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A mostrar mensagens de 2017

Natal é com livros

O que é mesmo bom quando está muito frio é ficarmos quietos e quentinhos em casa a ler um bom livro. Pois é isso que, aparentemente, fazem nesta época os islandeses (dez por cento dos quais são leitores vorazes, leio algures) porque a tradição na Islândia é justamente a de trocar livros na noite de Natal, o que considero uma excelente ideia: em primeiro lugar, dispensa-nos de pensar num presente diferente para cada pessoa (e há pessoas muito difíceis – ou porque têm tudo, ou porque são esquisitinhas); depois, promove a leitura em todas as gerações; por último, previne o consumismo excessivo típico desta quadra (compra-se muito mais do que seria preciso). Não ofereço tantos livros como gostaria porque, trabalhando no ramo editorial, algumas pessoas desconfiam de que os livros me saem de graça e torcem o nariz. Mesmo assim, à beirinha deste Natal, desejo aos Extraordinários que lhes ofereçam muitos livros e que eles ofereçam livros também, especialmente às crianças. Boas Festas a todos e até para o ano, vou tirar uns diazinhos de férias... Para ler, claro.

Escola e telemóveis

Já não sei quem me contou que, numa escola, os alunos deviam deixar os telemóveis numas caixas à entrada da sala, antes do início da aula. E faziam-no – ou, pelo menos, parecia. A verdade é que determinado professor se deu ao trabalho de ir confirmar e descobriu, em vez de telemóveis, vários comandos de TV... O que quer dizer que os telemóveis «verdadeiros» permaneciam com os alunos. Agora, o Ministério da Educação em França resolveu proibir o telemóvel nas escolas até ao fim do Ensino Básico (dos 6 aos 15 anos, grosso modo). Diz que é preciso proteger as crianças pequenas de passarem demasiado tempo diante de ecrãs (o que entende ser uma questão de saúde pública) e resolveu decretar que, no próximo ano lectivo, nem no recreio os alunos terão acesso aos seus aparelhos: deixam-nos à entrada da escola e levantam-nos à saída… Sabemos que os franceses nunca foram muito chegados à tecnologia, mas os pais e os professores não concordam com a medida. Uns acham que, desde que os alunos os não usem na sala de aula, os telemóveis dão jeito para os pais falarem com os filhos e lhes darem recados e instruções; outros, que o telemóvel pode inclusivamente ser útil em algumas acções de formação (sobretudo se tiver Internet) e que vai ser preciso muito cuidado com quem (e como) vai guardar os telemóveis na escola à chegada… Enfim, eu diria que é um caso de prós e contras, mas que é bom alguém ter pelo menos a sensação de que as crianças devem passar mais tempo longe destes utensílios.

Amados cães

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Já aqui disse muitas vezes que sou uma dog-person, e não uma cat-person. E por isso fiquei um dia destes bastante contente com a leitura de um artigo do jornal espanhol El País sobre umas pinturas com 8000 a 9000 anos, encontradas no Noroeste da Arábia Saudita, que mostram que, ao contrário do que eu pensava, os homens domesticaram cães muito antes de terem domesticado cabras ou vacas. Ao que parece, sobretudo nos períodos em que a comida era escassa (no Inverno, por exemplo, ou em zonas mais áridas), os homens levavam os cães com eles quando iam caçar – e uma dessas pinturas revela não só um homem com dois cães presos por uma espécie de correia (a antepassada da trela?), mas também um enorme leão diante deles (um leão com 8000 anos!). O uso dos cães incrementava as possibilidades de caçar e, por isso, pode dizer-se que, de certa maneira, também dependeu dos meus amigos cães a sobrevivência do homem; diz-se no artigo que, em certos locais, os homens não teriam conseguido seguir caminho se não estivessem acompanhados pelos seus bobyzinhos. Sabe-se ainda que, na zona onde os desenhos foram encontrados não havia lobos, pelo que os cães das pinturas deveriam ter vindo dos lugares onde tinham sido domesticados com os seus donos. As pinturas são muito bonitas.


 


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Semear e colher

Não sei exactamente explicar porquê, mas certos nomes – lidos ou ouvidos – trazem-me sempre à memória o meu pai: por exemplo, as «Redacções da Guidinha», de Sttau Monteiro, publicadas no Diário de Lisboa nos idos de 1970 e mais tarde coligidas em livro; ou a revista Seara Nova, de que ainda hoje recordo as muitas lombadas alinhadas na estante de casa dos meus pais. Hoje as revistas que se publicam em Portugal são menos interessantes (desculpem-me os que escrevem para elas, mas é verdade) ou de outro teor (informação rápida, como os tempos) e a democracia também já não leva a que criem projectos intelectuais de combate político pela liberdade ou, como o primeiro número da Seara Nova se arvorava, «de doutrina e crítica». Mas a Seara Nova, fundada nos anos 1920 por Raul Proença e outros seres bem-pensantes, foi um «local» de reunião das elites culturais portuguesas que se opunham à mão de ferro de Salazar. Mais tarde, tornou-se menos política e mais literária – e foram muitos os colaboradores na meia centena de anos em que foi publicada: desde Raul Brandão e Aquilino Ribeiro a Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro ou José Gomes Ferreira. A boa notícia é que recentemente foi lançado um site da Seara Nova (julgo que com a colaboração do Seminário Livre de História das Ideias da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, que também já fizeram digitalizações de outras revistas) na Fundação Mário Soares e que ele permitirá o acesso à colecção completa desta revista histórica (ver link abaixo). Uma seara para semear e colher.


 


http://ric.slhi.pt/

Arquivo vivo

O nosso Fernando Pessoa vai dando pano para mangas e mais mangas – e agora é a vez de brilhar de novo o Livro do Desassossego. A magnífica Universidade de Coimbra (com o professor Manuel Portela à cabeça do projecto, como «editor») inaugurou recentemente um arquivo digital colaborativo do Livro do Desassossego, que contém imagens dos documentos autógrafos, novas transcrições desses documentos e ainda transcrições das quatro edições da obra (respectivamente, de Jacinto Prado Coelho, Teresa Sobral Cunha, Richard Zenith (norte-americano) e Jerónimo Pizarro (colombiano). Além da leitura e comparação das transcrições, o Arquivo LdoD permite que os utilizadores colaborem na criação de edições virtuais da obra (que giro!) e a leiam de acordo com diferentes sequências dos fragmentos que foram encontrados (ui, isto vai dar mesmo para brincar ao Desassossego!). Desenvolvido entre 2012 e 2017, o Arquivo LdoD é o resultado de um projecto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (CLP), com a colaboração do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores em Lisboa (INESC-ID Lisboa) e da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). O projecto teve o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da União Europeia.

Os tradutores

Nós, apaixonados pelos livros, temos uma dívida aos tradutores que nunca conseguiremos pagar. Eles têm sido os grandes responsáveis por terem chegado até nós milhares de textos de dezenas de idiomas que, de outro modo, nunca teríamos podido ler – e eu nem quero pensar o que teria sido ser privada de Homero, ou Rilke, ou Sándor Márai, ou Thomas Mann, ou Hermann Hesse, ou Mishima, ou Szymborska, ou Akhmatova, ou tantos mas tantos autores de línguas que não domino. Por isso, nunca é demais premiar quem faz traduções (boas, claro) e é hoje mesmo que, pelas 17h30, vai ser entregue o Grande Prémio de Tradução Literária SPA/APT 2017 a António Sousa Ribeiro pelo seu trabalho de tradução integral da peça Os Últimos Dias da Humanidade (cerca de 900 páginas!), do escritor vienense Karl Kraus. O premiado, catedrático da Universidade de Coimbra, tem-se dedicado bastante à tradução literária, especialmente de língua alemã. Houve ainda duas menções honrosas – e fiquei muito feliz por uma delas ter sido para a tradução portuguesa de A Vegetariana, assinada por Maria do Carmo Figueira. A Associação Portuguesa de Tradutores (APT), que fundou este prémio, declara que, com ele, procura «destacar a tradução como exercício de autoria em literatura, e dar ao tradutor o lugar que merece no mundo da cultura nacional e internacional». Parabéns aos premiados deste ano (e a todos os que traduzem bem). E obrigada, claro. Sem vocês, as nossas leituras seriam tão incompletas.


 

Solidariedade

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Hoje estava sem assunto (costumo escrever os posts com alguma antecedência mas tive uma valente gripe na semana passada e, para que os Extraordinários não ficassem a seco, gastei tudo o que tinha). Assim, resolvi aproveitar uma iniciativa da LeYa e divulgá-la, já que estamos perto do Natal e quanto mais gente puder ajudar melhor. Chama-se Vamos dar cor onde ainda há cinzas e mobiliza livrarias, escolas e famílias na ajuda às populações atingidas pelos incêndios de 2017 com a oferta dos bens que ainda fazem falta: material escolar, alimentos não perecíveis, produtos de higiene e limpeza, pequenos electrodomésticos, ferramentas, sementes, ração para animais e roupa tamanho XL e XXL (só estes tamanhos!). Se estiver interessado em colaborar, entre 6 de Dezembro a 6 de Janeiro, a sede da LeYa em Alfragide, a delegação de Serzedo, todas as livrarias LeYa em território continental e duas livrarias parceiras vão converter-se em autênticos pontos de recolha de bens destinados aos distritos de Aveiro, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Nesta quadra festiva, cada um de nós poderá ajudar a fazer a diferença para muitas famílias, doando bens que irão colmatar as necessidades locais identificadas junto das escolas e câmaras municipais desses distritos. Os bens reunidos serão posteriormente entregues pela LeYa nos agrupamentos escolares, câmaras municipais e associações dos distritos indicados. No âmbito desta iniciativa, a LeYa irá ainda doar mais de 5000 livros, para diferentes idades, às famílias afectadas pelos incêndios. Mais informações sobre esta iniciativa disponíveis no link abaixo:


 


www.leyaeducacao.com/leyasolidaria


 


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Para arquivo

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Ui, já há muito que não me desloco com autores a essa livraria de Leiria que eu adoro, a Arquivo - e nem sei bem explicar porquê, mas talvez porque a maioria dos livros que publiquei este ano eram de autores que, na verdade, já alguma vez lá tinham estado, sozinhos ou acompanhados. O que é certo é que temos lá uma sessão marcada para hoje à tarde à roda de Os Loucos da Rua Mazur, o romance de João Pinto Coelho que venceu a mais recente edição do Prémio LeYa, e eu espero reencontrar muitos dos leitores que costumo ver pela Arquivo e com quem me habituei a ir pondo a conversa em dia de tantos em tantos meses. E bem assim a Susana Neves, que organiza estas sessões e sucedeu à Paulinha, que foi a minha anfitriã muitos anos. O livro, desde que saiu, já gerou uma polémica na Polónia, onde os jornais de extrema-direita ficaram muito zangados porque o episódio central de Os Loucos da Rua Mazur é um trágico incidente verdadeiro causado por católicos polacos durante a ocupação nazi. Mas a tentativa de branquear os factos não faz qualquer sentido, até porque anteriores presidentes da Polónia já pediram desculpa pelo sucedido. Além disso, estamos a falar de ficção, o que permitiria (embora não seja o caso) inventar uma história que nem sequer se tivesse passado. No entanto, passou-se e nós vamos também passar por Leiria mais logo para falar dela, esperando que, estando lá perto, nos possa vir fazer companhia.


 


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Erros humanos

Já não sei como, fui parar a um site que registava os 37 erros mais cometidos em português – tão comuns que, em relação a alguns, já nem damos por eles. Mas, se parte dos exemplos são coisas que todos nós já vimos, como trocar «há» por «à», dizer «há dez anos atrás» (haveria de ser à frente?), escrever «há-des» por «hás-de», ou confundir «come-se» com «comesse», a verdade é que alguns dos erros mencionados no artigo caíram de tal forma no uso corrente que até os que pensam que sabem bem a sua língua os cometem. Por exemplo: a expressão «Já agora», ao que parece, é incorrecta, uma redundância (percebe-se, «já» e «agora» querem dizer pouco mais ou menos a mesma coisa; e, porém se eu disser só «agora» ou só «já», não é o mesmo que dizer «já agora», lamento). Na mesma linha, encontrei o erro «mal e porcamente» que, afinal, é «mal e parcamente» (mas tendo a pensar que quase ninguém sabe isto). São também clássicos o erro «ovelha ranhosa» por «ovelha ronhosa» (esta, sim, a expressão correcta) e a troca de género na palavra «grama» quando se refere à medida de peso: é «um grama», e não «uma grama», evidentemente. Verificamos com frequência em jornais que as pessoas já não distinguem «sob» de «sobre» (uma tristeza!) e escrevem um terrível «concerteza» como se a expressão tivesse origem em «concerto» (mas não tem, é «com certeza, duas palavras!) Entre muitas outras, surpreendeu-me que «morrer à fome» não estivesse certo (sim, morre-se «de fome», como de frio, de ciúmes, de doença) e que dizer «pelos vistos» fosse asneira («pelo visto» é que está correcto). Sempre a aprender. Esqueceram-se de um outro erro que estou sempre a encontrar: «eminente» por «iminente». Deve ser o trigésimo oitavo.

Obituário

Neste ano de 2017, morreu muita gente de relevo: desde logo Mário Soares, Simone Veil ou Helmut Kohl, mas também dois dos nossos maiores empresários, Belmiro de Azevedo e Américo Amorim, ou o notável biólogo Mário Ruivo, o músico Zé Pedro, o actor John Hurt, a coreógrafa Trisha Brown, o realizador Jonathan Demme. E a literatura também ficou visivelmente mais pobre, já que perdemos autores de variadíssimas áreas, do ensaio à banda desenhada, da poesia à ficção. Em Janeiro, deixaram-nos, por exemplo, John Berger, Ricardo Piglia e Zigmunt Bauman, todos sobejamente conhecidos. Em Fevereiro, o filósofo Todorov e Dick Bruna, o inventor da Miffy, essa coelhinha inesquecível. Em Março, chegou a vez do Nobel da Literatura Derek Walcott e do autor de As Pontes de Madison County, Robert James Waller. Em Abril partiram Fernando de Campos e Maria Helena da Rocha Pereira. Em Maio morreram Baptista Bastos e o Prémio Camões António Cândido. Junho ficou marcado pela morte do poeta Armando Silva Carvalho, do romancista Juan Goytisolo e do activista Alípio de Freitas. Já em Julho partiam a brasileira Elvira Vigna, o francês Max Gallo e o norte-amricano Sam Shepard. Depois das férias em Agosto (a morte fez as malas e desapareceu por um mês, o que só lhe ficou bem), em Setembro desapareceria o poeta John Ashbery e em Outubro Jorge Listopad. No mês passado, morreu o autor de BD Fernando Relvas… E espero que em Dezembro os autores se resguardem e possam todos celebrar o Natal em paz e com saúde. (E não pus todos os que morreram, garanto.)

Famílias funcionais

Fui recentemente convidada para participar num debate na vila de Almeida (aquilo é que era frio) no âmbito de um programa de protecção a doze vilas e aldeias históricas de Portugal. Aí conheci um jovem músico que, depois de muitos anos a dar aulas na escola pública, resolveu envolver-se neste projecto e fazer uma recolha de canções, músicas e histórias de um património essencialmente oral que, com a emigração e a desertificação do Interior, correriam o risco de se perder para sempre num futuro não muito longínquo. Mas, além deste trabalho importante e altamente meritório, Ricardo Baptista (assim se chama o ex-professor de Educação Musical) também escreve; e venceu em 2015 o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, tendo o livro premiado sido oportunamente publicado pelas Edições Afrontamento. Chama-se A Minha Mãe Anda Estranha e é totalmente narrado por uma miúda de oito anos, um pouco à maneira de um diário, incuindo no que diz respeito ao design e à paginação, que lembram fielmente os de um caderno escolar, a que nem sequer faltam a caligrafia, as nódoas e os borrões típicos da infância. Mas não só a circunstância de a história estar a ser contada por uma criança é completamente verosímil, um registo nada fácil de manter, como também o livro vale por esta narradora ser filha de pais separados e gostar muito do namorado da mãe e da namorada do pai. Esta experiência das famílias plurais não é muito tratada nas histórias para crianças, sobretudo com uma leveza e uma ternura que ajudam a desdramatizar experiências que hoje são completamente comuns, e não um bicho de sete cabeças, como quando eu era adolescente e os meus pais se divorciaram. Ora, encontrando-nos nós perto do Natal, parece-me este livrinho um excelente presente para miúdos cujos pais já não vivem juntos e começam a querer refazer as suas vidas. É também excelente para os que vão ter um irmão, já que a mãe do título anda estranha justamente por causa de uma gravidez.

Ler Eugénio

Conheço muita poesia desde pequena. Não só a minha avó e os meus pais gostavam de a recitar para nós como a escola onde andei, já aqui o disse, era o Lar Educativo João de Deus, onde desde a primeira classe líamos versos do poeta e, no fim do ano, havia uma festa na qual dizíamos poemas dele e de muitos outros. Apesar da experiência, contudo, acho que houve um poeta que me fez mossa no bom sentido no fim da adolescência assim que pus os olhos nos seus livros. Chamava-se Eugénio de Andrade e – parece mentira – já morreu há doze anos. Para o recordar, Anabela Mota Ribeiro organiza mais logo uma sessão em torno da sua pessoa e da sua poesia em mais um evento da série Ler no Chiado, que se realiza na Livraria Bertrand (pelas 18h30). Para acompanharem a jornalista e apresentadora, dois poetas contemporâneos e bastante diferentes: Gastão Cruz e José Tolentino Mendonça. Se não conhece a obra do grande Eugénio, pode pôr-se em dia. Se já a conhece, poderá ir celebrá-la. Mesmo que não possa ir, não perca os poemas. Está tudo publicado: em antologias e livro a livro.

Horas Extraordinárias

Comecei este blogue em 2010 – nem acredito que já lá vão sete anos a publicar praticamente todos os dias úteis, excepto durante férias e viagens de trabalho. Não sei se a maioria dos bloggers que começaram há tanto tempo como eu ainda estão activos e, estando, se publicam assim tão regularmente. É um esforço enorme da minha parte, acreditem – e já houve alturas em que pensei desistir ou, pelo menos, desacelerar e começar a publicar apenas duas ou três vezes por semana. Enfim, não perco muito tempo com as estatísticas e desconheço se tenho um número de leitores que compense este trabalho, mas de há uns tempos para cá, desde que a SAPO me pediu para associar ao blogue o meu endereço de e-mail, recebo numerosas mensagens de pessoas que escreveram ou publicaram livros a pedir que os promova aqui no Horas Extraordinárias. Pois bem: embora este seja um blogue de livros e de edição, existe uma regra: nunca aqui falo dos livros que não li. Mais: também aqui não falo de livros de que não gostei (até porque, sendo editora, pareceria estar a dizer mal de colegas ou da concorrência e não acho bem). Mais ainda: não tenho tempo para ler a maioria dos livros que gostaria de ler, por isso tenho ainda menos tempo para ler livros cujos autores desconheço e se me dirigem com fins publicitários. Dito isto, obrigada por darem valor ao blogue: se não dessem, talvez os pedidos de divulgação não chegassem. Obrigada também, evidentemente, aos que continuam aí desde os primeiros tempos.

O que ando a ler

Por razões que não importa aqui particularizar, estou a reler os Contos de Eça de Queirós. Passaram muitos anos desde que os li na adolescência (desses tempos, lembrava-me sobretudo de «O suave milagre» e «Civilização», um conto que constituiu o esboço do romance A Cidade e as Serras e tem Jacinto como protagonista) e quase quarenta anos desde que estudei com maior detalhe o conto «José Matias» na Faculdade de Letras de Lisboa, na cadeira de Introdução aos Estudos Literários, ministrada por uma professora que faltava imenso e que depois nos obrigava a ter aulas ao sábado (estávamos em 1978, ainda em jeito de revolução). Já não tinha, porém, ideia de que os Contos fossem realmente tão diferentes dos romances em termos estilísticos: mais lineares no enredo, com menos pormenores, muito directos ao assunto e, sobretudo, sem a evidência daquelas características que nos habituámos a apreciar na obra romanesca queirosiana: o humor cáustico, o sentido de observação implacável e a crítica à sociedade portuguesa. Contudo, é o próprio Eça, num prefácio, que explica o que para ele é o conto: «No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida.» Fantásticas imagens. Eça agora e sempre.

Ibero-americana

Para quem se queixa do preço dos livros, não há desculpas: aqui está uma belíssima colecção que o Público vende desde o último dia 24 a preço mesmo módico. Julgo que são apenas 4,45 Euros – e a notícia é excelente se pensarmos que o Natal está à porta e que os doze títulos que compõem a série são obras-primas indiscutíveis; para quem já possua a maioria, os livros podem constituir um excelente presente para alguém que esteja a começar a montar a sua biblioteca (quero crer que ainda existam alguns jovens que o façam, senão o melhor é reformar-me). O domínio é o da literatura ibero-americana (a melhor) e, além de Lobo Antunes (Portugal) e Juan Marsé (Espanha), representando a Europa (e muito bem), há obras de Jorge Amado (Brasil), García Márquez (Colômbia), Vargas Llosa (Peru), Cortázar (Argentina), Juan Rulfo (México), Alejo Carpentier (Cuba), Skármeta (Chile), Augusto Monterrosso (Honduras), Feliberto Hernández (Uruguai) e Miguel Ángel Asturias (Prémio Nobel da Literatura em 1967, oriundo da Guatemala). Os livros têm um bonito grafismo, são resistentes (capinha dura) mas afeiçoam-se à mão (são jeitosinhos). E, claro, são  grandes textos, o que é o mais importante!

Vinho e literatura

Agora, pelo menos, Viseu será notícia por boas razões (e não por causa do fogo ou da seca): o Festival Literário Tinto no Branco, que inicia a sua terceira edição já no próximo dia 1 de Dezembro e contará com a presença de numerosos convidados. Não serão só escritores, embora estejam presentes Afonso Cruz, Pedro Mexia, Fernando Dacosta ou Miguel Real, entre outros. Também participarão algumas pessoas de outros sectores, como Raquel Varela, Carlos Fiolhais, Rodrigo Moita de Deus, Daniel Oliveira (o jornalista e comentador), Pedro Santos Guerreiro, Frei Bento Domingues e o excelente diseur Isaque Ferreira (além do Manel, que vai defender o vinho contra a cerveja). Mas o convidado que provavelmente vai gerar maior curiosidade é Michael Palin, um senhor apresentador de televisão que, para quem tem a minha idade, associamos imediatamente ao colectivo de actores Monty Python e estará num frente-a-frente com Ricardo Araújo Pereira dia 1 às 18h00, que é a não perder. Mas, além das conversas que porão em confronto ciência e religião, poesia e prosa, campo e cidade, ócio e trabalho, o festival proporciona ainda exposições, filmes, visitas guiadas, concertos e ateliers infantis (espera-se que, nestes últimos, a presença do vinho seja moderada). A maioria das actividades acontece no Solar dos Vinhos do Dão e o programa completo pode ser visto no link abaixo:


 


http://www.tintonobranco.pt/


 

Da diferença

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É muito bom quando sabemos que pessoas que trabalharam connosco no princípio da sua carreira e de quem nos separámos a dada altura por contingências da vida continuaram com a sua paixão e fizeram conquistas importantes. Recentemente, descobri que a Sofia Fraga, que começou a trabalhar comigo na edição na época da QuidNovi e está actualmente na Porto Editora, onde trabalha os livros de escritores como Mário de Carvalho e Richard Zimler, acaba de publicar o seu primeiro livro – uma história infantil ilustrada pelo enorme Paulo Galindro, intitulada A Tartaruga Celeste o Menino Que Chorava Música (edição da Minotauro), na qual um menino (Pedro, como o filho mais velho da Sofia), em vez de chorar, canta verdadeiras árias de ópera; e uma tartaruga nasce curiosamente sem carapaça, o que mesmo assim não a impede de andar descontraidamente por aí a meter o nariz em tudo (a ilustração que a mostra de lenço na cabeça é mesmo uma delícia). Há também um anjo-estrela extenuado com uma busca, mas é melhor não adiantar mais nada... Trata-se de um livro bonito e inteligente para os mais novos folhearem, lerem e aprenderem a viver com a diferença (e aceitá-la nos outros, evidentemente), até porque, se fôssemos todos iguais, o mundo seria uma grande monotonia. Parabéns, Sofia, ficamos à espera do próximo. E diferente, claro!


 


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Na Rua Mazur

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Paris, 2001. Yankel – um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama – recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se vêem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade da Polónia onde cresceram – e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk – hoje um escritor famoso – está muito doente, mas não quer morrer sem escrever um livro que servirá de ajuste de contas com o passado. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira. Com o encontro dos dois se inicia Os Loucos da Rua Mazur, o segundo romance de João Pinto Coelho que lhe valeu o Prémio LeYa e, estando à venda apenas há dias, já deu celeuma na Polónia, com os jornais a tentarem escamotear o tal «incidente», esquecendo-se de que, em 2015, o próprio presidente polaco e um bispo pediram desculpas pelo sucedido durante a Segunda Guerra Mundial. Polémicas à parte, Os Loucos da Rua Mazur é um digno sucessor literário de Perguntem a Sarah Gross (em quarta edição) e uma ficção igualmente inesquecível. O lançamento é no dia 29, na Livraria Buchholz, em Lisboa, às 18h30. Apresenta o romance José Tolentino Mendonça.


 


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Confissões

João Morales não pára e há três anos consecutivos que organiza a actividade Confesso Que Li com o apoio da Câmara Municipal de Almada. A sessão contempla sempre uma entrevista feita pelo jornalista a uma personalidade mais ou menos conhecida do público (em Setembro, por exemplo, foi dedicada às leituras do compositor Tozé Brito) que traz consigo alguns livros (ou os títulos) que permitam falar acerca do seu passado, das suas escolhas, recordações, percurso pessoal e profissional. É já amanha, às 16h30, que tem lugar a terceira sessão da edição de 2017, cujo convidado será o curador e crítico de arte Delfim Sardo, também autor de vários livros, que foi – entre outras coisas – curador da Trienal da Arquitectura de Lisboa e colaborou com a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém ou a Culturgest, à qual ainda está hoje ligado. Desta vez, a conversa decorre na Biblioteca José Saramago, no Feijó. Se quer saber o que leu (e lê) Delfim Sardo, a entrada é livre.

Aniversário

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Falo muitas vezes aqui das Quintas de Leitura do Teatro de Campo Alegre, no Porto, mas existem outras, as 5.as, assim escritas, que acontecem na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz uma vez por mês (à quinta, claro), depois do jantar, e que festejam agora o seu oitavo aniversário. Já lá estive com imensos autores: João Ricardo Pedro, Paulo Moreiras, Ana Margarida de Carvalho, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade, Afonso Reis Cabral e muitos outros, assistindo e acompanhando boas conversas com o público; e hoje, no âmbito das festividades, participo numa sessão com a presença dos escritores Mário Cláudio e João de Melo, ambos publicados pela chancela da Dom Quixote, que, embora vivendo longe um do outro, são amigos há muito tempo e têm uma afinidade difícil de encontrar em autores consagrados: gostam de ler livros de autores mais jovens e acompanhar a cena editorial nacional (são, aliás, muito requisitados por principiantes para lerem as suas obras). O presidente da Câmara da Figueira da Foz dá as boas-vindas e modera a conversa. Mas o público terá certamente muita coisa para perguntar. Se estiver, pois, para aqueles lados, apareça e venha trocar ideias connosco.


 


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Uma centena

Adoro organizar antologias e percebi isso há relativamente pouco tempo, quando me convidaram para antologiar os poetas eruditos que escreveram para fado ou a quem os fadistas roubaram poemas que transformaram em letras (às vezes com um nadinha de liberdade a mais). Mas, se me pedissem para reunir num volume os autores ou textos de que mais gostasse, ui, acho que ficaria uma eternidade a pensar e dificilmente conseguiria decidir. Admiro por isso o jornalista José Mário Silva, o responsável pela secção de livros no seminário Expresso, ao juntar num mesmo volume Os (seus) Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (a editora é a Companhia das Letras), que abrangem Pessoa, Sophia ou Herberto, evidentemente, mas também Inês Dias, Matilde Campilho ou Rosa Oliveira, poetas que começaram há menos tempo. No prefácio, ele admite que o livro não é senão a sua escolha pessoal – e, como tal, subjectiva – mas claro que no Facebook já houve quem discutisse presenças e ausências, como se o livro afinal devesse ser um desses tesouros da literatura que antes se publicavam e que contemplavam quase sempre os mesmos batidíssimos versos. Neste livro, admito que muita gente que habitualmente não lê poesia, levada pelo «melhores» do título, vá pela primeira vez ler muitos dos autores (Jorge Sousa Braga, Daniel Faria, Luís Quintais, Miguel-Manso, eu?…) e se interesse por algum, começando a comprar os seus livros. Mas para outros leitores, como eu, o divertimento está sobretudo em ver o que faríamos diferente na escolha dos nomes e dos poemas. Provavelmente, quase tudo… Bem, se quer uma amostra da poesia que se escreve de há um século para cá, aqui tem um bom ponto de partida.

O medo e outras histórias

Não costumo ler biografias, menos ainda de vivos (talvez prefira a ficção à realidade), mas deitei a mão uma destas noites a um livro que acaba de ser publicado pela Bertrand – De Que Cor É o Medo, assinado pela jornalista Sílvia de Oliveira, que é uma biografia autorizada de Paulo Teixeira Pinto. A maioria das pessoas conhece-o como o banqueiro do BCP, mas eu gosto mais de o referenciar como ex-editor da Babel e ex-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, pois foi nessas funções que o conheci pessoalmente, embora o pudesse mencionar também como artista, pois ele teve a generosidade de, há uns anos, nos oferecer um quadro da sua autoria que está na parede maior da nossa casa da Ericeira. Foi, aliás, para saber o que acontecerá realmente à Babel (hoje em decadência absoluta) que abri o livro e o folheei, mas não resisti a investigar igualmente o que sente alguém que descobre numa consulta de rotina que tem Parkinson (e que contempla a possibilidade da eutanásia se um dia se tornar apenas um fardo para os outros); ou como se sobrevive à morte súbita de um filho de 22 anos que não estava doente, sobretudo quando a autópsia é inconclusiva (um filho que era uma espécie de «santo» nas palavras do pai); ou como, depois de se pertencer durante anos a uma instituição como a Opus Dei, se deixa de acreditar em Deus da noite para o dia. O livro não é profundo, fala destas e de outras coisas um pouco ao de leve, pela rama, mas se calhar, para o biografado falar, a condição era capaz de ser não ir muito ao fundo das questões. A capa é que é mesmo esquisita: Paulo Teixeira Pinto parece estar a assustar-nos… e ele, ao que sei e percebo por este livro, é tudo menos agressivo. Escreve o prefácio Pedro Abrunhosa.

Em Timor

Recebi um convite para ir à estreia do novo filme de Luís Filipe Rocha, intitulado Rosas de Ermera; e, como gosto muito do realizador e do seu cinema, não pude faltar. Não era um filme de ficção, como os que vi dele, mas um filme de não-ficção em torno da família de Zeca Afonso, narrado, aliás, pelo seu irmão mais velho (João Afonso dos Santos, com cerca de noventa anos) e a sua irmã mais nova (Mariazinha, a que cheirou as rosas de Ermera, com mais de oitenta). Mas não pensem que é um filme sobre a carreira do Zeca, pois não tem que ver com isso, mas com a separação da família no final dos anos 1930: vivendo em Lourenço Marques, o pai – que era juiz – concorreu a um lugar em Timor. Como no sítio para onde ia, Lahane, não havia liceu, os dois rapazes vieram estudar para Coimbra, e a menina, ainda na escola primária, acompanhou os pais. Ora, quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor foi invadida por tropas japonesas – e Mariazinha e os pais ficaram impossibilitados de comunicar com o exterior, pelo que durante vários anos João e Zeca não souberam deles e puseram mesmo a hipótese de se terem tornado órfãos. Conhecia mal esta história da ocupação japonesa de Timor e a forma como uma coluna de timorenses se aliou aos japoneses contra o colonizador português. O filme é maravilhoso também pelos seus protagonistas e narradores; mas, como vai fazer itinerância pelo País, vejam se não o perdem nas vossas cidades e, entretanto leiam o livro de João Afonso dos Santos sobre o mesmo assunto, O Último dos Colonos. Às vezes, a realidade supera a ficção.

Desassossego

Ui, esta palavra tem muitos SS e quem anda aos SS anda desassossegado. Ontem começaram em Lisboa os Dias do Desassossego de 2017, esse período do ano em que as ruas da capital se enchem de música, leituras, oficinas, exposições e muito mais à roda da obra de Fernando Pessoa e José Saramago (e não só). A festa decorre até final do mês e, já este fim de semana, estão previstos pelas dez da manhã passeios literários dedicados aos dois escritores, Lisboa de Fernando Pessoa e José Saramago e o Memorial do Convento. No sábado, para quem tiver filhos, a Fundação José Saramago organiza uma oficina de «postais desassossegados» e, para os mais velhos, o lançamento de um livro com 145 poemas de Kavafis, traduzidos do grego por Manuel Resende. E, na semana que vem, há concerto no Teatro Municipal S. Luiz, uma aula, uma conferência, teatro, mesas-redondas, arte urbana... Enfim, o suficiente para nos desassossegar até dia 30, dia em que a Casa Fernando Pessoa faz vinte e quatro anos! Ufa!


 


O programa completo aqui: http://diasdodesassossego.org


 

O que vamos ler em 2018

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Não, não pensem que sei mais do que devia e que vou aqui apresentar uma lista de títulos que serão publicados no ano que vem por muitas editoras. Na verdade, trata-se apenas do título de uma sessão à volta de livros que ocorrerá esta tarde no Museu da Farmácia em Lisboa e para a qual a entrada é livre. Numa mesa em que estarei acompanhada pelo Manel (Porto Editora), por Diogo Madre Deus (Cavalo de Ferro), Francisco Vale (Relógio d'Água), Bárbara Bulhosa (Tinta-da-Chuna) e mais algumas pessoas, contaremos com a moderação do jornalista Luís Caetano para falar de muitos assuntos, tais como a vida dos editores e dos críticos literários, a apresentação de algumas novidades ao público presente (presumo que também estejam farmacêuticos que gostem de ler) e um cheirinho do que vai ser o ano de 2018. Antes ainda de o debate se abrir ao público, teremos tempo para escolher um livro de outro editor, ali presente ou não. É logo às 18h00 num lugar mágico e contamos com a sua presença!


 


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A noite não é eterna

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Depois de várias nomeações com o seu romance anterior, Cristina Silva foi este ano galardoada com o Prémio Fernando Namora da Estoril Sol pelo seu romance mais recente, A Noite não É Eterna, cuja acção decorre nos anos de chumbo da Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, com a população enfraquecida pela fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército no qual os soldados são treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, a culpa e o desgosto já não a abandonarão, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade. Mas será que o seu sofrimento pode ser aplacado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo? Leia para saber.


 


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Papões e outras criaturas

Aqui há tempos, num encontro literário que se realiza no Fundão, conheci duas pessoas extraordinárias que vivem em Alcobaça e têm uma pequena editora – a Escafandro. Trata-se da Rita Nabais e do Nuno Matos Valente, ambos professores, ele autor também de alguns livros, nomeadamente  o que aqui me traz hoje: Bestiário Tradicional Português. Conta o Nuno numa entrevista ao Observador que, há uns tempos, se apercebeu de que as criaturas das antigas histórias portuguesas – bruxas, monstros, almas penadas, papões, gigantes, etc. – começaram a perder claramente terreno para o massificado Halloween, por exemplo, que pouco ou nada tem que ver com as nossas tradições. Surgiu-lhe então a ideia de recolher as histórias tradicionais que incluem estas figuras (enquanto há quem se lembre de as ouvir de pais e avós). Fez uma pesquisa ao longo de quatro anos, mergulhando na obra de Leite de Vasconcelos, Alexandre Herculano, Teófilo Braga e muitos outros autores – e também ouvindo relatos em muitas partes deste nosso Portugal, chegando, de resto, à conclusão de que muitas histórias se repetem, mesmo que os nomes das criaturas não sejam sempre os mesmos. E o resultado é então um livro que vai já em segunda edição e agrada tanto a crianças como a adultos. Publicado pela Escafandro e ilustrado por Natacha Costa Pereira.

Sempre na moda

Releio livros e revejo filmes de que gostei muito quando li e vi pela primeira vez, mas que agora me parecem tremendamente datados, e garanto-vos que não é por não haver neles telemóveis ou computadores. É uma coisa que se sente – e até já me aconteceu com autores importantes, como Vergílio Ferreira, ou filmes muito «badalados», como American Gigolo. Mas há autores que, por mais que se vão tornando de nicho, nunca passam de moda – e é o caso de Eça de Queirós (que até se permite ser «continuado» por outras mãos no século XXI) ou Camilo Castelo Branco, que, usando embora linguagem que hoje os jovens acharão decerto rebuscada, permanece profundamente actual, como nesta passagem, em que descreve com primor um «novo-rico»:


 


«No Chiado abjurou um chapéu de molas de merino, e comprou outro de castor, à inglesa. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas da sua vida. No vesti-las arrostou com dificuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou-o na árdua empresa.


Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiência do sujeito desconhecido. Um deles, confiado na inépcia tolerante do provinciano ou suposto brasileiro, disse, a meia voz, ao outro:


– Quatro pés nunca vestiram luvas.


Calisto encarou nele com sorriso minacíssimo, e disse à luveira:


– As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.»


 


Pertence a A Queda de Um Anjo. Que maravilha, não é?

Economia para todos

Quando era pequena, tinha uma grande dificuldade em perceber por que motivo os banqueiros eram ricos se o dinheiro que estava depositado nos bancos não lhes pertencia. (Não sabia que eles o investiam nos seus negócios e que, em suma, o faziam render.) Um pouco mais tarde, o problema foi com as empresas em bolsa e o comprar e vender acções; e, mais tarde ainda, com a especulação financeira e a desvalorização da moeda. Embora tenha lido vários livros que me ilustraram sobre alguns assuntos, a economia para mim continua a ser basicamente misteriosa e impenetrável – e parece-me que talvez fosse bom a escola dar desde cedo algumas noções de economia aos alunos, até porque ela está presente no quotidiano de todos. Descubro então, quase por acaso, que o senhor Varoufakis (lembram-se dele?) escreveu há uns anos (e apenas em nove dias, caramba!, segundo conta no prefácio) um livro intitulado Falando de Economia com a Minha Filha, agora publicado também em inglês. Diz o ex-ministro grego nesta sua brevíssima história do capitalismo que economia é política e que, como tal, deve ser discutida em termos que todos entendam, incluindo a filha que era, na data da publicação da obra original, apenas uma adolescente. Acho que se calhar vou comprar a tradução inglesa do livro de Varoufakis e tentar realmente adquirir um conhecimento do qual estou francamente carente para compreender algumas notícias deste nosso mundo.

Profético

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Sinclair Lewis foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1930. Mas o reconhecimento pelos seus romances satíricos, críticos dos políticos corruptos e do materialismo fútil da classe média americana não abarcava ainda o  livro de que falarei hoje, publicado em 1935, que se tornou uma obra profética após a eleição de Donald Trump. Escrito durante a Grande Depressão e publicado quando o fascismo começava a emergir na Europa de forma alarmante, Isso não Pode Acontecer Aqui conta a história de Buzz Windrip, um demagogo xenófobo e racista e que, apesar de praticamente iletrado, consegue derrotar Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais com a promessa de um regresso da América à prosperidade e ao orgulho, acabando por instaurar um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível. No centro da acção, está Doremus Jessop, um jornalista do Connecticut que testemunha com horror a fragilidade da democracia e se torna um dos grandes resistentes à tirania, passando à clandestinidade. Oitenta anos depois da publicação original, este livro é assustadoramente atual.


 


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Ler, beber e petiscar

Nem tudo o que acontece de interessante nos dias que correm se realiza nas grandes cidades – e Alcobaça, além de ser um lugar belíssimo que só por isso já merece visita, recebe pela quarta vez o festival Books & Movies – Festival Literário e de Cinema, que decorre entre 4 e 14 de Novembro e junta variadíssimas personalidades do meio cultural português para falarem de livros, filmes e muito mais «num clima de diálogo, de tolerância e de abertura» em espaços públicos da cidade. Este festival, organizado pela Câmara Municipal de Alcobaça, apresenta propostas para o público escolar e para o público em geral; e, no dia do fecho, às 18h00, na Granja de Cister, convida o escritor Paulo Moreiras (autor, simultaneamente, de romances literários e livros de gastronomia e etnografia) para falar da relação entre a literatura e a culinária, coisa que ele conhece como ninguém, não só por ter escrito sobre o assunto em livros como Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber (e chorar por mais, claro) ou O Elogio da Ginja como ainda por ser alguém que escreve, cozinha e come muito bem. Se não puder ir a esta sessão, moderada por José Fanha, há muito mais. O programa completo segue no link abaixo.


 


http://www.cm-alcobaca.pt/pt/menu/1115/booksmovies.aspx

BIS

Toda a gente sabe que um dos mais prestigiantes prémios literários portugueses é o que anualmente atribui a Associação Portuguesa de Escritores (APE) nas categorias de romance ou novela, poesia e ensaio. Na ficção, é muito raro um autor conseguir vencê-lo com um livro de estreia – e Ana Margarida de Carvalho ganhou-o com o seu primeiro romance, intitulado Que Importa a Fúria do Mar (o título parte de uma canção de Zeca Afonso). É também pouco comum este prémio ser atribuído mais de uma vez à mesma pessoa – em quase trinta anos, só houve seis autores que bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e, agora, Ana Margarida de Carvalho! Mas o que penso aconteceu pela primeira vez foi um autor receber o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB pelos seus dois primeiros livros; e foi isso que aconteceu a Ana Margarida de Carvalho que, com Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, foi também finalista do Prémio P.E.N. de Narrativa (ganho por Ernesto Rodrigues) e do Prémio Oceanos (antigo PT), no Brasil, que vai ser decidido no dia 7 de Dezembro. Mais logo, pelas 18h00, no renovado Palácio Galveias, em Lisboa, Ana Margarida recebe o seu segundo prémio da APE na presença de alguns dos jurados e do Ministro da Cultura, o poeta Luís Filipe Castro Mendes. Apareçam.

Pessoas e escritores

Uma das coisas de que mais gosto em Eduardo Lourenço é que ele é muito gente por detrás do grande intelectual e pensador que também é. Estar com ele é um prazer também por causa disso, por estar ao nosso lado como um de nós, com uma humanidade muito especial. Há escritores que são muito distantes – ou muito artistas, muito «elevados» em relação ao resto das pessoas (e isso irrita). Mas há outros que gostam tanto de escrever como de comer, conversar ou ir ao futebol (penso que Carlos de Oliveira, por exemplo, era um doido pela bola e uma destas pessoas muitíssimo «normais», apesar da fama e da importância). A este título, Jorge Amado é também um bom exemplo de «gente», e a história que li recentemente no mural do Facebook de Josélia Aguiar, a curadora da FLIP (o festival literário de Paraty), comprova-o. Quando o escritor brasileiro tomou posse como membro da Academia de Letras da Bahia vestiu o smoking da ordem para proferir o seu discurso; ao terminar, uma repórter aproximou-se dele para perguntar como se sentia. A resposta, segundo o Jornal do Brasil, foi a seguinte: «Muitíssimo suado, minha filha.»

Em leilão

Recebi um e-mail sobre leilões – e tê-lo-ia apagado imediatamente se não tivesse reparado, numa rápida vista de olhos, que a coisa iria ocorrer na Cooperativa Árvore, no Porto, um lugar de culto a que não sou indiferente. Deitei então um olhar mais demorado ao texto para ficar a saber que estava em causa o património de um senhor que conheci há muitos anos e é admirado por muitíssimas pessoas: o livreiro portuense Fernando Fernandes, segundo Agustina «o maior dos livreiros portugueses», fundador da Livraria Leitura, passagem obrigatória de tudo o que era intelectual e leitor sério na Invicta ao longo de várias décadas. Pois bem, os tempos mudaram e Fernando Fernandes é agora obrigado, por razões de saúde e necessidade, a «desfazer-se» de 4000 peças!, incluindo 120 obras de arte (de pintores como Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Zulmiro de Carvalho, Fernando Lanhas ou Júlio Resende) e 650 livros seleccionados, como Poesias Completas (1951-1981), de Alexandre O´Neil, com dedicatória assinada; Quadros Portuenses, uma edição de luxo de Agustina Bessa-Luís – com 10 aguarelas de António Cruz; ou até As Quatro Estações, de Jorge Sena, Eugénio de Andrade, Faria Almeida e Vergílio Ferreira, ilustrado a cores em folhas à parte. Não consigo imaginar o que será para Fernando Fernandes separar-se de uma colecção como a sua, embora ele confesse que ainda fica com muitos livros para ler. Parece-me, de qualquer modo, um terrível sinal dos tempos. (Os leilões decorrem até amanhã.)

O que ando a ler

Javier Cercas escreve estupendamente sobre personagens e acontecimentos reais num tom de romance em que é tudo inventado; em Espanha até se diz que escreve «romances de não-ficção». Sim, é mais ou menos isso – e o livro que ando a ler neste momento não é excepção. Chama-se O Monarca das Sombras e regressa ao período da Guerra Civil espanhola já visitado pelo autor no maravilhoso Os Soldados de Salamina, obra que o celebrizou. Depois de muito hesitar, em parte também por se encontrar nos antípodas políticos do seu protagonista, em parte por vergonha assumida, em parte por não querer entrar em litígio com parentes (incluindo a mãe), Cercas decidiu dedicar este livro a um tio-avô materno, Manuel Mena, que combateu ao lado dos Franquistas e morreu em 1938 na Batalha do Ebro, dois anos apenas depois de se ter alistado, tornando-se uma espécie de herói oficial da família (o pobre rapazinho «que morreu do lado errado da História»). Todos os que morrem jovens, com uma vida inteira por viver, invocam uma certa sensação de desperdício – e o sobrinho-neto de Manuel Mena quis saber mais sobre o passado desta figura de que, em Ibahernando, a terra onde nasceu (e donde os pais emigraram poucos anos mais tarde para a Catalunha), muita gente se orgulhava. Descobrir algumas coisas incómodas (e não só sobre o jovem combatente, mas também sobre outras gerações da família) faz, naturalmente, parte do processo. Ainda vou no primeiro terço do livro, mas já entendi que é para ler a correr até ao fim.

O menino e a menina

O politicamente correcto às vezes (quase sempre) enerva… E aquela história de não poder haver livros e brinquedos diferentes para meninas e meninos é um bocado irritante. Todos conhecemos meninas que adoram ser princesas e rapazes que só querem carros e bolas, e isso é tão normal que até se diz que uma menina é maria-rapaz se preferir correrias ao ar livre a brincar aos pais e às mães (era o meu caso, supostamente por ter um irmão pouco mais velho). Enfim, tudo quanto é demais é erro, e agora foi a vez da Real Academia Espanhola (RAE) se insurgir contra a forma como os políticos se dirigem ao eleitorado, com um «caros e caras» e «todos e todas», que considera um abuso do politicamente correcto, uma vez que os falantes de espanhol (e o mesmo acontece com os de português) não estão necessariamente a discriminar quando usam o plural masculino «caros» ou «todos» para se referirem a homens e mulheres, nem precisam de mudar a sua língua para fugir ao sexismo. O relatório da RAE critica as novas tendências linguísticas usadas por universidades, sindicatos e governos regionais em Espanha, que propõem a utilização de palavras como «cidadania» para substituir «os cidadãos» (cá também houve a polémica do Cartão de Cidadão acho que por causa do BE) ou «o professorado» para falar de professores dos dois sexos. O jornal argentino La Nación concorda, dizendo que não é preciso ser lexicógrafo para perceber que a palavra «infância» não equivale a dizer «os miúdos». O autor do relatório defende que «o uso genérico do masculino para designar os dois géneros está muito enraizado no sistema gramatical espanhol» e que não faz sentido «forçar as estruturas linguísticas». E foi aprovado por unanimidade pelos membros da Academia, da qual fazem parte muuuuuuuuuitos escritores. Então, aqui no blogue, quando eu falar de Extraordinários, não estou a omitir as mulheres, certo?

Influência e influências

Numa recente entrevista ao vivo conduzida pela jornalista Isabel Lucas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o grande romancista norte-americano Jonathan Franzen «pediu» para não responder a uma pergunta sobre os autores que mais o influenciaram. Essa pergunta é sempre incómoda para um escritor (e também para os escritores que não cita e ainda estão vivos e gostariam de ter influenciado os mais novos); incómoda porque talvez um crítico a sério perceba melhor quais são as influências de um escritor do que ele próprio (por vezes, até as inventam – como quando disseram que a minha poesia era claramente influenciada por um livro que nunca li). Contudo, o mesmo Jonathan Franzen, numa entrevista ao The Guardian, confessou que a obra que certamente teve mais influência na circunstância de se tornar escritor (atentem na nuance, pois não é a mesma coisa que Isabel Lucas lhe perguntou em Lisboa) era As Crónicas de Narnia, essa série juvenil do britânico C. S. Lewis que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo e na qual as crianças entram num guarda-fatos e saem do outro lado num mundo mágico. Aí convivem com feiticeiras boas e más, animais humanizados, criaturas míticas, estrelas, anões e sei lá que mais. Embora durante muitos anos esta colecção de aventuras fantásticas tenha parecido a muitos uma obra menor, a verdade é que levanta questões muito interessantes e tem um leque de personagens capaz de fazer qualquer jovem querer ser outra pessoa – ou, como no caso de Franzen, querer ser escritor. Nesta perspectiva, o poeta que mais me influenciou a escrever poesia foi seguramente João de Deus – mas isso não tem nada que ver com as outras influências de que ela provavelmente sofre.

Descobertas

No ano passado (ou no anterior, já não sei muito bem) fui a Coimbra à Casa da Escrita participar numa apresentação da minha Poesia Reunida por uma investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Teresa Carvalho. Não a conhecia até então, mas passei a estar mais atenta ao seu nome e descobri que não só escrevia regularmente artigos sobre literatura portuguesa ou recensões na imprensa como também era presença regular em festivais na qualidade de entrevistadora e apresentadora de autores. Ontem, muito por acaso, à procura de um livro de que precisava e já não sabia onde tinha metido, descobri uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de uma obra intitulada 55 Vidas e Obras de Grandes Autores Portugueses, assinada justamente por Teresa Carvalho (a edição já tem uns cinco anos), obra que lhe foi encomendada na sequência de uma exposição (A Celebração dos Autores) na qual a SPA homenageava cerca de quatro dezenas de autores portugueses, todos eles membros daquela Sociedade. A colecção de olhares sobre as figuras inclui nomes como Alexandre O'Neill ou Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira ou Eugénio de Andrade, António Botto ou Fernando Namora. Mas os autores não são apenas escritores, e constam do volume nomes de criadores como o de António Variações ou Frederico de Brito (um homem do fado), Mário Viegas ou Viana da Mota, Carlos Paredes ou Jorge Peixinho… e, por exemplo, alguns menos óbvios como Humberto Delgado e Ribeirinho. Enfim, vou espreitar. Não sei se só os membros da SPA tiveram direito a um exemplar, mas tenho sorte de ter sido uma feliz contemplada.

Escândalo

Por causa de alguém que pôs no Facebook um artigo sobre os ghost writers portugueses (aqui, se lhe apetecer ler ou reler: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-05-08-Os-fantasmas-que-escrevem-os-livros-dos-famosos), lembrei-me de uma história que há uns anos se passou em Espanha e que fala dos riscos de recorrer a alguém assim, que não assina o livro que escreve (além, claro, de a pessoa poder abrir o bico e contar a verdade). Uma senhora da socialite quis por força escrever um desses romances cor-de-rosa moderninhos e contratou um ghost writer que, por acaso, era o próprio cunhado. Só que o jeitoso nem escritor-fantasma foi porque, na verdade, praticamente não escreveu uma linha: retirou parágrafos de variadíssimas obras já publicadas (entre elas, muitos romances da prolixa autora norte-americana Danielle Steel) e construiu um mosaico ao qual só foi necessário acrescentar as ligações (confesso que deve ter sido preciso talento para construir uma história a partir do já feito). Ignorante de tal procedimento, a autora (?) famosa convidou a mulher de José María Aznar, então primeiro-ministro, para lhe apresentar o livro, o que aconteceu. O pior foi o vexame para ambas quando uma leitora aficionada da senhora Steel começou a perceber que já lera aquilo em qualquer lado e resolveu denunciar a situação. Suponho que a senhora não mais dirigiu a palavra ao cunhado… E a editora teve de tirar o livro das lojas imediatamente. A senhora Aznar, acredito, nunca mais aceitou apresentar um livro.

Livros em viagem

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Hoje, quando pensamos em militares, mais depressa os associamos a actividades físicas do que a intelectuais. Haverá de tudo, evidentemente. No entanto, entre militares famosos de outros tempos estiveram cabeças muito bem-pensantes, grandes estrategas e gente muito lida. Napoleão, segundo alguns dos seus biógrafos, fazia-se sempre acompanhar de um certo número de livros favoritos para onde quer que fosse. E parece que até concebeu os desenhos de bibliotecas portáteis que acabaram fazendo parte da sua bagagem corrente. Leio esta informação no blogue do escritor e ilustrador Austin Kleon (https://austinkleon.com/about/) que, por sua vez,  a divulga a partir das declarações de Louis Barbier, bibliotecário do Louvre durante muitos anos e cujo pai foi o bibliotecário do próprio Napoleão. Conta ele que essas bibliotecas eram uma espécie de caixas com prateleiras dentro, que comportavam cerca de 60 volumes. Feitas inicialmente de mogno, passaram depois a ser de carvalho, por ser uma madeira mais resistente. O interior era forrado a veludo ou cabedal verde e os livros encadernados a pele. Cada um destes «estojos» tinha o respectivo catálogo, que mencionava o número de cada obra para que não se perdesse tempo à procura de um livro. Havia, porém, alguns títulos que Napoleão gostaria de consultar nas suas viagens que não constavam destas bibliotecas por serem demasiado volumosos; então, ele escreveu ao senhor Barbier-pai, encomendando uma biblioteca de 1000 títulos!, na qual os livros, compostos numa letra bonita, fossem impressos sem margens e com capas moles e flexíveis para poupar espaço, abarcando poesia, ensaio, teatro, ficção, religião, história e muito mais. Militares leitores destes já não há...


 


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Sprechen Sie Deutsch?

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Há exactamente vinte anos, neste mesmo mês de Outubro, mas em 1997, Portugal era o convidado de honra da Feira Internacional do Livro de Frankfurt (FILF), o mais importante certame à roda do livro e da venda de direitos de autor em todo o mundo. Era então primeiro-ministro o engenheiro António Guterres e ministro da Cultura o professor Manuel Maria Carrilho, mas quem liderava a equipa (à qual me orgulho de ter pertencido) e produzia o programa de festas era o escritor e gestor cultural António Mega Ferreira (e na Alemanha trabalhavam também para o evento o livreiro Teo Mesquita e a agente literária Ray-Güde Mertin, então agente de Saramago). A operação, que incluiu actividades espalhadas por toda a cidade de Frankfurt – teatros, museus, bibliotecas, etc. – visou não apenas a literatura (estiverem lá, evidentemente, dezenas de escritores em mesas-redondas e leituras), mas exposições de pintura, arquitectura e fotografia, concertos de música popular e erudita, espectáculos de dança e uma mostra de cinema. Foi uma presença extraordinariamente bem-sucedida e, durante os anos que se seguiram, Portugal esteve mesmo na mó de cima em termos de festivais literários e prémios (o Nobel veio no ano imediatamente a seguir), tendo sido convidado de honra em Paris, em Genebra e no Rio de Janeiro, pelo menos. Para comemorar os 20 anos de Portugal como país-tema da FILF, Jochen  Nix vai falar e ler Pessoa & heterónimos na Casa Fernando Pessoa logo mais à tarde e  amanhã ler passagens de O Ano da Morte de Ricardo Reis na Fundação Saramago. Em alemão. A programação vai abaixo, em português.


 


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Desdizer

Aprendi muito sobre paradoxos no início da minha carreira editorial por trabalhar numa editora que então se dedicava à divulgação científica e ter lido os livros divertidos de Martin Gardner com capítulos sobre paradoxos, círculos viciosos e outras matérias aliciantes. Lembro-me, por exemplo, da história de um viajante que chega a uma cidade em cuja rua principal há dois barbeiros: um com o cabelo muito bem cortado, o outro com o cabelo numa desgraça. Como precisa de cortar o cabelo, o viajante não hesita em escolher o primeiro. Mas faz mal. Porquê? Ora, porque as pessoas raramente cortam o cabelo a si próprias! Recordo também o paradoxo do mentiroso, que vou parafrasear. Alguém escreve um cartaz que diz: «Todos os lisboetas são mentirosos.» Mas, se quem escreve a frase é um lisboeta, em que ficamos? Giro, não é? Lembrei-me disto a propósito de duas palavras muito portuguesinhas que, portadoras do prefixo «-des» (como em «destruir» ou «desleal») deveriam significar o contrário de uma coisa, mas, paradoxalmente, não significam senão essa mesmíssima coisa. São elas «desandar» (quando dizemos a uma pessoa que desande, o que queremos é que ande, e depressinha, para longe de nós) e «deslargar» (nunca esqueci a Maria Vieira num programa do Hermann José a agarrar  as mãos de um tipo ao seu lado e a apalpar-se com elas, dizendo: «Deslarga-me! Deslarga-me!»). Enfim, hoje era isto que vinha aqui dizer e agora ocorreu-me que «desdizer» também não é ficar calado.

Prémio LeYa 2017

E o vencedor é.... João Pinto Coelho com Os Loucos da Rua Mazur. E esta, hein?

A manta do tempo

A terrível velocidade dos tempos que correm (eu até disse «correm») é, na verdade, bastante recente. Talvez os miúdos de hoje já nasçam acelerados, mas quem nasceu antes da invenção dos computadores e dos telemóveis sente que o mundo avança de forma vertiginosa e fica muito stressado (o meu caso). É bastante curioso que no livro que aqui me traz hoje – Num Tempo Que Já Lá Vai, escrito por Rosário Alçada Araújo e ilustrado por Patrícia Furtado – seja a Laura, uma menina, a notar que as coisas estão a andar demasiado depressa e que não devem ter sido sempre assim. Pergunta à avó, que a leva à escola, como era no seu tempo – e essa pergunta inaugura uma bonita história com uma manta tricotada que, ao desfazer-se de volta ao novelo, fala de tempos que já lá vão, quando a trisavó de Laura ainda era viva e o padeiro trazia o pão à porta, havia pregões, varinas, ardinas, bacios de louça, relógios de dar corda, ferros a carvão e muito mais coisas que entretanto se tornaram obsoletas e inúteis. Mas não é um livro saudosista, pelo contrário, nele guarda-se o passado como relíquia mas ensina-se que todos os tempos têm coisas boas e más e, sobretudo, pessoas que vivem, trabalham, conversam, amam – tal como avó e neta nesta história. A edição é da Gailivro e o lançamento é amanhã, ao meio-dia, na Livraria Buchholz, em Lisboa.

Soma e segue

Há uma expressão popular divertida («Cada tiro, cada melro») que hoje faz todo o sentido ser aqui usada. Na manhã de ontem, soube-se que Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, era uma das dez obras finalistas do Prémio Oceanos no Brasil. À tarde, porém, veio uma notícia ainda melhor: a obra vencera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB! Lembro aqui os leitores do blogue que Ana Margarida já tinha ganho o mesmo prémio com o seu primeiro romance, Que Importa a Fúria do Mar, e agora repetiu a proeza, sendo que só seis escritores em 35 anos o conseguiram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e agora ela própria! Nenhum deles, contudo, com duas obras seguidas. O júri, constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Isabel Cristina Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, Luís Mourão, Paula Mendes Coelho e Teresa Carvalho, deliberou por maioria, pois Luís Mourão votou em A Gorda, de Isabela Figueiredo (um romance publicado pelo meu colega Zeferino Coelho, da Caminho, de que também gostei muito). Neste ano, concorreram 93 livros, dos quais 60 eram de homens (2 deles eram produtivos: tinham 2 romances) e 31 eram de mulheres, publicados por 44 editoras. Parabéns, Ana Margarida de Carvalho! Agora é esperar pelo Prémio Oceanos e ver o que dá.


 

Perto e longe

Quando um vizinho recém-chegado se atirou da janela no prédio da minha mãe, mesmo sem o conhecer, ela ficou traumatizada por muito tempo. Se o proverbial sexagenário for atropelado na minha rua faz-me mais impressão do que se o tiver sido noutro lado? É possível. O atentado no Bataclan, em Paris, ou naquela rua larga em Nice, ou nas Ramblas, em Barcelona, está suficientemente perto, em termos sentimentais, para me causar mais mossa do que as centenas de mortes anónimas nos desastres ferroviários da Índia ou causadas por cólera e ébola em África. Aqui na Europa achamos que a América (os EUA, quero dizer) é também um bocadinho nossa e sentimos as mortes do 11 de Setembro como qualquer coisa de próximo. Em termos emocionais, os conceitos de perto e longe nem sempre têm que ver com distâncias reais (os mineiros do Chile nunca deixaram os nossos corações, enquanto choramos os mortos dos nossos incêndios mais recentes sem nos lembrarmos dos 300 mortos na Somália na mesma data). Mas pode ser uma geografia bastante injusta… Leio um artigo de Han Kang no The New York Times sobre os perigos de uma guerra entre os EUA e a Coreia do Norte, coisa, aliás, que nos deveria preocupar a todos nestes tempos malucos. Se essa guerra realmente eclodir, há uma probabilidade de morrerem 20 000 sul-coreanos por dia enquanto durar o conflito… Mas, segundo Han Kang, nos EUA diz-se apenas: «Don’t worry, war won’t happen in America. Only on the Korean Peninsula.» Ou seja, longe da vista, longe do coração. Talvez o artigo me tenha tocado de maneira especial por eu ser agora a editora dos livros de Han Kang e ter passado a ter um laço com a Coreia do Sul. No entanto, chamo a atenção para este belo e lúcido texto da autora de A Vegetariana e Atos Humanos. Para desfazer distâncias.


 


https://www.nytimes.com/2017/10/07/opinion/sunday/south-korea-trump-war.html


 

Edição global

Quando o mundo se tornou uma aldeia global, a edição não teve outro remédio senão globalizar-se também. Para o bem e para o mal. Para o bem porque, como leitores, em lugar de esperarmos anos pela tradução portuguesa de determinado livro (o que acontecia frequentemente quando eu era jovem), hoje o texto chega ao editor português num PDF ou num ficheiro Word pouco depois de terminado pelo autor e pode começar a ser imediatamente traduzido, fazendo com que a edição portuguesa saia praticamente ao mesmo tempo da original. Para o mal porque, em determinados projectos mais escaldantes ou mediáticos (lembro-me, por exemplo, das biografias de Bill Clinton ou de Nelson Mandela que publiquei há uns anos ou da série Millenium, para citar uma obra mais recente), todas as edições têm de sair obrigatoriamente no mesmo dia e é preciso um tour de force diabólico para cumprir os prazos; além disso, toda a correspondência é absolutamente confidencial e há multas sérias para fugas de informação... E, apesar dos cuidados, por vezes há «distracções». E o que aconteceu agora na Holanda é exemplo disso: a tradução neerlandesa de um livro do escritor britânico Philip Pullman que era muito aguardado (pois dava continuidade a uma trilogia que tinha vendido 17,5 milhões de exemplares e fora adaptada ao cinema e à televisão), saiu antes da edição inglesa... O editor foi repreendido e retirou imediatamente os livros do mercado, mas já houve uns quantos sortudos que se chegaram à frente e têm o livro. Antes mesmo do próprio autor. Custos e vantagens da globalização.

Outono em beleza

Existe há muito uma Escola de Escritas chamada EC.ON, da responsabilidade de Luís Carmelo, ele próprio escritor com obra publicada (a mais recente na editora Abysmo). É uma escola especialmente vocacionada para trabalhar online e acompanhar quem escreve (não apenas literariamente, mas em meios como o da publicidade, o cinema ou o teatro), contando com mais de 20 escritores portugueses entre os orientadores de perto de uma centena de cursos. Mas, a par desta actividade online, também organiza bastantes sessões presenciais e amanhã haverá uma sobre biografia conduzida por Maria Antónia Oliveira (a biógrafa de Alexandre O’Neill) a que, se não tivesse já um compromisso, iria com o maior prazer. No Ciclo de Literaturas Contemporâneas será possível ouvir e dialogar com Gonçalo Tavares, Valério Romão ou Paulo José Miranda e, nas sessões Ícone X, rir com Ricardo Araújo Pereira, João Quadros e Filipe Homem Fonseca, isto tudo até final do ano. Haverá ainda uma oficina de romance por João Tordo e, na verdade, muito mais por onde escolher. Tem é de inscrever-se. O link da agenda aqui vai:


 


http://escritacriativaonline.net/agenda/

Fado e literatura

Os Extraordinários conhecem já a minha relação com o fado e, do mesmo modo, com a fadista Aldina Duarte, que é uma verdadeira intelectual do fado e uma mulher que relaciona de forma consistente a sua arte com as outras, especialmente com a literatura. Depois de discos como Contos de Fados – em que os fados eram baseados em obras literárias ou lendas  e mitos – e de Romance(s), em que se contava uma história de amor em catorze fados com duas abordagens musicais completamente distintas, chega a vez do CD Quando Se Ama Loucamente, lançado mais logo, às 18h30, na Fnac do Chiado e integralmente inspirado na obra da escritora Maria Gabriela Llansol (excepto o fado assinado por Manuel Cruz, dos Ornatos Violeta). Este é um disco também, arrisco-me a dizê-lo, terapêutico (como os meus poemas o foram para mim) e fala das feridas de um amor maior interrompido sem explicação. Quem partiu deixou, porém, para trás um livro de Maria Gabriela Llansol, e é justamente a partir desse e de outros livros desta escritora tão singular que surgem as ideias e frases que servem de mola e epígrafe a estes fados, maioritariamente – como não podia deixar de ser neste caso – da autoria da própria Aldina Duarte. O fado e a literatura juntos mais uma vez. Eu vou espreitar e ouvir. Apareça também.

O Fantasma de Roth

Diz-se que Nathan Zuckerman, o escritor judeu que se passeia por várias obras de Philip Roth (A Lição de Anatomia, Pastoral Americana, A Mancha Humana, entre outras) é o seu alter ego. Pois pode bem ser assim. No livro que hoje me ocupa – O Escritor Fantasma –, Nathan é ainda um aspirante à condição de escritor, com um conto publicado numa revista importante, mas ainda muito verde e cheio de dúvidas. Encontramo-lo, de resto, de visita a E. I. Lonoff (escritor de ascendência russa a viver na América que é um dos seus confessados ídolos literários), a beber cada gesto e palavrinha do mestre que só gosta mesmo de dar voltas a frases e a quem a mulher, na presença do jovem, chega a pedir que a mande embora, pois já não suporta aquela vida de reclusão. Mas Nathan não é a única visita de Lonoff nesse fim de tarde: sentada na carpete de maneira informal a organizar artigos e outra papelada, a jovem Amy Belette (será esse o seu nome?) – uma ex-aluna estrangeira de Lonoff que talvez seja também sua amante – desperta fantasias e a admiração do rapaz até pela forma íntima e desafiadora como fala com o mestre. Nathan ficará a dormir em casa de Lonoff e poderá ouvir conversas sussurradas e inspiradoras que o ajudarão a resolver os seus próprios conflitos interiores. E mais não se conta desta estreia de Nathan Zuckerman, dizendo-se apenas que este é um livro maravilhoso sobre a literatura e a vida e as escolhas que se fazem em ambas. Traduzido por Francisco Agarez, claro.


 

Romeu & Julieta

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Quando eu era pequena, comia muitas vezes queijo e marmelada à laia de sobremesa, sem saber que no Brasil existia uma variante desta guloseima (goiabada em vez da marmelada) chamada Romeu & Julieta. Shakespeare e a sua tragédia amorosa também se relacionaram com comida na encenação de um grupo de teatro polaco que vi há uns anos no Teatro Nacional D. Maria II, na qual os Montecchio e os Capuleto eram donos de pizarias rivais. E agora o Teatro Praga aproveita o par amoroso e leva à cena no Teatro Maria Matos uma peça para crianças (que os adultos também poderão ver) que mistura a história do «romance maldito» com um cheesecake: Romeu & Julieta – Uma Excelente e Lamentável Sobremesa, de Cláudia Jardim, Diogo Bento e Pedro Penim (interpretam-na os dois primeiros). Segundo o anúncio, «o sangue dos amantes é doce de goiaba, as lutas de espadas fazem-se com espátulas e uma dentada numa bolacha Maria pode ser uma alternativa deliciosa para um coração partido.» Parece uma forma interessante de apresentar Shakespeare aos mais novos e a fotografia promocional do espectáculo é também bastante apelativa. De 21 a 29 de Outubro, aos sábados (às 16h30) e aos domingos (às 11h e às 16h30). A obra do bardo continua a dar pano para mangas.


 


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Revisitar

Todos nós recebemos seguramente mais e-mails do que gostaríamos provindos de todos os cantos do mundo – e, entre eles, muita coisa irrelevante que se apaga quase sem ler.  Um dia destes, porém, mandaram-me um anúncio de um workshop sobre a importância das cores no vestuário; e, ainda que o assunto esteja longe de despertar a minha atenção, houve qualquer coisa na redacção do primeiro parágrafo que me remeteu para um autor de quem senti saudades. Dizia assim: «O vestuário que escolhe para o dia-a-dia pode ajudar a transmitir a imagem certa e adequada ao contexto no qual se insere. Saber escolher a roupa que vestimos influencia o modo como as outras pessoas se relacionam connosco […]» Foi ao ler esta frase que, no fundo, é bastante banal (perdoe-me a autora), que me recordei de um artigo de Claude Lévi-Strauss que li na minha juventude («O hábito faz o monge») no qual, a abrir, se explicava que quando um homem põe de manhã uma gravata isso já quer dizer alguma coisa. Pois bem, já não sei em que livro ou revista se encontra este texto notável do antropólogo belga; os meus livros de Strauss estão, ainda por cima, numa prateleira alta. No entanto, se algum dos Extraordinários tiver curiosidade em lê-lo e o encontrar antes de mim, avise. Gostaria mesmo de o reler. Ah, e se quiserem ir ao tal workshop e aprender a importância das cores no vestuário, consultem este link:


 


https://docs.google.com/forms/d/1cvOn1HfPWSW6l50TlFACRfylfpq8P-9ThbJqjbSTzkQ/viewform?edit_requested=true


 

Vaiado ou aplaudido?

No dia da tomada de posse de João Lourenço à frente dos destinos de Angola, o público presente parece ter assobiado ao nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse dia, vinha eu no carro pela hora do almoço e ouvi a notícia como se o assobio fosse uma vaia castigadora por Marcelo ter feito a asneira de cumprimentar João Lourenço pela sua vitória antes mesmo de se saberem os resultados das eleições. A seguir, uma jornalista «postou» no Facebook um comentário de uma senhora angolana a dizer que, na terra dela, assobio é coisa boa, e não insulto; e, logo a seguir, no site do Diário de Notícias, podia ler-se que a presença de Marcello tinha sido muitíssimo aplaudida. Bem, uso esta história para dizer que os gestos e sinais não são iguais em toda a parte (apontar com o dedo em alguns países pode ser perigoso e dizer que sim com a cabeça pode significar coisas diferentes em lugares diferentes) e que havia um livro magnífico sobre esta matéria, The Human Animal (O Animal Humano, creio, em português), da autoria de Desmond Morris, que depois deu origem a uma série de TV igualmente boa que deve estar por aí na Internet para ser vista. O livro, imagino, já deve andar fora de mercado, mas pode ser que o encontrem em alfarrabistas e bibliotecas.

Sem pagar

Embora se diga que a cultura não tem preço, o que é verdade é que quem consome cultura se queixa frequentemente do que paga por ela: há os que dizem que os livros estão caríssimos (muitos até dizem não ler por causa disso, ignorando que as bibliotecas os emprestam e que, lidos in loco, são igualmente gratuitos); há os que poupam durante meses para gastar tudo nos festivais de Verão, onde actuam as suas bandas favoritas; há os que ficam com as mãos a arder quando pagam um bilhete para um espectáculo. Sim, a cultura, mesmo sem preço, pode ser bastante cara. Mas também pode consumir-se cultura sem pagar (as leituras de poesia no Povo, por exemplo), e descubro agora que existe um blogue que colige justamente eventos aos quais podemos ir sem gastar um tostão (desculpem, um cêntimo). Chama-se, muito justamente, Cultura de Borla e avisa logo de que não se cinge a acontecimentos na capital, o que também é bom porque nem todos moramos em Lisboa. Teatro, exposições, concertos, conferências, passatempos, existe de tudo um pouco nesse blogue para quem gosta de cultura. Amanhã, por exemplo, no Museu do Oriente, haverá uma palestra que dará uma introdução ao sânscrito das 16h às 18h com entrada… de borla (claro que a sala tem uma lotação). Mas para quem queira lá ir, o endereço do blogue é:


http://culturadeborla.blogs.sapo.pt/

Fotografar escritores

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Este é um blogue mais sobre a palavra do que sobre a imagem, não há dúvida; mas as imagens que hoje me trazem aqui são indissociáveis de quem produz a palavra, ou seja, dos escritores – e, portanto, o assunto não podia ser mais apropriado. Falo-vos da exposição que hoje mesmo se inaugura na Casa da América Latina, assinada por um enorme fotógrafo de escritores: Daniel Mordzinksy, argentino, que trabalhou durante anos para o Le Monde, o El País e outros jornais franceses e espanhóis e retratou centenas de escritores de todas as línguas e todos os países, desde o famoso Jorge Luis Borges, presente no cartaz da exposição, a escritores novinhos em folha, como a Marina Perezagua de que aqui vos falei ainda ontem e que ele quis fotografar dentro de água por ser uma nadadora. A exposição chama-se Objectivo Mordzinsky – Uma Viagem ao Coração da Literatura Ibero-Americana e por isso podemos encontrar por lá poetas, romancistas e ensaístas portugueses, africanos, espanhóis e latino-americanos (incluindo brasileiros) de hoje até dia 29 de Dezembro. Deixo-vos abaixo uma divertida fotografia que encontrei na Internet, de Daniel Mordzinsky com Vargas Llosa. Mas as fotografias de Daniel são, obviamente, outra coisa.


 


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Dedicar

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Quando trabalhamos com autores nacionais, na altura em que a obra vai para paginar, nunca nos esquecemos de perguntar se devemos guardar alguma página para a dedicatória. Nem sempre é precisa, mas muitas vezes é. E foi justamente um dos autores que publico, o Paulo Moreiras, quem me mandou um interessante link sobre dedicatórias que contrariam a monotonia habitual. A primeira é de um manual de Álgebra cujo autor escreve « […] aos meus filhos Ella Rose e Daniel Adam, sem os quais este livro teria ficado pronto dois anos mais cedo.» Ironias à parte, alguém dedica um outro livro a todos aqueles cujos nomes aparecem sublinhados a vermelho no Microsoft Word (imagino que o seu nome seja bastante estranho)… Um outro autor escreve esta dedicatória belíssima: «Para Carley, que era melhor pessoa do que eu, embora fosse um cão.» Joan Rivers dedica o seu Diary of a Mad Diva a Kaney West, pela simples razão de que ele nunca o lerá, enquanto Matthew Kline dedica No Way Back à sua mãe, pedindo-lhe que… salte as cenas de sexo. Há um escritor que dedica o livro ao seu editor, dizendo que foi  forçado a isso (ver imagem abaixo) e outro que, na página da dedicatória, agradece à mulher tê-lo apoiado tanto na escrita de um livro que, afinal, é sobre todas as mulheres com quem dormiu antes dela. Enfim, tudo isto prova que se pode chamar a atenção para um livro logo às primeiras páginas…


 


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O que ando a ler

Já tinha este livro perto de mim há muito tempo, como que reservado, mas só agora consegui efectivamente começar a lê-lo. Trata-se de Yoro, um romance de Marina Perezagua (que esteve presente na última edição das Correntes d’Escritas), uma escritora sevilhana que ensina espanhol numa universidade americana e nada quatro horas seguidas (uf!). É, sem dúvida, uma obra original e, depois de me ter encontrado com a hermafrodita de Arundhati Roy, não fazia ideia de que descobriria outra tão cedo. A deste livro está  a redigir um longo testemunho e assina simplesmente «H» (como a bomba). Sabemos que cometeu um crime (mas não qual) e que é uma sobrevivente de Hiroxima (tinha treze anos na altura da tragédia que ironicamente lhe permitiu, por danos profundos no seu corpo, escolher um sexo que não era o que os pais lhe haviam destinado). Ironicamente também, apaixona-se por Jim, um soldado norte-americano que foi feito prisioneiro (e sujeito a torturas terríveis) pelos Japoneses, a quem é entregue, no fim da guerra, uma órfã japonesa para criar nos primeiros cinco anos de vida – Yoro, a que dá nome ao romance.  É esta  criança que H e Jim procurarão juntos ao longo de anos pelas mais diversas geografias: um culpado de a ter deixado ir, a outra ansiando a filha que não podia ter tido. E, pelo caminho, muito se vai passando, e eu, já não muito longe do fim, percebi finalmente o que está H a fazer no Congo, donde escreve o seu testemunho, mas ainda não o crime que cometeu. Elogiado por Salman Rushdie, Yoro é uma leitura que vale a pena.

As sequelas

No meu tempo, «sequelas» eram efeitos ou consequências (marcas de uma doença, por exemplo), mas hoje o termo é usado a torto e a direito para designar a continuação (o seguimento, a sequência) de uma obra literária ou cinematográfica; e, a reboque, até se inventou o termo «prequela» quando o livro ou filme é sobre um período anterior ao tratado na obra original. Enfim, parece que as prequelas e sequelas estão na moda – e o mais estranho é que, no caso das escritas, até podem ser narradas e compostas por outros autores que não os legítimos, ou seja, os que criaram o enredo principal e as personagens. No entanto, que peso terá a questão do estilo contra o perigo de se interromper a saída e venda de um bom produto?… Veja-se, por exemplo, a série sueca Millenium, que não deixou de ser publicada depois de o autor ter morrido e vai certamente continuar a alimentar filmes suecos e americanos. Veja-se também a ideia de recriar Orgulho e Preconceito com zombies (sim, não estou a brincar) ou contratar um novo escritor para seguir com as aventuras de… Bond, James Bond. Os casos não param: desde Os Crimes do Monograma de Agatha Christie (mas escritos por Sophie Hannah) até ao Peter Pan e ao Drácula de Bram Stoker, passando pela sequência de E Tudo o Vento Levou e as aventuras de Winnie de Pooh, há de tudo, e os herdeiros dos criadores, pelos vistos, nem se importam muito.

De volta

Agora, que o Outono já se instalou, regressam as sessões Ler no Chiado organizadas e conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro na Livraria Bertrand (do Chiado, claro), a mais antiga livraria portuguesa e uma das mais antigas do mundo ainda com actividade. Desta feita, o tema da conversa é pessoa e autor (não escrevi «escritor» porque é muito mais do que isso, e «autor» engloba também a sua actividade nas artes plásticas); mais concretamente, o senhor Almada Negreiros, que ainda recentemente foi objecto de uma exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, cuja curadora, Mariana Pinto dos Santos, será, de resto, uma das intervenientes na sessão de hoje (às 18h30, faltou dizer). Além dela, poder-se-á ouvir o especialista em modernismo português Fernando Cabral Martins, professor da Universidade Nova de Lisboa, e ainda a grande actriz Maria do Céu Guerra, que, segundo leio na informação da iniciativa, se estreou justamente com um texto de Almada. Tudo boas razões para chegar mais tarde a casa.

Cemitérios

Na passagem da lista maior para a lista mais pequena (a dos seis finalistas) do Man Booker Prize, caiu curiosamente o livro de Arundhati Roy, O Ministério da Felicidade Suprema (ASA), candidato vinte anos depois de o seu antecessor, o romance-maravilha O Deus das Pequenas Coisas, ter ganho o galardão. O segundo romance da escritora indiana (pelo meio, ela escreveu muitos artigos e ensaios, mas não ficção) é um livro menos susceptível de reunir o consenso dos leitores, embora nele se mantenha esse estilo único da senhora Roy e o desenho de algumas personagens que dificilmente esqueceremos, como a hermafrodita Anjum ou a bela Tilo (que li algures ser uma espécie de alter ego da autora). Existindo muitas mais personagens neste livro do que no anterior, a verdade é que a profusão de nomes indianos (que não descortinamos imediatamente pertencerem a homens ou mulheres) emperra um pouco a leitura; e, se por um lado parece necessário ter já algumas noções sobre a questão de Caxemira para compreender o verdadeiro alcance desta história, por outro lado, aqui e ali também sentimos que existe uma certa pedagogia que torna o enredo um pouco menos fluido. Mesmo assim, ele deve ser lido, até porque tem algumas ideias belíssimas, como a da Casa de Hóspedes construída à roda das lápides de um cemitério num país onde, por acaso, os hindus não enterram os mortos. Também é num cemitério que decorre o polifónico romance de George Saunders, Lincoln no Bardo (Relógio d’Água), onde Abraham Lincoln passa uma noite junto ao túmulo do filho, morto uns dias antes. O autor – até aqui só de contos – foi sobejamente elogiado por esta obra, entre outros, por Zadie Smith, Jonathan Franzen e Thomas Pynchon. E o livro – esse – continua na short list do Man Booker. Os cemitérios estão na moda em literatura.

Releituras

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

Escritor-Editor

Quando me pedem um depoimento sobre qualquer coisa, não é raro que debaixo do meu nome apareça escrito: Editora e escritora (ou vice versa). Não sou caso único em Portugal (lembro-me, por exemplo, de Francisco José Viegas, mas há outros exemplos); a mesma pessoa escrever e editar livros é, de resto, uma circunstância bastante comum no universo de língua inglesa. A grande escritora Toni Morrison (que ganhou o Nobel da Literatura) trabalhou muitos anos na Random House como editora, primeiro na área escolar e, depois de publicar o seu primeiro romance, no departamento de ficção. A canadiana Margaret Atwood teve a mesma função numa editora do seu país, tendo inclusivamente editado livros de Michael Ondaatje, o autor do famoso O Paciente Inglês. Também David Ebershoff, autor de livros como A Rapariga Dinamarquesa, foi até há bem pouco tempo editor e, ao que dizem, de muitos autores premiados, entre os quais Teju Cole, Joyce Carol Oates e David Mitchell. O mesmo acontece com o romancista Max Porter (não li ainda nada dele) que é, na Granta, o editor de autores como Rebecca Solnit e Han Kang e que diz que «o editor tem de ser parte revisor de provas, parte terapeuta». A lista inclui outros escritores, embora não muito conhecidos entre nós, dos quais destaco Gordon Lish, editor do celebérrimo Raymond Carver, que, segundo leio, tem peças de teatro que seriam uma boa réplica americana a Samuel Beckett e Thomas Bernhard, mas que é mais conhecido pelo seu trabalho na edição. Neste post, «editor» deve ser lido como pronúncia inglesa, pois não corresponde ao que publica, mas ao que lê e corrige o texto e organiza edições.

Oceanos

Com a venda da Portugal Telecom, o conhecido prémio literário PT, para obras em língua portuguesa publicadas no Brasil, esteve em risco de acabar, e valeu aos organizadores o Banco Itaú, que se tornou seu patrocinador, renomeando-o como Prémio Oceanos; com a mudança, o galardão deixou também de contemplar apenas livros publicados no Brasil, passando, a partir deste ano, a incluir títulos  publicados em Portugal nas categorias de poesia, romance e conto, tendo, de resto, uma curadora portuguesa (a jornalista Ana Sousa Dias). A primeira selecção está feita e há 51 livros na semifinal. Destes, 19 são de autores portugueses, desde logo os veteranos Lídia Jorge e Mário de Carvalho na categoria de conto. Na poesia, temos nada mais nada menos do que uma dezena de concorrentes de idades muito diferentes, de António Osório a Rui Lage ou Filipa Leal, a mostrar que os nossos poetas de todas as gerações se recomendam. Por fim, são sete os romances seleccionados – e fico muito contente porque publiquei três deles: Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, e Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo. Vão ombrear com livros de Ana Teresa Pereira, Jaime Rocha ou Afonso Cruz e, claro, com muitíssimos romances de escritores brasileiros. Agora, há que esperar e ter esperança.

Censura russa

Dois dias depois de ter visto um interessante documentário sobre as Pussy Riot (não sei se se lembram delas), leio no The Guardian uma história tremenda que mostra bem o estado a que chegou o preconceito e o autoritarismo na Rússia, cem anos passados sobre a Revolução. A inglesa V. E. Schwab é autora de uma trilogia de livros fantásticos, Shades of Magic, com a qual obteve um enorme sucesso no Reino Unido, tendo mais de 50 000 seguidores só no Twitter. Os livros, que contam as aventuras de Kell, um mago que viaja através de quatro versões paralelas da cidade de Londres, são pouco convencionais no seu género, uma vez que incluem, entre outras personagens, um príncipe bissexual e uma carteirista de sexo indefinido (penso que ela se terá inspirado nas 50 Shades (Sombras) of Grey...). Como em muitos outros países, a trilogia foi vendida na Rússia e lá publicada – e a sua autora ficou obviamente contente por a ver traduzida. Porém, depois de os livros terem saído por lá, e através de um leitor russo que conhecia ambas as versões, descobriu que lhe cortaram todas as cenas gay e reescreveram uma boa parte do enredo sem lhe pedirem sequer permissão… Uma lei assinada pelo senhor Putin bane todas as referências a relacionamentos sexuais “não tradicionais” e, como tal, a obra foi censurada… Será que também modificaram Reviver o Passado em Brideshead e outros clássicos? Não me admirava nada...