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A mostrar mensagens de novembro, 2025

Fechado para obras

Queridos Extraordinários e amigos,


Pensei que ainda tinha tempo de escrever qualquer coisa de interessante hoje, mas tenho tanta outra coisa para deixar pronta que não consegui. É que amanhã vou ser operada à anca (vou pôr uma prótese, para ser mais concreta), processo pelo qual já passaram a minha irmã e a minha mãe e portanto era de esperar que eu não escapasse. Estou velha! Há três anos com dores, depois de doses de anti-inflamatórios que tive de abandonar porque me subiam a tensão; depois de muitas tentativas de adiar o processo com infiltrações disto e  daquilo que não resultaram, cansada de andar a gemer e a coxear e de não poder dar as minhas caminhadas, chegou mesmo a hora. Creio que não será nada de complicado, mas, como eu fecho para obras, assim acontecerá provisoriamente ao blogue, prometendo regressar em breve quando a saúde estiver restabelecida e eu aí para as curvas (não sei mesmo quando poderei sentar-me à secretária confortavelmente com uns posts novinhos em folha). Darei notícias mal possa e desejo-vos boas leituras neste entretanto. 

Obrigada, Gulbenkian

Para mim, a Fundação Calouste Gulbenkian foi sempre uma referência, não só em termos do apoio às artes e à cultura, mas também do ponto de vista social com o seu programa educativo. Na semana passada, o jornal Público trazia, de resto, mais uma boa notícia sobre um projecto que visa dar aos alunos de bairros desfavorecidos oportunidades iguais às que têm os filhos das famílias sem problemas financeiros. Como? Pois bem, a Fundação acha que os resultados escolares podem mudar nos bairros ditos problemáticos se os estudantes usufruírem de explicações; e está a recrutar professores e a escolher alunos para participarem da experiência. Os locais, para já, que vão receber estes Centros de Estudo Gulbenkian serão o Bairro Padre Cruz (Lisboa), o Bairro do Zambujal (Amadora) e o Vale da Amoreira (Moita); mas a ideia é, se os objectivos se cumprirem, estender a experiência a outros bairros carenciados. As crianças e jovens envolvidos neste primeiro ano serão à roda de 90, do 4.º ao 12.º ano. A Fundação tem uma relação próxima com as escolas destes bairros e pretende transformar alunos "invisíveis" em melhores alunos e alunos mais interessados, já que, além das explicações, proporcionará actividades culturais fora do local de residência e desenvolverá um programa de mentoria com pessoas que são modelos de referência. Aplaudo a iniciativa. Bendita Gulbenkian.

Conversa com a escritora

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Umas das boas surpresas de 2025 foi o aparecimento de Luísa Sobral como escritora de romances. Digo isto assim porque a Luísa, antes do romance que publicou em fevereiro e já vai em mais de uma dúzia de edições, já era na verdade uma escritora, só que de canções. Acredito que passar do registo curto para o mais longo não lhe tenha sido exactamente fácil; em todo o caso, as suas canções já eram histórias e, como tal, serviram certamente de treino para este mergulho na ficção mais longa. Aliás, Luísa Sobral conta muitas vezes como o seu romance nasceu de uma história verdadeira sobre a qual começou por escrever uma canção. Mas não bastou, e ainda bem. Foi para mim, editora, e para os muitos leitores, aquilo a que se chama uma estreia feliz, embora o livro não trate propriamente de felicidade. Ora, para quem ainda não conhece Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, recomendo que o leiam. E, se estiverem para os lados de Santiago do Cacém, podem assistir neste sábado, no âmbito da programação do Outono Literário, a uma conversa entre a autora e o jornalista João Morales, esse homem dos sete ofícios que consegue estar em todo o lado, sobre a dita obra, na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André. Será às 16h00.


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Comer e dormir com Camilo (salvo seja)

A terminar o ano em que se celebra o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, o jornal Expresso resolveu alargar a sua rubrica "Boa cama, Boa mesa" aos lugares que marcaram a vida do escritor romântico, levando-nos a passear com ele munidos de um pequeno roteiro saído com um recente número do semanário. Pretende-se que conheçamos em traços breves a história do menino que cedo foi deixado pela mãe e que dedicou a sua vida à escrita romanesca, tendo amado loucamente, tendo estado preso, tendo sofrido de tuberculose (li algures que o Dr. Sousa Martins chegou a ser seu médico) e tendo-se suicidado aos 65 anos. Em vários momentos da vida, uns mais boémios do que outros, o opúsculo transporta-nos a S. Miguel de Seide, aos sítios que Camilo frequentava no Porto (como o Teatro Nacional de S. João, o edifício da Rua de Santa Catarina onde se casou com Ana Plácido ou mesmo a Cadeia da Relação, onde escreveu Memórias do Cárcere), à cidade de Braga e também aos locais onde comeu e dormiu, para que lhe sigamos o rasto. Mas este livrinho também não esquece as suas obras maiores, proporcionando itinerários nelas baseados que serão por certo belíssimos de fazer com as palavras de Camilo no Coração, na Cabeça e no Estômago.

Ver para crer

O Manel mostrou-me um dia destes um vídeo divertido no qual Mariana Mortágua e André Ventura pareciam colegas cordatos e até amigalhaços. Era, está bem de ver, um desses numerosos filmes produzidos por inteligência artificial para, à primeira vista, ver se caímos na esparrela de acreditar e, logo a seguir, nos fazer rir. Leio num jornal espanhol (provavelmente o El País, que assinei numa altura em que houve uma campanha para ajudar os jornais) que hoje em dia a frase de S. Tomé «ver para crer» perdeu o sentido, já que podemos estar a ver duas pessoas falar, rir, dar a mão, jurar que se portam bem, mas tudo não passar de uma encomenda a essa coisa que hoje enche o nosso quotidiano chamada Inteligência Artificial. Como dizer, porém, a crianças e adolescentes que vão à Internet que aquilo que elas estão a ver e a ouvir não aconteceu se parece estar ali a prova do contrário? A capacidade de distinguir entre realidade e construção virtual têm-na os adultos (e não todos, daí que haja tantas notícias falsas e manipuladoras nas campanhas eleitorais), mas, neste artigo do El País de que falo, o seu autor, Pablo Lafuente Cordero, diz que, em tempos de Inteligência Artificial, é forçoso que a educação, seja na escola seja em casa, avance ao mesmo ritmo da tecnologia e evitar que os menores naveguem na Internet sem acompanhamento; é também necessário propor aos jovens exercícios simples que fomentem o desenvolvimento do pensamento crítico e que os levem a fazer perguntas antes de acreditarem em tudo o que vêem e reenviarem para todos os amigos um vídeo, uma fotografia ou uma história falsa. Concordo, claro.

Saramago

Provavelmente, já não irão a tempo (e eu estou a trabalhar, tampouco poderei ir), mas hoje às 11h00 passa no auditório da Fundação José Saramago um documentário sobre o nosso Prémio Nobel da Literatura. O intuito é celebrar aquele que seria o seu 103.º aniversário e, ao mesmo tempo, fazer-lhe um retrato através de vozes de outros, alguns de lugares longínquos, incluindo a própria realizadora Carmen Castillo, que é chilena. O filme tem por título José Saramago. O Tempo de Uma Memória e é, segundo a newsletter da Fundação, um objecto construído a partir de reflexões do escritor sobre vários temas, como a memória, a criação literária ou a passagem do tempo, que conta também com testemunhos de pessoas bastante díspares, como a actriz Maria de Medeiros, o astrónomo David Elbaz e o grande fotógrafo Sebastião Salgado. Eu adorei o filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre o José Saramago (José e Pilar) e espero que este documentário fique disponível em breve para o vermos nem que seja em casa, nas nossas televisões. Há poucos documentários sobre escritores portugueses (e ainda há pouco estreou um sobre António Gedeão/Rómulo de Carvalho, que também não consegui ir ver).

Prémio PEN de Narrativa

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Conheci o escritor Paulo Moreiras no princípio deste século, ainda eu estava na editora Temas e Debates e tinha então começado a publicar literatura portuguesa. O Paulo tinha ganho uma bolsa de criação literária para escrever um romance pícaro, um género infelizmente pouco cultivado entre nós, e apareceu na editora com aquela maravilha chamada A Demanda de Dom Fuas Bragatela, que tem mais de vinte anos de edição mas, graças a Deus, continua disponível no mercado. Foi um início brilhante, a que se seguirem romances mais curtos (Os Dias de Saturno, O Ouro dos Corcundas...) e obras noutros registos, como um delicioso livrinho etno-literário sobre a ginjinha, e um conjunto de Bilhetes de Identidade sobre coisas tipicamente portuguesas (o tremoço, a morcela, o palito...) que em breve coligiremos num só volume ilustrado. Mas hoje queria dizer-vos que o romance do Paulo que mais se parece com o inaugural, intitulado A Vida Airada de Dom Perdigote, com um fantástico trabalho de recuperação da linguagem e da dinâmica picaresca, foi este ano galardoado com o Prémio PEN de Narrativa, que vai ser entregue hoje às 17h00 na Torre do Tombo em Lisboa. Teremos o maior gosto em que apareça para felicitar o autor.


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Excerto da Quinzena

Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.


 


João de Melo, Novas Fases da Lua (primeira entrada do diário)

25 de Abril

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Associo a cor vermelha ao 25 de Abril, naturalmente por causa dos cravos. E não me canso de falar da data libertadora aos mais novos, que não fazem a mais pequena ideia da fome que passavam tantos portugueses nas aldeias ainda sem luz eléctrica e nos campos onde trabalhavam de sol a sol com uma malga de azeitonas e meia sardinha para cada um. Parece muito populista, mas é a mais pura verdade. Eram tempos escuros; e não nos iludamos, muitíssimo piores do que aqueles que estamos a viver, apesar dos perigos que já vislumbramos e da falta de perspectivas para os jovens. Por isso mesmo, as comemorações desta nossa Revolução fazem sentido todos os dias e, assim, convido-vos a ler o livro Revolução, de Maria Inácia Rezola, responsável pelas comemorações oficiciais dos 50 anos do 25 de Abril, com quem tive o gosto de trabalhar há muitos anos, ainda na Temas e Debates, num livro ilustrado sobre os presidentes da República portuguesa. O lançamento de Revolução decorre na Associação 25 de Abril (where else?) e terá o formato de uma conversa entre a autora, o coronel Vasco Lourenço (um dos capitães de Abril), o historiador e comentador televisivo António Costa Pinto, conversa essa que será moderada pelo grande jornalista José Pedro Castanheira, também autor de vários livros, um dos quais o recente Histórias da Pide. Para nunca nos esquecermos.


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Literatura e música

Amanhã começa no Âmbito Cultural do El Corte Inglés um curso que tem todo o ar de ser interessante. Tem por título Melodia Passageira e assume-se como um minicurso de Literatura Portuguesa e Música. Ministrado por João Dionísio, que é docente de Crítica Textual e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, o dito curso está dividido em quatro sessões (além da de amanhã, haverá mais nos dias 20 e 27 de Novembro e a útima será a 4 de Dezembro). Amanhã falar-se-á de poesia feminina e lírica trovadoresca; no dia 20, a tónica estará no Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett; no dia 27, as odes de Pessoa vão casar-se com a música oitocentista; e, por fim, no dia 4 de Dezembro, as referências musicais da poética de Cesariny vão encontrar-se em Lopes Graça e noutros. Promete.

Lavagante

Se ainda não viram o filme de Mário Barroso chamado Lavagante, baseado numa pequena novela homónima de José Cardoso Pires, por favor vão ver. Se tiverem filhos adolescentes ou até mais velhos, mas que não façam a mais pequena ideia do que foi viver neste país à beira-mar plantado nos anos da ditadura, levem-nos convosco. É um belíssimo objecto artístico (o filme é a preto e branco, o que foi uma opção de tornar as cenas ainda mais realistas, porque tudo se passa durante o "reinado" de Salazar), com uma fotografia excelente, um bom gosto que é pouco comum entre os nossos realizadores, grandíssimos intérpretes, um guião realmente muito bem escrito (o cinema português está cheio de diálogos inverosímeis) e uma história de base que nos fala ao ouvido (às mulheres, especialmente) e nos recorda tempos em que o amor também podia ser censurado para sempre, separando-se dois amantes que iriam quase de certeza ser felizes. Numa altura como a que vivemos, de falsos moralismos e tentativa de regresso ao passado, em que certos políticos são realmente salazarentos, revisite-se a prosa de Cardoso Pires, e este Lavagante também, lido ou, pelo menos, visto. Vale a pena.

Língua e pátria

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No mesmo jornal que abre com a notícia de que não há vagas nos cursos de Português para quem os procura com vista à obtenção da nacionalidade, leio um artigo excepcional de José Pacheco Pereira que mostra como obrigar os imigrantes a falarem bem a nossa língua pode, na verdade, ser irónico, sobretudo vindo de quem vem. Mostrando em letras garrafais a maravilhosa frase de Pessoa sobre o seu "alto sentido patriótico", "a minha pátria é a língua portuguesa", o autor da crónica defende o respeito à língua-materna como uma das mais altas formas de patriotismo, e assume-se patriota porque foi Portugal quem o moldou e, sempre que está a viver noutro sítio, lhe falta alguma coisa, que também pode ser a sua língua. E a seguir põe o dedo na ferida e diz que os mesmos políticos que agora vêm impor o conhecimento da língua portuguesa aos estrangeiros que aqui querem ficar são, curiosamente, os que pior a tratam; e, o que é mais grave, os que pior a tratam publicamente, nas redes sociais, onde dão constantemente erros gramaticais e de ortografia, onde usam um vocabulário ínfimo e dominado pelos insultos, e onde substituem as palavras por bonequinhos, formando a população mais jovem no uso de num português a que vou chamar, palavras minhas, totalmente ranhoso. Depois, o cronista deixa o exemplo de uma caixa de comentários na página de Facebook do Chega que aqui reproduzo. E diz-nos com toda a razão que quem assim se exprime (nem "cuecas", caramba, sabe escrever) não pode ser patriota, já que um patriota não despreza a língua desta maneira. E atalha que, pelo contrário, muitos dos imigrantes que já sabem falar português procuram falá-lo com a maior correcção, em suma, bastante melhor do que os que os querem obrigar a fazer cursos nos quais, claro, acabaram as vagas. Tenho dito.


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Maya

Se não tem nada que ler este fim-de-semana (o que é quase impossível tratando-se de um leitor deste blogue... mas há sempre surpresas), vou sugerir-lhe um livro que li há pouco e de que aqui ainda não falei. Trata-se de A Mamã e Eu e a Mamã, de Maya Angelou, uma autora norte-americana negra nascida em 1928, que resolve claramente dedicar esta obra à sua mãe Vivian Baxter, que foi realmente uma heroína numa América altamente segregacionista e racista, e conseguiu ser autónoma, empresária e proprietária num tempo em que os negros não podiam ainda entrar em escolas e hotéis, senão como funcionários. Este é um livro da maior admiradora de Vivian (a filha, evidentemente) e da relação entre ambas (com seus altos e baixos, claro, mas quase sempre com uma avassaladora cumplicidade, principalmente nos maus momentos de ambas, que são bastantes); mas é também uma das várias autobiografias da própria escritora, a Maya que se contou a si mesma em sete livros não sequenciais. Neste, apesar do abandono da mãe (que a enviou muito nova com o meio-irmão para casa da avó no Arkansas, onde nada acontecia, e os mandou chamar sete anos depois de repente), Maya reage inicialmente mal ao regresso, mas acaba por se fascinar com Vivian e o seu poder para resolver tudo, enquanto o irmão não consegue perdoar inteiramente ter sido separado da mãe e acaba por se dar mal na vida. A leitura é muito fluida, muito à flor da pele, e o livro faz-nos um retrato da América contado a partir desta relação entre duas mulheres que foram quase tudo na vida. A nobelizada Toni Morrison diz que Maya Angelou não tem duplicado, e Oprah Winfrey confessou ter-se inspirado nesta mulher que, entre outras coisas, leu poemas na abertura da Administração de Bill Clinton. 

A sério?

Há exactamente uma semana, fui jantar com um casal de amigos a um restaurante que fica a meio caminho entre as nossas casas e que é assim uma espécie de cantina que frequentamos semanalmente há mais de vinte anos e cuja relação qualidade-preço é excelente. Além disso, os funcionários já nos conhecem e quase adivinham o que queremos. Sentamo-nos sempre na mesma mesa, que está guardada, e eu fico de frente para uma televisão que, estando calada, também nunca se apaga. Ora, nessa noite, havia um debate entre os dois candidatos à presidência do Benfica (Rui Costa e o outro, de quem não sei o nome mas ouvi na rádio que é advogado); e, enquanto escolhíamos e pedíamos o que iríamos comer, vi-os serem maquilhados, vi-os sentarem-se no estúdio, vi porem-lhes os microfones, vi as cores das gravatas, as expressões faciais, tudo com exagerado detalhe e alguma lentidão. Depois chegaram os "perguntadores" e reparei que eram quatro, mais do que os canditados. Para quê tanta gente?, inquiri só para mim. Depois veio a comida, desliguei do ecrã e estivemos a jantar calmamente e a conversar. Estranho foi quando acabei o excelente repasto perceber que o debate ainda durava, e que cada um dos candidatos estava a ter um tempo de antena (o relógio mostrava quantot tempo haviam falado) que nem os políticos em campanha eleitoral conseguem! Eu bem sei que este país gosta da bola, mas será ajuizado uma injecção de bola num canal noticioso em horário nobre quando há tanta notícia importante para dar? Noutro dia chatearam-se com a escritora Isabela Figueiredo por ela ter dito mal do preço certo. Pois para mim é ainda pior ocuparem tanto tempo num canal generalista com conversa futeboleira. Não chega já o exagero da conversa sobre bola em todo o lado? E a bola que passa praticamente três vezes por semana, se não mais? (Isto tem pouco que ver com o blogue, bem sei, mas porque será que os livros nunca têm direito a este privilégio?)

Ouvir ou ler?

A produção de audiolivros está a crescer (hoje já há muito por onde escolher) embora eu continue a achar que não é a mesma coisa ler livros e ouvir livros. Em todo o caso, confesso que, desde a leitura da crónica de Rogério Casanova no Público do último domingo, já não faço uma cara tão feia aos audiolivros e acabo por aceitá-los em circunstâncias excepcionais em pessoas que vêem bem. O cronista começa por contar-nos (descobrimos quem era Elena Ferrante, mas alguma vez saberemos a identidade de Rogério Casanova?) que, dada uma terrível contractura que sofreu, não conseguia posição para ler; e, enquanto ia tomando cápsulas de relaxante muscular umas atrás das outras para se livrar daquela dor aguda, tomou a opção de ouvir em inglês Os Irmãos Karamazov. Descontando a ironia magistral (leiam a crónica, que vale muitíssimo a pena), Casanova defende que "ouvir [um livro] é delegar parte da cognição a um autor desempregado" ( e eu concordo) e "ler é uma actividade tresloucada: consiste em ficarmos especados a decifrar uma sucessão de escaravelhos simbólicos até essas configurações gerarem pessoas, lugares, emoções e ideias dentro do nosso crânio", chegando mais à frente à conclusão de que "a diferença entre papel e ficheiros .mp3 é meramente estética: ler é uma alucinação com legendas, ouvir é uma alucinação com dobragem". Como disse logo ao início, não tenho a certeza absoluta de que assim seja, mas o cronista é um grande escritor e só as suas ideias e expressões já valem a pena. Claro que, depois de tantos comprimidos, ele esqueceu uma grande parte do que ouvira, mas isso, estou em crer, não era culpa do meio que escolhera.

Overdose

Vim de Penafiel há cerca de uma semana e tinha tanto trabalho à minha espera que ainda não consegui agradecer publicamente a homenagem que me foi feita pela Escritaria. (Faço-o aqui, desculpem.) Já lá tinha estado duas vezes enquanto editora: uma delas quando João Tordo recebeu o Prémio Literário José Saramago pelo romance As Três Vidas, a outra quando Mário Cláudio foi o escritor homenageado. E é a este último que roubo a palavra que titula este post e que está num balão de fala saindo da sua boca (trata-se de uma ilustração) numa exposição que se encontra na Biblioteca Municipal de Penafiel. E Mário Cláudio tem toda a razão, porque quem é homenageado na Escritaria sente uma overdose de si próprio: a cidade cheia das suas frases (ditas em entrevistas ou escritas em livros) esvoaçando em faixas pelas ruas e penduradas em fachadas de prédios; cheia também da nossa cara, com que estamos sempre a topar em variadíssimos materiais (até numa farmácia, numa caixa de medicamentos que tem escrita a expressão «remédio para a alma» e sugere a leitura de poemas nossos como terapêutica). Mas, melhor do que o busto, a árvore que é baptizada com o nosso nome, a escultura do livro aberto que inaugurámos no jardim (e que se acrescentam aos outros dos homenageados que já lá moram) e o quadro desvelado no Ponto C (um espaço cultural novo e excepcional) ou uma exposição inteirinha sobre a nossa vida nos livros, é conhecer as pessoas: não só os políticos, não só os programadores e a fantástica bibliotecária, não só artistas que deram conta da parte estética, não só os amigos que se juntam em conversas sobre nós e concertos em que se cantam palavras nossas, mas sobretudo aqueles que não conhecemos mas estão sempre ao nosso lado, que nos levam de carro de escola em escola, que nos apoiam nas entrevistas de bastidores, que nos trazem tostas mistas quando já desfalecemos de fome num dia que começa com actividades logo de manhã e vai até às 23h00. Gostei mesmo muito dos penafidelenses! Obrigada a todos todos os que fizeram esta Escritaria. Agora é preciso curarmo-nos deste excesso de admiração e amor e, pois claro, descer à terra. 

O que ando a ler

Movida já não sei bem porquê, levei de uma livraria num certo sábado um romance de uma autora chamada Anne Michaels, de quem não me parece que tenha lido alguma coisa antes desta. O livro chamava-se Abraço (como um antigo livro de crónicas de José Luís Peixoto) e talvez tenha sido a ideia de um texto que nos abraça que me fez comprá-lo sem mesmo ter lido a contracapa; ou então a frase «Finalista do Booker Prize 2024» debaixo do título, é o mais certo, porque se trata de um prémio de prestígio e geralmente contempla literatura de qualidade. Para não mentir, estou a levar tempo a lê-lo, apesar de não ser extenso; é, no mínimo, um texto fora do normal, muito fragmentado, dividido em partes em que as personagens são outras (noutro tempo e noutro lugar), mas quase sempre numa situação de guerra ou sentindo a ausência de alguém que lá está (soldado, ferido, enfermeira, médica...) e terá deixado os seus por desígnio ou altruísmo. A crítica chamou-lhe romance, e na verdade o Booker Prize é um prémio para romances, mas eu não lhe encontrei exactamente uma linha condutora, são episódios muito vagamente ligados, mesmo que bastante bonitos (a história de Mara com o pai é a mais bela até aqui). Ainda não percebi, porém, se estou a gostar. Em todo o caso, parece pelo menos uma coisa nova, diferente, o que é bom para quem, como eu, valoriza muito a originalidade. A tradução é que podia ser melhor, talvez tenha sido feita com demasiada pressa, escapou um «pudessem haver» que também fugiu ao revisor, e tem palavras esquisitas como «cobardice» e expressões mal traduzidas (um «by himself» que é claramente «sozinho» e foi traduzido por «por ele mesmo», parece erro de principiante). Coisas que acontecem aos melhores ou uma ajuda da IA? Espero que não.