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A mostrar mensagens de 2012

Bom Natal

Neste dia em que andará tudo atarefadíssimo nas compras (baratinhas, bem sei, que isto não está para mais) e nos cozinhados, quero desejar a todos os leitores deste blogue um feliz Natal em companhia dos que amam e umas boas entradas em 2013. Sim, perceberam bem: esta semana vou estar de férias e só volto ao Horas Extraordinárias no dia 2 de Janeiro. Vai ser difícil passar sem os meus leitores tanto tempo, bem sei, mas espero revê-los aqui em breve. Tudo de bom!

Pessoa para pessoano

Foi, recentemente, anunciado mais um Prémio Pessoa (que, no ano passado, calhou a Eduardo Lourenço – uma personalidade tão óbvia para o receber desde a primeira hora que, provavelmente por isso mesmo, passou despercebida e só então o pôde arrecadar). Este ano, porém, a escolha teve, entre outras coisas, muita graça, porque o galardão acabou por ser entregue a alguém a quem cabe que nem uma luva, na medida em que um prémio chamado Pessoa é perfeito para um pessoano. Parabéns, pois, a Richard Zenith, um norte-americano que há muito se dedica a um dos nossos poetas maiores e muito tem feito não só para o traduzir, promover e divulgar nos países de língua inglesa, mas também para o apresentar exaustivamente aqui mesmo na nossa terra, onde é, aliás, responsável pela edição da obra magna (de Pessoa e heterónimos) na editora Assírio & Alvim.

Livros da vida

Frequentemente, em suplementos culturais e revistas literárias, perguntam aos escritores quais foram os livros da sua vida – pergunta incómoda, claro, porque os livros da vida mudam muito ao longo da vida, e um título que, na juventude, foi extremamente importante e enriquecedor pode perder relevância noutro momento em que já se acrescentaram leituras mais significativas. Há também uma certa tendência para, nestas situações, os escritores referirem monstros como a Bíblia ou clássicos inescapáveis como Dom Quixote de La Mancha; e até pode acontecer mencionarem alguns livros só para mostrar que os leram, como o Ulisses de Joyce ou Em busca do Tempo Perdido, de Proust, os exemplos que mais frequentemente aparecem nessas listas. Numa entrevista ao vivo a Lobo Antunes, de que já aqui falei um dia destes, o jornalista Carlos Vaz Marques pediu ao escritor que partilhasse com o público os títulos de três livros da sua vida; ele sorriu sem fingimentos e contou que o mesmo pedido fora feito um dia a Oscar Wilde que, com a sua graça inigualável, terá respondido: Como posso avançar três livros, se ainda só escrevi dois? Os livros da vida de um escritor não serão, acima de tudo, os que escreveu?

Conselhos aos jovens

Cá em Portugal, não conheço muitos escritores consagrados que queiram travar conhecimento com os que se estreiam nas letras e aconselhá-los sobre procedimentos a adoptar na carreira ou avisá-los das contrariedades e desilusões que os esperam. É bem possível que se juntem nas feiras do livro no stand da editora (se a partilharem, claro) e até conversem sobre literatura, mas, francamente, nunca nenhum dos novos autores que publiquei me contou nada de memorável a este respeito. Recentemente, porém, um escritor norte-americano que publicou o seu primeiro romance contou numa entrevista que conhecera Philip Roth num café (pareceu-me até que provocara esse encontro só para ter o supremo gozo de oferecer o seu livro ao mestre que tanto admirava) e que este (mesmo sem ter lido uma linha da obra) o terá imediatamente dissuadido de escrever, explicando que a actividade implicaria um grande sofrimento porque o desejo de se superar a cada novo livro nunca o abandonaria e poderia até dar origem a momentos de decepção e fracasso insuportáveis. Disse-lhe que parasse enquanto pudesse (ao que o jovem respondeu que, infelizmente, era demasiado tarde). Por razões bem distintas, Diderot também aconselhou um jovem poeta a deixar de escrever. Depois de ler os poemas que o rapaz lhe pedira que avaliasse, confessou-lhe que não só eram maus como mostravam claramente que o seu autor nunca escreveria nada de bom – e que, nessa medida, seria mais prudente dedicar-se desde logo a outra coisa. Às vezes, de facto, é bem melhor não pedir opiniões...

Preconceitos

Toda a gente sabe que a melhor forma de difundir uma ideia, um produto, seja o que for, é pela televisão, que está acesa todos os dias em casa de milhões de pessoas. Mas, curiosamente, mesmo os autores que ajudam muito a promover os respectivos livros, quando são convidados para participar em programas ditos populares, desses que preenchem as manhãs ou as tardes dos desocupados, raramente aceitam, crentes talvez de que a sua imagem – e os seus livros – nada têm a ganhar com o sacrifício, até porque a grande maioria dos que vêem televisão a essas horas são provavelmente os que têm menos hábitos de leitura de todo o País. Curiosamente, fui há uns quinze anos ao Porto participar no Praça da Alegria, nessa altura apresentado ainda por Manuel Luís Goucha. E não só nunca fui tão bem tratada em televisão, como me dei conta de que toda a equipa era de um profissionalismo difícil de igualar (lembro-me, por exemplo, de que o apresentador telefonou à minha mãe uns dias antes de eu ir ao programa – e não fui eu que lhe dei o número – e perguntou tudo sobre a minha relação com os livros desde pequena para poder sustentar a conversa sem hesitações ou lapsos desnecessários). Pouco antes, tinha ido a um outro programa, este mais intelectual, participar numa mesa-redonda sobre o imaginário infantil; e o conhecido jornalista que o conduzia, uns minutos antes de começar a emissão, andou a perguntar os nomes dos intervenientes, como se não tivesse sido ele a convidar-nos (e se calhar não foi). Sei que os programas popularuchos têm hoje em todo o mundo um nível bastante baixo, mas, com o desaparecimento anunciado de outros mais interessantes em termos culturais, não será tempo de pôr os preconceitos de lado? Isto para quem está interessado em ser conhecido, claro, porque também há os eremitas e os que cultivam uma certa distância, e estão no seu pleno direito.

Portugal é nosso

A minha mãe conta que, quando a minha irmã era pequena – uns seis anos, se tanto –, iam as duas de metro para a Baixa quando, já perto da estação do Rossio, onde saíam, a terá avisado: «Agora é a nossa.» Mas, porque se estava numa época terrível e o salazarismo espalhava mensagens que todos ouviam (alguns sem perceber sequer o que implicavam), a miúda terá ouvido mal e repetido num tom de cantilena, para vergonha da minha mãe e consternação dos passageiros: «Angola é nossa! Angola é nossa!» Pois bem, o mundo mudou imenso desde então, e ainda bem, mas também não era preciso os factores inverterem-se… Não só a filha do Presidente Eduardo dos Santos detém importantes participações em bancos (BPI e Millenium BCP) e empresas portuguesas (a Galp ou a Zon), mas também consta que a RTP vai ser vendida a gente de Angola (e a dispensa do jornalista Pedro Rosa Mendes na sequência de uma crítica à subserviência da RTP a Angola já pode ter tido que ver com isso); o jornal Sol é de um grupo angolano, o mesmo se prevendo relativamente aos órgãos de comunicação social detidos actualmente pela Controlinveste, entre os quais se contam a TSF, o DN, o JN e alguns jornais desportivos – o que, a ser verdade, vai obrigar os que ali trabalham a pensar duas vezes antes de falar do país donde vieram milhares de portugueses em 1975. A Tinta-da-China, editora do livro Diamantes de Sangue – Tortura e Corrupção em Angola, do jornalista Rafael Marques – angolano, pois claro –, acaba de ser constituída arguida num processo instaurado em Portugal contra o autor por um grupo de generais que são acusados no livro e foram também objecto de uma queixa-crime de Rafael Marques em Angola pelas práticas de tortura e morte ocorridas nas minas de diamantes das Lundas (e arquivado entretanto  por falta de provas). A liberdade que conquistámos, que entre outras coisas serviu para libertar Angola do nosso jugo imperial, parece estranhamente estar a conduzir a uma situação de medo e subserviência que não é nada boa. Qualquer dia é Angola a dizer: Portugal é nosso...

Editores em livro

Em vários países do mundo – desde logo nos Estados Unidos, mas também na vizinha Espanha – é relativamente comum os editores, chegados a determinada idade, publicarem as suas memórias, às quais não são obviamente estranhas histórias e anedotas sobre a sua relação com os autores que publicaram, o que, diga-se de passagem, apimenta a obra e gera interesse suplementar. Menos comum é a publicação de biografias de editores por mão alheia, mesmo dos célebres e mortos, embora haja casos de grandes figuras retratadas por terceiros, com base em aturada investigação e conversa com quem as conheceu pessoalmente. Em Portugal, porém, temos muito pouca coisa disponível sobre as pessoas que fizeram a história da edição, mas agora, pelo que sei, a situação vai mudar. Os Booktailors, que publicam ocasionalmente livros, inauguraram recentemente uma série exclusivamente dedicada aos editores portugueses que promete cobrir decididamente o vazio nesta matéria. Estreada com Fernando Guedes, o Decano da Edição Portuguesa, entrevistado pela jornalista Sara Figueiredo Costa, são de esperar em breve outros dois títulos na colecção, um sobre a editora do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes, e outro sobre o fundador da Teorema, Carlos da Veiga Ferreira. Tenho pena de que a ideia não tenha surgido nos anos 70 ou 80, pois perdemos definitivamente a oportunidade de aceder às histórias na primeira pessoa de editores como Lyon de Castro, Joaquim Magalhães, ou mesmo Snu Abecassis, que viveram tempos especiais em matéria de livros e partiram deste mundo sem os poderem partilhar connosco; mas estou feliz por ter à disposição o testemunho de Fernando Guedes – da Verbo, claro –, um editor multifacetado com uma história riquíssima, inclusive em termos internacionais.

Acordar melhor

Na sexta-feira passada, acordei com a notícia de que o governo do Brasil decidira adiar a obrigatoriedade do Acordo Ortográfico (AO) até, pelo menos, 2015. Sempre tive a impressão de que fora o Brasil a puxar pelo dito e nós a irmos atrás para não perdermos o comboio, que é como quem diz para não perdermos para eles, entre outras coisas, o mercado nos países africanos de língua portuguesa. Como sou contra muitas das alterações propostas pelo AO (e não vale a pena voltar a isso, porque já falei do assunto aqui bastantes vezes), fiquei aliviada por pensar que, se os brasileiros adiam, é porque perceberam provavelmente que o AO não é assim tão bom e quiçá, mais ano menos ano, o arrumam numa gaveta e o esquecem. Porém, nesse mesmo dia, ao regressar a casa com o rádio sintonizado na TSF, percebo, pela intervenção de alguém com mais informação do que eu, que no Brasil existe um projecto que responde pelo nome Acordar Melhor e que, ao contrário do que acreditei ingenuamente, é uma proposta para se ir ainda mais longe nas alterações, razão por que se sustém agora para planear direitinho (com sotaque brasileiro e tudo) e pôr cá fora lá para 2016 uma versão ainda com mais espinhos para pessoas como eu. Bem, já não se pode, pelos vistos, acordar bem, que vem logo a ameaça do Acordar Melhor para nos tirar de vez o sono…

Patenteado

Passo, como todos calculam, horas infindas a ler livros em bruto, versões que os autores entregaram ao editor cedo demais, nas quais transparece muitas vezes talento e imaginação, mas falta uma revisão atenta e crítica. Esses livros «embrionários» obrigam a mais do que uma leitura, a reflexão demorada, a uma procura de soluções para problemas específicos; e, quando tudo isso é processado, a propostas de alteração frequentemente profundas. Na maioria das vezes, tenho, porém, a sensação de que o autor, se fosse menos ansioso e apressado, acabaria por chegar sozinho às mesmas conclusões, poupando-me, claro, muitíssimo trabalho. António Lobo Antunes, numa entrevista ao vivo conduzida por Carlos Vaz Marques há uns dias numa sala do cinema S. Jorge (por ocasião dos 25 anos da revista Ler), disse que as primeiras versões dos livros lhe saíam relativamente bem e depressa, tendo até a mão dificuldade em acompanhar a rapidez do pensamento; mas era então que começava verdadeiramente o trabalho – ler, reler, rever, refazer, cortar, alterar – e era isso que demorava realmente meses; explicou ainda que era fundamental usar o «detector de merda» [sic] para tirar do «rascunho» tudo o que era excesso, gordura, porcaria. Não há, por acaso, ninguém que queira patentear um instrumento como este para me facilitar a vida?

Filmes de escritores

Bela ideia teve a RTP de propor a quatro escritores portugueses relativamente jovens, mas já com provas dadas, que escrevessem um guião para um telefilme. São autores com linguagens completamente distintas em matéria de literatura (três deles também poetas) mas da mesma geração: José Luís Peixoto, Pedro Mexia, Valter Hugo Mãe e João Tordo (este último, se não erro, é o único com experiência na área, uma vez que foi durante algum tempo guionista de uma produtora de cinema e televisão e assinou, a meias, o script de, pelo menos, uma longa-metragem). O primeiro dos telefilmes – Entre Mulheres, de Peixoto – é a história de uma viúva com um segredo difícil de confessar e foi transmitido na quinta-feira passada (embora haja uma operadora que permite a recuperação de todos os programas que passaram nos últimos sete dias e essa possa ser a forma de o ver, se por acaso o perdeu). Contudo, ainda vamos todos a tempo de assistir aos outros três para sabermos se os nossos escritores têm também talento para passar da palavra à acção. O próximo a ser exibido chama-se Bloqueio, é assinado por Pedro Mexia e passa já nesta quinta-feira à noite. Nas próximas duas semanas, serão exibidos Crónica de Uma Revolução Anunciada, de João Tordo, e A Morte dos Tolos, de Valter Hugo Mãe. A realização desta mini-série, intitulada Portugal Hoje, é de Henrique Oliveira. Para variar, ver em vez de ler.

Wanted, alive

Três dias antes de a extraordinária Isabel ter aqui expressado por escrito a sua preocupação com a falta de comparência de Cláudia da Silva Tomazi, que foi durante um largo período leitora e comentadora assídua deste blogue, escrevi um post (o que foi publicado no dia 1 de Dezembro) que tinha um post scriptum, entretanto apagado. Coincidência, telepatia ou outra coisa qualquer, a verdade é que esse P.S. era exactamente uma chamada de atenção para o vazio deixado pela brasileira, intempestivamente desaparecida. Não foi, é óbvio, a única que preferiu ir «pregar para outra freguesia»; lembro com facilidade outros nomes que foram muito constantes numa certa altura e depois quiçá desistiram de perder o seu tempo com as minhas bagatelas... Alguns até compreendo porquê, uma vez que chegaram ao blogue no mesmo mês em que me mandaram um livro que haviam escrito e o deixaram um ou dois dias depois de eu o ter recusado. Outros, também desconfio porquê, mesmo que já não os compreenda tão bem (mas é desconfiança que agora não vale a pena partilhar). Com a Cláudia, porém, estou completamente segura de que, se houve pedra no seu sapato, não fui eu que lá a pus – o mais provável é que os meus assuntos tenham deixado pura e simplesmente de lhe interessar. Tenho pena, porque um blogue nunca é feito apenas por quem deixa o post todas as manhãs; mas saber que ela está viva e de boa saúde comentando noutros locais da blogosfera já me aliviou. Pode ser que regresse, sobretudo se chegar a saber que sentimos tanto a sua falta… Em todo o caso, este post serve também para agradecer aos que o frequentam, comentem ou não, e sobretudo aos que se afeiçoam aos outros frequentadores, prova de que são de carne e osso e não olham apenas para o seu umbigo. Obrigada!

Belvedere

Delícia suprema é ler um escritor que, muito além de saber inventar uma boa intriga e de lhe dar o mais surpreendente desfecho, conhece e usa palavras estranhas e deliciosas, que precisam mesmo de que alguém as resgate do desuso para não fugirem dos dicionários nos próximos tempos (nestes em que vivemos, há uma pobreza nos discursos e nos escritos em geral que é de bradar aos céus). Estou a saborear Mário de Carvalho em duas novelas – O Varandim e Ocaso em Carvangel –, ambas no mesmo volume recentemente publicado (um 2 em 1 muito apropriado à época de poupança e falta de desafogo financeiro que atravessamos). E que felicidade é poder entrar assim, pela mão de um escritor que muito sabe e, ainda por cima, gosta de partilhar, na casa do senhor Zoltan, com dois filhos impossíveis e um sogro moribundo que ocupa demasiado espaço (até porque grunhe bastante), na qual um varandim quase esquecido (para o qual dão janelas que se encontravam entaipadas) se torna de um momento para o outro mirador privilegiado de fidalgos e matronas, decididos a não perder pitada de um castigo que o grão-duque, embora levemente contrariado, acabou por concordar em infligir a meia dúzia de anarquistas. Pobre homem sensato e discreto este senhor Zoltan, que é contra a pena de morte e o espectáculo do sadismo e com quem a sorte vai ser – pois claro – injusta, como seria de esperar da ironia de Mário de Carvalho, mestre na dita e noutros equipamentos literários para gáudio dos seus leitores. Agora, lambo os beiços, saciada, e guardo para amanhã Ocaso em Carvangel, sobre um jovem notário numa terra onde todos aguardam um navio (sei lá se virá), porque duas novelas tão boas num só dia podem habituar-me mal, e quem já leu o volume inteiro diz que esta segunda é ainda melhor. Em tempos de escassez, é bom conservarmos pelo menos um kit de sobrevivência para o dia seguinte.

De luto

Na semana passada chegou o anúncio oficial: o programa Câmara Clara, versão diária e versão semanal, tinha os dias contados – e esses dias acabam no fim do mês. Já havia zunzuns sobre o assunto, é verdade, sobretudo desde que a venda de um dos canais da RTP deu parangonas nos jornais e o ministro que comprou o curso na Farinha Amparo declarou que a RTP2 era um canal desinteressante para os investidores (para os quais, certamente, os números contam mais do que as letras). Antes disso, a TVI tinha acabado com os seus dois programas culturais, a Livraria Ideal e o Cartaz das Artes; e, assim, em menos de três meses, ficámos privados de qualquer espaço televisivo, público ou privado, que nos apresente livros, exposições, concertos e outras manifestações interessantes e, simultaneamente, nos traga uma vez por semana a voz e as ideias de escritores e artistas sempre prontos a ilustrar-nos e a acrescentar algo de útil à nossa bagagem. Um buraco negro, diria eu, que aceito cada vez pior que uma nação cuja população escolarizada cresceu exponencialmente desde que eu saí do liceu passe agora a cultivar-se televisivamente apenas à custa de concursos tolos com perguntas de escolha múltipla. Mas, bem vistas as coisas, vinda de quem vem, outra coisa não seria de esperar: pois se o primeiro-ministro sugere que emigrem os jovens licenciados (e, com a situação crítica que nos espera, é natural que volte a aumentar o abandono escolar, pois muitos terão de ajudar os pais desempregados), para que vão servir de facto programas culturais daqui a uns tempos? Estamos, pois, de luto. De luto carregado. E não o vamos poder aliviar tão cedo.

O futuro é sombrio

Andamos tristes lá em casa, o Manel um pouco menos do que eu, é certo, porque gosta mais da vida e, além disso, já era crescidinho quando o doutor Salazar caiu da cadeira e, como tal, o retrato que tem à frente é-lhe, de algum modo, familiar. Mesmo assim, às vezes damos connosco, à noite, a olhar um para o outro bastante macambúzios: à nossa porta (maneira de falar), há cada vez mais homens com fome – e não da que se mata com um prato de comida, que aí ainda poderíamos ajudar (embora a caridade não seja solução), mas da que só se sacia com um trabalho que não existe, independentemente de os braços terem força para tudo e vontade de fazer. E nós, no meio dessa tristeza, publicando livros. Pobres livros... Depois da ilusão do Natal (e já será para poucos, bem sei), quem vai realmente poder comprar livros, goste ou não de ler, quando as mangas dos casacos dos filhos ficarem curtas e os sapatos apertados, apesar dos pés pequenos? Quem cometerá a ousadia de ler um livro novo quando Janeiro se eriçar de frio e a conta da electricidade começar aos gritos de alarme? Quantos dos nossos amigos e conhecidos, muitos deles grandes leitores, gente dos jornais e das televisões, individual e colectivamente despedidos, começarão o ano de 2013 (o 13 do azar) desempregados, ainda para mais com a consciência de que, na sua idade, pode ser (des)ocupação para muitos anos, enquanto o subsídio de desemprego – esse, sim – tem os anos contados? E que será então dos tradutores e revisores, das pessoas que trabalham nas gráficas, nas livrarias e nas editoras? Que será de mim e do Manel, por exemplo, se aquilo em que trabalhámos toda a vida, além de não pôr comida no prato de ninguém, fizer de nós mais dois com fome (maneira de falar), iguais a esses que todos os dias se vão acrescentando à nossa porta? A preto e branco vejo o retrato do futuro próximo. O Manel, que já viveu a sépia, entristece-se menos, aconselha-me a preocupar-me apenas quando (e se) esta ceifeira moderna bater à nossa porta. Sim, ainda temos casa e porta, é um facto. Muitos já as perderam.

O feitiço da Índia

Publiquei recentemente um romance de Miguel Real com o título deste post, mas não é dele que pretendo falar aqui hoje. Há uns anos, quando estava na QuidNovi, comprámos os direitos de um romance (na verdade, tratava-se de um relato autobiográfico, e não exactamente de uma ficção, mas era «vendido» como romance) cujos direitos de adaptação ao cinema tinham sido adquiridos por uma grande produtora que prometia Johnny Depp no papel do protagonista (mas, que eu saiba, o projecto não foi avante). Ressuscitado agora por qualquer razão que desconheço, Shantaram, de Gregory David Roberts, voltou às livrarias com bastante destaque e tenho-o visto nas mãos de muitos leitores em esplanadas e salas de espera. Fazendo jus ao título de Miguel Real, este é o livro que define, efectivamente, o feitiço que a Índia exerce nos estrangeiros. O autor, um australiano em fuga de uma prisão de alta segurança depois de condenado pelos crimes de tráfico de armas, posse de droga e assalto à mão armada, viaja com um passaporte falso para Bombaim onde, depois de um encontro com um guia turístico, o inesquecível Prabaker, e muitas outras personagens que contribuem para o tal encanto da Índia, se torna um homem completamente diferente – generoso, altruísta, merecedor do nome Shantaram, que significa «homem de paz». Mas não se pense que o livro é uma dessas obras melosas de autoconhecimento ou armada em exemplo moralista para os leitores. Nele, a Índia é retratada no seu melhor e no seu pior, e não faltam descrições dos bairros miseráveis e nauseabundos de Bombaim, das ruas imundas cheias de cães esfomeados que atacam de noite, das aldeias de um atraso indizível onde se morre de fome mas as vacas engordam. Um relato realista, pungente e, às vezes, hilariante faz deste livro um autêntico feitiço, pois, quando se começa a ler, já não se consegue largar.

O que ando a ler

Nos últimos tempos, por uma coincidência inexplicável, li três romances que falam de gémeos, da questão do duplo e do problema da identidade. Nesses romances, os gémeos eram tão depressa do mesmo óvulo como de óvulos diferentes e, num deles, até havia gémeos de ambos os tipos. Dois desses livros eram, curiosamente, de autores brasileiros – e é de um deles que hoje falarei, o que tem por título Dois Rios e vem assinado por Tatiana Salem Levy, uma escritora de quem li há uns anos o magnífico A Chave de Casa. Desta feita, temos uma obra partida ao meio: de um lado, fala-nos Joana, do outro Antonio, gémeos que viveram juntos uma história secreta que nos é contada veladamente, na qual o pai morreu de enfarte, lançando uma sombra de culpa nos irmãos, e a mãe, mais ainda desde que enviuvou, sofre de um distúrbio psíquico que obrigou Joana a ficar com ela depois da partida intempestiva da sua metade masculina. Em ambas as partes, porém, está a irresistível Marie-Ange, uma francesa que entorta a boca quando expele o fumo do cigarro e que tem um dilema cuja resolução recairá ou em Joana, ou em Antonio, ambos loucamente apaixonados por ela e capazes de mudar as respectivas vidas por esse amor. Cada metade do livro é, pois, um rio, o rio por onde Maria-Ange desaparecerá da vista dos amantes num barco de pesca, deixando-os insuportavelmente sozinhos com as suas memórias. Engenhoso e algo transgressor, Dois Rios constrói-se numa sequência de pequenas narrativas na primeira pessoa, ora cruas, ora poéticas, e foi um dos romances finalistas do prémio PT no Brasil.


 

Paixões proibidas

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Hoje à noite estarei pela primeira vez no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. É uma vergonha, eu sei, mas a verdade é que ainda não tinha arranjado tempo para lá ir e o pretexto apareceu agora. No ano passado, lancei um romance de Ana Cristina Silva intitulado Cartas Vermelhas, que se baseia na história verdadeira de Carolina Loff, militante comunista que se apaixonou por um agente da PIDE e, contra todas as expectativas, abandonou as suas funções (era, inclusivamente, espia) para viver com esse homem que a interrogara na prisão (e que também acabou por deixar a família por causa desse amor). Ana Cristina Silva confessou, por ocasião do lançamento público deste romance em Lisboa, que gosta de escrever sobre os conflitos interiores e as contradições deste tipo de personagens (é doutorada em Psicologia, o que pode explicar, pelo menos em parte, esse fascínio) e que, assim que ouviu falar de Carolina Loff, percebeu que não resistiria a dedicar-lhe um romance. Embora a investigação não tenha sido propriamente fácil (ninguém gosta de falar de traidores), a autora supriu as dificuldades com muita imaginação, reconstituindo, em capítulos que atravessam o romance e antecipam os que se referem cronologicamente à sua vida, o encontro de Carolina com a filha que abandonara na União Soviética em criança e só voltaria a ver com vinte anos. Finalista na mais recente edição do Prémio Literário Fernando Namora, Cartas Vermelhas será hoje apresentado no Museu do Neo-Realismo, às 21h30. Se estiver perto de Vila Franca, não perca.


 


 


Blimunda digital

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Blimunda é uma das mais interessantes personagens femininas da ficção portuguesa – e foi também, não por acaso, o nome escolhido para a revista literária digital lançada no ano passado pela Fundação José Saramago (evidentemente, o criador da personagem). Esta Blimunda vai no número seis e, desta feita, vem com novo grafismo, da responsabilidade do atelier do designer Jorge Silva, e é integralmente dedicada ao nosso Nobel da Literatura por ocasião do 90.o aniversário do seu nascimento. Os textos são assinados por gente de respeito, desde logo os críticos Harold Bloom, autor de O Cânone Ocidental, ou James Wood (aqui traduzido por uma colega minha, a Ana Beatriz Manso), mas também os escritores John Updike, Mario Benedetti ou Carlos Fuentes, já para não falar do nosso amado Eduardo Lourenço ou da italiana Luciana Stegagno Picchio, grande estudiosa das literaturas portuguesa e brasileira e infelizmente desaparecida em 2008. As ilustrações que acompanham os artigos (de André Carrilho, Alex Gozblau, João Fazenda e muitos outros) estão em exposição na Casa dos Bicos, na estação de Metro do Aeroporto e ainda na Biblioteca das Galveias, ao Campo Pequeno. Na secção infantil da revista, a obra de Saramago para crianças é objecto de estudo por Luísa Ducla Soares e Andreia Brites. Descarregue-se e leia-se.


 


 


Exemplos

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Estamos numa crise terrível – e acredito que os mais novos, crianças que de há uns anos para cá estavam habituadas a ter tudo, desde brinquedos caros, telemóveis e consolas até à possibilidade de frequentarem duas ou três actividades extracurriculares do seu agrado, se sintam agora especialmente lesadas e com enorme dificuldade em aceitar as contrariedades (os adultos percebem melhor estas coisas). Mas pode chegar-se muito longe a partir do nada, garanto, e esse foi o caso de Amália Rodrigues, cujo exemplo de tenacidade, inteligência, criatividade e trabalho deve ser dado às crianças como prova de que o dinheiro não é o mais importante para fazer a diferença. A Minha Primeira Amália (perdoem a publicidade), que escrevi e foi ilustrado pelo grande João Fazenda, é lançado amanhã no Museu do Fado, às 18h30, com apresentação de João Paulo Cotrim. Vai haver fados, bem entendido, e até tocará um sobrinho-neto de Amália, com oito anos. Estão todos convidados e gostaria muito que aparecessem.


 


Uma questão de popularidade

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Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post que, como era de esperar, desencadeou alguma polémica. É verdade que não consegui esconder a minha indignação por não serem sequer finalistas dos prémios literários portugueses mais emblemáticos obras que considero singulares quer na carreira dos respectivos autores, quer no contexto da história literária portuguesa, preteridas a favor de livros que, quanto a mim, nem tinham nada de diferenciador na obra dos escritores, nem peso literário que justificasse a distinção. Era uma opinião, como todas as que aqui exprimo, pessoal – e, naturalmente, houve quem discordasse, o que, de resto, considerei positivo, pois, se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa. Na altura, porém, não terei formulado uma pergunta que ficou escondida algures no meu cérebro, uma pergunta ruminante que se prende com a provável diminuição do nível médio dos livros que hoje se publicam em todo o mundo. E só faz sentido voltar a ela agora porque o best-seller As Cinquenta Sombras de Grey, da «erotica star» E. L. James, foi escolhido como finalista dos National Book Awards na categoria de Popular Fiction, uma espécie de Óscares literários britânicos. Talvez os seus concorrentes não sejam muito melhores – que sei eu de Victoria Hislop, por exemplo? –, mas lá que me pareceu outra vez muito estranha a inclusão de um livro que a crítica classifica como literariamente pobre e até mal escrito num prémio desta dimensão, isso não posso negar. Lá popular é ele – está toda a gente a lê-lo em todo o mundo (Portugal inclusive) e até já originou um pedido de divórcio à americana (uma senhora queixa-se, aparentemente, de que o marido não lhe faz nada do que o senhor Grey faz à rapariga com quem tem uma relação escaldante sadomasoquista). Mesmo assim, se a redacção é tão frágil como dizem, é justo encontrar-se em posição de vencer? Ou o nível médio baixou mesmo e escrever mal já não tem grande importância desde que se cometa a proeza de chegar a um número incrível de leitores?


 


 



 


 


 

Ler nas favelas

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Há mais ou menos duas semanas, a LeYa Brasil iniciou a publicação de uma colecção de autores portugueses, na maioria desconhecidos do lado de lá do mar, aproveitando a circunstância do Ano de Portugal no Brasil para apresentar a nova literatura portuguesa aos leitores brasileiros. Cinco escritores – João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Patrícia Portela, Patrícia Reis e Sandro William Junqueira (a ordem é alfabética) – partiram então para o Rio de Janeiro, onde, além de lançarem os respectivos romances na Livraria da Travessa (popularizada há uns anos, se não erro, por causa de uma telenovela), participaram na primeira edição de um festival literário (FLUPP) que se realiza em favelas – cabendo, desta feita, a distinção ao Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa. Trata-se de uma das favelas que foram pacificadas com a intervenção da Polícia – que restituiu aos seus habitantes a ordem perdida com o tráfico de droga e a violência daí decorrente – e que agora se tornou palco de leituras de poesia, apresentações de livros e debates vários. Além dos portugueses, importa assinalar a presença dos gigantes locais Ferreira Gullar ou João Ubaldo Ribeiro e de alguns autores estrangeiros como o alemão Thomas Brussig ou o palestino Najwan Drawish. Espectáculos diversos compuseram um programa que se pretendia, segundo os organizadores, «interdisciplinar». Ora que boa ideia esta, a de levar a cultura aos mais desfavorecidos, sem ser através do gesto caridoso de oferecer livros às crianças pobres e aos presos. Será que, com a crise, não faria sentido montar uma coisa do tipo aqui em Portugal?


 


 



 

Desistir?

Há uns tempos, António Lobo Antunes (70 anos) avisou os seus leitores de que, embora não deixe provavelmente de escrever, não publicará mais nenhum livro além dos que tem já começados ou terminados (mesmo que ainda não tenham saído): um romance e um livro de crónicas. Pouco depois, foi a vez de o autor amado por muitos leitores deste blogue, Philip Roth (79 anos), vir dizer, numa entrevista em França concedida à revista Les Inrocks, que Nemesis foi o seu derradeiro romance, que há três anos não escreve uma linha de ficção e que tem estado apenas a organizar os seus arquivos para a biografia que lhe será dedicada, pois quer entregar todo o material em vida ao seu biógrafo (não escreverá ele próprio as memórias, como inicialmente se terá pensado). Logo a seguir, o húngaro Imre Kertész (83 anos), que ganhou o Nobel da Literatura em 2002 e tem alguns romances traduzidos em Portugal (Sem Destino é o mais conhecido e foi interpretado pelos críticos como autobiográfico), anunciou que não tenciona voltar a escrever, uma vez que acha ter esgotado o assunto que percorre toda a sua obra (o Holocausto – Kertész foi um dos sobreviventes dos campos de concentração). Que levará um escritor a desistir de fazer o que fez ao longo de uma vida ou a privar quem o lê dos seus últimos escritos? Cansaço – sobretudo no caso de Kertész, a idade pesará? Desencanto com o público? Desejo apenas de se livrar de compromissos, pressões dos editores e leitores, aparições em público (não creio que Roth saísse muito de casa, segundo li, mas nunca se sabe)? Enfim, uma perda para quem gosta de os ler, mas certamente um bom tema para nele reflectirmos todos a partir de agora.

Calhamaços

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Aqui para nós, confesso que ler um calhamaço na cama não me dá grande jeito e que andar com ele atrás está fora de questão: a coluna ressente-se logo e uma fumadora como eu chega ao último patamar das escadas a ofegar como se tivesse corrido cinco quilómetros ou mais. Mas, pelos vistos, os calhamaços estão na moda – e há quatro editoras que acabam de pôr na rua obras maiores em todos os sentidos, não querendo saber de quantos quilos conseguimos transportar ou suportar em cima do peito ou da barriga. Para começar, está aí finalmente A Piada Infinita, do escritor-mito David Foster Wallace, romance ora cómico, ora trágico, sempre complexo e, seguramente, notável (só li umas cinquenta páginas do original há anos e fiquei logo a saber que o meu inglês era insuficiente, por isso a notícia da tradução é tão boa). Depois, o único romance do Prémio Nobel da Literatura que tinha sido traduzido em Portugal mas andava arredado dos escaparates, Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, está de novo à disposição dos leitores que queiram conhecer a obra do nobelizado chinês. Em terceiro lugar, a obra magna que é Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, que muitos de nós lemos nos quatro volumes de capa branca (amarelecida entretanto nas estantes) da Ulisseia, apresenta-se agora num só tomo para os mais novos (que são também os mais fortes) lerem de enfiada – e são mil e tal páginas de intriga política e sexual na cidade egípcia que foi uma espécie de Paris no Médio Oriente. Por último, um grande (em todos os sentidos) ensaio de Antony Beevor, A Segunda Guerra Mundial, vem mostrar-nos como um tipo sem carisma chamado Adolf Hitler conseguiu chegar aonde chegou (e dizer-nos que os tempos que agora atravessamos têm bastantes semelhanças com esses em que a guerra na Europa eclodiu). Tudo muito interessante, tudo a ler, mas ai, as costas não vão aguentar...


 


 


Contar segredos

Poucas pessoas conseguem entrar na Coreia do Norte, mas tenho um velho amigo teimoso que, desde pequeno, colecciona países e conseguiu passar uma semana nesse que é um dos mais fechados lugares do mundo e trazer notícias surpreendentes (embora outras mais previsíveis) de Pyongyang. Andava sempre com duas pessoas a acompanhá-lo: um guia, para o ajudar com a língua e o levar aos sítios certos (ou o inibir de ir aos que não deviam ser visitados), e um controlador, para garantir que o guia não dizia mais do que aquilo a que estava autorizado nem arranjava maneira de se colar ao viajante para tentar a fuga nessa ou noutra altura. Falou-me, entre outras coisas, de uma espécie de museu de dimensão escandalosa, salas atrás de salas, onde estavam guardadas e expostas positivamente todas as coisas que tinham sido oferecidas ao Dear Leader por outras nações do mundo – e aonde o povo ia em romaria ao fim-de-semana, como nós, portugueses, rumamos aos centros comerciais – e entre as quais encontrou, calculem, um galo de Barcelos. Agora, o escritor José Luís Peixoto publica o primeiro livro de viagens sobre a sua permanência na Coreia do Norte ao longo de duas semanas, durante as quais teve o privilégio de assistir às comemorações do centenário de Kim il-Sung (o que, segundo ele, tornou mais fácil o convívio, talvez pelo clima de festa). Pelo que li numa entrevista, terá mesmo muito que contar, pois, ao contrário desse amigo que referi, Peixoto conseguiu afastar-se da capital, ir a cidades que não recebiam um estrangeiro desde os anos 50 do século passado (onde as pessoas se assustaram com a sua presença, chegando até a fugir) e conversar com um povo pouco habituado a forasteiros, com o qual comeu, bebeu e, pasme-se, dançou. Dentro do Segredo, assim se chama a obra, traz-nos «um país de ficção», mas a viagem de José Luís Peixoto aconteceu mesmo.

A vida partilhada

Tive a felicidade de conhecer pessoalmente Al Berto no final dos anos 80 – e conservo ainda, entre outras coisas que estimo particularmente, uma carta que ele me mandou a respeito dos meus primeiros poemas publicados, na qual tenho imenso orgulho, não por ele ter sido uma figura importante das letras portuguesas, mas pela pessoa adorável que era – generoso, cheio de humor, bom companheiro, de uma afabilidade sem limites (além de dizer poemas fantasticamente com aquela voz grave que eu adorava). Al Berto é uma referência para todos nós que escrevemos actualmente poesia e já ouvi Eduardo Lourenço chamar-lhe «o último poeta-mito português». Agora, a também poeta Golgona Anghel lançou-se na tarefa hercúlea de pegar nos trinta e seis cadernos e agendas de Al Berto e editar, a partir desse material, os seus Diários entre 1982 e 1997. Não contem, porém, com a descrição pura e dura dos movimentos quotidianos do escritor, porque, como a organizadora se apressa a explicar no texto que define os critérios que seguiu para a edição, uma parte desse material funciona «como laboratório de escrita», o que é, de resto, excelente notícia para os amantes da sua poesia, que aqui encontrarão razões suficientes para rejubilarem com textos que nunca leram ou leram de forma mais definitiva mas ignorando o que haviam sido no embrião. E as entradas que dizem respeito à vida da pessoa (aonde foi, como se sente, quem apareceu, de quem recebeu cartas, etc.) são tantas vezes visitadas por essa poesia a que nos acostumou que, como se refere na introdução, o homem e o escritor não são separáveis na entidade Al Berto e a realidade parece constantemente atravessada pela literatura. Um pequeníssimo exemplo: «[...] passam as luas e marcam nos vidros da janela um sulco de claridade.» São muitas páginas para ir lendo devagar, como a crónica de um pequeno grande mundo que admiramos.

Voltar à base

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Os livros hoje têm uma vida curtíssima, porque outros rapidamente ocupam o seu lugar no espaço onde são vendidos e nos nossos desejos acendidos por entrevistas e artigos portugueses e estrangeiros. Alguns, porém, quando os julgávamos mortos e enterrados, regressam à base como uma espécie de fantasmas que não gostaram de ser esquecidos. Há para aí uns dez anos, publiquei, na Temas e Debates, um romance histórico chamado O Segredo da Bastarda, da escritora argentina radicada em Portugal Cristina Norton, que vendeu seis edições num virote mas, como muitos outros, acabou por desaparecer das livrarias ao fim de uns meses. Eis, no entanto, que o descubro agora no programa de um colega da Oficina do Livro, de cara lavada e, pelos vistos, revisto e ampliado, pronto a concorrer mais uma vez com as novidades e oferecendo-se, tentador, aos leitores que gostam do género histórico, mais ainda quando a acção e as personagens são portuguesas. Que os nossos reis tinham filhos fora do casamento, todos sabíamos, mas é voz corrente que D. João VI foi tantas vezes enganado pela sua Carlota Joaquina que dele não se esperavam bastardos (enteados, sim). O romance de Cristina Norton não é, no entanto, uma ficção completa, pois baseia-se em documentos encontrados numa outra investigação que provam que o monarca que fugiu para o Brasil com a sua corte também fez, afinal, das suas no campo da alcova. Com belas descrições da vida da bastarda durante a infância no país irmão e do choque do regresso à pátria cinzentona onde se torna próxima da rainha (e do rei, o que já não foi assim tão bom), este livro agradará certamente aos que apreciam ler sobre a História de Portugal e dos seus reis e súbditos. Promete-se um final levemente camiliano.


 



 

90 desassossegados anos

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Já não caio na esparrela de esquecer o aniversário de um grande escritor nem desiludir os que amam os seus livros e vêm aqui ao blogue conferir se por acaso me lembrei. Atrasei-me em relação a Agustina, mas hoje não quero deixar de dar conta da efeméride: Saramago faria 90 anos neste 16 de Novembro e a fundação com o seu nome vai comemorá-los com um «Dia do Desassossego» que pretende repetir a partir de agora nesta data e que, citando os responsáveis, «quer que se transforme numa festa cívica e da cultura». Os leitores são, assim, desafiados e saírem à rua com o seu exemplar de O Ano da Morte de Ricardo Reis (um dos seus melhores romances, digo eu) debaixo do braço para dizerem, desse modo, a toda a gente com quem se cruzem que esse é, decididamente, um livro que tem de ser lido (mas ninguém se ofenderá se levarem outra obra do autor). Na Casa dos Bicos, festejar-se-ão também os trinta anos da publicação de Memorial do Convento e haverá vários acontecimentos à volta disso (a entrada neste dia e no seguinte é gratuita!). Inspirando-se nas palavras do escritor – «Escrevo para desassossegar os meus leitores» – lança-se este belo apelo à leitura dos livros do nosso Nobel da Literatura. Não se esqueça do seu exemplar. Parabéns, Saramago.


 


 


As máscaras

Confessei um dia destes que estava curiosa e que iria ler – e cumpri. O Manel trouxe-mo num sábado e, assim que pude, deitei-lhe a mão. Duas noites bastaram para o começar e acabar, porque são pouco mais de cento e vinte páginas em letra de bom tamanho para quem já usa lentes progressivas há uns bons anos. Chama-se O Lago, assina-o Ana Teresa Pereira e é o romance que acaba de vencer o mais emblemático prémio literário português, o da Associação Portuguesa de Escritores. Uma certa estranheza acompanhou-me, porém, ao longo de toda a leitura: sendo um livro de uma autora portuguesa, tive a sensação de que estava a ler uma tradução e até a ver o que eu teria traduzido de outro modo. Ou a autora só lê praticamente livros ingleses – e se calhar até pensa em inglês – e, por isso, quando escreve é bem capaz de ter, ela própria, de traduzir mentalmente (palavras comuns como «representar» ou «falas» no contexto do teatro são quase sempre substituídas por «actuar» e «linhas», do inglês «act» e «lines»); ou a colagem à língua inglesa é deliberada, uma vez que a história se passa em Londres, com uma actriz e um encenador anglófonos, e todos os títulos das peças e dos livros referidos aparecem naquela língua, mesmo quando a tradução é usada correntemente em Portugal (Death of a Salesman, em vez de Morte de Um Caixeiro Viajante, ou Three Sisters, em vez de As Três Irmãs, entre muitos outros). Não posso contar grande coisa do enredo, porque este é um daqueles casos em que até um resumo muito breve estragaria o prazer da descoberta (o próprio editor pôs um excerto na contracapa, e não uma sinopse), pelo que o máximo que avançarei é que se trata de um romance sobre a relação entre o actor e a personagem que deve compor, sobre a personagem escrita e a sua materialização, sobre a criação de uma obra dramática e a sua construção posterior em palco. E também sobre a paixão e o medo, a entrega e a perda. Interessante? Sem dúvida. Já vi filmes e li livros sobre o tema de que gostei muito mais, é verdade, mas também é possível que estivesse simplesmente de pé atrás. Por isso, o melhor é lerem para tirarem as teimas. Coisa maravilhosa mesmo é não ter encontrado uma única gralha.

Prenda de aniversário

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Recentemente, a Dom Quixote organizou uma sessão mais ou menos íntima para comemorar o décimo aniversário da primeira edição de O Vento Assobiando nas Gruas (sim, também se falou da estranheza do título), de Lídia Jorge. Quando digo «íntima», quero sobretudo dizer que não se tratou de uma festa com bolo e champanhe, embora, tanto quanto sei, a entrada não estivesse restringida apenas a uns happy few – aliás, acabou por aparecer muito mais gente do que o petit comité que a escritora imaginara. (Desculpem tanto estrangeirismo, não sei o que me deu hoje.) Devo dizer que foi, em muitos anos de livros, um dos melhores fins de tarde a que tenho assistido, porque, instigada pela jornalista Filipa Melo, Lídia Jorge não parou de dizer coisas interessantes, sérias quase todas – e muito sérias – mas não deixando de temperar a conversa com umas pitadas de humor que deliciaram a assistência. Entre elas, uma história que dedico especialmente ao meu leitor «Monchique», que é, segundo percebi, um amante de Agustina. Pois confidenciou Lídia Jorge que, pouco depois de ter publicado o seu primeiro romance (O Dia dos Prodígios), recebeu da grande senhora do Norte uma cartinha que dizia o seguinte: «Bem-vinda a esta arca da desaliança. Oxalá a leiam. Oxalá lhe paguem.» Genial, como só ela consegue ser. O romance de Lídia que fez dez anos, e que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio Literário Correntes d'Escritas, está aí de cara lavada para quem perdeu a oportunidade de ler uma das cinco edições anteriores. A ele voltarei, naturalmente, um dia destes: uma sessão que rende dois posts já se viu que foi boa, uma prenda para quem lá foi.


 



 

O homem-ilha

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Perco-me por retrosarias e sou capaz de ficar horas a olhar para as suas montras ou lá dentro a mirar mil botões, fitas, novelos e fivelas como quem aprecia minúsculas obras de arte. Também por isso gostei tanto de ver o senhor Askenasi – o protagonista de A Ilha, de Sándor Márai – maravilhado diante da vitrina de um retroseiro, descobrindo a cor e o pormenor em tudo e compreendendo como andara, afinal, arredado das coisas belas da vida, embrenhado num quotidiano de livros, ordem e previsibilidade. O estudioso das palavras, professor de Grego, católico e sorumbático Askenasi ainda não está, porém, na ilha do título quando tira os óculos e vê o que antes nunca vira, mas numa estância balnear do Adriático, na qual se apeou a meio de uma viagem que o deveria levar de Paris, onde reside, à pátria de Homero – viagem que lhe aconselharam os amigos, convencidos de que assim recuperaria da insanidade que o fizera deixar a mulher, a filha e até o trabalho para viver com uma bailarina russa de reputação discutível e estranhas companhias. Mas nem a mulher abandonada nem a amante sensual parecem, porém, responder à sua satisfação, constituindo-se apenas como etapas anteriores a uma meta que Askenasi busca, incansável, e que pressente estar nesse lugar frequentado por turistas alemães pacóvios e metediços. Para a ilha, só irá realmente na sequência de um encontro com uma terceira mulher que o atrai ao seu quarto no Hotel Argentina e que ele crê irá dar-lhe a resposta que nem Deus é capaz de lhe dar. Magnífica, como toda a obra de Márai, esta novela lembra um pouco a solidão dos protagonistas de Morte em Veneza, de Mann, e do conto O Homem que Amava as Ilhas, de D. H. Lawrence, e também a novela homónima de Giani Stuparich, de que já aqui falei. Bela e imprevisível, representa o homem como a sua própria ilha, o indivíduo diante do seu destino inescapável.


 



 

Ler na íntegra

Há muitos anos, o jurado de um prémio de poesia sem grande relevo confidenciou-me que não tinha lido todas as obras a concurso e que o mesmo se passara com os seus colegas. Numa altura em que não havia a profusão de prémios literários que existe actualmente (quase todas as Câmaras Municipais têm um prémio com o nome de um escritor nascido nas suas bandas), haviam concorrido àquele mais de seis centenas de originais – e quase todos de um nível confrangedor. Por isso, assim que apareceram, após trezentos ou quatrocentos livros maus, meia dúzia de obras com inequívoca qualidade para vencer, os elementos do júri comunicaram uns com os outros, atribuíram o prémio à mais votada e já nem abriram as caixas que sobravam. Não sei se isto é verdade, e estou a vender o peixe pelo mesmo preço que mo venderam a mim, mas às vezes há decisões que me fazem pensar se, efectivamente, os jurados lêem mesmo integralmente as obras a concurso. Tendo em conta que em Portugal se publicam anualmente centenas de romances, será que é possível cumprir essa tarefa? Imagino que a maioria dos membros de um júri deste tipo sejam críticos, académicos, jornalistas ou mesmo escritores com outros afazeres – e não é crível que arranjem tempo para tantas leituras integrais. Mas sei também que essas pessoas, regra geral, já têm uma noção dos autores a quem, de facto, é fundamental prestar atenção, mesmo antes de saberem quais as obras concorrentes: os consagrados, bem entendido, e, talvez, dos mais novatos, aqueles a quem foram dedicadas muitas críticas positivas e espaço num ou noutro programa cultural de rádio e televisão. Este ano, porém, fiquei bastante surpreendida com os vencedores dos maiores galardões para romances em Portugal, e não porque os livros em causa não os mereçam (vou, aliás, lê-los a ambos e quiçá concordar com a escolha), mas por nenhum deles ter sido, desde a publicação, objecto de aplauso estonteante e haver até um que passou algo despercebido; e igualmente por estarem a concurso dois gigantes, dois livros que levaram uma vida a ficar prontos, implicaram um trabalho incomparável de investigação e construção ficcional e foram referidos em todo o lado de forma elogiosa, mas que não foram sequer finalistas de, pelo menos, um dos prémios. Falo, naturalmente, de As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, e de Tiago Veiga, de Mário Cláudio, que são marcos não apenas nas respectivas carreiras, mas também na própria literatura nacional, e foram preteridos nas selecções, primeiro, e nas votações, depois. Não houve, tenho a certeza, nenhuma espécie de favoritismo (ou o seu contrário); contudo, lembrando essa antiga conversa que refiro no início deste post, ocorreu-me que são os dois bastante volumosos – entre setecentas e cinquenta e mil e tal páginas – e não consegui deixar de perguntar-me se terão sido lidos na íntegra por todos os membros desses júris. Não desfazendo nos vencedores, claro, espero que esta minha dúvida não tenha nenhuma espécie de fundamento.

Crianças protagonistas

Uma vez, numa velhíssima série de televisão dedicada à sétima arte, ouvi um realizador dizer que uma das coisas mais difíceis em cinema era trabalhar com crianças e animais, pois não havia ensaios que anulassem a sua espontaneidade, nem estratagemas que os convencessem a ficar quietos quando era preciso. Por mim, há muitos filmes com crianças nos papéis principais que me fizeram delirar de comoção – entre os quais destaco a primeira parte de Cinema Paraíso ou o mais antigo Lua de Papel, bem como o inesquecível Na América, que se tornou um dos meus preferidos pelas interpretações das duas meninas que acabam de perder um irmão. Mas há, mesmo para os que não são fãs de Manoel de Oliveira, um belíssimo filme português chamado Aniki-Bóbó – a primeira incursão na ficção do mestre centenário – representado por crianças, que levanta questões sociais importantes, numa espécie de neo-realismo cinematográfico avant la lettre (os italianos só começaram depois). Manuel António Pina – de quem é imperioso voltar a falar para que nunca seja esquecido – escreveu um ensaio sobre a obra de Oliveira intitulado simplesmente Aniki-Bóbó, no qual defende que, depois deste filme, o cinema português nunca mais conseguiu ser tão poético. No final do volume, agora publicado na Assírio & Alvim, figura a preciosa filmografia do mestre portuense, que pode ser consultada sempre que a memória nos falhe sobre o nome de um filme ou a data da sua exibição. Na capa, Eduardito, Teresinha e Carlitos olham, na montra de uma loja, a boneca que contribui para umas das mais dramáticas cenas deste filme maior.

Presente!

Sou há pouco tempo editora do escritor Mário Cláudio e, embora nos vejamos raramente (ele vive no Porto e eu trabalho em Lisboa) – e os nossos encontros sejam, em regra, breves –, a verdade é que, quando nos reunimos, aprendo sempre alguma coisa com a sua experiência e a sua inteligência (perdoem-me a rima, mas para estas palavras não há sinónimos). Há uns dias, ele fez-me reparar numa coisa a que ainda não tinha prestado atenção – e estava, de resto, bastante indignado ao partilhá-la; dizia-me que hoje, quando as pessoas falam de Agustina, usam o passado, como se ela tivesse morrido (fez noventa anos em 15 de Outubro e não publica há uns tempos, mas, caramba, está viva); e contou-me que, num colóquio recente, os participantes, mesmo diante da filha, falavam de Agustina como de alguém a quem, efectivamente, já não corresse sangue nas veias, o que – imagino – deve ter sido bastante incómodo. Fiquei, por isso, muito contente quando nesse mesmo dia fui ao Facebook e tinha um convite do editor Vasco Silva, da Babel, para gostar da página de Agustina Bessa-Luís; e, quando fui lá pôr o Gosto, tive o brinde de um belo cabeçalho com a frase Longos dias têm noventa anos numa clara alusão ao aniversário da escritora, evidentemente, mas também a um dos seus livros de que mais gosto (Longos Dias Têm Cem Anos), cujo exemplar já se está a desfazer na minha estante de tão manuseado. Os bons escritores – entre eles, Agustina – estarão vivos até depois de mortos; e, mesmo então, terão – parece-me – todo o direito ao presente do indicativo.

Editores-escritores

Há pessoas que estranham que não tenha publicado os meus livros – a maioria, pelo menos – nas editoras por onde fui passando; as únicas excepções, em mais de quarenta títulos (entre livros de crianças e livros de adultos), foram uma encomenda recente (e mesmo assim reflecti antes de a aceitar) e uma teimosia antiga (do então patrão, mas talvez devesse ter sido ainda mais teimosa). Conheço um editor-escritor que, como dono da empresa, decidiu ao contrário, tornando-se o seu próprio editor; e outro que publica regularmente na editora para a qual trabalha sem nenhuns problemas de consciência. Mas outros há que publicaram os seus livros na concorrência, embora eu já não consiga dizer, a esta distância, se já eram editores na altura, se foi justamente a escrita a levá-los à edição. E até se passou comigo uma história engraçada, que foi terem-me pedido há muitos anos para ler e avaliar um original, e eu ter descoberto mais tarde que se tratava do romance de um editor conhecido (livro que, parece-me, nunca chegou a ser publicado e, aqui para nós, ainda bem). Actualmente, tenho dois colegas no meu local de trabalho que se estrearam como autores de ficção quando eram jornalistas, tendo um deles sido inclusivamente galardoado com um importante prémio pela obra de estreia e o outro contado nada mais nada menos do que com António Lobo Antunes na apresentação pública do romance. Pois a verdade é que, desde que se tornaram fazedores de livros alheios, não voltaram a publicar – e o mesmo aconteceu, por exemplo, a Nelson de Matos, que foi durante muitos anos editor da Dom Quixote, mas antes disso tinha escrito um romance intitulado Giestas da Memória (o Manel também publicou quatro livros de poesia, mas deixou-se disso quando passou a editor). Será que as duas actividades se anulam ou se complementam? Ler tirará a vontade de escrever ou acentuá-la-á? E como reagir quando um colega de repente nos pede para lhe lermos um original e descobrimos que, afinal, é dele e até não nos importaríamos de o publicar, mas não sabemos se ele quer fazê-lo na própria editora?

Queridos anos 60

Quem viveu nos anos 60 e viu a série Conta-me como Foi, não pôde deixar de evocar episódios e cenas da sua vida naquela reconstituição de época primorosa. E agora, por muito que nos digam que Portugal evoluiu de forma espectacular nos últimos quinze anos, há um livro fantástico à venda – LX60, de Joana Stichini Vilela (texto) e Nick Mrozowski (projecto gráfico) – que nos ensina como o País nunca mais foi o mesmo depois dos anos 60 do século passado. Foi só nessa década, por exemplo, que os lisboetas puderam andar de metro, viver nos Olivais, atravessar a ponte de carro para a outra margem do Tejo, comprar num supermercado ou ir à Feira Popular (coitada, já lá vai), dançar nas discotecas ou mesmo passar um fim-de-semana num hotel de luxo como o Estoril-Sol (que também já não temos). Mas nem tudo foram rosas, claro, com a Guerra Colonial, a PIDE a matar e torturar, a esperança média de vida aos sessenta e tal anos, mais de 80% dos partos em casa, umas cheias que destruíram centenas de lares e um terramoto que assustou todos na capital. Contra algumas dessas pragas, havia, porém, tertúlias nos cafés, livros proibidos que passavam por baixo dos balcões, programas de TV inteligentes como o Zip Zip e revistas pensantes como O Tempo e o Modo. Claro que o povo também se divertia com o Festival da Canção, as Misses e Eusébio a jogar à bola… Este livro, para quem viveu nos anos 60, é precioso: remete-nos para um tempo que foi marcante numa certa emancipação dos portugueses e das portuguesas (ah, a mini-saia!) e leva-nos numa viagem ao passado de um País que estava cheio de vontade de ser outra coisa. Para ler e folhear.

Pré-presidente

Correndo o risco de desagradar a alguns dos leitores deste blogue, confesso aqui abertamente que não tenho qualquer simpatia pelo actual presidente da República e nunca me comoveu a sua história de self-made man difundida pelos seus eleitores para que, pelo menos, o admirássemos; não nego, mesmo assim, que durante muito tempo o achei uma pessoa séria, embora a minha opinião se tenha manchado com aqueles juros altíssimos dos seus investimentos no BPN (quando a esmola é grande o pobre desconfia), mas nisso também não serei muito original. Jorge Sampaio foi um presidente mais ao meu gosto, admito, alguém que não apareceu na esfera da política só depois do 25 de Abril e suficientemente culto e informado para não meter gafes, não contar piadas sem piada, não se desculpar com os netinhos por não estar onde era preciso e, sobretudo, não dizer que a mulher tem uma reforma de caca ou outros dislates do mesmo tipo a pessoas que ganham o ordenado mínimo ou estão desempregadas; sério também ele, teve além disso a coragem de demitir um governo que, a esta distância, se calhar até era menos incompetente do que o actual (que o que decide à terça altera à quinta, pensando melhor por outras cabeças). Desconhecia até recentemente que Sampaio mantinha uma espécie de diário desde jovem – e foi com esses muitos caderninhos como base que o jornalista José Pedro Castanheira lhe traçou agora a biografia que, longe de ser apenas uma «vida», é a história de Portugal (e não só) com ele como protagonista. Mas atenção: o livro que saiu é apenas um primeiro volume, que vai até à sua entrada na Câmara de Lisboa como presidente; o resto – creio que a parte que melhor conhecemos, mas, nestas coisas, nunca se sabe – será objecto de um segundo tomo. Para quem se interessar, uma vida cheia e inspiradora.

O que ando a ler

Hoje é dia de dizer o que ando a ler. Pois bem, a Assírio & Alvim está a reeditar toda a obra de Almeida Faria. O seu primeiro romance, publicado em 1962, quando o autor tinha apenas 19 anos, acaba, de resto, de sair. Rumor Branco, tão diferente de tudo o que fora escrito até à data (e ainda hoje moderno), foi uma espécie de bomba nas letras nacionais, pouco habituadas às transgressões gramaticais (ausências de pontuação, minúsculas a seguir a pontos finais...) e a certos «maneirismos» (foi assim que alguns críticos lhes chamaram) que faziam pouco caso de uma história no sentido tradicional e impunham, em vez dela, fragmentos com um protagonista (Daniel João), nos quais não eram raras as rimas internas, as palavras cruas que na altura deviam soar ofensivas, certas ideias claramente anti-regime e muita, muita filosofia. E, por se tratar de uma escrita nova, novíssima, alguns intelectuais acolheram-na muito positivamente, noutros provocando, pelo contrário, irritação maior. O leitor tem a liberdade de fazer o seu próprio julgamento (o livro foi reeditado para ser lido ou relido, evidentemente), mas não deve perder, além do texto, a polémica que nasceu entre um seu defensor, Vergílio Ferreira (que assinou o prefácio à 1.ª edição) e Pinheiro Torres, o crítico que tentou, de algum modo, apequenar a obra, virando-se não contra o autor (a quem até reconheceu talento), mas contra o escritor que a apadrinhara (esta troca de galhardetes consta do volume agora editado). E nem interessa assim tanto saber se ganha o «existencialista» ou o «neo-realista», porque são absolutamente notáveis os textos de um e de outro, magnificamente cultos e escritos com perfeição, cheios de maldade ilustrada e recadinhos muito bem investigados, tudo coisas difíceis de encontrar nos tempos que correm, em que, salvaguardadas as excepções, as polémicas são mais pequeninas, mais mesquinhas e mais mal escritas. A ler de ponta a ponta, claro.

Venha o Diabo e escolha

Quando vi num jornal como iria chamar-se o novo livro de José Rodrigues dos Santos – A Mão do Diabo –, o título fez soar uma campainha. Não foi preciso muito para me recordar de que, havia anos, na editora para que então trabalhava, saíra um policial com um título muito semelhante: Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade (um engraçado pseudónimo de Dinis Machado). Contudo, descobri que já houve um livro com o nome exacto do do jornalista, que foi o romance de estreia de Dean Vincent Center, autor para mim desconhecido. E, além da mão, parece que o corpo do diabo se presta a título, pois encontrei na minha estante O Pé do Diabo, de Connan Doyle, A Pele do Diabo, de Richard Hawke e um livro infantil de Daniela Gonçalves intitulado O Diabo sem Rabo (já para não falar de O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet, que, se não erro, até deu um filme homónimo). Porque me estava a divertir, numa busca não muito aturada compreendi que o Demo dá para todos os tipos de livros: desde A Hora do Diabo, de Pessoa, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, O Diabo Veio ao Enterro, de Pires Cabral, A Comédia do Diabo, de Balzac, Os Anéis do Diabo, de Alice Vieira, Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, A Rameira do Diabo, de Catherine Clément, aos mais corriqueiros, como o célebre O Diabo Veste Prada. A lista não é exaustiva, porque na linha policial usa-se e abusa-se do dono do tridente, citando eu apenas aqui A Estrela do Diabo, de Jo Nesbo, ou Sorte do Diabo, de Ian Kershaw. Mas existem ainda dicionários e histórias da besta e até livros de gestão para onde o Diabo é chamado. Um dia destes, faço a mesma experiência com Deus e logo vejo se a coisa anda ou não equilibrada...

O regresso feliz

Depois de edições incertas e muitos soluços, parece finalmente que a obra do grande poeta Eugénio de Andrade encontrou um caminho firme e vai ser disponibilizada sem achaques nem interrupções. A Assírio & Alvim vai tomar conta dos escritos do saudoso Eugénio e acaba de pôr à venda os dois primeiros volumes, que correspondem aos cinco primeiros livros do autor. Num deles, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos e Os Amantes sem Dinheiro (um dos meus preferidos); no outro, As Palavras Interditas e Até Amanhã, este último de 1956, o que quer dizer que ainda há muito para vir porque, ao contrário de alguns poetas parcos ou preguiçosos (nos quais me incluo), Eugénio foi prolixo e escreveu até ao fim. Vou, por isso, ficar de papinho cheio, como todos os leitores que apreciam o grande mestre. E, só para espicaçar os que não se interessam por aí além pela nossa poesia, aqui vai um fragmento belíssimo de As Mãos e os Frutos (XXXV) que os tirará do marasmo.


 


Em cada fruto a morte amadurece


deixando inteira, por legado,


uma semente virgem que estremece


logo que o vento a tenha desnudado.

Universo digital

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Histórias do Pingo-Doce à parte, não se pode negar que a Fundação Francisco Manuel dos Santos tem feito um excelente trabalho no estudo e debate da realidade portuguesa através da edição de vários títulos assinados por especialistas sobre temáticas de interesse para todos – como a medicina, o ensino ou a justiça em Portugal – e a preço francamente acessível. E é já hoje a sessão de apresentação de um novo título, Uma Cultura da Informação para o Universo Digital, de José Afonso Furtado, que é de leitura obrigatória para todos os que se importam com as questões da leitura e da literacia nos tempos que correm e querem saber até que ponto a informação que, em suportes digitais, circula agora pelas redes globais pode constituir uma oportunidade de desenvolvimento das populações quando as medidas tradicionais não foram, efectivamente, capazes de erradicar as desigualdades na competência para a leitura, a escrita e o cálculo. Escrito pelo maior especialista português na área, que já foi presidente do Instituto do Livro e das Bibliotecas e dirigia até há pouco a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, o livro será apresentado pelo sociólogo António Firmino da Costa no El Corte Inglés, às 18h30.


 


Fazer o luto

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Rui Cardoso Martins, que venceu com o seu romance Deixem Passar o Homem Invisível o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2010, regressa agora aos escaparates com uma novidade intitulada Se Fosse Fácil Era para os Outros. Mas não se deixem enganar os leitores mais desprevenidos com este título aparentemente leve e com reminiscências de auto-ajuda, porque se trata de literatura séria, mesmo que não isenta de humor (às vezes, bem negro), como, aliás, seria de esperar de um escritor que foi um dos fundadores das Produções Fictícias e um dos co-autores de programas como Contra-Informação, Herman Enciclopédia ou Estado de Graça. O ponto de partida do livro é, porém, bastante triste e prende-se com a morte da mulher de um narrador que, apesar de ter informado todos os interessados do sucedido, continua a receber em casa correspondência em nome dela, seja do ginásio, do seguro, da empresa de telemóveis ou da agência de viagens. É, de resto, por correio que chegam dois cartões de crédito novinhos em folha para uso da falecida e com alto plafond, que desencadearão um acto bastante louco por parte do viúvo, que é o de financiar um périplo pelos Estados Unidos (onde está o «Pior Povo do Mundo») para si e para os seus amigos Adriano, Luís, Carlos e João (que os apanha já em Orlando e com eles segue viagem). A única condição («único» é, aliás, uma das palavras preferidas de um deles) é ninguém se referir àquela dor maior que é, no fundo, a verdadeira razão desta espécie de fuga, embora ela esteja sempre presente sem ser nomeada e faça da viagem muito mais do que uma aventura de amigalhaços num país reaccionário, onde ainda há gente capaz de se manifestar por causa do adiamento de uma execução (mesmo que, do outro lado da rua, estejam outros a bater-se pela salvação do condenado à morte). Mordaz, com um ritmo alucinante, profundo e ao mesmo tempo surpreendentemente acessível, este é um romance on the road com laivos lobo-antunianos para todos os que gostam de boa ficção e, muito especialmente, para os que, em vez de quererem fazer o luto, o preferem celebrar.


 



 

Escritaria

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Amanhã começa, em Penafiel, mais uma edição da Escritaria, que decorre até domingo. Apesar das medidas de austeridade e das leis que, salvaguardadas pouquíssimas excepções, não permitem às autarquias investimentos que não tenham retorno – o que já obrigou, por exemplo, ao cancelamento do festival LeV, em Matosinhos, no mês de Abril passado –, o município de Penafiel, ainda que com um orçamento mais curto, conseguiu levar a cabo, à custa de muita imaginação, o seu encontro anual, que visa aproximar os habitantes da cidade e alguns forasteiros da literatura através de um sem-número de actividades surpreendentes; e cito: «As letras no divã, as palavras com asas, os jardins de palavras, as montras de livros, as palavras daninhas.» Nesta edição, o homenageado será o romancista António Lobo Antunes, que acaba de publicar o romance Não É Meia-Noite Quem Quer, com mais um título inesquecível «surripiado» desta feita ao poeta René Char. Se está pelo Norte no próximo fim-de-semana, não hesite em ir dar uma espreitadela ao Centro de Penafiel, decorado com livros por todo o lado, e quiçá assistir mesmo a algumas mesas-redondas e apresentações de livros.


 


Visitar o Vale Formoso

No último fim-de-semana, fui ao lançamento do novo livro de poesia de Filipa Leal, que conheci há muitos anos no Porto, quando era a responsável pelo caderno semanal de cultura do Primeiro de Janeiro e, ao mesmo tempo, dizia poemas dos outros nas Quintas de Leitura. Depois disso, ela já publicou vários livros de poemas, todos na Deriva Editores, cujo esforço para manter disponível a obra desta e de outros poetas é francamente louvável. Mas Vale Formoso – assim se chama a obra lançada no último sábado – é uma maravilha rara e imperdível. Trata-se de um longo poema sobre um amor que não chegou a ser, um «equívoco», como a própria autora o descreve no final do seu livro. É, mesmo assim, um dos mais belos «equívocos» da história da poesia recente, que decorre inteiramente neste vale inventado – formoso, pois claro – aonde chegam visitas, mas nenhuma delas a desejada. Na apresentação, que foi de Mega Ferreira, a leitura de Filipa Leal e Pedro Lamares foi tão bonita que me chegaram as lágrimas aos olhos e, confesso, tive ciúmes por não ter sido minha a ideia de construir um lugar assim, atravessando todo o livro e dando-lhe uma unidade que é uma das coisas que mais aprecio nos volumes de poesia. Só para vos dar um cheirinho, deixo aqui, como não quer a coisa, um dos poemas. Para lerem os restantes (melhor dito, o resto do poema), procurem o livro. Não é só a autora que merece, somos nós que merecemos.


 


Apareceu para jantar no Vale Formoso um pianista.


O pianista trazia a mulher pianista, o filho


que preferia jogar às cartas, e um grande saco de maçãs.


 


À refeição, servida no alpendre, contou que vivia no campo


e que procurava em Lisboa uma casa onde coubesse


com a sua mulher, o filho de ambos, e três pianos.


 


Fiquei preocupada com a família do pianista


– eram três –


e com a família de pianos


– eram três –


e pareceu-me melhor avisá-los de que seria difícil encontrar


uma casa onde coubesse tudo aquilo


e a macieira.

Um hobby muito em conta

Nos últimos anos, cresceu exponencialmente o número de autores de livros em Portugal (talvez em todo o mundo, mas falo do nosso cantinho). Perguntei-me muitas vezes por que motivo tantas pessoas desejam ardentemente publicar um livro e sempre me pareceu que a literatura tem uma aura de sagrado e que, para as pessoas em geral, um livro assinado com o seu nome é coisa de meter respeito e, ao mesmo tempo, selo de inteligência e importância. Não vemos, por exemplo, proliferarem pintores, escultores, arquitectos ou cineastas, embora também haja muitos músicos amadores compondo e mostrando constantemente o seu trabalho na Internet. No fundo, talvez a música e a literatura sejam baratas – para a primeira, bastará um instrumento (que hoje até pode ser substituído por um programa informático), para a segunda apenas a língua que falamos. São, efectivamente, actividades ao alcance de todos os que têm ideias ou saibam assobiar (mesmo que muitas vezes assobiem para o lado, já se sabe), hobbies realmente em conta, nos quais o investimento acaba por ser apenas em tempo. Será por isso que se escreve tanto?

Escritores de jornais

Quando comecei a trabalhar – e mesmo antes –, os jornais portugueses tinham muitos jornalistas que eram simultaneamente escritores (Assis Pacheco, por exemplo) e outros que, não tendo publicado livros, escreviam de qualquer modo maravilhosamente. Não sei se a informatização e a paginação automática dos jornais teve alguma coisa que ver com a diminuição da qualidade dos textos (agora os jovens jornalistas e estagiários sentam-se ao computador e preenchem com caracteres exactos o quadradinho ou a coluna que lhes é destinado, muito provavelmente sem que um editor mais velho e sábio corrija, corte, substitua e ensine), mas a verdade é que se torna cada vez mais difícil nos tempos que correm encontrar nos nossos diários alguém que tenha verdadeiro talento de escritor. Foi-me, por isso, ainda mais difícil aceitar a notícia de que Manuel Jorge Marmelo, autor de romances e jornalista do Público no Porto, era um dos 48 funcionários que, recentemente, foram objecto de um despedimento colectivo. Quando o caderno «P2» acabou, senti imediatamente saudades das suas crónicas bem escritas e sempre interessantes, mas, pelo menos, ainda podia lê-lo no suplemento de domingo, no qual aconselhava leituras com a sua bela prosa. Neste momento, vejo-me, porém, na iminência de deixar de o ler no jornal que compro todos os dias desde que saiu (acho que só não o fiz quando estava no estrangeiro em férias ou trabalho); e, se ninguém o contratar para outra publicação, será menos um bom profissional com que poderei contar e de quem terei obviamente saudades. E o jornal ficará também mais pobre com a sua saída. Gostava de rebobinar o tempo e pensar que nada disto aconteceu.

Manuel António Pina (1943-2012)

A maior das penas. A maior das saudades. Que nunca se deixe de ler o que escreveu e lembrar a pessoa que foi.

Olhares sobre a vida

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Agora, que já temos um novo Nobel, cuja escolha provocou alguma polémica, saiu um livrinho do anterior premiado, o poeta sueco Tomas Tranströmer. A sua edição – de resto, muito cuidada, com algumas fotografias bem bonitas – só parece fazer sentido justamente por causa da importância do galardão, já que quase nenhum poeta no seu perfeito juízo deixaria publicar os primeiros poemas que escreveu; mas As Minhas Lembranças Observam-me – assim se chama a obra – não é apenas (ou sobretudo) um livro de poesia, como, aliás, o título indica: é um relato de infância escrito pelo autor aos sessenta anos para dar a conhecer às filhas a sua juventude (relato que, ao que parece, aspirava a uma continuação que não existiu dado o AVC sofrido entretanto por Tranströmer). De outro tipo completamente diferente, até porque escrito por uma mão que não é sua, a vida de Maria Barroso é também objecto de um livro, Maria Barroso, Um Olhar sobre a Vida, assinado por Leonor Xavier. Mais do que uma biografia da ex-primeira dama (que, antes de se casar com Mário Soares, foi uma conceituada actriz e lia poesia como ninguém, segundo me contou o poeta Gastão Cruz), é uma homenagem a uma mulher singular na história recente do nosso país. Para quem gosta de olhar para as vidas alheias, duas boas hipóteses à disposição.


 


Contos, naturalmente

Num artigo publicado há mais ou menos um ano no suplemento «Babelia» do jornal espanhol El País, alguém elegia os «maiores» autores latino-americanos de sempre e, curiosamente (pelo menos para mim), o mexicano Carlos Fuentes aparecia antes de Vargas Llosa ou García Márquez, que arrecadaram o Nobel da Literatura. Fuentes, falecido em Maio deste ano, estreou-se na literatura com um livro de contos, em 1954, intitulado Los Días Enmascarados, e a sua obra posterior revelou-o como um mestre do género. Em 2008, para celebrar o 50.º aniversário da sua obra mais célebre (A Região mais Transparente), a sua editora resolveu compilar em dois volumes uma selecção dos seus melhores contos, seis dos quais estão reunidos agora em Contos Naturais, volume que, a par de Contos Sobrenaturais (ainda não lançado em Portugal, mas no prelo), inclui histórias sobre os seus temas dominantes: a crítica ao falso moralismo, as desilusões da revolução mexicana, a sátira às famílias ricas. Para quem gosta de contos, uma excelente leitura.

Concorrentes

Há muita gente que gosta de brincar, dizendo que sou casada com a concorrência. Grosso modo, é verdade – o Manel e eu trabalhamos nos dois maiores grupos editoriais portugueses. Contudo, porque não nos dedicamos exactamente às mesmas áreas (eu faço sobretudo autores portugueses de ficção, ele faz sobretudo estrangeiros e também publica não-ficção), nunca o vi como um concorrente directo – nem me lembro de termos andado ambos atrás do mesmo livro ou autor nos últimos cinco anos. Mas esta história da concorrência tem hoje aqui um propósito distinto: é que, recentemente, descobri que tenho dois autores concorrendo como finalistas ao mesmo prémio: João Tordo com Anatomia dos Mártires e Ana Cristina Silva com Cartas Vermelhas (não posso, por isso, fazer claque por nenhum deles, o que é uma chatice). Por outro lado, a esse mesmo galardão – o Prémio Fernando Namora – concorrem ainda mais dois livros aqui da casa, ambos da Dom Quixote (um de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, e o outro de Paulo Castilho, Domínio Público), o que, de certa forma, me torna «concorrente» das minhas colegas editoras, não podendo desta feita torcer por elas. Isto da concorrência tem muito que se lhe diga…

Saber e não saber línguas

Tenho a certeza de que aprendi muito do francês que hoje sei com os álbuns do Tintim do meu irmão mais velho, de lombo redondo, capa dura e cheirinho a papel e tinta. E também estou certa de que enriqueci extraordinariamente o meu vocabulário da língua inglesa com a ajuda das letras de muitas canções dos Beatles e não só e de várias séries de televisão. Por outro lado, já ouvi, fascinada, um poeta da Eritreia declamar um longo poema num festival em Liège – e foi como se, mesmo não compreendendo uma palavra do que dizia, a comunicação se estabelecesse e fizesse explodir os aplausos assim que terminou; do mesmo modo, fui uma vez levada por uma amiga entendida em teatro a uma peça de uma companhia polaca: conhecia o enredo, mas não havia tradução – e não fez assim tanta falta entender o que diziam, porque a encenação e a cenografia eram, já de si, sublimes e encantatórias. Mesmo assim, fiquei perplexa quando recentemente li nos jornais que, por falta de verba, a Cinemateca iria deixar de legendar os filmes… Céus, como ver cinema russo, polaco, alemão, japonês, chinês, sem legendas? Terá algum sentido sentarmo-nos a ver um filme mudo que, por acaso, não é mudo? Quantos menos espectadores virá a ter a Cinemateca por causa da miserável poupança? A sua programação obedecerá doravante a uma selecção de filmes de línguas mais próximas e com mais falantes? Seremos privados de um certo cinema de qualidade? E se, de repente, não houvesse dinheiro para traduzir livros?

Temas de sucesso

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Há tempos, estive a  moderar uma mesa no Rossio, no âmbito de um festival que comemorava a abertura do Ano do Brasil em Portugal. Na mesa, além dos portugueses João Tordo e João Ricardo Pedro, estavam três escritores brasileiros: João Paulo Cuenca, Amílcar Bettega e Paulo Lins, sendo que o último não é um ficcionista, embora tenha visto o seu livro Cidade de Deus adaptado ao cinema e, também por isso, transformado num sucesso de vendas. Cidade de Deus é o nome de uma favela carioca onde Paulo Lins cresceu e sobre a qual, já depois de licenciado, fez um aprofundado estudo antropológico que, contra todas as expectativas (do ensaio nunca se espera grande repercussão), acabou por ser um best-seller. Agora, passados vários anos, Paulo Lins regressou com um novo livro – como ele diz, com páginas e páginas de bibliografia –, mais um estudo com todas as condições de se tornar um must-read, sobretudo no país de origem. Trata-se de Desde Que o Samba É Samba e fala, claro, dessa coisa maravilhosa que todos invejamos e que só o Brasil possui: o samba... A capa já dá vontade de dançar – e diz quem leu (infelizmente ainda não é o meu caso) que se lê como um romance.


 


Adultos ou nem tanto

Li há muito tempo um texto de Pessoa, no qual o poeta advogava que um bom livro para crianças tem de ser lido com igual prazer por todos os adultos que lhe deitem a mão. É verdade que há obras de literatura infanto-juvenil que são de tal beleza que não deixarão nenhum adulto indiferente. Lembro-me, por exemplo, de Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, de O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou mesmo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que, apresentando-se como um livro infantil, se calhar nem o é. Porém, fiquei ligeiramente admirada quando me disseram que mais de metade dos leitores da série Harry Potter eram adultos (e o mesmo acontece com a trilogia vampiresca de Stephenie Meyer) e que alguns deles, envergonhados, forravam os livros para que ninguém descobrisse que era naquilo que gastavam as leituras. Conheço também vários adultos – e alguns bastante lidos, garanto – que compram regularmente livros para crianças por se apaixonarem pelas ilustrações e não lhes resistirem. No entanto, não tinha a noção de que 55% dos livros infanto-juvenis eram lidos por adultos, o que descobri recentemente num estudo publicado na Publishers Weekly, que atesta que 78% dos compradores de livros infanto-juvenis os adquirem para consumo próprio. Passo-vos o link mais abaixo. Será que estamos seriamente a infantilizar-nos?


 


http://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/childrens/childrens-industry-news/article/53937-new-study-55-of-ya-books-bought-by-adults.html

Herança genética

Tenho a sorte de ter nascido numa família de leitores. O meu pai era um homem culto e a minha mãe, que nem sequer pôde concluir o liceu, é hoje, aos 88 anos, uma leitora voraz de livros e jornais. Os meus irmãos gostam todos de ler, embora tenham gostos muito distintos, e – não sei se será herança genética –, à excepção de um dos meus sobrinhos, os que já têm idade para ler com regularidade lêem, felizmente, com regularidade. A minha única sobrinha adolescente (os outros já são adultos ou ainda são crianças) começou, de resto, a ler muito cedo os livros da mãe – e papou aos doze ou treze anos obras como O Perfume, de Süskind, ou O Sítio das Coisas Selvagens, de Dave Eggers, que me pareceram leituras talvez demasiado exigentes para a pimpolha que era. Nada contra. Também eu lia os livros da minha irmã mais velha e, só quando a eles voltava noutra idade, percebia aquilo que me passara ao lado. De qualquer modo, nessa montra meio tonta e infantil que é por vezes o Facebook (na qual as pessoas avisam os supostos amigos de que vão ali tomar um cafezinho, que cozinharam bacalhau com batatas – e colocam as fotografias – ou que estão aborrecidas com o patrão), essa minha sobrinha depositou as suas opiniões apaixonadas sobre um livro de Jorge Amado que andava a ler. E eu fiquei orgulhosa e pus lá um «Gosto» e um comentário entusiástico, aconselhando outras obras do autor e falando tu-cá-tu-lá com ela como se andássemos juntas na escola. Espero que o futuro lhe traga muitos livros bons, não a afaste nunca da leitura e, sobretudo, a aproveite bem.

Diário póstumo

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Na véspera do lançamento da minha Poesia Reunida, recebi alguns telefonemas e mensagens de convidados dando-me uma «nega». A razão era compreensível. Exactamente à mesma hora, ia decorrer uma outra apresentação pública a que alguns não podiam mesmo faltar, tratando-se de um livro póstumo de um autor a quem todos devemos o grande impulso na criação da Segurança Social (agora, esqueçam-se da TSU, pois estamos a falar de como tudo começou). Refiro-me a José Niza, que muitos conhecem sobretudo da música – uma vez que foi o compositor de numerosas canções vencedoras do Festival RTP da Canção, entre as quais E Depois do Adeus, que se tornou um marco do 25 de Abril –, mas que foi também médico e deputado pelo Partido Socialista à Assembleia da República pelo círculo de Santarém e colaborou decisivamente na defesa dos direitos de autor no campo da música. O livro, chamado Golden Gate, Um Quase Diário de Guerra, baseia-se na experiência de Niza como médico em Angola durante a Guerra Colonial e reúne a correspondência enviada quase diariamente à mulher durante esse período negro. Ora mais contundente e político, ora mais intimista, este é um testemunho importante que todos devemos ler para não esquecermos o que se passou nem deixarmos que se repita.


 


Portugueses em alta

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Embora os Portugueses se auto-menosprezem e achem que tudo o que vem de fora é que é bom (não todos, claro, mas mesmo assim bastantes), não somos menos do que ninguém – e estou muito feliz por saber que a nossa literatura soma e segue. Há pouco tempo, fui brindada com a bela notícia de que a tradução francesa de O Bom Inverno está na lista de finalistas do Prémio Europeu de Literatura (que já foi ganho há uns anos por Dulce Maria Cardoso com Os Meus Sentimentos); e, uns quinze dias depois, leio com alegria que Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares são ambos finalistas do Médicis em França, que premeia o melhor romance estrangeiro (respectivamente pelas obras O Arquipélago da Insónia e Viagem à Índia) e cujo vencedor será anunciado já em Novembro. Mas não é tudo: o romance de Lobo Antunes repete a proeza na longlist do Fémina, prémio atribuído por um júri exclusivamente feminino a uma obra de ficção, para o qual concorre na mesmíssima posição a tradução francesa de Livro, de José Luís Peixoto, que, entre outras coisas, fala da emigração portuguesa em França. E, como se não bastasse, o romance A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, é finalista do PT no Brasil. Com tanta coisa que há para lamentar, pelo menos em termos da nossa produção literária temos muitas razões para andarmos satisfeitos.


 


Regresso ao passado

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Já não sei há quantos anos – uma dúzia, pelo menos – me dedico com especial afinco à publicação de novos autores portugueses (novos no sentido em que estão a começar, isto para que Joca Martinho, leitor deste blogue, não pense numa espécie de «pedofilia literária» que sacrifique os menos jovens). Li, por isso, centenas de originais nas várias editoras por que fui passando; e é impossível, decorrido tanto tempo, lembrar-me de todos os textos que recusei e dos nomes dos seus autores, embora uma ou outra vez ainda apareça um título que toca uma campainha ou o início de uma narrativa que me parece um déjà-vu. Mas recentemente aconteceu-me uma história bonita. O meu colega Francisco Camacho acaba de publicar um romance do psicólogo Nuno Amado intitulado À Espera de Moby Dick. Fui atraída pela capa, que é belíssima, e mais tarde o João Tordo falou-me dele com imenso entusiasmo. Conhecia o nome de Nuno Amado de livros de não-ficção, pois publica também obras na sua área profissional; mas, francamente, não me dizia nada em termos de literatura. E não é que, quando o conheci pessoalmente, ele me confessou que eu lhe teria recusado há dez anos um livro, dizendo-lhe, porém, que, se a obra fosse tão bem escrita e interessante como a mensagem que a acompanhava, não teria hesitado em publicá-la? Nuno Amado confessou-me que eu estava coberta de razão e, por isso, deitou esse manuscrito fora e se deu tempo de amadurecer. (Esperou dez anos!) Agora, fiquei curiosa sobre o novo livro. É mais um para a minha já longa lista...