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A mostrar mensagens de janeiro, 2021

Uma pseudo-playlist

Agora, que estou por obrigação a trabalhar em casa, enquanto almoço ouço muitas vezes no pequeno rádio vermelho da cozinha a Playlist da TSF; é uma lista de canções (ou peças musicais) seleccionadas por uma figura conhecida, seja ela da política, da música, do cinema, da ciência, da televisão. No site da estação podemos consultar as playlists todas, mas, curiosamente, passaram de moda na nossa imprensa escrita as listas de livros preferidos ou livros da vida (talvez a maioria das figuras conhecidas já não leia assim tanto). Mesmo assim, acho que podemos fazer aqui no blogue uma coisa original e, em lugar de escolher faixas de música, escolher excertos de livros que dêem aos outros vontade de os ler. De quinze em quinze dias, à sexta-feira, proponho que todos, a começar por mim, publiquemos uma citação de um livro de que gostámos e que ilustre bem o seu conteúdo, porque os títulos não dizem por vezes grande coisa do que vai lá dentro. Concordam? Se sim, na próxima sexta trarei já um excerto de um dos livros que me mudou como leitora, e aí desse lado pensem também no que vão trazer. Não demasiado longo, combinado? Bom fim de semana.

Ir à América e voltar mais sábio

Agora, que o estupor do vírus nos impediu de viajar, não temos outro remédio senão recordar com saudade os lugares aonde já fomos e ler sobre os países aonde ainda gostaríamos de ir – mas, claro, fechadinhos em casa. Felizmente, há alguns livros que nos permitem viajar por vastas áreas geográficas (quase um continente) sem termos de sair do sofá e, ainda por cima, sublinhando os seus monumentos literários. É o caso de um que já aqui referi quando saiu, Viagem ao Sonho Americano, da autoria da jornalista e crítica literária Isabel Lucas. Trata-se de um roteiro maravilhoso da litertura norte-americana feito através de reportagens e entrevistas a escritores oriundos de vários estados, por vezes tremendamente distantes uns dos outros. Descobri, por exemplo, o fabuloso Donald Ray Pollock por causa deste livro precioso; e por isso não só vos desafio a lê-lo em confinamento como vos proponho que participem do serão do próximo sábado com a autora no clube de leitura do Museu da Farmácia, no qual Isabel Lucas falará do seu percurso e das viagens que fez nos Estados Unidos para visitar estas pessoas com quem nós, leitores, gostaríamos tanto de falar, bem como as casas e lugares de grandes autores desaparecidos como Melville, Roth ou Gore Vidal. A iniciativa do Museu conta com o apoio do Plano Nacional de Leitura e tudo o que tem de fazer para assistir é inscrever-se. As informações podem ser consultadas aqui:


museudafarmacia@anf.pt


 


 

Casulos felizes

Ao longo da minha vida profissional, em pequenas ou grandes editoras, fui conhecendo e trabalhando com muitas pessoas diferentes. Algumas delas continuam perto de mim por me terem acompanhado de uma editora para outra; outras permanecem apesar de tudo à distância de um telefonema, de um e-mail, do Facebook ou mesmo (quando era permitido) de um almocinho de tantos em tantos meses para pôr a conversa em dia. Mas, infelizmente, de alguns dos meus ex-estagiários ou assistentes sei pouca coisa, sobretudo quando deixaram Lisboa e voltaram aos seus locais de origem. Por isso, foi tão bom descobrir que a Ana Sofia Pereira, que trabalhou comigo na QuidNovi, é mãe de três filhos (e que trabalheira será), mas nem por isso deixou o seu amor aos livros que, segundo ela, pautaram a sua vida desde a infância até hoje («[…] licenciada em Línguas Estrangeiras Aplicadas, tradutora literária e detentora de todos os cartões de utilizador de bibliotecas públicas a que pude deitar a mão»). Depois de ter criado um Casulo no seu jardim-refúgio (uma casinha de madeira onde se encontram as Casuleiras a quem ela fala, entre outras coisas, de livros), agora criou a Xylocopa Books (Xylocopa é uma abelha carpinteira e solitária que surge em Janeiro de túneis escavados na madeira). Citando a Ana Sofia, a Xylocopa Books oferece recomendações personalizadas de livros com base no perfil de cada pessoa e podem segui-la no Facebook pelo link abaixo. Parabéns, Ana Sofia, foi bom saber de si. Quando a pandemia permitir, prometo visitar o Casulo. Entretanto, quando estiver com dúvidas, usarei a sua empresa de consultadoria!


https://www.facebook.com/xylocopabooks


 

Ler e ver teatro

Quando eu era mais nova (e não gostava de calhamaços), costumava ler peças de teatro que havia em casa dos meus pais (Morte e Vida Severina, As Três Irmãs, Fedra, textos de Beckett, Claudel, Eugene O'Neill...), mas penso que hoje as pessoas quase não compram livros de teatro, especialmente os jovens, a quem faria muito bem ler/ver algumas peças. No jornal britânico The Guardian, que tem sempre uns rebuçados para quem tiver paciência para o consultar, encontrei um artigo muito interessante sobre como ocupar de forma criativa filhos adolescentes em confinamento, e uma delas bem pode ser proposta à filharada aborrecida dos nossos Extraordinários: representar uma peça com os amigos por Zoom, mesmo que alguns deles estejam do outro lado do mundo. Distribuem-se os papéis, combinam-se ou não as vestimentas (mas tem graça usar chapéus ou outros adereços para surpreender os outros) e, à hora certa, cada um lê as suas falas. No fim de uma hora ou duas está a peça lida por todos e de certeza que se divertiram. Os monólogos é que não dão para ensaiar, pois a convivência, mesmo virtual, é o que apaga a maçada de se estar fechado em casa. Prometam que vão tentar. Os dramaturgos, mais do que nunca, precisam de leitores.

Antes dos teclados

Há talvez um ano e meio ou dois, o jornalista Valdemar Cruz escreveu um interessantíssimo artigo no Expresso sobre o facto de as pessoas terem deixado de escrever à mão e reproduziu alguns cadernos e blocos de escritores que devem ser os últimos que poderemos ver. Na verdade, os teclados substituíram as canetas há já muito tempo; e até as crianças, que deviam treinar e aperfeiçoar a respectiva caligrafia (no meu tempo de escola primária contava para a nota final ter uma caligrafia clara e bonita), como lhes dão telemóveis desde tenra idade, estão mais habituadas às teclas do que às canetas. Mas ainda há quem estime estes objectos raros, sobretudo as canetas de tinta permanente, e quem até sinta pelas que possui verdadeira adoração. Miguel Esteves Cardoso escreveu na quarta-feira passada no Público uma bela crónica dedicada às suas canetas (umas 50!), elogiando sobretudo a preferida, que até foi barata e escreve como nenhuma outra. A circunstância de sonhar de vez em quando com uns revolucionários que vão a sua casa confiscar-lhe as canetas de que ele não precisa e só o deixam ficar com uma ou duas (no máximo, três) é deliciosa, mas vale a  pena ler de fio a pavio esse texto que é dos melhores que tem escrito nos últimos tempos. Eu penso melhor com caneta na mão, embora, claro, já não dispense um tecladozinho...

Que susto

Quase todos os dias recebo os recortes de imprensa, críticas e notícias relacionadas com livros e autores que os meus colegas e eu publicamos. Por vezes, porém, o âmbito estende-se a áreas que não têm muito que ver com literatura: a gastronomia, a política, a música... Foi, de resto, o que me aconteceu há dias quando vi que, apesar de 2020 ter sido um ano muito atípico, alguém fazia uma selecção dos melhores álbuns de música do ano e não eram poucos. Fui ver em pormenor. Mas, ao fim de um parágrafo, fiquei elucidada. Deixo-vos o texto em questão:


«Olhando para o quadro geral, o hip hop é a cultura mais representada: de ProfJam & benji price e Silab & Jay Fella a T-Rex, passando por Capicua, nastyfactor, Maudito e 9 Miller, sem esquecer Sam The Kid, DarkSunn & Maria e Keso. Ou Tristany, o mais votado de 2020, que liga as pontes entre estes e, por exemplo, Scúru Fitchádu ou Dino D'Santiago. Daí para Nídia, PEDRO, A.K.Adrix e Pongo vai um pulinho...»


Vivemos mesmo em Portugal? Estou desconfiada de que não. Nem imagino o que tem isto a ver com livros, mas nunca se sabe. Bom fim-de-semana.

Viver e morrer

Vi tanta gente a elogiar que não consegui resistir. E fiz bem, porque de facto não se deve morrer sem ter lido o norueguês Jon Fosse, dramaturgo, poeta e ficcionista, já comparado a  Ibsen e Beckett e, pelos vistos, muitas vezes pensado para o Nobel. A literatura nórdica (de que cá, infelizmente, se publicam praticamente só os policiais de sucesso internacional) tem destas surpresas e Manhã e Noite é seguramente uma delas. Assistimos antes de tudo ao nascimento de um menino, Johannes, cujo nervosíssimo pai é pescador, num lugar que imediatamente sabemos pobre e simples. E depois veremos acordar um Johannes velho e cansado, que já pouco pesca, viúvo, numa espécie de sonho em que tudo é estranhamente leve ou estranhamente pesado para então descobrirmos, como num novelo desfeito, o que foi a sua vida: os filhos, a pescaria, a forma como conheceu a mulher e como ela lhe morreu, a beleza do mar e o frio dos caminhos, o melhor amigo (Peter) que o salvou de morrer afogado e lhe cortava o cabelo para poupar dinheiro. Mas esse amigo também já morreu, embora lhe apareça nessa manhã com o barco cheio de caranguejos para vender no mercado e o conduza para o alto mar uma última vez, rumo à noite escura, como se o levasse de volta ao ventre materno. Muito bonito, não percam. A tradução é de Manuel Alberto Vieira.

Crianças e matemática

Por agora as crianças ainda vão à escola, apesar de os pais estarem obrigados ao teletrabalho, mas continua a ser imperioso entretê-las no regresso das suas actividades lectivas e arranjar estratagemas para as divertir e ensinar ao mesmo tempo se as coisas se alterarem e ficarem de novo fechadas em casa (tudo é possível). Saiu há poucos meses na editora Fábula um livro de Maria Francisca Macedo que venceu o Prémio Literário Maria Rosa Colaço muito engraçado que certamente poderá ajudar. Conta a história de um lobo que não gostava de matemática (o título, de resto, é Histórias de (En)Contar de Um Lobo Que não Gostava de Matemática) e que, por causa disso, faz tanta confusão com as contas que acaba por se deixar constantemente enganar e não consegue matar a fome. É um livro com rimas inesperadas, algum desejado nonsense, reminiscências de outras histórias com lobos (o Capuchinho, os três porquinhos...) e até uma forma de ensinar a contar de 1 a 10 os mais pequeninos com belas ilustrações de Jaime Ferraz. Em suma: uma prenda inteligente para meninos e meninas com azar aos números.

Pérolas

Há muito que já queria ter começado a lê-la, mas meteram-se, como sempre, outras coisas pelo meio e lá ficaram os seus livros a aguardar. Mas numa destas noites, no intervalo já nem sei de quê, peguei em Devoção, de Patti Smith, e fiquei devota da artista também nesta sua vertente. Trata-se de um livrinho que se lê em duas noites, mas belo e sensível, sobre o que pode levar a escrever um livro (no caso, umas imagens de uma família da Estónia separada por Estaline a seguir à guerra) e, de facto, como esse livro pode ir mudando nas mãos do escritor à medida que a vida avança e se vivem situações que alteram até certo ponto a narrativa (umas imagens na televisão de uma jovem patinadora artística, os livros que se levam para ler numa viagem, o túmulo de Simone Weil em Inglaterra, pequenos-almoços no Café de Flore, em Saint-Germain). Devoção é uma novela sobre a devoção pela patinagem de uma adolescente estónia refugiada na Alemanha nos anos sessenta e, ao mesmo tempo, um texto sobre o porquê e o como dessa novela, incluindo fotografias de algumas páginas escritas pela autora no comboio e um texto que tanto é da jovem patinadora como da própria Patti Smith. Muito original, profundo, delicado, uma belíssima surpresa neste início de ano.

Confissões de uma poetisa premiada

Um amigo partilhou felizmente no Facebook (obrigada, JAF!) a conferência da poetisa norte-americana Louise Glück na recepção do mais recente Prémio Nobel da Literatura. Talvez por também escrever poesia desde pequena, identifiquei-me com muitíssimas das coisas que a laureada diz da sua infância e adolescência como leitora de poesia, de alguns dos seus autores preferidos (William Blake, que vencia na infância da autora um concurso imaginário para melhor poema do mundo), de uma tendência para gostar mais do poema que interpela o leitor (Eliot e a Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, a solitária Dickinson, o adorado Shakespeare...), as recordações de leituras a sós num sofá ou de teatradas nos quartos das avós. O texto, porém, interessará a todos os que estimam a poesia, independentemente de se identificarem com Louise Glück, pelo que aqui vo-lo deixo para que possam lê-lo e deliciar-se.


Louise Glück: The Poet and the Reader | Nobel Lecture 2020 | The New York Review of Books (nybooks.com)

Desconfinar

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As escolas estão abertas, mas as bbliotecas fecharam e os supermercados foram proibidos de vender livros. Há muitas cidades e vilas neste país onde neste momento não se podem, por isso, comprar livros ou pedi-los emprestados. Os livros não foram considerados bens essenciais pelas autoridades que ditaram o confinamento. Porquê?


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Uma profissão muito antiga

Uma das etapas mais importantes na conclusão de qualquer trabalho escrito, não necessariamente um livro literário, é a revisão. Uma pessoa que entrega um texto por rever está a desrespeitar o leitor e a pôr-se em muito maus lençóis. Se um professor universitário, por exemplo, receber um trabalho de um aluno cheio de erros e gralhas, deve, quanto a mim, descontar valores quando for dar a classificação final, assinalando a falta de cuidado. Respeito muito os revisores de texto (mesmo quando não concordo com algumas das suas achegas, pois alguns tendem a ser donos da língua) e li recentemente que esta é uma profissão realmente muito antiga. Quando ainda não existia imprensa, os copistas faziam (desculpem a redundância) cópias de textos para que pudessem estar ao mesmo tempo em bibliotecas e arquivos vários e ser consultados por muitas pessoas em locais diferentes. Porém, por desatenção, estes copistas introduziam erros nas suas cópias. Ora, quando se deu por isso em textos de tragediógrafos e poetas conhecidos, foi decidido que alguém devia passar a fazer um cotejo a seguir à cópia, evitando assim a reprodução escusada do erro em cópias posteriores. Ainda hoje é fundamental a prática de uma boa revisão em qualquer texto (e os correctores dos computadores dão jeito, mas não chegam). Vivam, pois, os revisores de texto.

Escreve ou não escreve?

Estou, já aqui o disse, a preparar um curso sobre escrita e edição; e foi nesse âmbito que me surgiu a questão (julgo eu que bastante pertinente) que aqui trago hoje e que tem que ver com aquele a que chamamos «escritor». Ora, na página de um escritor bem conhecido (sua página «oficial», diria eu) o nome aparece seguido de: «Escritor, poeta, ensaísta.» E, embora seja tudo verdade (ele é tudo isso), estou intrigadíssima com a sequência porque... Então um ensaísta não é escritor? E um poeta não é escritor? Escritor é apenas o autor de livros de ficção, o romancista? Bem sei que a poesia nasceu numa tradição de oralidade, mas o tempo de Homero ou dos trovadores já lá vai há séculos e não consigo entender porque, em pleno século XXI, se mantém esta mania de, nos jornais ou na Internet, se escrever debaixo de um nome de uma pessoa que escreve poesia e ficção «escritor e poeta» , como se o poeta não escrevesse, fosse apenas um dizedor. Também se pode discutir que «escritor» aponta para um criador literário e que o ensaio nem sempre implica criatividade. Mas há ensaístas altamente criativos, e lá que o ensaísta escreve não há dúvida. Outra coisa esquisita é, nos jornais portugueses, meterem geralmente a poesia na categoria da ficção, quando a poesia é talvez (por mim falo) o menos ficcional dos géneros. «Ficção» estará então ali em vez de «literatura»? Donde virão estas malfadadas confusões?

Receitas milagrosas

Já aqui  falei de um médico britânico que receitava leituras aos seus doentes, sobretudo os mais stressados ou ansiosos (e que falta fazem agora, em que o mais indicado é ficar em casa). O Museu da Farmácia também não desdenha dos livros e tem uma actividade bastante regular relacionada com a literatura geral, incluindo um clube de leitura mensal (dedicado a um livro ou autor e muitas vezes com a presença deste), passatempos, palestras, encontros... Desta feita, divulga receitas literárias para 2021, auscultando as opiniões de personalidades ligadas a várias áreas (Pedro Abrunhosa, Carlos Tê...), além, claro, de gente mais próxima das letras: escritores, editores, tradutores, divulgadores. Cada uma destas figuras dá umas quantas sugestões de livros para os leitores que precisam que lhes dêem ideias. E o mais curioso é que o título que aparece citado mais vezes é justamente um livro sobre livros... Entretenham-se então com estas receitas, inscrevam-se para receber a newsletter do museu e leiam o mais que puderem, claro.


Receitas_Literarias.pdf (miktd6.com)


 

Portas abertas

O ano que passou foi muito duro para as livrarias em geral, excepto para as que vendem apenas online e que, imagino, facturaram mais do que nos anos anteriores. Mas as livrarias que também são uma espécie de museus, como a Lello, no Porto, devem ter sofrido um duro golpe com a falta de visitantes estrangeiros sobretudo durante os meses de confinamento, tal como, aliás, tudo o que é turístico. Desejemos-lhe por isso que este ano as coisas corram melhor, porque a linda Lello da Rua das Carmelitas faz amanhã 115 anos! Caramba, velhinha mas de pedra e cal e sempre bonita. O programa da festa de aniversário vai ser variado e terá transmissão digital, incluindo música com Marisa Liz, discurso do excelente Siza Vieira e bolo de aniversário lá para o meio-dia Depois as portas ficarão abertas até às 18h00 para que quem queira entre sem ter de pagar (de máscara, claro!). Que venham pelo menos mais 115, Miss Lello!


Aproveito para lembrar a minha oficina, cujas inscrições estão mesmo mesmo a terminar, nos próximos dias 20 e 27 às 18h30. Duas sessões de duas horas a falar daquilo de que todos gostamos: livros! Segue o link com todas as explicações.


https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/

Apagão

Sempre que pergunto a um escritor ou editor norte-americano quem acha que é o maior escritor vivo do seu país, a resposta é Don DeLillo (e acescentam que já devia ter recebido o Nobel). Isto já acontecia, aliás, quando eram vivos autores como Philip Roth,  David Foster Wallace ou Joseph Salter, por exemplo. Para mal dos meus pecados, nunca fui grande fã do senhor DeLillo, sempre gostei mais das vozes de Roth ou Cormac McCarthy, só para citar dois grandes, mas, claro, os gostos não se discutem e talvez o problema seja meu e me falte inteligência para a ironia de DeLillo. Ele é, sem dúvida, um escritor parecido apenas consigo, o que diz muito das suas qualidades, e merece ser lido mesmo por quem não o aprecia especialmente. Li por isso a sua última novela publicada em Portugal (O Silêncio), e de uma penada, até porque é um livrinho de meras 80 e tal páginas. Imaginem então um apagão electrónico que dá cabo de tudo quanto é sistema tecnológico; e assistam a uma espécie de Terceira Guerra Mundial através do quotidiano de dois casais norte-americanos (amigos um do outro) e de um jovem professor de Física do Secundário que foi aluno de uma das mulheres. O primeiro casal vem num avião e espera aterrar em segurança em NY quando... (não vou contar); o outro, na companhia do jovem professor, prepara-se para ver a final da Super Bowl na televisão quando... (também não vou contar). Esta inesperada quebra de ligações (deixam de funcionar elevadores, telemóveis, etc.) é o mote para percebermos o que aconteceria a cada um de nós e ao mundo se de repente houvesse um apagão digital e em que é que nos poderia ajudar a Teoria da Relatividade de Einstein papagueada por alguém enlouquecido. O pequenino romance foi terminado pelo autor antes da pandemia, mas curiosamente avisa-nos bastante sobre a catástrofe do presente. Interessante e actual, mesmo que o autor não faça as minhas delícias.

Salvam-se os poetas

2020, já aqui o disse, foi um ano péssimo. Mas, até nos anos excepcionalmente maus, há coisas boas. A poesia teve em 2020 um ano bom. Além de a contemplada com o Prémio Nobel da Literatura ter sido uma poetisa (Louise Glück, com vários livros no prelo em Portugal para nos deliciarmos em 2021 com a sua voz), a minha sobrinha Rita, de 17 anos, escreveu poemas bons e bonitos. Quatro amigos poetas foram premiados: Ana Luísa Amaral venceu o Prémio Leteo em Espanha, atribuído por livreiros à sua obra What’s in a Name?, e por cá o Prémio Vergílio Ferreira; Luís Filipe Castro Mendes arrecadou o Grande Prémio de Poesia APE/CA com os seus Poemas Reunidos; António Carlos Cortez levou o Teixeira de Pascoaes com Jaguar; e João Luís Barreto Guimarães um galardão que homenageia um confrade, o Prémio Armando Silva Carvalho, com o seu livro Nómada. Adília Lopes publicou Dias e Dias (que fala da experiência do confinamento), José Carlos Barros publicou dois livros (A Educação das Crianças e o curioso Estação com os poemas que publicara no DN Jovem) e até regressou das brumas, tal um D. Sebastião, Paulo Teixeira, de quem já tinha saudades, com o livro A Comoção do Mundo. Saiu a Poesia Grega traduzida por Frederico Lourenço e o segundo volume da Obra Poética de António Ramos Rosa. Carlos Oliveira Santos não só comentou um post deste blogue com muitos anos em Dezembro passado (Poetas não publicados), confessando ser ele o autor de um poema de que eu lá falava, como me enviou o seu volume de Poemas Escoceses que responde pelo título principal Aye Aye Aye (falarei dele mais tarde aqui no blogue). Descobri que Vítor Gameiro Pais, marido de uma prima de quem nada sabia há uns trinta anos, era poeta e publicara o livro Filhos do Betão e do Aço, de que reproduzo abaixo um belo poema. Eu própria, que já não publicava nada há anos, juntei uns textos antigos e fiz outros novos sobre uma viagem a Macau para uma miniatura de vinte e poucas páginas publicada pela Nova Mymosa a que dei o título Estampas Chinesas. E houve mais, claro, mas não posso ser exaustiva. Num ano tão prosaico, pelo menos de falta de poesia não nos pudemos queixar.


 


Boletim meteorológico


 


O boletim meteorológico previu o mesmo


que na palma da mão já me tinha sido lido:


chuva, mau tempo, desassossego, vento forte,


nevoeiro, má sorte.


 


Sangrem as nuvens, revolvam-se as ondas,


agitem-se vendavais no meu caminho.


Que me importa?


Tenho um gorro, um impermeável,


um guarda-chuva


e um calo na linha da vida.

QI e leitura

Num artigo de Christophe Clavé, professor universitário de Estratégia com vários MBA nas melhores universidades, li consternada a notícia de que o QI médio, que desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos anos 1990 aumentou sempre, está em queda há vinte anos, sobretudo nos países ditos desenvolvidos. Uma das razões apontadas para esse declínio é o empobrecimento da linguagem. Tal como um bebé não tem memória por não ter uma linguagem que lhe permita fixar a recordação (é por isso que só temos lembranças de coisas que nos aconteceram depois de termos aprendido a falar, lá para os três ou quatro anos), sem linguagem é impossível formar ideias, pensamentos, argumentos. E não se trata apenas de pobreza lexical, pois sem estrutura (por isso a pontuação é importante) não é possível elaborar ideias complexas. O professor nota que desapareceram por exemplo alguns tempos verbais (o conjuntivo e o condicional, por exemplo) e que o facto de a linguagem que se emprega estar reduzida ao tempo presente faz com que, por exemplo, seja difícil fazer projecções (estou sempre a dizer que os jovens autores escrevem tudo no presente, finalmente há alguém que me entende). O uso excessivo de abreviaturas, a abolição dos géneros (mesmo com «boas» intenções) e a sistemática ausência de pontuação nas SMS e nos e-mails são «golpes mortais» na precisão e na variedade da expressão linguística. Quanto menos léxico e menos verbos conjugados, mais difícil se torna construir um argumento, defender uma posição, expressar uma opinião. Menos linguagem, menos reflexão; menos pensamento crítico, menos controlo. Pior ainda: quando a emoção não se expressa por palavras, pode exprimir-se, como sabemos, por actos... violentos. Cito do artigo: «A história está cheia de exemplos, e muitos livros (1984, de Georges Orwell, ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury) contam como todos os regimes totalitários sempre minaram o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.» Posto isto, por favor, leiam cada vez mais e ensinem os vossos mais pequenos a gostar de ler, mesmo que seja complicado. Como diz o professor Clavé, é «nesse esforço que existe liberdade». Sejamos livres.

Informação solidária

Compro diariamente desde que foi lançado o jornal Público. Gosto de o ler em papel e, apesar das mudanças que foi sofrendo ao longo do tempo e que nem sempre fizeram dele um bom jornal, ou um jornal melhor, não consigo deixar de o comprar nem ficar-me pela leitura no computador, como faz o Manel, que é assinante. Apesar de tudo, é com a TSF e o Público que me mantenho informada, porque já raramente vejo telejornais (perde-se demasiado tempo e as notícias são repetidas até à exaustão, como se não percebêssemos à primeira). Ora, o Público associou-se recentemente à Santa Casa da Misericórdia numa acção solidária que penso bastante valorosa: um pacote de 2500 assinaturas gratuitas para leitores desempregados. De facto, não é por não poder pagar o jornal que uma pessoa deve ficar sem direito à informação – e esta é uma forma de ajudar. Quanto mais vulneráveis estivermos, mais precisamos de informação credível, opiniões avalizadas, conhecimento fundamentado, factos verdadeiros. O Público ainda pode gabar-se de tudo isso. E de ter tido esta ideia feliz para quem já está a sofrer na pele os efeitos económicos da COVID-19. Para quem esteja interessado, aqui vai o link:


PSolidario | PÚBLICO (publico.pt)

O que ando a ler

Ao contrário do que costuma acontecer-me nas férias, li muito pouco desde que me despedi aqui no blogue a desejar boas festas (no dia 23 de Dezembro) até ontem. As razões não são partilháveis, mas são-no as páginas do que, apesar de tudo, consegui ler. Trata-se, de resto, de uma obra que eu já aqui tinha aflorado e está a fazer furor em todos os lugares onde é publicada. Recebeu elogios dos jornais espanhóis (à direita e à esquerda) e foi louvada por craques como Juan José Millás, Vargas Llosa ou Alberto Manguel. Fala daquela coisa de que gostam os que aqui vêm ao blogue: livros, pois claro! Chama-se O Infinito num Junco – A Invenção do Livro na Antiguidade e o Nascer da Sede de Leitura e assina-o Irene Vallejo, uma leitora apaixonada, doutorada em Estudos Clássicos em Saragoça e Florença e com uma ampla cultura sobre a história do livro. Trata-se de um ensaio que se lê como ficção; e, entre as dezenas de passagens que fui sublinhando e com as quais vos brindarei ao longo deste ano sempre que vier a propósito, está uma pequena história muito bonita sobre o amor que uniu Marco António e Cleópatra. Como se sabe, a poderosa rainha do Egipto tinha tudo, riqueza e jóias; e, quando começou a pensar num presente de que ela não fosse desdenhar (tinha-a visto derreter uma pérola em vinagre e bebê-la), Marco António resolveu deitar-lhe aos pés 200.000 livros para a Biblioteca de Alexandria. Claro que ela não resistiu a tal oferenda e foi o que se sabe. Bem, se se interessam pelos livros como capital de paixão, não hesitem em ler este. E em sublinhá-lo, porque em todas as suas páginas há pérolas que convém não dissolver.

O ano que começa

Bom ano a todos – melhor do que 2020, claro, que foi um ano dramático em vários sentidos (a saúde, a economia, o emprego, as perdas de vidas). Queria ter fé em que este vai ser mais positivo, mas o meu 2021 começou muito mal: morreu Carlos do Carmo, um grande artista e um amigo que eu conhecia pessoalmente há mais de cinquenta anos. Receber tal balde de água fria quando se acorda no primeiro dia do ano sob o signo da esperança (sim, o pensamento era «este ano acabou, o próximo só pode ser melhor») foi, no mínimo, irónico… Nessa sexta-feira tão cinzenta, depois de ouvir a notícia, quis ir dar uma volta a pé para espairecer; mas, apesar de ter saído com sol, apanhei uma valente molha logo a seguir e tive de voltar para trás; depois, mordi sem querer a bochecha e fiz uma ferida feia que ficou a doer-me todo o dia. De repente, pensei: não podíamos, por favor, saltar este ano, se vai ser tão mau como o outro, e acordar em 2022, sem vírus, sem doenças, sem mortes? Mas não, não podemos. Como o nosso Carlos era um optimista, vou fazer-lhe uma homenagem tentando sê-lo também eu. Devia estar a dizer-vos o que ando a ler, mas preferia adiar isso para amanhã e deixar-vos hoje um pequeno testemunho que escrevi sobre o Carlos do Carmo (ver o link). E um pedido: ouçam-no sempre. O país está de luto. E eu também.


https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/uma-voz-de-estimacao