Meias-tintas
Há muitos anos, numa aula de Literatura Inglesa na Faculdade de Letras, um certo professor declarou, assim sem mais nem menos, que O Último Tango em Paris era um filme sobre a pintura americana. Estranhei, claro, pois o que ouvira dizer do filme nada tinha que ver com a pintura; mas, como na altura não o tinha visto, achei melhor reduzir-me à minha insignificância. Vi-o mais tarde e, mesmo tendo aquela declaração presente e já sabendo mais sobre a pintura americana e sobre outras coisas nessa altura, a verdade é que (mea culpa) não consegui atingir o statement do meu professor. Contudo, ao terminar há dias a leitura de A Beleza e a Tristeza, do japonês Yasunara Kawabata (ouvi alguns conselhos que me deram aqui no blogue e insisti um pouco mais na cultura nipónica), ficou-me a sensação de que, além do enredo, o romance é de certo modo uma obra sobre a pintura japonesa. Claro que trata de outras coisas, do amor quase sempre – magoado, preterido, ciumento, lésbico e vingativo, estados de alma que, descritos por um japonês que ganhou o Nobel em 1968 e se matou em 1972, têm um sentido quase pictórico, sobretudo na cena em que Keiko, a apaixonada e estranha discípula da pintora Otoko, confessa que tem um mamilo insensível e não permite que ninguém o toque. Não foram das horas mais extraordinárias que passei, mas não se pode querer tudo e aprendi muitas coisas sobre o país do Sol nascente e... a sua pintura.
“A Casa das Belas Adormecidas” de Yasunari Kawabata é talvez uma das mais belas histórias que já li - e sim, é quase como se a trama se desenrolasse num rolo de seda em delicadas pinceladas... Atrevo-me a recomendá-lo, caso não o tenha lido. Gabriel Garcia Marquez retomou a história em "Memórias das Minhas Putas Tristes" mas falta-lhe, quanto a mim, a complexidade, a doçura e a subtileza da escrita de Kawabata . Por isso, vou com certeza ler este "A Beleza e a Tristeza". Outra pérola é “Máscara de Neve”, um livrito maravilhoso, do holandês Cees Nooteboom . E, se tiver paciência (eu só li o primeiro volume), o "Romance do Genji ", escrito no séc.XI por uma mulher, Murasaki Shibuku , ajuda a perceber certas coisas no Japão de hoje.
ResponderEliminarCristina Carvalho
Gostava era de saber quem era o dito professor... ;-)
ResponderEliminarA curiosidade matou o gato... Mas posso revelar: Joaquim Manuel Magalhães.
EliminarEstranhamente (ou nem tanto assim), as considerações do professor Magalhães sobre esses entrecruzamentos de sentidos em várias formas de arte têm-se revelado bem pertinentes, por muito que à partida soem improváveis...
EliminarQuanto à obra de Kawabata , li apenas Mil Grous. Percebo, pelo que escreve, que alguns dos motivos a que recorre se vão repetindo nos seus livros. Em Mil Grous notei, sim, uma enorme força imagética no texto, que transporta o leitor pelo imaginário japonês. Não sei se é (apenas) neste sentido que diz que o romance é uma "obra sobre a pintura japonesa" mas, a sê-lo, compreendo perfeitamente!
Recomendo-lhe vivamente, prezada Maria do Rosário, a leitura de outro romance de Kawabata: "O país das neves". A tradução brasileira (Editora Estação Liberdade), feita por Neide Hissae Nagae, da Universidade de São Paulo, é primorosa.
ResponderEliminarGosto dos livros deste escritor e tenho vários, mas este não conhecia. Estive a tentar encontrá-lo em sites de livrarias e não consegui. Será que está esgotado ou vai ser ainda editado?
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