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A mostrar mensagens de julho, 2020

Boas férias

Chegou ao fim o mês de Julho e, como já acontece de há vários anos para cá, em Agosto descanso do blogue e atiro-me às leituras. Não que esteja sem trabalhar o mês inteiro, mas tiro esta preocupação da cabeça durante um mês, a de ter todo o santo dia pronto um pequeno texto para oferecer a quem visita este espaço; essa ausência até me permitirá tomar nota de assuntos e ideias das quais falar no regresso. Aos que escrevem ou são artistas de qualquer outra área, aconselho que com o calor do Verão bebam uns drinks, mas não com a ministra, claro, porque provavelmente ela só quer que se embebebem e nada mais lhe peçam. Eu cá vou tentar continuar atenta e sóbria, vou ler tanto quanto puder livros que já estão ali  num monte à minha espera e conto voltar refeita e com energia para o que aí vem, pois a Covid-19 ameaça regressar em força no Outono e temos de estar preparados. Terei saudades dos vossos comentários (bem, de alguns), mas um mês passa num instante, pelo menos na minha idade. Como as viagens para o estrangeiro estão desaconselhadas, recomendo-vos outra forma de viajar: Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac, um clássico que não deve deixar de ler. (Sim, também há filme, mas não é a mesma coisa.) Boas férias, bom descanso e, acima de tudo, muita saúde! Até Setembro.

Cronista exemplar

Um dia destes, alguém aqui no blogue, a propósito da crónica de Pérez-Reverte em que se criticava o afastamento das línguas clássicas do curriculum da Escola Secundária no país vizinho, queixava-se, no fundo, de que aqui em Portugal os intelectuais já pouco se pronunciavam sobre questões deste tipo (que mereceriam deles protesto, crítica e reflexão), preferindo quiçá viver burguesmente na sua torre de marfim e pouco querendo saber do que não os afecta directamente. É verdade, pelo menos em parte, que não vemos muitos escritores ou artistas andarem por aí içando bandeiras ou pondo o dedo na ferida; mas, quando os jornais reduzem o seu espaço de opinião ou deixam de querer ouvir as opiniões de quem pode pôr em causa os seus donos e amigos, claro que também não estão as coisas facilitadas... Em todo o caso, há uma excepção que salta à vista,  a de Lídia Jorge, que é talvez no nosso país a escritora que melhor tem reflectido sobre o mundo presente e mais eloquentemente tem dado o peito às balas em entrevistas e crónicas radiofónicas. Há, de resto, um livro que reúne essas crónicas lidas na Antena 2 que vale muito a pena intitulado Em Todos os Sentidos, livro que traduz o seu pensamento muito crítico (e às vezes quase furioso) sobre certos aspectos da actualidade. Se nunca ouviu, leia. É a minha recomendação para hoje.

A importância do prémio literário

A maioria das vezes em que alguém concorre a um prémio para inéditos o objectivo é ser publicado – a menos que o valor seja alto e concorram também escritores conhecidos para se garantirem durante uns meses (ou uns anos, no caso do Prémio Planeta, por exemplo, que é uma batelada de dinheiro). Aos prémios para livros já publicados concorrem, pelo contrário, quase todos os autores com livros elegíveis (ou as editoras que os publicam), seja pelo dinheiro, seja pelo prestígio, seja pelas bastas referências jornalísticas à vitória, que sempre ajudam a divulgar o livro em causa e a vender mais uns quantos exemplares. Em todos os países há prémios que fazem muito pela carreira internacional dos vencedores (o Booker Prize é um deles), mas também há certos prémios que praticamente já só contam no país que os atribui (o Goncourt, a partir dos anos 1990, deixou de ter eco nos outros países, embora ainda fique bem no curriculum de um escritor). Esta semana, o The Guardian anunciou a long list de 162 romances que vão ser espremidos em apenas 5 finalistas do Man Booker Prize no dia 15 de Setembro, e Hilary Mantel é de novo nomeada, ela que já ganhou o prémio duas vezes. É uma das escritoras que falam do que mudou na sua vida depois do galardão, ao lado do querido Barnes, de Howard Jacobson (que perdeu amigos quando ganhou o Booker) e de Margaret Atwood, entre outros, num artigo que, sendo já de 2018, vale muito a pena ler e continua actual. O link vai aí abaixo.


https://www.theguardian.com/books/2018/jun/30/win-man-booker-past-winners-2018-prize-longlist-novelists


Hoje recomendo um vencedor do Booker: O Mar, de John Banville. Livro bom para o Verão, pois é de um Verão em especial que fala.

Até a estupidez tem limites

Tenho lido muito sobre o que se passa no país vizinho em matéria de tomada de decisões ligadas à cultura e à educação e vejo o sistema em constante desmoronamento. Uns quantos seres supostamente pensantes e com poder têm, efectivamente, aplicado ideias inenarráveis, algumas mesmo estúpidas, mas esta última, de que tomei conhecimento por uma das fantásticas crónicas de Arturo Pérez-Reverte, passou dos limites: deixa de ser possível aprender latim e grego no Ensino Secundário. Como? Mas terei lido bem? Será que a luminária que decretou esta mudança se esqueceu de que o castelhano vem do latim e que tem, como o português, milhares de palavras oriundas do grego? Será que não sabe que a literatura ocidental começou na Grécia, que é também o berço da democracia, entre outras coisas? Estará a querer impedir os jovens de mais tarde frequentarem cursos de Estudos Clássicos? Acha-os demasiado imaturos, ou insuficientemente vivos, para estudarem línguas mortas? Não consigo encontrar uma explicação, a não ser a estupidez pura e dura. Para Pérez-Reverte é o «extermínio» do «código que permite interpretar o mundo em que vivemos». Mas leiam o artigo, que vale a pena. «Menos latim e mais imbecis».


https://www.xlsemanal.com/firmas/20200712/perez-reverte-mas-latin-menos-imbeciles.html


 

Filho de peixes

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Seguramente se lembram, pelo menos os que têm mais de quarenta, do grande jornalista desportivo Rui Tovar. Como filho de peixe sabe nadar, o seu filho Rui Miguel Tovar seguiu-lhe as pisadas, e é talvez um dos jornalistas desportivos portugueses que mais jogos internacionais viram na vida, deslocando-se a lugares bastante remotos e impensáveis para ver jogar equipas nacionais ou a selecção portuguesa. Mas não se ficou pelas notícias e reportagens a respeito dos jogos. Como é filho de peixe, é também filho de uma ex-editora que é há muito a tradutora do senhor Murakami, entre outros, já premiada mais de uma vez pelo seu trabalho e, portanto, ligada aos livros. E, assim sendo, Rui Miguel Tovar resolveu escrever sobre essas suas viagens futebolísticas para a nova colecção de Literatura de Viagens da Quetzal, a Terra Incognita, de que já aqui falei noutra oportunidade. Pela sua pena, saiu então recentemente um livro que cruza viagens inesperadas e o mundo do futebol. Chama-se Viagens sem Bola e fala de sítios como o Qatar, as Maldivas ou o Vietname, mas também a Sicília ou do Paraguai, reflectindo sobre as gentes, os lugares, a gastronomia e muito mais, como, claro, o futebol. Um livro bastante original para ler enquanto não podemos viajar de outra maneira.


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Hoje sugiro Areias Brancas, de Geoff Dyer, um livro bilhante de «ensaios» sobre viagens a lugares onde a arte é frequentemente o objectivo primeiro e, de caminho, sobre a relação do escritor com a própria mulher.

Uma livraria no céu

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Dizem-em que hoje as pessoas pouco entram nas livrarias, e ficar por lá a ver ainda menos. Compram de máscara aquilo de que vão à procura, pagam, passam gel alcóolico nas mãos e vão à sua vida. É preciso cuidado, bem entendido, mas há outras razões para não se entrar em livrarias... Em 1907, uma livraria abriu em Chicago num... sétimo andar. Bem sei que era no edifício das Belas-Artes, que era a sede da intelectualidade e dos movimentos artísticos da cidade, mas não seria de esperar que, tão longe da rua, a livraria «The Air» fosse muito visitada. E, contudo, esteve milagrosamente aberta cinco anos e era frequentada por gente muito lida, além de estudantes de música e actores que actuavam ou estudavam em outros andares do edifício. O segredo? Bem... não só o facto de estar muito bem fornecida de livros e revistas, não só a circunstância de ali se tomar chá enquanto se lia, mas sobretudo o ser, segundo a directora da The Little Review, «a mais bela livraria de todo o mundo». Pudera, o seu design interior, inlcuindo janelas e estantes, era da autoria de Frank Lloyd Wright! Conhecia-a? Eu não. Graças a Deus, tomei conhecimento dela por um amigo que dirigiu a Biblioteca de Arte da Gulbenkian, José Afonso Furtado, no Facebook. Deixo-vos aqui um cheirinho, mas procurem-na na Internet.


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Frank Lloyd Wright, ficcionista de espaços, é um dos génios citados em Os Criadores, de Daniel Boorstin. Um livro para ler e consultar que hoje vos recomendo.

A Raposa

Uma das coisas melhores da leitura é que frequentemente há livros e autores que nos levam a outros livros e outros autores. Há pouco tempo, fiquei muito seduzida pelas citações e referências que Julian Barnes fazia do escritor francês Jules Renard (1864-1910). Lembro-me de ter aqui falado dele e de algum dos Extraordinários me recomendar O Pendura. Pois é desse livro que falo hoje, já quase a acabá-lo, pois é uma maravilha de verrina e maldade elegante, além de ter das mais belas metáforas que li na vida. Em Portugal, que me lembre, não temos grandes cultores deste género na literatura, às vezes o Eça, mas de uma forma que dá logo vontade de rir (e aqui pode atar-se um nó no estômago, mas logo vem o sorriso para perdoar o pecado). O enredo pode resumir-se à história de um homem que escolhe um casal para nele «parasitar» (na verdade, este «pendura» é também um «crava» ou um «penetra»), e esse casal, crendo-o um grande poeta e bem relacionado com a intelectualidade, dá almoço, jantar, guarida, mimo e muito mais ao oportunista que usa e abusa do que lhe é oferecido e, mesmo assim, continua ferido pelo tédio. Como se conta no prefácio, o livro que o escritor Jean d'Ormesson levaria para uma ilha deserta seria o Diário de Jules Renard, por lhe dar a garantia de nunca se aborrecer. Tenho de ler. «Renard» quer dizer «raposa» em francês e é masculino. Jules é uma fantástica raposa.

Escrever

Embora haja coisas que não se podem ensinar (o talento, por exemplo), nem todos os livros sobre escrever são manuais de frases feitas e exercícios pueris. Já aqui o disse a propósito de Manual de Sobreviência de Um Escritor, de João Tordo, e digo-o agora acerca do genial Escrever, de Stephen King, que tive o gosto de publicar há muitos anos na Temas e Debates com a minha colega do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes,  e que agora tem nova edição pela Bertrand, acrescentada com dois prefácios, o último dos quais é um agradecimento de King ao seu editor, com uma frase também utilizada por Tordo: «Escrever é humano, editar é divino.» (Às vezes.) Stephen King já tinha várias coisas alinhavadas sobre o ofício do escritor quando ia morrendo num acidente de que levou meses a recuperar; aproveitou então para pôr esses apontamentos em ordem e articular um texto notável que parte das suas experiências e memórias e compõe um livro inspirador, com conselhos e recomendações a todos aqueles que queiram e sintam que podem ser escritores. O livro, que saiu inicialmente em capítulos independentes numa revista, além de brutalmente honesto e muito interessante para os leitores até como testemunho, foi também terapêutico para o autor, ajudando-o na sua convalescença. Só bons motivos para se atrever à sua leitura.

Descuidos

Hoje em dia, permanentemente vigiados, temos de ter especial cuidado com o que dizemos e escrevemos. E até com o que outros escrevem por nós... Eu explico: há uns quinze dias pediram-me para escrever um texto sobre Amália Rodrigues para um número dedicado ao seu centenário, uma vez que escrevi uma pequena biografia da diva para crianças. Nesse texto explicava que a sua infância tinha sido tremenda (miséria e trabalho infantil) e que, além do talento, que não era responsabilidade sua (ela até dizia «Foi Deus»), Amália tinha «qualidades extraordinariamente raras numa mulher que não pôde frequentar a escola» (a sua descoberta da poesia erudita, por exemplo, e as letras que escreveu). Ora, a frase escolhida para o destaque foi mesmo essa, só que, como não cabia toda, quem paginou resolveu parar antes do fim, escrevendo «... qualidades extremamente raras numa mulher». Mas estas pessoas que paginam jornais não pensam nem por um minuto no que estão a fazer? É que há muita gente que só lê títulos e destaques e o mais certo é eu levar na cabeça das mais radicais feministas por uma coisa que não disse. Nos EUA seria banida de muitas revistas e jornais só por este descuido... O que me vale é que já disseram que me iam pedir desculpa.

Estrangeira em qualquer lugar

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Estará à venda a partir de amanhã um livro que me chamou a atenção por partir de uma premissa altamente atraente: como aprende a falar uma filha de pais surdos? E em que língua sonha essa rapariga/mulher que vive em todo o lado sem pertencer a lugar nenhum? E como, estando longe, comunica com os pais que a não ouvem? E porque, afinal, se apaixona pelas línguas e se torna tradutora? Fiquei logo curiosa, li-o de um golpe e soube que queria publicá-lo. É um misto de memórias, ficção, romance de formação, autobiografia, enfim, um livro pouco convencional e por isso mesmo inovador. Chama-se Sempre Estrangeira e escreveu-o a italiana Claudia Durastanti que, nascida em Brooklyn, em Nova Iorque, é recambiada para uma minúscula aldeia em Itália quando os pais, que acham ter salvado a vida um do outro e nunca se vitimizam pela sua deficiência (pelo contrário!), decidem separar-se, deixando a Claudia uma experiência de vaivém que a levará a replicar o comportamento migratório até hoje, seja atrás dos estudos, seja inclusivamente atrás do amor. Este é um livro maravilhosamente escrito, uma viagem em busca de auto-afirmação, em que a geografia, a arte e a linguagem são ao mesmo tempo armas de revolta e de redenção. Obrigatório ler. A tradução é do poeta Vasco Gato.


Ups! Parece que o livro afinal só sai na terça-feira da semana que vem. Mil perdões.


 


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Esposas, Servas, Comandantes e Olhos

Ao contrário da maioria dos portugueses (ou da maioria das pessoas em geral, sei lá), tenho uma grande dificuldade em fidelizar-me a séries de TV e fujo das que têm várias temporadas. Nunca vi um episódio da Guerra dos Tronos, devo ter visto um de House of Cards e Casa de Papel, três ou quatro de Segurança Nacional e, se bem que lembro, só vi de fio a pavio Twin Peaks, Sete Palmos de Terra e Downtown Abbey, mas isso foi tudo há séculos. Ouvi falar até à exaustão de História de Uma Serva (que também não vi, embora algumas fotografias divulgadas na Internet e nos jornais fossem esteticamente atraentes), mas resolvi comprar o romance de Margaret Atwood com o mesmo título para perceber melhor do que se trata. Sim, é um distopia a levar a conta sobre, como escrevem na capa, «um futuro assustadoramente possível» em que o fanatismo religioso bane o amor e o sexo se destina à procriação, e as Servas engravidam e dão à luz para as Esposas dos Comandantes, não podendo ter uma vida familiar própria. Uma delas, Defred (este Defred significa que é a Serva «de Fred», ou seja, pertença dele), não consegue porém esquecer o seu passado com Luke, o homem que amou e de quem teve uma filha, que nem sequer sabe se continua viva. A disciplina é rígida, há Olhos em todo o lado (e ainda Guardiães) e até as memórias são proibidas; mas há sempre pequenas rebeliões nas sociedades assim fechadas, mesmo que por vezes elas levem ao enforcamento público ou ao desterro nas Colónias, onde o trabalho é pior do que a morte... Enfim, não é bem o meu tipo de livro, confesso, embora a senhora Atwood tenha bastante imaginação e elegância a narrar; mas, se querem aterrar-se com esta possibilidade de os mais radicais religiosos tomarem conta das coisas (como de resto já está a acontecer no Brasil), leiam-no, antes ou depois de verem a série. Ou de não verem.

Leituras

O jornal Público tem há bastantes anos um suplemento cultural denominado «Ípsilon», que sucedeu a um outro chamado «MilFolhas» que, por sua vez, foi o herdeiro do mais velhinho «Leituras». Pois bem, o «Leituras» está de volta, se bem que apenas online, para dar aos livros um espaço que o «Ípsilon» de papel infelizmente não tem para eles, talvez por ter de se dedicar a todas as outras formas artísticas. No suplemento digital, há, porém, lugar a pré-publicações, anúncios mensais das saídas de livros, entrevistas a autores e críticas mais densas. Portanto, a partir de agora, à distância de uns cliques, teremos tudo o que no «Ípsilon» dizia respeito a livros e ainda muito mais. Dirige o Leituras a jornalista Isabel Coutinho. O endereço é este:


https://www.publico.pt/leituras


Falando de leituras, deixem-me recomendar-vos dois títulos de que sou editora, uma vez que são finalistas do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/DGLAB: Homens de Pó, de António Tavares, e Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio. Os outros finalistas são de Ana Margarida de Carvalho, Djaimilia Pereira de Almeida e Francisco José Viegas. Em breve saber-se-á o vencedor.

Crianças desaparecidas

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Todos os anos desaparecem no mundo milhares de crianças. Susana Piedade, que foi finalista do Prémio LeYa com o seu livro anterior (As Histórias Que não Se Contam), vem trazer esta realidade à tona numa nova ficção intitulada O Lugar das Coisas Perdidas, acabadinho de sair. O romance conta a história de uma mãe solteira que vive numa vila onde todos se conhecem e que numa bela manhã se despede da filha de oito anos, que vai a pé para a escola, nunca mais a voltando a ver. Apesar de os habitantes locais se prontificarem imediatamente para a ajudar nas buscas, a verdade é que as suspeitas acabam por recair em quase todos, inlcuindo na própria família da criança, pois na manhã do desaparecimento quase ninguém está em posição de dizer onde andou e o que fez. E, infelizmente, a única pessoa que viu o que aconteceu é também a única que não pode falar. Muito bem construído, com suspense até à última página, esta é uma leitura trepidante que alude a uma situação que, lamentavelmente, está longe de ser apenas literatura.


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Mistério

Ontem falei aqui de Pessoa e hoje não resisto a falar de Mário de Sá-Carneiro, seu grande amigo. Mas desta vez não se trata de nenhum congresso académico, antes de uma história que podia ser gossip (utilizo o inglês apenas porque a palavra é divertida) se não tivesse sido contada no último Expresso por investigadores a sério. Como calculo que saibam, o poeta Sá-Carneiro viveu em Paris alguns anos e foi no Hôtel de Nice daquela cidade que se suicidou ingerindo uma boa dose de estricnina, com uma fotografia da francesa Renée (sua amante) pousada na mesinha-de-cabeceira e umas quantas cartas deixadas para serem entregues aos destinatários. «Avisou» o seu amigo Araújo que fosse ter com ele ao hotel a uma certa hora, e este ainda o apanhou com vida mas já não conseguiu salvá-lo, chamando depois chamou Carlos Alberto Ferreira, que morava a pouco mais de uma centena de metros do hotel e era também amigo de Sá-Carneiro. No quarto do suicida havia uma mala onde se reuniram os poucos pertences do poeta, mala que foi retida porque este tinha uma dívida para com a proprietária e que lamentavelmente desapareceu; ora, por algumas cartas trocadas com Pessoa e outros amigos das letras, calculou-se até há pouco tempo que dentro da mala ficou uma série de textos inéditos perdidos para sempre... Mas agora, vejam lá como são as coisas, andando alguém de roda do espólio de Aquilino Ribeiro, encontra justamente os originais de alguns poemas do poeta de Orpheu, um conto, um livro de recortes com textos humorísticos, o bilhete de identidade, enfim, umas quantas coisas que se acreditava serem irrecuperáveis. E o grande mistério é que, apesar de Aquilino ter vivido em Paris no mesmo período que Sá-Carneiro, não há qualquer prova de que se tenham sequer cruzado (e Aquilino tê-lo-ia certamente mencionado nos seus escritos se tivesse acontecido). Crê-se que terá sido Carlos Ferreira quem, ao «arrumar» a mala, desviou alguns escritos com medo de que fossem parar a mãos erradas e os deu a guardar a Aquilino; mas não se sabe realmente se foi assim... Agora, que tem graça a obra de Sá-Carneiro seja encontrada entre os papéis do homem da Carbonária, lá isso tem. Leiam o longo artigo do último sábado e não se arrependerão. E, já agora, recomendo a poesia de Sá-Carneiro. Poemas como «Serradura» e «Caranguejola» estão entre os meus favoritos.

Pessoa sempre

Já aqui referi umas quantas vezes que existem vários estudiosos estrangeiros da obra de Pessoa responsáveis por colecções portuguesas dedicadas ao grande poeta. Um dia destes, assisti a uma sessão de apresentação no Facebook do livro O Caso Mental Português, da Assírio e Alvim, em que esteve presente Richard Zenith e onde ouvi uma maravilha de frase sobre a diferença entre erudição e cultura (entre saber e sentir), segundo Pessoa; e agora estou a preparar-me para acompanhar um clube de leitura da revista colombiana El Malpensante, já que quem o orienta é Jeronimo Pizarro, que dirige a colecção pessoana na editora Tinta-da-China. O ciclo abrirá no próximo dia 15 com uma conversa que introduzirá o tema, na qual participam Andrés Hoyos, Alejandro Gaviria e o próprio Jeronimo Pizarro, e será aberta ao público. Serão quatro as sessões e cada uma terá um convidado internacional especialista na obra de Pessoa. Far-se-ão leituras em português e espanhol. Se estiver interessado em inscrever-se, aqui vai o link:


https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScCmnPMNQwQeUGky8k19HOy4sBvoaPJslV-lyv4PhOUMN5S6A/viewform?fbclid=IwAR0a6_b0dta4x8nQCvjHlzoD-WGpJM6MrDs6RGC9GLSV4oAONNw_1QarJa8


Hoje recomendo um «amigo» de Pessoa: Antonio Tabucchi e O Fio do Horizonte.

Imprescindível

Ui, desculpem o atraso, mas é que me tinha mesmo esquecido de escrever um post para hoje. O que vale é que à sexta já está tudo a preparar-se para o fim-de-semana e, portanto, também menos interessado nestas leituras. Pois bem, como estou sobrecarregadíssima de trabalho, lamento, tenho mesmo de despachar a coisa com... poesia! Mas, atenção, estou a falar de uma obra imprescindível, eterna, que nos é oferecida pela mão de alguém que tem feito imenso pela divulgação da literatura clássica grega: Frederico Lourenço! Além da sua tradução da Bíblia do grego e de ter vertido para português as versões completas das obras de Homero, por exemplo, agora traz-nos uma antologia bilingue: Poesia Grega, de Hesíodo a Teócrito, com notas e comentários da sua autoria. Deixo-vos estes versos maravilhosos e imperdíveis de Teógnis de O Ciclo de Cirno: «Não peças excelência, Polipedes, nem para seres excecional nem rico: ao homem só interessa ter sorte.»


É este o livro que hoje vos recomendo. Publicado pela Quetzal. Bom fim-de-semana e desulpem o atraso.

Escrever em Berlim

Aqui na sala de estar que é este blogue, há muitos escritores (até os que escrevem noutras línguas, embora este post não seja para esses). Não me refiro a potenciais escritores, com livros na gaveta, mas a escritores já publicados, com obra mais curta ou mais extensa, mas publicada. Isto porque, tal como vem acontecendo há alguns anos, o Instituto Camões e a Embaixada de Portugal em Berlim oferecem uma residência literária na capital alemã, e, sei lá, acho que deve ser bom escrever um livro em Berlim. Por isso, se interessa a algum dos extraordinários a bolsa, não perca tempo, as candidaturas estão abertas até 7 de Agosto para um (e só um) autor de língua portuguesa. Já tiveram esta benesse no passado escritores como Patrícia Portela, Isabela Figueiredo ou Rui Cardoso Martins. Se se quiser habilitar, o endereço para enviar a candidatura é este:


botschaftbolsa@gmail.com


e o regulamento está neste link:


https://www.berlim.embaixadaportugal.mne.pt/images/Regulamento2020.pdf


A residência iniciar-se-á em Outubro próximo, se, claro, a COVID-19 deixar.


Porque falei acima da autora, hoje recomendo dois livros: Caderno de Memórias Coloniais e A Gorda, de Isabela Figueiredo, ambos muito interessantes.

Dona Amália

Não sei se sabem, mas se andam atentos à comunicação social, saberão que este é o ano do centenário de Amália Rodrigues, que era o nome português mais sonante no estrangeiro quando eu era pequena (equivalente a Cristiano Ronaldo nos nossos dias). Amália nasceu a 1 de Julho, mas só foi registada mais tarde; e dizia que era bom, porque podia celebrar duas vezes o aniversário. Mas desde o início deste mês que não param de acontecer coisas à roda da estrela, desde um concerto excepcional que integrou 100 guitarristas que tocaram fados que a diva cantava até à saída de vários livros que oferecem perspectivas novas de Amália, como o desenvolvimento de uma reportagem da Visão da autoria de Miguel Carvalho, em que se revela que Amália, que tantos ligavam ao regime, apoiou inclusivamente com dinheiro o Partido Comunista. O livro chama-se Amália, Ditadura e Revolução e tem por subtítulo A História Secreta. Cem anos depois, ainda há segredos a descobrir sobre esta que é a maior voz portuguesa de sempre.


Para ir na onda, vou sugerir o livro Para Uma História do Fado, de Rui Vieira Nery, no qual Amália ocupa um papel preponderante. Um interessantíssimo estudo do musicólogo.

O velho escritor

Quando se trata de um autor de quem já li muitos livros, às tantas, ao olhar para um título ou uma capa, já não consigo recordar bem a história e até me acontece confundi-la com outra. Um dia destes, no jardim da Gulbenkian, encontrámos um amigo que trazia o Escritor Fantasma, de Roth, debaixo do braço. Fiquei a pensar se já o tinha lido quando o Manel me assegurou que o tínhamos lido ambos e que se tratava da história de um jovem escritor que vai visitar o grande escritor que admira para... (não, não conto mais, sosseguem). Bastou isto para eu ver logo a cena inicial e me lembrar de comboios e mantas e discussões e lágrimas. Lembrei-me então também de uma história parecida com a escrita por Roth, mas real, de um autor mais novo que conheceu finalmente o seu grande ídolo, visitando-o uns meses antes de ele morrer e a quem, no Natal que se seguiu a essa visita, escreveu uma carta muito bonita a agradecer ao mestre a simpatia ao tê-lo recebido e a desejar-lhe festas felizes e um bom ano novo. Estranhou que este nunca lhe respondesse, porque tinham trocado correspondência antes da visita e o velho escritor era educadíssimo; mas pouco depois foi surpreendido com a notícia da sua morte e percebeu que o seu estado de saúde o deveria ter impedido de o fazer. Pois bem, o escritor mais velho não tinha herdeiros e legou todo o seu espólio a uma entidade pública (biblioteca, arquivo, não recordo bem) que terá contratado alguém para o classificar. Foi uns meses depois que o escritor mais novo, vejam lá, recebeu uma proposta anónima para comprar a própria carta que escrevera ao ídolo! O bandido não teve sorte nenhuma (o jovem escritor fez-lhe um manguito e não comprou a carta; e, dois anos mais tarde, a entidade pública acabou por devolver-lha, pois ainda se encontrava fechada). Mas, enfim, é uma história que ensina que gente sem escrúpulos há-a em todo o lado, mesmo no meio bonito da literatura.


Leiam, claro, O Escritor Fantasma, de Philip Roth. É o que vos recomendo para hoje.

Pensar com a poesia

Hoje começa um curso por Zoom ministrado por António Carlos Cortez (professor e poeta) que me apraz divulgar. Tem por título Poesia, Linguagem, Pensamento e vai acontecer até final do mês, duas vezes por semana, das 18h às 20h. Destina-se não apenas a jovens universitários ou professores, mas a toda a comunidade, desde que tenha alguma formação (animadores culturais, psicólogos, investigadores, advogados, médicos e até leitores como nós). É um curso que parte da tese de que o homem, na era em que vivemos (do algoritmo e da pobreza da linguagem tecnológica), está a perder claramente capacidades analíticas para depois tratar a relação entre poesia, linguagem e pensamento e sensibilizar para uma nova forma de pensar, recorrendo à obra de personalidades admiráveis como Steiner, Damásio ou Ortega y Gasset, mas também a poetas como Ramos Rosa ou Manuel Gusmão. Para os interessados, deixo o link abaixo. As inscrições decorrem até 11 de Julho.


https://www.facebook.com/antoniocarlos.cortezletras/posts/175517940673635


Já que o curso que acima referi é de poesia, recomendo a Poesia Completa de Maria Alberta Meneres, se calhar mais conhecida do público pela sua extensíssima obra para crianças, mas uma grande poeta que urge ler.

Dádivas

Uma das coisas boas deste blog é quando os seus leitores contribuem também eles com ideias para posts, o que aconteceu recentemente com Octávio dos Santos, que me enviou um link para um artigo muito interessante sobre a meia centena de artistas que, em 1940, atravessaram a fronteira francesa antes que fosse demasiado tarde e foram salvos com a ajuda do cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, que nesses dias loucos deu vistos a centenas de pessoas. Mas, embora o facto não seja desconhecido da maioria dos Extraordinários e da maioria dos portugueses minimamente informados (recentemente foi aprovada por unanimidade no Parlamento a proposta de levar Sousa Mendes para o Panteão Nacional), a verdade é que só há algum tempo a investigação para uma tese de mestrado transformada em livro (A Lista de Aristides Sousa Mendes, de Ana Cristina Luz) trouxe à luz muitos nomes que não sabíamos estar entre os que o cônsul português salvou, tais como os do pintor catalão Salvador Dalì (e Gala, a sua musa e mulher), o pianista polaco Witold Malcuzynski (que inspirou Maria João Pires), o pintor Ivan Sors (que esteve refugiado na Figueira da Foz e foi retratado por Afonso Cruz no livro O Pintor debaixo do Lava-Loiça), o actor Robert Montgomery e muitos outros. A lista é longa e o livro sobre esta dádiva de Aristides às artes merecerá decerto ser lido. A primeira apresentação decorrerá no próximo dia 19 de Julho em Cabanas de Viriato, na Casa do Passal que, precisamente, foi de Aristides Sousa Mendes.


Hoje recomendo, até porque vem a propósito, A Mais Preciosa Mercadoria, de Jean-Clude Grumberg, uma obra-prima minúscula sobre um casal que não teve a sorte de ter um Aristides Sousa Mendes no seu caminho, e o precioso Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, acabado de sair em versão audiobook.

Olhos nos olhos

Desde ontem que o Município de Oeiras está a desenvolver, na página do Facebook das suas bibliotecas, um projecto que dá pelo nome de Ler Olhos nos Olhos e se prolonga até dia 16, substituindo os encontros presenciais (como se sabe, desaconselhados em tempos de pandemia) por conversas online. Para quem gosta de entrevistas com escritores, estes são encontros virtuais a não perder, uma vez que incluem personalidades nacionais e internacionais de peso, que certamente terão coisas muito interessantes para partilhar com o público sobre o respectivo ofício e as suas experiências de vida (e é gratuito, pois claro!). Além de João Tordo, que ontem abriu as hostilidades, vamos poder então «olhar nos olhos» autores como Mia Couto e José Eduardo Agualusa, mas também pensadores e grandes leitores como José Pacheco Pereira; haverá ainda lugar aos nuestros hermanos Manuel Vilas ou Maria Dueñas, aos brasileiros Heloísa Buarque de Holanda, Milton Hatoum ou Nélida Piñon e à celebridade Paolo Giordano (que para isto não precisa, graças a Deus, da protecção dos guarda-costas), entre outros. Consulte a página do Município de Oeiras sobre os dias e horários de cada conversa. Terá direiro a 22!


 


(Ai, lá me esqueci da recomendação... Obrigada a quem me lembrou. Aproveitando o embalo do comentário de cp, vou corroborrar a escolha de António Luiz Pacheco para o livro de Kennedy O'Toole, mas dizer que o autor tem outro livrinho notável chamado The Neon Bible, que não sei se está cá traduzido e vale a pena ler.)

O que ando a ler

Não vale a pena esconder o meu gosto especial por Barnes, pois volta e meia cá venho eu falar de um dos seus livros, e sempre com o maior entusiasmo. Desta feita, aliás, já o referi de forma evasiva em dois posts da semana passada, um deles em que contei que andava a ler um livro sobre a morte que contava histórias dos últimos momentos de uns quantos autores, entre eles o malogrado Somerset Maugham, que acabou mal; o outro em que referi a ausência de epitáfio na campa dos irmãos Goncourt. Pois tudo isso foi lido na maravilha que é Nada a Temer, do querido Barnes, um autor que gosta muito de escrever sobre a morte (Os Níveis da Vida, O Papagaio de Flaubert são outros títulos que olham para ela, embora de maneiras diferentes). Porém, Nada a Temer é exclusivamente uma reflexão sobre a morte, a mortalidade, Deus, o que vem (ou não) depois de morrermos, o aborrecimento do acabar, os tempos sinistros que precedem o culminar da vida, quem tem medo da morte e quem, por sua vez, parece que não tem «nada a temer». Mas, para falar de tudo isso, Barnes tem um humor impagável que põe a nu episódios hilariantes que envolvem avós e pais, os amigos, os confrades e sobretudo o seu irmão filósofo, que espera ser enterrado no jardim de casa e fertilizá-lo. E está cheio de pequenas histórias deliciosas sobre escritores e artistas, como a de Rabelais (o autor de Pantagruel) que, no seu leito de morte, se despede dizendo: «Vou em busca do Grande Talvez.» Não percam. Fartei-me de marcar passagens memoráveis, eu, que raramente sublinho livros. É a minha recomendação para hoje. Nada a Temer, traduzido por Helena Cardoso para a Quetzal numa reedição muito recente.