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A mostrar mensagens de abril, 2025

Açores

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Hoje, enquanto estiverem a ler este post, devo estar a caminho da ilha de São Miguel, nos Açores, onde nem me importava nada de passar uns dias, mas não é para isso que lá vou e, portanto, estarei de volta amanhã de manhã para gozar o feriado em Lisboa. Desloco-me uma vez mais a Ponta Delgada em jeito de Pepe-Rápido para o lançamento de Passagem Noturna, de Leonor Sampaio da Silva, um romance magnífico que foi finalista do Prémio LeYa e que, sendo o primeiro romance da autora publicado aqui na casa, é obra de surpreendente maturidade literária, de resto muito elogiada por intelectuais como Carlos Fiolhais ou Onésimo Teotónio Almeida (e que será apresentada em Lisboa por João de Melo durante a próxima Feira do Livro). Vivendo a autora numa ilha, é natural que o seu romance reflicta sobre a insularidade, ainda que de forma parabólica (e muito divertida), e que a história parta de um «sinistro» que bem pode ser um daqueles terramotos a que as ilhas costumam ser atreitas. Mas é universal. Leiam-no. É o melhor que fazem.


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Poetas contemporâneos

À semelhança do que vem sendo feito com várias disciplinas do conhecimento (história, artes plásticas, inteligência artificial, música...), o Âmbito Cultural do El Corte Inglés não esquece a literatura, em especial a poesia. Há sempre recitais excelentes organizados, regra geral, por José Anjos, que é um leitor profissional de poesia e há poucos dias esteve com Rui Spranger a falar de O'Neill e do seu Um Adeus Português; e há agora também a novidade de um curso sobre oito poetas portugueses contemporâneos, dado por António Carlos Cortez em quatro sessões. Infelizmente não fui a tempo de avisar da primeira (em que se falou de Vitorino Nemésio e Jorge de Sena), mas nos dias 5, 12 e 19 de Maio os que gostam de poesia ainda podem aproveitar as sessões sobre Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira e António Ramos Rosa e, no último dia, Gastão Cruz e Fiamma Hasse Pais Brandão. Tudo poetas, como hoje se diz, incontornáveis na história da literatura portuguesa.

Excerto da Quinzena

(Excepcionalmente à segunda, porque sexta foi feriado.)


Esquecida entre os cadernos do liceu, uma fotografia antiga. Mostrava Jacinto, os pais e as irmãs junto do monumento aos Descobrimentos. Usavam todos roupas leves e frescas. A luz reverberava no leito do rio e contra o calcário das estátuas. Acompanhavam a família duas raparigas que não conhecia, talvez parentes dos Açores. No verso da fotografia li a data: julho de 1960. Datava da inauguração recente do monumento, quando o padrão original, erguido em materiais perecíveis, fora reconstruído em betão e cantaria, para assinalar os quinhentos anos da morte do Infante. Uma caravela estilizada faz-se ao mar, levando à proa o Infante D. Henrique e alguns dos protagonistas da gesta ultramarina e da cultura da época, navegadores, cartógrafos, guerreiros, colonizadores, evangelizadores, cronistas e artistas, retratados com os símbolos que os individualizaram. Jacinto, reparava agora, posava debaixo da efígie de Bartolomeu Dias, a sua personagem no teatrinho do liceu. Pensaria nele todos os dias? Faria dele o seu modelo, a sua inspiração?


Isabel Rio Novo, A Matéria das Estrelas, no prelo


(Prémio Literário Cidade de Almada)

Resumos de notícias

Cada vez estamos a ser mais treinados para ler pouco... Numa rede social, quem se atreve a publicar um texto mais extenso (Frederico Lourenço fê-lo várias vezes no passado e tinha imensos leitores) vê-o reduzido a três meras linhas seguidas da expressão destacada «Ver mais», mas o facto de não vermos logo o texto completo leva a que muita gente nem sequer se dê ao trabalho de ver quanto lhe falta e se tem tempo para ler até ao fim; se as primeiras linhas não forem muito fortes, ficarão de facto por ler na maioria dos casos... Agora, que os jornais em papel, impressos na véspera da data de saída, se tornam facilmente obsoletos de manhã (até já houve um jornal que acreditou estar seguro das suas previsões e deu uma primeira página com dados errados numas eleições americanas...), muitos jornais mandam por e-mail um resumo das principais notícias todas as manhãs (o Expresso e o seu Expresso diário, por exemplo). Desta feita, foi o Diário de Notícias que resolveu criar a newsletter «Bom Dia», em que um experiente profissional nos faz a papa toda, resumindo com elegência o que há a saber de mais importante sobre a actualidade. Confesso que dá imenso jeito (sobretudo a caminho do Luxemburgo, onde ficarei até domingo), mas, depois desta síntese tão bem feitinha, alguém vai ler o resto do jornal? Duvido.

Os livros dos presidentes

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Confesso que li o meu primeiro livro da norte-americana Marylinne Robinson porque ouvi o presidente Barack Obama dizer que era uma das suas autoras preferidas. Ainda o nosso Presidente não era presidente, mas professor e comentador, e já os livros que divulgava na televisão, mesmo demasiado sucintamente (eram muitos para tão pouco tempo), passavam a registar vendas significativas na semana seguinte nas livrarias. Mas desta feita vai falar-se dos livros de um outro presidente, Mário Soares, para comemorar o seu centenário e falar da sua enormíssima biblioteca (no Dia Mundial do Livro). A mesa-redonda é organizada pela Universidade do Minho e faz parte do ciclo «Conversas na Casa»; realizar-se-á hoje às 18h30, na Casa do Conhecimento em Braga (Largo do Paço), e conta com as participações da filha de Mário Soares, Isabel Soares, e também de Maria João Avillez e Pedro Matos Gomes, sendo moderada por Sérgio Guimarães Sousa. Vai de certeza valer a pena, até porque quem aqui não gosta de ouvir falar de livros?


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Bibliotecas de pequenos livros

Lutando contra a desculpa esfarrapada de que não têm tempo para ler, dada por pessoas que em geral não querem dar-se a esse trabalho, a RTP começa hoje um interessante programa intitulado A Pequena Biblioteca, com autoria e apresentação de Filipa Leal (já experiente nestas andanças), que propõe semanalmente em menos de cinco minutos (para não roubar muito tempo) um livro pequeno que merece ser lido. Ao longo de cinquenta episódios, a ideia é mesmo promover a leitura junto de todos, especialmente os preguiçosos, de pequenas obras e mostrar que os livros não se medem aos palmos e que há títulos incríveis de poucas páginas que, ainda por cima, têm a vantagem de não pesar e poder ser transportados na mala ou no bolso. Parabéns por mais esta iniciativa que eu não vou de certeza perder. Se não lerem grande, leiam pequeno! É o mínimo que se pode pedir.

Uma morte difícil

Na semana passada, para começarmos mal, morreu-nos Mario Vargas Llosa, o grande (enorme) romancista peruano, premiado com tudo o que havia para ganhar, incluindo o Nobel da Literatura em 2010. Autor de livros absolutamente marcantes, e tão diferentes uns dos outros como Conversa na Catedral, Quem Matou Palomino Molero, A Guerra do Fim do Mundo ou, mais recentemente, As Travessuras da Menina Má e O Sonho do Celta, fez-me apanhar um bruto escaldão na Praia da Luz, em Lagos, há muitos anos, enquanto lia A Tia Júlia e o Escrevedor, que se baseia na sua própria experiência de radialista e pretendente de uma tia por afinidade, com quem na vida real acabaria por ficar casado durante doze anos. Era, além disso, um desses autores que falam bem, e ouvi-o a propósito do seu percurso (já aqui o contei) na Feira do Livro de Guadalajara, no México, numa ocasião em que contou como a leitura o ajudara no colégio interno a perceber que não era o único miúdo no mundo a sofrer a privação da mãe e da alegria. Era por fim um homem implicado na política, não indiferente, tendo-se candidatado a presidente do Peru e escrito romances com fundo político (Lituma nos Andes, um dos meus preferidos), mesmo que o amor nunca fosse estranho a esses livros. Presto-lhe homenagem neste blogue e espero que a sua herança crie grandes escritores por esse mundo fora. A sua obra é para continuarmos a ler e reler.

A Primavera é dos poetas

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Poesia rima com Primavera, ainda que não pareça. Já aqui disse que o dia em que se inaugura a nova estação é o Dia Mundial da Poesia, mas agora conto-vos que na próxima semana estarei no Luxemburgo para, com muitos outros poetas de várias nacionalidades, participar em várias sessões no âmbito do encontro Printemps des Poètes. Além de uma conversa com a representante do Instituto Camões, Adília Carvalho, na universidade a propósito do que se lê e publica em Portugal desde o 25 de Abril, o que dá pano para mangas, realizarei duas leituras de poesia de cerca de dez minutos em português, que serão seguidas da leitura, por uma atriz, das respectivas traduções francesas, feitas pela magnífica Sónia da Silva, com quem pude trabalhar aquando das Correntes d'Escritas, no passado mês de Fevereiro. Com essas traduções foi feita, de resto, uma pequena plaquete bilingue pelos Cahiers de l'approche (Cadernos do Achegamento) para eventual venda durante as actividades. Vai ser uma Primavera muito poética. Boa Páscoa e até segunda.


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Muros que caem

Já aqui falei da fabulosa estreia na ficção literária da cantora Luísa Sobral. Como faz parte, houve algum preconceito quando se falou de que a artista se atrevera à escrita de um romance porque os portugueses parecem sempre desconfiar de quem tem êxito (e o Camões até acabou Os Lusíadas com a palavra inveja). Mas, mal as pessoas começaram a ler, renderam-se à evidência de que a Luísa Sobral era uma belíssima contadora de histórias muito para lá das canções que escreve desde os doze anos; que era capaz de estruturar um romance literário, de usar vários registos estilísticos, de ter uma voz segura (ela é uma grande leitora), de investigar e inventar; e as críticas positivas têm-se multiplicado em blogues, jornais, podcasts e redes sociais, fazendo com que Nem Sempre as Árvores Morrem de Pé tenha passado já à 6.ª edição, o que é raro conseguir-se num primeiro romance. Para quem esteja interessado em ouvir a Luísa Sobral falar ao vivo sobre o seu processo criativo e o romance em causa, hoje às 18h30 estarei a conversar com ela na FNAC da Avenida de Roma, onde esperamos todos aqueles que queiram aparecer e  tirar teimas. Hão-de cair muitos muros, aposto. Até logo.

Prémio LeYa

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Hoje sai para rua e as livrarias mais um romance vencedor do Prémio LeYa. Desta feita, estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria. É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis – entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler –, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido. Pés de Barro é um livro maravilhoso que, garanto, toda a gente vai gostar de ler. Parabéns, Nuno Duarte! (A maravilhosa capa é de Rui Garrido.)


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Literatura da ilha

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Certa noite, um fenómeno natural súbito e inexplicável deixa um hotel completamente isolado e rodeado por uma cratera funda, o que não só resulta numa perda de liberdade de movimentos para os hóspedes, mas também num convívio diário forçado entre pessoas de contextos e gerações muito diferentes. O «sinistro» – como virá a ser referida a catástrofe – é pressentido pela filha do Engenheiro responsável pela construção do hotel, uma pré-adolescente que perdeu a mãe em circunstâncias pouco claras dois anos antes; leitora voraz e de imaginação fértil, a Menina crê que recebeu a mensagem do abalo e, cansada das namoradas do pai, resolve lançar-se numa aventura, pondo-se em contacto com a Guia Turística que se encontra sitiada no hotel. Assim é o maravilhoso Passagem Noturna, da açoreana Maria Leonor Sampaio da Silva, uma narrativa que oferece várias perspectivas da mente e do comportamento humanos num momento de crise, criando tão depressa situações cómicas e absurdas como dolorosas e chocantes. Finalista do Prémio LeYa, evoca a insularidade e acompanha o destino das personagens ao longo de um período de sete dias que faz pensar no mito da Criação, mas parece caminhar para um desfecho de queda e escuridão. Elogiado já por João de Melo, Carlos Fiolhais, Onésimo e Leonor Teotónio de Almeida, um livro francamente inovador no nosso panorama literário.


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Excerto da Quinzena

Os meus pais sempre falaram russo um com o outro – e comigo e com a minha irmã também. É claro que sabiam falar checo, mas não tão bem como a Ielena e eu, e o seu sotaque russo fazia com que amiúde nos sentíssemos envergonhados. Embora pudéssemos falar checo entre nós, não o podíamos fazer com eles, pelo que quando não nos ocorria uma palavra em russo tínhamos de perguntar-lhes, ou então tentar explicar, em russo, o que pretendíamos dizer. Por essa razão, sempre fomos bastante bons no russo – ainda hoje a Ielena o fala na perfeição –, e talvez seja também esse o motivo de, após a nossa fuga da Checoslováquia para a Alemanha, no verão de 1970, termos aprendido alemão com tanta rapidez.


Ao regressarmos a casa vindos da escola, naquele dia demasiado quente, abrasador mesmo, de maio de 1965, marcado por breves aguaceiros, Ielena e eu decidimos cantar, bem alto e com primor, uma canção checa famosa, das que normalmente se canta em redor de uma fogueira. Fala de apaches e do seu chefe Manitou, e da luta destes contra os brancos. É claro que no final morrem todos, mas morrem como heróis, como índios orgulhosos. Ielena aprendera a canção no verão anterior, num acampamento em Česká Lípa, e depois ensinara-ma. Ainda hoje nos lembramos da canção e por vezes, quando falamos ao telefone – ela vive em Londres, eu em Berlim –, cantamos em coro a primeira e segunda estrofes, e de cada vez que assim é recordo aquela tarde em que Dima regressou da prisão.


 


Maxim Biller, Seis Malas, tradução de Paulo Rêgo

As mãos, pequenas e grandes

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Hoje o meu querido pai faria 103 anos e, embora tenha morrido em 2001 (antes da queda das Torres Gémeas), permanece vivo dentro de mim. Era bastante «mãos-largas» com os filhos, diga-se de passagem, ajudava-nos sempre que precisávamos com umas massitas e, mais tarde, quando eu fui viver sozinha, até com a renda da casa. Mas, claro, o dinheiro não é tudo, e há quem seja igualmente generoso tendo «mãos pequenas»... Vem isto a propósito de um livro infantil de Helena Sacadura Cabral, chamado Mãos Pequenas, Coração Grande e ilustrado por Carolina Branco, que será lançado esta tarde às 16h00, no El Corte Inglés, com apresentação de Fátima Lopes. É um livro sobre a empatia, a ternura e a importância de olharmos com olhos de ver para o outro e o ajudarmos sempre que ele estiver a precisar. É o que acontece à Clara e ao Francisco desta história, mas o melhor é lerem-na aos vossos filhos, pois há hoje uma grande crise de valores e este livro também serve para os transmitir e recuperar. Parabéns, Helena, por mais este livro.


P. S. Amanhã é dia de Excerto da Quinzena, pelo que anuncio já hoje a apresentação no Porto por Rui Lage do excelente romance da Sara Duarte Brandão, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada, Quem Tem Medo dos Santos da Casa, que já aqui elogiei. O convite segue abaixo, apareçam!


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Tarrafal

Publico há muitos anos (uns quinze, creio) um autor de Cabo-Verde, Mário Lúcio Sousa, que além de músico e escritor foi também ministro da Cultura do seu país. Quase todos os seus livros foram premiados, mas destaco hoje um romance que se chama O Diabo Foi Meu Padeiro, integralmente passado no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua abertura até ao abandono das instalações (no final, tem a lista de todos os prisioneiros que por lá passaram, de diversos países). É, porém, a propósito de um outro livro sobre o mesmo tema, Tarrafal : Campo de Concentração, com organização de Alfredo Caldeira e João Esteves, que o auditório da Fundação José Saramago acolhe hoje uma conversa que reúne, além dos autores, António Gato, Diana Andringa, Domingos Abrantes, Fernando Rosas, Luís Farinha e Maria Luísa Tiago de Oliveira, para falarem realmente do que foi essa prisão tremenda que se inaugurou com os revoltosos da Marinha Grande nos anos 30 e que viu morrer muitos de disenteria e outras doenças. A sessão é às 18h30, com entrada livre, dependente da lotação da sala.

Calhamaços

Estava um dia destes em casa, à secretária, olhando para as estantes à procura de assunto para este blogue, crente de que as lombadas me trariam alguma recordação digna de ser aqui narrada, quando percebi que, àquela distância, só conseguia ler os títulos nos calhamaços (esta minha vista já não é o que era), porque aí as letras são mais gordas. Não são muitos os livros que lá tenho com mais de 600 ou 700 páginas (embora haja mais alguns no escritório do Manel e na estante do corredor, verifiquei depois); mas apareceu-me logo o Americanah, da Chimamanda, mais adiante o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell (que reúne os maravilhosos Justine, Balthazar, Mountolive e Clea); umas filas abaixo Shantaram, de um australiano que fugiu para a Índia, Gregory David Roberts, um romance que publiquei há uns quinze anos ou mais e que está de novo disponível pela editora Cultura; e entre os autores que escrevem em castelhano Pátria, de Fernando Aramburu (um livro sobre a ETA, que também foi adaptado à televisão numa série basca muitíssimo fiel ao romance), e O Viajante do Século, de Andrés Neuman, autor argentino que vive em Espanha há muitos anos, mas cujos livros seguintes já não me agradaram tanto. Então, como estava sem assunto, resolvi que escreveria este post só para perguntar aos Extraordinários quais são os primeiros 4 ou 5 calhamaços que vêem quando olham para as vossas estantes de ficção. (Digo ficção, porque senão haverá demasiados dicionários e Histórias na resposta...)

Tomar banho

Em minha casa sempre fomos muito de banhos numa altura em que por acaso não era costume tomar banho diariamente em Portugal. Mas, como fazíamos ginástica, judo e outras actividades físicas, estávamos graças a Deus livres desse preconceito de que tomar demasiadas vezes banho fazia mal à pele. Fiquei por isso agarrada a um artigo do The Guardian sobre esse mito; e a médica dermatologista que respondia às perguntas do jornal a partir de um estudo com doentes que tinham eczema explicava que, num teste, os doentes que só tomaram banho duas vezes por semana e os que tomaram todos os dias tiveram exactamente os mesmos resultados, pelo que posso ficar descansada: o banho diário não faz mal à pele. Já o tempo e a temperatura da água podem piorar realmente uma dermatite e, assim, um duche curto e com água morna é o ideal. Por último, aquilo com que nos lavamos é muito importante para a saúde da nossa pele; e, quanto menos substâncias, parabenos, sulfatos e conservantes melhor (sabão azul e branco como dantes?). Perguntar-se-ão os Extraordinários o que terá isto dos banhos a ver com o nosso blogue. Pois, nada, mas falo disto aqui porque a palavra "conservantes" diz-se curiosamente em inglês "preservatives", que é muito mais parecida com "preservativos". Ora, isso fez-me pensar qual seria a razão dessa afinidade e dei comigo a pensar que o preservativo, além de deter a saída dos espermatozóides, conserva efectivamente o sossego dos que não querem filhos na oportunidade em que têm relações sexuais. Um post fora do baralho, mas ainda estou a norte a terminar a minha participação no LeV numa escola.

Obrigada

Nos últimos tempos, tivemos notícias de várias mortes no sector da cultura, entre as quais a de dois editores: Luís Oliveira, a cabeça à frente da Antígona: Editores Refractários (e este ano, não por acaso, li bastantes livros desta chancela); e Francisco Guedes, que seleccionava os títulos de poesia da colecção 12!catorze para a editora Húmus, mas desde há mais de vinte anos estava ligado a projectos realmente fundadores e inesquecíveis como as Correntes d'Escritas (um festival de línguas ibéricas que começou pequenino, numa cidade de província, e chegou aos píncaros), o Festival de Sabrosa, em terras de Miguel Torga, o LeV, uma festa de literatura de viagens que, como ontem escrevi, vai ter a partir de amanhã mais uma edição (a maior de todas, segundo ouço) e muito mais coisas, porque o Francisco não podia estar parado. Vou ter saudades da irreverência de Luís de Oliveira se a Antígona mudar de caminho ou desaparecer, mas nunca o conheci pessoalmente, pelo que sentirei mais a falta do querido Chico, do seu abraço grande, do seu sobretudo axadrezado que eu adorava, da sua gentileza e até de alguns relatos sobre a guerra colonial, por onde andou antes de eu o conhecer, mas que me fez um dia na Póvoa de Varzim depois de um stressado de guerra ter tido uma crise na sequência da leitura de um poema sobre o assunto. Só espero que, lá onde estiverem, velem por nós e nos mandem boas ideias como as que toda a vida tiveram.

Viajar com os livros

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De 5 a 13 de Abril teremos o LeV, o festival Literatura em Viagem que se realiza todos os anos em Matosinhos na Biblioteca Florbela Espanca e na Galeria Municipal, com vários painéis de conversas e debates à volta da literatura e das viagens que podemos fazer com um livro na mão. Desta feita, quase a chegar aos 20 anos do festival criado por Francisco Guedes, as actividades prolongam-se por mais dias e com vários autores nacionais e estrangeiros. Dos nossos não faltarão vedetas, desde logo no humor, com Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira; mas também participará a cantora Rita Redshoes, que acaba de lançar o seu primeiro livro, ou José Luís Peixoto, que, além de romancista, é um conhecido viajante e tem também livros publicados sobre locais que visita amiúde, como a Tailândia. Uma das convidadas mais esperadas é a libanesa Joumana Haddad, activista e directora de uma revista erótica árabe (é precisa coragem). O segundo centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco será celebrado com uma exposição, os escritores visitarão escolas e haverá ainda lugar a espectáculos musicais. O município de Matosinhos partilha o programa, que é extenso, no Facebook. Eu estarei lá no sábado à tarde. Apareçam.


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60 anos

A Dom Quixote completou ontem 60 anos, dá para imaginar? Eu lembro-me da editora ainda numa vivenda bonita aonde ia de vez em quando cheirar os livros, ali para os lados da Avenida Duque de Loulé, mas já não a conheci pela mão de Snu Abecassis, sua fundadora. Este ano vai haver várias actividades, edições especiais e lançamentos para comemorar a idade maior das Publicações Dom Quixote, e entre esses está a criação do Prémio de Poesia Nuno Júdice, um poeta que publicou o seu último livro na editora e que nos deixou no ano passado (dia 29 de Abril, que é a data do seu aniversário, abrem as candidaturas). Haverá também uma colecção de seis títulos de ficção universal e que celebram o espírito de liberdade e de pensamento que foi sempre apanágio da Dom Quixote, colecção que inclui autores como Kundera, Salman Rushdie e Han Kang. O livro de Cândida Pinto sobre Snu e Sá Carneiro verá de novo a luz das livrarias e os policiais vão ter uma nova identidade gráfica numa colecção que irá chamar-se DQ Noir. Mas há mais, e garanto-vos que vale a pena acompanhar ao longo de todo o ano a programação que festeja a coragem de Snu para lançar uma editora em tempos de ditadura e publicar temas e livros controversos. Parabéns, Dom Quixote!

O que ando a ler

Fui, como não podia deixar de ser, atrás de outro vencedor do Booker Prize, desta vez dos livros originalmente escritos em inglês. Intitula-se Orbital e escreveu-o Samantha Harvey, de quem, confesso, ainda não tinha lido nada. Passamos o tempo na companhia de seis astronautas de vários continentes (dois são russos, claro) numa nave espacial, orbitando ascendente e descendentemente a Terra, esse planeta azul que, visto de longe, é mesmo de tirar o fôlego e, por vezes, parece a quem o vê de longe o único lugar para onde voltar. Samantha Harvey deve perceber bastante de cosmologia, astronomia, meteorologia, e também das muitíssimas restrições que tem a vida no espaço; não pensem mudar de roupa todos os dias, ou comer o que quiserem, ou saírem da nave só porque recebem a notícia da morte de um familiar, como acontece às tantas à pobre Chie, que sempre quis ser astronauta e tem de suportar a dor da perda da mãe longe demais, enquanto procura o seu país (quiçá a sua casa) no planeta belíssimo que vê da janela a todo o instante (mas perde a graça quando o sol nasce). É sem dúvida uma obra original e com a qual estou a aprender bastantes coisas, mas a cada novo capítulo é também uma leitura algo repetitiva, como deve ser, suponho, andar às voltas da Terra durante meses. Vamos lá ver como se desenvolve até ao final.