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A mostrar mensagens de maio, 2020

Apoios?

Nunca como nestes tempos de pandemia os artistas precisaram tanto de apoio financeiro. Se virmos bem, sem possibilidade de trabalharem, com as galerias, os teatros e todas as casas de espectáculos fechadas, os actores, encenadores, cantores, bailarinos, e todos os técnicos que os apoiam, bem como os agentes que negoceiam a sua presença em espectáculos ou a venda das suas obras, estão sem ganhar um tostão há dois meses e meio. Várias foram, por isso, as instituições que se  prontificaram a dar apoios a estes artistas (mesmo que por vezes mediante candidaturas discutíveis, que excluíam áreas consideradas mais populares); e entre elas encontram-se, evidentemente, os municípios. Porém, alguns contemplados com os apoios da Câmara Municipal de Lisboa sentiram-se humilhados. Um deles, o actor Filipe Crawford, queixou-se no Facebook há uns dias de ter recebido uma carta em que lhe era atribuída a quantia de 154 euros (já de si um pouco rídícula), mas, ainda por cima, contra horas de trabalho para o município (cerca de trinta, segundo disse; caso não tenham reparado, o seu trabalho vale cerca de 5 euros por hora para o município...) Foi bom pôr o dedo na ferida, porque a Câmara reconsiderou e retirou a obrigação aos apoiados de trabalhar para ela. Senão, não seria um apoio, mas um adiantamento por conta de serviços. De qualquer modo, teria sido bom deixar tudo claro logo no princípio.


Hoje recomendo Virginia Woolf, as árvores estão floridas em Lisboa e as flores estão muito presentes em Mrs. Dalloway, um livro que nunca passa de moda.

Obituários

Lembro-me dos tempos em que os jornais eram apenas de papel e de haver jornalistas especializados em obituários que eram verdadeiras obras de arte. Assim que alguma celebridade começava a acusar vestígios de doença grave ou provecta idade, lá se pedia ao jornalista em causa que investigasse a vida do «moribundo» e tivesse a peça preparada para quando a tragédia acontecesse. Por um lado, era muito mais difícil do que hoje: sem Internet, era preciso meter o nariz nas bibliotecas e nos arquivos, falar com meio mundo sem dar a entender para que serviam as perguntas, cuidar da prosa para fazer uma homenagem à altura, ter o texto pronto para ir à caixa de chumbo quando a hora chegasse ou ir actualizando enquanto o futuro morto permanecia na Terra; por outro lado, era mais fácil: não havia demasiada informação ao dispor para confundir o autor nem se tinha trabalho a separar o trigo do joio (hoje é bem capaz de haver mais notícias falsas sobre alguém do que verdadeiras, e é já quase impossível confiar a 100% no que está na Internet). Recentemente, o diário Observador publicou o obituário de Gonçalo Ribeiro Telles (que também já devia estar pronto há tempos) e depois teve de pedir desculpa publicamente por ter matado o senhor arquitecto no dia do seu 98.º aniversário... Mas não foi o único jornal que cometeu esse erro, e já houve uns quantos escritores assassinados antes da hora nas páginas da necrologia dos jornais: Hemingway, por exemplo, mas também Bertrand Russell, García Márquez e Mark Twain, este último duas vezes! Tenho ideia de há muitos anos ter lido um romance ou um conto em que alguém está a ler o jornal e descobre nele o seu próprio obituário, ficando sem saber se foi engano, se está realmente morto. Infelizmente, não me consigo lembrar do autor, a senilidade ataca-me fortemente; pensei que era Borges, o que faria todo o sentido, mas a Internet não o confirma e eu não posso ir folhear a obra toda... (Se alguém tiver lido, ajude-me.) Também conheço escritores e outras celebridades que preparam os seus próprios obituários porque não querem que, depois de mortos, digam mal deles. Não sei se vale a pena a preocupação: os mortos recebem mais elogios do que os vivos e até há umas pestes que se tornam santinhos after death.


Hoje vou recomendar uma autobiograbia imaginária de um imperador que entra na morte de olhos abertos: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar.

Bilinguismo literário

Um dia destes, consultando o nome dos jurados do Man Booker International Prize (isto porque comprei um dos livros que estão na final), reparei que a mexicana Valeria Luiselli estava entre eles (conheci-a num festival de escritores, mas já não me lembro se foi cá ou noutro país). Achei estranho que uma autora mexicana fosse jurada num prémio para livros traduzidos em inglês; mas descobri que a própria Luiselli vive nos Estados Unidos há muitos anos e já escreve directamente em inglês. Como será escrever literariamente numa língua que não é a nossa? Samuel Beckett, um dos laureados com o Prémio Nobel da Literatura na Irlanda (houve quatro por lá), escreveu vários textos dramáticos em francês (e até dizia que às vezes precisava de outra língua mais rica do que a sua para se expressar melhor). Por outro lado, a Kundera aconteceu em França, onde se exilou, o mesmo que a Luiselli: começou por escrever em checo e, às tantas, passou naturalmente ao francês (corrigiu inclusivamente o seu tradutor em certas passagens). E mais espectacular é ainda o caso de outro Prémio Nobel da Literatura, o poeta Joseph Brodsky, que deixou o russo para escrever em inglês poucos anos depois de se ter «escapado» para os Estados Unidos na altura do comunismo. (Poesia sem ser na língua materna deve ser ainda mais difícil, digo eu.) Mas há seres superiores e todos estes o foram de alguma maneira. Espere-se, pois, que a jovem Luiselli se torne genial com o tempo.


Hoje vou recomendar uma peça de Beckett que adoro, já que falei dele: Os Dias Felizes (Oh les beaux jours). Vê-la é ainda melhor do que lê-la.

Com atraso

Ontem foi tudo uma correria, sobretudo por causa das formigas, e não falei do que deveria ter falado: de uma grande escritora portuguesa que, infelizmente, morreu no fim-de-semana. Falo, como já devem ter percebido, de Maria Velho da Costa, conhecida do público mais vasto como uma das três Marias das Novas Cartas Portuguesas, mas que vai muitíssimo além disso na sua carreira individual, sendo, aliás, pela sua genialidade, uma das vencedoras do Prémio Camões. A sua obra, notável acima de tudo pela inovação e experimentação linguística e o fascínio por cada palavra (inclusive pelo som), é considerada demasiado difícil para os leitores medianos, que têm um vocabulário cada vez mais curto e não parecem interessados em aumentá-lo (o que levou a que desaparecesse dos escaparates das livrarias e fosse arrumada lá para trás ou nem sequer encomendada); mas merecia ser mais divulgada nos anos terminais da Escola Secundária, em que os miúdos mais crescidos têm as suas capacidades no auge, porque é muito injusto que livros como Missa in Albis, Maina Mendes, Casas Pardas e outros fiquem na ignorância da maioria e acabem por se tornar meras referências em artigos especializados, mesmo que obviamente elogiosas. Disse um dia Robert Walser que nada é tão gratificante para um ser humano como conseguir superar-se. Então, hoje recomendo aos preguiçosos, desconfiados e de pé atrás que se superem e leiam esta autora; é difícil, pois é, mas vale o esforço.

Plágios

Desculpem, hoje venho mais tarde porque estava convencida de que já programara um post para entrar esta manhã e só agora verifico que, afinal, não o tinha feito. Além de que estou a ter uma invasão de formigas minúsculas no meu PC, que caminham por entre as teclas como se viessem do seu interior, e isso custou-me já parte da manhã em limpezas e desinfecções. Mas adiante. Falarei hoje de uma coisa que descobri há dias com grande surpresa. No meu tempo, cabulices e copianços eram no liceu, e havia muitos alunos apanhados a copiar nos pontos (que era como então se chamavam os testes), embora menos nos exames, que aí a vigilância era apertada. Mas, quando íamos para a faculdade estudar aquilo de que gostávamos realmente, isso acabava, porque estávamos a ler e investigar sobre assuntos que nos apaixonavam, não fazíamos frete, tirávamos prazer do saber e sabíamos responder quando interpelados e desenvolver certas temáticas em trabalhos escritos. Pois hoje parece que não é assim e que os pobres professores universitários até têm um software específico nos seus computadorres para detectar casos de plágio... A verdade é que, além dos alunos ingénuos dos primeiros anos que copiam os grandes autores sem aspas nos seus trabalhos, pensando que os professores não dão por nada, agora também os mestrandos e doutorandos copiam da Internet trabalhos já feitos com a maior cara-de-pau e ainda ficam chateados quando são descobertos e levam zero. Fiquei pasmada. Com universitários assim... Adeus, futuro.


Hoje recomendo A Estrada, de Cormac MacCarthy (um caminho muito mais interessante do que o meu carreiro de formigas, acreditem, e também bastante apropriado à época).

Próximo Capítulo em Junho

Já aqui falei do Clube de Leitura da Leya, o Próximo Capítulo, lançado este ano no Dia Mundial do Livro. No mês de Maio, os leitores inscritos escolheram entre os quatro livros propostos As Velas Ardem até ao Fim, de Sándor Márai, um belíssimo romance de um autor que morreu sem saber o êxito que viria a ter no mundo inteiro e discutiram-no em várias sessões com a minha colega Rita Fazenda. Em Junho, será a minha vez de conduzir o Próximo Capítulo e hoje à tarde vou levantar a pontinha do véu sobre os quatro títulos que estarão a votação: dois de autores portugueses, dois de autoras estrangeiras (não fiz por ser politicamente correcta, mas calhou). São quatro livros muito diferentes: alguns baseados em factos reais, outros assumidamente autobiográficos, um de recorte mais clássico na forma de narrar, outro polifónico. Inventivos, especulativos, duros, cinematográficos, realistas, ligados a outras artes e a guerras que nos são estranhas, enfim, vai haver de tudo e para todos os gostos. Só pode ganhar um, evidentemente, e será sobre esse que farei algumas sessões com os membros do clube (por Zoom, para já), respondendo a perguntas e quiçá até dialogando com os respectivos autores (se forem portugueses). Se quer saber de que livros falo, inscreva-se em proximocapitulo@leya.com. Receberá depois um email para votar num dos livros até dia 25. (Faço segredo, porque tem mais graça.)


Hoje recomendo-vos a leitura de Amor no Feno e Outros Contos, de D. H. Lawrence (ele estava a olhar para mim ali da estante, numa edição muito antiga da Assírio e Alvim, e foi como se me chamasse). Os meus contos preferidos desta colectânea são: O Homem Que Morreu e O Homem Que Amava as Ilhas. A tradução (fui ver agora mesmo) é de Maria Teresa Guerreiro.

Hay Festival

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Aposto que, se gosta de livros, terá já ouvido falar do Hay Festival. Ele deve o seu nome à cidade galesa de Hay-on-Wye, que tinha numerosas livrarias desde os anos 1960, favorecendo a criação de uma festa literária anual de grandes dimensões e com convidados de todo o mundo. Mas, a partir do ano de 2005, o já muito popular Hay Festival estendeu-se a variadíssimas cidades europeias e de outros continentes, como Segóvia, Cartagena das Índias, Nairobi, Arequipa, Beirute ou mesmo as Maldivas; e, além de encontros de escritores, passou a ter também música e artes performativas. Este ano, porém, o Hay Festival sofreu, como todos os outros eventos literários, os efeitos da pandemia e tornou-se apenas digital. Mas os convidados continuam a ser de peso, entre eles Margaret Atwood ou esse actor sublime que é Benedict Cumberbatch, mas também Leila Slimani, Tori Amos ou Simon Schama. O programa é extenso (e gratuito!) e começou dia 18, mas vai até 31 de Maio. Tem de registar-se para assistir, mas de certeza que vale a pena ficar a ver e ouvir os debates, as entrevistas e as oficinas que constam da programação. Deixo-lhe o link para escolher o que lhe interessa.


https://www.hayfestival.com/wales/home


Hoje recomendo um escritor do País de Gales. Melhor: dois. Dylan Thomas (a poesia ou, por exemplo, Retrato do Artista quando Jovem Cão e Outros Contos) e o famosíssimo Ken Follet e o seu best-seller Os Pilares da Terra.


Mais logo vai haver Quintas de Leitura, não falte! Aqui vai o anúncio:


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Os bens de Pessoa

Um dia estive com um senhor brasileiro que me disseram ser riquíssimo (falha-me o seu nome, desculpem, mas lembro-me de que era grande e gordo) e que tinha comprado numerosos objectos pertencentes a Fernando Pessoa. Nunca percebo muito bem o interesse de ter os óculos de Freud, uns jeans de John Lennon, o buço de Frida Kahlo ou o colar de pérolas da princesa Diana... Mas vejo que algumas pessoas com dinheiro gostam de possuir objectos que crêem preciosos (já eu acho mais graça ficar num hotel por onde passou Hemingway ou Lord Byron e tentar entender o que os apaixonou nesse lugar). Em todo o caso, entrou recentemente em leilão o espólio de um sobrinho de Pessoa, Luís Miguel Rosa Dias, e muitos se devem ter abalançado a comprar a «quiquilharia»... Mas a Casa Fernando Pessoa aproveitou para adquirir alguns dos bens que haviam pertencido ao tio Fernando (mormente livros) e que, ao contrário das jóias da princesa, ajudarão certamente a um estudo mais aprofundado da obra do escritor (poeta e não só) que foi talvez dos mais prolixos de Portugal (arcas e arcas de manuscritos). No site da Casa, a sua directora, Clara Riso, explica as razões destas aquisições, o que é francamente interessante para sabermos o que pesou na decisão. Deixo-vos o link abaixo.


https://www.casafernandopessoa.pt/pt/cfp/noticias-publicacoes/novas-pecas-para-casa-fernando-pessoa?eID=


Hoje recomendo Pessoa, já que dele falei. O meu heterónimo preferido é Álvaro de Campos e até já gravei um vídeo a ler um poema seu (Soneto já antigo) no Dia da Poesia. Nunca deixem de ler o mais internacional dos nossos poetas. Nem que sejam as quadrinhas que escreveu e têm servido a tantos fadistas.

TPC

Quando eu era pequena e andava na escola primária, lembro-me de levar para casa aquilo a que os adultos chamavam então «deveres», tarefas que «devíamos» cumprir, relacionadas com a matéria que estávamos a aprender: umas contas, uma cópia, uma pequena composição, por vezes ilustrada com um desenho. Não me lembro de nada disto pesar excessivamente no meu horário não escolar, por isso tenho ideia de que era pouca coisa de cada vez. Hoje, pelo contrário, ouço dizer sistematicamente que os miúdos vêm para casa carregados de TPC desde a mais tenra idade, o que lhes tira todo o tempo que têm para brincar (quando não são os pais que os inscrevem em mil actividades extracurriculares para os ocupar de forma que cheguem a casa exaustos e a querer apenas jantar e dormir). Não sei se corresponde realmente à verdade, mas talvez os miúdos precisem de respirar fundo e brincar mais quando chegam a casa. Pelo menos, foi o que sentiram dois colegas de 9 anos, vizinhos um do outro e também do  respectivo professor, que, na vizinha Espanha, acharam exagerados os trabalhos que o mestre marcava, especialmente em fase de confinamento; e não estiveram com meias medidas: foram ao prédio dele e cortaram-lhe os fios que lhe permitiam ter wi-fi e dar aulas à distância! Diz quem partilhou esta notícia que se tratou de «empreendedorismo infantil». Eu cá falaria de mini-revolucionários, o que é um óptimo sinal. Tudo quanto é demais é erro.


Em tempo (tinha-me esquecido de recomendar o livro e lembrei-me por causa do comentário do Extraordinário Pacheco): Como falei de miúdos, falemos de um dos livros que, no meu tempo, todos os jovens liam. Trata-se de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Li nas férias em que fazia dez anos e chorei como uma Madalena, mas aprendi decididamente o que era a empatia. Alberto Manguel diz que lhe aconteceu o mesmo com Coração, de Edmondo de Amicis. Não são sempre os grandes livros que fazem de nós leitores e pessoas solidárias.

Viajar no sofá

Ontem estive a falar no âmbito do festival LeV. As letras são de Literatura em Viagem, que, como bem disse um dos nossos Extraordinários aqui no blog na última sexta-feira, é uma expressão que também serve de metáfora para os livros que viajam até nós, e não necessariamente uma frase que aponte exclusivamente para literatura de viagens. Embora tenha lido vários livros de viagem de que gostei muito (de Moravia, Bruce Chatwin, Anne-Marie Schwarzenbach, alguns da colecção da Tinta-da-China com capas bonitas coloridas e direcção de Carlos Vaz Marques), o que nesta matéria me encheu as medidas foi o Guia de Portugal, de Raul Proença (são vários volumes, embora não os tenha lido a todos), e um livro maravilhoso das britânicas Ann Bridge e Susan Lowndes Marques (a mãe de Ana Vicente e Paulo Lowndes Marques, ambos infelizmente já desaparecidos) que publiquei em tempos e diz bem o que era o nosso país nos anos 1940. Chama-se Duas Inglesas em Portugal e está esgotado, mas talvez o encontrem em alfarrabistas ou no original inglês. Como já recomendei dois livros, junto mais alguns que a revista Evasões diz que são ideais para viajar sem sair de casa. Pode ser que gostem:


As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão; Viagem a Portugal, de José Saramago; A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne; Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto; Danúbio, de Claudio Magris; Pela estrada fora, de Jack Kerouac; A Maravilhosa Viagem de Niels Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlof.

Literatura em Viagem

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Apesar do confinamento, o festival de literatura de viagens que todos os anos decorre em Matosinhos, mais conhecido por LeV, realiza-se pela primeira vez à distância e já começou! Isabel Allende já esteve em directo no dia 13, e ontem pudemos assistir a entrevistas e conversas com Ana Luísa Amaral, Rosa Montero ou Javier Cercas; mas, para quem esteja a trabalhar e não tenha visto, os vídeos ficarão disponíveis em várias páginas do Facebook, desde logo a da Câmara de Matosinhos, a da Biblioteca Florbela Espanca, a da Book Office (que organiza o evento) e a da Casa da América Latina, quando não nas das editoras dos escritores que participam no festival. Deixo-vos o programa completo abaixo e espero que me façam companhia no domingo à tarde, quando for a minha vez. E, claro, que para o ano possamos todos viajar até Matosinhos, de corpo e alma, porque tem muito mais graça ouvir e aplaudir ao vivo. 


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Livrarias e livreiros

Ontem falei de bibliotecas, hoje falo de livrarias e de livreiros. No tempo em que eu me tornei leitora, as livrarias eram muito diferente das de hoje. Tinham à frente homens e mulheres que eram grandes leitores, ou pelo menos conheciam muito bem o que tinham dentro da loja. Estabeleciam frequentemente com os clientes um relacionamento pessoal, chamando a atenção para determinadas novidades que provavelmente lhes interessariam. Sabiam aconselhar livros para crianças de idades diferentes; e, por vezes, até telefonavam a um cliente específico a dizer que tinha chegado de longe aquele livro, que depois guardavam debaixo da mesa para não serem apanhados pela PIDE. Com honrosas excepções, esta espécie de livreiro já não se encontra, não só porque, com o aumento do número de leitores e pessoas escolarizadas, a edição se foi progressivamente transformando numa indústria, mas porque, para a maioria dos jovens, a cultura se tornou uma coisa muito mais superficial e as pessoas hoje estão, infelizmente, mais viradas para a informação e o conhecimento rápidos, e também mais dispostas a uma fruição rápida (meia hora de um episódio de uma série contra duzentas páginas de um romance). Em Portugal desapareceram as livrarias independentes quase todas, mas em Espanha, por exemplo, elas ainda contam muito, e dois escritores espanhóis quiseram prestar-lhes homenagem nestes tempos horríveis com um artigo maravilhoso que aqui vos deixo. Gostei muito de duas ideias: a do livreiro que escolhe os livros para o jovem cliente como quem escolhe flores para a abelha, estimulando o pólen da imaginação; e a ideia de que o escritor é uma ilha e o leitor um continente. Mas, por favor, leiam estes elogios aos livreiros, merecidíssimos, e honrem os vossos livreiros, se ainda os têm, partilhando-os com eles.


https://www.zendalibros.com/dos-cabalgan-juntos-xi/


Como falei de livrarias, hoje recomendo uma verdadeira pérola: A Casa de Papel, de Carlos María Domiguez. (Não tem nada a ver com séries de televisão, aviso já.)

Bibliotecas paradisíacas

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Pronto, está bem, encontramo-nos todos (ou muitos de nós) fechados em casa em teletrabalho (ou, pior, subitamente desempregados) por causa de um maldito vírus que começou na China (onde comem todo o tipo de bicharada) e foi alastrando ao mundo todo. Mas foi também na China que, quando as coisas começaram a azedar, construíram um hospital ou dois para tratar os doentes da Covid-19 em duas semanas, enquanto as obras do metro do Areeiro (e é só metade da estação porque a outra metade já está pronta há anos) duram e duram e duram, muitas vezes com um barulho que me obriga a fazer uma pausa nas leituras. A supremacia chinesa na construção não tem par, é um facto; e, embora não me lembre se os hospitais eram bonitos, posso atestar que assiste um talento especial aos Chineses para a arquitectura de bibliotecas bonitas. Hoje, mostro-vos uns quantos destes templos dedicados aos livros, na China e na América do Norte, todos de arquitectos chineses. Deliciem-se.


Como falei de bibliotecas, o lugar que Jorge Luis Borges dizia que devia ser o Paraíso, recomendo-vos deste autor Ficções, traduzido por José Colaço Barreiros, e também a poesia, traduzida pelo poeta Fernando Pinto do Amaral.


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A realidade imita a ficção?

Todos sabemos que muito do que se escreve tem como base a realidade. Se, por exemplo, Melville não tivesse trabalhado numa baleeira, provavelmente não teria escrito Moby Dick. Muitos escritores, mesmo sem o pretenderem, deixam escapar para os seus textos experiências pessoais ou episódios a que assistiram ou de que tiveram conhecimento. Mas, quando na vida real aparece uma história que, afinal, já tinha sido escrita, é mesmo incrível... E nem se pode dizer que os seus intervenientes tenham sido inspirados pela leitura do livro porque isso não aconteceu, foi mesmo mera coincidência. Quando William Golding escreveu O Deus das Moscas, não tinha a mais pequena ideia de que, em 1966, meia dúzia de adolescentes fugiriam de um colégio interno em Tonga num barco de pesca (queriam ir até à Nova Zelândia, calculem) e, apanhados numa tempestade, acabariam por ir dar a uma pequena ilha deserta onde viveram (sobreviveram) mais de um ano completamente sozinhos. Em casa, já lhes tinham, de resto, feito o funeral quando foram encontrados por um navegador australiano que não queria acreditar como os jovens tinham conseguido subsistir naquele fim de mundo e criado do nada uma sociedade bastante organizada (até um campo de badminton tinha) e extremamente solidária (um deles caiu de uma ravina e partiu uma perna e os outros foram buscá-lo, correndo risco de vida, e trataram-no tão bem que os médicos se supreenderam mais tarde quando viram o raio X). Vale mesmo a pena ler o artigo maravilhoso do The Guardian que conta esta história rocambolesca e perceber que, na realidade, não houve lutas pelo poder, como no romance do escritor britânico vencedor do Prémio Nobel. (Esperança na humanidade?) Deixo-vos o link, parece ficção, mas não é.


https://www.theguardian.com/books/2020/may/09/the-real-lord-of-the-flies-what-happened-when-six-boys-were-shipwrecked-for-15-months


Além dos dois títulos já referidos no post, recomendo mais dois livros sobre adolescentes em grupo deixados sozinhos: O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, e Casa de Campo, de José Donoso. Qual deles o melhor.

Um livro que pode e deve

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Um dos autores que publico, David Machado, é um verdadeiro cultor da felicidade. Acha (e com razão) que devemos aproveitar o melhor possível o tempo que nos cabe viver neste mundo; e, como tal, não se deixa abater por dá cá aquela palha e tem sempre boas ideias para combater a inércia e a tendência portuguesa para o entristecimento. Chegou a pandemia e não ficou quieto, mesmo sabendo eu que tem dois filhos pequenos em casa e que lhe cancelaram todas as idas a escolas e bibliotecas, que é como ocupa maioritariamente o seu tempo, com actividades que correspondem a uma parte significativa do que ganha. Com a colaboração de Paulo Galindro, que é um ilustrador com quem trabalha regularmente, criou uma página chamada Um Dia de Cada Vez, com uma actividade por dia para as crianças fechadas em casa. E não são actividades parvinhas, mas coisas muito criativas, inteligentes, cheias de humor e, ao mesmo tempo, que levam os miúdos a pensar sobre o que lhes aconteceu e a concluir que a vida não é um mar de rosas, mas há sempre maneira de substituir a neura por algo realmente construtivo. Agora, tudo isso pode (e deve) juntar-se num livro, e os autores estão a pedir apoio para isso. Deixo-vos o link para entenderem pormenorizadamente o projecto e, em querendo, contribuírem. Eu já o fiz e não custou nada. Acho que o meu sobrinho mais novo, quando vir o livro, vai adorar.


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Quase me esquecia de recomendar um livro... Bem, como falei deste meu autor, vou recomendar a sua mais recente obra para adultos, A Educação dos Gafanhotos, um «on the road» nos Estados Unidos de dois rapazes que pensavam que já eram muito crescidos, mas a quem os factos trocam as voltas.

O apelo português

Sempre houve estrangeiros que visitaram e se apaixonaram por Portugal (o poeta inglês Byron, por exemplo) e aqueles que aqui se refugiaram durante a Segunda Guerra Mundial e depois acabaram por criar cá família e ficar. O nosso clima é bom, a comida, óptima (com doses generosas), o povo é calmo e simpático (sobretudo para quem vem de fora), as cidades são seguras, mesmo de noite (há excepções, mas é fácil identificá-las e evitá-las). A nossa língua é, mesmo assim, tremendamente difícil para um estrangeiro... Mas isso não impediu que muitos se apaixonassem pela nossa literatura (Fernando Pessoa é o principal «culpado» desde os anos 1970) e alguns desses acabassem até por vir morar para Portugal para investigar e ensinar, como o norte-americano Richard Zenith ou, noutro tempo, Antonio Tabucchi e Maria Lúcia Lepecki, entre muitos outros. Na Casa Fernando Pessoa, celebraram o Dia Mundial da Língua Potuguesa dando a palavra a alguns destes «forasteiros» que, num vídeo, escolhem as suas palavras preferidas da nossa língua. A surpresa é constante: ora o muito simples, ora o francamente invulgar, ora enfim o que é curioso e exclusivo. Vejam as palavras. E ouçam, claro, as vozes e os sotaques de quem as diz. O link vai abaixo.


https://www.youtube.com/watch?v=KPOLLUWYkWk&feature=youtu.be


Hoje recomendo justamente um ensaio ligado a este assunto escrito por Maria Filomena Mónica. Confesso que ainda não tive oportunidade de o ler, mas tenho a certeza de que dirá muito de nós e interessa-me por isso deitar-lhe a mão. Chama-se O Olhar do Outro: Estrangeiros em Portugal do Século XVIII ao Século XX; e, conhecendo alguns textos antigos de visitantes estrangeiros, calculo que esteja cheiinho de opiniões tremendas a nosso respeito... Para variar dos elogios recentes e unânimes.


 

Virtualmente juntos

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Estamos na fase em que já existe alguma abertura ao contacto com o outro, mas continua a recomendar-se algum distanciamento. Tenho um amigo que já almoçou com a  sua mãe de certa idade, mas numa mesa comprida e num terraço (e antes de começarem a comer, tinha a máscara posta). Mesmo assim, é cedo para eventos ao vivo e, como tal, o melhor é prosseguir com os virtuais. É um jantar deste tipo que vai ocorrer hoje às 22h00, na página de Instagram do restaurante Palácio Chiado, em que o jornalista João Morales cumprirá mais um dos seus À mesa com. Desta feita, o convidado é Júlio Machado Vaz, «psicólogo, sexólogo e praticante da arte da conversa», que do Porto se junta a Morales. Não sei se vai haver realmente vinho e comida, mas o alimento das palavras promete e, enquanto não podemos estar realmente juntos, vale-nos a presença virtual de quem pergunta e quem responde. A actividade tem o apoio da Fado in a Box.


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Hoje recomendo um clássico: O Adeus às Armas, de Hemingway. Lembrei-me que também andamos em tempos de hospitais (mas não é só isso, não se preocupem).

Os novos fascículos

Dickens começou a escrever os seus romances em fascículos publicados nos jornais como forma de receber um pagamento regular (a sua infância a trabalhar em fábricas fora miserável e inspirou muitas das suas ficções). Camilo também o fez, e também por precisar de dinheiro. E os fascículos de  vários géneros (ficção, história, biografia, enciclopédia...) circularam ao longo de todo o século XX, por vezes em cadernos independentes e agrafados (no final, recebia-se a capa e mandava-se encadernar), por vezes impressos nas páginas ou suplementos literários dos jornais e revistas que se podiam coleccionar. No actual estado de coisas, em que as páginas de Cultura dos periódicos têm infelizmente pouco de que falar (passa-se quase nada em termos de lançamentos, espectáculos e eventos), o Diário de Notícias lembrou-se de resgatar o fascículo e está desde segunda-feira a publicar um romance em doze episódios do repórter e crítico João Céu e Silva. Chama-se O Regresso de Fernando Pessoa e tem como protagonista o heterónimo Vicente Guedes, que foi preterido como autor do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Espreite aqui o primeiro capítulo:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-mai-2020/a-segunda-vida-de-fernando-pessoa-12148048.html?utm_term=Tancos.+Tudo+o+que+Carlos+Alexandre+ja+sabe+para+o+julgamento&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email


Hoje recomendo um livro de Dickens, porque não? Tempos Difíceis: condizem com os nossos pelo menos em título.


 

A nossa língua

Pessoa disse que a sua pátria era a língua portuguesa e hoje é a melhor oportunidade para a festajarmos, já que este dia 5 de Maio é justamente o Dia Internacional da Língua Portuguesa. Infelizmente, dadas as circunstâncias, muitos dos eventos pensados e planeados não puderam realizar-se (estava no horizonte um festival literário na capital portuguesa com o apoio do município, mas creio que não acontecerá)  ou sê-lo-ão, mas em modelos adaptados aos novos tempos, como quase tudo. Na página do Facebook do Museu da Língua Portuguesa (a instituição na cidade de São Paulo que melhor condensa uma língua que abarca milhões de pessoas em cinco continentes), desde o último domingo que estão a ser transmitidas actividades, entre as quais apresentações de livros, concertos, leituras, debates, declamações de poesia, oficinas de escrita e muito mais, destacando-se entre elas o projecto Fado Bicha (já lhes fiz uma letra para um fado) e a performance do escritor e músico Kalaf Epalanga. Celebre este dia onde quer que esteja lendo um livro em língua portuguesa. Recomendo-lhe, por exemplo, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, apopriado aos dias em que vivemos.

O que ando a ler

Estou mesmo no fim de A Contraluz, de Rachel Cusk, uma autora canadiana de quem ainda não tinha lido nada. Foi considerada pela revista Granta em 2003 uma das mais promissoras escritoras de língua inglesa e já publicou quase uma dezena de romances, tendo sido galardoada ou finalista de importantes prémios, tais como o Whitebread, o Somerset Maugham ou o Orange. O romance é muito curioso porque trata de como alguém que escreve (como a autora, de resto) é, em muitos casos, um ouvinte exemplar. A protagonista, que é escritora e vai fazer uma oficina de escrita em Atenas durante o Verão, está ao longo da sua estadia na capital grega com variadíssimas pessoas (o homem que veio ao seu lado no avião, uma escritora grega de sucesso, amigos gregos, os alunos do curso, a mulher que ocupará o quarto que ela alugou e chega mais cedo do que era suposto); e, na verdade, essas pessoas carregam-na com as suas histórias e ela pouco consegue dizer de si mesma aos que a rodeiam (nós, leitores, sabemos alguma coisa, apesar de tudo). Um ponto de partida interessante, mesmo que o resultado seja diferente do que eu esperava (a parte melhor é mesmo a dos trabalhos dos alunos, já mais para o fim), mas sem dúvida inteligente e original. O texto da contracapa lembra que, nos seus livros anteriores, Rachel Cusk se expunha mais, aqui sobram ainda vestígios da escritora na protagonista que, porém, se vai «anulando» nas histórias e vidas das outras personagens. Publicado pela Quetzal e traduzido por Ana Matoso.


Hoje recomendo mais uma maravilha imortal que todos devem absolutamente ler: Pedro Páramo, de Juan Rulfo. (A minha edição inclui, além desta, mais duas novelas curtas, leiam-nas também.)