Excerto da Quinzena
Manolo tinha sessenta e seis anos. Passara vinte e um a viver no campo-santo, sem o abandonar uma única vez, nem sequer para ir à missa por alma da mãe, morta por um golpe de calor no dia em que traziam a Virgem. Quando apareceu naquela noite a meio do terreiro, os vizinhos não acreditavam no que viam. Pararam de trabalhar as carnes do porco, imóveis e calados, com a respiração quase contida, esperando que Manolo dissesse qualquer coisa. O velho abraçou o pai, de quase cem anos, e recebeu os beijos e empurrões cálidos dos netos. Depois procurou a filha, María, e a mulher, Pura. Há anos que não via a primeira, embora tivessem estado a ponto de se encontrar no dia em que começara o grande aguaceiro. Quanto à mulher, não a via há duas décadas.
Manolo nunca descera para a visitar por superstição, e Pura pouco subira por orgulho. Naquela noite, quando os seus olhares se cruzaram, o velho quis correr a abraçá-la, mas, com todo o bairro a ver e com medo de a incomodar ou da rejeição, decidiu adiar a cena. Olhou-a com lágrimas nos olhos e sorriu-lhe. Pura não lhe devolveu o gesto; estava absorta e parecia mais aborrecida do que alegre. Por dentro, amaldiçoava a sua aparição do nada depois de tanto tempo; odiava-o, mas também continuava a amá-lo. Estava imperturbável e não se atrevia a lançar-se sobre ele, fosse para o beijar ou para lhe pregar um bom bofetão. Foi Gonzalo, ainda junto do avô, que os arrancou do ensimesmamento.
– Avô! Conte a todos aquilo da escuridão!
David Uclés, A Península das Casas Vazias,
tradução de J. Teixeira de Aguilar