e só nas férias, que não tenho despertador para me lembrar que é altura de sair da cama, fico a ler entre lençóis, desejosa de terminar mais um livro de outra editora enquanto não chega o regresso ao trabalho.

Parabéns a vocês

 


Em Maio de 2010 resolvi iniciar este blogue. Não tinha ideia de por quanto tempo o iria alimentar, nem de quantas pessoas o viriam ler todos os dias. Hoje, porém, sinto-o como uma espécie de sala de estar onde vários amigos se encontram e conversam (e ocasionalmente alguém manda calar). No último sábado, o Horas Extraordinárias foi distinguido com o Prémio Especial do Júri na categoria Blogosfera e Internet de Edição (Prémios Ler/Booktailors) numa sessão bem divertida entre as muitas que há nas Correntes d'Escritas. “Pelo olhar culto, assertivo e singular sobre o universo literário e editorial (...) passou a ser uma visita obrigatória na blogosfera” – palavras do júri. Sei que o devo aos meus leitores. Por isso, parabéns a vocês. E voltem sempre.

Novas sobre o mal

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Já trabalhei com muitos autores e tenho de confessar (perdoem-me os outros) que nenhum deles é tão encantador como Miguel Real, cujos e-mails e dedicatórias me fazem corar por excesso de gratidão quando eu é que tenho de lhe estar imensamente grata por todos estes anos de bons livros. Quando falo dele com outra pessoa que o conheça, a palavra “bom” aparece naturalmente no diálogo para o classificar e, por isso, não deixa de ser curiosa a sua faceta de homem crítico e implacável, como o demonstra a introdução a um pequeno ensaio sobre o mal, Nova Teoria do Mal, que acaba de ser dado à estampa. Trata-se de um livro de filosofia – e não esperem os leitores que seja de leitura fácil ou ligeira; mas aponta faces do mal bastante inesperadas, como a dos governantes que, por necessidade de contenção orçamental, decretam o fim dos transplantes, assim acabando com a vida de uns quantos e dormindo, de todo o modo, descansados. Fundamental para a compreensão de que o mal é a regra – e o bem procede de uma vontade de luta contra a regra, e não de uma qualidade inata ao ser humano –, este livro assombra-nos desde a primeira linha e sacode-nos intimamente do princípio ao fim.


 


Cenário de tragédia

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O primeiro romance que publiquei em 2010 na LeYa chamava-se A Vida Verdadeira e era da autoria de Vasco Luís Curado (a capa, de Maria João Lima, foi finalista dos Prémios Ler/Booktailors). Gare do Oriente, o livro que aqui me traz hoje, esteve na final do Prémio LeYa em 2009 e é do mesmo autor, mas só agora sai para os escaparates (havia que deixar respirar a obra anterior). Acompanhando as reflexões de cinco personagens ao longo de um dia – personagens que divergem em tudo mas convergem para a Gare do Oriente, onde apanharão o comboio suburbano que os levará a casa –, o romance passa-se numa data específica que, embora nunca seja dita, é a de um atentado terrorista de proporções inimagináveis ocorrido na estação ferroviária de um país estrangeiro – cujas imagens, replicadas nos écrans de todas as televisões da cidade, assombrarão as personagens, irmanando-as no medo, na tensão e nas interrogações sobre o valor efectivo das suas vidas pequenas e algo dramáticas. Pondo lado a lado o pequeno dilema pessoal e a tragédia de dimensões universais, este é um belo romance sobre as vidas verdadeiras de muitos nas sociedades contemporâneas da nossa Europa.


 


Correntes

Se houve coisa bonita de se inventar foi este encontro literário de línguas ibéricas na Póvoa de Varzim, onde ao longo de vários dias se juntam escritores portugueses, espanhóis, latino-americanos e africanos para falarem de coisas variadíssimas em mesas-redondas e, claro, para conviverem à noite, no bar do hotel. Este ano a coisa parecia tremida com a falta de orçamento da Câmara Municipal, mas lá se resolveu com uns cortes e hoje inauguram-se mais umas Correntes d’Escritas. A sessão de abertura terá como orador D. Manuel Clemente, e Rubem Fonseca será homenageado num dos dias (ele que não vai a lado nenhum, nem dá entrevistas, não resistiu certamente ao que se diz do excelente ambiente do encontro). Eu, que desde o início tenho lá estado desde o primeiro dia, este ano só posso ir na sexta, mas tenho a certeza de que ainda irei a tempo de ouvir alguém inesquecível e de trazer de lá o testemunho. Força, Correntes!

Nada é por acaso

O Manel e eu somos viciados em caderninhos e, embora tenhamos ainda muitos por estrear, não resistimos a reunir sempre mais um à colecção. Ora, por falar em caderninhos, conheço uma história bem divertida. Por ocasião da saída em Espanha do romance A Noite do Oráculo, de Paul Auster, o El País publicou um artigo em que dizia que o escritor norte-americano comprava uns caderninhos especialíssimos numa determinada papelaria de Lisboa (caderninhos, aliás, mencionados no romance). Um jovem casal espanhol que lera o dito artigo, estando de férias em Portugal, não regressou à pátria sem antes se dirigir à papelaria em causa (julgo que na parte antiga de Lisboa) para adquirir um desses cadernos austerianos. E – coincidência ou não, mas com Paul Auster nada é por acaso –, concluída a compra, saíram mulher e marido para a rua e não queriam acreditar no que os seus olhos viam: é que à sua frente, dirigindo-se a passos largos para a papelaria, vinha o próprio Paul Auster, presume-se que para comprar mais um dos seus cadernos... Coisa, por assim dizer, digna de um livro seu.

Literatura urbana

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Disse recentemente numa entrevista que as literaturas portuguesa e brasileira actuais têm muito pouco em comum – e que os escritores mais jovens do Brasil tendem a falar do quotidiano violento e da vida nas cidades, enquanto – abreviando, claro – os seus congéneres portugueses não raro recuam a outros tempos e centram a acção dos seus livros no meio rural. Acabo, porém, de lançar um romance, A Vida Passou por Aqui, que constitui uma boa excepção. Quem o assina é o jornalista do Público Luís Francisco, que constrói na cidade de Lisboa e arredores uma história que reúne muitas personagens maravilhosamente distinguíveis nas suas vozes e cujos laços mais ou menos apertados vamos compreendendo à medida que as páginas avançam e os nós afrouxam. Um motorista de táxi, uma empregada doméstica, um jovem arquitecto, a telefonista da Radiotáxis, um toxicodependente, uma falsa universitária e muitas outras figuras deambulam pelo romance aparentemente sós, mas estão irremediavelmente ligadas por um destino comum – e a atitude de cada uma influenciará decisivamente o futuro de todas. Com uma montagem irrepreensível, esta é uma boa estreia na ficção de alguém que se dedica a escrever diariamente sobre a realidade.


 


Cinema e leitura

Diz-se muitas vezes que os jovens lêem pouco porque têm hoje uma variedade de coisas à sua disposição que, no imediato, são menos exigentes e lhes oferecem entretenimento garantido: televisão, jogos de computador e consola, Internet, chats, filmes que, frequentemente, são pirateados e vistos no computador. Estes últimos, porém, podem fazer alguma coisa pela leitura. Parece que, desde que foram distribuídos os filmes da série Millenium (primeiro, os suecos e, agora, a versão norte-americana do volume inicial), a leitura de policiais e afins está a aumentar em todo o mundo, diminuindo na mesma proporção as vendas de livros xaroposos ou de testemunhos algo demagógicos de mulheres e crianças maltratadas, que os especialistas crêem estar a dar as últimas. Sendo a literatura policial de qualidade, entre outras coisas, um excelente espelho das sociedades e seus problemas, pode ser que isto também queira dizer que a indiferença vivida por uma certa juventude em tempos recentes se esteja a transformar, com os contratempos da crise mundial, num interesse genuíno pelo colectivo. Tomara.

Tome nota e arquive

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No ano passado, estava em Lisboa Mário Lúcio Sousa – actual ministro da Cultura de Cabo Verde e autor do livro O Novíssimo Testamento –, fizemos em Leiria, na Livraria Arquivo, uma bonita sessão sobre a nova literatura lusófona, também com a presença de João Tordo e Vasco Luís Curado. A Arquivo é uma livraria muito especial, de gente que gosta mesmo de livros, e estas conversas têm sempre público interessado e, graças a Deus, perguntador. Amanhã repetiremos a dose às 18h30, de novo com a ajuda de João Tordo – que falará de Anatomia dos Mártires – e com a preciosa colaboração de David Machado e Nuno Camarneiro, cujos romances Deixem Falar as Pedras e No Meu Peito não Cabem Pássaros saíram em 2011. Se estiverem por perto, não percam as vozes da nova geração. Caso contrário, leiam-nas e não se arrependerão.


 



Os modernos

Há livros que nunca passam de moda e autores que são modernos em todas as épocas. Este ano, James Joyce entra no domínio público – e isto quer dizer que os seus livros passam a ser património de todos (com direitos gratuitos para quem publica), mas também que o escritor irlandês já morreu há setenta anos. E parece incrível, pois nestes setenta anos que o separaram fisicamente de nós não terá havido muitos autores que o possam igualar em criatividade, ruptura, vanguardismo e modernidade. Se pensarmos que Joyce só tinha 40 anos quando escreveu Ulisses (curiosamente no mesmo ano em que Eliot publicou o belíssimo The Waste Land, ficando só por isso 1922 para a história da literatura), ficaremos ainda mais admirados com o seu génio. (E, ao escrever isto, reparo que Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, com o seu outro Bloom – ou o mesmo –, também saiu quando o autor tinha 40 anos). Sempre que a obra de um escritor entra no domínio público, multiplicam-se as edições de livros seus; e, se isso acontecer, são boas notícias, pois quem nunca tomou contacto com Joyce achá-lo-á, mesmo em 2012, muito mais moderno do que dezenas de outros autores, vivos e jovens.

Ler, escrever, ler e reescrever

Rui Zink é, além de escritor, professor universitário – e passam pelas suas mãos muitos estudantes que querem fazer carreira na edição (a Madalena, meu braço-direito cada vez mais indispensável, foi sua aluna de mestrado). E, apesar de ter uma imagem pública que se associa facilmente à paródia, à irreverência e à má-língua, diz coisas muito sérias que devem ser tomadas em conta sobretudo por quem escreve e deseja ver os seus textos publicados. Recentemente, deu uma entrevista muito interessante à revista Maxim (e eu que pensava, passe o preconceito, que estas revistas não tinham nada que ler) em que se colocava na tradição dos escritores portugueses que são simultaneamente criativos e críticos e que, portanto, fazem primeiro a parte criativa e a seguir são críticos de si mesmos, ou seja: escrevem, lêem e... reescrevem, pois claro! Provavelmente, para a maioria dos leitores, este percurso seria o normal, mas a verdade é que a ânsia de ver a obra nos escaparates e um certo amadorismo ou inexperiência impedem, frequentemente, o distanciamento necessário à autocrítica e à reescrita de textos que só lucrariam com esse segundo olhar atento e impiedoso e as consequentes tesouradas. Outra boa tirada de Zink: para escrever, é preciso ler muito primeiro. Totalmente de acordo.

Tudo sobre Assis Pacheco

Embora a capa da revista Ler mostre Abel Barros Baptista e Ricardo Araújo Pereira em pose digna de comédia (que é, de resto, o assunto da conversa entre ambos no interior) e isso dê logo vontade de a abrir, a coisa mais bonita deste número é a homenagem feita a Fernando Assis Pacheco, que teria hoje 75 anos (morreu em 1995, à porta da Livraria Buchholz). Aproveitando a saída de uma biografia intitulada Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, da autoria de Nuno Costa Santos (autor também de um documentário que passou no dia do lançamento), todos os cronistas dedicam, sem excepção, os seus textos ao grande poeta e prosador (na literatura e no jornalismo) que, embora ao de leve, tive a felicidade de conhecer em Campo de Ourique, quando trabalhava na Gradiva, e que não tinha televisão em casa, apesar de ter vários filhos então pequenos. Mas, além das memórias e testemunhos alheios, a revista brinda-nos com inéditos deste artista bem-disposto e versátil, que foi uma espécie de mestre para muitos jornalistas e escreveu um grande romance intitulado Trabalhos e Paixões de Benito Prada, que tem das melhores e mais surpreendentes aberturas da literatura portuguesa. Obrigada, pois, por no-lo trazerem de volta e lhe darem o destaque que merece.

Os bons e os maos

A minha irmã, que foi sempre a mais original no contexto familiar, conheceu de perto a mulher de Arnaldo de Matos na escola secundária e tornou-se simpatizante do MRPP, obrigando até a minha mãe a acompanhá-la em actividades da Associação de Amizade Portugal-China. Na altura, eu era demasiado miúda para perceber fosse o que fosse dessa espécie de militância, mas agora posso vingar-me da ignorância lendo uma obra de Miguel Cardina intitulada Margem de Certa Maneira – O Maoismo em Portugal de 1964-1974, dada recentemente à estampa pela Tinta-da-China. Trata-se de um estudo que ainda não tinha sido feito sobre os movimentos de extrema-esquerda de inspiração maoísta nos dez anos que antecederam o 25 de Abril, movimentos que foram muito críticos em relação às acções do Partido Comunista (ou à falta delas), ao colonialismo, à guerra em África (apelando à deserção) e ao capitalismo. Nascidos no meio estudantil, mas estendendo-se mais tarde a alguns sectores do proletariado, estes grupos constituíram uma oposição diferente e fizeram nascer para a política muitas figuras conhecidas que aí iniciaram o seu percurso.

Amanhã

Para os leitores deste blogue que gostam de poesia e me pedem que, uma vez por outra, aqui deixe um poema, informo que amanhã estarei no Instituto Cervantes com a autora espanhola Menchu Gutiérrez (poeta e romancista) para uma leitura poética, seguida de conversa com o público, ao longo de cerca de uma hora. A sessão começará às 18h30 e a entrada é livre.

Previsões

Tenho lido aqui e ali que nem tudo é mau nos tempos que atravessamos. Ou, melhor, que o horror do que vivemos pode ter efeitos de algum modo positivos a médio prazo. Ao que parece, muitos dos que andavam adormecidos despertaram com a chicotada do desemprego ou do desaparecimento das bolsas de estudo e, se antes nem iam às urnas em domingo de eleições, agora manifestam-se na praça pública e lutam pelos seus direitos. Também se diz que é, normalmente, em tempos obscuros e difíceis que os criadores sobressaem, que se tiram coelhos da cartola vazia e as artes fazem das tripas coração – ou seja, que as ideias boas e bonitas dão a cara; e, finalmente, ouço pessoas afirmarem que as coisas precisam de bater no fundo para virem ao de cima outras melhores. Gostava de acreditar nisso, até porque, nos últimos anos, vi o declínio de muita coisa que achava válida e a ascensão da mediocridade em vários domínios – no político, então, nem se fala. Mas, lamentavelmente, estou um pouco céptica: é que, de há uns meses para cá, suicidaram-se quatro jovens que, não sendo próximos, eram próximos de pessoas com quem trabalhei ou a quem estive ligada por razões profissionais. Atiraram-se de pontes ou para baixo de comboios e viviam, pelos vistos, crises maiores do que esta a que assistimos na Europa. O último foi o poeta Rui Costa, que ganhou o prémio Daniel Faria e concorreu à direcção do P.E.N. Clube há uns três anos, de quem hoje deixo aqui um poema. Espero que não passe tudo de uma coincidência.


 


O pão


 


 Há pessoas que amam


Com os dedos todos sobre a mesa.


Aquecem o pão com o suor do rosto


E quando as perdemos estão sempre


Ao nosso lado.


Por enquanto não nos tocam:


A lua encontra o pão caiado que comemos


Enquanto o riso das promessas destila


Na solidão da erva.


Estas pessoas são o chão


Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos


E pôs um fruto negro no lugar do coração.


Estas pessoas são o chão


Que não precisa de voar.

Very British

Ando com saudades de ver filmes de James Ivory, de quem sou admiradora incondicional; e um dia destes, olhando a estante dos autores anglo-saxónicos à procura já nem sei bem de quê, pus os olhos nesse romance esplendoroso que deu a Ivory a base para um dos seus melhores filmes (os Óscares foram quase uma dúzia). Falo, claro está, de Os Despojos do Dia, esse monumento literário de Kazuo Ishiguro, japonês very British que guardou algo de contenção oriental na escrita dos seus romances. Ivory soube pegar na história e transformá-la num filme inteligente, belo e muito classista, no qual os mordomos e criados do Lorde castelão não têm direito a opiniões políticas (e sabem disso). Enquanto não chega mais nenhum Ivory, eu, que nem sou nada televisiva, vou-me consolando com uma série britânica, Downton Abbey, que faz lembrar inevitavelmente a velhinha Família Belamy (Upsatairs, Downstairs no original) e tem alguma coisa do bom gosto e da subtileza do realizador britânico (embora menos do autor de ascendência nipónica).

Borges disponível

A Teorema e o Círculo de Leitores lançaram há anos umas Obras Completas de Jorge Luis Borges em quatro volumes cartonados, nada fáceis de encontrar nos tempos que correm. Tinham, além disso, o senão de serem pesadotes para os lermos na cama confortavelmente. Mas eis que um autor que deve estar sempre disponível para os leitores de todas as gerações está de regresso aos escaparates pela mão da Quetzal – e agora em pequenos livros leves e discretos que se podem meter na pasta e ler em viagem de comboio ou autocarro. Os primeiros títulos são O Livro da Areia, com tradução de António Slaber, e História da Eternidade, vertido para a nossa língua pelo competentíssimo José Colaço Barreiros. Mas crê-se que o resto venha aí de tantos em tantos meses para deliciar os que nunca cheiraram o escritor argentino e encantar de novo, pois claro, os seus admiradores de sempre.

Onze anos e parabéns!

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Já aqui escrevi uma vez sobre as Quintas de Leitura, um fenómeno de criatividade, organização e, o que é mais importante, público garantido em todas as sessões. O projecto, imaginado e desenvolvido por João Gesta e dedicado à poesia (mas com uma ajudinha de muitas outras artes), faz onze anos, e a sessão comemorativa avizinha-se. Se vive no Porto, ou suficientemente perto para se poder deslocar, não falte. Reserve já o bilhete, que as entradas não costumam chegar para todos, e tenha uma experiência única (mesmo que a queira repetir nas Quintas que se seguirem). Parabéns, João Gesta (e respectiva equipa). Queremos, pelo menos, mais onze anos do vosso trabalho.


 



Mais uma. Menos uma.

O primeiro embate veio com a notícia de que a Livraria 107, nas Caldas da Rainha, ia fechar portas. Para quem está no mundo da edição há muitos anos e teve a alegria de conhecer livreiros a sério, gente que lê e sabe o que vende, foi um choque perceber que, afinal, se safa melhor no mercado dos livros quem os vende como bolos, detergentes ou T-shirts e só vê capas, brindes e campanhas onde outros, pelos vistos menos afortunados, vêem autores e textos. A Isabel Castanheira, com os seus gatos Gil Vicente e Florbela Espanca passeando entre as estantes da 107, merecia ter conseguido. E, a partir da notícia de que não conseguiu, começaram a chegar outras do mesmo tipo – incluindo as que mencionavam as grandes dificuldades por que passam as Bulhosa – até que, recentemente, os jornais trouxeram a má nova de que a Livraria Portugal, no Chiado, também não resistira. Para mim, um osso duro de roer, já que, quando comecei na Gradiva há mais de vinte anos, as encomendas desta livraria eram feitas telefonicamente por funcionários criteriosos e especializados em ficção, ensaio, literatura infanto-juvenil e obras de referência, que iam passando o auscultador uns aos outros, não se metendo em áreas que não dominavam. Quando mais uma livraria fecha, é menos uma livraria que temos; e não só isto é terrível para o negócio, mas também especialmente grave para a literatura, que vai sendo afogada em pilhas de papel que, mesmo que saia das lojas num determinado período a um ritmo alucinante, não passa de papel que bem podia servir para limpar... E mais não digo.