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A mostrar mensagens de março, 2011

Estado crítico

Desde que estou na edição – e, como sabem, já lá vão mais de vinte anos – que ouço falar em crise. Ouvi-o quando os leitores eram poucos, quando as livrarias começaram a fechar, quando a Internet apareceu e se previu que tiraria muita gente à leitura e, mais recentemente, quando rebentou a... crise, a verdadeira. E fico preocupada com o futuro de muita gente que perdeu ou perderá o emprego, com a segurança das famílias, com os mais jovens que não encontram ocupação digna (um dos meus sobrinhos mais velhos acaba de emigrar para o Brasil), mas também com os autores que publico este ano. Alguns são, realmente, muito bons (como a Aida Gomes da Silva e o David Machado, cujos livros saíram recentemente, ou outros que lançarei mais para diante, como o Pedro Guilherme-Moreira ou o Nuno Camarneiro) e sinto que o seu reconhecimento mais do que merecido está ameaçado pela desgraça que ainda nos espera. Peço, por isso, a quem goste verdadeiramente de ler que lhes dê atenção e, se apreciar a leitura, passe a palavra. Começar num ano excepcionalmente difícil como este pode custar-lhes o sonho de continuar a escrever, e isso seria terrivelmente injusto.

Vai um fadinho?

Os leitores da minha poesia já repararam (e dizem-mo sinceramente) que ando preguiçosa para os versos. Não é só preguiça. Na verdade, sempre escrevi mais e melhor quando precisava de pôr cá fora coisas que me doíam – e, de há uns anos para cá, o Manel varreu-me a escuridão e deixou-me de céu limpo e azul. De vez em quando,  ainda aparece um verso sei lá de onde que me pede que o escreva; e das duas uma: ou sai um poema, ou – confesso – fico a mastigá-lo num sofá e acabo por esquecê-lo no dia seguinte (isso, sim, já é preguiça). Porém, se me pedem que escreva a letra de um fado, não resisto. Já o fiz para a Aldina Duarte, o Carlos do Carmo, o António Zambujo, a Mísia – e é uma delícia ver as palavras fundirem-se nos sons das guitarras e das suas vozes. Há dias, pude ouvir o master do próximo CD da Aldina, para quem fiz três letras, e fiquei maravilhada com a forma límpida como ela os canta. Até pareciam poemas...

Sem cerimónia

Aqui no país vizinho, há já várias décadas que toda a gente se trata por tu, sobretudo nos centros urbanos. Os falantes de língua inglesa têm também o problema resolvido, porque não encontram forma de escapar ao «you» – e, se viverem nos Estados Unidos, tornam-se ainda mais informais, abolindo os Mr. e Mrs. e tratando-se invariavelmente pelo nome próprio que, em reuniões ou convenções profissionais, exibem em crachás presos nos casacos ou pendurados em fitas ao pescoço. Noutros países, o tratamento é mais cerimonioso (e até pretensioso, como na Alemanha ou na Bélgica, em que os cartões de visita revelam o grau académico antes do nome). Em todo o caso, venha donde vier, um ministro trata-se habitualmente com respeitinho – e falo disto porque Mário Lúcio Sousa, de quem publiquei recentemente o romance O Novíssimo Testamento, acaba de ser nomeado Ministro da Cultura de Cabo Verde. Tratamo-nos por tu desde que nos conhecemos e continuaremos a fazê-lo, mas lá que vai parecer estranho a algumas pessoas, isso vai. Espero que esta nova função não lhe retire o tempo e o prazer da escrita.

Antídoto

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O País anda tristemente triste e não parece haver remédio que o cure da sua doença. O futuro não brilha aos olhos de ninguém e a Alemanha há-de cansar-se de ajudar os amigos, até porque essa generosidade fará, muito provavelmente, com que a senhora Merkel perca as próximas eleições. A muitos não apetece, por todas as razões e mais alguma, ler coisas demasiado sérias e pesadas – mesmo que essas, por comparação, possam constituir um alívio momentâneo. Fico, assim, contente por ter na manga para Abril um romance que pode abrir muitos sorrisos e fará decerto soltar gargalhadas. Trata-se de O Amor É Um Lugar Comum, de Paulo Nogueira, e é uma espécie de Quatro Casamentos e Um Funeral dos nossos dias transposto para o papel. As personagens são obviamente outras, mas pelo protagonista Bernardo perpassa uma certa reminiscência do desastrado Hugh Grant, e não faltam momentos de humor que, não fosse a história passada com portugueses, até podia ser britânico. Um escritor frustrado apaixonado por quem não deve, uma neo-hippy bem-intencionada, um médico sem fronteiras católico (e com tendência para os copos) e um arquitecto engatatão que não consegue sequer um amor e uma cabana compõem um ramalhete que é seguramente um bom antídoto para a crise. Se quer ficar bem-disposto, uma excelente opção.



 

Companheira de luxo

Um dos segredos do sucesso das já famosas Correntes d’Escritas é a mescla de africanos, europeus e latino-americanos: os europeus – mais frios e contidos – dissolvem-se na quentura dos outros e, facilmente, perdem as peneiras  e a sobranceria de pertencerem ao Velho Continente. Quem lá vai, pois claro, diverte-se bastante e não raro ouve coisas imensamente divertidas como aquela história da tabuleta num prédio de Luanda que um dia Ondjaki contou que dizia: “Morais & Herdeiros (excepto o Rui).” Coitado do Rui, que devia ter sido deserdado... Este ano, foi a vez de o angolano Manuel Rui nos ter feito rir com uma das suas. Para quem não sabe, o transporte entre o hotel e o local onde se realizam as mesas-redondas faz-se de autocarro, e toda a gente se senta no primeiro banco que encontra livre, porque, como muita gente acaba por se juntar à trupe de escritores, os assentos por vezes não chegam para os convidados. No fim de uma dessas viagens, Manuel Rui virou-se para o editor Carlos da Veiga Ferreira e disse-lhe com ar sério: “Passa para cá cem dólares. Vieste a falar com a minha mulher.”

Catequizar

O Centro Nacional de Cultura tem um interessante programa, no qual leva consigo numa viagem anual de longa duração um escritor e um artista plástico que, mais tarde, produzem um livro em conjunto sobre a sua experiência. No ano em que Miguel Real foi o escritor convidado (a pintora foi Graça Morais), publiquei esse álbum belíssimo (As Missões) que tratava das missões católicas na América do Sul (e que o filme A Missão resume bem). A propósito de evangelização, contaram-me recentemente uma história extraordinária. Séculos depois destas missões dos jesuítas na Argentina, descobriu-se uma tribo no Norte do país que nunca tinha sido catequizada. Então, uma igreja protestante resolveu tentar a sua sorte e partiu para o local acompanhada de um tradutor. A população era pacífica e, após ter sido informada do objectivo do pastor, ouviu demoradamente a respectiva pregação. Terminada esta, o membro da Igreja pediu ao tradutor que indagasse os efeitos da prédica entre os nativos, e este afadigou-se a interrogar o chefe da tribo. Mas a resposta foi bastante inesperada: “Ele coça realmente bem, mas, infelizmente, não é no sítio onde temos comichão.”

Equivalências

Fui convidada para proferir uma das cem lições nas comemorações do Centenário da Universidade de Lisboa. Disse que sim, mas estou obviamente aterrada. Quem me conhece sabe que não gosto de falar em público e, desta feita, a responsabilidade é muito grande. Na carta-convite, propunham-me (sem me forçarem, bem entendido) que reflectisse sobre a relação que existe entre o que aprendi nos meus tempos na Faculdade de Letras e as funções que agora desempenho; a sugestão fez-me pensar na quantidade de coisas que li durante o curso e no que hoje se lerá. Um professor contou-me uma história a este respeito que achei hilariante. As frequências aproximavam-se e deu-se conta de que um dos seus alunos não sabia patavina; decidiu ir falar com ele e insistiu em que estudasse, mas passaram duas semanas e o rapaz continuava em branco. Voltou a aconselhá-lo, mas bastou meia dúzia de perguntas uma semana mais tarde para chegar à conclusão de que ele não lhe dera ouvidos. Interpelou-o, pois, pela terceira vez – e foi então que o aluno explicou que aquele curso não lhe dizia nada, que até já tinha tomado a decisão de mudar de faculdade, e que só pretendia ir aos exames para conseguir equivalências nesse novo curso. Pediu, como quem não quer a coisa, ao professor que o passasse... Este, porém, não se deixou abater e retorquiu apenas: “Equivalências?! Que equivalências?! Pois se o que tu sabes não equivale a nada!”

As maravilhas do subúrbio

Conheço Pedro Vieira como bloguista, sobretudo no Irmão Lúcia, onde nos delicia com um humor que faz inveja a qualquer um – e agora também como apresentador de um programa sobre livros no Canal Q, que dá pelo nome Ah, a Literatura! Mas ele é também escritor e acaba de publicar o seu primeiro romance, curiosamente intitulado Última Paragem: Massamá. Dele, disse Pedro Mexia numa crítica recentemente publicada que era um bom livro, mas um mau romance. Não iria tão longe, embora perceba perfeitamente o que está por detrás dessa afirmação. Pedro Vieira talvez tenha desperdiçado as suas muitas qualidades numa história que me pareceu ligeiramente ultrapassada e faria mais sentido há dez ou quinze anos; porque ele é francamente inteligente (não teria o humor que tem se o não fosse), de uma perspicácia invulgar (e o subúrbio é, para alguém assim, uma vítima perfeita), corrosivo quanto baste e, além disso, evidentemente culto. E, mais ainda, percebe-se que sabe muito bem o que é escrever um livro, sem soluços, sem palha e com grande domínio da estrutura. Eu gostei deste, mesmo assim, mas agora fico à espera do seguinte, que vai ser – tenho a certeza – ainda melhor.

Bons ventos do País Basco

Nesta última edição do festival Correntes d’Escritas, apresentou-se pela primeira vez um escritor basco, autor de um romance que acaba de ser editado em português pela Planeta e venceu o Prémio Nacional de Narrativa no país vizinho. Chama-se Kirmen Uribe (confesso que, quando li o seu nome na lista de escritores convidados, pensei tratar-se de uma mulhar) e gostei imenso de o ouvir a propósito do seu O Dois Amigos (o título original – Bilbao-Nova Iorque-Bilbao – pareceu-me bastante melhor do que esta opção), ficando a saber que é também poeta, não só pelas biografias que circulavam no encontro, mas pela sua maneira tão doce e especial de dizer as coisas. O Manel, igualmente entusiasmado com o que escutara, comprou o livro que, nestes dias, me fez passar umas horas realmente extraordinárias. É um texto lindíssimo, cheio de sentimento, de memória, de poesia, de ligação ao mar e às raízes; e, ao mesmo tempo, uma obra profundamente moderna, cujo «conteúdo» se articula numa estrutura completamente original, mas sem nada de forçado ou meramente experimental. Por favor, não percam este livro que mostra que a literatura está viva e de boa saúde e que os jovens autores são capazes de grandes maravilhas com que os cépticos já não contavam. Uma pérola.

Bonecas russas

No Mindelo, aonde fui há dias para o lançamento do romance O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa (na capital tivemos o Primeiro-Ministro e tudo!), apareceu no hotel para ver o escritor uma rapariga muito simpática com uma menina ensonada pela mão. Tratava-se de uma jovem actriz que tinha entrado dois anos antes numa peça da autoria do romancista, intitulada Sozinha no Palco. Quando quisemos saber sobre o que versava esse texto, Mário Lúcio contou-nos que era a história de uma empregada doméstica; e explicou a seguir que, em Cabo Verde, absolutamente toda a gente tem empregada doméstica, mesmo... pois, as empregadas domésticas! A que trabalha, por exemplo, na Embaixada de Portugal na Cidade da Praia tem de ter alguém que lhe limpe a casa enquanto está fora de casa, certo? Enfim... um esquema que me fez pensar em bonecas russas. Bem, mas o que importa agora referir é que, na dita peça, a protagonista é uma empregada doméstica analfabeta que tem um patrão duro e agressivo. Um dia, quando a deixam finalmente entrar na sala principal da casa para limpar as grandes estantes cheias de livros, tira logo a seguinte conclusão: «Poxa, por isso é que eu nunca aprendi a ler, patrão é tão bruto!»

Em boa companhia

Cá estou de volta – e só não digo que venho de barriguinha cheia porque não sou um grande garfo; venho, de qualquer modo, com a feliz experiência do sol, sem a febre do stress e cheia de boa companhia, sobretudo a de Frei Bento Domingues, que é alguém que se alegra muito com as coisas e acaba por contagiar quem o tem perto. Para ele, Deus pôs-nos cá, sem dúvida, para sermos felizes – e há que aproveitar, comendo, bebendo, escutando, olhando à volta com maravilha. Entre as muitas histórias que nos contou em Cabo Verde (é um homem que viveu em dezenas de lugares e conheceu muita gente, tendo apoiado os presos políticos no tempo da ditadura), uma ficou-me para sempre. Pouco depois do 25 de Abril, com o furor marxista a declarar que a religião era o ópio do povo, já se vê que a relação dos políticos com a Igreja não era fácil. Seguramente em virtude das suas capacidades de contemporização, Frei Bento foi escolhido para acalmar os ânimos de um grupo de homens zangados com os padres que, assim que o viu chegar, se apressou a dizer-lhe para o neutralizar: «Ó meu amigo, isto só se resolve pendurando os bispos todos nos candeeiros!» E o nosso homem, que é a todos os títulos notável, replicou: «Ora essa, mais respeitinho pelos candeeiros!» Com uma tirada assim, acabou certamente por levar a água ao moinho.

Intervalo

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Peço desculpa pela interrupção, mas estou em Cabo Verde com Frei Bento Domingues a fazer o lançamento de O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa. Com duas sessões (uma na Praia e outra no Mindelo) e quatro voos em três dias, não consigo mesmo pôr o blogue em dia. Entretanto, se ainda não leu o livro, aproveito para lembrar que é uma excelente leitura – e que a obra recebeu o Prémio Literário Carlos de Oliveira. Até breve.


Um novelo no coração

Sou às vezes demasiado emotiva em relação aos autores que publico – particularmente àqueles de quem me torno amiga e cúmplice ao longo do tempo. Com o valter hugo mãe, sinto, por exemplo, uma espécie de parentesco, como se ele fosse um irmão mais novo que me orgulhava de levar às festas porque fazia sempre brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza. Alguns saberão que o valter me fez uma declaração de amor (enfim, à minha poesia) num 14 de Fevereiro de há três anos, que publicou depois, creio eu, no Pnet Literatura; mas o que nos une é mais antigo do que esse texto. No dia em que ele me disse que tinha de deixar a editora em que eu estava – por razões de que não é bonito fazer alarde na blogosfera –, percebi-o e disse-lho, mas chorei uma noite inteira com as saudades que ia ter dos seus manuscritos numa viagem de comboio Madrid-Lisboa (se tivesse conseguido dormir naquelas camas estreitas, teria sido menos doloroso). E hoje, sempre que leio ou o ouço ler um dos seus textos, a verdade é que sinto um novelo no coração, como se me tivessem arrancado um bocadinho da minha família. Foi assim nas Correntes d’Escritas deste ano, quando ele nos brindou com uma hilariante descrição das confusões que se têm gerado à volta do seu nome (uma delas envolvia duas cadeiras num palco, uma para o valter hugo e outra para a mãe); e foi-o também no lançamento do livro do Eduardo Pitta, há alguns dias, no qual ele leu um texto tão bonito que me vieram as lágrimas aos olhos. Porém, longe ou perto de mim, desejo acima de tudo que continue a escrever.

Pagar bilhete

Há encontros de escritores que são feiras de vaidades, onde falsos génios deambulam de nariz arrebitado e não existem conversas que não sejam maledicentes. Há outros, demasiado profissionais, nos quais impera o academismo em excesso – e daí ao bocejo é um instantinho. Há ainda aqueles em que nos divertimos muito e ouvimos histórias que nos transformam. Mas, em qualquer encontro de escritores, há pessoas que valem a pena e nos fariam pagar bilhete só para privar com elas alguns minutos e as ouvir falar das coisas mais comezinhas. Não há muito tive um desses momentos de prazer com aquele que julgo o maior nome da cultura portuguesa – esse mesmo em que estão a pensar. Acordáramos ambos preocupados com o que se estava a passar na Líbia e, juntos, corremos à papelaria em busca de um jornal. Como já não havia aquele que compraríamos num dia normal, eu acabei por desistir (pensando que, mais tarde, recorreria à Internet para me pôr em dia), mas ele aceitou levar um outro, de que a papelaria ainda dispunha. Sentámo-nos depois num sofá lado a lado – e ele foi folheando com calma e comentando as notícias até chegar àquelas páginas de anúncios muito sugestivos, que não só oferecem serviços óbvios, como ainda os ilustram com ligas, nádegas, seios e outra iconografia do tipo. Olhou para mim e disse-me: “Já viu? Este é o maior bordel portátil da Europa!” Genial, como sempre.

Humor malandro

Mário Zambujal, o autor desse livro maravilhoso intitulado Crónica dos Bons Malandros – um verdadeiro best-seller quando foi lançado –, esteve este ano nas Correntes d’Escritas, julgo que pela segunda vez, como escritor convidado. Numa dessas noites na Póvoa de Varzim, calhámos ficar na mesma mesa à hora do jantar e, durante a refeição, vieram três senhoras – à vez, bem entendido – pedir-lhe que posasse junto delas para uma fotografia. À terceira, já um pouco cansado da situação, o jornalista e escritor suspirou e confidenciou-nos num tom meio sussurrado: «Agora, que já estou com esta idade, toda a gente quer tirar fotografias comigo…»

Efeméride

Foi há cinquenta anos que começou a guerra colonial e foram precisos muitos anos depois do seu fim para que se começasse a escrever e publicar ensaio e literatura sobre o tema. Um dia destes estava a ler o segundo romance de Paulo Bandeira Faria ainda em fase de rascunho e lembrei-me de que o seu livro anterior, que publiquei há uns quatro anos, foi um dos primeiros que abordavam a temática da guerra colonial sem complexos de culpa e de forma descomprometida. Intitula-se As Sete Estradinhas de Catete e conta a história de Guilherme, filho de um oficial da Força Aérea, que cresce em Angola e assiste não só ao desmoronar da sua família como ao desmoronar do império e ao princípio da guerra civil, com uma mudança de comportamento gritante entre velhos «amigos» brancos e negros. Aproveitando a personagem da criança para narrar através de um olhar descomplexado as agruras do antes e do depois, este é um romance que combina uma certa candura com a violência mais inesperada. A ler, absolutamente, cinquenta anos depois dos primeiros acontecimentos que geraram uma guerra que durou anos demais.

Benfica-Sporting

O poeta Fernando Pinto do Amaral usou uma vez uma expressão que me pareceu muito feliz, referindo-se a poetas que achava obviamente maiores mas não faziam parte das suas leituras mais queridas. Disse, simplesmente, que não os considerava da sua família. Percebi perfeitamente o que queria dizer com essa história do parentesco, porque também eu não posso deixar de concluir que tudo aquilo que até hoje escrevi em matéria de poesia descende mais de Eugénio de Andrade do que de Herberto Hélder e que, por muito que ache este último um poeta genial, o meu coração chocalha muito mais facilmente quando leio os poemas do primeiro. E, contudo, as pessoas vêem isto um pouco como um Benfica-Sporting, no qual evidentemente não se pode acarinhar ambas as equipas ao mesmo tempo: de um lado Andrade, do outro Hélder. No Brasil, também reparei que os «parentes» de Manoel Bandeira são distintos dos de Drummond de Andrade, como se não fosse possível gostar de ambos com o mesmo tipo de sentimento; e, num encontro em Espanha, descobri entre um grupo de pessoas adeptos de Lorca que não eram, claramente, da equipa de Machado. Quando era estudante, também me perguntavam frequentemente se preferia Eliot a Pound (ou vice versa). Será assim em todos os países?

Do pequeno para o grande

O mundo rege-se por modas – e os livros não fogem a elas. Durante os primeiros anos de vida editorial, lembro-me de que era muito difícil vender calhamaços em Portugal – se não se tratasse, evidentemente, de histórias ou ensaios exaustivos sobre determinado assunto, que tinham de ser grandes para serem credíveis. Mas a literatura queria-se sucinta e, sempre que se publicava um romance de 500 páginas ou mais, sabia-se de antemão que se estava a correr um risco e só se apostava quando se cria que a coisa era mesmo genial. Às vezes, paginavam-se estes livros maiores com letra pequena e parco entrelinhamento, para que o leitor não se assustasse com a grossa lombada na hora de escolher. Porém, a partir do momento em que os meninos todos do mundo se puseram a ler livros de 700 páginas (como os da saga Harry Potter) e Dan Brown produziu o bestseller internacional O Código Da Vinci, parece que os leitores se habituaram aos «tijolos» e já não querem outra coisa. Quando pagam, fazem questão de levar para casa material de leitura suficiente para muitos dias e, nas livrarias, desviam-se dos livros pequenos que não lhes oferecem senão algumas horas de prazer. Bem sei que, se calhar, o tamanho levará certas pessoas a não temerem agora a leitura de obras como Guerra e Paz, de Tolstoi, mas serão ignorados por causa disso livrinhos breves mas suculentos como O Amor Louco, de André Breton?

O Grande Gatsby

Este ano entrou no domínio público a obra do norte-americano Scott Fitzgerald e alguns editores afadigaram-se a publicá-la ou republicá-la em Portugal. Salvo erro, já vi duas novas edições de O Grande Gatsby por aí e espero que haja leitores para elas, pois já quase passaram 90 anos sobre a sua publicação original e no mundo em que vivemos é muito difícil consumirmos as novidades, quanto mais os clássicos. Tenho um amigo arquitecto que é um fã incondicional do livro e do filme – um filme de Coppola com Robert Redford e Mia Farrow, entre outros –, que cita passagens de cor e me convenceu a ler este romance quando éramos pouco mais do que adolescentes. Li-o numa tradução portuguesa que havia em minha casa (nem me recordo se boa se má) mas possuo uma edição muito bonita do livro em inglês (e também de Terna É a Noite e Este Lado do Paraíso), que me foi oferecida nos anos 80 por uma senhora que trabalhava na Embaixada dos EUA e era uma grande impulsionadora da literatura norte-americana em Portugal, chamada Ivone Cunha. Espero que, com a reedição da obra, quem nunca teve contacto com este autor possa nem que seja dar um cheirinho no Gatsby.