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A mostrar mensagens de setembro, 2016

Passa-palavra

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No post de hoje não há quase nada que seja meu; tal como fazemos tantas vezes nas redes sociais, limito-me a partilhar uma jóia que encontrei, por sua vez, partilhada por Rui Vieira Nery na sua página do Facebook e trazida do mural da escritora Luísa Costa Gomes (é a ela que todos temos de agradecer, no fundo). Desconheço se LCG andará a investigar para um romance, se encontrou as frases por acaso, mas são tão cómicas e desconcertantes que não resisto a dividi-las com os Extraordinários, até porque os considero uma espécie de «paroquianos» deste blogue – e é de avisos aos paroquianos que se trata, verdadeiros e… escritos de forma precipitada, diria eu. Ora leiam lá e divirtam-se:


 



  1. Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

  2. O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

  3. Na sexta-feira às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

  4. Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrarem das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

  5. Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

  6. O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

  7. O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

  8. O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

  9. Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados.


 


Delicioso, não? Quando começou a moda dos piercings, um amigo contou-me que leu o seguinte aviso numa farmácia: «Só se furam menores com o consentimento dos pais.» E esta, hein?


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Testemunhos

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Já aqui falei de Uma Parte Errada de Mim, um impressionante testemunho assinado por Paulo M. Morais, pensado e iniciado durante a quimioterapia que teve de fazer depois da descoberta de um linfoma, num ano em que já tinha havido demasiadas partes erradas. É uma leitura absolutamente electrizante, que não conseguimos largar; mas, ao contrário do que se possa pensar, não tem nada de negativo, nem sequer nas partes mais angustiantes, ajudando, aliás, a perceber o valor de sentimentos tão importantes como a amizade, a generosidade e a solidariedade (desculpem as rimas). Ao longo do tratamento do linfoma, a leitura foi de extrema importância para Paulo M. Morais, que recebeu vários livros de oferta, muitos de amigos que o liam no Facebook, alguns dos quais  escritores como ele. Um desses escritores foi o americano radicado há anos em Portugal Richard Zimler que, além desse gesto bonito, provou ser uma pessoa realmente especial ao aceitar apresentar hoje Uma Parte Errada de Mim, sabendo nós que para um estrangeiro, mesmo a viver em Portugal, o português é uma língua muito complicada. Tenho, porém, a certeza de que ele se sairá magnificamente e que ficaremos todos a ganhar. Se quiser fazer-nos companhia e ouvir mais este testemunho, está convidado. Senão, leia o livro.


 


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Logicamente

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Uma das coisas que mais aprecio nas crianças é a sua lógica – e colecciono histórias de meninos que surpreendem os adultos com as suas tiradas, como aquela de um rapazinho que viu um dia um enorme bloco de pedra no estúdio de Miguel Ângelo e que, uns tempos mais tarde, quando por lá passou, viu a parte de cima de um cavalo surgindo dela e perguntou ao mestre: «Mas como é que sabias que havia um cavalo dentro dessa pedra?» Desculpem se já vos tinha contado isto, mas de qualquer maneira não contei certamente outras duas histórias, igualmente deliciosas, que partilharam comigo recentemente. Uma professora da escola primária perguntou a um rapazinho de seis anos a idade do pai; e este respondeu que o pai tinha seis anos. Ora, a professora fez-lhe notar que só podia estar enganado, que isso seria completamente impossível, mas a criança não se deixou abater e explicou imediatamente o seu ponto de vista: antes de ele ter nascido, o pai ainda não era pai, portanto, se ele tinha seis anos… A mesma professora queixou-se de que dois alunos gémeos tinham copiado a redacção um pelo outro, pois eram iguaizinhas. O tema era «O Meu Cão»… E um dos gémeos esclareceu: «Pois se o cão é o mesmo…» Deve ter sido o que copiou, digo eu.


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Digitalizar livros

Há ainda muitos livros impressos nas nossas estantes que são de um tempo anterior aos computadores e à paginação electrónica. Foram publicados no tempo dos caracteres de chumbo ou dos fotolitos e, por isso, não há ficheiros digitais nos quais estejam guardados. De vez em quando, alguém se lembra de que seria bom pô-los outra vez a circular no mercado e, quando isso acontece, dá muito jeito que alguém que tenha o livro em casa o empreste para ser digitalizado. Para dizer a verdade, fujo de o fazer; porque normalmente é preciso desfazer o livro, separá-lo da capa e digitalizar uma página de cada vez. Quando mo devolvem, é raro estar nas melhores condições… Mas parece que esse problema vai ser em breve resolvido: uma equipa de investigadores do MIT está a desenvolver uma tecnologia avançada que permitirá digitalizar livros inteiros – pasme-se! – sem ter de os abrir. Esquisito, não? Também me pareceu, mas leio que é possível com o recurso a radiação tetrahertz, que é absorvida pelo papel e pela tinta de uma forma especial. Não pesco nada da matéria (por isso vos deixo um vídeo, em inglês, que podem ver e ouvir), mas, se isto for para a frente, tenho a certeza de que muitíssimas bibliotecas do mundo ficarão gratas a estes investigadores.


 

Croquetes para um editor

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O meu primeiro editor (sem contar com uma ninharia que assinei com pseudónimo e que, na altura, me permitiu comprar um frigorífico novo) foi Fernando Guedes, o senhor que mandava na Verbo e que, infelizmente, morreu há menos de um mês. Era um homem sábio, culto e divertido que, não tendo nunca abdicado das suas posições, tinha uma inteligência e uma abertura admiradas até pelos seus adversários. Foi na Verbo que publiquei os meus livros juvenis, o primeiro dos quais, escrito a meias com Maria Teresa Maia Gonzalez, ganhou o Prémio Verbo/Semanário. Quando fomos assinar o contrato, eu achei as condições bastante mazinhas (tendo em conta que era um contrato para uma colecção e que o primeiro livro dessa colecção recebera um prémio) e disse, quiçá um pouco desabridamente, que, para receber aquilo, talvez fosse melhor vender croquetes…  Fernando Guedes – que, mesmo não me conhecendo bem, deve ter intuído logo ali a minha falta de jeito para a cozinha – perguntou imediatamente se eu por acaso sabia fazer croquetes… Na reunião seguinte, levámos-lhe então uma caixa de croquetes magníficos (feitos, claro, pela empregada da minha mãe) para ele provar. E ele provou mesmo, dizendo que a nossa atitude demonstrava que tínhamos sentido de humor e que isso só podia ser bom para a colecção que nos encomendava. Resultado, acabou por concordar com a nossa proposta de contrato. Esse foi só o primeiro contacto com um verdadeiro senhor, com quem iria publicar duas colecções de livros ao longo de muitos anos. Fernando Guedes foi poeta, ensaísta, editor e muito mais. Vai fazer falta, tenho a certeza, a quantos tiveram a sorte de o conhecer.


 


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Mil livros até ao Natal

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Uma aldeia portuguesa situada a mais de mil metros de altitude tem apenas cerca de 150 habitantes, dos quais 15 ou 20 são crianças e adolescentes. Mas não é por isso que não merece uma pequena biblioteca (foi, pelo menos, o que o dramaturgo Abel Neves, com casa no local, achou) e há quem esteja a lutar por ela com unhas e dentes. Em Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, a Junta de Freguesia quer pôr a sua gente a ler e até já tem algumas prateleiras cheias de livros que vieram de muitos lados, Brasil incluído, provando que os leitores são sempre generosos. A iniciativa Um Livro para Pitões foi lançada por Rui Barbosa, um bracarense apaixonado pelo Parque Natural da Peneda-Gerês, e tem uma página no Facebook (ver no fim da mensagem) que apela à doação. O objectivo é que se consigam 1000 livros até ao Natal para formar uma biblioteca que faz falta num lugar que é um pólo cultural muito interessante, no qual se realizam já as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Fiadeiro dos Contos e ainda a celebração do Entrudo, que leva milhares de forasteiros a Pitões. Os livros podem ser enviados pelo correio ou entregues em mão (o pretexto é, de resto, óptimo para visitar esta terra linda). De que está à espera com tanto livro lá em casa em que já não voltará a pegar?


 


 https://www.facebook.com/Um-Livro-Para-Pit%C3%B5es-171390756597979/?fref=ts


 


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Folio

Aqui há umas semanas, o director do Festival Literário de Ovar, Carlos Granja, dizia que os festivais deste tipo nunca eram demais; e, apesar de às vezes sentir que alguns autores não fazem senão andar de um lado para o outro a falar dos seus livros, em vez de escrever, a verdade é que todas as cidades merecem assistir a debates e conversas sobre literatura. Hoje é, de resto, a vez de começar o Folio – em Óbidos –, que tem neste ano a sua segunda edição com centenas de eventos em todas as áreas culturais e muitos convidados de peso. Falo, por exemplo de Salman Rushdie, o escritor perseguido e jurado de morte depois da publicação de Os Versículos Satânicos, ou de V.S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura. Mas haverá muito mais, claro, além destas vedetas: exposições (uma delas de Júlio Pomar); música (Camané vai cantar Tom Jobim, estou curiosa!); filmes (A Ópera do Malandro); conferências (Eduardo Lourenço vai falar sobre Vergílio Ferreira). É mesmo para todos os gostos, diria eu. E, para facilitar a vida a quem não tem carro e quer ficar em Óbidos até tarde, pois alguns dos eventos são à noite, o Folio fez um acordo com a CP e haverá um comboio de ida diário às 10h30, que parte da Estação do Rossio e regressa de Óbidos às 00h30. A viagem custa 10 euros, mas dá direito a leituras de poesia pelo caminho. O festival vai até dia 2 de Outubro e o programa completo pode ser consultado aqui:http://foliofestival.com/


 

Aconselhar

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Existe uma panóplia de autores consagrados (Hemingway é um dos exemplos mais gritantes) que generosamente partilharam os seus conselhos e experiências com os que então começavam ou queriam começar a escrever. Recentemente, apanhei já não sei bem onde – creio que no site de uma escola que ministra cursos de Escrita Criativa – uma série de conselhos bastante úteis do escritor mexicano Carlos Fuentes que, entre muitos outros galardões, recebeu o Prémio Cervantes e o Prémio Príncipe das Astúrias pela sua obra. Pois além de afirmar que é preciso ter lido, e lido muito, antes de qualquer um se abalançar a escrever o seu próprio livro, Fuentes refere coisas curiosas, como a de que «não há inovação que não se sustenha na tradição» e que só assim um autor de antanho se converte em autor actual e o autor actual em autor de amanhã; e diz ainda que ninguém se deve deixar seduzir pela ideia do êxito e da imortalidade, até porque a maioria dos best sellers morre em pouco tempo e os seus autores logo caem no esquecimento. Refere que há que prestar muita atenção à categoria do tempo, pois é ele que transforma a história em poesia ou ficção, e que um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária. Outra das suas máximas – mas essa sabe toda a gente que escreve – é que, uma vez publicado, o livro deixa de pertencer ao autor. Boas dicas para futuros e presentes escritores.


 


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Um colóquio para O'Neill

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Estamos há trinta anos e um mês sem Alexandre O’Neill, grande publicitário e poeta notável, além de autor de grandes fados (Gaivota é o mais conhecido). Mas ninguém o esquece – e o Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa vai dedicar-lhe um congresso inteirinho nos próximos dias 22 e 23 de Setembro na Sala de Exposições do Edifício da Biblioteca. Para falar do grande mestre da ironia estarão nestes dois dias muitos especialistas portugueses e estrangeiros, de Clara Rocha (sim, a filha de Torga) a Fernando J. B. Martinho, de Burghard Baltrusch a Fernando Cabral Martins (conhecido sobretudo pela sua obra sobre Pessoa), de Miguel Tamen a Pedro Mexia. Muitos serão os temas tratados – o medo, a sátira, a espiritualidade (que será tratada por José Tolentino de Mendonça, sacerdote e poeta) ou a Lisboa do escritor. A entrada é livre (grátis!), mas os interessados terão de se inscrever neste link:


https://docs.google.com/forms/d/1b5Se0-qpUtPnaK3uutZG1AiDfiSh_dZd6CBNPbx_ht8/viewform?edit_requested=true


Para mais informações, podem consultar o link abaixo. E bom Congresso!


https://ocoloquiodooneill.wordpress.com


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A melhor parte

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Há histórias reais que davam mesmo bons romances – e, se forem histórias de romancistas, melhor. No ano passado, depois de anunciados os finalistas do Prémio LeYa, soube-se que dois deles eram namorados… Entre tantos originais a concurso, foi uma bela coincidência... Um desses escritores, o Paulo M. Morais, quis porém rever a sua novela e apresentar-me, em vez dela, um livro de não-ficção que tinha praticamente concluído. Era este Uma Parte Errada de Mim, de que hoje vos falo; e, quando iniciei a leitura, dei por mim, muitas horas depois, com mais de 150 páginas lidas sem ter feito uma pausa. Trata-de de um testemunho absolutamente notável (e nada lamechas nem sensacionalista, como às vezes acontece) sobre uma experiência terrível: no mesmo ano em que ficara sem emprego, se separara e tivera de voltar para casa de uma avó com quem vivera na infância, o Paulo descobriu de um dia para o outro que tinha um linfoma (a médica de família achava que era tudo uma depressão). Mas esta sua «parte errada», a cujo tratamento assistimos também neste livro, foi aquele desvio que o conduziu ao lugar certo e o ajudou não só a fazer um corajoso balanço de vida (o passado torna-se fulcral quando ignoramos se temos futuro) mas igualmente a corrigir muita coisa que lhe permitiu ir suportando os maus fantasmas e ir encontrando forças (e também alguém muito especial) para resistir. Uma Parte Errada de Mim, na tradição de livros como o de Rebecca Solnit de que aqui falei já (Esta Distante Proximidade), não é, pois, MAIS um livro sobre o cancro, mas uma reflexão magistral sobre a condição humana, que se lê com a fluência de um romance com final feliz. A não perder.


 


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A Vegetariana

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E pronto, A Vegetariana já está na rua! Vencedor do Man Booker International Prize há uns meses, eis o livro de Han Kang que destronou obras de Elena Ferrante, José Eduardo Agualusa e até o Nobel Pahmuk e desde então vendeu cerca de meio milhão de exemplares só na Coreia, país natal da autora. É a história de uma mulher que era absolutamente normal. Nem bonita nem feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E essa sua renúncia à carne – que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu – acabou por desencadear reacções extremadas da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros – o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano… Um romance mesmo bom, de que Ian McEwan disse merecer todo o  sucesso que alcançou. A tradução é de Maria do Carmo Figueira. Leiam, leiam.


 


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Livros de graça

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Eu bem sei que venho um pouco tarde, porque hoje é o último dia para poderem aproveitar esta dádiva, mas pode ser que morem ou passem pela Freguesia de Arroios, em Lisboa, e ainda cheguem a tempo. (E, embora não seja o caso aqui no blogue, a verdade é que não deve haver assim tanta gente interessada, digo eu, sabendo o nível de hábitos de leitura dos portugueses.) A história é esta: uns quantos livros foram espalhados por vários locais de Arroios no âmbito de uma acção conjunta da Biblioteca de S. Lázaro (a mais antiga de Lisboa) e da Junta de Freguesia de Arroios; e podem ser sessenta só num dia! Aparecem nas piscinas, em bancos de jardim, em esplanadas de cafés, em quiosques, e no fundo o que querem é alguém que lhes deite a mão, os leve para casa e, evidentemente, os leia. Há de tudo, de policiais a poesia, de livros portugueses a literatura traduzida. E o que se pretende é que as pessoas percam o medo aos livros, lhes peguem e experimentem ler… De graça, ainda por cima! Em anos anteriores, a oferta de livros acontecia na própria biblioteca, mas, claro, aparecia pouca gente, iam sempre os mesmos – e esses eram quase todos leitores firmados. Assim, sempre pode surgir alguém que queira tentar … e goste. É sempre assim que começa.


 


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Quintas especiais

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Falo muito neste blogue (e não só) das Quintas de Leitura, um espectáculo de poesia que costuma acontecer uma vez por mês no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Mas, como a Feira do Livro está a decorrer naquela cidade, as Quintas deste mês serão amanhã no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, instalada nos jardins do Palácio de Cristal, no mesmo local onde tem lugar a feira. Esta sessão vai ser dedicada ao grande editor Vítor Silva Tavares, que morreu recentemente, tendo-nos brindado em vida com a sua belíssima &etc, uma editora de excepção que publicou numerosos poetas, entre os quais Herberto Helder, António Ramos Rosa, João César Monteiro, Adília Lopes, Rilke, Sade ou Salvador Dalí. A sessão chama-se A xapharika &etc, uma editora no subterrâno 3, inclui uma conversa entre Eduardo de Sousa, Cláudia Clemente e Isaque Ferreira, sendo este último também um dos diseurs que fará leituras, a par de Nuno Moura (poeta que foi publicado pela &etc.), e Sandra Salomé. A imagem está a cargo de Bárbara Assis Pacheco, que realizou muitas das capas da editora de Vítor Silva Tavares, e asseguram a parte musical J. P. Simões e Joana Bagulho, que toca cravo. Não se esqueçam: às 22h00 de amanhã, um certamente imperdível espectáculo!


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© Bárbara Assis Pacheco


 

Ir ao casino

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Os casinos podem ser, claro, antros de perdição. Tive uma tia que, nesse particular, teve pouca sorte e se casou nada mais nada menos do que com dois jogadores… Livra! Mas o dinheiro do jogo também pode servir para coisas interessantes e, na Figueira da Foz, o casino tem uma programação cultural bastante boa para compensar as horas e horas de mau vício que lá se vivem todo o ano. Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, hoje, entre as 21h30 e as 23h30, um par improvável vai estar presente na actividade Casino das Artes; trata-se de Ana Margarida de Carvalho, a autora do premiado Que Importa a Fúria do Mar e do ainda mais aplaudido pela crítica Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, e do músico Rui Reininho que, para quem não saiba, além de figura-mestra dos GNR, também escreve poesia de vez em quando. A entrada é livre (ir ao casino sem gastar dinheiro é mesmo uma coisa invulgar) e a conversa promete ser rica e variada, pois os participantes trabalham ambos em áreas que dão muito que falar e a troca de experiências de ambos só pode ser frutífera. Se estiver por perto, ora aqui tem um bom programa.


 


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Vestir e despir

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Os livros dão motivo para que, a seu propósito, se escreva sobre quase tudo, e apanhei há tempos um artigo bem divertido que os Booktailors divulgaram na sua newsletter sobre a importância de vestir personagens. Por mim, sempre embirrei com longas descrições de fatiotas, sobretudo em certa literatura americana que não consegue fugir ao número de botões de uma farda ou às camadas de tecidos que cobrem algumas damas. Mas, de facto, como referia a autora do texto de que vos falo, a descrição da roupa de uma personagem não serve apenas para encher linhas e fazer crescer a obra; ou seja, a roupa não é apenas uma coisa que se veste para que a personagem deixe simplesmente de andar nua. Se forem «vestidas» da maneira certa, as roupas podem ser quase tudo, a forma de descrever classes sociais, gosto, imagem, personalidade, enfim, um largo espectro de características e tiques, pertença a um grupo e muitas outras coisas. O que pode, assim, parecer inicialmente fútil e dispensável, pode também, na verdade, acabar por se revelar fundamental para que o leitor compreenda melhor certas acções das personagens. Porém, é preciso cuidado com as vestimentas na literatura – elas podem ser anacrónicas (e nos romances históricos vê-se muito anacronismo) ou simplesmente desadequadas para algumas criaturas (a autora do artigo cita um ridículo vestido de tule azul numa princesa de um romance de Edward St-Aubyn que já tem sessenta anos e certamente não se vestiria assim). Há sempre pessoas que estão atentas a certos pormenores e, por isso, todo o cuidado é pouco.


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FIC

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Começa hoje a segunda edição do FIC – Festival Internacional de Cultura, que tem lugar em Cascais e se espalha por diversos sítios, da Casa das Histórias de Paula Rego às ruas da baía, do Museu dos Condes de Castro Guimarães ao Jardim Visconde da Luz, do Casino Estoril ao paredão da praia, desta vez coberto por citações de Shakespeare, uma vez que este ano se comemora o 400.º aniversário da morte do poeta. Há convidados de peso – Caetano Veloso, Andrew Morton, David Lodge, Mathias Énard e muitos outros; e, além de mesas-redondas sobre literatura (uma delas com Caetano Veloso e o poeta António Cícero), política, história, etc., a programação inclui exposições variadas (da própria Paula Rego na sua casa, mas também das capas maravilhosas da revista Egoísta, por exemplo), um ciclo de cinema ao ar livre, concertos, leituras de poesia, teatro, gastronomia, animação infantil e ainda artes de rua para surpreender os passantes. O festival termina no dia 18 e, por isso, havendo todos os dias coisas para todos os gostos, não há razão para não ir lá fazer uma visita. Até porque também há uma Feira do Livro, aberta a partir das 16h, na qual se podem encontrar bons livros e autores a autografarem. A programação dos debates com escritores está a cargo de Inês Pedrosa e pode ser consultada aqui: fic.leya.com.


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Ler em grupo

Às vezes fico estupefacta com o facto de duas pessoas jantarem juntas ao meu lado e não trocarem uma palavra durante toda a refeição, mas não pararem de fotografar os pratos e de os divulgar no Facebook para os «amigos» saberem onde e o quê estão a comer. Tenho a sensação de que nunca estivemos tão perto de toda a gente (a Internet ajudou) e tão – apesar disso – sozinhos. Leio, porém, uma notícia em sentido contrário, de que os clubes de leitura e as comunidades de leitores nunca foram tão numerosos em todo o mundo e que só nos Estados Unidos se estima em cinco milhões o número dos que fazem parte de uma ou mais destas «agremiações». Em Portugal elas também são bastante populares – cada vez mais – e algumas contam já com orientadores experimentados e participantes fiéis e têm até temas específicos que são tratados através de obras literárias ao longo de um ano ou de um semestre. Porque será então que as pessoas jantam sozinhas estando acompanhadas, mas gostam de ler em grupo quando a leitura é uma actividade que implica solidão, silêncio, concentração, recato? Pois não sei. Tenho ideia de que muita gente detesta ir ao cinema sozinha por não ter com quem comentar o filme no final; e, se calhar, também sente falta de ter com quem discutir os livros que adorou ler. Será?

Regresso ao passado

No ano do centenário de Vergílio Ferreira, decidi levar para férias, entre muitos outros livros, Até ao Fim, um romance publicado no final dos anos 1980 que, sei lá porquê, nunca tinha chegado a ler. Mas este meu reencontro com o autor de Aparição ou Manhã Submersa foi bastante estranho e não creio que isso tenha que ver com o facto de só ter lido Vergílio até aos vinte e tal anos e ter agora outra experiência de leitura e outra maturidade. Não. Até ao Fim (uma «conversa» entre um pai e o seu filho morto sobre a vida, as mulheres, a família…) é, se quisermos, um romance que terá sido moderno na sua época – arrojado, até – mas que hoje não consigo deixar de ler como qualquer coisa que inequivocamente passou de moda. Não me interpretem mal (Vergílio é sempre Vergílio e li-o «até ao fim»), mas, talvez porque tantos o tenham copiado (ainda hoje consigo ver aonde certos jovens escritores foram buscar meia dúzia de maneirismos), fica difícil apreciar a frase quebrada, a falta de pontuação, os tiques que na altura em que o livro foi publicado certamente seriam uma invenção prodigiosa, uma inovação estilística, mas que agora simplesmente me parecem um tudo-nada datados. Já me preparo, de resto, para um dia destes voltar a Aparição, uma obra mais clássica, para provar que o mestre é o mestre e que muitas das suas obras são realmente eternas. Até porque posso estar enganada nesta minha apreciação.

Escrever sem erros

Há quem pense que os doutores (os que tiraram um curso universitário, enfim) ou mesmo os escritores não dão erros, mas a verdade é que muitos, mesmo tendo estudado, escrevem de forma incorrecta, sobretudo palavras que ouviram muitas vezes mas nunca viram escritas. Eu, por exemplo, escrevia «atarrachar» em vez de «atarraxar», que é a forma correcta, até ver a palavra escrita por alguém que respeitava e ter conferido no dicionário que andava enganada havia muitos anos. Acontece a muito boa gente e não é crime, mas devemos obviamente tentar evitar escrever com erros. Marco Neves, que se tem vindo a especializar na área da revisão, dá umas dicas no blogue Certas Palavras para nos ajudar a corrigir os erros ortográficos, entre elas, claro, ler muito, ler cada vez mais. Porém, aconselha também a que sejamos humildes e aceitemos que não sabemos tudo, o primeiro passo para desconfiarmos de nós próprios e irmos ver tudo aquilo de que não estamos 100% seguros, aprendendo assim a rever os nossos textos antes de os mostrarmos a alguém, embora possamos pedir a um amigo em quem tenhamos confiança nestas coisas que os leia também (quatro olhos vêem mais do que dois). Os dicionários são igualmente de grande ajuda, entre eles o do processador de texto, que sublinha habitualmente palavras mal escritas a vermelho no ecrã do computador; mas não chega – um bom dicionário online ou em papel faz muita falta e consegue tirar muitas dúvidas. Rever com cuidado é também meio caminho andado para limpar gralhas; e ter a noção dos erros que cometemos mais frequentemente para estarmos mais atentos a esses também se revela fundamental. Se quiserem espreitar o blogue de Marco Neves, façam-no, pois vale muito a pena.

Livrarias diferentes

Florentin Bosse, alemão, trabalhou anos num banco, de fatinho e gravata, sonhando com o dia em que tivesse ganho o suficiente para comprar uma vinha e gozar a reforma. Mas isto de bancos, já se sabe, não é lá muito seguro – e a vida dele deu uma reviravolta (suponho que tenha sido despedido, mas não tenho a certeza). Decidiu, pois, refugiar-se primeiro na Natureza, fazer a seguir uma «caminhada» de quase 4000 quilómetros em seis meses e, por gostar tanto de ler e querer fazer algo pelos outros e pela literatura, pediu finalmente a leitores vorazes espalhados pelo mundo que lhe dessem a lista dos seus dez livros favoritos para criar uma espécie de livraria «ideal» que combatesse as pressões do mercado. A livraria, que conta com mais de dois milhares de livros escolhidos por cerca de 500 leitores (Miguel Esteves Cardoso é um deles), chama-se Letters Matters e está situada em Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca, n.º 21, contando com uma bonita decoração da qual fazem parte retratos de escritores como Oscar Wilde ou Virginia Woolf. No interior estão também os livros da vida de muita gente conhecida, tendo Florentin recolhido as listas de livros preferidos de Hemingway ou García Márquez da Internet, que acrescentou à dos «curadores» ainda vivos. Vale a pena entrar numa livraria que praticamente não tem best sellers e ver quem aconselha o quê. Literatura para quem gosta de literatura.

De pequenino

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Embora esteja convencida de que há uma certa dose de acaso no facto de alguém gostar de ler (é uma lotaria, um clique, e pode nunca acontecer o casamento entre livro e leitor ser tão bom que se queira continuar naquela relação), é também sabido que os bons hábitos devem ser criados na infância e que, por isso, a escola tem de ser uma das principais responsáveis por passar a ideia de que a leitura é importante e contribui para o desenvolvimento individual e a aprendizagem do mundo. No Paraná (Brasil), uma escola evangélica (com o nome Martin Luther, vejam lá) resolveu, por isso, evocar a importância dos livros de uma forma original e curiosa, rodeando o espaço escolar de um muro integralmente constituído por enormes lombadas de livros que podem ser apreciadas por quem passa na rua. De forma bastante democrática, inclui livros de grande tiragem e não tanto sumo (como, por exemplo, o best seller A Culpa é das Estrelas) ao lado de clássicos para a infância, como As Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis, que há muitos anos foram publicadas numa editora em que trabalhei e que, por isso, li na íntegra, achando que a miudagem só poderia gostar das aventuras daqueles garotos que entram no armário e descobrem lá dentro uma porta que dá para um mundo fantástico. Não sei se não seria mais vantajoso virar as lombadas para o interior da escola, mas, pelo menos, a ideia é gira. E talvez haja meninos cujas mães digam para esperarem todos os dias por elas diante de um livro distinto, levando-os a aprender os nomes de tantos autores e títulos diferentes. Ora vejam a foto abaixo e digam lá se não é um muro digno de respeito.


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O que ando a ler

Ora então sejam bem-vindos ao blogue depois deste mesinho de férias. As minhas foram boas, embora não tenha lido tanto quanto gostaria, pois estive de volta de um projecto de que oportunamente vos falarei (nada de exclusivamente meu, porém, não vão pôr-se já a pensar que tenho livro de poesia novo). E agora tenho em mãos um calhamaço de mais de 600 páginas, de que o nosso António Luís Pacheco (e outras pessoas) disse maravilhas – O Filho, de Philipp Meyer, um romance a que a crítica chamou, entusiasticamente, «um épico sobre o Oeste americano», obra que conta a história de uma família de pioneiros – os McCullough – ao longo de mais de um século, entre 1800 e picos e o século xxi, desde que eram criadores de gado ameaçados pelos índios até se tornarem exploradores de petróleo. Ainda estou a pouco mais de cem páginas do início, por isso, não vou adiantar grande coisa, a não ser que as personagens são muitas e fortes (dos dois sexos) e que os narradores também parecem multiplicar-se (três, pelo menos), o que, mesmo assim, não confunde grandemente o leitor. Hoje é só mesmo para pôr o dedo no ar aqui no Horas Extraordinárias – e não esperem grandes novidades esta semana, que há muito trabalho para pôr em dia e dificilmente verei o fundo ao tacho tão cedo. Custos de ter estado a descansar em Agosto, mas tinha de ser.