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A mostrar mensagens de outubro, 2021

Excerto da Quinzena

Três minutos mais tarde, os convidados agrupam-se no salão e na sala de estar e os doces são servidos. O pastor Pringsheim, do alto da sua golilha engomada, envergando uma sotaina comprida de onde espreitam as botas largas e engraxadas, está sentado entre os convivas, beberricando as natas frias que coroam o chocolate quente e conversando, com o rosto transfigurado, de uma maneira muito natural e espontânea, o que, ao contrário do seu discurso clerical, surte um efeito notável nos seus interlocutores. Cada um dos seus gestos parece querer dizer: Vejam, também eu posso esquecer o sacerdote que há em mim e ser um homem mundano, alegre e inofensivo!


 


Os Buddenbrook, de Thomas Mann, numa tradução de Gilda Lopes Encarnação

Fim de mês

Depois de tanto tempo sem eventos presenciais e desejosos de pôr o pé na rua, largar os ecrãs falantes dos computadores e ver a carinha das pessoas ao vivo, as actividades multiplicaram-se desde final de Agosto; e, digo-o por experiência própria, nem houve tempo para tanta coisa. Mas, mesmo com Outubro a fechar portas, eis que o jornalista João Morales anuncia Braço das Artes, na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, para acabar o mês em beleza. As actividades, entre dia 29 e dia 31, dividem-se entre a literatura e a música, mas, além da presença de escritores (Luísa Costa Gomes, que completa 40 anos de carreira literária, Paulo Moura, Ana Cássia Rebelo e muitos outros), haverá espaço para os livreiros falarem da sua rotina e também da sua vertente como editores (a Snob ou a Tigre de Papel, por exemplo) e para ouvirmos opiniões sobre o mundo dos livros pela voz de quem pensa essas e muitas outras coisas (Nuno Nabais, Luís Osório...). Os concertos vão trazer-nos artistas como Júlio Resende e Marco Oliveira e haverá ainda um recital de poesia. Vai ser bom poder dar o braço às artes neste fim-de-semana.

Viajar com os livros

Alguns visitantes e aficionados deste blogue lembram-se seguramente de eu aqui ter falado de um livro da jornalista Isabel Lucas intitulado Viagem ao Sonho Americano, que reunia as suas reportagens sobre literatura norte-americana depois de visitar a um enorme número de Estados de norte a sul e de leste a oeste. A sua leitura é uma forma excelente de conhecer a América pelos livros; e de tal modo agradou aos leitores que a jornalista recebeu um convite para repetir a experiência com a literatura brasileira. Temos aí, portanto, ao nosso dispor Viagem ao País do Futuro (este «país do futuro» foi o nome que Stefan Zweig deu ao Brasil, onde se exilou e, paradoxalmente, acabaria por se suicidar) para ler e chorar por mais. Mas este país do futuro é mesmo um país do futuro? Não será antes um país onde muitas regiões ainda têm imensa gente a viver no passado (remeto-vos, por exemplo, para Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, livro incluído nesta viagem de Isabel Lucas)? Diverso, desigual, cheio de uma beleza que não acaba mas também de tantas contradições, o Brasil mostra-se aqui em todo o seu esplendor literário; Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, o grande Machado de Assis, Mário de Andrade, Milton Hatoum, Raduan Nassar, são alguns dos autores que fazem o mosaico brasileiro que Isabel Lucas agora nos oferece. O lançamento é mais logo, com apresentação de Abel Barros Baptista na Livraria Palavra de Viajante, em Lisboa. Não faltem.

Eça viajante

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Quando pensamos em Eça de Queiroz, pensamos imediatamente na sua veia de romancista, no seu humor, na sua crítica social, no seu apurado sentido de observação. Não nos vem imediatamente à cabeça o Eça que viveu noutros países, foi diplomata e olhou para Portugal lá de fora, embora, claro, conheçamos essas circunstâncias. Vale, porém, a pena olhar para um Eça diferente: o que viaja e escreve sobre o que vê. Entre os seus escritos, há muitas impressões de viagem (já aqui partilhei algumas sobre os horrores que achou de Havana), mas nos próprios romances, como A Cidade e as Serras ou A Relíquia, há dezenas de passagens que se referem a locais de viagem, como tão bem recordamos o 202 dos Champs Elysées em Paris. O livro muito recentemente publicado na colecção Terra Incógnita, da Quetzal, intitulado Outras Paragens, é uma antologia de textos publicados na imprensa pelo escritor maior das nossas letras e também de excertos retirados da sua obra romanesca. Deixo-vos, a finalizar o meu post, para fazer água na boca, uma citação que alegra a newsletter que anuncia este livro:


«Antigamente contava-se a viagem quando se tinha viajado.
Hoje empreende-se a viagem unicamente para se escrever o livro.»
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra


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Humanidade

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Às vezes, fico deprimida com a forma como o mundo está a funcionar. Um dia destes fiquei parada numa rua à espera de que um automóvel, três lugares à frente do meu, descarregasse uma série de coisas (a segunda faixa foi substituída por uma ciclovia e todos tivemos de esperar pacientmente) e, enquanto ali estive, só vi pessoas a olharem para os telemóveis encostadas a prédios ou na paragem do autocarro. Estamos a criar seres mecânicos... Para recuperarmos a humanidade, leiamos então o magnífico e comovente e belíssimo Notas sobre Um Naufrágio, de Davide Enia, um livro que parte da experiência pessoal do autor na ilha de Lampedusa – aquela que antes da separação das placas tectónicas pertencia ao continente africano (é por isso que ainda é mais significativa a tentativa de chegar à ilha por tantos africanos) e que se tornou local de desembarques sucessivos – e ouçamos o escritor italiano, também actor e dramaturgo, conversar hoje à tarde com o encenador e grande leitor que é Jorge Silva Melo. Depois da mesa-redonda em Óbidos, moderada por Cândida Pinto, está na hora de ouvir falar o belo italiano (com tradução consecutiva) nesta sessão apoiada pelo Instituto Italiano de Cultura em Lisboa. Apareçam!


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Autor do mês

A Livraria Lello, no Porto, tem, entre outras iniciativas, a de «Autor do Mês». O escritor eleito tem, no seu mês, direito a um grande destaque da sua obra literária nas mesas e estantes, mas também pequenos objectos (entre eles, habitualmente, alguns manuscritos) expostos ao longo do espaço da livraria e, mais importante ainda!, um encontro presencial em que conversa sobre a sua vida e a sua escrita (presumo que nos tempos da pandemia terá sido impossível realizá-lo, mas graças a Deus as iniciativas deste tipo, mesmo que com a obrigação de inscrição prévia, estão de volta). O autor deste mês na Livraria Lello é o multifacetado Afonso Cruz, que estará logo às 21h00 a conversar com o jornalista Sérgio Almeida, também ele autor. Afonso Cruz é, para além de músico, cineasta, ilustrador e produtor de cerveja, aquele escritor que se pode dizer ter caído logo no início da carreira no goto do público e, como tal, ser um autor de sucesso; é também bastante versátil no que à literatura diz respeito, pois, entre os seus mais de trinta livros, podemos encontrar romances, contos, literatura infanto-juvenil, ensaios, poesia, teatro e até umas enciclopédias belíssimas que não sei como classificar. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais e  tem certamente muito para contar às gentes do Porto que possam ir ouvi-lo mais logo.

De pequenino

Falei aqui há tempos no blogue de uma iniciativa do Museu de Lamego e da Rede de Bibliotecas da mesma cidade que me pareceu muitíssimo meritória: a de envolver a população escolar na criação de textos literários, fosse em verso ou em prosa, a partir do património artístico da cidade. Numa primeira edição, os alunos tinham visitado o museu para escrever exclusivamente sobre peças do seu acervo. Mas agora o projecto das Estórias (Im)prováveis foi um pouco mais longe na desejável combinação de Escrita e Arte e passou a incluir os monumentos de Lamego, estendendo o património potencialmente inspirador e, com isso, aumentando também o número de concorrentes e a variedade dos textos a concurso. Estas histórias e poemas, que celebram a aproximação dos mais novos ao objecto artístico e as sensibilizam para o património da sua região, estão agora disponíveis para download gratuito no link abaixo. Que haja mais ideias destas pelo País fora é o que desejo!


https://bit.ly/Publicacao_EstoriasImprovaveis2020-2021

As crónicas

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Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.


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RG ou GR (Georges Remi)?

Hoje venho sugerir uma exposição que está patente até ao dia 10 de Janeiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Chama-se HERGÉ e leva o nome do autor de Banda Desenhada que inventou uma das personagens mais fantásticas de sempre: Tintim – o jovem repórter sem idade, de calças à golfe, cabelo louro com remoinho e cão sempre atrás, que fez as delícias de uma multidão de portugueses dos 7 aos 77 anos e com cujas aventuras eu aprendi as minhas primeiras palavras em francês nos álbuns de capa dura que pertenciam ao meu irmão mais velho. Mas a exposição mostra-nos também o Hergé que existiu antes e depois de Tintim: o pintor talentoso, o coleccionador de arte contemporânea, o designer e publicitário – enfim, as variadíssimas facetas que o tornaram um dos mais importantes artistas do século XX. A exposição, que é itinerante e tem origem num museu em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, onde nasceu Georges Remi, que é o verdadeiro nome de Hergé (serão as iniciais ao contrário?), contou em Portugal com uma adaptação de Ana Vasconcelos. Tem ainda a vantagem de ser um programa ideal para adultos e crianças!


P. S. Sobre Tintim e pais que põem os filhos a ler, vale muito a pena ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso do jornal Público de dia 13 deste mês.

Memórias

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É natural que, ao chegar a determinada idade, quem tenha tido uma vida cheia e conhecido muita gente interessante tenha vontade de escrever as suas memórias. Vários editores estrangeiros já o fizeram, sobretudo aqueles que viveram a edição em tempos mais íntimos e afáveis e sofreram o embate da concentração, dos grandes grupos, do primado dos marketeers, da iliteracia dos leitores que só compram lixo... Um dos mais conceituados editores brasileiros que conheço, embora não pessoalmente, fê-lo também. Trata-se de Luiz Schwarcz, o homem que fundou a grande editora Companhia das Letras, hoje pertença da Penguin Random House, na qual publica, por exemplo, João Tordo no Brasil. A editora sempre foi estupenda e certamente Schwarcz muito teria a contar sobre ela; mas, curiosamente, O Ar Que Me Falta (que tem por subtítulo História de Uma Curta Infância e de Uma Longa Depressão) não parece falar exclusivamente da sua vida nos livros, referindo-se antes à sua história familiar que é, creio, desconhecida de todos, e à sua luta contra a depressão. Espero que os livros o tenham salvo. O lançamento é hoje às 18h30,  na Fundação Saramago, e traduz-se numa conversa entre Schwarcz e a jornalista Isabel Lucas.


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Excerto da Quinzena

«Uma vez em que o avô me mandou comprar um pacote de esparguete [à loja do senhor Júlio], foi a mulher dele quem apareceu. Não tinha acabado de mastigar e de vez em quando uma espinha aflorava-lhe aos lábios e voltava para dentro, como um priosioneiro a fazer o que podia para se ver em liberdade. Tinha os olhos muito abertos. Sem mais, avançou para mim.


– Diz ao teu avô que são horas de comer – vociferou.


E disse ainda, aos gritos, que era preciso parar com aquela palhaçada. Que era todos os dias a mesma coisa. Queria comer em paz. Não me voltava a abrir a porta nem que estivesse a noite inteira a bater.


Quando acabou, as espinhas não estavam lá: tinha-as mastigado no meio dos insultos.»


Hugo Mezena, Gente Séria, Planeta, 2018

Estranhos encontros

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Lembro-me de há muitos anos, ainda eu estava na Temas e Debates, ter surgido um jovem romancista colombiano (nessa altura, ele morava em Barcelona) muito aplaudido na sua estreia. Tive mais tarde a oportunidade de o conhecer pessoalmente em Bogotá, já com sucesso firmado, pai de duas gémeas, com vários livros publicados e a conquistar um lugar maior na literatura colombiana. Chamava-se (chama-se) Juan Gabriel Vásquez e tornou-se um caso sério da literatura em castelhano, havendo até quem diga (talvez por ser ele também elegante e bonito) que vai ocupar o lugar de Vargas Llosa. Pois bem, Juan Gabriel Vásquez já esteve várias vezes em Portugal, numa delas para receber o Prémio das Correntes, noutra para uma conversa com o Primeiro-Ministro António Costa, que aprecia bastante a sua obra. Mas não é o único político a lê-lo, porque no próximo dia 19, às 18h30, o romancista volta a Portugal e, desta feita, vai «contracenar» na Casa da América Latina com... preparem-se... Paulo Portas. E eu que achava que os políticos tinham pouco tempo para ler... Curiosos? Pois inscrevam-se, que os lugares são contados. A sessão será moderada pela jornalista do Expresso, Luciana Leiderfarb.


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Óbidos

Óbidos é uma cidade literária por excelência, cheia de livrarias que tanto podem funcionar em igrejas como em mercearias, e tem todos os anos o seu festival FOLIO. Pois o deste ano começa já amanhã. Com a curadoria de Ana Sousa Dias e Pedro Sousa, é dedicado ao tema do Outro nas suas mais variadas acepções: o estranho, o estrangeiro, o louco, o migrante, o turista, o adversário... e eu sei lá que mais. Vai valer a pena porque vêm muitos autores estrangeiros para apresentar e discutir as mais variadas perspectivas do tema, como Itamar Vieira Junior, Leila Slimani, Juan Gabriel Vásquez, Ilya Leonard Pfeijffer, além de muitos escritores portugueses, como Isabel Lucas, José Luís Peixoto, Ana Bárbara Pedrosa e muitos outros. No dia 17 à noite, o músico e escritor caboverdiano Mário Lúcio Sousa dará um espectáculo com Teresa Salgueiro e, já no final do encontro, o italiano Davide Enia, de quem publiquei muito recentemente Notas sobre Um Naufrágio, vai estar numa mesa com o autor de Grand Hotel Europa para falarem de migrantes e viajantes sob a batuta da repórter Cândida Pinto. Mas há muito mais: sessões nas escolas, contadores de histórias, exposições, leituras de poesia e muito mais. De 14 a 24, um nunca acabar de boas razões para irmos a Óbidos. O programa no link abaixo:


http://foliofestival.com/download/FOLIO2021-programa.pdf


 

Olive veio para ficar

No Verão falei-vos do primeiro romance que li de Elizabeth Strout (O Meu Nome É Lucy Barton) e no Outono falo-vos de Olive Kitteridge, romance da mesma autora que, com ele, venceu muito justamente o prémio Pulitzer. O livro tem, antes de tudo, uma protagonista inesquecível: ao contrário da maioria das personagens femininas que hoje se passeiam pela ficção premiada, Olive é sincera, cáustica, incorrecta, bruta, enfim, autêntica e, como todas as pessoas reais, com várias atitudes infelizes ao longo da vida (de que nem por isso se arrepende muito). Já a puseram numa série que ganhou um Emmy, mas não sei dizer se é boa ou má nem se podemos vê-la em Portugal. Do livro, sim, posso dizer muita coisa: que é profundamente original, com uma estrutura montada a partir de histórias independentes nas quais Olive às vezes não se demora mais de uns segundos (muitas foram, aliás, publicadas autonomamente em revistas); que é incrivelmente humano numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas (aqui há sangue e carne, para o bem e para o mal); que é um retrato de uma certa América com muita gente ignorante que tem o crime à distância de um gesto ou de um pensamento (matar à facada, pôr fogo...), deprimidos, traumatizados, burros, e bons também (Henry, o marido de Olive, é tão bom que o adoramos logo nas primeiras páginas); que é uma leitura nada óbvia que nos enriquece e que puxa por nós, como já raramente encontramos quando lemos livros há cinquenta e tal anos. Uma boa notícia: Olive veio para ficar e existe um segundo livro recentemente publicado em Portugal chamado A Segunda Vida de Olive Kitteridge. Não vos posso contar como acaba a primeira, mas também não vou perder a nova. Façam o mesmo, vale muito a pena.

Do bom e do bonito

José Carlos Barros, de quem há uns anos publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, finalista do Prémio LeYa (leiam-no, por favor!), é quanto a mim um dos mais interessantes poetas da actualidade. Não só os seus livros de poesia são bons, como são cada vez melhores. E têm uma coisa que eu adoro em livros de poesia: não são meras colecções de poemas, são projectos unos, com uma ideia agregadora. Estes de que hoje falo pertencem ao livro Penélope Escreve a Ulisses e congregam uma série de textos dactilografados numa velhinha máquina de escrever. O editor, Guilherme Pires, da Caixa Alta, fez do conjunto um livro quase demasiado belo para ser verdade (talvez até pela sua sensibilidade às velhas máquinas de escrever, que colecciona e repara): um objecto bonito que merece o que tem dentro, ou vice versa. Sei que aqui no blogue está tudo mais virado para a prosa, mas por favor não percam esta pérola, juntem-na ao vosso colar de leituras e, garanto, ficarão mais ricos. Um pequeno exemplo (infelizmente aqui não posso respeitar o tipo de letra de máquina porque as definições do blogue não o permitem), mas há tantos poemas tão simplesmente lindos neste livro que podia ser qualquer outro:


 


Manhã


 


A manhã chegava


com os cabelos ainda


desatados


 


que sabíamos nós do mundo


senão fazer-lhe


uma trança?

No jardim

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Desde que entrei na LeYa, vai para doze anos, não me lembro de ter feito um lançamento que não fosse o tradicional. Mas, na minha vida de editora, já apresentei um livro em passeio pelo Tejo (estava então na Temas e Debates e tratava-se de um romance fotográfico de Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena), já assisti a um lançamento de uma biografia juvenil de Mozart com um concerto na Casa da Música e já lancei em terra de boa ginja (Óbidos) num sala onde se podia beber um livro sobre esse fruto. Agora, se tudo correr bem, vamos aterrar no jardim da Biblioteca do Palácio Galveias e deixar a miudagem brincar ao mesmo tempo que ouve rimas, desenha, pinta vê o desenhador desenhar. Queira Deus (e S. Pedro, já agora) que o tempo se porte à altura porque o livro merece conviver com a relva, o ar puro, as brincadeiras e tudo o mais. Trata-se de O Meu Cavalo Indomável, de David Machado e Ricardo Ladeira, e contamos divertir-nos bastante com os autores, os actores Ana Sofia Paiva e Sandro William Junqueira, os contadores de histórias e, claro, os miúdos. se lhe apetecer, apareça!


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Actos de coragem

Li um artigo extremamente interessante sobre um professor universitário de Filosofia em Portland que bateu com a porta, dizendo que, infelizmente, a universidade onde ensinava há tantos anos sacrificou as ideias à ideologia. Alegando que, quanto mais tentou combater o iliberalismo mais retaliações teve (suspensão, inclusive), Peter Boghossian escreveu à reitora uma carta de demissão, dizendo que a sua especialidade foi sempre o pensamento crítico, a ética e o método socrático, mas que deixou de os poder pôr em prática na instituição onde os alunos já têm medo de falar e da censura dos colegas. Parece que, além de ensinar os filósofos clássicos, Boghossian convidou para as suas aulas todo o tipo de palestrantes, no sentido de estimular o pensamento crítico e o debate, desde advogados de Wall Street a gurus religiosos ou cépticos das alterações climáticas; mas, como se tratava de personalidades polémicas, os alunos queixaram-se e, em vez de explicar as funcionalidades da coisa, a direcção mandou o senhor uns tempos para casa. O professor considerou então que a faculdade se demitiu do seu papel de ouvir pessoas com opiniões e crenças diferentes e falar abertamente de tudo, formando os alunos para pensarem todos da mesma maneira e não fazerem ondas. Pior: a instituição considerou alguns filósofos machistas e proibiu que fossem ensinados... Afinal, quem pregava inclusão e diversidade não as praticava. Boghossian bateu com a porta e fez bem. Mas é uma pinguinha no oceano, pois na verdade muitas universidades em todo o mundo se tornaram guetos de ideologia sem ideias, um perigo que manda os génios e os válidos para as masmorras como no tempo de Galileu e deixa os imbecis a liderar... Se quiserem ler a carta, aqui a têm:


https://bariweiss.substack.com/p/my-university-sacrificed-ideas-for?utm_campaign=post&utm_medium=web&utm_source=facebook&fbclid=IwAR2rEySMWz43sx73rWiiUfoxWC4A4CtbWuV7ygBErG7j48sPV6c0Kdh-GW4

Videoconferências

A EC.ON, Escola de Escritas Online, está a brindar-nos com as suas Sessões Ícone (é a 19ª vez!) desde o último sábado. E desta feita o tema das Videoconferências é, no mínimo, polémico: Tempo de Amnésias vs Mediações Literárias. Parece algo pomposo, bem sei, mas quando vemos os participantes ficamos imediatamente de orelha arrebitada. No último sábado (desculpem, não fui a tempo de avisar), a conferência esteve a cargo do escritor e professor universitário Helder Macedo e no dia 16 deste mês estarão a oferecer-nos a sua visão os autores do programa de poesia Nada Será como Dante e excelentes diseurs Filipa Leal (poeta) e Pedro Lamares (actor). Uma semana depois teremos a jornalista e poeta Inês Fonseca Santos e no dia 30 será a vez de Valter Hugo Mãe. Em Novembro poderemos escutar a bióloga e escritora Clara Pinto Correia e, já em Dezembro, a programadora cultural Manuela Ribeiro, que organiza o encontro Correntes d'Escritas há mais de vinte anos, e o jornalista, letrista e programador Nuno Miguel Guedes, que encerra as sessões. Sempre ao sábado! Saiba tudo aqui:


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Livros para sempre

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Talvez por se ter estreado no Verão, ainda aqui não falei da maravilha que é ter em Portugal a colecção de Clássicos da Penguin, aqueles livrinhos com capas lindas que todos os que lemos em inglês estamos fartos de «lamber» nas montras, comprar e cobiçar e que, finalmente, se encontram entre nós, traduzidos em português e editados pela Penguin Random House. A colecção completa 75 anos em Inglaterra e, na sua génese, era uma aposta em divulgar os clássicos de vários géneros (ficção, poesia e ensaio) a bons preços e num formato simpático para o público em geral, numa afirmação de que a literatura não é coisa apenas de elites intelectuais. Por cá já foram lançados os primeiros sete títulos, incuindo alguns em língua portuguesa (Os Maias, O Livro de Cesário Verde ou Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto) e também obras emblemáticas como A Metamorfose, de Kafka, A Quinta dos Animais, de George Orwell, ou Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf. Estes livros são sempre prefaciados, como é o caso de Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, de Rosseau, que conta com prefácio de Francisco Louçã. «Classicizemo-nos!»


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O que ando a ler

Como qualquer pessoa que estudou Literatura Inglesa na universidade, detive-me, claro, na obra de Shakespeare; mas a sua vida nunca foi flor que se abrisse nessas aulas, até porque houve sempre muito mito e pouca certeza sobre a vida de um dos mais incríveis criadores de sempre. Talvez até por desconhecer os pormenores da sua vida familiar (pai, mãe, irmãos, mulher, filhos, e a relação de William com todos eles), li com ainda maior interesse e curiosidade o romance Hamnet, de Maggie O’Farrell, que conta, com base na informação realmente existente e com uma pequena dose de ficção bem-vinda (de resto, assumida pela escritora), como o génio do teatro conheceu a mulher que o enfeitiçou, como se casaram e tiveram três filhos, como um desses filhos, Hamnet, morreu ainda criança e como os pais e as irmãs (mas sobretudo a mãe) reagiram a esse episódio trágico. Extremamente poético, visual, com descrições belíssimas do campo e cheio de nomes de ervas e plantas que enchem o ouvido e cheiram bem, esta é uma prosa muito rica de uma autora que apetece acompanhar. O romance venceu no ano passado o Women’s Prize for Fiction e foi considerado “excepcional” pela New Yorker, um excelente sinal. A tradução é de Margarida Periquito.