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Escritaria

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No ano passado, o festival Escritaria, organizado pela Câmara Municipal de Penafiel, fez o favor de me homenagear, o que agradeço muito, até porque não é todos os dias que temos oportunidade de ouvir pessoas a falar (só) bem de nós. E hoje mesmo será lançado em Penafiel um livro com esses e outros testemunhos, mas, infelizmente não vou poder estar presente. Se pudesse, estaria a passar o testemunho ao escritor timorense Luís Cardoso, que é o homenageado deste ano (a partir de hoje). Autor de obras como Crónica de Uma Travessia, Requiem para o Navegador Solitário, O Plantador de Abóboras e Hotel Timor, recebeu o Prémio Oceanos em 2021, e o Colar da Ordem de Timor-Leste em 2023. Luís Cardoso vai ter com ele várias personalidades que vão conversar sobre temas da sua obra e sobre o seu país, entre as quais se contam Ondjaki, D. Américo Aguiar, Adelino Gomes, Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos ou Ana Sousa Dias. Participarão também João Gil, Sérgio Godinho e Dulce Pontes e haverá exposições de vídeo e fotografia dedicadas ao território timorense. Entre outras actividades, passará ainda um documentário intitulado O Voo do Crocodilo, O Timor de Ruy Cinatti, de Fernando Vendrell, que comentará o filme junto de Mário Augusto e Lúcio Sousa. A programação é extensa e pode ser consultada no site da Câmara de Penafiel.


 


Bons alunos

Uma vez, disse a uma rapariga que me tinha enviado um livro para avaliação que o texto não tinha qualidade para ser publicado: além de o enredo ser pobre, era demasiado previsível (ao fim de um capítulo, já se sabia como seria o fim) e não havia nada de especialmente original na estrutura ou na linguagem do romance. Qualquer leitor o perceberia e, como tal, recusei-o. A rapariga era bastante jovem (pré-universitária, creio) e ficou compreensivelmente aborrecida. Telefonou-me depois de ler o meu e-mail, dizendo que não compreendia a minha decisão, pois tinha sido sempre a melhor aluna da turma a Português. Tive de lhe dizer que ser competente a Português nada tem que ver com ser um escritor talentoso, embora ache que ela não chegou a aceitar a minha explicação. Mas vejamos: Einstein não era um bom aluno na escola quando talvez todos pensem que era um génio da Matemática. E muitos escritores famosos foram alunos sofríveis, porque, mesmo tendo jeito para escrever, podem ter sido preguiçosos, desatentos (é o mais certo) ou nefelibatas (andar com a cabeça nas nuvens). Escrevo isto a propósito do Prémio Nobel de Literatura Jon Fosse, que tive o privilégio de ouvir no FÓLIO, em Óbidos, numa sessão em que a tenda rebentava pelas costuras. Ora, Fosse explicou que detestava a escola quando era novo, que faltava às aulas e não estudava  (preferia beber) e que foi um enorme espanto para os pais e professores quando uma revista literária aceitou um conto que tinha escrito para publicação quando ele tinha 15 anos. Mas o talento não tem mesmo nada a ver com ser bom aluno. Há grandes marrões que não têm nada de criativo. 

Mulheres que viajam sozinhas

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A vida é uma equação que não se resolve facilmente, mas qualquer escolha que façamos pode significar uma mudança irreversível. Sanna anda cansada do casamento, dos amigos, da rotina e da sensação preocupante de que a sua vida se tornou demasiado previsível. Será mesmo só isso que a espera no futuro? A precisar de uma pausa – e também de se afastar de um colega de trabalho sedutor –, decide viajar sozinha para uma ilha no Mediterrâneo, deixando para trás o marido e as duas gémeas ainda pequenas. No hotel onde se instala, conhece Evelyn, uma mulher mais velha que trouxe consigo uma mala cheia de cartas por abrir, cartas essas que o homem com quem nunca conseguiu partilhar a vida lhe foi escrevendo. Só agora, que ele morreu, Evelyn encontra coragem para revisitar as dolorosas memórias de um tempo que teve tanto de feliz como de triste; e para isso viaja até àquela ilha grega para encerrar uma história de amor marcada pelo poder, pelo silêncio e pela vergonha. Entre as duas mulheres nasce então uma ligação inesperada. Apesar da diferença de idades, reconhecem uma na outra as mesmas inquietações, desejos e remorsos. E, à medida que as suas histórias se entrelaçam, são levadas a confrontar-se com aquilo que realmente devem a si próprias e com o verdadeiro preço das escolhas que fizeram em nome do amor. Este é o enredo de Mulheres Que Viajam Sozinhas, da norueguesa Connie Barr, um livro que fala das escolhas que fazemos e não fazemos, do arrependimento e do remorso.

 


 

 

Zeferino Coelho

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Sabemos por alguns filmes e livros (mas nem era preciso) que o papel do editor não é, na maioria dos casos, insignificante. Claro que se pode discutir o que é um bom editor nos tempos estranhos que correm: se aquele que dá muito dinheiro a ganhar à casa onde trabalha, se aquele que faz um excelente catálogo e dá a conhecer ao público escritores que ficarão na história da literatura. O homem de que hoje falo é deste último tipo. Desde que começou a trabalhar, no Porto, nunca mais deixou os livros, e tem sido responsável por escritores como Isabela Figueiredo ou Patrícia Portela, Ondjaki ou Mia Couto, o historiador Borges Coelho ou o psiquiatra Daniel Sampaio e, para não ficar esquecida, a colecção Uma Aventura. Foi ainda editor de Saramago durante muitos anos, editor também de uma série de autores do espaço da lusofonia (Luandino Vieira, João Melo, Germano Almeida...), sem nunca esquecer a atenção aos escritores mais jovens que hoje já dão cartas, como Joana Bértholo ou Sandro William Junqueira. Pois bem, Zeferino Coelho, o meu colega da Caminho, é homenageado no próximo domingo no FÓLIO, às 14h30, numa iniciativa do Presidente da Câmara de Óbidos, pelo que esperamos por si na Tenda Vila Literária para o merecido tributo. O Presidente da República honra o editor com a sua presença, e faz muito bem. 
 

 

Os esquecidos

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Hoje existem festivais de tudo e mais alguma coisa, as Câmaras não param e multiplicam eventos, e às vezes até as freguesias têm uma programação cultural regular. A de Santo António dos Olivais, em Coimbra, manda-me frequentemente convites para assistir a eventos, e o mesmo acontece com a freguesia de Arroios em Lisboa, que tem várias actividades em marcha. É nesta freguesia, de resto, que o Clube Atlético de Arroios promove em Outubro o Mês da Música; e, como poesia é também música, na próxima sexta-feira, às 21h30, o público contará com o saxofonista José Lencastre para tocar e acompanhar o jornalista e promotor cultural João Morales, que vai dizer «poesia esquecida». Uma excelente ideia para, digamos, falar de autores que podem injustamente cair no esquecimento como poetas, mesmo que em alguns casos a sua obra em prosa esteja disponível e circule. Falo, por exemplo, de José Saramago, Fernando Namora ou Clara Pinto Correia, mas também de Luísa Costa Gomes, Joaquim Castro Caldas, Júlio Henriques, Fernando Grade (lembro-me de ele vender os próprios livros na minha faculdade!) e Zetho Cunha Gonçalves. Vamos lá ouvir?


 


Homenagem a Nuno Júdice

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Nuno Júdice é um dos mais inesquecíveis, premiados e internacionais poetas portugueses. Quem lê os seus poemas encontra uma voz única, e a sua produção poética estendeu-se desde os anos 1970 até muito recentemente, em que foi publicado um livro póstumo de que aqui falei. No âmbito da iniciativa Ler no Chiado, o Centro Nacional de Cultura vai prestar-lhe homenagem logo mais à tarde, que se dividirá em dois momentos distintos. O primeiro, na Livraria Bertrand da Rua Anchieta, onde serão lidos poemas por outros poetas (incluo-me no grupo e faço vénia ao Nuno pelo poema que escolhi e por todos); o segundo, nas próprias instalações do Centro Nacional de Cultura, no qual várias pessoas falarão do grande poeta que (não) perdemos, incluindo Luís Filipe Castro Mendes, que foi dele muito próximo, e Guilherme d'Oliveira Martins. Deixo o cartaz abaixo para que, querendo, possam ir e participar.

 


 

Dignidade

Estava hoje de manhã na editora a falar com um colega da falta de dignidade com que frequentemente somos tratados pelos médicos. No ano passado fui operada a uma anca, mas até descobrir o cirurgião passaram meses. Um dia, recomendaram-me um grande catedrático e operador. Milagrosamente, consegui uma consulta; quando, depois de duas horas de espera, fui atendida, entrei no gabinete, sentei-me e, antes sequer de eu dizer ao que ia, ele perguntou de rajada: «É para operar?» Deu-me o número da secretária e uma data de papelada para a mão, explicando que a lista de espera era de três meses. Não fez mais perguntas, não me quis ver a perna, não me mandou mexer, nada. E ainda tinha atrás dele um provável estudante de Medicina, nunca me tendo explicado quem era o jovem nem pedido autorização para ele assistir à consulta. Eu era apenas um porta-moedas na frente dele. Pois o senhor até podia ser um bom operador, mas não me senti bem tratada, saí, paguei e fui a outro médico talvez menos sonante, mas mais humano. Contava esta história a um colega quando li por acaso que hoje, no El Corte Inglés, às 18h30, António Bagão Félix vai falar da Ética (do Cuidado) e Dignidade da Pessoa. Espero poder lá ir. E quem sabe convidar vários médicos muito pouco humanos para também lá irem aprender qualquer coisa.

Um puzzle de Tabucchi

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Uma mãe melancólica e distante, que ouve no gramofone a canção «Amado mio»; um pai fotografado com o braço eternamente estendido; um tio que colecciona bonecas; uma cave onde algo terrível aconteceu. E também uma Aprilia vermelha, um piano, um rato morto. E, por fim, Duccio, a quem chamam Cino, um rapazinho que descobre o lado mais abjecto da vida e tenta esconjurá-lo com os meios que tem. Por exemplo, escrevendo ao Capitão Nemo... Eis os protagonistas deste romance breve e enigmático, ambientado numa villa na costa toscana, na véspera de um Ano Novo da década de 1950. Uma obra a que Tabucchi se dedicou por muitos anos, sem nunca a publicar, e que declarou até ter destruído, mas estava afinal dividida em agendas, e em várias versões, como um autêntico puzzle. Recuperado por entre os papéis guardados numa gaveta na casa do escritor, e pacientemente reconstruído por Thea Rimini, Cartas ao Capitão Nemo é, nas palavras do autor, «crónica de uma dissociação psíquica, metáfora da solidão ou radiografia de um futuro “vingador”». Um livro onírico e pleno de sugestões, além de um retrato muito eficaz da Itália do pós-guerra. 


 

Excerto da quinzena

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Há histórias horrendas. Parte do labor de se  aguentar estar vivo é aprender a conviver com elas.  No imaginário desta praia tão apreciada, pesam dias  terríveis como aquele em que, sem que ninguém se  apercebesse, duas irmãs penetraram o oceano irado,  atraídas pela lengalenga centrípeta de um redemoinho. Sorvidas por uma crónica implacável. Todos  os que estavam na praia, naquele dia, presenciaram  a demorada batalha entre a certeza da água e da  morte. Foi um tempo todo ele consumido pelos rostos chocados, abesbílicos, de quem assistia.

— Isto é inaceitável…

Houve quem se organizasse em grupo para  vociferar:

— Não consentimos!

Um homem de meia-idade resumiu o senti mento geral de consternação ao dizer:

— O mundo? O mundo está todo ao contrário.

Alguém vaticinou que aquele lugar nunca volta ria a ser o mesmo depois de aquelas duas crianças  morrerem assim, desta forma, perante os nossos olhos tão abertos, tão bem informados. Os leitores  amarguravam-se pelo poder narrativo daquela praia, e lamentavam:

— O que podemos nós fazer? Somos meros leitores! Se ao menos aparecesse o Narrador…

As duas meninas afogaram-se. Parágrafo algum as veio ajudar. Ensombrada por eventos destes, a mais  bela praia da região perdia reconhecimento, mesmo se  nunca o fascínio. Nunca nela cessaram as marés, nem  o ir e vir das histórias que nos levam, palavra a palavra,  parágrafo a parágrafo, onda a onda, reposicionando o  nosso corpo bem longe da costa. Narrativas que nos  despejam em alto-mar, no lençol espesso e branco da folha, sem que ninguém nos dê uma bóia ou um colete insuflável. Nem sequer coordenadas, direcção, ou  caminho de volta. E nós aqui, neste exacto parágrafo,  a ler «e nós aqui, neste exacto parágrafo» sem que se  explique a repetição. Sem saber como viemos aqui  parar, o que significa esta frase, e a próxima, e mais  esta, e o que fazer com elas quando se acumulam desta maneira. O que iremos fazer uma vez que terminem  as palavras, ou como iremos sobrevive.

Joana Bértholo, Do Amor e de Outros Fantasmas (contos)

 


 

A culpa da IA

Recentemente, a história veio a lume. A Academia Goncourt, responsável pela atribuição em França do prémio literário com o mesmo nome (talvez o mais prestigiante para um autor de língua francesa), fez sair um comunicado a dizer que iria retirar um dos romances da lista de nomeados deste ano. Tratava-se de C'était ça ou mourir, de Thélyson Orélien, escritor e jornalista de ascendência haitiana e nacionalidade canadiana. Ao que se soube, o jornalista foi acusado de escrever em jornais vários artigos plagiados, recorrendo à Inteligência Artificial. Orélien admitiu que era verdade nos artigos, mas desmentiu categoricamente que tenha recorrido a quaisquer ferramentas de IA na escrita do romance que está na lista do Prémio Goncourt e que, além de já ter recebido uma data de prémios e estar nomeado para outros tantos, foi vendido em cerca de 20 países, incluindo Portugal. Porém, não sendo possível a Academia provar que as declarações de Orélien são verdadeiras, achou mais prudente retirar do prémio C'était ça ou mourir. Em Portugal, a decisão foi suspender para já a publicação, o que de resto aconteceu na maioria dos países onde os direitos tinham sido vendidos. Mas em França o romance, até pela polémica, continua na lista dos mais vendidos.

Contar

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Não costumo publicitar aqui o meu trabalho, mas hoje vou perder a vergonha e ser oportunista porque isso me rende um post e, como ando louquíssima com trabalho, dá mesmo jeito. Apesar de eu, como escritora, ser sobretudo referida como poeta, ao longo dos anos pediram-me várias vezes contos, ou para festivais, ou para revistas (a Egoísta, por exemplo) ou para colectâneas de Natal, agendas, postais, enfim, textos que estavam guardados no meu computador sem grande serventia, apesar da insistência do Manel para que os publicasse. Quando, no ano passado, a Escritaria quis generosamente homenagear-me, era preciso em pouco tempo um livrinho da minha autoria que celebrasse o acontecimento e a que os penafidelenses pudessem ter acesso antes dos outros. E foi nessa altura que libertei os contos e os revi, juntando os que achei melhores num pequeno volume que o meu colega editor Jorge Reis-Sá produziu e agora reimprimiu. E reimprimiu porque, surpreendentemente, o livro ganhou o Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores. Alguma vez eu iria pensar que era com a prosa que a APE me iria distinguir? Bem, aconteceu e hoje mesmo recebo o Prémio Branquinho da Fonseca em Cascais, cuja Câmara Municipal é a patrocinadora através da Fundação D. Luís. É às 17h30 e, se viverem para aqueles lados, estão convidados a aparecer. De contrário, fica aqui uma imagem do livro: como é pequenino, talvez não esteja visível nas livrarias, mas, se gostarem de contos, perguntem por ele (eu disse que tinha perdido a vergonha, não disse?), leiam-no e depois dêem-me a vossa opinião.


 

O Sangue

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É pelo sangue que começa a vida, a puberdade, os pactos entre amigos, a violência descontrolada, uma gravidez que não chega ao fim, e muito mais. Violeta tenta desesperadamente preencher o vazio que carrega desde que nasceu, um vazio inexplicável que só desaparecerá com o amor dos outros. Existe o amor avassalador, porém fugaz, de Paul; existe o amor seguro e arrebatador de Salma; e existe ainda o amor perdido de um pai que partiu cedo demais, e o de uma mãe que por vezes pode ser sufocante. Porém, Violeta passa a vida à procura de um ideal romântico, mas falta-lhe sempre qualquer coisa. Enquanto isso, os anos passam, o corpo dói, o sangue corre e o próprio mundo vacila. Poderia a fé ser a sua âncora quando nada mais funciona? Como romper um pacto de sangue? Com ​​inteligência e ironia, Aixa de la Cruz traz à tona em Tudo Começa pelo Sangue as grandes questões da sua geração, num romance extraordinário que confirma a sua reputação como «uma grande contadora de histórias que é também uma grande pensadora». A ler, sem sombra de dúvida. (A autora vem ao Fólio, onde actuará no dia 10 de Outubro.)

 


 

O que ando a ler

Ontem era dia de dizer o que ando a ler e passou-me completamente, desculpem. Mas estou a ler, bem entendido, e não é a primeira vez que me aproximo deste autor, Andrea Bajani, que é italiano e do qual eu já tinha lido Aniversário, um romance maravilhoso sobre um filho que decide no dia dos anos da mãe nunca mais voltar lá a casa (e depois contará o que o levou a tomar tal decisão). Este que tenho agora em mãos recebeu vários prémios, foi muito elogiado em Itália e noutros países e intitula-se enigmaticamente Se Guardasses os Nossos Pecados (o original é diferente, mas, concordo, bastante difícil de traduzir, o que explica a opção). Trata-se de uma narrativa na segunda pessoa: mais uma vez, um filho e uma mãe, mas esta morreu recentemente, e o filho, já adulto, vai ao seu enterro na Roménia, para onde a mãe terá ido viver muitos anos antes, quando tinha um negócio de emagrecimento. Conheceremos a história de como tudo começou para ela, a relação com Anselmi, o sócio na empresa, e os domingos no escritório com beijos à frente do rapazinho; as viagens cada vez mais frequentes à Roménia, as ausências cada vez mais longas e, por fim, o abandono do marido e do filho que agora lhe dirige um relato do que foi sentindo e daquilo a que está a assistir na Roménia com respeito à sua morte. Não cheguei ainda ao fim, que está próximo, mas gostei mais de Aniversário, embora Bajani seja decididamente um excelente autor.

Em nome da Terra

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Hoje começa mais um festival literário, na Aldeia de Melo, em Gouveia, terra natal de Vergílio Ferreira, em cuja casa hoje se fazem residências literárias (li que estava lá agora David Uclés, mas muitos já por ali passaram). Durará até dia 5 e contará com uma mão-cheia de autores portugueses, e não só. Desde Bruno Nogueira, no humor, até Filipa Leal ou Raquel Patriarca, na poesia, passando por figuras mediáticas como Júlia Pinheiro e romancistas de excelência como Teolinda Gersão, haverá mesas para todos os gostos, muitas delas moderadas por jornalistas culturais (como Luís Caetano e Maria Flor Pedroso). Eu vou lá estar a dialogar com o meu querido autor Itamar Vieira Junior (mais uma vez candidato ao Jabuti, o mais prestigiado prémio literário brasileiro) e o Prémio Camões Germano Almeida e vamos ver como me saio a falar do real, pois todas as mesas partem de uma frase de Na Tua Face, de Vergílio Ferreiro, e a minha tem que ver com o real e a verdade. Haverá também apresentações de livros, performances, exposições e música, estando ainda prevista a participação de Mafalda Veiga. Num lugar frio, muito calor para aquecer os nossos corações! Se estiver por perto ou quiser fazer a viagem, apareça: há razões para isso.



 

 

O tempo

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Quando penso que comecei este blogue em Maio de 2010, quase nem acredito que passaram dezasseis anos num ápice. O pior mesmo de envelhecermos é, de repente, parecer que foi ontem e passarem dezasseis anos. Já para não falar daquelas alturas em que um filho de alguém que conhecemos parece ter nascido ontem e tem dez anos (aconteceu-me este fim-de-semana uma situação dessas). Bem, no livro que amanhã lançamos, uma obra infanto-juvenil de Marta d'Orey (texto) e Carolina Branco (ilustrações), intitulada O Relógio Estragado, o pequeno Jaime recebe um relógio que foi do avô e está verdadeiramente confuso porque os ponteiros parecem andar muito depressa quando brinca e muito devagar de cada vez que um adulto chato lhe prega uma seca. Será que o relógio que lhe calhou em herança está estragado? Venha descobrir mais logo, pelas palavras da Luísa Sobral, que fará a apresentação na Livraria Linha de Sombra, da Cinemateca de Lisboa. Apareça e peça um autógrafo às autoras!

 


 

Traições

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(Antes que me esqueça: hoje o Manel lança o seu novo livro de poesia. O Menino Que Via Passar Comboios, às 18h30 na Buchholz. Apareçam.)

Amanhã é o Dia Internacional da Tradução, e os tradutores, como sabemos, estão hoje realmente ameaçados. Por todo o lado se fazem já traduções, mesmo de livros literários, com recurso à Inteligência Artificial e, com o aperfeiçoamento tecnológico, é de crer que muitos profissionais de tradução e revisão deixem futuramente de poder trabalhar, substituídos por máquinas cada vez mais competentes e rápidas. Ouvi dizer que, na maioria dos casos em que companhias de teatro ou ópera estrangeiras vêm apresentar espectáculos a Portugal, as legendas traduzidas já são criadas por IA; e que, em boa parte dos festivais e reuniões internacionais (aquelas x-Summit que bem conhecemos), para a tradução das intervenções já não se recorre a gabinetes de intérpretes, até porque a aparelhagem é muito cara, mas a programas de IA que dão muitas calinadas e fazem até rir de vez em quando os espectadores. Enfim, para todos os efeitos, é preciso debater o assunto; por isso, amanhã haverá na Faculdade de Letras, em Lisboa, uma conversa com intervenientes das Universidades de Coimbra e Lisboa. Deixo a sugestão a quem queira estar presente. 

 


 

 

A ortografia

Fico ainda espantada com a quantidade de erros de ortografia que encontro em originais que me são enviados por pessoas que se dizem, ou querem ser, escritores. Há alguns erros recorrentes («eminente» por «iminente», por exemplo, ou «dispensa» por «despensa»), mas outros são de palmatória e difíceis de perdoar. Ora, é hoje mesmo, às 18h30, no El Corte Inglés de Gaia (para não ser tudo em Lisboa, porque acredito que haja muitos Extraordinários fora da capital), que será apresentado um livro sobre o qual tenho bastante curiosidade. Trata-se de 365 Dicas para não Dar Erros, de Rita Asseiceiro, que tem uma página chamada Meia Dúzia de Erros e ajuda os indecisos em questões muito necessárias (como a diferença entre há e à), mas também na pontuação, na acentuação ou na correcta conjugação dos verbos. Professores, estudantes, profissionais de comunicação e candidatos a escritores terão aqui decerto um bom guia para não passarem por ignorantes. Eu cá vou comprar.

Escrever sem rede

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Hoje vou para Ponta Delgada participar num festival literário no âmbito da Capital Portuguesa da Cultura. Terei três actividades diferentes, duas das quais acompanhada por pessoas de quem gosto muito. Para falar de poesia (e talvez ler também alguma coisa), estarei com a minha autora Leonor Sampaio da Silva, professora universitária de literatura; duas horas depois, para falar de prémios literários, partilharei a conversa com o muito querido escritor João de Melo. Tudo gente boa e promessa de tempo bem passado. Porém, na manhã de sábado, espera-me um desafio que me deixa bastante insegura: uma hora completa no Açoriano Oriental para escrever de improviso um texto, no género literário que decidir, de uma página ou duas (duvido que chegue a tanto), que mais tarde será publicado numa colectânea que incluirá também os textos dos meus vinte e tal confrades que estarão noutras partes da cidade a fazer o mesmo. Enfim, pedi uma salinha sem ruído no jornal porque me costumo dar mal com barulho à volta para escrever. E já estive a pensar um pouco no que pode ser o texto, mas, como estou cada vez com pior memória, vamos lá ver o que sai. A organização do evento (magnânima) vai dar-me 48 horas para rever. Haja clemência. 

 


 

Nova literatura do Brasil

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Conhecemos mal a nova literatura do Brasil (o contrário também é verdade), que, ainda por cima, fala português, embora nos últimos anos tenham sido dados à estampa em Portugal muitos mais escritores brasileiros do que há uma década, e alguns sejam muitíssimo lidos. Falo, por exemplo, da publicitária Carla Madeira, que se tornou um caso de sucesso com romances como Tudo É Rio; de Itamar Vieira Junior, que ganhou o Prémio LeYa e publicou comigo a Trilogia da Terra; de Tatiana Salem Levy, residente em Portugal há anos e autora de vários livros (A Chave da Casa é sublime);  de Sérgio Sant'anna, Conceição Evaristo, Aline Bei, Fernanda Torres, Marcelo Rubens Paiva (em parte por causa do filme Ainda Estou Aqui), Stênio Gardel ou, mais recentemente, Ana Maria Gonçalves (Um Defeito de Cor). Li há poucos meses duas novelas de Ana Paula Maia, uma delas intitulada Assim na Terra como embaixo da Terra, que achei muito interessantes, e gostei da voz desta autora que (não se riam) escreve como um verdadeiro homem e quase só tem homens como personagens nestes dois livros, que decorrem em cenários muito duros, sujos e iminentemente mortíferos, como uma cadeia a caminho de ficar desactivada apenas com um cozinheiro, um director sádico e uns cativos com pulseira no tornozelo que pensam que a respectiva perna explodirá se tentarem a fuga. A Manuscrito publicou o romance que referi acima em Portugal e é uma chapada na cara de quem lê, espelhando bem a violência de um país como é o Brasil. Mas, se tem bom estômago, recomendo. É de alguém que consegue transportar-nos completamente para outro universo, e essa é a melhor parte da literatura.

 


 

O burro que sabia escrever

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Quando voltei de férias, avisei que este mês vos iria bombardear com sessões de lançamento e debate à roda de livros, e não menti. Ora, hoje é o dia da apresentação do livro Fortunas e Adversidades de Luciano de Megera, Burro de muitos Amos, a última proeza que nasceu da pena de Paulo Moreiras, o mais pícaro dos autores portugueses que, graças a Deus, cultiva um género literário bastante desprezado em Portugal no presente século mas que já lhe valeu prémios e distinções, entre os quais o Prémio Pen Clube de Narrativa no ano que findou. Desta feita, em lugar de uma apresentação formal (que nem combina nada com o Paulo e os seus livros bestialmente divertidos), a sessão será uma conversa que tem tudo para ser boa entre o autor e o grande programador cultural Nuno Artur Silva. Gostaríamos mesmo que aparecesse para assistir a um diálogo inteligente sobre burros, tema muito caro a Paulo Moreiras. Até logo.

 


 

 

Chorar de amor

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A escritora Angela Carter referiu-se ao romance Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei, de Elizabeth Smart, dizendo que era «como se Madame Bovary tivesse sido atingido por um raio». Achei igualmente curioso que outras escritoras, como Joyce Carol Oates ou Tony Morrison, elogiassem a linguagem de Smart, que é realmente o que torna o seu livro marcante. Fiquei, aliás, aliviada por ler o posfácio, muitíssimo esclarecedor, a contextualizar o livro, e de saber que Elizabeth Smart, nascida em 1913, foi companheira de surrealistas, pois isso até certo ponto serve para enquadrar este jorro de palavras visceral num certo período literário e entender melhor os excessos. Não posso, contudo, deixar de dizer que o romance é tudo o que eu diria hoje a um autor que não fizesse, pois a permanente metaforização e as frases completamente elípticas como «As prostitutas têm olhos que galopam como ratos à volta de restaurantes salpicados de prospectos fortuitos» resultariam realmente estranhas e praticamente ilegíveis aos leitores deste tempo, embora sejam obviamente compreensíveis não só numa literatura influenciada pelo surrealismo, mas sobretudo numa literatura conduzida pela droga do amor, um amor completamente obsessivo: Elizabeth Smart apaixonou-se por um poeta (George Barker) logo que o leu numa livraria e procurou-o por três anos até Lawrence Durrell (sim, o do Quarteto de Alexandria) lhe ter arranjado um contacto, após o que se tornou sua amante (o poeta era casado e a mulher nunca lhe deu o divórcio), vindo a ter quatro filhos dele, que sustentou absolutamente sozinha. Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei é uma leitura que nem todos apreciarão pela estranheza, mas valerá sempre a pena tomar-lhe o pulso.

 


 

 

Terroristas, refugiados e poesia para falar deles

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Hoje faço 67 anos (tantos!) e não andarei por aqui, mas deixo publicado o post porque quero que se organizem todos para a sessão que conduzirei amanhã na Livraria Buchholz com Carla Pais, a autora do romance vencedor do mais recente Prémio Leya, intitulado A Sombra das Árvores no Inverno. É um livro que fala das grandes diferenças sociais entre os países árabes e a Europa, das ainda maiores diferenças entre terroristas e migrantes e refugiados, de vidas abaladas desde a infância por guerras injustas (como algumas das que hoje vivemos, infelizmente, por causa de loucos como Trump, Putin, o Hamas ou Netanahyu). O livro pega em três famílias (uma francesa, outra do Mali e a última da Síria) e é a partir delas que, em vários tempos e locais, nos falará dos custos para os civis das guerras do terror e da xenofobia dos países ditos desenvolvidos. Carla Pais estava em Paris quando se deu o ataque à mão armada pelos radicais islâmicos numa discoteca onde estava a acontecer um concerto e não conseguiu obviamente ficar indiferente. Se escrever este romance foi a sua catarse, podemos descobri-lo amanhã, pelas 18h30, nesta sessão para que vos convido. Apareçam, a entrada é livre!

 


 

Excerto da quinzena

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Porquê reescrever as Aventuras de João Sem Medo,

de José Gomes Ferreira, em 2024?

Ou como um preâmbulo se transforma na história que se quer contar

 

 

Num ano em que quatro mil milhões de pes­soas (aproximadamente metade do mundo) foram a votos para escolher os seus governos e os seus representantes e no ano em que Portugal celebrou o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos, sal­tar muros, partir muros ou até mesmo só falar com muros pareceu-me o gesto mais urgente que poderia fazer para combater o isolamento, a injustiça, a falta de cuidado e a calhordice que por aí anda a empatar dias que poderiam ser muito mais inspiradores.

Num tempo em que o mundo ocidental parece estar em luta com os seus próprios (e duplos) prin­cípios, tornando-se um lugar onde uma peque­níssima minoria sobrevive e enriquece à custa do  aprisionamento e tortura de uma larga maioria, cul­tivar uma imaginação sem freio e uma persistente curiosidade que desafiem o medo do desconhecido pode bem ser a única saída para uma sociedade que, demasiadas vezes, condena as gerações mais jovens ao silêncio, ao desprezo ou ao motim.

José Gomes Ferreira escreveu o folhetim Aven­turas de João Sem Medo, em 1933, para os seus filhos, na esperança de que nunca se tornassem num des­ses adultos falsos que sujam o mundo e não acreditam na imaginação. Há mais de 90 anos, imaginem!, e, enquanto ele escrevia, iniciava-se, graças a um elevado e promovido abstencionismo, considerado como voto de aprovação para uma nova Consti­tuição, o período do Estado Novo em Portugal ou, melhor dizendo, aquela que foi a ditadura mais longa da Europa, liderada por um senhor que usava sempre os mesmos sapatos, de seu nome Salazar. Esse quase meio século de ditadura só terminaria a 25 de abril de 1974. Nesse mesmo ano de 1933, e num país não muito distante deste onde José Gomes Ferreira morava e escrevia, o Partido Nazi, presidido por um outro biltre de seu nome Adolf Hitler, obti­nha 43,9% dos votos nas eleições parlamentares. Esse senhor, que só usava uniformes de marca e que já era chanceler da Alemanha por essa altura, encar­regou-se de escorraçar todo e qualquer deputado da bancada comunista e social-democrata da casa da  democracia para logo promulgar, sem impedimen­tos de maior, a Lei de Concessão de Plenos Pode­res, iniciando assim um dos períodos mais sombrios da história europeia, uma época em que se quei­maram pessoas e livros com o objetivo de eliminar uma parte da humanidade e muitas das suas ideias, seguindo uma longa e tristíssima tradição que nos tem acompanhado desde Alexandria à Idade Média.

Há 90 anos, este pequeno país à beira-mar plantado, onde Josés Gomes Ferreiras escreviam e Salazares mandavam, era um lugar isolado do resto do mundo, profundamente triste consigo próprio e com muito mais fado do que destino. Por cá, nin­guém estrangeiro passava a não ser obrigado. Não havia muitas razões para cá vir. Havia muito mais mar do que terra, e talvez por isso se sonhasse mais com o que se passava lá longe e não se via do que com o que se poderia melhorar e estava mesmo à mão de semear (um problema comum a lugares que pro­movem vistas curtas enquanto só acreditam em horizontes desmedidos e inacessíveis, esquecendo­-se de que grandes descobertas podem estar atrás de pequeníssimas portas, minúsculos esconderijos ou folheando folhetins semanais em jornais para os mais novos). Em suma, não havia grande vontade de cá estar, mesmo de quem era daqui, e chorava­-se muito, lamentava-se muito, gemia-se muito, ao ponto de o queixume se tornar uma estranha forma de vida. Todas as cidades e aldeias desta terra afas­tada, que ainda era Europa mas não o sabia, tinham nomes específicos, como Linda-a-Velha, Valezim, Monte Gordo ou Arrifana, mas poder-se-iam muito bem chamar Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que inspiraram este livro (e não só!).

Patrícia Portela, Manual para Andar Espantada por Existir, Grande Prémio de Romance e Novela da APE