Distribuir jogo
Falaram-me há uns dias de um estudo que prova que a maioria das pessoas que compram e lêem livros não tem a mais pálida ideia da editora que os deu à estampa. Imagino que os leitores deste blogue sejam excepção, mas é bem possível que muitos dos meus amigos leitores – de outras profissões e, portanto, alheios às lides editoriais – não saibam efectivamente quem publica os livros que andam a ler (mesmo quando sou eu a editora). Poder-se-ia, pois, pensar que a chancela é coisa secundária e que tanto faz que um romance seja publicado aqui ou acolá. Mas não é bem assim. Estou na LeYa, como sabem, para publicar novos autores portugueses e, como já me disseram, «distribuir jogo», consoante os originais sejam mais populares, comerciais ou literários. E estou a aprender que para os autores, em primeiro lugar, a chancela não é mesmo nada indiferente e marca, por assim dizer, a dose de literatura de cada livro – e, queiramos ou não, a sua qualidade. Mas também já percebi que a crítica dedica uma atenção completamente diferente a um livro que traga determinado selo editorial e quase o ignora se o selo é da editora x ou y, que associa imediatamente a livros de não intelectuais. Por outro lado, uma equipa comercial formada para vender autores literários não vende necessariamente bem um thriller ou um romance mais leve, até porque está habituada a trabalhar pontos de venda distintos daquela que comercializa livros do género com uma perna às costas. Distribuir jogo implica, assim, muita ponderação e ginástica em busca do casamento perfeito entre livro e chancela. Mesmo que depois, como disse, a maioria dos leitores não ligue nenhuma a isso.
Mas esse estudo existe mesmo e foi feito por cá?
ResponderEliminarPara quem trabalha na área editorial isso é algo tão óbvio, que acho estranho que a Maria do Rosário Pedreira tenha precisado de um estudo para o perceber...
ResponderEliminarA bem da verdade, salvo alguns casos especiais (Naxos, DG, EMI) também não faço a menor ideia de quem edita os discos que compro...
ResponderEliminarEm qualquer área da actividade empresarial, é fundamental que quem dirige a "produção" tenha um canal de comunicação priviligeado com quem dirige a área comercial/marketing. Só essa "porta aberta" entre ambos os lados, permite perceber a quem produz ,o que é que o mercado quer e como o quer, e por outro lado permite perceber a quem vende, as dificuldades que a produção têm para colocar os produtos de acordo com as necessidades do mercado.
ResponderEliminarAcredito que o seu "distribuir jogo", não seja fácil, pois mais do que satisfazer a vontade dos autores em publicarem na chancela X ou na Y, a MRP tem de ajudar os comerciais a obterem resultados para a empresa.
Boa-tarde. Por acaso sempre achei que a maioria das pessoas não ligava ou não queria saber da editora quando compra um livro. Temos tendência para "criar" o mundo em geral a partir do mundo que nos rodeia e por vezes somos surpreendidos com estes dados. Como a minha ligação ao mundo editorial ocorreu já tarde, houve um período da minha vida em que o nome das editoras nada me dizia. Sabia que a Europa-América editava ficção científica e pouco mais... :)
ResponderEliminarQuanto aos críticos terem preferência por determinados "selos"... também concordo. Por norma são avaliados livros que pouco dizem ao grande público, mas que muito dizem às pessoas do meio e, se calhar (é só uma suposição), aos outros críticos. O que pode ser estranho quando as críticas são publicadas em jornais de grande expansão, lidos pelo grande público. Nada contra essas críticas, mas devia haver mais das outras. Por exemplo, gosto muito de livros de espionagem e é raro ver algum crítico a dedicar-se à análise desse tipo de literatura.
Penso que parte do êxito de um blog que tenho sobre livros se deve ao facto de analisar (não lhe chamo crítica, descansem os puristas) livros mais "populares". Pelo menos é o que me vai transmitindo quem me lê.
Rui Azeredo
Eu costumo ter em conta a editora sobretudo por duas razões: pela confiança na tradução e pela apresentação dos livros.
ResponderEliminarA importância da Editora?
ResponderEliminarCreio que serei um caso típico... possuo cerca de 5 000 volumes, a maioria herança desde meu avô, mas tenho comprados umas centenas eu mesmo, no país e estrangeiro, até mando vir, sobre temas temas menos fáceis de se encontrar no nosso mercado nacional. E porque para livros em língua estrangeira, sai muito mais barato!
Na quase totalidade, ignoro quem são os editores! E confesso que isso pouco me diz... falo
para os livros que compro porque vejo nos escaparates e me despertam o interesse.
Na verdade não sou profissional e talvez seja essa a razão.
Mas, para livros de assuntos determinados e não
para os romances ou gerais, há de facto uma ou outra editora que procuro, como a Struik ou a Safari Press, a Crepin Leblond... etc.
Em Portugal... eventualmente a INAPA (ainda existe?) e uma ou outra que edita temas que me interessam... havia a Lello por exemplo de que me recordo agora, de ver em tanto livro antigo que aí tenho, sobre temas históricos e de ciências, ou a Verbo...
Cumprimentos
Sr. Rui Azeredo...
ResponderEliminarAcaba de tocar em algo para que não tinha despertado... por vezes até fico arrepiado com as asneiras que leio, e falo sobretudo de romances... que demonstram mais do que ignorância preguiça nas taduções, pois hoje em dia com o acesso à informação que existe, não
se compreendem certos disparates...
Há livros em que a frequência ou o chorrilho é tal que os assinalo a lápis e tomo notas na margem!
Os campeões até hoje:
1º Lugar - Morte Branca de Clive Cussler & Paul Kemprecos, editado pela Saída de Emergência.
Na primeira página anotei:
"É o livro mais mal traduzido e com mais disparates que eu já li!"
Recordo-me de um outro caso, "Verdade ao amanhecer" de Ernest Hemingway, editado pela D. Quixote.
Ora... a Saída de Emergência... está tudo dito, com um nome destes... já a D. Quixote é um caso diferente por ser uma editora de referência e este caso que aponto certamente que será isolado... creio que terá sido um acidente.
Mas creio que tem razão, sim...
Caro Sr. António Luiz Pacheco
EliminarPor acaso foi um livro de Clive Cussler & Paul Kemprecos (penso que o Mutação Polar/Desvio Polar ou até o por si citado Morte Branca) que fez com que nunca mais conseguisse ler um livro da Saída de Emergência. Por lá havia, por exemplo, aldeias indianas em pleno oeste americano, entre muitos outros (maus) exemplos. Como comprador de um livro foi a única vez que me dei ao trabalho de protestar com a editora e até me deram uma resposta satisfatória. Mas, na verdade, nunca mais consegui ler um livro deles.
Caros Senhores,
EliminarSim, na Saída de Emergência temos alguns livros com más traduções. E não nos orgulhamos deles. Mas também temos excelentes traduções e são estas que pautam a maioria das nossas edições.
Agora, nunca mais ler livros de uma editora porque tem algumas más traduções? Se assim for, não lerá mais livro nenhum de praticamente nenhuma editora em Portugal ou no mundo.
Cumprimentos e votos de boas leituras,
Luís CR (editor da Saída de Emergência)
Muito boa a D. Quixote. Com grandes autores como a Carolina Salgado. É o que se chama uma editora do caralho.
EliminarTem toda a razão. Em nenhuma página do livro da Carolina Salgado aparece "broxe" em vez de "broche". E "morcão" está sempre bem escrito. É a minha editora de eleição desde aí.
EliminarCaro Luís
EliminarNão conseguir ler um livro vosso não foi uma decisão que tomei. Pura e simplesmente acontece. Repare: nunca tinha lido um livro vosso, comprei dois do Clive Cussler (um investimento de cerca de 30 euros - o outro era o Cidade Perdida). Um, o já citado, como há-de concordar, tem uma tradução muito fraca e uma revisão igualmente fraca. O outro (Cidade Perdida) estava ligeiramente melhor, mas também tinha muitas deficiências. Senti-me ludibriado e não é o tipo de "defeito" que permita uma troca na livraria, tipo cadernos trocados. Assim, há-de compreender a minha renitência em voltar a investir nos vossos livros - 30 euros é dinheiro, e no caso foi mal gasto. Não digo que não tenha razao ao afirmar que também há traduções/revisões más nas outras editoras, mas a verdade é que nunca apanhei nada assim. Foi azar? Acredito que sim. Mas compreenda que me é difícil voltar a arriscar. Mas vou fazer um esforço :)
cumprimentos,
Rui Azeredo
Devia ter assinado Rui Azeredo e não Rui Azro, mas o meu teclado está com falhas.
EliminarNas décadas de 1920-30 Monteiro Lobato revolucionou a distribuição de livros no Brasil, através da venda dos livros em farmácias, armazens, correios,além das livrarias, através da Editora Nacional.
ResponderEliminarUm brilhante escritor, com seus personagens infantis inesquecíveis para nós brasileiros, um brilhante editor que colocou os livros que editava por todo o interior do Brasil na época.
Seria útil que os editores associassem chancelas/marcas/editoras/colecções/"linhas" a determinadas áreas temáticas. ´
ResponderEliminarNa falta de outro tipo de reconhecimento, as coisas agravam-se quando, sem qualquer tipo de distinção gráfica/de apresentação/promocional/de marketing, a editora A mistura um romance xaroposo, "de fazer chorar as pedras da calçada" com um thriller "hard".
Por que motivo é que o policial e a FC foram, a certa altura, associados à Livros do Brasil?... Porque havia duas marcas bem distintas e fortes e em que essa editora insistiu: a Vampiro (que até publicou terror, um H.P. Lovecraft) e a Argonauta.
Caro Corte Real:
ResponderEliminarA despeito da inacreditável tradução do livro que
referi, não disse que deixasse de comprar edições da vossa editora... e repito até que nunca
tinha pensado nisso, pois raramente olho à editora, salvo em livros de determinado carácter
científico ou técnico.
Mas seria útil, em particular para a editora em questão, que de facto olhasse para estes posts como forma de avaliar da vossa imagem e assim
a melhorar... e não como agressão gratuita.
Veja lá o que me impressionou o tal romance que referi... de mal! E repare que traduzir bem
é afinal o vosso trabalho, pelo que não me impressionam os que estejam bem traduzidos...
é simples!
Hmmm... Cheira a autor rejeitado...
EliminarOlá, como leitora durante muitos anos comprei livros sem olhar para a editora. E até há relativamente pouco tempo comecei a associar as editoras com aquilo que procuro ler. As razões são variadas, tanto quanto ao antes, como ao agora.
ResponderEliminarAntes comprava poucos livros e só considerava compra segura o livro que toda a gente andava a ler. Mesmo assim apanhei livros maus e aprendi que aquilo que toda a gente anda a ler não é garantia de boa qualidade, obviamente. E antes que todos os outros senhores comentadores me venham criticar, a minha intenção é apenas de mostrar como a maioria dos leitores em Portugal compram e pensam. Os livros são demasiado caros para gastarmos tempo e dinheiro com algo em que podemos não vir a gostar. E, confesso, a opinião dos críticos pouco ou nada pesa na minha decisão de compra de um livro.
Hoje leio mais do que há 5 anos atrás, mas estudo muito bem a minha compra antes de o fazer: as redes sociais como o twitter ou o goodreads , assim como os blogues criados por leitores, são bons locais para encontrar a opinião de outras pessoas como nós, que procuram o mesmo e que pensam de forma igual. Ainda faço más compras mas sinto-me muito menos frustrada do que antes.
Não estou a menosprezar a importância da crítica especializada, obviamente, e elas são necessárias, mas como leitora, se vou gastar entre 100 a 200 euros por ano em livros, vou primeiro investigar um pouco e, tal como a Maria do Rosário muito bem diz, muito raramente olho para a editora que a editou.
E se falarmos de editoras de "poesia" então vemos outros problemas, como o "saneamento" de autores que não sejam os da tertúlia do costume. Isto num país de poetas, como dizem, é muito estranho, porque os que são lidos, criticados e aparecem no Expresso, Jornal de Letras ou afins, são só meia-dúzia.
ResponderEliminarAs minhas memórias, todas elas, estão cheias de livros, de tal forma que poderia dizer que nasci numa prateleira duma estante. Ainda não sabia ler mas já admirava o meu pai que fazia livros e me mostrava como se faziam na sua maravilhosa (para mim, romântica) profissão de tipógrafo-linotipista (ou seria melhor dizer linotypista?). Uma vida crescida e vivida entre tipos, linhas de chumbo, provas, jornais e livros só poderia dar numa leitora compulsiva e chata. Chata comigo mesma que me desgosto dum livro com gralhas e com os editores quando não fazem o seu trabalho e que me fazem apetecer devolver os livros por terem defeito: más revisões ou traduções, isto para não falar do livro em si, papel, tipo de letra, enfim esqueleto onde encaixa a estrutura muscular que o autor debitou. Os dois últimos desgostos nesta matéria foram A Cura de Schopenhauer, da Saída de Emergência e O Guardião de Livros, da Livros d’Hoje.
ResponderEliminarNa página da internet da Saída de Emergência está escrito Arhtur Shcopenhauer o que para mim é indicativo da leveza, despreocupação, ligeireza e irresponsabilidade com que tratam a matéria-prima com que trabalham. Ora eu sou cliente e nessa perspectiva quero que me tratem como tal, nas palminhas, e ser tratada nas palminhas é não me darem a ler estes erros, que de gralha isto nada tem. Por outro lado penso que se tratam assim aquilo que querem vender, se mostram tal desprendimento e distância com o que lhes passa nas mãos, não se preocupando em depositar nas mãos dos clientes um produto de qualidade, que preocupação vão ter comigo? Garantidamente nenhuma. Os senhores das editoras têm que compreender que embora exista muita gente que não quer saber da editora, que não se importa com a parteira daquele livro, muitos outros há que querem saber tudo sobre ela! Mais, estes são os leitores que nunca deixarão de ser clientes das editoras, ao contrário dos outros que com mais facilidade hesitarão entre comprar um livro e uma peça de roupa. Alguém escreveu num comentário que gasta 100 ou 200 euros por ano em livros e eu não deixo de sentir uma certa inveja, talvez como a inveja que sente o fumador ao olhar para os não fumantes, por se saber viciado e não conseguir largar o vício. Algum dia conseguirei gastar só aquela quantia?
Mais ainda, este Natal, como todos, foi profícuo em compras de livros e a colecção Bis da LeYa foi uma tábua de salvação: grandes livros em formatos que permitem livros baratos. Já sei que com este preço, 5, 6 e 7 euros, não folhearei papel couché, mas a questão, e aqui reside o cerne da coisa, é que não se sente que a Editora nos engana, não se compra gato por lebre.
O que a mim me espanta, mais do que a grande maioria dos leitores não atentar em questões que considero importantes, é a passividade das editoras num mundo cheio de concorrência cruel, o desleixo – o exemplo da Saída de Emergência é desleixo – o deixa andar, a inconsciência, no fundo, a falta de respeito, pelos autores, pelos leitores, por elas próprias.
De facto quando faço uma review de um livro estou um bocado a marimbar a editora, especialmente os ingleses onde existem 1001 editoras e não estou para decorar os nomes (tirando a Peguin , Wordsworth e F&F que devem ser as mais famosas).
ResponderEliminarPenso que nos blogs de opiniões de livros existe muito essa preocupação de meter todas as informações (editora, colecção etc) e muitas vezes vejo-me à rasca para encontrar o livro original.
Às vezes até metem o género de livro (fantasia, romance, thriller etc). Apesar de estar atenta ao mercado português tenho tendência a comprar os mesmos livros em inglês (mais baratos) porque quando adquiro um em português as críticas vão quase sempre para as traduções - ora porquê dar 20€ por um livro com erros de tradução, se posso dar 8€ por um livro em inglês sem erros?