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A mostrar mensagens de maio, 2016

Biblioterapeuta

Há dois anos tive uma doença nos ombros com um nome estúpido (capsulite adesiva bilateral – espero que nunca vos aconteça) e passei mais de um ano e meio a fazer fisioterapia três vezes por semana às minhas custas (o seguro não pagava, que fazer?); mas, depois dos penosos primeiros meses, percebi a importância de ter uma boa fisioterapeuta. Talvez os bons terapeutas sejam, aliás, fundamentais em todas as áreas – e os livros quiçá não são excepção. Lembram-se de vos falar aqui da Sandra Nobre, que depois de a vida lhe ter pregado um susto valente foi fotografar gente a ler em todo o mundo? Pois bem, ela está de volta com um serviço original, a biblioterapia, segundo ela «um método facilitador do desenvolvimento pessoal e da resolução de problemas através dos livros, que tem como objectivo primordial a mudança para melhor». Os seus serviços incluem variadas acções destinadas quer a empresas, quer a indivíduos, entre as quais, por exemplo, a leitura ao domicílio (ou nos hospitais), o aconselhamento de bibliografia para se tornar um melhor leitor, a indicação de livros às instituições sobre determinado tema específico que queiram recomendar aos seus funcionários. A lista é vasta e a experiência da terapeuta também, que trabalhou mais de dez anos como livreira e conhece certamente os desejos e limitações do público; mas, para que possam ficar com uma ideia mais concreta, deixo abaixo o link. Se precisarem de ajuda, já sabem.


 


https://abiblioterapeuta.com/

Bitolas

Apanho uma boa citação no blogue da revista LER e trago-a para aqui: «A crítica? Ela é sobretudo mal fundamentada e mal escrita. É pegar ou largar. Louvores, grandes frases na capa do livro? Irrelevante. Na verdade eu não entendo muitos dos comentários sobre os meus livros. Os meus amigos não costumam lê-los. Devem achá-los deprimentes. Não me importo. Eu acho que a maioria dos escritores são monomaníacos; o remédio é ir em frente. Continuar.» A frase pertence à romancista Anita Brookner, falecida em Março deste ano, e é da última entrevista que deu. Concordando ou não, fez-me lembrar uma resposta de João Ricardo Pedro, o autor de romances como O Teu Rosto Será o Último e Um Postal de Detroit quando há duas semanas fomos a Leiria e uma espectadora lhe perguntou o que sentia quando lia as críticas aos seus livros. O escritor disse que lhe afagavam o ego quando eram boas, claro, mas que quando escrevia não era nos críticos que pensava, mas nos mestres, os Calvinos, os Borges, os Roths e muitos mais. Olhava para cima, como ele disse, a saber que tinha de ser humilde, por um lado, mas, por outro, de fazer dessa gente – e não dos críticos – a sua bitola…


 


 

Os estrangeiros

O jornal The Guardian tem sempre artigos interessantes sobre literatura, e o último que li é surpreendente. Não sei se têm ideia, mas é geralmente muito difícil a um autor de outra língua (especialmente a um autor não consagrado) conseguir uma tradução em inglês – e isto acontece porque os escritores anglófonos nos cinco continentes são mesmo muitos e, portanto, o espaço nas editoras do Reino Unido para as traduções acaba por ser realmente diminuto (as traduções de literatura são apenas 3,5% de todos os livros de ficção publicados). Mas as notícias deste artigo vão contra a regra: diz Alison Flood que, afinal, a ficção estrangeira traduzida em inglês parece atrair muitos leitores britânicos, segundo um estudo encomendado recentemente pelo Man Booker International Prize; e que autores como Elena Ferrante, Knausgaard ou Murakami conseguiram de facto um autêntico boom nas vendas de livros de ficção literária no Reino Unido, depois de serem finalistas daquele prémio prestigiante. Claro que a percentagem nas vendas totais de ficção é ainda escassa (a ficção comercial é a que atinge números mais elevados), mas a verdade é que o valor duplicou em dez anos e que, ao contrário do que aconteceu com os romances escritos originalmente em inglês, cujas vendas caíram, os romances traduzidos têm estado em franca ascensão, até porque o público para eles tem crescido muito desde 2001, estimulando os editores ingleses para que publiquem mais ficção traduzida. Veremos se assim os portugueses conseguem penetrar finalmente neste mercado…

E vão 86!

Comecei a frequentar a Feira do Livro de Lisboa ainda ela tinha lugar nos passeios centrais da Avenida da Liberdade; e, desde que trabalho na edição, ou seja, desde 1987, não falhei um ano de feira. Primeiro, porque trabalhei dentro da barraquinha a vender livros (era um bom complemento de ordenado na altura, asseguro-vos) e aprendi, aliás, muito sobre os leitores e os seus vícios com essa experiência. Depois, porque passei a ter muitos autores portugueses no catálogo e, por isso, a acompanhá-los nas sessões de autógrafos. Ora, começa amanhã mais uma «Via-Sacra» (eu gosto, mas são três fins de semana e três feriados a trabalhar), que é – ao mesmo tempo – a 86ª Feira do Livro de Lisboa, aberta até dia 13 de Junho. A programação é variada, com actividades dirigidas às crianças, música, debates, lançamentos e muito mais, mas o que interessa mesmo é que, no Parque Eduardo VII, estarão pavilhões de quase todas as editoras portuguesas (mesmo as pequenas estarão representadas num stand colectivo, como é costume) e, como tal, vai ser possível meter o nariz em tudo o que é livro e, como sempre, comprar com desconto. Ideal, diria eu, para os Extraordinários. Vamos lá?


 


Errata: Ontem, publiquei aqui um post a anunciar uma novidade, mas afinal tinha caruncho, ou seja, baseava-se numa notícia de 2010; pior do que isso, a informação não estava correcta, como me fizeram saber várias pessoas em comentário. O apoio para a digitalização da biblioteca de Pessoa foi conseguido por Inês Pedrosa, quando era directora da Casa Fernando Pessoa, e não por quem mencionei. Peço-lhe, pois, desculpa, e também, claro, aos leitores deste blogue. A minha fonte foi, ao contrário do que me lembrava (mas confirmei ao chegar a casa), um post deste ano de um blogue brasileiro chamado Colunas Tortas; mencionava de facto 2010 (eu estava desatenta, confesso), mas, ao anunciar a digitalização da biblioteca online, dizia: "Esta iniciativa reuniu uma equipa de investigadores, incluindo Jerónimo Pizarro, e o apoio da Fundação Vodafone Portugal que possibilitaram a digitalização integral e publicação online da biblioteca." Em suma, passe o paradoxo, não nos podemos fiar em blogues...


 


 

Biblioteca pessoana

Fernando Pessoa, como todos sabem, tinha (como qualquer leitor regular) uma boa biblioteca – ao que parece, com mais de 1100 volumes que, até há algum tempo, só podiam ser consultados na Casa Fernando Pessoa (onde, de resto, se encontram fisicamente). Porém, uma equipa de investigadores – incluindo o especialista colombiano Jerónimo Pizarro, que tem feito muito pela obra pessoana em Portugal e no estrangeiro – conseguiram o apoio da Fundação Vodafone Portugal para a digitalização integral da biblioteca do poeta e a sua publicação online, com o objectivo de que todos os interessados, estejam onde estiverem, tenham acesso a estes mil e tal livros. Claro que a maior parte deles já estariam disponíveis em livrarias virtuais, mas a novidade é a intervenção de Pessoa nas suas páginas, ou seja, as anotações, os comentários, desenhos, horóscopos e até rascunhos de textos poéticos (impossíveis de encontrar nos volumes à venda). A pesquisa pode ser feita por ano, ordem alfabética ou categoria temática; e a consulta pode realizar-se no ecrã, página a página, ou após o download da obra completa. O acervo pode ser visto aqui:


 


http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/index.htm


 


P.S. Este post inclui informação parcialmente incorrecta. Porém, como sei que há muitos leitores que só vêm a este blogue de manhã, coloquei uma errata no post do dia seguinte. Até amanhã e desculpem!

E vão três

Continuo a não achar que seja completamente viciante, mas, já agora, interessa-me saber como é que acaba A Amiga Genial…  E ainda só li três volumes (são quatro e o último é gordo que se farta). Neste História de Quem Vai e de Quem Fica, as duas amigas – Lenù, a narradora, e Lila, o cérebro – são agora mulheres de quase trinta anos. A primeira, depois da publicação de um livro de grande sucesso, vai viver para Florença, casa-se com um menino-bem intelectual e tem duas filhas; a sua vida torna-se uma pasmaceira que a deixa bastante melancólica (ser dona de casa e mãe não é o seu forte, mas está sem inspiração para um novo livro). A segunda vive num bairro miserável de Nápoles com um amigo de infância (nada de sexo, são como irmãos), trabalha numa fábrica de enchidos e envolve-se em movimentos políticos perigosos (ouvindo falar no assassínio do patrão de Lila, Lenù equaciona a hipótese de ter sido a amiga a sua autora). A vida de ambas parece ter de certa forma congelado, mas de repente dá uma nova reviravolta: Lenù encontra a sua antiga paixão (o rapaz que no segundo volume gostava de Lila), e Lila regressa ao seu bairro para se tornar uma das primeiras informáticas das empresas dos mafiosos irmãos Solara, que ela odiava… Que mais lhes irá acontecer? Veremos no quarto volume, claro.

À pressa

Gostamos de dizer que em Portugal se deixa tudo para a última da hora; mas, tanto quanto leio numa notícia do Público citando o diário espanhol El País, pelos vistos é um hábito ibérico: o espólio do poeta e dramaturgo Federico García Lorca (1898-1936) teve de ser classificado a mata-cavalos para não sair de Espanha… Era suposto a Fundação que o alberga (quase 20 000 documentos, entre manuscritos, partituras assinadas, cartas, desenhos originais, e ainda mais de uma centena de livros da biblioteca pessoal de Lorca, com dedicatórias dos autores) construir um centro García Lorca em Granada, mas a data prevista para a inauguração teve de ser cancelada por causa de dívidas pesadas à construtora quer da própria fundação quer do poder local… Chegou a estar na mesa a possibilidade de o espólio ser vendido em parcelas a estrangeiros para a Fundação recuperar capital, mas a Secretaria de Estado da Cultura espanhola não teve remédio senão chegar-se à frente e resolver esta situação que considerou «drástica». Lorca foi uma das figuras mais importantes do início do século XX espanhol, amigo, por exemplo, de Dalí, de quem possuía quadros, ou do cineasta Buñuel. Parece que, para já, se remediou o pior.

As Quintas dele

Não, não estou a falar de propriedades com muitos hectares, mas das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre, no Porto. Estou a ouvir aí umas reclamações sussurradas do tipo: «Outra vez?!» Pois bem, para começar nunca é demais falar de um espectáculo que é um sonho de bem organizado e bem arquitectado, dando oportunidades a muitos artistas de várias áreas para mostrarem o seu trabalho: companhias de teatro e circo, músicos, pintores, fotógrafos, transformistas, bailarinos e muito mais. Mas não é apenas por isso que repito o tema, é que hoje é a vez de o Manel se estrear com a sua poesia nas Quintas de Leitura (e eu estou mortinha por assistir) no espectáculo «O Canto do Desencanto». A imagem desta feita estará a cargo de Mariana Baldaia (de quem, aliás, temos na sala um desenho lindo); a conversa decorrerá certamente sem rede, já que será conduzida pelo Francisco José Viegas, que o Manel conhece desde a criação da ASA como editora de literatura, portanto há mesmo muito tempo. Dizem os poemas, além do poeta, Diogo Dória e Paula Ventura, grandes vozes. Liliana Garcia, bailarina, voará (bem, mais ou menos) e o grupo vocal feminino Sopa da Pedra fechará a sessão. Só não digo para aparecerem porque já está esgotado. Até amanhã!


 

Crianças grandes

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As pessoas têm hoje, regra geral, uma maior longevidade do que quando nasci (uma das minhas avós morreu, por exemplo, antes dos 70 anos, o que neste século seria cedíssimo). Verifico regularmente nos jornais as mortes de pessoas conhecidas perto ou depois dos 90 anos. É bom quando os mais velhos conservam a saúde e a lucidez, mas, claro, isso nem sempre acontece, e muitos dos velhinhos voltam a ser uma espécie de crianças de quem é preciso tomar conta. Mas o pior de tudo é quando – lúcidos ou não – ficam adormecidos, sem acção, sem ninguém que os espevite. A Marina Palácio, de quem já aqui falei a propósito de oficinas para crianças – de tudo e mais alguma coisa, ela é verdadeiramente versátil – foi, porém, desafiada por uma biblioteca em Vila Velha de Ródão aonde ia fazer uma sessão para crianças de manhã a adaptá-la à tarde para os idosos. Ao que parece, o tema era «o lobo», mas deu para tudo: conversa, histórias, filmes, leituras de poesia e até desenhos. Apesar das limitações de muitos, Marina ficou encantada pelo prazer que tiveram a pintar e isso fê-la pensar muito nas pessoas desta idade (até aposto que se vai lembrar de muitas oficinas para eles também). Deixo-vos umas fotografias e peço-vos que dêem sempre atenção aos vossos mais velhos. Obrigada, Marina, pela partilha da experiência.


 


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Gratificações

Já não encontro nos jornais tão frequentemente como noutros tempos aquelas pessoas que escrevem bem e nos arrastam da primeira à última linha dos seus textos sem qualquer dificuldade e com todo o prazer. Mas não costumo falhar as crónicas de João Taborda da Gama no Diário de Notícias, sobretudo se os temas me interessarem. Uma das últimas que li dizia respeito, entre outras coisas, a impostos sobre gorjetas – e a verdade é que me senti «gratificada» pela leitura, tendo aprendido muita coisa. Descobri, por exemplo, que a nossa palavra «gorjeta» vem efectivamente de «gorge» (garganta em francês); e faz, aliás, todo o sentido que assim seja, uma vez que «gratificação» em francês se diz justamente «pourboire» (para beber, à letra), ou seja, dava-se um dinheirinho a alguém que nos fizera um serviço para ir molhar a garganta (a «gorgette» será algo como um golinho; e até seria giro dizermos: «Obrigada. Tome lá para um golinho.»). O cronista presume que esta forma de retribuição é um pouco estranha (talvez porque hoje pensemos que, ao dar uma gorjeta, estamos no fundo a dizer «vá tomar uma cervejinha», a alimentar o alcoolismo), mas depois conclui que, muito provavelmente, essa palavra remonta a um tempo em que alguém tinha de fazer por vezes um longo percurso para cumprir o serviço (imaginem: ir entregar uma encomenda a pé) e, por isso, merecia um copinho de água. Um dia destes vou pôr-me a investigar donde vem «tip», a gorjeta inglesa…

Eça em Paula Rego

No próximo dia 25, na Casa das Histórias de Cascais – o museu dedicado a Paula Rego, a pintora portuguesa que vive e trabalha em Londres há muitos anos –, vai inaugurar-se uma exposição a não perder, que tem por título Old Meets New e é comissariada por Catarina Alfaro, ficando aberta ao público até final de Outubro. As obras, produzidas pela artista entre 2013 e 2015, pertencem a três séries: D. Manuel, o Último Rei de Portugal (2014); A Relíquia (2013); e O Primo Basílio (2015), as duas últimas baseadas nos romances homónimos de Eça de Queirós. Parece que Paula Rego aprecia muito o romancista português, sobretudo pela crítica que sempre faz nos seus livros à sociedade, gostando de regressar à sua obra de vez em quando para criar, tendo, como se sabe, dedicado já no passado (entre 1997 e 1998) uma outra série de trabalhos a O Crime do Padre Amaro. Pintar partindo da literatura foi, aliás, o que fez com que, ainda jovem, Paula Rego desse nas vistas na londrina Slade School of the Arts com um trabalho sobre um poema de Dylan Thomas. Uma boa combinação de letras e arte.

A vaquinha vai a Sintra

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Eu sei que já passou algum tempo desde que publicámos este livro para crianças sobre uma vaca que anda cansada de ervas e está apostada em encontrar uma dieta diferente e mais saborosa – o que acaba por conseguir, pasme-se!, com um simples jornal… Mas uma das autoras, Gabriela Ruivo Trindade (a outra autora é Rute Reimão, a ilustradora), mora fora de Portugal e só agora foi possível contar com a sua presença para a sessão de apresentação de A Vaca Leitora, que acontece amanhã à tarde. A festa terá lugar na Casa dos Hipopómatos na Lua, em Sintra, de quem toma conta Nazaré de Sousa, que também dirá umas palavras avisadas sobre esta bonita história. Ao mesmo tempo, será inaugurada uma exposição com as ilustrações do livro. Se quiserem, passem por lá e, claro, levem as crianças, que serão as principais interessadas. Eu, evidentemente, não faltarei.


 


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Self-Service

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No jardim da Quinta das Conchas, em Lisboa, há uma mini-biblioteca, em forma de casinha de madeira, à espera de quem passe e queira ler qualquer coisa. Foi construída por Joaquim Sequeira, médico, que por lá passa todos os dias para ver se está tudo em ordem e diz que «qualquer pessoa pode abrir a porta e escolher um livro para ler. Não há registos nem prazos de leitura.» A caixa de madeira, com um pequeno telhado e duas portas de vidro, contém livros para todas as faixas etárias, replicando um modelo que apareceu nos Estados Unidos e ficou conhecido por Little Free Library (pequena biblioteca livre ou gratuita?). Em todo mundo já existem cerca de 36 000 bibliotecas como esta, e em Portugal estão referenciadas três: em Angra do Heroísmo, no Porto e a de Joaquim Sequeira, em Lisboa, à qual ele foi doando cerca de 800 títulos da sua biblioteca pessoal (a ideia era os livros serem devolvidos pelos leitores que os levavam, mas isso não tem acontecido). Junto dos livros, há também um caderno onde os leitores podem deixar mensagens, opiniões e até fazer pedidos. Quando perguntam ao médico o que o leva a construir um projecto assim, ele responde que é um bom hobby, que, de vez em quando, se sente uma espécie de D. Quixote. «Talvez as pessoas não imaginem, mas dar um livro e ver alguém satisfeito por ter um livro é uma coisa que nos derrete, e contra isso não há argumentos», explica.


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Detroit-Leiria

Já aqui tenho falado da Livraria Arquivo, em Leiria, aonde tenho ido regularmente com autores que publico, tanto marinheiros de primeira viagem como reincidentes. Não é, de resto, a primeira vez que acompanho João Ricardo Pedro a essa livraria, pois, quando ele ganhou em 2011 o Prémio LeYa pelo romance O Teu Rosto Será o Último, que seria publicado uns meses mais tarde, também lá estivemos juntos. Mas é sempre uma alegria regressarmos a locais onde nos sentimos em casa e nos tratam bem, onde o público comparece e faz perguntas inteligentes, onde quem acolhe gosta de livros tanto como nós e faz absolutamente questão de promover a literatura. Por isso, se estiver em Leiria ou perto, hoje pelas 18h30 terá oportunidade de fazer parte de um grupo muito simpático de espectadores e ouvintes, muitos dos quais já trarão lido Um Postal de Detroit, o segundo romance de João Ricardo Pedro, no qual se fala da terrível dúvida que assola uma família quando, num acidente de comboios, é encontrada a mochila de uma rapariga chamada Marta, a filha mais velha do casal, embora o seu corpo e os seus documentos nunca apareçam. E, se não puder fazer-nos companhia, leia o livro, que só lhe fará bem.

Livros proibidos

Comemorámos há pouco a revolução de Abril e isso recordou-me uma sessão na Biblioteca de Oeiras a que assisti há cerca de um mês, sobre livros proibidos no tempo da outra senhora, sessão que – creio – se repete mensalmente com outras obras e novos participantes (no dia em que fui, o livro era Podem Chamar-me Eurídice, de Orlando da Costa, e falavam sobre ele a escritora Hélia Correia e o Manel). Nessa noite, contou-se uma história extraordinária sobre a incultura e a cegueira dos agentes da censura. O livreiro José Ribeiro, do Espaço Ulmeiro, sofria rusgas periodicamente, porque tinha muitos livros na loja que estavam proibidos pelo regime. Certamente, os censores mandaram agentes à livraria confiscar tudo o que tivesse a ver com Estaline e Lenine; mas os agentes, que não deviam perceber patavina de coisa nenhuma, a Estaline e Lenine acrescentaram também Racine, decerto porque a rima lhes soou perigosa, e apreenderam as peças do dramaturgo francês, que nem nunca soube o que era a União Soviética; como se isso não bastasse, russo por russo, juntaram-lhes ainda um livro sobre Nijinsky, o bailarino e coreógrafo (quiçá pensando que se tratava de um «subversivo») e, mais engraçado ainda, um manual do betão armado (porque o que está «armado», já se sabe, pode ser um problema). Coisas para rir hoje que, na altura, tinham menos graça.  

A dar cartas

Em muitas matérias estivemos sempre na cauda da Europa (pronto, a Grécia, uma vez por outra, ficava atrás de nós); mas, falando de livros, há – e ainda bem – uma categoria em que estamos, de alguns anos a esta parte, continuamente na vanguarda: a edição de livros infantis e juvenis. Na Feira do Livro de Bolonha, dedicada a este género específico – uma alegria visual, aposto! –, ano após ano, todos esperam que os livros portugueses ganhem os principais prémios de ilustração e texto, porque vai sendo hábito as nossas editoras encontrarem-se entre as finalistas; a Pato Lógico, de André Letria, a Planeta Tangerina, de Madalena Mattoso e Bernardo Carvalho, entre outros, e a Orfeu Negro são exemplos de que estamos muito à frente do resto da Europa – e todas elas já foram nomeadas ou vencedoras do prémio de Editora do Ano ou, pelo menos, publicaram os livros que venceram nas várias categorias a concurso (Ficção, Não-Ficção ou Primeira Obra). Catarina Sobral, Mafalda Milhões, André Letria, Afonso Cruz e muitos outros autores que trabalham este género são considerados a geração de ouro da literatura infantil e os seus livros estão traduzidos em muitos países. Tirando as palavras da boca do consultor editorial que vende os direitos de alguns destes génios, o facto de eles estarem na pole position só pode facilitar-lhe o trabalho... Parabéns! Os mais novos e os mais velhos agradecem.

Vestir e despir

Recomenda a prudência não darmos confiança a quem não conhecemos, mas de vez em quando faço ouvidos de mercador e «amigo-me» no Facebook com algumas pessoas que me pedem amizade de forma delicada ou interessada. Há já um tempo que sou, por isso, amiga de um senhor chamado Marco Neves, que escreve amiúde sobre a língua portuguesa e é, de resto, autor de um livro chamado Doze Segredos da Língua Portuguesa, disponível desde finais de Abril (ainda não li). Foi talvez através de um dos seus links facebookianos (na verdade já não tenho a certeza) que fui dar a um blogue intitulado Certas Palavras (Línguas, Livros e Outras Viagens), que merece que os Extraordinários lhe prestem alguma atenção; e que pus os olhos num post especialmente giro – e, vá lá, algo polémico – que compara a língua portuguesa à roupa que vestimos, defendendo que é bom saber pôr uma gravata quando é preciso, claro, mas que por casa se anda melhor de pijaminha. Assim, deixo-vos hoje exactamente a ligação para esse texto leve mas profundo e espero que a partir de agora possam ir ao blogue de Marco Neves como vêm ao meu.


 


http://www.certaspalavras.net/lingua-portuguesa-roupa-vestimos/

Encontradouro

Hoje parto para um encontro no Douro: o Encontradouro, está claro! No território de Miguel Torga, em Sabrosa, vou falar de fado e poesia com Aldina Duarte, Carlos do Carmo, Fernando Pinto do Amaral e a directora do Museu do Fado, Sara Pereira, que modera a conversa. Mas muito mais por lá se passará: a conferência sobre João Araújo Correia por Miguel Real; a conferência de abertura por José Marques; e, no sábado, a fechar, é a vez de Francisco Seixas da Costa nos brindar com as suas palavras (e ele costuma ser bom nisso). Pelo meio, muitas mesas-redondas com variadíssimos autores, de Afonso Cruz a Cristina Carvalho, de Cláudia Clemente a António Tavares, de José Manuel Fajardo ao mexicano Antonio Sarabia. A belíssima paisagem duriense dará ainda abrigo a uma feira do livro e uma exposição de fotografia de Georges Dussaut sobre Portugal. A coisa promete! Hoje e amanhã não verei os vossos comentários, mas na segunda estarei de volta.

Um pícaro, para variar

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Carlos Campaniço, alentejano de gema nascido em Safara, tem escrito quase sempre à roda do seu Alentejo. E o novo romance, à venda daqui por uns dias, também regressa à planície, tendo desta feita por protagonista um Don Juan de todo o tamanho, Firmino. A novidade está em que As Viúvas de Dom Rufia, recentemente publicado, chega em tom de comédia para contar as aventuras e sarilhos em que se mete este mulherengo incorrigível com o objectivo muito concreto de deixar de vez a pobreza franciscana com que sempre viveu. Conta a sua história um parente afastado, nascido muitos anos mais tarde na Argentina, que relembra passo a passo uma história que a família contava à volta da mesa na sua infância e que a todos arrancava bastas gargalhadas: a do funeral desse homem que parecia ter tantas vidas como os gatos, tão depressa armado de mala de médico a atender pacientes, como vendendo loiça, ouro e carvão Alentejo fora, ou até tentando convencer um incauto casal a comprar bocados de Angola para lhe ficar com o dinheiro; um funeral a que, sucessivamente, comparecem mulheres de várias idades supondo-se as suas viúvas, mas logo indignidades pela presença das concorrentes. A par desta louca conquista da independência financeira que tem como isco várias mulheres, é ainda relatada a surpreendente história de um velho chileno, coleccionador de fenómenos e proezas sobre-humanas, a quem Firmino chamará com toda a certeza a atenção. Muito divertido.


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A oeste tudo de novo

É hoje que começa o festival Livros a Oeste, que decorre até ao próximo dia 7 de Maio. Tendo como tema central «Livros sem fronteiras», a presente edição do evento, organizado anualmente pelo Município da Lourinhã, contará com a presença de muitos autores, entre os quais Afonso Cruz, Alice Vieira, Andréa Zamorano, António Tavares, Inês Pedrosa, João de Melo, João Morgado, Mário Zambujal, Patrícia Portela, Rita Ferro, Rita Taborda Duarte e Rui Zink (por ordem alfabética, para não beneficiar ninguém). Haverá mesas-redondas e debates, arruadas e espectáculos de música com a colaboração de alunos de várias escolas, apresentações de livros, performances, hora do conto para os mais novos, degustação de vinhos, teatro e até sessões de promoção da leitura levadas a cabo por quem sabe da poda, ou seja, bibliotecários. No dia 6, realizar-se-á também um recital de poesia por gente muito jovem, e até os bebés têm direito a actividades na manhã de domingo. João Morales é o curador. Vamos lá?

O que ando a ler

Disse há uns dias que ainda não tinha apanhado a febre Ferrante, e acho que não tenho sintomas dela (ou seja, não me estou dependente e leio outras coisas pelo caminho). Mas, antes que a minha parca memória me fizesse esquecer o que lera em A Amiga Genial, o primeiro volume da tetralogia com o mesmo nome escrita por Elena Ferrante, passei para História do Novo Nome, o segundo volume, que parte da vida de casada de Lila (o novo nome é o do marido, Carracci) e dos últimos anos de liceu de Lenù e se estende ao longo de um período não muito longo, mas decisivo para a vida de ambas, sobretudo em termos sentimentais, em termos da sua amizade (que sofre muitos solavancos) e em termos da coragem para mudar o que se calhar não pode mesmo ser mudado. Casada Lila, solteira Lenù, ambas passarão junto ao mar umas férias que são uma espécie de jogo de xadrez, com jogadas nem sempre ganhas por quem as pensa até à exaustão mas que constituem uma partida com momentos muito altos nesta história (sendo um deles, sem dúvida, a perda da virgindade de Lenù e outro o reencontro de ambas numa sapataria com a persiana corrida à hora de almoço). O livro, para quem não sabe, é finalista do prémio Man Booker, concorrente, por isso, de Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa, e de Vegetariana, de Han Kang, que publicarei em Outubro.