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A mostrar mensagens de fevereiro, 2011

Animais raros

Há muitos anos, a Quetzal, ainda dirigida por Maria da Piedade Ferreira, publicou um belíssimo romance de Juan Eslava Galán, que ganhara o Prémio Planeta em 1987. Intitulava-se Em busca do Unicórnio e narrava a viagem de um grupo de besteiros castelhanos por territórios de África em demanda do animal mítico cujo corno desfeito em pó curaria a impotência do rei Henrique IV (e também a história de amor e sacrifício de um deles, apaixonado que estava pela virgem que, supostamente, atrairia o unicórnio e os acompanhava naquela expedição); passavam-se vinte anos e, entretanto, Castela passava da Idade Média a uma certa modernidade, regressando os expedicionários a um país completamente distinto daquele donde tinham partido. Há pouco tempo, o unicórnio voltou a aparecer num romance muito bonito assinado por Martin Davies, A Linguagem Secreta das Mulheres (no original, The Unicorn Road), que cruza a história de uma rapariga chinesa que abandona a sua terra para se casar com um desconhecido e a de um jovem em busca de um unicórnio para um bestiário muito peculiar. Ambos os livros merecem uma leitura atenta e deixam um rasto de beleza depois de os terminarmos.

O tempo do escritor

Sou vítima de stress desde que trabalhei num projecto que tinha prazo certo para ficar pronto e no qual nada podia ser adiado. Nessa altura, labutava até às tantas da manhã para deixar tudo pronto e vivia no pânico de me esquecer de alguma coisa – a ponto de, terminado o projecto, dar por mim a decorar sem querer todas as coisas que via escritas (mesmo que em toldos de pastelaria, carrinhas de lavandaria ou etiquetas de roupa). Nunca mais me curei nem consegui reaver a tranquilidade que me permitiria organizar racionalmente o tempo e tenho, por isso, inveja de quem consegue fazer um uso perfeito das horas que passa acordado. Miguel Real, por exemplo, é um ás na matéria: consegue ler tudo o que sai de literatura portuguesa, escrever dois livros por ano, redigir quinzenalmente uma crítica literária, criar textos teatrais, dar cursos de literatura, ser professor de Filosofia do Ensino Secundário, prefaciar e apresentar livros de outros autores (e escreve sempre à mão as primeiras versões). Um dia, perguntei à Filomena, sua mulher, se ele dormia – e ela respondeu-me que as oito horas necessárias a tanta actividade. Perante a minha surpresa, confidenciou-me, porém, que ele era capaz de ficar a escrever no parque de estacionamento do supermercado enquanto ela ia às compras e que não viam televisão nem iam ao cinema.  Mesmo assim, achei que é precisa uma grande organização mental para conseguir produzir tanta coisa de monta. Mas cada escritor tem, certamente, o seu tempo.

A ditadura das vendas

Como editora num grande grupo, no momento da decisão sobre a publicação de uma obra, tenho sempre um tirano a ciciar-me ao ouvido que os livros têm de se vender. Sei que fui eu que o criei como uma espécie de autocensura, que me permite ter os pés bem assentes na terra e recusar o que sei de antemão vir a ser um fiasco e, por outro lado, me puxa pela imaginação para tornar mais vendável o que, à partida, não tem grande potencial comercial mas merece, inequivocamente, ser dado à estampa. Mas a ditadura não é de hoje e aquilo que se vende impera sobre o que é bom há já muitos anos. Em 1996, despedi-me da editora onde trabalhava e – desempregada que fiquei – comecei a responder a anúncios, dentro de actividades mais ou menos compatíveis com as funções que poderia desempenhar. Um deles dizia respeito à vaga para director de publicações num grupo de jornais e revistas, e fui chamada para uma entrevista pela empresa que se ocupava do recrutamento. Porém, assim que cheguei, disseram-me assim à queima-roupa que tinha sido convocada por ter o currículo que tinha, mas não ficaria com o lugar pela mesma razão... Confundida, quis saber porquê. Explicaram-me então que se tratava de contratar alguém que dirigisse quatro publicações, entre as quais figuravam as revistas Maria e Nova Gente. E que, embora as minhas habilitações e experiência editorial obrigassem a que fosse entrevistada, a verdade é que o meu perfil indicava que tentaria melhorar o conteúdo e subir o nível dessas revistas, quando o que se pretendia era mantê-los para que se continuassem a vender...

O fim dos jornais

No meio em que trabalho, todos os dias alguém se lembra de falar do fim do livro em papel e de um futuro risonho cheio de livros electrónicos, descarregados nas nossas máquinas a partir de um armazém virtual. Já aqui falei do que penso acerca do assunto; mas o caso dos livros não é filho único – e com o aparecimento dos jornais online e os seus milhares de seguidores, é igualmente plausível o desaparecimento destes na versão em papel. Eu cá começo o dia a folhear o Público e a ler as gordas e algumas das mais pequenas – e não consigo, assim sem mais nem menos, passar-me para o ecrã do computador; mas entendo que muitos o façam, porque, ao contrário do que antigamente acontecia, as redacções dos jornais hoje ficam às moscas pelas oito da noite e, como tal, aquilo que lemos de manhã é muitas vezes obsoleto e desactualizado. Contudo, acredito que possam sobreviver em papel publicações mais suculentas, que substituam a notícia pura e dura (legível online) por um jornalismo de investigação de que muitos diários e semanários desistiram, mas que as pessoas apreciam ler. Tenho, de resto, saudades da velha revista do Expresso, onde li saborosos artigos de investigação (como uma inesquecível história do banho e dos hábitos de higiene) e da revista LER dos primórdios, em que Francisco José Viegas fazia um levantamento exaustivo de autores de determinado país e nos dava uma panorâmica da sua literatura. Hoje, que temos muito mais leitores activos do que nesse tempo, não seria de apostar nisso mesmo?

Correntes d’Escritas

Logo à tarde, parto mais uma vez para a Póvoa de Varzim onde assistirei à nova edição das Correntes d’Escritas, o melhor encontro de escritores a que já fui na vida. Desta vez acompanharei três autores – a Aida Gomes, o Mário Lúcio Sousa e o David Machado – e tenho a certeza de que, como estreantes no certame, também eles vão ficar aficionados a partir de agora. Tenho razões de sobra para ser uma das maiores fãs das Correntes, até porque foi ali que começou a minha relação a sério com o Manel (já nos conhecíamos há catorze anos e temos outros catorze de diferença) num certo 14 de Fevereiro de 2004 (ele há coincidências), mas muito antes disso já o encontro me tinha levado à certa. Em primeiro lugar, porque a organização é feita sem mácula e de forma afectuosa e familiar (já levaram canja ao quarto de um autor meu que adoeceu por lá); em segundo lugar, porque essa mescla de europeus, africanos e latino-americanos torna os portugueses e espanhóis menos formais e dá um colorido fantástico às mesas-redondas, de onde brotam sempre histórias belíssimas e momentos inesquecíveis; em terceiro lugar, porque ali os egos dos artistas se diluem muito facilmente nos cafés, nas cervejas e nos whiskies bebidos até altas horas todas as noites; e, finalmente, porque há sempre público num auditório onde o difícil é encontrar uma cadeira livre. Mesmo com as restrições orçamentais, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim manteve o encontro – e nós ficamos contentes com isso.

Sem fios

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O Manel leva o seu iPad para todo o lado, mas, como se enganou e comprou um modelo menos sofisticado do que era preciso (não tenham pena, pois assim que apanhe o mundo distraído comprará o mais moderno que encontrar), quer saber se o hotel onde vamos ficar durante as Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, esta semana, é um espaço «wireless». Nem de propósito, a Alice Vieira mandou-me por e-mail este magnífico cartoon, que não resisto a partilhar, sobre a tecnologia sem fios. Divirtam-se.


 


Pobres autores

Não me canso de dizer que a edição já não é o que era – e que, se nos velhos tempos era em torno do autor que tudo girava, agora parece ser o leitor quem dita as regras do jogo. Fui, aliás, surpreendida um dia destes por uma notícia que me fez pensar que os escritores foram irremediavelmente atirados para segundo plano. Rezava o texto que a autora norte-americana de The Vampire Diaries (colecção de livros e série de TV de enorme sucesso), de seu nome L. J. Smith, acaba de ser despedida pela editora Harper Collins, que é dona dos direitos de autor da saga. Parece que os seus últimos livros se afastaram bastante da ideia original da colecção e, ainda que os espectadores de TV não tenham dado por isso, a editora mandou a senhora embora e comunicou que a série vai ser prosseguida por outra autora. Ou seja, o que importa são as personagens e os seus conflitos, e não quem os criou e escreveu (e, se Smith tinha um estilo de escrita distinto da sua sucessora, isso não parece afligir ninguém). Mas o mais estranho é que a vítima de despedimento pede, na sua página de Internet, aos leitores da saga que não boicotem a editora e continuem a ler as aventuras dos vampiros que inventou. Ou recebeu uma choruda indemnização para ficar quieta, ou realmente um autor já não é senão uma peça facilmente substituível da engrenagem.

Uma visita do passado

Um dia destes, na coluna dedicada à literatura infanto-juvenil que Rita Pimenta assina aos sábados no Público, recebi uma grata visita do passado. Tratava-se da reedição de um livro que saiu originalmente em 1966 e foi, por essa época, oferecido à minha irmã e experimentado por ela e por mim ao longo de muitos meses na cozinha lá de casa. Chama-se A Colher de Pau e tem como subtítulo O Meu Primeiro Livro de Cozinha; e, apesar de ser uma obra traduzida, foi adaptada ao contexto português por Maria de Lourdes Modesto, que, logo a abrir, limitava a sua leitura às meninas, pois a cozinha não era então coisa de rapazes. A Verbo teve uma excelente ideia ao tirar este simpático compêndio de culinária juvenil do esquecimento e, tal como quando eu era miúda, em oferecer a quem o compra uma colher de pau (não sabemos é se a ASAE vai achar muita graça). A capa, ao contrário do que costuma acontecer com as reedições de livros esquecidos, é exactamente a mesma que me habituei a ver na estante da minha irmã e só espero que hoje as miúdas achem ainda piada a preparar refeições – da sopa à sobremesa – com a ajuda deste livro útil e bem-humorado e, claro está, da sua colher.

Desobediência

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Conheço Eduardo Pitta há muitos anos e aprecio, acima de tudo, a sua frontalidade desarmante – qualidade que nem sempre se encontra nas gentes da cultura, por vezes demasiado preocupadas com o afecto dos outros ou a possibilidade de um tacho onde possam fazer os seus cozinhados sem grandes temperos. Mas, além de pessoa que assume o que diz e pensa, Pitta é um poeta consolidado há décadas, um crítico literário regular e um bloguista de respeito, escrevendo todos os dias no Da Literatura. Pois acaba de reunir uma escolha de poemas seus num volume que dá pelo nome de Desobediência, título que lhe fica bem, sob a chancela da Dom Quixote e com prefácio de Nuno Júdice, autor com obra publicada na mesma colecção. Entre os textos presentes na colectânea, há muitas pérolas, das quais destacaria para amostra este par de versos de que gosto particularmente: «Tinha na retina corpos / imperdoavelmente disponíveis.» Se gosta de poesia, guarde a sua retina e a sua disponibilidade para a leitura desta recolha.


 


 


Religião tecnológica

Escrevi os meus primeiros livros numa velha máquina de escrever que ainda nem era eléctrica e lembro-me de ter de passar tudo a limpo várias vezes (e das dores nas costas) por não gostar de entregar à editora folhas rasuradas. O computador pessoal trouxe imensas vantagens ao meu trabalho – como autora e como editora – e hoje já não viveria sem ele. Há, porém, coisas para as quais ainda o dispenso, e – sei lá porquê – não me passaria pela cabeça sentar-me a escrever um poema directamente  num teclado de computador. E, contudo, li recentemente que nem as coisas mais sagradas estão livres de uma adequação tecnológica. Pois é, o Vaticano acaba de lançar uma aplicação para o iPhone com vista a receber confissões dos crentes. O programa, chamado Confession, custa pouco mais de um euro e meio e oferece aos utilizadores dicas e orientações que lhes permitem obter o perdão divino... Se Fernando Pessa ainda fosse vivo, certamente diria: «E esta, hein?»

O fim da escuridão

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Publiquei em finais de Agosto o quarto romance de João Tordo, de que aqui falei oportunamente. O autor está comigo desde o seu primeiro livro e agradeço-lhe muito por isso. Como todos sabem, foi um dos galardoados com o Prémio Literário José Saramago – distinção que, de acordo com a minha experiência, atira os vencedores para um patamar de reconhecimento bastante amplo. O Bom Inverno (assim se chama esse último romance, uma das três obras nomeadas para a categoria de Melhor Livro de Ficção Narrativa, dos Prémios Autores 2011, iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores) tem sido, aliás, um grande sucesso de crítica e vendas, como merece e era de esperar. Mas é bom não esquecer a obra anterior – e serve este post para avisar quem nunca leu o primeiro romance de João Tordo de que ele vai estar de novo disponível, agora pela mão da Dom Quixote. Cruzamento de quatro histórias kafkianas e algo góticas, O Livro dos Homens sem Luz mostra já muito daquilo que seriam as características do autor, que tem, entre outras, a particularidade de escrever uma literatura muito visual e cinematográfica e gosta de espaços fechados produtores de grande tensão. A capa – mais bonita do que a da primeira edição – é do Rui Garrido.


 


 


Palavras mágicas

Há muitos anos, fui contactada por uma agência de publicidade para lá ir dizer o que esperava de uma pasta de dentes. Compareci no dia combinado e fiquei eu própria surpreendida com a quantidade de coisas que consegui verbalizar sobre uma matéria aparentemente comezinha como aquela. Não era a única pessoa presente, claro, e essa circunstância acabou por desencadear um diálogo de mais de uma hora à volta do tema «dentífricos», com intervenções memoráveis sobre cor, sabor, textura, embalagem, preço e ecologia. Mais tarde, explicaram-me que aquela reunião era parte daquilo a que se chama um «estudo de mercado» e que, quando uma agência quer lançar um produto, tem de saber o que os clientes exigem e desejam para construir a campanha em consonância. Ora, o sucesso de um livro é sempre uma incógnita e, para os livros, não há realmente estudos de mercado possíveis (por isso nos zangamos quando chamam «produtos» aos livros). E, no entanto, parecem existir palavras mágicas que conduzem quase sempre ao êxito. A melhor que conheço é «chocolate» e, se um título a inclui, é quase certo que o livro se vai vender bem. O romance Chocolate – que depois deu um filme menor com a admirável Juliette Binoche – tirou Joanne Harris do anonimato e transportou-a para um estrelato que se calhar nem merecia, e o Baunilha e Chocolate de Sveva Casati Modignani pô-la a vender de repente milhares de exemplares num país onde os escritores italianos raramente vingam...

Escritores na sombra

Tenho um amigo escritor (de grande qualidade, é bom que se diga) que, no seu país, e quando era mais jovem, escreveu a autobiografia de outra pessoa – o presidente de um grande clube de futebol. Calculo que lhe tenha feito algumas entrevistas e lido o bastante a seu respeito – e a verdade é que o homem se reviu no que leu como se tivesse sido ele próprio a redigir o texto (parece que só o título do livro é da sua autoria). Conheço outra pessoa que vive de escrever livros alheios, mas não escreve os seus – e tão-pouco quer que o seu nome apareça sequer como colaborador ou redactor na ficha técnica, mesmo quando lho sugerem; talvez, no seu íntimo, esteja convencido de que um dia ainda há-de escrever alguma coisa que valha a pena e não queira que os leitores identifiquem o seu nome com obras que julga menores (mesmo se escritas pela sua mão). Sei que existem muitos escritores na sombra neste momento em todo o mundo – e Portugal não é excepção – e pergunto-me o que sentirão quando vêem os seus textos serem publicados com a assinatura de outra pessoa. Claro que, nestes casos, a discrição é a alma do negócio e nunca se acusarão, mas não terão pena de que, como acontece nos EUA, o seu nome não apareça na capa debaixo do do (falso) autor? E não gostariam de ocupar o tempo a escrever outras coisas, que pudessem assinar e publicar, em vez daquelas? E, quando um desses livros vende às pazadas, não pensarão no que poderiam ter ganho se fossem (e são) os seus verdadeiros autores? E como serão as pessoas que aceitam ficar com os louros (e o dinheiro) dos que assim trabalham?

Pré-editores

Hoje fala-se muito do papel do editor como interventor no processo de edição de um texto com opiniões, críticas e sugestões que visam torná-lo, se é que isto se pode dizer, mais próximo da perfeição. E comenta-se que este editor – que o Reino Unido e os EUA sempre conheceram – é figura recente em Portugal, país onde ao longo de décadas um original ou era publicado tal como estava, ou simplesmente não o era. Não sei, na verdade, se as coisas são bem assim, pois creio que os editores sempre se sentiram com autoridade suficiente para fazer comentários e dar pistas que conduzissem a um melhor resultado final; mas, mesmo que essa não fosse a prática comum, quase todos os autores tiveram e têm os seus «editores» privados – pessoas isentas e informadas que eles consideram capazes de lhes dar um parecer consistente e de sugerir melhores caminhos para chegar aonde querem quando as vias se entortam e tudo parece ir dar a um beco. Em muitos dos livros estrangeiros que publiquei, a lista de agradecimentos era suficientemente clara para eu saber que, antes de mim ou do editor original, tinha havido efectivamente outras pessoas a ler e apreciar o texto e que o que ali me chegava já vinha limpo de impurezas. Lembro-me de que, quando abri o fantástico As Horas, me surpreendi com o número de nomes constantes dos agradecimentos, mas depois percebi que o autor, tendo escrito parte do romance numa residência para escritores, havia podido contar com ajuda privilegiada e não a desdenhara. O pior é quando estes pré-editores são os pais e os amigos do potencial escritor e acham que tudo o que ele faz é perfeito...

O difícil

Um dia destes, estava a pensar que, com a idade, nos tornamos mais preguiçosos, até para pensar. Quando andava na faculdade, passava a vida a ver filmes alemães estranhíssimos e espectáculos de teatro e dança excessivamente crus – e hoje dou por mim a pensar que já não tenho estofo para aguentar hermetismos ou violência, por mais estéticos que possam ser (quando devia ser ao contrário, pois só agora possuo maturidade para os apreciar e compreender). A minha mãe – que está com 86 anos, mas sempre leu muito – também diz amiúde, quando me pede livros emprestados, que não lhe leve nada de muito complicado... Ora, recentemente, a Casa Fernando Pessoa inaugurou uma sequência de intervenções sobre Livros Difíceis – e a primeira dedica-se a Proust e tem como orador Pedro Tamen, que é também o tradutor de Em busca do Tempo Perdido. A ideia parece-me belíssima e, como tal, «convido» todos os jovens que lêem este blogue a irem ouvir os experts e a deixarem-se encantar depois pelas tais obras difíceis – se ainda as não conhecerem, claro – que hão-de parecer certamente mais fáceis com essa ajudinha dos especialistas. É que, quando chegarem à minha idade, já não vão ter provavelmente coragem de se atirar a elas...

Rádio-inactividade

Há uma semana, a revista «Única» do Expresso dedicava um número à ideia de «bi» (dois) com vários artigos interessantes sobre bipolaridade, gémeos, bissexualidade, etc. Um deles falava de todos os que até agora bisaram grandes prémios como o Oscar ou o Nobel – e, quanto a este último, houve vários, embora nem sempre o galardoado tenha recebido o prémio na mesma área de actividade (houve quem recebesse o da Química e, a seguir, o da Paz, por exemplo). Marie Curie, que dividiu com o marido e com Becquerel o Prémio Nobel da Física em 1903 por descobertas no campo da radioactividade, recebeu também o Nobel da Química em 1911 pelo isolamento dos elementos rádio e polónio. Ora, um dia, estava eu a ouvir a Rádio Paris Lisboa (hoje Rádio Europa, creio eu) e apanhei um programa sobre a magnífica Madame Curie que, a par de Pasteur, tinha sido um dos meus ídolos durante a infância por causa de umas biografias que me tinham oferecido e que eu lera e adorara. Mas a jornalista, quando se referiu à descoberta do rádio (elemento químico), fez certamente rir os ouvintes ao dizer que, se não fosse Marie Curie, nenhum de nós poderia estar a ouvi-la pelo rádio naquele instante. Confusão que, enfim, denota uma certa inactividade em termos de leituras...

A velha educação

Um dia destes estávamos a conversar à mesa sobre tudo aquilo que o Manel, a minha sogra e eu aprendemos na instrução primária (para quem não sabe, eram os primeiros quatro anos da Escola Básica) e a comparar toda essa informação com o pouco que hoje a escola ensina às crianças no mesmo período. Falámos das estações de comboio que era preciso decorar nas principais linhas do País e do número exagerado de reis, cognomes, distritos, concelhos, serras e rios que tinham de estar na ponta da língua de qualquer aluno que se prezasse. Foi então que me lembrei de que, na quarta classe, fui chamada ao quadro para debitar junto de um mapa as produções agrícolas de Goa, Damão e Diu (territórios sobre os quais já nem imperávamos) – e, juro-vos, eu sabia aquilo tudo de cor, mais os rios de Angola e Moçambique e seus afluentes, se alguém na altura mo perguntasse (e ainda sei alguns). Embora seja adepta de muitas das técnicas de aprendizagem tradicionais (como, por exemplo, a memorização), a verdade é que, enquanto recordava essa cena, me apercebi de que era realmente um pouco excessivo para uma criança de nove anos conhecer em detalhe tanta coisa de que, provavelmente, nem ia fazer uso; mas, quando o estava a verbalizar, o Manel disse-me que ainda mais ridículo era as crianças de Angola e Moçambique terem de saber de cor as estações do caminho-de-ferro em Portugal, uma vez que estudavam pelos mesmos manuais escolares que as portuguesas. Enfim, a velha educação tinha destas coisas...

Writers friendly

De todas as cidades que conheci até hoje, posso afiançar que Dublin é a mais writers friendly. É certo que a Irlanda – país de algum modo periférico como o é Portugal, mas com a sorte de falar inglês – tem já quatro prémios Nobel da Literatura (o genial Yeats, Beckett, Bernard Shaw e o poeta Seamus Heaney – a ordem é arbitrária), mas vive orgulhosa de todos os seus escritores vivos e mortos, como o atesta, aliás, um museu que lhes é dedicado na capital; e tem, além disso, as livrarias abertas até à meia-noite e deliciosos percursos joyceanos oferecidos aos turistas que tenham ou não lido o Ulisses (em Lisboa, ainda ninguém se lembrou de fazer um tour pessoano, acho eu, o que é uma pena). E é justamente em Dublin que um grande escritor espanhol faz situar a acção do seu mais recente romance, a sair em Fevereiro com a chancela da Teorema. Falo de Enrique Vila-Matas e do seu Dublinesca, pelo qual ando já com água na boca. É que a obra versa precisamente sobre os destinos de um editor literário que sabe retirar-se a tempo de não ser retirado pelas novas regras da indústria editorial, mas vive amargurado pela ideia de que não encontrou aquele autor genial que daria sentido à sua vida e crê, por qualquer razão, que é em Dublin que o encontrará.  Já li meia dúzia de páginas e digo-vos que promete.

Os patos de Sophia

Este vai ser o ano de Sophia de Mello Breyner e as comemorações iniciaram-se com a entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional. Os jornais divulgaram bastante o acontecimento e um deles revelou uma história genial que os filhos quiseram partilhar com os presentes na cerimónia e que também eu não resisto a partilhar com os leitores deste blogue. Ao que parece, terão dado um dia a Sophia dois patinhos amorosos, a que ela achou imensa graça – enquanto foram pequeninos, claro, porque entretanto cresceram e ela ficou sem saber o que fazer com eles. Como mulher pragmática que era, telefonou mesmo assim para o então presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, propondo-lhe a oferta dos ditos patos para os belíssimos jardins da Fundação. O senhor não terá achado o facto estranho, porque marcou um dia para a entrega, convidando inclusivamente a poetisa para almoçar com ele. Sophia compareceu na data e hora marcadas com os seus patos (que, claro, ficaram a fazer parte da fauna gulbenkiana a partir desse dia) e, durante o almoço, ficou muito surpreendida quando Azeredo Perdigão a presenteou com uma medalha, tendo indagado o porquê de tal distinção (pareceu-lhe que a oferta dos patos, por certo, não o justificava). Foi nesse momento que Azeredo Perdigão lhe explicou que era a primeira vez que alguém vinha dar alguma coisa à Gulbenkian, porque normalmente só vinham pedir...

Sentimento de posse

Ser possessivo não é, necessariamente, uma coisa boa, mas a verdade é que há muitos livros que queremos ter na estante e não nos basta ler emprestados ou descarregados num aparelho qualquer. Mesmo sem grande afecto pelos e-readers, tenho de confessar que ultimamente tenho achado graça ao iPad e à sua excelente visibilidade e até já «folheei» livros e artigos no do Manel, que – ele, sim – é doido por gadgets electrónicos e está sempre ansioso pelas versões mais modernas. E, mesmo assim, a circunstância de, pela primeira vez, considerar possível e agradável ler um livro num dispositivo deste tipo não me retira a vontade de o ter em papel; porque, mesmo que o saiba ali ao alcance de uns cliques, a verdade é que esse livro não é meu, é de uma empresa qualquer que mo disponibiliza mas mo pode tirar quando lhe der na gana (já aconteceu com a Amazon quando se puseram problemas de copyright); e, além disso, basta que a bateria se esgote para ele me desaparecer da frente sem dó nem piedade. Enfim, é um serviço, e não um bem. Possuir um bem é coisa humana e todos gostamos de ter coisas, nem que seja para saber que as temos ou olhar para elas de vez em quando. No artigo de Beigbeder de que falei há dias, publicado na revista Lire, o escritor diz que, no dia em que desaparecer este mediador que é o editor e os livros estiverem apenas disponíveis na Internet, as pessoas deixarão de ler. Vivam então os possessivos.