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A mostrar mensagens de fevereiro, 2015

Clássico moderno

Depois do atentado em França contra os jornalistas do Charlie, publicaram-se centenas de artigos de opinião em todo o mundo, muitos dos quais citavam Voltaire. O autor francês veio à baila, por exemplo, num texto muito interessante de Adolfo García Ortega no El País (abaixo fica o link para quem queira ler), no qual era citada a sua peça de teatro O Profeta Maomé e o Fanatismo (traduzo livremente, pois não sei se existe uma tradução portuguesa da peça); e também, mais recentemente, num artigo de Teresa Salema no Público que falava (além de muitas outras coisas) de Cândido («é preciso cultivar o nosso jardim»). Mas nenhum livro de Voltaire foi mais citado do que o seu Tratado sobre a Tolerância; de tal modo que a edição de bolso da editora Gallimard (a única, pelos vistos, que circulava em França) esgotou, em alguns dias, 120 000 exemplares (bem sei que só custava 2 euros, mas mesmo assim) e foi preciso reimprimir imediatamente, a tempo de estarem à venda no dia da marcha, outros 10 000 que, mesmo assim, se revelariam insuficientes. Neste período, o único livro com vendas equiparáveis foi o novo romance de Houellebecq, Soumission, que fantasia uma França islamizada (150 000 exemplares) e parecia ter sido feito de encomenda para os tempos terríveis em que saiu para o mercado. Mas, enfim, um texto com 250 anos concorrer com uma provocação de um autor vivo e polémico, sim, é obra!

É hoje!

Sim, é hoje que começa o encontro de escritores mais aguardado do ano: as nossas queridas Correntes d’Escritas! E, enquanto estiverem a ler este post, se tudo correr bem, eu estarei na Póvoa de Varzim, desta feita a acompanhar dois escritores: o grande Mário Cláudio, que lança este ano o delicioso O Fotógrafo e a Rapariga, e o espanhol Carlos Castán, de quem excepcionalmente (porque quase nunca faço livros estrangeiros) publico Má Luz, um romance belíssimo sobre dois amigos. Mas haverá muitos mais autores e celebridades a ouvir por estes dias, entre eles Eduardo Lourenço, José Tolentino de Mendonça, Guilherme d’Oliveira Martins (que fará a palestra de abertura Quem tem medo da Cultura?), o cubano Leonardo Padura, o colombiano Jorge Franco (de quem publiquei em tempos dois romances muito bons, Rosário Tesouras e Paraíso Travel, e que vou certamente gostar de rever), Ana Luísa Amaral, Paulo José Miranda (o vencedor da primeira edição do Prémio Literário José Saramago), Afonso Cruz, Bruno Vieira Amaral e até o brasileiro Martinho da Vila. Haverá muitos lançamentos de livros, mesas-redondas, cinema, exposições, enfim, um mar de coisas interessantes para encantar olhos e ouvidos. E este ano as sessões decorrerão maioritariamente no Cine-Teatro Garrett, arranjadinho de novo para nos servir de casa ao longo do festival. Vai ser mesmo bom!

À nossa volta

Os Passos em Volta é um conhecido livro de Herberto Helder, cujo título foi agradavelmente corrompido por duas jovens poetas e jornalistas – Filipa Leal e Inês Fonseca Santos – para dar nome a uma série de tertúlias que decorrem desde o ano passado na Casa Fernando Pessoa. Trata-se, no fundo, de discutir questões que andam por aí à nossa volta, desde o 25 de Abril ao Génio, passando pela Guerra, a Confissão ou o Bem e o Mal. Amanhã, pelas 19h00, um heterógeno painel de convidados - Gonçalo Galvão Teles (cineasta), Maria Flávia de Monsaraz (astróloga) e Nuno Camarneiro (escritor e físico) – estará na morada do grande Pessoa a falar dos Espaços em Volta do Futuro com as duas moderadoras, numa troca de ideias certamente dinâmica e variada. Neste ano, em que se estreia mais um capítulo de A Guerra das Estrelas e o filme O Novo Mundo (a história de Pocahontas realizada por Terrence Malick) faz dez anos, a sessão dará ainda a conhecer obras de ficção científica em que 2015 era mesmo um futuro longínquo para questionar se a ficção alguma vez se torna realidade.

Rosa e espinhos

Já aqui falei mais de uma vez da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero, autora dessa pequena obra-prima que é A Louca da Casa, um livro magnífico sobre a imaginação. Recentemente, Rosa voltou a Portugal para falar do seu último livro cá publicado – A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te –, um magnífico texto não ficcional sobre uma afinidade: a vida de Maria Curie e a sua, sobretudo desde que ambas perderam os maridos. Partindo da grande história da única mulher duas vezes nobelizada (e em categorias diferentes!) e de um seu pequeno diário escrito ao longo de um ano, na sequência da morte de Pierre Curie, Rosa Montero dá-nos a conhecer a cientista polaca que se tornaria francesa (a sua infância, a sua juventude, a sua garra, o seu trabalho de loucos) e, paralelamente, o que a une a si própria como mulher emancipada, trabalhadora, marginalizada, viúva. É um texto belíssimo do ponto de vista literário, mas também muito claro e informativo sobre uma mulher (ou duas) como há poucas. Lê-se de um fôlego, como um desses romances imparáveis, e mexe connosco a cada página, ao mesmo tempo deslumbrante e perturbador.

Fãs de livros e tecnologia

Cada vez mais os autores se tornam uma espécie de estrelas pop e cada vez mais perto estão do público. Talvez por isso, a LeYa acaba de lançar (fui informada por uma newsletter interna que recebo todas as sextas) a primeira aplicação (devia dizer apenas app?) para iPhone, iPad e Android dedicada aos fãs de escritores de língua portuguesa publicados nas várias chancelas do grupo. Foi desenvolvida em parceria com a Info Portugal e o seu objectivo é tornar acessíveis aos leitores a biografia e a bibliografia do seu autor favorito, mas não só; vai ser também possível consultar a agenda do escritor (para saber se pode apanhá-lo em alguma escola ou biblioteca perto de casa para lhe pedir um autógrafo), ver fotografias e vídeos de entrevistas e programas em que ele aparece, e, claro, ler excertos de algumas obras e deixar os comentários que entender. Segundo o comunicado, mais do que fornecer informação, esta app (estou a modernizar-me) promove interacção e inaugura uma nova forma de comunicação entre leitor e escritor. A primeira a ser lançada, e já disponível na App Store e no Google Play, é a do escritor moçambicano Mia Couto, que – é bem verdade – tem mesmo muitos fãs.


 

Luz dura

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Excepcionalmente, publico um livro na Teorema, Má Luz, de Carlos Castán, um autor espanhol que só costuma escrever contos (género em que se tornou um escritor de culto no país vizinho), mas que, ao atrever-se ao romance, mostrou que era igualmente hábil numa ficção mais comprida. A história começa com a relação de dois amigos homens desencantados com a vida, naquela idade em que começam a perceber que viveram muito (copos, mulheres, filhos de várias mulheres, drogas), mas se calhar não guardaram disso nada que agora, que começam a envelhecer, lhes valha. Um dos amigos começa até a ficar paranóico e a dizer que o perseguem e lhe querem bater, mas o outro julga que ele está apenas perturbado até ao dia em que a Polícia lhe telefona a comunicar que, de facto, Jacobo morreu assassinado. E é notável como o narrador, ainda mais só do que antes, se apropria da vida do morto, não só porque essa é a única forma de fugir à sua, mas sobretudo porque precisa de descobrir quem matou Jacobo, uma vez que não foi capaz de o ajudar a salvar-se. Uma mulher estará, claro, no centro de tudo – salvadora ou castigadora? É preciso ler esta pérola, de que João Tordo disse ser «um daqueles livros que dificilmente se esquecem, que perturbam uma noite tranquila em casa, uma tarde num café ou uma viagem de comboio.» Deixe-se, pois, perturbar.


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Comer, beber e falar

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Paulo Moreiras já confessou gostar tanto de escrever como de cozinhar; e eu acrescentaria que este meu autor também gosta bastante de comer e beber – sem isso não conseguiria, de resto, escrever tão apaixonadamente sobre comida. Mas é verdade que para ele as palavras alimentam tanto como uma boa refeição e a sua paixão por elas levou-o recentemente a uma ambiciosa aventura, a de coligir num volume tudo o que há de interessante para saber sobre pão e vinho: festas, adivinhas, provérbios, lendas, superstições, poemas, pequenas histórias, filmes… e muito mais. Amanhã vamos poder saborear uma vez mais o seu Pão & Vinho – entretanto galardoado com o Prémio Gourmand! – na Figueira da Foz, onde estarei também eu a participar em mais uma 5.ª de Leitura que, excepcionalmente, vai acontecer à sexta. Será às 21h30, na biblioteca da cidade, e crê-se que a audiência já vá jantada, porque as palavras do Paulo Moreiras costumam fazer fome. Se estiver por perto, apareça e de certeza que não se arrependerá!


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Um duo imperdível

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Mário Cláudio gosta do número 3 e, como tal, brinda-nos frequentemente com trilogias. O escritor do Porto tornou-se conhecido sobretudo com o romance Amadeu (sobre o pintor Amadeu de Souza-Cardoso) e logo completou aquilo a que chamou a «Trilogia da Mão» com os romances Guilhermina e Rosa. Mais tarde, olhou o céu inspirador e ofereceu-nos a trindade de romances Ursa Maior, Gémeos e Oríon. Quando publicou o delicioso Boa Noite, Senhor Soares (este Soares é o Bernardo do Livro do Desassossego), não sabíamos que se tratava do primeiro livro de um trio sobre a relação entre pessoas de idades muito diferentes. O segundo volume saiu no ano passado e era sobre Da Vinci e um discípulo (intitula-se Retrato de Rapaz) e o terceiro vem a caminho (quase nas bancas!) e é sobre a relação nem sempre clara entre Charles Dodgson e Alice Lidell; chama-se O Fotógrafo e a Rapariga. Pois para quem não esteja inteirado, eu esclareço: Charles Dodgson é, nem mais nem menos, o nome real de Lewis Carroll, o espantoso autor de Alice no País das Maravilhas, e a menina Lidell, provocadora q.b., uma Lolita em muitos aspectos, é tão-só a rapariguinha que inspirou o professor de Matemática e fotógrafo amador a escrever um dos livros mais famosos de todos os tempos. Esta pequena novela de Mário Cláudio é então sobre o encontro destas duas figuras imperdíveis – e, aqui para nós, nenhuma delas é inocente… Leiam, leiam – e não se arrependerão.


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Ficção-Verdade

Em tempos que já lá vão, inventei uma colecção chamada Ficção-Verdade (para reportagens, romances históricos e livros afins) numa editora onde trabalhei sete anos, a Temas e Debates; ora, esse nome vem muito a propósito do mais recente romance de Chico Buarque, hoje dado à estampa em Portugal. Intitula-se O Irmão Alemão e, para quem não saiba, é fruto de uma demorada pesquisa à roda de um filho que o pai de Chico Buarque teve com uma alemã quando vivia em Berlim, no início dos anos 1930 (creio que já terá nascido quando Sérgio Buarque estava e regresso ao Brasil e casado, ou quase, com a mãe de Chico e dos seus outros cinco irmãos brasileiros). O cantor só terá tido conhecimento de que tinha um irmão mais velho na Europa depois dos 20 anos – e, tanto quanto se sabe, por mero acaso, quando o grande poeta Manuel Bandeira, amigo do pai, lhe falou do assunto com a maior naturalidade, provavelmente pensando que o facto era do domínio da família; Chico não teve coragem para o confirmar em vida dos pais (a mãe morreu aos 100 anos), mas com a ajuda da sua editora, a Companhia das Letras (que acaba de instalar-se também em Portugal, depois de ter sido comprada, pelo menos em parte, pela Penguin-Random House), pôs um homem no terreno; e, em Berlim, foi possível encontrar não o irmão alemão (que tinha morrido aos 50 anos, antes da queda do Muro de Berlim, com um cancro de pulmão como o que vitimaria o pai dois anos depois), mas a sua viúva, uma filha e uma neta, bem como documentos e testemunhas que serviram de base a esta ficção. E – coisa que tem bastante graça – o (também) Sérgio alemão cantava muito bem, tinha até gravado discos na Alemanha Oriental... A história tem muitos pormenores interessantes, mas talvez seja melhor ler o romance do que lê-la por interposta pessoa.

Palavrinhas

Ando intrigada com a familiaridade de algumas palavras (em termos de parentesco linguístico, por assim dizer) cujo sentido actual me parece muito distante. Cabeça, por exemplo, que vem do latim caput e em italiano se diz capo. A raiz latina torna claro por que razão o capataz e o capitão estão à cabeça das suas equipas e tropas e também porque chamamos capo ao chefe da mafia italiana. Também se percebe facilmente porque usamos a expressão per capita (por cabeça, por pessoa). Se considerarmos que a cabeça é a parte principal de uma pessoa (se a perdemos, adeus!), também compreenderemos porque se chama pena capital à pena de morte e porque um decapitado perde a cabeça, bem como porque a capital de um país é a cidade principal. É ainda mais ou menos óbvio para mim que a letra capital (também denominada capitular) seja a que está à cabeça do texto. Já menos clara é a palavra capítulo como divisão de um livro (parece que deriva de capitulum, que é um diminutivo de cabeça, mas não encontro a relação entre cabecinha e parte de um livro), embora seja mais simples de entender a mesma palavra como assembleia de monges (em sala do capítulo, por exemplo), pois consigo visualizar cabecinhas pensantes tomando decisões (mas provavelmente é outra a explicação). E, quando penso em recapitular – verbo giro, este –, entendo que voltar ao princípio é também regressar ao que estava à cabeça – e até aí tudo bem. Porém, mais uma vez tenho dificuldade em associar o verbo capitular e o substantivo capitulação a uma cabeça (uma cedência ou transigência feita com a consciência de que era o melhor para todos? Pode ser); e ainda mais estranhas me parecem as palavras capitalismo ou capitalizar, já que as relaciono com dinheiro e me parece que a paixão pelo dinheiro nada tem que ver com uma boa cabeça (sim, eu sei que é preciso ser inteligente para acumular riqueza ilicitamente e não ser apanhado, mas mesmo assim). Enfim, andei às voltas com isto, mas não consegui tirar as devidas conclusões. Conto com quem tenha melhor cabeça do que eu para o fazer.

Vigésimo ano sem

Li numa newsletter enviada por um agente literário suíço que a escritora norte-americana de romances e livros de contos Patricia Highsmith já morreu há vinte anos. Senti-me velha, pois ainda me lembro de aguardar com ansiedade os seus novos livros numa editora onde trabalhei em início de carreira e na qual se publicaram muitos títulos da sua lavra (recordo-me, por exemplo, de Inocência Perversa ou Azul Cobalto – que tiveram dezenas de edições –, do mais discreto O Diário de Edith e também das colectâneas de contos que saíram já numa colecção de ficção literária, e não na de policiais, entre as quais Sereias num Campo de Golfe. Como neste estranho mundo em que vivemos «rei morto, rei posto», é provável que muitos dos Extraordinários, sobretudo os mais jovens, não conheçam ainda a grande Highsmith; mas ela é a inventora do senhor Ripley que certamente toca uma campainha para alguns por causa de filmes como O Talentoso Senhor Ripley e mesmo O Amigo Americano, de Wim Wenders, interpretado por Dennis Hopper, que por acaso ando cheia de vontade de rever. Por isso, se se quiserem abalançar à leitura ou releitura da senhora que também serviu de inspiração a Hitchcock para O Desconhecido do Norte-Expresso, fiquem à vontade. Verifiquei que há vários títulos disponíveis no mercado e não há nenhuma razão para não a querermos ler.

Diário-documento

Há muitos anos, tive oportunidade de ouvir excertos de um diário de Eduardo Lourenço durante as Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, numa sessão em que o filósofo era a personalidade que abria as hostilidades e estava a ser apresentado por José Carlos de Vasconcelos. E que beleza, eram realmente pequenos poemas as suas magníficas frases sobre o tempo em que vivia. Pensei cá para mim que adoraria ler esses pequenos apontamentos diarísticos, mas eles não estavam publicados. Porém, acabo de ler que a Biblioteca Nacional adquiriu o espólio de Eduardo Lourenço e o vai integrar no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. São óptimas notícias, claro, não só para esta curiosa, que quer reler o que uma vez ouviu ao vivo – essa espécie de «diário cultural», como o filósofo lhe chama –, mas para todos, pois Eduardo Lourenço tem literalmente milhares de documentos desde os anos 1940, entre os quais correspondência trocada com escritores como Vergílio Ferreira ou Sophia de Mello Breyner Andresen e muitos textos inéditos, alguns dos quais sobre arte e música. Como referiu o Secretário de Estado da Cultura na sessão que assinalou a compra do espólio, «trata-se de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI». A obra completa do autor será também publicada pela Fundação Gulbenkian. Boas notícias.

Diagnóstico

Desde há alguns anos (2010, creio) que os alunos do 2.º Ciclo do Ensino Básico de algumas escolas (no ano passado mais de 68 000 miúdos) realizam testes de Português e Matemática para se fazer um diagnóstico das suas dificuldades e tentar que, na prática pedagógica, se insista num ponto ou noutro. E agora o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) vem dizer que os resultados de 2014 não são famosos: os alunos escrevem com erros, não põem acentos, têm problemas em interpretar e escrever com coerência e – o que é ainda mais estranho, uma vez que o mundo tem sido regido mais pelos números do que pelas letras nos últimos anos – mostram não estar completamente à vontade no que toca a contar dinheiro. Em 2013, a apreensão do sentido de um texto revelou menos problemas – e parece que o que levou a que só 42% dos alunos tivessem em 2014 «o nível máximo de desempenho» se prende com o facto de o texto a interpretar ser um poema (mas o carteiro de Pablo Neruda entendia as metáforas e era quase analfabeto, digo eu). Quanto à ortografia, só 35% dos alunos escreveram correctamente as seis palavras pedidas e só 28% escreveram um texto sem erros; este texto só era coerente em 39% dos casos e só 38% dos alunos revelou um vocabulário adequado. Entre outras más notícias, verifica-se também que baixou desde 2013 a percentagem de alunos que interpretam bem o enunciado de um problema matemático (se calhar por causa das dificuldades com o português), enquanto sobe a dos que não conhecem o significado dos símbolos matemáticos e a dos que ainda se enganam a contar dinheiro. Fico tão estupefacta que nem consigo comentar.

Um livro para um dia

Faz-se de tudo para promover um livro – e a campanha de marketing criada para o mais recente romance do norte-americano James Patterson, Private Vegas (segundo o Diário Digital, será publicado em Portugal pela Top Seller), é mesmo uma loucura. Quem quiser comprar terá de pagar 255 mil euros, é que diz a campanha logo a abrir… Bem, este valor, ao que parece, dará direito a mais coisas, entre elas uma viagem em primeira classe para um destino desconhecido, duas noites num hotel de luxo, um jantar de cinco pratos com o próprio Patterson e uma colecção de livros autografados pelo autor (não estou lá muito interessada nestas benesses). Porém, como a quantia referida não é para qualquer bolso (já estou a ver o escritor sentado à mesa de um restaurante sofisticado completamente sozinho a carpir as mágoas – ou então rodeado dos mafiosos do dinheiro fácil), quem gosta dos livros de Patterson pode lê-los gratuitamente numa aplicação criada para o efeito em mil tablets que vão ser oferecidos aos leitores (comprados com os 255 mil euros que os outros doidos pagarem, presumo), mas só poderá demorar um dia da primeira à última página, porque o texto se apagará ao fim desse tempo (com algum sentido crítico, Patterson admite que os seus livros podem ser lidos em 24 horas ou menos), ou (finalmente!) comprá-los normalmente numa livraria por 24 euros. O romance, presumo, versa o tema do jogo – tem pelo menos uns dados de jogar na capa, a par de uma imagem de Las Vegas à noite –, mas esta campanha promocional parece-me, enfim, uma aposta demasiado ambiciosa.

Ouvir ler

«A leitura alarga o teu espaço, dá-te novos amigos, leva-te a conhecer lugares, emoções e ideias que nem imaginas que existem. […] Ler define a tua personalidade, faz de ti uma pessoa mais corajosa, mais inteligente, mais sedutora. Por isso, nós desafiamos-te a revelar o teu lado secreto. Mostra do que és capaz e lê em voz alta os textos de que gostas e os que vais descobrir.» Foi desta forma que a Fundação Calouste Gulbenkian convidou os jovens a gravarem um vídeo com uma leitura de um texto literário e a enviarem-nos para este concurso chamado Dá Voz à Letra. A participação foi maciça e certamente a pré-selecção muito difícil de fazer. Mas agora chegou a altura de se ouvirem os dez finalistas, cinco rapazes e cinco raparigas com idades entre os 13 e os 17 anos. Se gosta de ouvir ler literatura e quer saber qual é o melhor destes dez magníficos, a sessão decorrerá na Zona de Congressos da Fundação amanhã, pelas 18h00, garantindo que a leitura também pode ser espectáculo. Os textos serão todos de autores portugueses! Um júri composto por Catarina Furtado, o actor Albano Jerónimo e o escritor David Machado escolherá o leitor de 2015. Não falte.


 

Livraria Solidária

Há algum tempo, fui contactada pela responsável por um blogue chamado Déjà Lu, que leiloava livros usados com o objectivo de angariar fundos para a Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21. Pediu-me um livro de poesia autografado que, obviamente, ofereci. Agora recebo a boa notícia de que o Déjà Lu vai poder sair do espartilho da Internet e ter finalmente um espaço físico, uma livraria solidária de livros em segunda mão. Ao que parece, o grupo hoteleiro Pestana foi sensível a esta iniciativa e disponibilizou um espaço na Cidadela de Cascais, que abrirá as suas portas no próximo dia 28 de Fevereiro. Tal como já acontecia no blogue, todas as receitas da livraria reverterão integralmente para aquela Associação e o trabalho será feito por voluntários. Todos podemos oferecer livros (portugueses e estrangeiros) e a livraria terá certamente à venda muitos títulos que já não conseguimos encontrar por aí, mas não exactamente empoeirados como nos alfarrabistas. Além disso, promete embrulhá-los com originalidade e ser um espaço low-cost, o que em tempos de crise também tem as suas vantagens. Funcionará ainda como uma espécie de clube, aproximando o staff dos clientes, com sessões de leitura, cursos de literatura e de escrita e muitos outros workshops. Parece que procuram voluntários para a loja e que ficam contentes se lhes oferecermos livros que já não queremos. Deixo o link da página de Facebook do Déjà Lu para consultarem se tiverem interesse. Uma grande ideia, digo eu.


 


https://www.facebook.com/pages/D%C3%A9j%C3%A0-Lu/172870586088680

Lista negra

A Idade Média já foi, mas parece que deixou rasto até hoje. Leio num jornal que existe um novo Index, uma lista negra de livros e autores banidos pela Opus Dei, que proíbe terminantemente os seus membros de os ler. Entre eles, está, evidentemente, Saramago e os seus Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim; mas, se pensava que eram só os livros que de algum modo provocam a Igreja católica a estar no rol, desengane-se, porque são mais de 30 000 os títulos dele constantes – e alguns são de pasmar, como O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. A Sociedade Portuguesa de Autores já repudiou a lista, no que ela tem de atentado à liberdade de expressão, e o mesmo fizeram os autores visados que acharam que a Opus Dei devia ter vergonha de nomear livros para a fogueira no século XXI. Porém, os especialistas em Direito defendem que, do ponto de vista legal, a lista é inatacável e que, por isso, o Estado não pode aplicar sanções. Mas imagine-se que a organização proibia os seus membros de ler Os Maias, que faz parte das metas curriculares e é de leitura obrigatória pelos alunos. Os jovens filhos de membros da Opus Dei prefeririam chumbar a desobedecer aos pais? Está tudo louco, digo eu.

Derrocada

A história tem anos, mas, pelo que sei, apesar das chamadas de atenção desde 2007, quase nada foi feito. Nesse ano, um artigo do Jornal de Notícias alertava para a derrocada iminente da casa onde António Nobre terminara os seus dias, na Avenida do Brasil, à Foz, no Porto, e da qual não se sabia quem retirara recentemente a placa que aludida a que ali residira e morrera o grande poeta do Porto. Na altura, foram enviados pedidos de recuperação do imóvel, bem como a sugestão da sua transformação numa casa que pudesse albergar o espólio do autor de Só, armazenado pela Câmara e indisponível. Era então presidente do município Rui Rio e ministra da Cultura Isabel Pires de Lima. Porém, apesar da insistência, o problema persiste, a casa degrada-se cada vez mais e, embora o espólio (manuscritos, livros, objectos e peças de vestuário) tenha sido transferido para a biblioteca pública municipal, a ruína do edifício e a sua não classificação poderão apagar o rasto de um dos mais importantes nomes literários do Porto. Corre, pois, uma petição para evitar a calamidade, sendo um dos seus signatários o escritor Mário Cláudio. Creio que é de todo o interesse assiná-la e, por isso, aqui deixo o link para todos os interessados.


 


http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT75775

O que ando a ler

Recentemente, pediram-me que escrevesse um texto de incentivo à leitura de Gil Vicente para alunos do 10.º ano. Ao que parece, os autores clássicos não convocam hoje grande simpatia por parte dos jovens (nem sequer Fernão Lopes, pelos vistos, que é um dos meus preferidos) talvez por terem um grau de dificuldade associado aos arcaísmos que inibem muitas vezes a leitura. Não quis, porém, escrever sem reler a peça que os alunos estudarão: Farsa de Inês Pereira, que até representei em menina no auditório da escola; e, como já nem sabia onde estava o meu Gil Vicente, aproveitei a versão digital gratuita, descarreguei-a e li-a num iPad (estou a adaptar-me aos tempos modernos, mas nem custou nada, são só 40 páginas). E que alegria assim que voltei a pôr os olhos no texto e a ouvir dentro da cabeça a língua do mestre! Os versos maravilhosos, às vezes divididos ao meio por duas personagens, marcando um ritmo acelerado e bem-disposto, a rima perfeita, tantas palavras gostosas de que nem me lembrava. E que reviravoltas surpreendentes, sempre a contrariar aquilo que esperávamos, quanta sabedoria e quanta coragem de dizer verdades incómodas (e sabemos que o dramaturgo trabalhava na Corte, mas não se ensaiava nada em cascar na Nobreza). Enfim, a experiência foi tão boa (são assim os clássicos) que agora ando a (re)ler Gil Vicente. Rápido, grátis e muito compensador.