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Na Figueira

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Quando o escritor António Tavares (de quem recentemente publiquei o belíssimo A Arte Pendular do Baloiço, leiam-no) era autarca na Câmara da Figueira da Foz (se não me engano, vice-presidente e vereador da Cultura), eu ia lá muitas vezes com os autores que publico participar nas 5.as de Leitura, sempre numa quinta à noite, na Biblioteca Municipal. Depois veio a pandemia, e quebrou-se o ritmo; mas hoje vou voltar a assistir a este encontro sempre muito concorrido e rever bastantes caras conhecidas. A sessão tem desta feita apresentação e moderação da crítica Teresa Carvalho. A convidada especial é Carla Pais, a vencedora do Prémio LeYa 2025, que vive em França e veio a Portugal justamente para a cerimónia de entrega do galardão e apresentação do romance A Sombra das Árvores no Inverno em várias localidades: Lisboa, Leiria, Maia e... Figueira da Foz, claro. Portanto, se hoje à noite está sem programa e vive por perto, aproveite para ouvir a conversa que, tendo em conta o tema do livro, promete ser boa e sensível.


 

O que ando a ler

 É curioso, mas eu, que leio pouca literatura africana, passei a semana passada a ler dois livros moçambicanos. Um deles era trabalho (e extenso) e deixo a divulgação para quando estiver mais perto da publicação, porque é uma pedrada no charco e vale mesmo a pena que lhe prestem a atenção na altura certa. O outro (ainda não o terminei) é de um jovem chamado Eduardo Quive e foi recentemente apresentado em Lisboa pela romancista e também comentadora Ana Bárbara Pedrosa, com quem troca cartas-crónicas, entre Lisboa e Maputo, no jornal digital A Mensagem de Lisboa. O romance começa com uma tentativa de suicídio, mas não se assustem, porque o choque é sobretudo perceber como quem salta da janela fica vivo e como quem assiste e sabe o que aconteceu fica culpado por não ter evitado o pulo: o narrador, Eurípedes, que está a contar-nos a história ao mesmo tempo que a narra à sua terapeuta; e a irmã mais velha, Anchia, a artista muito aplaudida, que padece de uma condição rara, é albina, o que levou o pai a abandonar a mãe assim que ela nasceu. A prosa de Quive neste A Cor da Tua Sombra é mesmo bonita e há alguns segredos latentes que estou a ver se descubro ao passar das páginas e se relacionam com Anchia e Sheila, a rapariga que queria morrer; mas fico contente que Moçambique se me mostre literariamente duas vezes na mesma semana, porque tenho de me pôr em dia com a literatura desta terra. Parabéns a este autor ainda jovem que promete! 

O Riso Dissonante

  A caricatura é uma arte muito mais importante do que possa parecer; e, como sabemos, os que a praticam não são pessoas com jeito para desenho, mas gente culta e inteligente que usa o humor para pôr o dedo na ferida e que até correm risco de vida, como se viu pelos atentados terroristas em França sobre a revista Charlie. Ora, na Casa da Achada, criada para celebrar a obra a e a figura de Mário Dionísio, decorre actualmente um ciclo e uma exposição dedicados à caricatura social em artistas como Alfonso Castelao e Jean Bruller (Vercors), cujos curadores são João Rodrigues, Osvaldo Macedo de Sousa e José Smith Vargas e que inclui uma série de conversas que só podem ser interessantes, dados os nomes dos seus intervenientes, entre os quais André Carrilho, António Jorge Gonçalves, Cristina Sampaio, Fernando Rosas, Irene Pimentel, Luís Afonso, Nuno Saraiva, Pedro Piedade Marques e Sara Figueiredo Costa. Vale a pena ir lá dar uma espreitadela às obras expostas e, já amanhã, pelas 15h00, ouvir o debate sob o título «O humor face à guerra, à violência e à opressão», que se debruçará na importância do cartoon e da caricatura para acordar consciências (estamos mesmo a precisar disso!). Mas consultem o programa, pois o ciclo estará activo até finais de Setembro e há conversas a não perder todos os meses. 

Feira do Livro

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Ontem abriu a Feira do Livro de Lisboa, um acontecimento que leva milhares de pessoas ao Parque Eduardo VII, umas para comprar livros, outras a passeio, com crianças e animais de estimação (muitos). Este ano a feira tem mais de 350 pavilhões de 900 chancelas participantes, muitas delas agrupadas em praças, como é o caso da LeYa, da Presença, da Porto, da Penguin... O espaço dos pequenos editores foi renovado e, portanto, também aí se esperam melhorias. Vai haver cinema ao sábado à noite (enquanto uns calcorreiam os pavilhões, os que não apreciam esta «peregrinação» podem ver filmes) e continuam as experiências para crianças dos 8 aos 10 de acampar no parque com histórias, passando lá a noite com a supervisão de adultos. Às sextas haverá também música ao vivo. Uma novidade é o apoio da Lusíadas Saúde (quando faz mesmo calor, os que desmaiam facilmente já têm quem os «refresque», porque vai haver posto médico) e outra é o empréstimo de carrinhos de bebé (sim, porque subir a feira com crianças pequenas pela mão ou ao colo é tudo menos fácil). E o resto são... livros!!! Que bom, lá vai a conta bancária descer, mas é por uma boa causa. No dia 30, no auditório da Praça LeYa, vamos entregar a Carla Pais o Prémio LeYa pelas 18h30, e será apresentado o romance vencedor, A Sombra das Árvores no Inverno, pelo escritor João Pinto Coelho. Se quiser assistir, está convidado.


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Em Berlim

Já viajei por várias partes do mundo, mas, sei lá porquê, embora tenha ido à Alemanha mais de vinte vezes (a Feira do Livro de Frankfurt era obrigatória no tempo em que eu fazia sobretudo livros estrangeiros), nunca visitei Berlim. Se fosse romancista, candidatava-me a uma residência literária nessa cidade, a 11.ª destinada a autores portugueses com obra publicada, promovida pela Embaixada de Portugal e pelo Centro Cultural Português do Instituto Camões em Berlim desde o tempo em que Ana Patrícia Severino, que replicou a residência também em Madrid, era responsável cultural na Embaixada e fundou a iniciativa.  Em edições anteriores, muitos autores contemporâneos beneficiaram desta bolsa, como Patrícia Portela (2016), Rui Cardoso Martins (2017), Isabela Figueiredo (2018), Miguel Cardoso (2019), Afonso Cruz (2020), Judite Canha Fernandes (2021), Claudia Galhós (2022), Jacinto Lucas Pires (2023), Francisco Sousa Lobo (2024) e Margarida Vale de Gato (2025). Se está interessado, não se atrase, pois as candidaturas fecham a 14 de Junho. O endereço é: botschaftbolsa@gmail.com. Boa sorte!

O principal e o acessório

No mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Meu Primeiro Apocalipse, cujo enredo decorre cerca de 2066 (não é um futuro tão longínquo como possa parecer), os céus já têm mais drones do que pássaros, e duas mulheres – uma delas curiosamente jornalista e escritora – querem resgatar a importância da leitura para tentar salvar o mundo. Penso que o assunto, sobretudo tratado por um jornalista, um homem que lida com informação e deve saber de notícias falsas e manipuladas como poucos, deveria ter gerado mais interesse dos nossos jornais, até porque se sabe que o QI tem vindo a baixar desde o princípio do século e que a culpa é sobretudo da falta de linguagem e consequente incapacidade de construir ideias e argumentos, resultado, claro, da falta de leitura. Mas não. Infelizmente, em vez de pegarem nesta questão, que foi falada num debate durante a feira do livro de Évora, por ocasião do Comboio Literário, os blogues, revistas e jornais referem a resposta do escritor à pergunta sobre o que o levou a estudar jornalismo em Lisboa. E porque terá sido? Bem, porque foi um desgosto de amor que fez Rodrigo Guedes de Carvalho abandonar o Porto natal e vir para a Universidade Nova de Lisboa. Caramba, pensei que os nossos meios de comunicação fossem um nadinha mais crescidos... Eu, que recebo os recortes de imprensa das Publicações Dom Quixote, estou sempre a ler sobre o coração partido de Rodrigo Guedes de Carvalho há décadas. Se essa ninharia levar as pessoas a ler o livro, tudo bem, mas duvido. Leiam-no os que se preocupam com o descréscimo do nível das leituras.

Cronicar

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A crónica é um género maior, e a Associação Portuguesa de Escritores tem até um prémio que lhe é muito justamente dedicado. Entre autores vivos, temos cronistas de excelência, como Luísa Costa Gomes e Dulce Maria Cardoso, por exemplo, mas basta abrir os jornais actuais para vermos como são bons cronistas José Tolentino de Mendonça, António Araújo, Ana Bárbara Pedrosa, Pedro Mexia ou Ricardo Araújo Pereira. Luísa Sobral, depois da sua fulgurante estreia literária com Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, um romance que vai na 15.ª edição, atreveu-se às crónicas num livro mesmo bonito que ilustrou com aguarelas suas (incluindo a da capa). Se se quer rir com a aselhice da autora para armar uma tenda no jardim para os filhos ou indignar-se com a desfaçatez com que um médico faz perguntas inconvenientes, Da Minha Janela (assim se chama a obra) chamá-lo-á a ver uma paisagem que podia ser também a sua, porque é impossível não nos identificarmos com estes belos textos que escrevem o dia-a-dia contemporâneo de Luísa Sobral e, afinal, o de todos nós.


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A Adolescência

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Na Praceta das Tílias, ninguém sabe o que acontece na porta ao lado. É entre paredes de betão que nasce esta história. Esmeralda esforça-se por dar à filha o que não teve. E Teresa parece ter tudo para ser uma adolescente feliz. Porém, uma descoberta perturbadora estilhaça a harmonia familiar e põe à prova os laços entre mãe e filha. Ao contrário da sua amiga Teresa, Ana Lurdes cresce desamparada numa casa onde o amor não entra, refugiando-se nos poemas que escrevinha nas aulas. Já Sebastião, que guia um táxi pela cidade, anda desnorteado; quem o segura é Olívia, a filha sempre atenta ao que a rodeia – sobretudo quando observa Teresa da janela do seu quarto e desenha o que mais ninguém vê. E Lúcia julga que tem tudo controlado, até ao dia em que sofre um ataque violento; mas, quando volta à casa da infância para se restabelecer, percebe que o maior perigo, afinal, vem de onde menos esperava. A turbulência que abala todas estas personagens levanta o pó do que está para trás, deixando a descoberto cicatrizes e segredos. E, quando tudo falha, até os vínculos mais fortes se podem romper. Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno – o quarto romance de Susana Piedade, já duas vezes finalista do Prémio LeYa – é uma obra notável pela sua contenção ao falar de temas extremamente difíceis com extraordinária elegância. Surpreende até à última página e oferece-nos um bom retrato da juventude contemporânea.


Publicação II Uma Porta de Vidro entre o Céu

Três futuros

A saudosa poeta Ana Luísa Amaral tem um livro muito bonito chamado What's in a Name, e a Alice de Lewis Carroll pergunta a dado momento no País das Maravilhas se um nome tem de significar alguma coisa. No livro Os Nomes, de Florence Knapp, os nomes são o motor para três vidas diferentes da mesma personagem, um rapaz que nasce nove anos depois da irmã e que é filho de uma mãe vítima de violência doméstica que o pai trata de forma tenebrosa, um pai médico que os doentes adoram e de quem nunca ninguém desconfiaria. O romance começa com a ida de Cora, a agredida, com o filho na cadeirinha e a irmã pela mão, ao Cartório para registar o nome do filho. A pequena Maia gostaria que o maninho se chamasse Bear, a mãe preferia que fosse Julian (que quer dizer «Pai do Céu») e o agressor não põe outra hipótese senão que o filho varão tenha o seu nome, Gordon. Ora, será como Bear, Julian e Gordon que vamos assistir a três futuros distintos deste bebé, aos seus estudos e brincadeiras, às suas paixões e romances, aos seus medos e tragédias, às suas escavações e criações artísticas, sempre com um background semelhante na casa da família e sempre esperando que um destes rapazes acabe por salvar a mãe, a quem o pai conseguiu retirar o poder paternal alegando que a mulher tem distúrbios mentais (os médicos podem muita coisa) e que mantém fechada há séculos em casa. Vale a pena ler, sobretudo como exercício literário. 


 


P. S. Para quem se interesse pela escrita de canções, hoje ao fim da tarde vou estar com o João Gobern a falar da minha actividade como letrista em Coimbra, na Casa da Escrita. Apareçam.

Os 100+

O jornal britânico The Guardian publicou uma lista dos 100 melhores livros de ficção (romances, sobretudo) publicados desde sempre em língua inglesa, mas por autores de qualquer país (sim, estão lá Pedro Páramo ou Cem Anos de Solidão, mas quase não há livros franceses, por exemplo, e o Memorial do Convento não consta). É uma lista feita por escritores e críticos de todo o mundo. O jornal pediu a 172 autores, críticos e académicos que apontassem os seus 10 romances de eleição e os pusessem por ordem de preferência; depois, atribuiu uma pontuação a cada título, consoante o número de vezes em que tinham sido escolhidos, assim achando os 100 mais votados. Penso que estes votantes devem rondar a minha idade, pois eu, surpreendentemente, quando vi a primeira metade da lista (dos 41 aos 100) percebi que tinha lido muitos dos títulos e fiquei aliviada (quanto mais livros lemos, mais ignorantes nos sentimos). No dia seguinte, saíram os romances mais votados (do 1 ao 40) e também eram, na generalidade, conhecidos (nem todos lidos, lamento), embora aqui já houvesse um ou outro título para mim desconhecido (The Prime of Miss Jean Brody, de Muriel Spark, ou Their Eyes Were Watching God, de Zora Neale Hurston). Claro que a lista é muito discutível, porque cá para mim faltam muitos autores notáveis; mas, como não sei se estão traduzidos em inglês (no Reino Unido só cerca de 3% dos livros publicados são traduções), pode ser essa a razão de tão estranha omissão. Também se vê que os britânicos gostam sobretudo de autores britânicos (a senhora Virginia Woolf nunca falha e tem mais de um título seu no rol), mas vale a pena consultar a lista e cada um fazer a sua própria análise. Deixo-a aqui. Divirtam-se.


 


https://www.theguardian.com/books/ng-interactive/2026/may/12/the-100-best-novels-of-all-time?CMP=fb_gu&utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwY2xjawRy0ltleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBPWmtCbld5VXlHc2MwTEJKc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHigZemUjMGaaWJhQYIELEgjtzbbtewOCUVFWbI7l8690UwriFTbPJsUSr8Tc_aem_mNBNXgpmSJxb0MuC538wLg#Echobox=1778652585


 

Infantis de que os adultos gostam

Não tenho filhos, mas dei a uma das minhas sobrinhas-netas um presente que vai sendo oferecido ao longo dos anos: todos os meses lhe mandam um pacote em seu nome com dois livros e algumas folhas com actividades ou autocolantes. No princípio, ela recebia os livros dos 0 aos 3 anos, mas agora a faixa etária mudou e já recebe uns mais adiantados, ficando para a irmã de um ano os mais abebezados que tem na estante. Espero que essa minha sobrinha goste sempre de livros e que este meu presente a ajude a formar uma boa biblioteca. Há, de resto, livros infantis de que eu também gosto e, recentemente, houve dois títulos de uma colecção da Lilliput que me encheram as medidas. Um por razões óbvias, o outro talvez pela importância e o tratamento do tema. O primeiro chama-se História da Escrita (de Loic Le Gall e Karine Maincent) e ensina às crianças como começou o homem a escrever, que objectos usou ao longo do tempo (o pau, o estilete, a pena, o lápis, o computador...), que formas de escrita se conhecem (a escrita cuneiforme, os hieróglifos, os ideogramas...), o que foi a revolução da imprensa, enfim, tudo contado com rigor e interesse. O outro, chamado Fronteiras (de Karim Ressouni-Demigneux e Karine Maincent) é realmente uma delícia. Começa por nos mostrar como o Homo sapiens andava por onde queria até que descobriu fronteiras naturais (rios, montanhas, bosques cerrados...) e que começou ele próprio a construí-las (muros, fortificações, cercas, vedações, etc.) e a definir territórios e impérios. Mais tarde teríamos países divididos, como a Alemanha da Guerra Fria ou a Coreia. O livro menciona ainda as migrações, os documentos necessários para mudar de país, e muitas outras coisas com as quais todos aprendemos, e as crianças ainda mais. 

Nuno Júdice

No dia 29 de Abril celebrámos o aniversário de Nuno Júdice publicando o seu livro póstumo intitulado paradoxalmente Primeiro Poema (mas os últimos são os primeiros). A organização do mesmo esteve a cargo de Manuela Júdice, a mulher do poeta que, entre muitas outras coisas, dirigiu a Casa Fernando Pessoa e a Casa da América Latina ao longo de vários anos, e o também poeta e estudioso da obra de Nuno Júdice Ricardo Marques. Esteve presente o Presidente da República, que fez um pequeno discurso muito bom, e uma data de amigos saudosos de Nuno Júdice, bem como a vencedora da primeira edição do Prémio de Poesia que celebra o seu nome, Carla Louro, arquitecta e grande escritora que assinou Entra-se na casa pelo pátio, um poemário mesmo bonito. Falo disto para vos dizer que neste mesmo dia 29 de Abril abriu o concurso para a 2.ª edição do Prémio de Poesia Nuno Júdice, cujas candidaturas podem ser feitas até 30 de Junho. Se tem algum original de poesia na gaveta, não hesite. Os dados vão abaixo, para ser mais fácil consultar. Boa sorte.


Regulamento do Prémio de Poesia Nuno Júdice | Leya


CANDIDATURAS: https://premiojudice.leya.com

Excerto da Quinzena

Memórias do amor


 


A realidade é uma mentira. Eu sei que estavas nesta fotografia em que não apareces. Recordo perfeitamente o que me dizias ao ouvido no momento do flash.


 


José Carlos Barros, Vocação para os Desastres (contos)

E se?

Às vezes é engraçado pensar que certos livros, hoje considerados inescapáveis e importantíssimos na história da literatura universal, poderiam nunca ter sido publicados e lidos. Lembrei-me disto a propósito de um vídeo que encontrei no qual Gabriel García Márquez conta que em jovem devorava livros e que, quando lhe foi parar às mãos A Metamorfose, de Kafka, parou a reflectir que estava perante algo muito diferente do que lera até ali, algo que ficaria para sempre com ele. E, porém, a história do homem que acordou transformado em insecto, virado de pernas para o ar, e que mesmo assim a estuporada família espera que vá trabalhar para a sustentar, poderia não ter chegado aos nossos dias. Kafka era demasiado discreto e tímido para falar com editores, e até deixou dito que não queria que lhe publicassem os livros (muito mais do que esse que fala da tragédia do homem-barata) quando morresse. No caso, valeu-nos a desobediência de um amigo, que percebeu certamente o alcance que o autor poderia vir a ter, mesmo morto. Mas há outros casos, em que obras-primas foram recusadas por editores (Em busca do Tempo Perdido, de Proust, por exemplo, ou mais recentemente o romance de David Uclés, A Península das Casas Vazias, que venceu uma data de prémios e se vendeu em muitos países) e talvez não tivessem chegado a ser dadas à estampa se os seus autores não tivessem insistido em vê-las nos escaparates. E se Os Lusíadas se tivessem mesmo perdido ao largo de Macau, já imaginaram?


 

Manuel Alegre

Ontem fez 90 anos o poeta Manuel Alegre. Chamo-lhe poeta, claro, até porque este é um blogue sobre livros e literatura; mas, além do poeta, foi um combatente pela liberdade, um lutador que teve de se exilar na Argélia durante o antigo regime, um resistente que inspirou muitos dos seus contemporâneos a rebelarem-se contra o fascismo que mantinha o País cheio de fome, embora ainda haja gente a dizer que nesse tempo é que era bom. Manuel Alegre foi um político de nomeada (ainda hoje é chamado a colorir algumas campanhas do Partido Socialista) e, curiosamente, embora tenha escrito muita poesia amorosa, tem uma boa quantidade de poemas que podemos considerar também políticos, escritos sobretudo antes do 25 de Abril. É também autor de letras de fado (algumas das quais cantadas por Amália Rodrigues, muitas por João Braga), uma espécie de Teoria do Fado. Já que não podemos desejar-lhe longa vida aos noventa, desejemos-lhe que continue a escrever e a viver envolvido e sempre militando pela democracia. Parabéns!

Ler com que idade?

Haverá uma idade para ler certos livros? Já aqui comentei, julgo, que na terceira idade em que me encontro, embora há pouco tempo, tornou-se de repente mais difícil fixar o que se leu na véspera (às vezes é preciso voltar atrás umas páginas para me situar); mas, pior do que isso, é duas semanas depois de acabar um livro (e é mais ou menos irrelevante se gostei ou não da leitura) já quase não me lembrar da história (e o mesmo aocntece com certos filmes). Um dia destes aconteceu cruzar-me com alguém que estava muito entusiasmado a falar de um livro que eu lera há uns dois meses e reparei que muitas das cenas que essa pessoa evocava estavam, para mim, parcialmente obliteradas. Fiquei chateada, mas a velhice não tem remédio, pelo que, a seguir, me passou a telha. Pensei sempre guardar alguns calhamaços para a reforma, mas agora vejo que fiz mal, pois deveria tê-los lido era com a cabeça fresca para os aproveitar ao máximo. Vi que uma jovem autora minha andava a ler Steinbeck e fiquei contente, pois também eu o li com a idade dela, ou mais nova ainda, e hoje consigo lembrar-me bem de muitos dos seus romances. Foi pena não ter feito o mesmo com O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio. Mas agora que é que se há-de fazer?

Ler com que idade?

Haverá uma idade para ler certos livros? Já aqui comentei, julgo, que na terceira idade em que me encontro, embora há pouco tempo, tornou-se de repente mais difícil fixar o que se leu na véspera (às vezes é preciso voltar atrás umas páginas para me situar); mas pior do que isso é duas semanas depois de acabar um livro (e é mais ou menos irrelevante se gostei ou não da leitura) já quase não me lembrar da história (e o mesmo acontece com certos filmes). Um dia destes aconteceu cruzar-me com alguém que estava muito entusiasmado a falar de um livro que eu lera há uns dois meses e reparei que muitas das cenas que essa pessoa evocava estavam, para mim, parcialmente obliteradas. Fiquei chateada, mas a velhice não tem remédio, pelo que, a seguir, me passou a telha. Pensei sempre guardar alguns calhamaços para a reforma, mas agora vejo que fiz mal, pois deveria tê-los lido era com a cabeça fresca para os aproveitar ao máximo. Vi que uma jovem autora minha andava a ler Steinbeck e fiquei contente, pois também eu o li com a idade dela, ou mais nova ainda, e hoje consigo lembrar-me bem de muitos dos seus romances. Foi pena não ter feito o mesmo com O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio. Mas agora que é que se há-de fazer?

Escolher

Na viagem do Comboio Literário este fim-de-semana houve uma história muito bonita. Entre muitos adultos, mais de cento e cinquenta, quase todos com mais de quarenta anos, estavam dois rapazes, um já a fazer o mestrado, e uma rapariga mesmo novinha, provavelmente ainda a estudar no Secundário ou no primeiro ano da universidade. Contou que fazia anos por estes dias e tinha pedido aos pais a inscrição no Comboio Literário como presente de aniversário para poder viajar com escritores e leitores, e ir a debates, conversar com gente que também gosta de ler e pedir autógrafos a alguns dos «seus» autores. Pode ser que seja uma excepção, mas dá-nos alguma esperança encontrar jovens assim quando tudo indica que a imagem vai ter cada vez mais força do que a palavra e que as pessoas lerão textos cada vez mais curtos. Talvez o segredo seja apanhar os leitores ainda novos e escolher com cuidado o que os pode seduzir como obra literária, o que lhes pode agradar. Proponho, por exemplo, Luís Sepúlveda e O Velho Que Lia Romances de Amor, ou então Cão como Nós, de Manuel Alegre, um escritor que amanhã completa 90 anos. Escolham também os leitores deste blogue livros para os vossos filhos, se os tiverem. Não os deixem parar de ler.

Escolher

Na viagem do Comboio Literário este fim-de-semana houve uma história muito bonita. Entre muitos adultos, mais de cento e cinquenta, quase todos com mais de quarenta anos, estavam dois rapazes, um já a fazer o mestrado, e uma rapariga mesmo novinha, provavelmente ainda a estudar no Secundário ou no primeiro ano da universidade. Contou que fazia anos por estes dias e tinha pedido aos pais a inscrição no Comboio Literário como presente de aniversário para poder viajar com escritores e leitores, e ir a debates, conversar com gente que também gosta de ler e pedir autógrafos a alguns dos «seus» autores. Pode ser que seja uma excepção, mas dá-nos alguma esperança encontrar jovens assim quando tudo indica que a imagem vai ter cada vez mais força do que a palavra e que as pessoas lerão textos cada vez mais curtos. Talvez o segredo seja apanhar os leitores ainda novos e escolher com cuidado o que os pode seduzir como obra literária, o que lhes pode agradar. Proponho, por exemplo, Luís Sepúlveda e O Velho Que Lia Romances de Amor, ou então Cão como Nós, de Manuel Alegre, um escritor que amanhã completa 90 anos. Escolham também os leitores deste blogue livros para os vossos filhos, se os tiverem. Não os deixem parar de ler.

Comboio Literário

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Lembram-se de vos ter falado aqui do Comboio Literário? Pois bem, é já amanhã, dia 9, que partirá a primeira composição rumo ao Alentejo, com uma paragem em Casa Branca, onde a LeYa celebrará a entrega de minibibliotecas a vários concelhos da zona e um grupo de cante certamente nos surpreenderá. Depois iremos até Évora, sempre em carruagens históricas, para, já fora do comboio, visitarmos a Sé, o Templo Romano e a seguir participarmos na Feira do Livro, quer em debates com o público (moderarei um deles, com o título «A  Viagem da Palavra», no qual estarão Daniel Sampaio, Isabela Figueiredo, João Pinto Coelho e Rodrigo Guedes de Carvalho), quer em sessões de autógrafos, quer ainda a ouvir um show case com a cantora e escritora Luísa Sobral, que recentemente foi a vencedora do Prémio Livro do Ano Bertrand na categoria de ficção portuguesa (prémio do público e dos livreiros). No dia seguinte, correremos o Paço Ducal de Vila Viçosa, e Hugo Van der Ding fará uma performance baseada em Uma Família Surreal. Esta é uma iniciativa inédita que a LeYa organiza com a cooperação da CP e do Turismo de Portugal. Se correr bem, tenho a certeza de que se repetirá... com outros destinos.

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Comboio Literário

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Lembram-se de vos ter falado aqui do Comboio Literário? Pois bem, é já amanhã, dia 9, que partirá a primeira composição rumo ao Alentejo, com uma paragem em Casa Branca, onde a LeYa celebrará a entrega de minibibliotecas a vários concelhos da zona e um grupo de cante certamente nos surpreenderá. Depois iremos até Évora, sempre em carruagens históricas, para, já fora do comboio, visitarmos a Sé, o Templo Romano e a seguir participarmos na Feira do Livro, quer em debates com o público (moderarei um deles, com o título «A  Viagem da Palavra», no qual estarão Daniel Sampaio, Isabela Figueiredo, João Pinto Coelho e Rodrigo Guedes de Carvalho), quer em sessões de autógrafos, quer ainda a ouvir um show case com a cantora e escritora Luísa Sobral, que recentemente foi a vencedora do Prémio Livro do Ano Bertrand na categoria de ficção portuguesa (prémio do público e dos livreiros). No dia seguinte, correremos o Paço Ducal de Vila Viçosa, e Hugo Van der Ding fará uma performance baseada em Uma Família Surreal. Esta é uma iniciativa inédita que a LeYa organiza com a cooperação da CP e do Turismo de Portugal. Se correr bem, tenho a certeza de que se repetirá... com outros destinos.


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Homenagens

Amanhã começa o Bibliotecando em Tomar, um festival literário de dois dias que vai na sua 16.ª edição e terá como presidente da Comissão de Honra Guilherme d'Oliveira Martins, que também fará uma palestra e será moderador de alguns debates. A organização está a cargo de Agrupamentos de Escolas do concelho, da Câmara Municipal de Tomar, do Centro Nacional de Cultura, do Politécnico de Tomar e ainda de outras instituições locais e nacionais, e homenageará este ano o escritor Valter Hugo Mãe, cuja obra será analisada por académicos e leitores em várias sessões. O tema será «Entre o natural e o construído», propondo-se que os intervenientes examinem «as tensões dialógicas entre essas duas realidades, o modo como mutuamente se interpenetram, se confrontam e se redefinem», e o programa contará com personalidades conhecidas de todos, como Pilar del Río, Carlos Reis ou Fátima Vieira, e também com a desta vossa anfitriã. Segundo a organização, «nestes dois dias este encontro procura ser o local de embarque para viagens mediadas pelos nossos ilustres convidados». Tudo acontece na Biblioteca Municipal e o programa pode ser consultado abaixo.


https://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/2026/


 

Homenagens

Amanhã começa o Bibliotecando em Tomar, um festival literário de dois dias que vai na sua 16.ª edição e terá como presidente da Comissão de Honra Guilherme d'Oliveira Martins, que também fará uma palestra e será moderador de alguns debates. A organização está a cargo de Agrupamentos de Escolas do concelho, da Câmara Municipal de Tomar, do Centro Nacional de Cultura, do Politécnico de Tomar e ainda de outras instituições locais e nacionais, e homenageará este ano o escritor Valter Hugo Mãe, cuja obra será analisada por académicos e leitores em várias sessões. O tema será «Entre o natural e o construído», propondo-se que os intervenientes examinem «as tensões dialógicas entre essas duas realidades, o modo como mutuamente se interpenetram, se confrontam e se redefinem», e o programa contará com personalidades conhecidas de todos, como Pilar del Río, Carlos Reis ou Fátima Vieira, e também com a desta vossa anfitriã. Segundo a organização, «nestes dois dias este encontro procura ser o local de embarque para viagens mediadas pelos nossos ilustres convidados». Tudo acontece na Biblioteca Municipal e o programa pode ser consultado abaixo.

https://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/2026/

 

Ideias originais

Quando conheci Afonso Reis Cabral, em 2014, tinha ele vencido o Prémio LeYa antes ainda dos 25 anos, fiquei a saber que, em adolescente, ele tinha ido de camião TIR até a Alemanha sem a família em busca de uma história. Depois disso, atravessou o País a pé pela Estrada Nacional 2 (a mítica) e publicou um livro sobre essa aventura; e, mais tarde, tentou tudo por tudo para acompanhar os militares num submarino durante dez dias, mas por qualquer razão não conseguiu que o deixassem integrar a equipa. Agora teve mais uma ideia louquíssima e está a viver por uma semana no Centro Comercial Colombo, numa loja de sapatos desactivada onde lhe puseram uma cama e para onde levou duas malas de rodinhas com roupa, computador e papel, disposto a tomar banho nos balneários do ginásio, pois a ideia é mesmo não sair de lá para nada e ir assistindo ao que por lá se passa. Um sítio onde está sempre tanta gente só pode oferecer boas histórias, e o Afonso quer escrever um pequeno livro sobre o que é viver num Centro Comercial, entrevistando lojistas e consumidores, quiçá empregados da limpeza também, e passeando provavelmente pelos espaços vazios quando o Centro fecha, como outros escritores já fizeram em museus, embora ver pintura e escultura deva ser mais compensador do que ver montras. Vamos lá ver como acaba esta residência literária e o que nos trará. Ideias originais, não há dúvida.

Ideias originais

Quando conheci Afonso Reis Cabral, em 2014, tinha ele vencido o Prémio LeYa antes ainda dos 25 anos, fiquei a saber que, em adolescente, ele tinha ido de camião TIR até a Alemanha sem a família em busca de uma história. Depois disso, atravessou o País a pé pela Estrada Nacional 2 (a mítica) e publicou um livro sobre essa aventura; e, mais tarde, tentou tudo por tudo para acompanhar os militares num submarino durante dez dias, mas por qualquer razão não conseguiu que o deixassem integrar a equipa. Agora teve mais uma ideia louquíssima e está a viver por uma semana no Centro Comercial Colombo, numa loja de sapatos desactivada onde lhe puseram uma cama e para onde levou duas malas de rodinhas com roupa, computador e papel, disposto a tomar banho nos balneários do ginásio, pois a ideia é mesmo não sair de lá para nada e ir assistindo ao que por lá se passa. Um sítio onde está sempre tanta gente só pode oferecer boas histórias, e o Afonso quer escrever um pequeno livro sobre o que é viver num Centro Comercial, entrevistando lojistas e consumidores, quiçá empregados da limpeza também, e passeando provavelmente pelos espaços vazios quando o Centro fecha, como outros escritores já fizeram em museus, embora ver pintura e escultura deva ser mais compensador do que ver montras. Vamos lá ver como acaba esta residência literária e o que nos trará. Ideias originais, não há dúvida.

Renascimentos

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O romance vencedor do Prémio LeYa 2025, de Carla Pais, acaba de sair; é uma história de sobrevivência dos que perderam quase tudo e do amor que se recusa a morrer, mesmo quando o resto já desabou. Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu. Aïsha – filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição – vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas. Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra. As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno – vencedor do Prémio LeYa por unanimidade – é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de protecção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos. Vale muito a pena.


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Renascimentos

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O romance vencedor do Prémio LeYa 2025, de Carla Pais, acaba de sair; é uma história de sobrevivência dos que perderam quase tudo e do amor que se recusa a morrer, mesmo quando o resto já desabou. Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu. Aïsha – filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição – vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas. Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra. As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno – vencedor do Prémio LeYa por unanimidade – é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de protecção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos. Vale muito a pena.

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O que ando a ler

A editora da romancista norte-americana Elizabeth Strout, que esteve em Lisboa há uns tempos a lançar o seu mais recente romance (no qual apareciam personagens de vários outros livros, fechando o ciclo Lucy Barton e Olive Kitteridge), acaba de recuperar um dos seus livros antigos, com o título Os Irmãos Burgess. Estes irmãos (Bob e Jim), oriundos do Maine, fugiram de lá assim que puderam e instalaram-se em Nova Iorque, onde são advogados. Mas Jim é uma estrela (ganhou um caso ultramediático e ficou conhecidíssimo) e Bob é um pobre diabo que faz trabalho de sapa, bebe, foi abandonado pela mulher, tem pouco dinheiro e... é muito melhor do que o irmão, pois está sempre a tentar contemporizar e ajudar os outros. Desta feita, ambos sabem que o sobrinho, filho da irmã que nunca quis sair do Maine, foi acusado de um crime de ódio, tendo atirado uma cabeça de porco para dentro de uma mesquita onde rezava um grupo de refugiados da Somália. Então, deslocam-se ambos os irmãos ao Maine, para tentar ajudar o adolescente em termos judiciais, mas a verdade é que os insultos de Jim a Bob, seguidos de uma confissão sobre uma morte que aconteceu na infância, bem como o desaparecimento súbito do adolescente, mudam um pouco o rumo das coisas. Este é talvez o mais político dos livros que li de Strout, e talvez também o mais americano. Leiam-no e perceberão o que digo.

O que ando a ler

A editora da romancista norte-americana Elizabeth Strout, que esteve em Lisboa há uns tempos a lançar o seu mais recente romance (no qual apareciam personagens de vários outros livros, fechando o ciclo Lucy Barton e Olive Kitteridge), acaba de recuperar um dos seus livros antigos, com o título Os Irmãos Burgess. Estes irmãos (Bob e Jim), oriundos do Maine, fugiram de lá assim que puderam e instalaram-se em Nova Iorque, onde são advogados. Mas Jim é uma estrela (ganhou um caso ultramediático e ficou conhecidíssimo) e Bob é um pobre diabo que faz trabalho de sapa, bebe, foi abandonado pela mulher, tem pouco dinheiro e... é muito melhor do que o irmão, pois está sempre a tentar contemporizar e ajudar os outros. Desta feita, ambos sabem que o sobrinho, filho da irmã que nunca quis sair do Maine, foi acusado de um crime de ódio, tendo atirado uma cabeça de porco para dentro de uma mesquita onde rezava um grupo de refugiados da Somália. Então, deslocam-se ambos os irmãos ao Maine, para tentar ajudar o adolescente em termos judiciais, mas a verdade é que os insultos de Jim a Bob, seguidos de uma confissão sobre uma morte que aconteceu na infância, bem como o desaparecimento súbito do adolescente, mudam um pouco o rumo das coisas. Este é talvez o mais político dos livros que li de Strout, e talvez também o mais americano. Leiam-no e perceberão o que digo.

Laborinho Lúcio

No dia 25 de Abril, confesso, não desci a Avenida, como é costume. Mas tinha uma boa razão, e tive muitos cravos vermelhos à minha volta. Fui à Nazaré, cidade natal de Álvaro Laborinho Lúcio, prestar a minha humilde homenagem ao homem, ao político, ao magistrado, ao escritor, que nos deixou no ano passado, estava eu em Penafiel, na Escritaria. Se lerem o seu livro A Vida na Selva, uma espécie de colectânea de textos que é também uma forma de contar a sua vida e os seus vários «nascimentos», perceberão que o desejo de escrever histórias lhe chegou logo na infância (o título do livro é, de resto, o de uma redacção que redigiu em miúdo); e tinha de certeza muito jeito já então, pois a professora desconfiou de que tinha sido ajudado pelo pai... Esta professora afastou-o muitos anos da ficção, infelizmente, mas enquanto ele não regressou, tivemos a sua intervenção cívica, empática, intelectual e justa (porque a Justiça dele era a dos que precisavam, e não esta anedota a que hoje assistimos com o segredo de justiça a ser profanado a toda a hora). Tive muito orgulho em participar nesta homenagem com a sua editora, o seu conterrâneo Jaime Rocha, uma magistrada que foi sua aluna (do primeiro curso que as mulheres puderam frequentar no Centro de Estudos Judiciários) e a querida poeta e actriz Raquel Patricarca, que tive a sorte de ver contracenar com Laborinho Lúcio durante as Correntes d'Escritas. Lembrem Laborinho Lúcio e leiam-no. Eu aprendi muito com A Vida na Selva.

5L

De 5 a 10 de Maio vai acontecer em Lisboa mais uma edição do festival Literário 5L, desta vez com curadoria do escritor, crítico e comentador Pedro Mexia. As actividades decorrerão sobretudo na Biblioteca do Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, e espera-se que o tempo ajude, pois o melhor de tudo é o grande relvado nas traseiras no qual costuma haver apresentações de livros. Além delas, estão previstas conversas, concertos, filmes e exposições, com programação também para as crianças, a família e as escolas, promovendo o encontro entre criadores e público de todas as idades. Virá o magnífico Geoff Dyer (já falei dos seus livros aqui no blogue) e será feita, muito justamente, uma homenagem ao português António Lobo Antunes, desaparecido recentemente, nas vozes de Maria Rueff e Rui Cardoso Martins. A programação vai no link abaixo. Apareçam.


Lisboa 5L – Agenda Digital 5L

Baloiçar no real e na ficção

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Hoje saio de Lisboa para me deslocar à Figueira da Foz, onde decorre ao fim da tarde o lançamento do novo romance de António Tavares, autor de seis livros, um dos quais ganhou o Prémio LeYa; esse decorria durante o Estado Novo numa aldeia com um grupo de personagens inesquecível. O novo chama-se A Arte Pendular do Baloiço e a história salta alguns anos e já se passa em plena democracia, na época em que uma avioneta levando o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro cai em Camarate, nunca se tirando a limpo se se tratou de acidente ou atentado. Mas, além da História com H, a história diz respeito a um rapaz que sabe que a namorada morreu na aldeia pouco depois do parto e desconfia de que a criança, que suspeita ser sua filha, foi parar ao colo do mecânico que fez a vistoria da tal avioneta que caiu. Dois enredos bem cruzados de que mais logo falará no Auditório da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz a professora Graça Capinha. Vamos ouvi-la?


convite_a_arte_pendular_do_baloico2 corrigido.png

Livros e política

Conheci a editora francesa Grasset et Fasquelle ainda com Ariane Fasquelle ao leme, substituindo o pai, Jean-Claude Fasquelle, seu fundador. Após a morte de Ariane, ou ainda antes (já não me recordo), a editora foi comprada pelo grupo Hachette, um autêntico gigante editorial. O editor da Grasset Olivier Nora, respeitadíssimo no meio dos livros e amado pelos autores, continuou a sua linha editorial que, pelos vistos, o dono ou presidente da Hachette, que é de extrema-direita, achou demasiado esquerdista. Resultado: foi despedido ao fim de vinte e seis anos a fazer a editora ao lado dos Fasquelle e depois disso. A escandaleira rebentou em França, claro; e agora mais de uma centena de autores (a Grasset é uma grande editora) juntou-se para rescindir os contratos, pois não se identifica com a política da Hachette nem quer ser conotada com a Extrema-Direita. Pois é, a política está a chegar aos livros e parece que é justamente em França, um país que nos habituámos a ver como livre e aberto, que a censura está a aparecer paulatinamente. Um susto. Do grupo Hachette fazem parte muitas outras chancelas (Lattès, Fayard, Larousse...) nas quais é provável que aconteça o mesmo. Se os autores se conseguirem libertar do jugo da Hachette, esta vai perder mesmo muito dinheiro.

Livros e política

Conheci a editora francesa Grasset et Fasquelle ainda com Ariane Fasquelle ao leme, substituindo o pai, Jean-Claude Fasquelle, seu fundador. Após a morte de Ariane, ou ainda antes (já não me recordo), a editora foi comprada pelo grupo Hachette, um autêntico gigante editorial. O editor da Grasset Olivier Nora, respeitadíssimo no meio dos livros e amado pelos autores, continuou a sua linha editorial que, pelos vistos, o dono ou presidente da Hachette, que é de extrema-direita, achou demasiado esquerdista. Resultado: foi despedido ao fim de vinte e seis anos a fazer a editora ao lado dos Fasquelle e depois disso. A escandaleira rebentou em França, claro; e agora mais de uma centena de autores (a Grasset é uma grande editora) juntou-se para rescindir os contratos, pois não se identifica com a política da Hachette nem quer ser conotada com a Extrema-Direita. Pois é, a política está a chegar aos livros e parece que é justamente em França, um país que nos habituámos a ver como livre e aberto, que a censura está a aparecer paulatinamente. Um susto. Do grupo Hachette fazem parte muitas outras chancelas (Lattès, Fayard, Larousse...) nas quais é provável que aconteça o mesmo. Se os autores se conseguirem libertar do jugo da Hachette, esta vai perder mesmo muito dinheiro.

Excerto da Quinzena

Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.


Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.


 


A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares

Excerto da Quinzena

Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.


Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.


 


A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares

Dia do Livro

Hoje é Dia Mundial do Livro e há que celebrar... lendo, pois claro, e comprando livros. A data foi escolhida por ser simultaneamente o aniversário da morte de Shakespeare e Cervantes, dois dos maiores e mais inventivos escritores de todos os tempos. Em Espanha, especialmente em Barcelona, esta data, conhecida por Sant Jordi (dia de S. Jorge), é uma verdadeira loucura, com as livrarias cheias de gente, bancas de autógrafos por todo o lado, as Ramblas cheias de barraquinhas, flores oferecidas a quem comprar livros. É que, na Catalunha, 23 de Abril é também Dia dos Namorados, e faz parte da tradição oferecer-se um livro e uma rosa a quem se ama. Sei que muitos autores estrangeiros vão de propósito a Barcelona para sessões de autógrafos, pois costumam assinar muitos livros andando de banca em banca. Quem me dera que cá acontecesse o mesmo. Não é que não haja também bastantes actividades neste dia na nossa terrinha, mas não tem mesmo nada de comparável. Temos de fazer por isso, e sermos nós a festejar pessoalmente o Dia do Livro. Lendo um livro novinho em folha é uma boa maneira.


 

Dia do Livro

Hoje é Dia Mundial do Livro e há que celebrar... lendo, pois claro, e comprando livros. A data foi escolhida por ser simultaneamente o aniversário da morte de Shakespeare e Cervantes, dois dos maiores e mais inventivos escritores de todos os tempos. Em Espanha, especialmente em Barcelona, esta data, conhecida por Sant Jordi (dia de S. Jorge), é uma verdadeira loucura, com as livrarias cheias de gente, bancas de autógrafos por todo o lado, as Ramblas cheias de barraquinhas, flores oferecidas a quem comprar livros. É que, na Catalunha, 23 de Abril é também Dia dos Namorados, e faz parte da tradição oferecer-se um livro e uma rosa a quem se ama. Sei que muitos autores estrangeiros vão de propósito a Barcelona para sessões de autógrafos, pois costumam assinar muitos livros andando de banca em banca. Quem me dera que cá acontecesse o mesmo. Não é que não haja também bastantes actividades neste dia na nossa terrinha, mas não tem mesmo nada de comparável. Temos de fazer por isso, e sermos nós a festejar pessoalmente o Dia do Livro. Lendo um livro novinho em folha é uma boa maneira.


 

Palavrinhas

Uma das mais fantásticas recompensas da leitura é, além da beleza que nos pode ser mostrada numa simples passagem, o que pode ensinar-nos um livro. Um dia destes, estava a ler o original de uma autora minha cujo cenário é a bela Itália, quando descobri que o verbo «carregar» (que associo imediatamente a «carga») tem a mesma raiz etimológica de «caricatura», palavra muito mais próxima de «caricare», que é a tradução italiana de «carregar». O «carregador» é, em italiano «caricatore» e foi por aí que a minha autora descobriu a etimologia. Este verbo português «carregar» tem, de facto, um número incrível de sinónimos, como «transportar», «levar», «encher», «exagerar», «fazer pesar», «insistir», «pôr munições numa arma» ou até «sublinhar», que é o que hoje me interessa, porque na «caricatura» o que fazemos é realmente sublinhar os traços mais característicos de alguém, e é por isso que as duas palavras (carregar e caricatura) estão ligadas. É também do verbo «carregar» que vem o verbo «encarregar», e por isso uma pessoa é «encarregada» de fazer alguma coisa (por favor, não escrevam encarregue, que é um erro feio e não existe!) tal como alguém é «carregado» em ombros. Palavrinhas.

Palavrinhas

Uma das mais fantásticas recompensas da leitura é, além da beleza que nos pode ser mostrada numa simples passagem, o que pode ensinar-nos um livro. Um dia destes, estava a ler o original de uma autora minha cujo cenário é a bela Itália, quando descobri que o verbo «carregar» (que associo imediatamente a «carga») tem a mesma raiz etimológica de «caricatura», palavra muito mais próxima de «caricare», que é a tradução italiana de «carregar». O «carregador» é, em italiano «caricatore» e foi por aí que a minha autora descobriu a etimologia. Este verbo português «carregar» tem, de facto, um número incrível de sinónimos, como «transportar», «levar», «encher», «exagerar», «fazer pesar», «insistir», «pôr munições numa arma» ou até «sublinhar», que é o que hoje me interessa, porque na «caricatura» o que fazemos é realmente sublinhar os traços mais característicos de alguém, e é por isso que as duas palavras (carregar e caricatura) estão ligadas. É também do verbo «carregar» que vem o verbo «encarregar», e por isso uma pessoa é «encarregada» de fazer alguma coisa (por favor, não escrevam encarregue, que é um erro feio e não existe!) tal como alguém é «carregado» em ombros. Palavrinhas.

A culpa morre solteira

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No final de 1980, em vésperas de eleições presidenciais, uma avioneta cai em Camarate logo após levantar voo. Nela seguiam, entre outros, o chefe do governo de Portugal e o seu ministro da Defesa, que morrem carbonizados. Com dez comissões parlamentares de inquérito, ainda hoje, volvidas mais de quatro décadas, não se sabe se foi acidente ou atentado, e ninguém foi a julgamento. Na mesma altura, um grupo de revolucionários radicais cria uma organização terrorista conhecida por FP-25, cuja missão é matar os «inimigos do povo». Setenta e três réus são julgados, mas apenas uns trinta condenados e – entre amnistias e prescrições – poucos cumprem prisão efectiva. Entretanto, numa aldeia às portas de Lisboa onde não se deixa que nasça nem mais uma criança, uma rapariga morrerá misteriosamente pouco depois de dar à luz. A recém-nascida acabará ao colo do mecânico da avioneta acidentada; e o seu pai biológico – amigo do polícia que investiga os casos descritos – procurará durante muitos anos essa filha que passará boa parte da infância em cima de um baloiço. Estas são as pontas que nunca se atam verdadeiramente em A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares: um romance absolutamente fascinante, no qual se afirma, não sem alguma razão, que em Portugal nunca há culpados. Sai hoje.


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A culpa morre solteira

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No final de 1980, em vésperas de eleições presidenciais, uma avioneta cai em Camarate logo após levantar voo. Nela seguiam, entre outros, o chefe do governo de Portugal e o seu ministro da Defesa, que morrem carbonizados. Com dez comissões parlamentares de inquérito, ainda hoje, volvidas mais de quatro décadas, não se sabe se foi acidente ou atentado, e ninguém foi a julgamento. Na mesma altura, um grupo de revolucionários radicais cria uma organização terrorista conhecida por FP-25, cuja missão é matar os «inimigos do povo». Setenta e três réus são julgados, mas apenas uns trinta condenados e – entre amnistias e prescrições – poucos cumprem prisão efectiva. Entretanto, numa aldeia às portas de Lisboa onde não se deixa que nasça nem mais uma criança, uma rapariga morrerá misteriosamente pouco depois de dar à luz. A recém-nascida acabará ao colo do mecânico da avioneta acidentada; e o seu pai biológico – amigo do polícia que investiga os casos descritos – procurará durante muitos anos essa filha que passará boa parte da infância em cima de um baloiço. Estas são as pontas que nunca se atam verdadeiramente em A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares: um romance absolutamente fascinante, no qual se afirma, não sem alguma razão, que em Portugal nunca há culpados. Sai hoje.


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Para a infância

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Nasceu no inverno de 1970. Começou a sua carreira literária em 1993 com um livro de poesia e, no ano seguinte, publicou a sua primeira ficção. Após ter-se tornado mãe em agosto de 2000, num dia de chuva intensa, desenvolveu um profundo interesse por livros infantis, o que a motivou a escrever uma história infantil para as crianças que têm medo da trovoada e cuja capa aqui vos deixamos. Chama-se Han Kang, é autora de vários romances para adultos, dos quais estão publicados em Portugal A Vegetariana, Atos Humanos, O Livro Branco, Lições de Grego e Despedidas Impossíveis, estando previsto sair em breve Tinta e Sangue. Venceu os prémios literários Yi Sang, Manhae, Hwang Sun-won, International Booker, Médicis e, em 2024, tornou-se a primeira autora sul-coreana a receber o Prémio Nobel de Literatura. Boa semana.


 


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Para a infância

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Nasceu no inverno de 1970. Começou a sua carreira literária em 1993 com um livro de poesia e, no ano seguinte, publicou a sua primeira ficção. Após ter-se tornado mãe em agosto de 2000, num dia de chuva intensa, desenvolveu um profundo interesse por livros infantis, o que a motivou a escrever uma história infantil para as crianças que têm medo da trovoada e cuja capa aqui vos deixamos. Chama-se Han Kang, é autora de vários romances para adultos, dos quais estão publicados em Portugal A Vegetariana, Atos Humanos, O Livro Branco, Lições de Grego e Despedidas Impossíveis, estando previsto sair em breve Tinta e Sangue. Venceu os prémios literários Yi Sang, Manhae, Hwang Sun-won, International Booker, Médicis e, em 2024, tornou-se a primeira autora sul-coreana a receber o Prémio Nobel de Literatura. Boa semana.


 


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Poesia portuguesa no Luxemburgo

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Esta semana encho os Extraordinários de poesia para ver se se habituam. A Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português Camões no Luxemburgo participam, como sempre, na Primavera dos Poetas no Luxemburgo, que decorrerá entre hoje e domingo e desta vez tem o tema «A Liberdade. Força viva, desdobrada». Fui no ano passado e gostei muito, mas este ano estou muito feliz porque irá José Carlos Barros, de quem publiquei uma colectânea no ano passado intitulada Taludes Instáveis e vários romances (um dos quais ganhou o Prémio LeYa). Ele participará na Grande Noite de Poesia, no Cercle Cité, amanhã às 19h, e depois, no domingo às 11h00, na Manhã Poética, na Galeria Simoncini do hotel com o mesmo nome (os quartos são minúsculos mas o sítio é óptimo e muito confortável). Geralmente, fazem-se traduções para francês dos poemas lidos, para o público poder acompanhar melhor, mas as leituras são sempre feitas nas línguas dos poetas. Boa viagem, José Carlos!


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Poesia portuguesa no Luxemburgo

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Esta semana encho os Extraordinários de poesia para ver se se habituam. A Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português Camões no Luxemburgo participam, como sempre, na Primavera dos Poetas no Luxemburgo, que decorrerá entre hoje e domingo e desta vez tem o tema «A Liberdade. Força viva, desdobrada». Fui no ano passado e gostei muito, mas este ano estou muito feliz porque irá José Carlos Barros, de quem publiquei uma colectânea no ano passado intitulada Taludes Instáveis e vários romances (um dos quais ganhou o Prémio LeYa). Ele participará na Grande Noite de Poesia, no Cercle Cité, amanhã às 19h, e depois, no domingo às 11h00, na Manhã Poética, na Galeria Simoncini do hotel com o mesmo nome (os quartos são minúsculos mas o sítio é óptimo e muito confortável). Geralmente, fazem-se traduções para francês dos poemas lidos, para o público poder acompanhar melhor, mas as leituras são sempre feitas nas línguas dos poetas. Boa viagem, José Carlos!


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Sobre a mesa muito se diz

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Esta semana começou bem para Paulo Moreiras, autor de romances, e agora também de um belíssimo livro de curiosidades gastronómicas (e não só), intitulado Do Palito à Perdiz sobre a Mesa muito Se Diz. O enorme Fernando Alves, que em boa hora regressou à TSF, dedicou-lhe uma das suas maravilhosas crónicas, a de segunda-feira passada, que pode, de resto, escutar online na página da estação de rádio porque a prosa do Fernando vale mesmo a pena. Mas já a semana anterior tinha acabado bem para o Paulo Moreiras com um elogio a este seu livro naquele programa de que não se pode dizer o nome, desta feita pela boca do jornalista Carlos Vaz Marques, que lhe dedicou uns minutos entusiásticos. Paulo Moreiras, uma pessoa que gosta muito de ler, escrever, comer e beber, não raro junta tudo isto e faz admiráveis recolhas de costumes, aforismos, adivinhas, tradições, excertos coloridos de obras literárias, como foi o caso neste livro, do qual constam histórias divertidas sobre coisas tipicamente portuguesas, como o palito, a morcela, a ginjinha ou o tremoço. Um livro com design de Maria Manuel Lacerda que dá mesmo um belo presente. Obrigada por mais esta beldade literária, Paulo!


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Sobre a mesa muito se diz

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Esta semana começou bem para Paulo Moreiras, autor de romances, e agora também de um belíssimo livro de curiosidades gastronómicas (e não só), intitulado Do Palito à Perdiz sobre a Mesa muito Se Diz. O enorme Fernando Alves, que em boa hora regressou à TSF, dedicou-lhe uma das suas maravilhosas crónicas, a de segunda-feira passada, que pode, de resto, escutar online na página da estação de rádio porque a prosa do Fernando vale mesmo a pena. Mas já a semana anterior tinha acabado bem para o Paulo Moreiras com um elogio a este seu livro naquele programa de que não se pode dizer o nome, desta feita pela boca do jornalista Carlos Vaz Marques, que lhe dedicou uns minutos entusiásticos. Paulo Moreiras, uma pessoa que gosta muito de ler, escrever, comer e beber, não raro junta tudo isto e faz admiráveis recolhas de costumes, aforismos, adivinhas, tradições, excertos coloridos de obras literárias, como foi o caso neste livro, do qual constam histórias divertidas sobre coisas tipicamente portuguesas, como o palito, a morcela, a ginjinha ou o tremoço. Um livro com design de Maria Manuel Lacerda que dá mesmo um belo presente. Obrigada por mais esta beldade literária, Paulo!


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Antologia

Agora, que estão a terminar as celebrações dos 60 anos das Publicações Dom Quixote, sai uma antologia de poesia que inclui todos os poetas portugueses que foram editados por esta chancela desde o tempo de Snu Abecassis e dos fabulosos Cadernos de Poesia. Neles, saíram livros de autores emblemáticos, como Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Sophia ou o então novíssimo Nuno Júdice, que neles publicou o seu livro de estreia. Mas, mesmo depois de Snu ter morrido e a editora ter passado por várias outras mãos, muitos destes poetas permaneceram e outros juntaram-se-lhes, como foi o caso de Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral, Eduardo Pitta ou, mais recentemente, José Carlos de Vasconcelos. Todos eles têm na antogia Dom Quixote 60 Anos de Poesia, organizada por Manuel Alberto Valente (sim, o Manel), que trabalhou muitos anos na editora, um poema do primeiro livro que publicaram na casa. São poemas de tempos muito diferentes (de Bocage a Salvador Santos) que vale a pena acompanhar. Parabéns, Dom Quixote!

Antologia

Agora, que estão a terminar as celebrações dos 60 anos das Publicações Dom Quixote, sai uma antologia de poesia que inclui todos os poetas portugueses que foram editados por esta chancela desde o tempo de Snu Abecassis e dos fabulosos Cadernos de Poesia. Neles, saíram livros de autores emblemáticos, como Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Sophia ou o então novíssimo Nuno Júdice, que neles publicou o seu livro de estreia. Mas, mesmo depois de Snu ter morrido e a editora ter passado por várias outras mãos, muitos destes poetas permaneceram e outros juntaram-se-lhes, como foi o caso de Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral, Eduardo Pitta ou, mais recentemente, José Carlos de Vasconcelos. Todos eles têm na antogia Dom Quixote 60 Anos de Poesia, organizada por Manuel Alberto Valente (sim, o Manel), que trabalhou muitos anos na editora, um poema do primeiro livro que publicaram na casa. São poemas de tempos muito diferentes (de Bocage a Salvador Santos) que vale a pena acompanhar. Parabéns, Dom Quixote!

Mistérios

Há muitos anos, presumo que no início deste século, quando publicava os livros de José Luís Peixoto (o que, grosso modo, só durou até 2004 ou 2005), recebi de presente deste autor um romance de Margaret Atwood (ainda um dia destes encontrei o respectivo marcador, que era bem original e devo ter guardado longe do livro por causa disso). Chamava-se O Assassino Cego e ganhou o Booker Prize. Na altura achei o livro interessante, era uma história entre duas irmãs que metia um caderno no qual uma delas, antes de se suicidar, contava um relacionamento amoroso com alguém que a irmã mais velha suspeita ter sido uma das suas paixões de adolescência. Era mais do que isto, evidentemente, mas já não me lembro muito bem do resto. Do que me lembro, e bem, é curiosamente de um outro livro da autora de que não gostei nada: aquele História de Uma Serva que fez furor, foi adaptado à televisão, vendeu milhões de exemplares e trouxe a escritora canadiana para o estrelato, tornando-a uma das mais solicitadas em festivais literários de todo o mundo (a propósito, Atwood estará cá em Junho, no Porto, para o Babell). Será que o que nos marca negativamente permanece mais tempo do que tudo o que nos deixa uma leve boa impressão? Mistérios.

Mistérios

Há muitos anos, presumo que no início deste século, quando publicava os livros de José Luís Peixoto (o que, grosso modo, só durou até 2004 ou 2005), recebi de presente deste autor um romance de Margaret Atwood (ainda um dia destes encontrei o respectivo marcador, que era bem original e devo ter guardado longe do livro por causa disso). Chamava-se O Assassino Cego e ganhou o Booker Prize. Na altura achei o livro interessante, era uma história entre duas irmãs que metia um caderno no qual uma delas, antes de se suicidar, contava um relacionamento amoroso com alguém que a irmã mais velha suspeita ter sido uma das suas paixões de adolescência. Era mais do que isto, evidentemente, mas já não me lembro muito bem do resto. Do que me lembro, e bem, é curiosamente de um outro livro da autora de que não gostei nada: aquele História de Uma Serva que fez furor, foi adaptado à televisão, vendeu milhões de exemplares e trouxe a escritora canadiana para o estrelato, tornando-a uma das mais solicitadas em festivais literários de todo o mundo (a propósito, Atwood estará cá em Junho, no Porto, para o Babell). Será que o que nos marca negativamente permanece mais tempo do que tudo o que nos deixa uma leve boa impressão? Mistérios.

Uma autobiografia química

Talvez por o ter traduzido há muitíssimos anos (e revisto há uns dez), mandaram-me do Brasil um exemplar de A Tabela Periódica, de Primo Levi, que acaba por ser uma espécie de autobiografia em vinte e tal capítulos, cada qual relacionado com um elemento químico. Carbono, zinco, ferro, níquel, hélio e muitos outros servem de ponto de partida para Levi, químico e escritor judeu italiano que esteve num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, falar da trajectória da sua vida, desde os anos de formação no Piemonte, passando pela descoberta da vocação e pela experiência profissional, chegando ao testemunho do horror nazi e ao regresso a uma Itália completamente devastada no fim da guerra. Brilhante como outros livros do autor (Se Isto É Um Homem, A Trégua, Se não agora quando?...), este livro foi traduzido em muitas línguas e, no Reino Unido, foi também considerado o melhor livro de ciência já escrito, embora não seja um livro científico, mas uma reflexão sobre como a condição humana resiste a limites impensáveis (os relatos que têm que ver com o campo são terríveis mas magníficos. Saul Bellow referiu que A Tabela Periódica não tem nada de supérfluo e que o impressionou muito. Gostei de o ler e de o traduzir. Oxalá os Extraordinários o leiam. Para nunca esquecer, sobretudo num tempo que há loucos ao leme neste mundo.

Uma autobiografia química

Talvez por o ter traduzido há muitíssimos anos (e revisto há uns dez), mandaram-me do Brasil um exemplar de A Tabela Periódica, de Primo Levi, que acaba por ser uma espécie de autobiografia em vinte e tal capítulos, cada qual relacionado com um elemento químico. Carbono, zinco, ferro, níquel, hélio e muitos outros servem de ponto de partida para Levi, químico e escritor judeu italiano que esteve num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, falar da trajectória da sua vida, desde os anos de formação no Piemonte, passando pela descoberta da vocação e pela experiência profissional, chegando ao testemunho do horror nazi e ao regresso a uma Itália completamente devastada no fim da guerra. Brilhante como outros livros do autor (Se Isto É Um Homem, A Trégua, Se não agora quando?...), este livro foi traduzido em muitas línguas e, no Reino Unido, foi também considerado o melhor livro de ciência já escrito, embora não seja um livro científico, mas uma reflexão sobre como a condição humana resiste a limites impensáveis (os relatos que têm que ver com o campo são terríveis mas magníficos. Saul Bellow referiu que A Tabela Periódica não tem nada de supérfluo e que o impressionou muito. Gostei de o ler e de o traduzir. Oxalá os Extraordinários o leiam. Para nunca esquecer, sobretudo num tempo que há loucos ao leme neste mundo.

Excerto da Quinzena

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. [...]


 


Julian Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Excerto da Quinzena

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. [...]


 


Julian Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Os escritores são de confiança?

A pergunta do título tem que se lhe diga, bem sei. Há tanta gente que, quando conhece um escritor em carne e osso, fica a pensar se não teria sido melhor ficar-se por lê-lo... Mas hoje não estou a falar do homem ou da mulher por detrás da obra, e sim da imagem do escritor no público (leitor e não leitor). Chega-me a notícia de um senhor caiu numa burla dessas que todos os dias chegam ao telefone ou ao correio electrónico de alguém para ver se o apanham distraído. E porque é que o tal senhor caiu se estamos sempre a ser avisados? Bem, porque lhe propunham um investimento que parecia bom e ele foi lá pondo dinheiro, até parar na quantia apetitosa de 18.000 euros, calculem. Fiou-se em que o negócio era decente e legal apenas porque, entre outros investidores, aparecia quem? António Lobo Antunes! E, se o senhor escritor tinha investido, não havia razões para desconfiar. Oh, meu Deus, mas desde quando os escritores percebem mais de finanças do que outra pessoa qualquer? Logo os escritores, que geralmente precisam de alguém que lhes preencha o formulário do IRS e se esquecem de pagar o IMI, o IVA e coisas do género? Será que ainda se olha para o escritor como aquele membro da aristocracia intelectual que sabe muito bem o que faz e é mais inteligente do que a maioria? Desenganem-se. Não invistam em nada só por dizerem que um escritor (ainda por cima, morto) pôs lá o seu dinheiro. Em vez disso, leiam-no, isso, sim.

Os escritores são de confiança?

A pergunta do título tem que se lhe diga, bem sei. Há tanta gente que, quando conhece um escritor em carne e osso, fica a pensar se não teria sido melhor ficar-se por lê-lo... Mas hoje não estou a falar do homem ou da mulher por detrás da obra, e sim da imagem do escritor no público (leitor e não leitor). Chega-me a notícia de um senhor caiu numa burla dessas que todos os dias chegam ao telefone ou ao correio electrónico de alguém para ver se o apanham distraído. E porque é que o tal senhor caiu se estamos sempre a ser avisados? Bem, porque lhe propunham um investimento que parecia bom e ele foi lá pondo dinheiro, até parar na quantia apetitosa de 18.000 euros, calculem. Fiou-se em que o negócio era decente e legal apenas porque, entre outros investidores, aparecia quem? António Lobo Antunes! E, se o senhor escritor tinha investido, não havia razões para desconfiar. Oh, meu Deus, mas desde quando os escritores percebem mais de finanças do que outra pessoa qualquer? Logo os escritores, que geralmente precisam de alguém que lhes preencha o formulário do IRS e se esquecem de pagar o IMI, o IVA e coisas do género? Será que ainda se olha para o escritor como aquele membro da aristocracia intelectual que sabe muito bem o que faz e é mais inteligente do que a maioria? Desenganem-se. Não invistam em nada só por dizerem que um escritor (ainda por cima, morto) pôs lá o seu dinheiro. Em vez disso, leiam-no, isso, sim.

Na final

Há tempos escrevi aqui um post sobre ter vários autores meus entre os candidatos a um prémio da Livraria Bertrand e não poder votar senão num deles, preferindo então não votar em nenhum para não preterir ninguém. Mas agora saiu a lista de finalistas e, dos três, ficou apenas um candidato. Trata-se do romance de estreia de Luísa Sobral, também cantora e escritora de canções, chamado Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que já teve catorze edições desde que saiu, em Fevereiro de 2025, e nunca deixou realmente as montras e as prateleiras mais visíveis das livrarias nem os testemunhos de leitores felizes nas redes sociais. É um livro muito bonito e delicado sobre uma mãe e uma filha na Alemanha durante o período da Guerra Fria e das vidas sempre ameaçadas pelas ditaduras. Tem mais de um registo literário, o que só o enriquece, e goza ainda, em cada novo capítulo, de uma belíssimas ilustrações de espécimes vegetais, de Camila Beirão, até porque uma das protagonistas adora desenhar plantas. Se não o leram, vão muito a tempo, e se quiserem votar nele, melhor. Mas há mais livros bons na final, claro, e o mais importante é que os leiam e não os deixem perdidos e sozinhos nas prateleiras.

Na final

Há tempos escrevi aqui um post sobre ter vários autores meus entre os candidatos a um prémio da Livraria Bertrand e não poder votar senão num deles, preferindo então não votar em nenhum para não preterir ninguém. Mas agora saiu a lista de finalistas e, dos três, ficou apenas um candidato. Trata-se do romance de estreia de Luísa Sobral, também cantora e escritora de canções, chamado Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que já teve catorze edições desde que saiu, em Fevereiro de 2025, e nunca deixou realmente as montras e as prateleiras mais visíveis das livrarias nem os testemunhos de leitores felizes nas redes sociais. É um livro muito bonito e delicado sobre uma mãe e uma filha na Alemanha durante o período da Guerra Fria e das vidas sempre ameaçadas pelas ditaduras. Tem mais de um registo literário, o que só o enriquece, e goza ainda, em cada novo capítulo, de uma belíssimas ilustrações de espécimes vegetais, de Camila Beirão, até porque uma das protagonistas adora desenhar plantas. Se não o leram, vão muito a tempo, e se quiserem votar nele, melhor. Mas há mais livros bons na final, claro, e o mais importante é que os leiam e não os deixem perdidos e sozinhos nas prateleiras.

Celebrar Lobo Antunes

Perdemos António Lobo Antunes, o homem, mas não perdemos a sua obra, e dela fazem parte os magníficos livros de crónicas que foi escrevendo ao longo dos anos, sobretudo na revista Visão, muitas delas brilhantes e inesquecíveis. É sobretudo por elas que sabemos de muitos dados da sua vida pessoal, entre os quais que havia uma casa dos avós maternos em Nelas onde os irmãos passavam férias em pequenos. Pois bem, na sua décima edição, ELOS, o Festival de Nelas, organizado pela Câmara Municipal para as datas de 17 a 24 de Abril, vai celebrar o escritor através de um percurso literário com catorze pontos de paragem ao qual chamou «Pelas Memórias de Lobo Antunes», pontos esses constantes dos seus livros de crónicas, como, por exemplo, a loja do senhor Casimiro onde se compravam rebuçados. O percurso, aliás, existe desde 2023 mas a ideia é perpetuá-lo e dar-lhe uma vida permanente, para lembrar o escritor infelizmente desaparecido há cerca de um mês. A programação é diversificada e divide-se por actividades para adultos e outras dedicadas ao público escolar. O tema será «Escritores e Autores do Coração do Dão».

Celebrar Lobo Antunes

Perdemos António Lobo Antunes, o homem, mas não perdemos a sua obra, e dela fazem parte os magníficos livros de crónicas que foi escrevendo ao longo dos anos, sobretudo na revista Visão, muitas delas brilhantes e inesquecíveis. É sobretudo por elas que sabemos de muitos dados da sua vida pessoal, entre os quais que havia uma casa dos avós maternos em Nelas onde os irmãos passavam férias em pequenos. Pois bem, na sua décima edição, ELOS, o Festival de Nelas, organizado pela Câmara Municipal para as datas de 17 a 24 de Abril, vai celebrar o escritor através de um percurso literário com catorze pontos de paragem ao qual chamou «Pelas Memórias de Lobo Antunes», pontos esses constantes dos seus livros de crónicas, como, por exemplo, a loja do senhor Casimiro onde se compravam rebuçados. O percurso, aliás, existe desde 2023 mas a ideia é perpetuá-lo e dar-lhe uma vida permanente, para lembrar o escritor infelizmente desaparecido há cerca de um mês. A programação é diversificada e divide-se por actividades para adultos e outras dedicadas ao público escolar. O tema será «Escritores e Autores do Coração do Dão».

Bolsas de criação

A Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas concede anualmente bolsas de criação literária num concurso que se divide por diversas áreas: ficção, ensaio, poesia, por vezes literatura infanto-juvenil (mas esta categoria, ao que sei, passou a ser independente), por vezes teatro (dramaturgia) e banda desenhada... O valor este ano foi de cerca de 360 mil euros (nada mau) e contemplou 42 autores. Quando estas bolsas, que já tinham existido no início do século XX, foram retomadas há uns anos depois de um longo jejum, colaborei na elaboração do regulamento com Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, José Maria Vieira Mendes e algumas outras pessoas, parte delas da própria Direcção-Geral. Uma das coisas que não consegui mudar nessa altura foi a obrigatoriedade de os candidatos não terem um emprego; mas soube agora que este ano puderam concorrer pessoas empregadas e fiquei contente de essa situação, finalmente, ter sido ultrapassada, pois não estava a ver pessoas desempregarem-se só para terem acesso à bolsa, que dificilmente cobre um salário. Entre os contemplados deste ano, reconheço alguns nomes (os poetas Frederico Pedreira e Raquel Nobre Guerra, por exemplo, já com vasta obra publicada, e curiosamente a jornalista Inês Bernardo, de cujo romance de estreia falei aqui há dias); mas a lista está publicada e pode ser consultada na ligação abaixo (pena não sabermos com que projectos concorrem os candidatos):


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Bolsas-Anuais-de-Criacao-Literaria-2025_Divulgacao-dos-Resultados.aspx


 


  

Bolsas de criação

A Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas concede anualmente bolsas de criação literária num concurso que se divide por diversas áreas: ficção, ensaio, poesia, por vezes literatura infanto-juvenil (mas esta categoria, ao que sei, passou a ser independente), por vezes teatro (dramaturgia) e banda desenhada... O valor este ano foi de cerca de 360 mil euros (nada mau) e contemplou 42 autores. Quando estas bolsas, que já tinham existido no início do século XX, foram retomadas há uns anos depois de um longo jejum, colaborei na elaboração do regulamento com Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, José Maria Vieira Mendes e algumas outras pessoas, parte delas da própria Direcção-Geral. Uma das coisas que não consegui mudar nessa altura foi a obrigatoriedade de os candidatos não terem um emprego; mas soube agora que este ano puderam concorrer pessoas empregadas e fiquei contente de essa situação, finalmente, ter sido ultrapassada, pois não estava a ver pessoas desempregarem-se só para terem acesso à bolsa, que dificilmente cobre um salário. Entre os contemplados deste ano, reconheço alguns nomes (os poetas Frederico Pedreira e Raquel Nobre Guerra, por exemplo, já com vasta obra publicada, e curiosamente a jornalista Inês Bernardo, de cujo romance de estreia falei aqui há dias); mas a lista está publicada e pode ser consultada na ligação abaixo (pena não sabermos com que projectos concorrem os candidatos):


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Bolsas-Anuais-de-Criacao-Literaria-2025_Divulgacao-dos-Resultados.aspx


 


  

LYvros

A LeYa tinha uma livraria online bastante elementar e, numa altura em que cada vez mais compras se fazem pela Internet, era mesmo preciso vesti-la de lavado. Pois bem: a minha colega Diana Monsanto meteu mãos à obra, trabalhou com a equipa informática e agora existe uma nova plataforma chamada LYvros que pode ser acedida publicamente pelo endereço www.lyvros.com. Como consta do comunicado difundido, «este novo espaço representa um passo estrutural na afirmação da estratégia digital da empresa. Reúne milhares de títulos em múltiplos formatos (livro físico, eBook e audiolivro)  e materializa a ambição da LeYa de oferecer uma experiência integrada, contínua e centrada no leitor. Em paralelo, cria-se a nova aplicação LeYa LYvros, disponível para Android e iOS, que permite ler e ouvir conteúdos digitais com funcionalidades alinhadas com os mais elevados padrões internacionais. Mais do que um novo canal, esta plataforma  aproxima o grupo editorial dos leitores e abre novas possibilidades de crescimento, conhecimento de mercado e inovação editorial. Experimente-a, vai ver que agora encontrará mais coisas e mais facilmente. E boa Páscoa!

LYvros

A LeYa tinha uma livraria online bastante elementar e, numa altura em que cada vez mais compras se fazem pela Internet, era mesmo preciso vesti-la de lavado. Pois bem: a minha colega Diana Monsanto meteu mãos à obra, trabalhou com a equipa informática e agora existe uma nova plataforma chamada LYvros que pode ser acedida publicamente pelo endereço www.lyvros.com. Como consta do comunicado difundido, «este novo espaço representa um passo estrutural na afirmação da estratégia digital da empresa. Reúne milhares de títulos em múltiplos formatos (livro físico, eBook e audiolivro)  e materializa a ambição da LeYa de oferecer uma experiência integrada, contínua e centrada no leitor. Em paralelo, cria-se a nova aplicação LeYa LYvros, disponível para Android e iOS, que permite ler e ouvir conteúdos digitais com funcionalidades alinhadas com os mais elevados padrões internacionais. Mais do que um novo canal, esta plataforma  aproxima o grupo editorial dos leitores e abre novas possibilidades de crescimento, conhecimento de mercado e inovação editorial. Experimente-a, vai ver que agora encontrará mais coisas e mais facilmente. E boa Páscoa!

O que ando a ler

Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muito fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. Este primeiro romance, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de «amor» da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.

O que ando a ler

Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muito fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. Este primeiro romance, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de «amor» da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.

Babell

Babell é um novo festival literário no Porto, dirigido por Rui Couceiro, ex-editor da Contraponto e escritor. Para quem se perguntar porque tem este «Babell» dois LL, ouvi recentemente a resposta da boca da escritora e biógrafa Patrícia Reis num programa de rádio: sendo a Lello uma das promotoras do evento (a outra é a Câmara Municipal do Porto), os dois LL de Lello (por acaso, são três) tinham de se estender ao nome deste evento. Podemos dizer que se passa no Porto (para os que dizem que tudo se passa na capital, agora não podem queixar-se) e vai trazer autores internacionais de peso, incluindo Prémios Nobel da Literatura, como, por exemplo, a polaca Olga Tokarczuk, e outros nomes imensamente conhecidos, como Salman Rushdie ou Margaret Atwood. Ao que parece, as sessões acontecerão em lugares icónicos da cidade e a entrada far-se-á mediante a prova de compra de um livro numa das livrarias da cidade. Os protagonistas e o programa serão divulgados hoje no Teatro Rivoli às 18h30 num evento com mais de 700 convidados, e vale a pena ficarmos atentos aos jornais de amanhã se não pudermos ir à apresentação, que é o meu caso.