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A mostrar mensagens de 2019

Boas Festas

Mais logo vou sair daqui da editora para um período de férias respeitável e só regressarei no dia 6 de Janeiro. Farei também gazeta aqui no blogue, ao qual só voltarei nessa segunda-feira de 2020, como é costume, com uma proposta de leitura. Espero que os Extraordinários tenham um excelente Natal, na companhia de amigos e família, e que não se empanturrem demasiado de guloseimas e fritos; que recebam muitos livrinhos de presente (e também os ofereçam); que não apanhem frio ou chuva ou gripe; enfim, que aproveitem a «quadra», como se dizia dantes, para descansar, ler, conversar, esquecer o ódio sistemático que estão sempre a impingir-nos sob a forma de posts, notícias, comentários, reportagens, debates, polémicas. E voltem ao activo retemperados, satisfeitos e, claro, com vontade de consultar as Horas Extraordinárias. Abraços de boas festas para todos, boas entradas em 2020 e, evidentemente, obrigada pela vossa companhia.

Crónica e uma história

Hoje é dia de crónica. O link aí vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-dez-2019/agendas-11589770.html


Contaram-me uma história deliciosa que envolve a poetisa Natércia Freire que, para quem não saiba, era uma católica fervorosa de missa quase diária. Vinha ela da igreja do Loreto, ali ao Chiado, quando ao descer a Rua Garrett encontrou um amigo das letras à porta da Livraria Bertrand, ponto de encontro dos escritores desse tempo. O tal amigo apresentou-lhe um intelectual brasileiro com quem estava, que ela não pareceu reconhecer, mas este saiu-se com a tirada de que na véspera os dois tinham até dormido juntos. Um escândalo, claro, naquela época, para uma senhora pura e recatada como era a poetisa, que corou e se preparou para defender a sua honra. Foi então que o brasileiro, sempre engraçado, esclareceu que tinha sido numa chatérrima conferência a que ambos tinham ido no dia anterior, coisa que só dava mesmo para dormir... Bom fim-de-semana. Descansem.


 


 


 

Maturidade

Não é segredo que há muitos anos escrevi colecções de livros juvenis – e fi-lo sobretudo tentando fazer leitores. Quando comecei, dava aulas de Português e tinha como bitola a faixa etária das minhas turmas. Os livros estavam classificados para mais de oito anos, mas eu sabia que a maioria dos seus futuros leitores teria dez a doze anos. Escrevi mais tarde também alguns livrinhos soltos para meninos mais pequenos, com cerca de 40 páginas em letras gordas e bastantes ilustrações; e fiquei um pouco estupefacta quando, nos últimos anos em que acompanhei as Olimpíadas da Leitura, dedicadas ao 2.º ciclo do Ensino Básico (10-12 anos), apareceram não os livros das primeiras colecções, como seria natural, mas os pequeninos que eu via mais para crianças de 7-8 anos. Pois hoje, num site que recomendava livros para oferecer a crianças no Natal, reparei que a versão ilustrada de O Diário de Anne Frank, O Meu Pé de Laranja Lima e A História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar apareciam todos na faixa «Maiores de 12 anos». Bem, talvez hoje a maioria dos jovens atinja de facto, a maturidade mais tarde e ainda sejam acriançados aos 12 anos. Deve ser também por isso que é tão difícil um romancista de qualidade estrear-se antes dos trinta, digo eu.

A nossa pessoa é Pessoa

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Dantes, quando um português ia ao estrangeiro (no tempo da outra senhora, como se costuma dizer), só lhe falavam de Amália e Eusébio, como se Portugal não tivesse mais ninguém de jeito. E, se é bem certo que ainda existirão muitos que nos falarão dos conterrâneos Mourinho e Cristiano Ronaldo, a verdade é que felizmente já muita gente nos refere o poeta genial que foi Fernando Pessoa. Isto devemo-lo também a pensadores e estudiosos de outros países, como Antonio Tabucchi, por exemplo, que a ele se dedicaram de alma e coração e o divulgaram por todo o mundo. E ainda hoje jovens académicos como Jeronimo Pizarro, da Universidade dos Andes, na Colômbia, dirigem revistas de estudos pessoanos, como a Pessoa Plural, que no seu último número conta com o poeta Antonio Saez-Delgado como editor-convidado e Onésimo Teotónio de Almeida como co-editor. É um número especial com artigos de muitos especialistas em Pessoa vindos das Sete Partidas do Mundo e por isso altamente recomendável para quem quer ver como Pessoa se está mesmo a tornar a nossa Pessoa. Mais informação aqui:


 


http://pessoaplural.com 


 


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Presentes

O The Guardian manda sempre um email por esta altura do ano a lembrar que tem presentes de Natal absolutamente fascinantes, sobretudo para oferecer a quem já tem tudo. Entre eles estão, evidentemente, os cursos e palestras organizados pelo  próprio jornal com temáticas e orientadores de todas as áreas e quadrantes. Cá, não há infelizmente muita coisa desse tipo que se possa oferecer: nem as conferências que ocorrem ao longo do ano têm bilhetes que se comprem com tal antecedência (e costumam ser divulgadas quase em cima da hora), nem os nossos meios de comunicação promovem (ou promovem pouco) palestras e cursos. Eu própria já recebi com gosto bilhetes para espectáculos nos anos e no Natal (e também os ofereço), mas é o mais parecido que há com estas ideias que o The Guardian propõe. E livros, alguém ainda os quer? Mesmo os editores vieram entusiasmados da mais recente Feira do Livro de Frankfurt com os audiolivros... Penso que são bons enquanto se passa a ferro ou se fica preso no trânsito, e conheci até um belga que tirou um curso de espanhol com audiolivros que punha no leitor do carro. Mas ouvir um livro não é a mesma coisa do que ler um livro. Eu pedi alguns livrinhos de presente, mesmo correndo o risco de a minha casa um dia destes vir abaixo. Até quando haverá livros é que já não sei.

Prémio lusófono

No mesmo dia em que soube que alguns jornalistas da área da cultura estão a ser «dispensados» (mesmo que com indemnização) de uns quantos jornais e rádios portugueses e que os suplementos culturais tendem a passar a ser apenas online (para quê gastar papel quando os grandes diários portugueses têm tiragens de cerca de 3000 exemplares ou menos?), louvo a iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores de premiar a cultura lusófona com mais um galardão anual, atribuído a um criador de um país de língua portuguesa de qualquer disciplina artística (música, artes plásticas, litertaura...) e «destacando a importância da sua obra e o seu contributo para valorizar o património da lusofonia». O prémio funcionará sobretudo como consagração, ou seja, será atribuído a autores que tenham criado consistentemente ao longo da sua vida artística, e o montante será em breve anunciado. É bom saber que alguém se preocupa em recompensar os autores.

Crónica e dança

Hoje é dia de crónica, aí vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/30-nov-2019/vergonha-11566242.html


Deixo-vos uma nota sobre um assunto que só tem que ver com livros porque Hélia Correia escreveu O Bailarino na Batalha, romance que venceu o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e me lembrei dela quando li o artigo. Aliás, Hélia Correia acha que a dança é algo maravilhoso e fica feliz quando vê crianças a dançar. Num interessante artigo de uma revista inglesa online leio que os alunos deviam levantar-se mais vezes das cadeiras nas escolas e... sim, dançar; que a dança deveria fazer parte do currículos, até porque as crianças estão muito menos activas fisicamente desde que vivem amarradas a jogos de computador, e a disciplina de Educação Física na escola comporta um lado de competição que vai contra o prazer simples de fazer exercício e descontrair. Leiam os romances e os poemas de Hélia Correia e façam intervalos para dançar. Bom fim-de-semana.

Mortes limpas

Emprestaram-me um livrinho muito bonito do escritor italiano Alessandro Baricco para ler num fim-de-semana que iria passar fora da minha casa. Iria ter umas horas livres (poucas), e uma amiga lembrou-se de que este seria, em peso, tamanho e qualidade, o ideal para cumprir a função. E ainda bem, porque gostei mesmo muito deste Sem Sangue, um livro muito inteligente passado num período que se segue a uma guerra (não sabemos qual, mas envolveu experiências médicas terríveis, embora se diga que durou apenas 4 anos e se passe em território de nomes espanholados) que, na verdade, continua a viver dentro das personagens, demasiado marcadas para não se quererem vingar. Na primeira parte, um grupo de homens cerca a casa de Manuel Roca para isso mesmo, uma vingança, e o perseguido esconde a filha pequena numa cave para a proteger. Na segunda parte, é essa filha, já de cabelos brancos, quem se encontra com um desses homens que participaram da vingança e que, abrindo o alçapão e vendo-a lá escondida, não disse nada aos outros. É inesperado e belo, misterioso e cheio de frases para coleccionar. Leiam-no, se o encontrarem.

Más notícias para Sua Majestade

Quando comecei a trabalhar com livros, lembro-me de que Portugal era ainda um país com fortes marcas do analfabetismo que se vivera em anos e anos de ditadura. Apesar de os intelectuais nessa época terem sido sobretudo influenciados pela cultura francesa, a verdade é que os índices de leitura do Reino Unido eram talvez os mais impressionantes para os editores portugueses e aqueles que estes sonhavam um dia igualar. Íamos à Feira do Livro de Londres e víamos gente a ler em todo o lado, nos bancos dos jardins e nos transportes, embora por vezes apenas literatura de supermercado, como então se dizia. Hoje, infelizmente, lá como cá, o que encontramos são pessoas com o nariz enfiado no telemóvel e o rosto que, se não se desvia um segundo para olhar o outro, ali sentado à sua frente, muito menos o faz por um livro aberto. Claro que isso só podia originar o que li numa notícia do The Guardian de sexta-feira passada: fecharam mais de 800 bibliotecas na Grã-Bretanha nos últimos dez anos. Um verdadeiro susto, que explica muito do que por lá está a acontecer.

Arte e clima

Hoje deixo os livros para falar de pintura, o que, mesmo não sendo o assunto característico deste blogue, também não há-de ser nenhum escândalo para os Extraordinários, até porque tem que ver com uma forma de educar e passar informação a quem gosta de arte. O Museu de Prado está de parabéns, pois não só tem a nata do seu acervo apresentada num programa de televisão pelo magnífico Jeremy Irons (que o seu charme não nos desvie dos objectos artísticos...), mas também porque resolveu contribuir para alertar o público dos perigos das alterações climáticas através de quatro obras-primas que «corrompe» em jeito de animação, com a mudança de cores e tons e, mais importante ainda, inundando ou desertificando a paisagem em redor. A campanha chama-se «Muda Tudo» e é uma maneira de chamar a atenção dos perigos a que estamos hoje sujeitos que é profundamente original e sem histerismo. Vale mesmo a pena ver. O link que vos deixo é de uma revista onde apanhei o artigo que fala disto.


https://www.revistaad.es/arte/articulos/museo-prado-alerta-cambio-climatico-alterando-obras-arte/24471

Um lugar especial

Há lugares especiais pela sua beleza, mas não é a isso que me refiro. É de um lugar que é feito por pessoas especiais e que só é especial por causa da dedicação dessas pessoas, já que, vazio, ninguém daria nada por ele. Como sabem os Extraordinários (ou pelo menos suporão), ando há anos a correr o País de norte a sul, em lançamentos, leituras, debates, festivais literários, homenagens, muita coisa, enfim, e conheço bibliotecas velhas e novas e bibliotecários lidos e outros que não passam de burocratas que querem preencher as respetivas agendas culturais. Mas nunca tinha tido, até recentemente, o grato prazer de ir à Biblioteca de Perosinho, em Gaia, que, sem um tostão do Estado, está de pedra e cal há muitos anos, recebeu prémios e medalhas, e nasceu tão-só do desejo de uns estudantes de terem na sua zona um lugar aonde irem ler e ilustrar-se. Fui lá a uma sessão num sábado à noite, friozinho que bastasse, e fiquei de cara à banda com a quantidade de público e sobretudo a presença de adolescentes (e participativos, ainda por cima!). Tudo organizado ao mais ínfimo pormenor por Vítor Fontes e Anabela Cardoso, pessoas que são mesmo de grande coração, e com a colaboração de muitos que quiseram ouvir, perguntar, recitar poemas e ler textos. O Manel até disse que é para coisas assim que se fez o 25 de Abril... Esta é a prova de que, quando as pessoas querem muito e trabalham, conseguem. Obrigada, Perosinho.

Crónica e contentamento

Hoje é dia de crónica e ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-nov-2019/ocidentalmente-11538949.html


Ainda ontem falava aqui de listas, e li que numa outra, esta no Brasil, o livro de Itamar Vieira Junior, Torto Arado, vencedor do Prémio LeYa no ano passado, ficou em terceiro lugar na categoria de ficção, atrás apenas de Roberto Bolaño e Silvina Ocampo, grandes nomes da literatura universal. Penso que Itamar Vieira Junior vai longe e desejo-lhe todo o sucesso do mundo. Penso também que os leitores e críticos brasileiros andavam sedentos de um livro como o seu, autêntico, belo, respeitador da herança de escritores como Érico Veríssimo (ou Guimarães Rosa, por exemplo, de quem acaba de publicar-se em Portugal uma nova edição de Grande Sertão: Veredas, que vou pedir de presente de Natal). Parabéns.

Mudam-se os tempos

Os tempos mudaram muito nas últimas décadas – as novas tecnologias viraram tudo do avesso e criaram um homem diferente, menos virado para a paciência, o desfrutar, a calma, o esforço, a concentração. A literatura dita séria está a sofrer drasticamente com isto e os seus leitores serão cada vez menos. Alguém afirma que, agora, ficção é na Netflix e na HBO, mas sabemos que ler desenvolve outras capacidades, desde logo a da imaginação. Ler põe algo de nós nas coisas, e ver não, é receber e pronto. Por tudo isto e também pela falta de espaço, as grandes enciclopédias tornaram-se digitais e deixaram de imprimir-se em papel. E agora leio com espanto que uma colecção que em Espanha ombreava com a Pléiade francesa vai ser destruída e reduzida a tirinhas de papel. Trata-se das Obras Completas do Círculo de Lectores, empresa pertencente ao Grupo Planeta no país vizinho, que anunciou recentemente o seu fecho, já que se tornou perfeitamente obsoleto vender livros de porta em porta a leitores que não só não querem ler, como não têm onde guardar colecções encadernadas, pesadas, extensas… Günther Grass, Vargas Llosa, Juan Goytisolo, Manuel Vázquez-Montalbán… no lixo. É a mesma coisa por todo o lado. E, ainda que nos faça pena, crendo que alguém ainda as podia aproveitar, desenganemo-nos: já ninguém quer estes livros, porque já não há quase ninguém para os ler, sobretudo neste formato. Mudam-se os tempos, sim, e em certas coisas para pior.

Antes de tudo

Estamos entrados em Dezembro (o frio já se sente, e de que maneira) e a aproximar-nos a passos largos do final do ano. Em breve virá o discurso natalício – iluminações, compras, montar a árvore e o presépio, livros bons para oferecer a todos os amigos e parentes; e, nos próximos fins-de-semana, um a um, uma a uma, os jornais e revistas irão dedicar-se a um exercício que adoram e que todos os anos se repete: as listas dos melhores… livros, filmes, exposições, peças de teatro, séries, músicas, enfim… Por isso, antes desse tudo, proponho um bocadinho apenas, mas diferente porque vindo de fora: a lista dos melhores livros de 2019 pelo… The Guardian, claro. Além de ter imensas novidades, porque há sempre livros que não saem ou ainda não saíram em Portugal, quem opina sobre eles tem geralmente a cabeça no lugar. Além disso, dá uma boa panorâmica do que podemos esperar que se publique em Portugal no ano que vem (as traduções levam tempo), embora já estejamos, como verão, muito em dia. Os livros da nobelizada Olga Tokarczuk e o recentíssimo A Barata de McEwan, por exemplo, já estão disponíveis. Mesmo assim, dá para descobrir muita coisa nova. E em todos os géneros, não falhando sequer livros para meninos pequenos e gente que adora cuscar as celebridades.


https://www.theguardian.com/books/2019/nov/30/best-books-of-the-year-2019?utm_term=RWRpdG9yaWFsX0Jvb2ttYXJrcy0xOTEyMDE%3D&utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=Bookmarks&CMP=bookmarks_email

O uso abusivo do K

Agora, que já lá vai a estuporada Black Friday (em alguns casos, foi uma autêntica Black Week e não se conseguia estacionar em lado nenhum que tivesse lojas nas proximidades), vou voltar às questões ortográficas. É que todos os dias dessa «semana negra» recebia um e-mail e via um cartaz a caminho do trabalho que me irritavam profundamente. Diziam «Kuanto Kusta o que queres comprar?» e depois tinha a frase «Encontra Aqui» dentro de um rectângulo para carregarmos e vermos onde poderíamos gastar dinheiro. Mas não consigo perceber o porquê do «Kuanto Kusta» em vez de «Quanto Custa». Se escrevem com cores berrantes (nomeadamente laranja), ainda têm de introduzir o erro para chamar a atenção porquê? E, já agora, porque não são coerentes e acrescentam «o ke keres komprar»? Francamente, num país em que as pessoas falam e escrevem tão mal e se fez um acordo ortográfico cheio de palavras com redacções facultativas que só serviu para confundir os menos informados, acho que a publicidade devia ser obrigada a cumprir a ortografia vigente e, como em certos países, pagar uma multa valente de cada vez que prevaricasse. É por isso que os nossos jovens já usam «k» em vez «que» a maioria das vezes...

O que ando a ler

Hoje é dia de abrir aos outros Extraordinários o livro que andamos a ler. E, no meu caso, trata-se de um clássico: A Lua e as Fogueiras, de Cesare Pavese, escritor italiano de quem li, infelizmente, poucos livros até agora, prometendo desde já corrigir-me. O que tenho em mãos é um dos últimos que escreveu (se não o último) antes de ter decidido acabar com a própria vida; e conta a história do regresso do Enguia (o nome que puseram ao protagonista em pequeno) à vila onde cresceu. Bastardo abandonado e entregue a uma família que o criou nos primeiros anos, vai depois aprender tudo numa quinta de produtores de vinho, cujo proprietário, o senhor Matteo, tem duas filhas adolescentes de um primeiro casamento, Irene e Sílvia, uma loira e outra morena, que atraem obviamente o pobre Enguia, mesmo sem o saber. Este, porém, de tanto observar a família para quem trabalha, percebe que terá de sair daquela quinta para um dia ser alguém, o que acontecerá mais tarde na América, donde regressa então rico e homem feito para revisitar os velhos amigos, entre eles Nuto, que nunca saíram da cepa torta, e assistir à tragédia que pode ser a vida de um menino num pequeno lugar. Simples, bonito, claro.

Crónica e livros de Natal

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-nov-2019/ler-eou-escrever-11518084.html


Para quem quiser oferecer livros no Natal, haverá uma Festa do Livro que começa já no dia 3 de Dezembro e vai até dia 24, todos os dias das 10h00 às 20h00, em Oeiras. Irá decorrer no Centro Comercial Galerias Alto da Barra (ao lado da NATO)  e será organizada pela BooksLive by BL Livreiros. A Livraria irá contar com milhares de livros e também com uma oferta cultural variada, com horas do conto e sessões de autógrafos. A não perder.

Língua portuguesa em crise

No mesmo dia em que leio a notícia de que a UNESCO oficializou o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, leio também como esta é tão maltratada nas nossas televisões. Em tempos, trabalhou comigo uma rapariga que tinha feito uma especialização em legendagem e tradução e se queixava de não arranjar colocação em nenhum dos canais existentes porque o trabalho era realizado havia anos pelas mesmas pessoas, que levavam pouco e por isso não eram substituídas. Eu não vejo muita televisão, embora já tenha apanhado erros cabeludos nos rodapés; mas desconhecia que estes são cada vez mais regulares; e Isabel A. Ferreira, no blogue O Lugar da Língua Portuguesa, conta: «A legendagem em Portugal é uma vergonha nacional. Diz da pobreza cultural e linguística em que o país está mergulhado.» E a seguir fala de «ignorância«, «analfabetismo», «falta de brio profissional» e, claro, da «forretice dos empregadores, que pagam uma ninharia». Então, o problema persiste? Pior, agrava-se: no artigo de Isabel A. Ferreira mostra-se a fotografia do ecrã de um telejornal da SIC em que, no rodapé, além de uma falta de concordância entre sujeito e predicado (que também é cada vez mais comum, mesmo na oralidade, em entrevistas), a palavra «produzido» aparece «pruduzido»… Enfim, criam-se especializações para quê, se depois o trabalho é sempre para quem leva menos dinheiro? Não há profissionalismo... nem vergonha. E a língua portuguesa ressente-se.

Rapazinho com cem anos

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Já ouviu falar de Lawrence Ferlinghetti? Se não costuma ler poesia, é natural que não, embora seja um dos nomes mais importantes da Beat Generation em matéria de poetas (com Allen Ginsberg, autor do famoso Uivo, e Gregory Corso). Mesmo assim, é difícil que não venha a ouvir falar dele nos tempos mais próximos em Portugal. É que o senhor Ferlinghetti (faço a devida vénia quando escrevo «senhor»), quase a completar cem anos, sabe-se lá como ainda conseguiu sacar um livro da cartola. Surpresa das surpresas, desta vez trata-se de um romance! Ao que parece, é semi-autobiográfico e preenchido por memórias do escritor. Chama-se (que título tão bonito) Rapazinho, e o agente de Ferlinghetti (que também já tem a linda idade de 98 anos) já o vendeu em não sei quantos países. Por cá, sai na Quetzal, que, ao anunciá-lo, refere: «É uma fonte de conhecimento literário com alusões ao mundo e à vida literária do autor, à sua geração, e um convite ao maravilhamento. Um romance leve, luminoso e destinado a recordar o mundo como ele devia ser.» Vamos ter de conferir.


Em tempo, a pedido da Maria, ponho a capinha.


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Canetas

Todos nós, que escrevemos – e não falo apenas de escrever para publicar, mas de redigir notas, letras, cartas, mensagens, listas, crónicas, poemas… –, temos sempre certas canetas de que gostamos mais. Actualmente, a minha preferida é uma caneta Uniball de tinta preta (uso também muito a vermelha quando estou a editar) que, por fora, é maioritariamente cinzenta e de que compro muitos exemplares ao longo do ano. Não cansa, é macia, nem fina nem grossa. Mas, quando era adolescente, a escolha era mesmo reduzida (lembram-se do anúncio Bic Laranja, Bic Cristal? Pouco mais havia...), pelo que fiquei muito contente quando, talvez por volta dos 14 anos, a minha avó me ofereceu uma esferográfica Parker, que era macia e contribuía menos para aquele calo que se formava no dedo médio de tanto escrever. Depois, num repente, apareceu tudo e mais alguma coisa, e a Parker ficou obviamente para trás, soterrada por marcas mais cotadas, como a Montblanc. E não é que hoje, no meio daquela publicidade que invade diariamente as nossas caixas de correio electrónico, me aparece um reclame da Parker, que eu já julgava mais do que defunta? Mostrava um modelo novo e dizia assim: «A Parker nasceu em 1888, na Grã Bretanha, como fabricante de canetas de luxo. […] quando a ocasião sugere um presente memorável, quando nenhum presente comum serve, escolha uma bela caneta Parker. Será uma lembrança que vai combinar com o seu bom gosto.» Bateu cá uma saudade… Qualquer dia ainda volto à velhinha Parker. (Passe a publicidade.)

Contos portugueses na TV

Parece que a RTP vai fazer a adaptação de treze contos portugueses, uns clássicos, outros contemporâneos, num projecto em que – tanto quanto me foi dado entender – os realizadores serão também todos diferentes: 13 contos de 13 autores resultam em 13 telefilmes realizados por 13 realizadores. É claro que o projecto não se poderia chamar senão… Trezes. Para José Fragoso, o director de programas do canal público, este projeto é importante sobretudo pelo facto de as telenovelas serem muito comuns e as séries estarem a ser produzidas com uma regularidade assinalável, mas o telefilme ser um género bastante raro nas estações de televisão portuguesas e ser gratificante poder fazer cinema em Portugal para ser visto por todos. Desde «A Abóbada», de Alexandre Herculano (que achei uma chatice enorme quando o li na escola, desculpem a sinceridade), até «Miss Beijo», de Lídia Jorge, ou «As Cinzas da Mãe», de Cristina Norton, passando por textos de Eça, Namora, Cardoso Pires ou Mário de Carvalho, há muito a esperar em 2020 destas adaptações de textos literários portugueses e dos seus realizadores (que incluem António-Pedro Vasconcelos ou António da Cunha Telles, mas também outros mais jovens e desconhecidos). Os guiões serão escritos por Pedro Marta Santos (de quem já publiquei um romance que tinha sido finalista do Prémio LeYa), Patrícia Muller (também autora de romances), Miguel Simal e Leandro Ferreira. Vamos aguardar.

Crónica e desassossego

Hoje é dia de crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-nov-2019/modernices-11492841.html


Regressaram ontem, como acontece todos os anos, os Dias do Desassossego, que unem os escritores Saramago e Pessoa. Depois de uma conversa sobre Mário de Sá Carneiro que deve ter sido bem gira, hoje à tarde, no antigo Cinema Europa, a conversa também promete. Susana Moreira Marques modera o diálogo de António Pinto Ribeiro com Margarida Vale de Gato subordinado ao tema «Leitores feitos de livros», ou seja, cada um falará dos livros que o formaram enquanto leitor, que o acompanham pela vida fora e aos quais regressa uma e outra vez. Amanhã e domingo haverá programação musical, oficinas para crianças, cinema e teatro. O melhor mesmo é consultarem a página da Fundação José Saramago e escolherem a que querem assistir. Bom fim-de-semana.

2020: Uma previsão

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Há dois anos, iniciou-se no Museu da Farmácia uma actividade anual ligada aos livros muito interessante. Foi inicialmente um encontro de editores pequenos, médios e grandes, que falaram dos principais problemas da profissão e da actividade, dos livros que iriam publicar e dos que tinham perdido para outros. Escolhiam três livros para aconselhar, um dos quais publicado por um colega. Esse primeiro encontro foi muito concorrido (também lá estive) e, no ano seguinte, voltou a acontecer com tradutores, alguns dos quais conheço há muitos anos (Maria do Carmo Figueira, por exemplo) e sei que foi um sucesso. Hoje, vai ser a terceira edição e, desta vez, estarão autores sentados à mesa para falar do que é escrever hoje em Portugal e para o mundo e quais são os livros de 2020 que preparam ou aconselham. A conversa será, como sempre, moderada por Luís Caetano, cujos programas dedicados aos livros e à poesia são conhecidos por muitos. Se quer saber o que se vai publicar em 2020, vá lá. Até porque o Museu da Farmácia é belíssimo e vale muito a pena ser visitado.


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Soma e segue

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As comemorações dos 50 anos de Mário Cláudio como escritor não param; depois de um momento alto no passado dia 9, em que foi possível mostrar a muitos as várias facetas deste autor prolixo através de um espectáculo que incluiu fado, poesia, teatro e uma entrevista ao vivo, amanhã inaugurar-se-á no Porto, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, às 18h30, uma exposição biográfica dedicada ao escritor, com livros, fotografias, manuscritos, objectos pessoais e muito mais. A curadoria é assinada por Jorge Velhote e Luís Barbot, o primeiro poeta e amigo de longa data de Mário Cláudio e o segundo seu primo direito, detentor por certo de fotografias de família e outras preciosidades. A exposição ficará patente até dia 4 de Janeiro. Mas não ficamos por aqui: nesta sexta à noite, a Livraria Lello abre também as suas portas a Mário Cláudio para uma conversa à roda da sua vida e obra. O momento contará com a presença do saxofonista João Guimarães a leitura de textos a cargo de Rui David. Apareçam, convites abaixo!


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Cuba e Eça

Estive em Cuba em 1994, ano muito difícil para o país, mas, apesar de todas as dificuldades, adorei a viagem e adorei sobretudo os cubanos, que não tinham ponta de hostilidade nem ressentimento com os estrangeiros, ou não os mostravam. Portugal teve em Cuba alguns diplomatas conhecidos, mas o mais célebre de todos foi obviamente o escritor Eça de Queiroz, que foi cônsul em Havana. Amanhã vão celebrar-se os 500 anos da fundação da capital cubana e, simultaneamente, o centenário das relações diplomáticas entre Cuba e Portugal com a inauguração de uma exposição, Havana: Uma Cidade com 500 Anos de História, às 16h00, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, antecedida de uma conferência da escritora cubana residente em Portugal, Karla Suarez, sob o título Cuba e Portugal: Eça de Queiroz em Havana, às 14h00, no Auditório da Torre B. Esta palestra é aberta a todos os interessados. Eça sempre a bombar.


 


 


 


 

Linguajar censurado

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Acabo de publicar um livro infantil de David Machado, com ilustrações incríveis de David Pintor, que é o melhor presente que pode haver para crianças que estão a aprender a ler: Chama-se O Alfabeto Nojento e é completamente escatológico. Acho que os miúdos sempre adoraram histórias com cocós, arrotos, puns, etc., e que por isso vão aprender o alfabeto em três tempos com as partidas (nojentas) do protagonista. Mas há sempre o perigo de os pais bota-de-elástico não pensaram assim… No Brasil bolsonarista, por exemplo, uma autora de literatura juvenil, Luisa Geisler, acaba de ser «desconvidada» de uma feira no interior de Rio Grande do Sul por indicação do prefeito, que alegou ter um dos seus últimos livros palavrões e «linguajar inadequado». Enfim… Os adolescentes falam bem? Sem palavrões? Não é suposto os leitores identificarem-se com as personagens nestas idades? Querem fazer leitores ou não? A editora já se pronunciou contra a censura sofrida por esta autora, que foi duas vezes vencedora do Prémio Sesc de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti, além de ter ganho o Machado de Assis e estado na lista de smifinalistas do Prémio Oceanos de Literatura. Espero que os pais portugueses não venham advogar um alfabeto limpinho contra este livro que agora publico…


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Crónica e mais centenários

Voltando ao que é uso e costume, aqui vai a crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-nov-2019/plastificados-11462717.html


Este tem sido o ano de todos os centenários e de todas as festas, mas preparem-se porque para o ano há mais. Antes de todos, Amália Rodrigues, que nasceu em 1920 (embora a data seja incerta e ela festejasse em dois dias diferentes, sem saber qual o verdadeiro); mas também o dramaturgo Bernardo Santareno, que foi igualmente médico e que será objecto de uma grande exposição da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Autores. Não se esqueçam que Amália, além de fadista, foi autora de imensas letras de fado, entre as quais a do conhecidíssimo Estranha Forma de Vida, letras essas que estão reunidas numa colectânea publicada pela Cotovia. Leiam-nas!

Congressos

Ontem falei de Torga e hoje falo de outros dois grandes: um anterior (Eça), outro posterior (Saramago). É que, quase ao mesmo tempo, vão realizar-se dois congressos dedicados aos escritores que pus entre parênteses. É já hoje que o nosso Nobel da Literatura é festejado no Palácio Nacional de Mafra – sítio mais do que apropriado – num encontro organizado por Miguel Real, com a participação de inúmeros especialistas nacionais e internacionais, estudiosos e interessados na obra do escritor, e em estreita colaboração com a Fundação José Saramago, parceira estratégica desta iniciativa, que vai até dia 18.​ Por seu turno, amanhã inicia-se na Sociedade de Geografia o congresso «Eça de Queiroz nos 150 Anos do Canal de Suez», que dura igualmente até dia 18 e tem uma extensão na Biblioteca Nacional. A organização é da revista Nova Águia, do Movimento Internacional Lusófono (MIL) e do CLEPUL (Faculdade de Letras) e conta com vários painéis que prometem ser originais. Os programas completos podem ser consultados nos links abaixo:


https://rotamemorialconvento.wixsite.com/congresso


https://queiroz150suez.blogspot.com/2019/10/programa-do-congresso.html

Torga outra vez

Alguém me contou que Miguel Torga era forreta e raramente oferecia livros; e que era bastante avesso a autografar. Li também algures que uma vez, recebendo um recado de Amália Rodrigues dizendo que estava no andar de baixo em casa de amigos e, tendo descoberto que ele morava ali (ou tinha o consultório, já não sei), o queria conhecer, este mandou pela mesma via a resposta de que não tinha qualquer interesse no encontro com a fadista. Consta que não era um homem fácil, mas lá que era bom no que fazia isso não se pode negar – e se calhar só não ganhou o Nobel da Literatura por, no seu tempo, ser tremendamente difícil conseguir ser traduzido e publicado no estrangeiro. Não há, porém, qualquer dúvida de que era um escritor de mão cheia – e hoje, se quiser ser honesta, talvez lhe atribua uma boa parte da minha curiosidade livresca, pois foi, entre outras coisas, com os seus Contos da Montanha que, muito novinha, me apaixonei pela literatura. Depois vieram Os Bichos, os poemas, os diários; mas por acaso nunca li o seu único romance, Vindima, publicado em 1945, que, segundo um texto de Fernando Pinto do Amaral, trata das injustiças sociais vividas no Douro Vinhateiro nesse tempo e tem uma abordagem próxima do neo-realismo. O livro acaba de integrar aquela colecção que o Público está a fazer, de médicos-escritores, e sai dia 19. Vou decididamente espreitar.


Em tempo: Hoje começa o The Pessoa Festival com uma programação muito boa, conduzida por Mirna Queiroz, directora da revista Pessoa. Está tudo aqui:


https://www.revistapessoa.com/artigo/2862/the-pessoa-festival-chega-a-lisboa


 

O país amigo

Durante e logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, entre 1947 e 1952, num programa levado a cabo pela Cáritas para poupar os mais novos à fome e à destruição de suas casas e cidades, Portugal recebeu várias crianças austríacas que vinham para morar com famílias que nem sequer conheciam: algumas ficaram por aqui meses, outras muitos anos, outras para sempre (cheguei a conhecer uma dessas raparigas que acabou por se casar com um português). Vinham de comboio de Viena até Génova, em cujo porto apanhavam o barco para Portugal, e depois eram distribuídas por vários pontos do país amigo, chegando a chamar «pais» a estes pais que as acolhiam e lhes davam carinho num momento de trauma. Muitas delas nunca mais se esqueceram de Portugal, onde fizeram tantos amigos, e voltavam para passar férias sempre que podiam. A escritora de literatura infanto-juvenil Rosário Alçada Araújo, contemplada com uma bolsa de criação literária da DGLAB, dedicou-se à investigação das «Crianças Cáritas» – assim ficaram conhecidas – e publicou recentemente O País das Laranjas, uma história ficcionada à roda de dois irmãos austríacos – Martha e Peter – que vêm para Portugal nesses anos da guerra. Ainda não o li, mas é um bom assunto para um romance juvenil num tempo em que os «refugiados» estão na ordem do dia e muita gente foge de países em guerra e procura um destino melhor. Quanto mais cedo os pequenos leitores tiverem conhecimento destas histórias, melhor. Parabéns à autora pela escolha do tema.

Crónica e gastronomia

Excepcionalmente à segunda-feira, aqui vai o link da crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-out-2019/eternos-meninos-11440133.html


Guida Cândido, autora do belíssimo e saborosíssimo Comer como Uma Rainha, que contém hábitos, modas, contributos e receitas de cinco rainhas portuguesas de várias épocas, acaba de ser sagrada vencedora do Prémio da Academia Portuguesa de Gastronomia, que lhe será entregue numa cerimónia em que estará presente o Primeiro-Ministro, no dia 27 deste mês. Parabéns, Guida Cândido! Há muito chefe mediático por aí, mas nada ultrapassa uma investigação a sério no âmbito da história da alimentação!


 

Mário Cláudio

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Hoje, a meio da tarde, viajarei para o Porto, onde amanhã realizaremos uma bonita festa (espero eu) em honra do escritor Mário Cláudio, que completa este ano 50 Anos de Vida Literária. Além de uma obra romanesca de grande dimensão (contos, romance e literatura biográfica), Mário Cláudio escreveu teatro, crónicas, poesia e letras de canções, pelo que vamos tentar mostrar ao público todas estas facetas em que foi premiado («Retrato», cantado por Carlos do Carmo com Bernardo Sassetti ao piano, é uma letra de Mário Cláudio que recebeu o galardão da Sociedade Portuguesa de Autores). Teremos connosco uma fadista, um actor, um diseur, músicos, e muitas outras pessoas (ao vivo e em filme) para animar a sessão. Tudo isto na Cooperativa Artística Árvore, local que tem que ver com a família do escritor e a sua obra (é a Quinta das Virtudes do livro homónimo). A entrada é livre. Se estiver no Porto, contamos consigo para cantar os parabéns e bater palmas.


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P. S. Para não misturar, a crónica virá na próxima segunda.

Poeta do tudo e do nada

Já vi muitos booktrailers de romances e vídeos de leituras de poesia por profissionais, às vezes até com música de fundo; mas ver uma espécie de aula de poesia sobre um poema de Álvaro de Campos em pouco mais de três minutos pelo grande especialista em Fernando Pessoa que é Richard Zenith é gratificante e pouco comum. O estudioso norte-americano, que reside em Portugal e é o responsável pela edição da obra pessoana na editora Assírio & Alvim, tem um trabalho meritório e foi galardoado em 2012 com o Prémio Pessoa. Quando, há vários anos, deu à estampa, com Fernando Cabral Martins (outro dos especialistas em Pessoa), o volume Teoria da Heteronímia, gravou para o «Ípsilon» este vídeo que partilho abaixo, em que lê com a sua pronúncia deliciosa um dos últimos poemas do heterónimo Campos e faz uma breve análise, chamando ao nosso ex-libris literário o poeta do nada e do tudo. Só partilho agora porque foi só  recentemente que o descobri. Mas Pessoa nunca passa de moda.


https://www.publico.pt/2013/01/18/culturaipsilon/video/zenith-20130118-112604


 


 


 

CLAX

Será esta sigla Clube de Leitura do Autor X? Bem, há muitos clubes de leitura, mas o CLAX parece diferente. Um autor de referência é desafiado pela EC.ON (uma escola de escrita criativa de Lisboa) a escolher quatro obras fundamentais da literatura universal ao longo de um ano. Trimestralmente, vai às instalações da escola para uma sessão de análise e debate com os «alunos» inscritos. Naquela que é já a 3.ª edição desta iniciativa, o coordenador do CLAX de 2020 será o escritor Gonçalo M. Tavares,  e as inscrições estão abertas desde de 1 de Novembro. Parece que há uma primeira reunião entre o coordenador e o grupo de interessados para definir as quatro horas e marcar o início da discussão e que as sessões ocorrem em Março, Junho, Setembro e Dezembro, dando tempo para a leitura dos livros à vontadinha. O número de vagas é limitado e sobre o resto está tudo no link abaixo. Alguém quer fazer apostas sobre os livros escolhidos por Gonçalo M. Tavares? Eu não arrisco.


http://escritacriativaonline.net/eventos/clax2020/

Sena, rio de livros

Não falo do rio de Paris, falo do fulgurante rio de livros que foi o grande Jorge de Sena, de quem, no último sábado, se comemorou o centenário do nascimento. Escritor que tem ficado mais arredado das celebrações públicas do que seria desejável por este ser um ano dedicado a muitos outros escritores vivos e mortos (entre eles a Sophia por todos amada), mereceu mesmo assim o destaque de várias sessões dedicadas à sua obra e vai ter ainda, na recta final do ano, dois congressos que lhe serão dedicados, um em Lisboa e outro em Braga. Suspeito, porém, de que, ainda assim, é hoje um autor menos lido do que merecia, até porque é um dos mais versáteis e prolixos escritores portugueses (acho que foi o jornalista Luís Miguel Queirós que, no passado fim-de-semana, o comparou a Fernando Pessoa), tendo escrito poesia, romance, teatro, ensaio, tradução… Para os Extraordinários que ainda não lhe deitaram a mão, sugiro um dos maiores romances do século XX, Sinais de Fogo (de que Luís Filipe Rocha fez um excelente filme) e essa pequena maravilha que é O Físico Prodigioso, mas, claro, podia sugerir do mesmo modo os livros de contos, a poesia e até a correspondência. Afoguem-se neste rio.


 

O que ando a ler

Ando a ler livros curtos, porque estou numa fase de muito trabalho e só tenho aqueles minutinhos antes de dormir para ler umas páginas. Voltei a Julian Barnes, um dos meus escritores favoritos, e leio um livro (Os Níveis da Vida) que trata de uma questão que sempre me interessou muito e sobre a qual, de resto, escrevi nos meus poemas: o que acontece quando se perde para sempre a pessoa amada? Barnes começa por falar de balões de ar quente, de fotografia e da fabulosa Sarah Bernhardt, por quem se apaixonou o coronel Fred Burnaby, mas em vão; porém, acaba a escrever sobre a própria viuvez, o luto, a raiva, as reacções dos amigos ao seu desgosto e à sua recuperação (mas é possível recuperar da morte de alguém que se amou tanto?), as conversas que ainda mantém com Pat, a mulher com quem foi casado anos a fio e que lhe desapareceu em apenas 37 dias, entre o diagnóstico e a morte. Como sempre em Barnes, a inteligência é acutilante e não há lamechice nem goduras. Este é um livro especial com que me indentifiquei e que nos ensina muita coisa sobre o sofrimento e a separação de duas pessoas que, quando estavam juntas, tinham realmente um caminho comum. Querido Barnes.

Crónica e nada a dizer

Como amanhã é feriado (e que bom um feriadinho à sexta!), deixo hoje o link da crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-out-2019/os-sapatos-de-deus-11416791.html


 


Estou a caminho do Porto para uma reunião e por isso não consegui dar-vos mais nenhum bónus. Quero, porém, dizer que, sobre a questão do Prémio LeYa com que os Extraordinários decidiram ontem inundar este blog, dei uma entrevista ao escritor e jornalista Bruno Vieira Amaral para a revista Ler há uns anos e isso é tudo o que tenho a dizer. Por isso, nem comentei, nem respondi a comentários, nem o voltarei a fazer. Quero que saibam, mesmo assim, que este ano, dos sessenta e picos originais que me chegaram via email de autores desconhecidos que consegui espreitar não encontrei um só que se aproveitasse . É muitíssimo mais difícil encontrar um bom livro do que as pessoas supõem. Bom fim-de-semana.


 

Maturidade literária

O Prémio Literário José Saramago, que foi  criado para homenagear o nosso único Nobel da Literatura em 1998, é entregue a romances já publicados escritos por autores que, até recentemente, não podiam ter mais de 35 anos (como, aliás, é o caso de Afonso Reis Cabral, que tem 29 anos). Porém, estava a ficar difícil encontrar ficção de qualidade em escritores que estivessem dentro dessa baliza etária; e, tal como já acontecera no Prémio Agustina Bessa Luís (que é para revelar novas vozes literárias), o limite passou para os 40 anos. Sobre as razões que podem estar na origem do vazio literário em gente mais nova, eis um artigo muito interessante de Sérgio Almeida publicado no JN no link abaixo (e não digo que é interessante por ter dado também as minhas opiniões). A ler, portanto.


https://www.jn.pt/artes/especial/onde-estao-os-novos-ficcionistas-portugueses-11446210.html?fbclid=iwar2q_yyonl9mnxrhi5rfk01b-dlvvns4mekalfruggdg7ufisk1uuwas8vk


 

O nada que é tudo

A ida ao Brasil correu bem; fora, claro, o cansaço, a falta de sono e confusão de horas, tanto mais que regressei no dia a seguir à mudança da hora em Portugal e isso gerou mesmo uma estranheza. Na Bahia, ouvi falar autores, folheei alguns livros, conheci poetas, mas, ironicamente, uma das coisas boas da viagem foi o romance de um escritor austríaco, Robert Seethaler, que levei para ler no avião, do tamanho ideal para «papar» numa viagem de oito horas (li 80 páginas à ida e o resto à vinda). Chama-se Uma Vida Inteira, e a grande proeza do autor é fazer de uma vida em que pouco acontece um livro absolutamente maravilhoso, embora muito triste. Uma Vida Inteira foi Livro do Ano na Alemanha e finalista do Man Booker International Prize, tendo sido traduzido em mais de trinta línguas e elogiado por grandes escritores do mundo, como Margaret Atwood ou Ian McEwan. Conta a vida de um homem que se cruza com alguns dos episódios mais importantes da história do século XX (combate na Segunda Guerra Mundial e fica alguns anos num campo de prisioneiros da União Soviética) e arrasta toda a sua vida um amor que mereceu e perdeu e foi talvez a única coisa positiva da sua existência. Em certas coisas, fez-me lembrar a solidão de Stoner e a paisagem de Oito Montanhas. É mesmo muito bonito.

Os livros de Smith

O jornal britânico The Guardian é um manancial de informação cultural e, há mais ou menos duas semanas, publicou as respostas a um questionário que dirige regularmente a escritores conhecidos, desta feita dadas por Patti Smith, escritora e cantora de gabarito internacional (não há muito esteve cá em Lisboa para um concerto que, evidentemente, esgotou assim que os bilhetes foram postos à venda). As perguntas (como no famoso Questionário de Proust) costumam ser as mesmas para qualquer escritor, mas, como é normal, as respostas variam bastante. Neste caso, são até surpreendentes: Patti Smith diz, por exemplo, que o livro que gostaria de ter escrito era Pinóquio; que a obra que a fez querer ser escritora foi Mulherzinhas (em especial a personagem Jo March); que o livro que mais influenciou a sua escrita foi Diário de Um Ladrão, de Jean Genet; e que ficou com tanta ansiedade enquanto lia O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, que até vomitou. Chorou com Charlotte Brontë e riu com César Aira; e envergonha-se de nunca ter lido O Homem sem Qualidades, de Robert Musil. A sua cabeça foi virada do avesso por O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Há mais, claro, mas o melhor é ir lá conferir.

Crónica

O link da crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-out-2019/para-ingles-ver-11395483.html


Até segunda.


 

Flica e vai

Mais daqui a pouco vou apanhar um avião para Salvador da Bahia, e a seguir um transporte de quatro rodas até Cachoeira, uma cidadezinha que fica a duas horas da capital baiana, para participar na Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) organizada pela poetisa Kátia Borges. A minha mesa, na qual estarei com o poeta Antônio Brasileiro e a moderadora Mônica Menezes, é amanhã ao fim do dia e chama-se «Estratégias do Eu lírico, esse eterno fingidor». Volto sábado à noite, vai ser um estoiranço absoluto; mas deixo-vos amanhã o link da crónica, como de costume. Hoje, regressa a Santiago do Cacém o ciclo Viver (Com) a Escrita, que há vários anos tem levado diversos autores para contactarem directamente com alunos do Concelho. Desta feita, o convidado é Rui de Almeida Paiva, que lançou recentemente Quem Vem Lá, pela Editorial Caminho, livro que a autarquia (responsável pela organização deste projecto) adquiriu e ofereceu aos alunos envolvidos na sessão. este ciclo conta com a parceria da Livraria A das Artes e da Rádio M 24. Hoje também começa a 30ª edição do Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada. A quem interessar.

Nada original

Aqui há tempos, a Sociedade Portuguesa de Autores anunciou a sua parceria com o canal de televisão SIC num programa dedicado à cultura. A coisa prometia: não só porque os participantes eram de gabarito – Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery e Carlos Fiolhais, moderados pela ex-editora e hoje proprietária da Livraria-Bar Menina e Moça, Cristina Ovídio –, como também seria transmitido na noite de sexta-feira com retransmissão em outros canais da estação (SIC Notícias, SIC Mulher...). Original é a Cultura, assim se chama o dito programa, já começou há umas três semanas e tem duração de cerca de 40 minutos, abordando temas actuais, ao que parece escolhidos entre os muitos sócios da Sociedade Portuguesa de Autores, e convidando pontualmente um especialista na matéria. Vi o programa de estreia no computador uns dias mais tarde (como quase não ligo a televisão, deixei-o passar e só dei por isso na semana seguinte) e, apesar de Dulce Maria Cardoso estar bastante rouca, gostei imenso e achei o nível bastante bom. O problema é que todas as semanas há uma qualquer razão para a emissão ser mais tarde do que na anterior e verifiquei que na sexta passada o horário previsto era às 2h45… E querem que as pessoas se cultivem? Ora bolas, nem vale a pena dizer mais nada.

Em extinção

O jornal The Guardian trazia uma advertência para aqueles que estão em vias de escolher um curso ou um ofício, o de não optarem por uma série de profissões que estão em extinção. Algumas destas foram evidentemente tornadas obsoletas pelo aparecimento e a difusão em larga escala da tecnologia digital – quem é que hoje, por exemplo, manda revelar fotografias? – ou substituídas por máquinas «inteligentes» (as pessoas já podem pagar a conta do supermercado sem passar pela caixa, usando o leitor do código de barras, e nos casinos parece que as fichas das slot machines já são «cuspidas» por um dispensador); mas houve actividades que, infelizmente, desapareceram porque não houve jovens que se interessassem por elas (o trabalho nos teares é uma delas) ou porque já não fazem simplesmente sentido: quando se estraga um móvel, custa se calhar mais caro mandá-lo arranjar do que ir ao IKEA comprar um novo. A insegurança também acabou com coisas como as vendas porta-a-porta, e as câmaras de vídeo instaladas por todo o lado e os intercomunicadores dispensaram muitos detectives e porteiros. Mas foi a invenção da aldeia global, combinada com a disponibilização de toda a espécie de serviços online, a principal responsável por muitas profissões se encontrarem em extinção: os solicitadores, os agentes de viagens, as dactilógrafas, as telefonistas, os carteiros, os guarda-livros, os contabilistas… Hoje podemos fazer quase tudo sozinhos, desde que tenhamos um computador. Mesmo publicar livros, claro. O editor mais cedo ou mais tarde entrará na lista.

Jorge e Josélia

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A organização de um festival internacional como o Folio, em Óbidos, tem várias vantagens que ultrapassam as sessões in loco; e uma delas é o facto de muitos autores estrangeiros visitarem Portugal e poderem dar entrevistas e fazer sessões sobre a sua obra e a sua carreira. Este ano esteviveram cá escritores de todas as latitudes e, como referi na semana passada, também vários autores do país-irmão. Aos que referi na semana passada, junto agora a bahiana Josélia Aguiar, que foi durante dois anos a curadora da famosíssima FLIP (Festa Internacional do Livro de Paraty) e é, entre outras coisas, jornalista (correspondente da Folha de S. Paulo em Londres), sendo atualmente directora da Biblioteca Mário de Andrade. Mas a razão por que cá está é tão simplesmente o facto de ser a autora de uma biografia de Jorge Amado que Itamar Vieira Júnior (o mais recente vencedor do Prémio LeYa) teve a linda ideia de me oferecer quando esteve em Portugal (obrigada!) e que a D. Quixote publicou em Portugal neste Verão. José Carlos de Vasconcelos, que conheceu e privou com o escritor Jorge Amado, vai conversar com Josélia Aguiar amanhã na Fundação José Saramago. O moderador é Ricardo Viel. Apareça!


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Crónica & Avis

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Hoje é dia de crónica. Aí vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/05-out-2019/de-poucas-palavras-11367036.html


Hoje é também dia de começar mais um encontro de escritores, muito justamente chamado Escritos & Escritores, que acontece anualmente em Outubro em Avis, no Alentejo, e dura três dias. Diz quem já lá foi que vale muito a pena. Eu ainda não consegui, pois esta é uma época muito complicada para um editor. Mas divirtam-se se puderem lá ir.


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Namora

Este é o ano de todos os aniversários, e é também o centenário de Fernando Namora, o médico-escritor de grande sucesso, autor de livros adaptados à televisão como Retalhos da Vida de Um Médico, condecorado postumamente pelo nosso presidente da República no dia da abertura da Festa do Livro em Setembro passado, escritor cuja obra extensa está de momento a ser republicada pela Editorial Caminho. Ele é objecto de uma exposição patente no Museu do Neo-Realismo, “e não sei se o mundo nasceu” Fernando Namora 100 anos,  e nos dias 24 a 26 de Outubro será o tema de um congresso que decorrerá na Faculdade de Letras de Lisboa (24), no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira (25) e, por fim, na Casa-Museu Fernando Namora em Condeixa (26) com vários participantes de muitas áreas. A inscrição é obrigatória. O programa está no link abaixo. Ide ler os seus livros.


http://www.museudoneorealismo.pt/cmvfxira/uploads/writer_file/document/21499/programa_congresso_fernando_namora.pdf


 


 


 


 


 

Tarrafal

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Conheci o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa em Brasília, no ano de 2010, num encontro sobre o futuro da língua portuguesa; e, na altura, ele confidenciou-me que tinha um romance concluído. Chamava-se O Novíssimo Testamento e foi o primeiro de sua autoria que publiquei na Dom Quixote. Uns anos mais tarde, chegava-me à mão, já com um prémio em cima, Biografia do Língua que, no ano seguinte, arrecadaria também o Prémio do P.E.N. para Narrativa. Estamos a apresentar hoje, na Livraria da Travessa, em Lisboa, às 18h30, o seu terceiro romance na Dom Quixote, O Diabo Foi Meu Padeiro, que fala sobre um assunto que interessará a muitos portugueses: o campo de concentração do Tarrafal. Publicado 45 anos depois do encerramento dessa terrível prisão, este é um romance que evoca todos os prisioneiros que por lá passaram... e também os carrascos, porque é fundamental lembrar para não repetir. A apresentação estará a cargo de João Soares. Apareçam.


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Tempo de medos

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O Brasil está todo às avessas! E o pior é que os ignorantes tomaram o poder e a sua luta contra os intelectuais já se faz censurando livros e proibindo que estejam em feiras e festivais obras que tratem de certas temáticas ou sejam assinadas por adversários do governo de Bolsonaro. Bem, o presidente brasileiro já disse que não assinava o diploma do Prémio Camões dado ao grande Chico Buarque, que, como lhe competia, respondeu que essa não assinatura de Bolsonaro era, para ele, um segundo Prémio Camões. Hoje, na Livraria da Travessa, às 18h30, vai certamente falar-se disto, da Amazónia e de muito mais que está acontecendo no país irmão num encontro entre os escritores brasleiros Joca Reiners Terron (de quem publiquei um livro maravilhoso chamado Do Fundo do Poço Se Vê a Lua, leiam, leiam) e Carola  Saavedra, com moderação da escritora e jornalista portuguesa Isabel Lucas. Apareçam.


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Crónica e prémio

Aí vai a crónica, com agum atraso, mas a semana anterior, entre prémios e muitas outras coisas, não me permitiu organizar-me. Desculpem.


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-set-2019/contranatura-11342035.html


Sérgio Godinho, um dos maiores escritores de canções que temos em Portugal (se não for mesmo o maior de todos), acaba de ser contemplado com o Prémio Pedro Osório, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, pelo CD Nação Valente. Mesmo tendo já publicado livros de ficção (contos e romance), na minha humilde opinião, aquilo que é decididamente a sua obra-prima são as canções, com um estilo muito pessoal e inimitável que, mesmo para quem as queira cantar no duche, se tornam dificílimas. Parabéns, Sérgio Godinho! O prémio será entregue no início 2020.

Irmãos de letras

Já ouvi muitas vezes José Eduardo Agualusa elogiar o seu amigo Mia Couto – e só não ouvi Mia Couto fazer o mesmo porque, na verdade (por infelicidade minha, bem entendido), não foram assim tantas as vezes que pude ouvir Mia Couto, apesar de já o ter ouvido algumas, mas com um tema fixo que não lhe permitia estar a mencionar o confrade. Sabia, porém, que são dois escritores que se gostam (o que é cada vez mais raro num mundo muito concorrencial) e, como tal, não fiquei demasiado admirada com a proposta de um livro assinado por ambos. Dá pelo nome de O Terrorista Elegante (só o título já é bom), publica-o a Quetzal e foi apresentado ontem em Lisboa no Teatro da Comuna, numa sessão conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro e na qual o actor Miguel Sermão leu excertos. Hoje haverá outra sessão na Livraria da Travessa, ao Príncipe Real; amanhã será a vez da FNAC-Chiado; e, no Porto, a Biblioteca Municipal Almeida Garrett recebe os dois autores para um Porto de Encontro no dia 13, às 17h. Eu cá estou curiosa com este livro. Quando o ler, aviso.


(A crónica vem na segunda.)

A tradução do ano

Publico, como bem sabem os leitores deste blogue, sobretudo livros de autores portugueses; mas de vez em quando dá-me para publicar uma tradução. Por isso, gosto de escolher tradutores que não me vão dar trabalho a ler e reler e corrigir e emendar. Trabalho com um grupinho pequeno e, há um ano e tal, juntei-lhe o Paulo Rêgo, que traduz da língua alemã. Foi quando decidi publicar um romance de Sasha Marianna Salzmann, uma rapariga russa que foi viver para a Alemanha em pequenina e que é conhecida também pelo seu trabalho na área do teatro. Chama-se esse romance Fora de Si e considero-o um dos melhores livros estrangeiros que alguma vez publiquei (não o resumo aqui porque escrevi sobre ele a altura da publicação, basta procurarem). Tenho pena de que não tenha sido mais lido, sobretudo por ter uma primorosa tradução. E não sou só eu que o acho, porque a Associação Portuguesa de Tradutores acaba de anunciar que Paulo Rêgo recebe este ano o Prémio de Tradução pelo seu trabalho neste livro! Parabéns, Paulo, obrigada por mais uma boa notícia esta semana. Mais logo, pelas 18h00, na Sociedade Portuguesa de Autores, lá estarei para ver o tradutor receber o galardão. Venham também.

O dia do Afonso

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Depois da magnífica notícia de ontem, a da atribuição do Prémio Literário José Saramago, da Fundação Círculo de Leitores, a Afonso Reis Cabral pelo romance Pão de Açúcar, podemos dizer que hoje é seguramente um bom dia para o autor. Não bastando o galardão, é dia de lançamento de Leva-Me Contigo, a sua obra mais recente, em que relata a odisseia de 24 dias a pé através de Portugal, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um calor louco, pela mítica Estrada Nacional 2. Logo à noite, pelas 21h00 (a hora é boa para dar tempo ao Afonso de descansar depois da "festa" de ontem), na Livraria Ler Devagar, no LxFactory, Francisco José Viegas, que pré-publicou na revista Ler um excerto deste livro, vai apresentá-lo, e o cantor Caio vai brindar-nos com algumas canções que servem de banda sonora a um documentário sobre esta viagem. Contamos consigo para dar os parabéns ao jovem autor, quer pelo prémio de ontem, quer pela caminhada de há uns meses, quer pelos seus livros! Apareça.


 


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Folio 2019

Sob o signo de «O Tempo e o Medo», abre no próximo dia 10 de Outubro o FOLIO, um festival literário que tem lugar uma vez por ano em Óbidos e é em 2019 conduzido pela jornalista Ana Sousa Dias. Teremos alguns autores estrangeiros (quero muito ir à sessão com Donald R. Pollock, autor do brutal Sempre o Diabo, que vem lançar um novo título), alguns dos quais vêm a Portugal pela primeira vez, como a turca Ece Temelkuran ou a italiana Elena Varvello, outros repetentes, como Marina Perezagua ou Mathias Énard. Os escritores de língua portuguesa também não faltarão: José Eduardo Agualusa, Valter Hugo Mãe, Joca Reiners Terron (de quem publiquei em tempos um romance incrível chamado Do Fundo do Poço Se Vê a Lua), Lídia Jorge ou Ricardo Araújo Pereira. Haverá, como é costume, momentos musicais, desta feita com os Danças Ocultas, Cristina Branco, Diabo na Cruz e outros. O Folio Educa e o Folio Ilustra compõem a programação, que pode ser consultada no link abaixo. Dura até dia 20. Vão e divirtam-se.


http://foliofestival.com/en/home2019en/


 

Profissões em extinção

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Um dia destes, na editora, vi que estava um papel no chão, dobradinho em quatro, e apanhei-o, tentando perceber se era alguma coisa importante e a quem pertencia. Dizia, numa das faces, «Encadernador» em letra manuscrita, seguido de um número, que parecia de um telefone. Do outro lado, facilmente se percebia que era um bocado de um velho e-mail, ou seja, tratava-se e alguém que «reciclava» papel para escrevinhar notas, exactamente como eu faço. Fui então às letrinhas impressas, das pequeninas, e por sorte era ainda legível o nome do meu colega da Caminho, Zeferino Coelho, a quem me apressei a devolver aquele apontamento. Agradeceu-me como se fosse uma nota de 500 Euros, explicando-me que andava à procura daquele papel há que temos e que era uma alegria ter de novo o contacto do encadernador. Mas ainda há quem encaderne livros?, perguntarão os meus amigos Extraordinários. Ah, pois há; e, além de Zeferino Coelho, que é um bibliófilo e colecciona biografias, deve haver muitos mais, pois a Papiê organiza uma oficina de encadernação em Belém, em três dias diferentes deste mês: 12, 19 e 26! Inscreva-se e conhecerá um mundo novo e fascinante, que um dia lhe poderá ser útil.


Horário: 10:30 às 13:00
Local: From Hand - Home Concept Store
Rua da Junqueira, 362, Belém
, Lisboa


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Crónica e humor

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Hoje é dia de partilhar a crónica (que, no caso, foi publicada em 21 de Setembro) e, portanto, aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-set-2019/velharias-11320765.html


Já em contagem decrescente para o fim-de-semana, um recorte de  um jornal inglês absolutamente hilariante, sobre a maluquice dos tempos que atravessamos. Vale a pena ler:


 


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Ler poemas

Nunca tive jeito para a música, acho que só na adolescendência me atrevi a cantar ao pé de outras pessoas; nem  sou desafinada, mas, tendo noção das minhas limitações, depressa se tornou claro que escutar-me a mim mesma não tinha grande graça (canto mais dentro da cabeça). No entanto, gosto de dizer poemas (e em várias línguas) e as pessoas que percebem disso até me dizem que tenho jeito. Mas mais jeito tem o grupo de dizedores que hoje à tarde estarão no foyer do Teatro do Campo Alegre na sessão do Café Literário «Poesia, a Suprema Ficção». Evocando o grande poeta norte-americano Lawrence Ferlinghetti (que concluiu recentemente 100 anos e de quem é o mote entre aspas), Cristiana Sabino, Jorge Pereira, António Domingos, Idalinda Fitas, Manuela Gomes e Armando Pereira apresentam as suas escolhas poéticas. Se estiver pelo Porto, não perca.

Preguiçar

Hoje estou com um dia infernal e portanto abusarei da vossa paciência preguiçando na escrita de um post. Tenho três irmãos e, quando publiquei a minha Poesia Reunida, um deles escreveu-me um poema tão lindo sobre nós que ainda hoje, quando o releio (na verdade, basta que me lembre dele), faz com que me venham lágrimas aos olhos. Já escrevi sobre como é lindo ter irmãos (dediquei a isso, aliás, uma das minhas crónicas) e, talvez por isso, quero partilhar convosco o discurso de um dos irmãos de António Lobo Antunes, Nuno Lobo Antunes (o 5º de seis), na homenagem que foi feita ao escritor no sábado 28 de Setembro. Que lindo. No link, creio que é também possível ouvir o discurso em vídeo (eu apenas li). Desfrutem.


https://www.sabado.pt/vida/detalhe/meu-bebe-amo-te-muito--o-discurso-de-nuno-lobo-antunes-ao-irmao-antonio


 

O que ando a ler

Leio a obra vencedora do Man Booker Prize em 2018 – Milkman, de Anna Burns, nascida em Belfast, onde, de resto, decorre toda a trama do romance que, em certas coisas, me remeteu para Pátria, de Aramburu, talvez por ambos os enredos se desenvolverem no período anterior ao cessar-fogo pelos grupos terroristas (no País Basco e na Irlanda do Norte). A obra de Anna Burns tem como narradora uma rapariga que vive num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às «milícias») são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos «do lado de lá»; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas, ou foram mandadas embora; onde os heróis podem usar o nome «Milkman» e isso fazer com que o desgraçado do leiteiro a sério (personagem fascinante, aliás) vá parar ao hospital; onde ter dezoito anos e «um namorado mais ou menos» não salva a protagonista de ser coagida a ter sexo numa casa de banho por «um dos seus»; e onde o facto de um dos cabecilhas do bairro a abordar um dia na rua leva toda a gente a dizer que ela perdeu a cabeça e não a livra de sofrer as consequências disso (e são muitas!). A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Uma história passada nos anos 1970, com a Irlanda do Norte ao rubro. A tradução – e boa – é de Miguel Romeira. O livro é da Porto Editora.

Forum Fantástico

Decorre na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, no bairro de Telheiras, de 11 a 13 de Outubro, o Fórum Fantástico 2019, orientado pelo jornalista e animador João Morales. O programa, de que abaixo deixo o link, inclui lançamentos de livros, mesas-redondas, sessões de autógrafos, projecção de filmes, worskshops vários, jogos literários e outros, exposições e muito mais. Sublinho a conferência O Futuro da Ficção pelo cineasta António-Pedro Vasconcelos, no sábado 12, às 15h45, certamente baseada num livro homónimo de que gosto muito e foi dado à estampa pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A entrada é livre.


https://forumfantastico.wordpress.com/programa-do-forum-fantastico-2019/


Este já histórico encontro é realizado anualmente pela Epica – Associação Portuguesa do fantástico nas Artes com o apoio da Junta de Freguesia do Lumiar e da BLX – Rede de Bibliotecas de Lisboa e congrega diversas actividades e convidados, em torno do Fantástico, da Fantasia, da Ficção Científica e do Horror.

Crónica e celebração

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Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-set-2019/interior/os-deuses-das-moscas-11298602.html


Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, celebram-se os 40 anos de vida literária de António Lobo Antunes. Um dia inteirinho dedicado ao escritor pela voz de várias personalidades. Fica o convite para passar um sábado diferente. Se estiver longe, pode acompanhar por aqui:


https://www.youtube.com/watch?v=IVOl-KKIWgo


 


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Fingir

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«Ficção» vem de «fingir», mas, curiosamente, no livro de que hoje vos falo, é sobretudo na pintura que se finge muito. Este romance, Hotel Melancólico, que é a segunda obra da argentina María Gainza e menos fragmentária do que O Nervo Óptico, está quase a pousar nas mesas das livrarias (sábado já deve estar à mostra em alguns sítios) e fala de falsários e falsificações, o que não é estranho se pensarmos que a autora é crítica de arte. A história reza assim: o tio da narradora, farto de a ver sem fazer nada, arranja-lhe emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. E, contra todas as expectativas, o ofício torna-se fascinante, não só pelas incríveis descobertas sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiavam quadros para ganharem a vida e por onde passou a misteriosa Negra, que se especializara em falsificar a obra de uma pintora famosa que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficaram a meio? É uma delícia este livro, onde o que é real parece inventado e vice-versa.


 


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Avant la lettre?

Hoje em dia estamos sempre a falar do politicamente correcto, até porque em nome dele se tem chegado a extremos de uma idiotice gritante. Mas lembro-me de que, ainda nos anos 1980, li um livro de crónicas de um historiador americano que apelava já para os perigos da doutrina do politicamente correcto, falando de um grupo feminista que queria mudar o vocábulo «woman» para «womin» só para não ter a partícula «man» lá dentro. Também o grande Julian Barnes, de quem li nestas férias O Papagaio de Flaubert (como é que ainda não o tinha lido é um mistério), escreve nesta obra vencedora de muitos prémios (curiosamente, tanto de ficção como de ensaio, porque se trata de um híbrido literário) muitas passagens que falam do politicamente correcto, entre elas a que cito abaixo:


 


«Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […] Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares.»


 


Um dia destes volto a este livro notável aqui no blog. Hoje foi só para sublinhar as tolices que por aí andam.

Testamento

Agora, que me vou poder passar a queixar de ser sexagenária (oh, como detesto a palavra), não posso deixar de falar de um livro que foi recentemente reeditado pela Quetzal de um grandíssimo poeta português que acabava de cumprir esses mesmos 60 anos quando o escreveu. Falo de Vasco Graça Moura e do seu testamento – Testamento de VGM, para ser mais precisa – que se republica no quinto aniversário da sua morte e é, como o próprio autor disse oportunamente, «um divertimento muito sério». Citando a editora, trata-se de «um poema autobiográfico» em que Graça Moura, com a elegância e o talento de sempre, «canta os amores, trabalhos, filhos, amigos, inimigos, a cidade natal, o ofício literário, a paixão pela pintura e a sua natureza mais íntima.» Fica aqui um exemplo do que vos espera e a recomendação: leiam-no (ao poema e ao livro).


 


deixo a meus filhos versos cultos


e também prosas às centenas


(os meus dois filhos são adultos


e as minhas filhas são pequenas)


e muito amor: não deixo apenas,


tudo somado, alguns direitos,


e fui bom pai, nunca fiz cenas


e fi-los sãos e escorreitos.

O pão que o diabo amassou

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Mário Lúcio Sousa, o escritor e músico cabo-verdiano autor dos romances O Novíssimo Testamento e Biografia do Língua, ambos premiados e publicados pela D. Quixote, regressa este mês com O Diabo Foi Meu Padeiro, um belíssimo romance sobre a vida de centenas de presos no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua fundação até ao seu encerramento (sendo o Tarrafal também o lugar de criação do autor, que ali viveu até ir para a universidade). Por este campo (e pelas privações, doenças e torturas várias) passam muitos homens (no final, uma lista refere-os a todos) vindos da Metrópole e também de Angola e da Guiné, já depois de o campo ter fechado as portas aos portugueses. A várias vozes, todas elas de Pedros condenados à prisão num ano distinto e com um director distinto, esta é uma obra de ficção que interessa também como documento e que ganhou um belo elogio do escritor António Lobo Antunes, muito aproriado a um livro com «padeiro» no título: «Bom como o pão.» E eu, que adoro pão, adorei publicar este livro.


 


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Crónica & Pessoa

Hoje é dia de crónica aqui no blog. O link aí vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-set-2019/interior/vacinados-11272820.html


 


Na editora Tinta-da-China, sai daqui a uma semana, mais coisa menos coisa, uma novela policial de Steffen Dix intitulada O Mistério da Boca do Inferno, que trata da relação do nosso Fernando Pessoa com o ocultista Aleister Crowley. A tradução é de Sofia Rodrigues, com coordenação do especialista na obra de Pessoa, o colombiano Jeronimo Pizarro, que dirige a colecção pessoana naquela editora.

Mais nervos

Temos certamente razões para andar nervosos (o clima, a saúde, as eleições, o estado do mundo...), mas estes nervos de que venho falar hoje são bem bons. É bonito ver que, num país que lê tão poucochinho (estou sempre a falar disto, bem sei, mas é verdade), uma revista de poesia como a Nervo subsiste e está melhor a cada número. Já vai em meia dúzia, e o número 6 sai com poemas de muitos autores portugueses consagrados (José Emílio Nelson ou Luís Quintais, por exemplo), poetas a caminho de o serem (Marta Chaves ou Renata Correia Botelho) e poetas (para mim, pelo menos) desconhecidos (Elsa Alves ou Teresa M. G. Jardim). A eles se juntam os estrangeiros Josep M. Rodriguez, traduzido por André Domingues, e Mordechai Geldman, traduzido por João Paulo Esteves da Silva (sim, o músico que é também poeta e tradutor). Vamos lá então lê-los e ficar ainda mais nervosos.

50 anos a escrever

Não sei se já aqui o disse – creio que sim – mas considero uma verdadeira proeza um escritor completar 50 anos de vida literária e ainda ter tantos planos para romances e outros projectos de escrita na gaveta. É o caso de Mário Cláudio, que se estreou em 1969 com um livro de poesia e, depois disso, nunca mais parou de nos encantar, tendo publicado em quase todos os géneros, do teatro à crónica, do romance à monografia, do conto à poesia, e sido premiado bastas vezes em todos eles. Hoje, no âmbito da Feira do Livro do Porto, vou estar na Invicta a assistir a uma sessão que tem por centro o escritor (já homenageado com uma tília no parque onde a feira se realiza há uns três anos). Conduzida por Nuno Artur Silva, consta da apresentação de um livro de Martinho Soares sobre a obra do escritor (O Essencial sobre Mário Cláudio) feita por Ana Paula Arnault, seguida de uma conversa com o autor do ensaio e o escritor sobre estes cinquenta anos de produção literária, cujo título mais recente é Tríptico da Salvação, leitura de Verão de Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente, de resto, condecorou Mário Cláudio no dia da abertura da Festa do Livro de Belém pelo seu fantástico percurso literário. Amanhã, espero, estarei de volta.

Um género

Embora já exista há bastante tempo, é sobretudo na actualidade que o romance gráfico está a dar que falar, mais ainda por Sabrina (já aqui falei disto) ter sido o primeiro livro do género seleccionado para a final do Man Booker Prize em 2018 (não ganhou mas despertou a atenção de milhões de pessoas no mundo inteiro e já está traduzido cá na terra). Li no The Guardian que, até 1989, era proibido num livro de BD ou afim reproduzirem-se cenas de sexo, porque o género era visto como mais popular e destinado a leitores de todas as idades. Curiosamente, hoje os romances gráficos podem ser mesmo «gráficos» em matéria de sexo, violência sexual, nudez, exploração do corpo (leio no mesmo artigo que é uma reacção ao puritanismo anterior e uma forma de «empoderamento», essa palavra que hoje se usa quiçá demasiado frequentemente). Parece até que o género «romance gráfico» foi essencial para as autoras-mulheres se despirem, metaforicamente falando, e pela primeira vez exporem o seu corpo tal como o vêem e acham que ele é visto por homens e mulheres. Em Portugal, os romances gráficos começaram a multiplicar-se – e ora se trata de obras originalmente escritas e desenhadas para este formato, como Sabrina, ora de adaptações de livros clássicos (Albert Camus, Harper Lee, Anne Frank, etc.). Fiquemos atentos.

Bestiário

Inspirando-me num artigo muito divertido de García Ortega e Pérez Zuñiga na revista Zendra, falo-vos hoje da relação dos animais com os livros e vice-versa. Antes de mais, claro, as traças, os ácaros e os peixinhos-de-prata – esses horrores que devoram livros no pior dos sentidos. Depois falo de um animal fundador – a serpente – que está dentro de todas as Bíblias para mal dos Adões e  Evas deste mundo; não será mesmo assim o único réptil da literatura, se o dragão, tanto no livro de Kazuo Ishiguro O Gigante Enterrado como em Eragon, for um réptil. No que toca a insectos, temos a famosa barata da Metamorfose, de Kafka, as moscas de O Deus das Moscas, de William Golding, ou o bicharoco (já não me lembro do nome) que se infiltra na Arca de Noé em Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, de Julian Barnes. Cavalos não faltam, por certo, mas o mais famoso é seguramente o Rocinante de D. Quixote. No mar, os animais mais conhecidos serão a baleia de Moby Dick e o peixe terrível de O Velho e o Mar. Já quanto a animais comuns, lembro-me de repente dos terríveis cães ao serviço dos nazis em Cães Pretos, de Ian McEwan, da cadela de La Perra, de Pilar Quintana, que em breve publicarei, do Cão como Nós, de Manuel Alegre, ou de Buck, de O Apelo da Selva, de Jack London (mas há muitos mais). Existe um burro maravilhoso em Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, um gato em Kafka à beira mar, de Murakami, montes de gatos em Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, vários gatos naquele livro de Luís Sepúlveda que tem igualmente uma gaivota, e fico-me por aqui, de contrário nunca mais acabaria o post. Bestiário, já agora, é um fantástico livro de Cortázar. Divirtam-se.

Crónica e oficinas de escrita

Hoje é dia de crónica, e o link aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/27-jul-2019/interior/o-fim-da-correspondencia-11150192.html


 


Chegou também o regresso das Sessões Ícone na Escola de Escritas EC.ON, na Travessa do Possolo, em Lisboa. No dia 7, esteve presente a romancista Alexandra Lucas Coelho e ainda este mês, no dia 21, o poeta Miguel Martins é o escritor convidado. Mas, até ao fim do ano, vão participar Valter Hugo Mãe, Andreia C. Faria, José Rui Teixeira, Joana Bértholo, Marta Bernardes, Sérgio Godinho, Rodrigo Guedes de Carvalho, enfim, consulte a página e inscreva-se:


http://escritacriativaonline.net/


 

Amiga dos livros

No mesmo ano em que uma sondagem do semanário Expresso revelava que 43% dos portugueses não liam um único livro há seis meses, leio que na Finlândia as pessoas são bastante mais amigas da leitura e que são vendidos por ano no país cerca de 20 milhões de livros, o que indica aproximadamente 4 livros por pessoa, incluindo as crianças. Um em seis finlandeses entre os 15 e os 79 anos compra em média 10 livros por ano; e não se pode dizer que as novas tecnologias tenham afectado estes bons hábitos, pois em 1995 os números eram significativamente mais baixos. Há também muita gente (40% da população) que requisita livros nas bibliotecas regularmente (pelo menos, duas vezes por mês). As bibliotecas são mais de 800 (entre centrais e filiais), sem contar com as itinerantes (150), que circulam pelo país com cerca de 4000 títulos, representam 10% dos empréstimos totais de livros e chegam a percorrer 50 000 quilómetros num ano. O que é ainda melhor é que as bibliotecas adquirem todos os anos grandes quantidades de livros novos, investindo cerca de 300 euros por cidadão (!!!) em livros, revistas, jornais e outros materiais. Caramba, que paraíso.

A arte do romance

Já aqui anunciei, creio que em finais de Junho, a saída do novo romance de José Luís Peixoto, Autobiografia. Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance). Contudo, parece-me que não há aqui exactamente um espelho: como publiquei os seus primeiros livros e conheci JLP nessa altura mais de perto, há no romance (perdão, na Autobiografia) rotinas que não podiam estar mais longe das que relembro; mas, com o avançar do tempo, tudo é possível, claro (algumas coisas, sinceramente, espero que sejam só ficção). Como o Extraordinário Artur já referiu no dia 1, também tem graça encontrar nomes de personagens dos romances de Saramago (e um senhorio amoroso chamado Bartolomeu de Gusmão é engraçadíssimo). Porém, o que para já posso dizer sobre este livro é que ele não tem nada que ver com os livros de ficção de JLP que li (e foram todos) e que é um curioso exercício literário, algo muito mais experimental do que é costume (mesmo que a criança neste livro, filho da Lídia que Artur referiu, também esteja «em ruínas»). Só lendo.

Festa com jantar

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Na próxima sexta começa mais uma Festa do Livro da Amadora, que se prolonga até domingo à noite. Este ano o tema que dá mote ao certame é a biografia, o que faz, aliás, todo o sentido num ano em que a produção portuguesa alimentou o género com obras que já se sabia iriam dar que falar sobre a vida de escritores como Sophia, Cesariny ou Agustina, e a ficção se deixou, de algum modo, contaminar pela biografia, com livros «híbridos» como os de Paulo M. Morais ou José Luís Peixoto. Alguns dos autores dos mencioandos livros (e muitos outros) vão estar na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos em conversas sobre tudo o que tem que ver com «bio», vida; haverá também oficinas, música, uma livraria, e a festa termina com um jantar literário no domingo às 20h30, aberto ao público, para o qual fui convidada juntamente com o jornalista Carlos Vaz Marques para dizer também alguma coisa sobre a vida, mesmo que me tenham ensinado que não se fala enquanto se come. Se algum dos Extraordinários quiser aparecer por lá, é muito bem-vindo, os dados vão abaixo:


Inscrição prévia em bibliotecas@cm-amadora.pt ou 214369054 até 13 de Setembro. Preço: 10 euros.


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Portugal ao correr da pe(r)na

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Se nunca atravessou o País de norte a sul – a pé, quero eu dizer –, pode fazê-lo agora por interposta pessoa e, além disso, guardando o encanto da literatura. Afonso Reis Cabral – um dos mais jovens romancistas portugueses, vencedor do Prémio LeYa com O Meu Irmão e autor também do romance Pão de Açúcar, sobre o homicídio da transexual Gisberta – saiu da sua «zona de conforto» e pôs-se a caminho de um livro de não-ficção sem o saber. O sonho era percorrer Portugal a pé pela mítica Estrada Nacional 2, o que fez com coragem e um par de ténis milagrosos, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um sol ardente, ao longo de 24 dias; no fim de cada um, escrevia no Facebook o resumo da sua jornada, mas o resultado era muito mais do que um simples relato, porque estamos a falar de um Escritor com E maiúsculo; e, por isso, a sua bonita prosa foi convidando mais e mais leitores (muitos deles preocupadíssimos com as caminhadas diárias de 40 quilómetros e assustados enquanto o texto não aparecia, prevendo alguma tragédia) e desencadeando não raro cerca de 500 comentários ou mais. Nos dias derradeiros, quando Afonso se aproximava da meta, os seus leitores manifestavam já saudades daqueles textos e pena de que a viagem estivesse no fim. Por isso, não se podia deixar morrer ali a aventura. Agora, que tudo acabou (e bem), Leva-me Contigo – Portugal a Pé pela EN2 está aí, revisto, refeito, aumentado e ilustrado: é um livro que atesta a solidariedade dos portugueses (que deixaram almoços pagos a um rapaz que nem conheciam, lhe ofereceram iogurtes, lhe deram dormida, o acompanharam em alguns troços) e que vale muito a pena ler por todas as razões e mais algumas, incluindo porque pode lá estar a sua voz. Experimente e verá.


 


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Crónica e fabulário

Aqui vai a crónica, porque hoje é sexta-feira:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jul-2019/interior/o-corpo-de-cristo--11126796.html


 


Especialmente para quem gosta dos surrealistas, recomendo a leitura de um livrinho de Graciano Seixas, aliás, Côta Seixas, ilustrado por Tiago Seixas, intitulado Fabulário Amoral de Fauna & Flora, em que há ovelhas negras e de outras cores, uma pulga raptada por um cão num orfanato, anjos da Guarda e carapaus de corrida. Foi publicado pelas Edições Sem Nome e está à venda, por exemplo, na Leituria, na Poesia Incompleta e na Férin em Lisboa e, no Porto, na Poetria ou na Flâneur. Um exemplo:


 


O Sol para a Lua:


– A luar?


– Sim... e tu?


– Solzinho, muito solzinho. E tu?


– Tenho fases.


 

Sempre Lorca

A revelação do El País em 2012 da que seria provavelmente a última carta escrita por García Lorca, juntamente com um poema de amor inédito, teve uma enorme repercussão internacional. Trata-se de uma carta ao estudante de dezanove anos Juan Ramírez de Lucas, que em Julho de 1936, altura em que carta foi escrita, seria o namorado com quem Lorca planeava fugir para o México, sabendo porém que o rapaz não era maior de idade e precisaria de autorização do pai para deixar Espanha. É a última carta que Juan terá recebido do amante, antes de este ter sido fuzilado em Agosto de 1936 «por rojo y maricón», como refere o El País; e o que é mais engraçado: nem ao homem ao lado de quem viveu mais de trinta anos contou Juan desse seu relacionamento de juventude com Lorca, o que é incrível numa altura em que toda a gente quer reconhecimento público e as luzes da ribalta à sua volta. Sabe-se agora que, antes de morrer, Juan Ramírez deixou alguns documentos com a irmã, dizendo que gostaria de que um dia vissem a luz. Ela terá talvez partilhado a carta com o jornal, não sei. Fiquemos, então, à espera de que a família de Lorca (metade dela avessa à exposição, metade dela com vontade de partilhar tudo) se decida a mostrar-nos mais uns inéditos do grande senhor da poesia espanhola. (Esta história foi relembrada no último 18 de Agosto, data da morte do escritor, mas, apesar de a descoberta já ter uns anitos, vale sempre a pena falar dela.)