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A mostrar mensagens de 2022

Boas festas e até para o ano

Para dizer a verdade, estou cansada: não só fisicamente, claro, que a idade já pesa, mas também cansada de tentar fazer alguma coisa pela literatura e cada vez mais encontrar um muro do outro lado, pois o que parece interessar actualmente à maioria das pessoas é um tipo de livro leve e fácil, que não as faça pensar, ou então as séries de ficção, algumas boas, que viciaram muita gente durante a pandemia. Vou, por isso, pensar na vida e descansar uns dias, que bem preciso, e só estarei de volta ao blogue no início do ano, mais precisamente no dia 3 de Janeiro. Até lá, desejo-vos umas Boas Festas, com livros bons no sapatinho e boas leituras . Saíram muitos livros novos nestes últimos meses que quero ler e, claro, o tempo não vai chegar para tudo, mas interessa-me ver se chego a autores que não conheço, como Judith Schalansky ou Hanya Yanaghiara (como o romance desta última tem 1000 páginas, não sei se vai ser desta), e quero também ir ao Porto ver uma exposição no Museu Soares dos Reis para a qual já me estou a guardar há algum tempo. Espero que os leitores procurem também os autores de que gostam ou sobre os quais tenham curiosidade e apareçam por aqui no ano que vem, para falarmos disso tudo. Boas entradas!

Histórias

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Gosta de boas histórias? Hum... A Bíblia tem um manancial delas. E agora, depois da tradução de Frederico Lourenço a partir da Bíblia Grega, o que já foi uma novidade, vem aí mais uma: temos agora uma forma de «ouvir?» todas as histórias do Novo Testamento. Leu bem: sim, «ouvir», porque desta feita a Quetzal convidou quatro grandes vozes e publicou os Evangelhos em versão audiolivro. Além da leitura pelo próprio Frederico Lourenço de fragmentos na língua original, vamos poder ouvir o Evangelho de S. João pelo inesquecível radialista Fernando Alves (que eu oiço na TSF todos os dias); o Evangelho de S. Marcos pela leitora de poesia e autora de O Poema Ensina a Cair, Raquel Marinho; o Evangelho de S. Lucas pela jornalista da Renascença Maria João Costa; e por fim o Evangelho de S. Mateus pelo músico e cantor Samuel Úria. Saído para o mercado em quadra natalícia, parece-me mesmo o presente apropriado! É uma parte da Bíblia contada ao nosso ouvido, que aqueles que fazem grandes viagens ou andam sempre no trânsito poderão ouvir no carro, sem se aborrecer. Bela ideia, não é?


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Encontros e desencontros

Há amigos escritores que via frequentemente no passado, em feiras ou festivais, mas cujo convívio se foi perdendo com o passar dos anos. Isso aconteceu-me com o poeta José Tolentino Mendonça, por exemplo, com quem viajei até Liège ou o Rio de Janeiro, mas que tenho reencontrado poucas vezes mais recentemente por impossibilidades mútuas. Ou os seus lançamentos coincidem com dias em que também eu tenho eventos, ou os meus se realizam em dias em que o nosso cardeal não pode abandonar o Vaticano; ou quando chego para lhe dar um abraço na Feira do Livro de Lisboa já ele deixou o pavilhão, ou... Valeu-me revê-lo há poucas semanas no lançamento de Misericórdia, de Lídia Jorge, mas de novo não consegui acudir ao recente lançamento do seu ensaio sobre São Paulo porque calhou naquela tarde em que tinha uma sessão de leitura sobre os Direitos Humanos... De qualquer modo, felicito-o aqui no blogue pelo prémio que lhe foi atribuído há dias pela Fundação Ilídio Pinho. Trata-se de uma distinção concedida a personalidades que trabalham «na promoção e defesa dos valores universais da portugalidade», sendo o júri composto pelos presidentes das Câmaras Municipais de Lisboa, do Porto e de Vale de Cambra, bem como pelos reitores das Universidades do Porto, de Aveiro, da Católica e de Trás-os-Montes. Parabéns!

Lançamentos

Quando comecei a trabalhar na edição, em finais dos anos oitenta, não organizávamos muitos lançamentos, até porque publicávamos sobretudo autores estrangeiros e não era ainda costume convidá-los para virem apresentar os seus livros em Portugal. Mas, sempre que acontecia, os jornalistas e críticos apareciam em massa, além dos amigos e de muitos leitores curiosos. Lembro-me de um lançamento de João de Melo no andar de baixo da Livraria Barata (talvez o de Gente Feliz com Lágrimas) e do de um livro de poesia de Nuno Júdice no jardim do Museu de Arte Antiga (já não sei que livro era, só sei que era da Quetzal de Maria da Piedade Ferreira) que estavam a rebentar pelas costuras, e foram muitos assim nessa década e na seguinte. Quando comecei a trabalhar com autores portugueses, as sessões de apresentação multiplicaram-se; além do lançamento na cidade natal dos autores, havia pedidos de todo o lado para que fossem falar dos seus livros. Mas, de repente, faz-se hoje um lançamento de um romance escrito por um autor que até tem bastantes leitores e está tudo meio às moscas no dia da apresentação, faça chuva ou faça sol: vai a família, vão os amigos mais próximos, e, se estiver lá um jornalista, é porque esteve a entrevistar o escritor antes do evento e ficou para assistir. Que estranho... Foi a pandemia que nos viciou no recolhimento, ou é o excessivo recurso às plataformas digitais para tudo e mais alguma coisa que nos viciou na solidão?

Natal

Quando na TSF, que é a rádio que eu ouço diariamente há muito tempo, começa a converseta sobre futebol (e o mesmo se repete na Antena 1), viro logo para a Smooth FM, que é isso mesmo, suave e audível  em qualquer estação, com músicas boas de recordar e um tom jazístico calmante. Mas nesta época há uma particularidade levemente irritante na Smooth, que é passar em contínuo canções de Natal que, mesmo sendo boas e cantadas por grandes intérpretes, às tantas já deitamos pelos cabelos. Eu própria já fiz uma série de letras para canções de Natal musicadas pelo grande João Gil, mas essas só passaram uma vez na TV e pronto, foram esquecidas. Há, de facto, imensas canções de Natal, mas, sei lá porquê, a literatura natalícia é incomparávelmente mais comedida. Claro que o nosso Dickens escreveu aquele clássico que é difícil de igualar e permanece na memória de todos (o senhor Scrooge assombrou milhões de crianças), mas há mais coisas, e o jornalista João Morales fechou o ano no seu canal do Youtube «alimentando a estante» com textos dedicados à quadra, do conto à poesia. Se tem curiosidade, aqui está o link. Pelo menos, variamos das canções de Natal...


https://www.youtube.com/watch?v=QhtwqYyBHJo


 

Festa dos livros

A EC.ON, escola de escritas online que promove encontros com escritores e oficinas de escritas virtuais e presenciais, não pára. Não só publicou de uma só vez quase uma dúzia de novas edições na Nova Mymosa (uma pequenina colecção deliciosa de textos em prosa e poesia), como vai organizar amanhã, dia 17, à tarde, o FEIO – Festa de Escritas, Improvisos e Oralidades no Teatro A Barraca, em Lisboa, fazendo de uma assentada onze lançamentos e vendendo os respectivos livros, que dão belos presentes de Natal, bem como todos os anteriormente publicados. Os autores presentes são Nelson Nunes, Luís Bento, Andreia Azevedo Moreira, Ana Margarida de Carvalho, Mónia Camacho, Filipa Leal, Maria Quintans, Nuno Júdice, Pedro Lamares, Filipa Martins e Francisca Camelo, que vão falar e autografar os seus livros. Mas, porque desde o início que as colecções se têm dedicado especialmente à ficção e à poesia, chegou a vez do ensaio e, para 2023, podemos esperar obrinhas (só pelo tamanho) suculentas num novo projecto chamado «Pensar o tempo», já que a EC.ON convidou desta feita muitos pensadores a escreverem textos, como Afonso Cruz, Mário de Carvalho, Cláudia Lucas Chéu, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Carlos Fiolhais, Helder Macedo, Irene Pimentel, Luís Quintais, Marta Bernardes, Nuno Júdice e Valério Romão. Tudo sobre a nova iniciativa no link abaixo. Longa vida a Luís Carmelo e à EC.ON.


http://escritacriativaonline.net/eventos/feio2022/

Listas

Como acontece todos os anos por esta altura, os jornais já começaram a publicar nos seus suplementos culturais as listas dos melhores em todas as áreas: livros, cinema, teatro, dança, música, exposições... Não resisto a passar os olhos por este tipo de trabalho, embora me pergunte sempre para que é que isto realmente serve. Nos casos de exposições ou espectáculos, raramente os escolhidos continuam a poder ver-se: as mostras foram mostradas durante um determinado período numa certa galeria e quem as viu pode sentir-se cheio de sorte, mas quem não as viu ficará frustrado porque elas já são apenas história; e o mesmo acontece relativamente às artes ditas performativas, porque raramente as companhias de teatro e dança fazem itinerância, até porque os cenários nem sempre são transportáveis... Sobram geralmente os filmes, que mais cedo ou mais tarde ficam disponíveis em DVD ou streaming; a música, que pode ser ouvida sobretudo em plataformas,  já que os CD estão a desaparecer; e os livros, mas estes ficam cada vez menos tempo nas livrarias, o que pode fazer com que algum dos eleitos pelos críticos, se tiver sido publicado no primeiro semestre do ano, seja quase impossível de encontrar. Mas, além disso, sabemos que as escolhas são sempre viciadas, porque nenhum crítico consegue ver tudo, ouvir tudo e ler tudo, votando sempre no que conhece e deixando de fora coisas importantes, só por não lhes ter posto a vista em cima. Ora, sabendo tudo isto, sou atraída pelas listas... Porque será?

Um fado vaidoso

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Já passou muito tempo desde que, pela primeira vez, falei aqui de um trabalho que estava a fazer com a fadista Aldina Duarte a convite do Museu do Fado. Tratava-se de antologiar os autores ditos eruditos que escreveram propositadamente para a canção portuguesa ou aos quais os fadistas, sobretudo Amália (que é quem começa quase tudo o que é novo e atrevido no fado), surripiaram poemas para cantar. O trabalho foi moroso, porque havia realmente muito mais autores do que esperávamos e, além do levantamento, a escolha foi muito difícil, pois tivemos de deixar de lado talvez metade dos textos encontrados por termos um limite de páginas para a colectânea. Depois, foi a parte dos direitos, sempre muito complicada, sendo preciso contactar autores e herdeiros, o que, em alguns casos não correu tão bem como gostaríamos, fosse porque não se encontravam descendentes, fosse porque filhos ou viúvas queriam mundos e fundos pela licença de publicar um poema e não era possível, numa antologia com oitenta autores ou mais, aceitar essas loucuras, até por uma questão de justiça. A pandemia também interrompeu o processo, atirando a edição para mais tarde, mas eis que finalmente aí está Esse Fado Vaidoso, de que, passe a imodéstia, estou vaidosa e que é amanhã apresentado no Museu do Fado por Rui Vieira Nery. A Aldina cantará três fados do livro na sessão. Obrigada à Aldina Duarte, ao Museu do Fado, à minha editora e, claro, aos muitíssimos autores dos textos da antologia. Foi um prazer fazer este trabalho. Espero que gostem.


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A guerra

Na sexta-feira passada, fui, como aqui julgo ter dito, ler poemas alusivos à paz numa sessão comemorativa dos Direitos Humanos. Na verdade, para falar da paz, escrevi sobre a guerra; e li, fundamentalmente, textos que falavam das crianças que perdem as mães, das mães que perdem os filhos, e de como os livros (a arte em geral, digamos mais concretamente) nos podem mostrar todas as guerras sem nunca lá termos estado. Os poemas que li eram meus, mas durante o fim de semana estive a ler exaustivamente um pequeno livro precioso e quase me arrependi de não ter lido na sessão os belíssimos poemas desse livro. Trata-se de Aprender a Usar a Baioneta em Tempo de Guerra, de António Tavares, com desenhos magníficos de Alfredo Luz, publicado pela Húmus, uma pequena editora com livros muito bons. Os poemas falam da guerra, de todas as guerras, e fazem-no de uma forma que tem dentro realismo, surrealismo e romantismo, o que é raro encontrar junto num mesmo texto ou livro. Espero que o autor prossiga na poesia, que é mesmo muito boa, e que tenha leitores para ela, porque merece. Deixo-vos apenas uma pequena amostra, mas leiam o resto e ofereçam a quem gosta de poesia. É uma voz diferente e nova que é bom encontrar.


 


Rendição


 


Se adivinhares os dias


e as palavras certas


com que se abre o meu coração,


cá estarei, rendido


entre o mar e a montanha,


à espera da tua mão,


dessa que prometeste


que me davas,


mesmo ferido,


quase morto,


numa tarde de verão.


 

Na Costa Leste

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Hoje é dia de festejarmos João Pinto Coelho, o celebrado autor de Perguntem a Sarah Gross (que, se não erro, já vai em sétima edição) e autor do romance vencedor do Prémio LeYa (Os Loucos da Rua Mazur) e ainda de Um Tempo a Fingir. Mais logo, Richard Zimler brindar-nos-á com a apresentação do mais recente livro deste ecritor, Mãe, Doce Mar, que conta uma história passada na Costa Leste dos Estados Unidos, na qual o protagonista, um jovem que viveu numa instituição para órfãos até aos doze anos, conhece inesperadamente a mãe, que o vem buscar, mas nem junto dela conseguirá saber porque foi, afinal, abandonado. Diante do mar revolto de Cape Cod, as suas perguntas não desaparecerão, porém, com a atenção que agora Patience lhe dedica, antes o confundirão ainda mais, levando-o a estreitar relações com um vizinho: um padre excêntrico que guia um Rolls-Royce às cores e protege uma conhecida senadora durante os seus últimos dias sobre a Terra. Cheio de suspense, é uma maravilha até mesmo ao fim, mostrando que o autor pode sair à vontade da sua zona de conforto e escrever sobre o que quiser. Apareça mais logo para o cumprimentar!


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Excerto da Quinzena

O Senhor não era um tirano. Ah, não! Era um Senhor delicado, sensível, bem parecido, que queria que tudo fosse perfeito e toda a gente feliz, Claro, devia ser ele a fonte dessa felicidade e perfeição.


Mas, a seu modo, era um poeta. Tratava os convidados com magnanimidade e os criados liberalmente. Contudo, era astuto e muito sensato. Nunca se apresentava ao pessoal como patrão. Tinha tudo debaixo de olho, como um jovem Hermes de olhos azuis e astutos. E os conhecimentos que possuía eram, realmente, admiráveis. Era admirável o que sabia de vacas de Jersey, de fabrico de queijo, de como cavar fossos e levantar vedações, de flores e jardinagem, de navios e navegação. Era uma fonte de sabedoria sobre tudo; e comunicava ao pessoal estes conhecimentos de uma forma estranha, semi-irónica e semi-solene, como se, realmente, pertencesse ao mundo superior e semi-real dos deuses.


D. H. Lawrence, «O Homem Que Amava Ilhas», in Amor no Feno e Outros Contos,tradução de Maria Teresa Guerreiro

Direitos do Homem

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«Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.» É assim que começa o artigo 1.º da Declaração dos Direitos Humanos, instituída em 1948; e, embora haja ainda centenas de lugares onde infelizmente estes direitos não são cumpridos, a existência deste instrumento internacional é razão suficiente para uma sessão evocativa do seu aniversário no próximo dia 9, em Cascais, no Auditório do Centro Cultural. As actividades incluem um debate com Irene Pimentel e Ana Paula Martins, moderado por José Meira da Cunha, José Eduardo Franco e Salvato Telles de Meneses, que é o anfitrião; far-se-ão algumas comunicações, bem como a apresentação de um projecto artístico de um monumento dedicado aos Direitos Humanos da autoria de José Manuel Castanheira; e, por fim, antes do encerramento, haverá ainda leitura de poemas sob o signo da paz (lerei na companhia de Aldina Duarte e Maria Emília Castanheira alguns poemas), acompanhada pela guitarra de Nuno Rocha. Se quiser ir, não  deixe de marcar, porque existe limite de lugares. O convite e o programa detalhado vão abaixo. Respeite o Outro!


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Livros e futebol

Em Outubro fizemos o primeiro lançamento de A Casa Ocupada, pouco depois da sua saída efectiva para o mercado, no festival FOLIO, com a apresentação de Fernando Cabral Martins. Mas, claro, por muito queridos que sejam os nossos amigos e familiares, nem sempre dá para fazermos oitenta quilómetros só para assistirmos à apresentação de um romance durante meia hora. Por isso, decidimos que tínhamos de repetir a proeza em Lisboa, que é a cidade onde a autora, Graça Videira Lopes, vive e foi professora muitos anos, até porque havia o desejo de que o apresentador fosse alguém da área económica, já que a protagonista é economista (até rimou) e o palacete que serve de ponto de partida ao romance também mereceu obras de divisão e reforma que nasceram, claro, de alguém com uma boa visão económica. Portanto, o lançamento seria hoje à tarde, como apresentação de Nicolau Santos, um jornalista que foi por décadas director do Caderno de Economia do Expresso. Mas eis que o futebol muda tudo, e o jogo de Portugal calhou exactamente à hora do lançamento. Como corríamos o risco de não ter assistência, a autora pediu o adiamento da sessão e o apresentador não disse que não. Mas, caramba!, desde quando é que o futebol manda mais que os livros? Bem, a quem pensava ir, não vá. Mas, pelo menos, leia A Casa Ocupada, que vale muito a pena.

Publicar

Uma das maiores alegrias de sermos editores é claramente podermos partilhar com os outros os livros de que gostámos muito e achamos que toda a gente deve ler. Penso que, com o avançar da idade e a enormidade de leituras que já fizemos, é cada vez mais raro esse encantamento; ainda assim, de vez em quando aparecem pérolas que nos fazem acreditar que ainda haverá muita coisa boa para ler no futuro e que o tempo que nos sobra não vai chegar para elas. Porém, também pode acontecer que, numa indústria que já esteve mais próxima do seu desígnio (cultural e formador), os editores deixem cair certos livros por saberem que não existem para eles leitores suficientes. Nisto, os editores independentes estão completamente à vontade e podem arriscar em obras de nicho, mesmo perdendo dinheiro; mas os editores assalariados, a menos que consigam vender bem livros difíceis às suas administrações, não terão outro remédio senão passar por cima de muita coisa que gostariam de publicar. Por isso, quando numa entrevista o editor Francisco Vale, da Relógio-d'Água, diz que quem publica coisas sérias como uma biografia de Agustina ou Cardoso Pires não devia fazer livros da Cristina, percebo-o, mas o problema é que ele é um editor independente que herdou uma quinta e tem dinheiro; e, se calhar, ao outro editor as vendas da Cristina são justamente o que lhe permite publicar as tais biografias... Tomara que não fosse assim, evidentemente, porém, num país onde se lê cada vez menos literatura, a vida do editor contratado é muito mais difícil do que pensa o editor independente.

O que ando a ler

Tenho de confessar que habitualmente leio mais literatura traduzida do que nacional, mas não poderia falhar o mais recente romance de Lídia Jorge, Misericórdia, a cujo lançamento público, aliás, assisti e constituiu um belo momento, com leituras de Ana Zanatti e apresentação de José Tolentino Mendonça. Misericórdia foi, se percebi bem, um «livro pedido», mas não encomendado. A mãe da escritora, que estava num lar de terceira idade (e morreu durante a pandemia), pediu à filha que escrevesse sobre esses lugares onde muitos velhos passam os últimos anos das suas vidas. Lídia Jorge fez-lhe a vontade; e, a par do dia-a-dia narrado pela D. Alberti (ou Maria Alberta), que nos põe a par do que se passa na instituição (desde as amizades, as embirrações ou as queixas, até às comidas, às entradas de novos utentes, aos passatempos, às paixões e às visitas, também da morte, especialmente de noite), é-nos contada a relação da narradora com a filha e a obra da filha, que aquela vê demasiado soturna e sempre sobre fracos e oprimidos quando existem tantos homens e mulheres capazes de actos heróicos que certamente fariam vender o dobro dos exemplares. As figuras são muito verosímeis, sobretudo a da cuidadora brasileira que não larga o telemóvel; e, apesar de ainda ir a pouco mais de um terço e de o tema ser obviamente sério, não consigo deixar de sorrir com um mistério que envolve uma morte que quiçá pode ser explicada por algumas pessoas ignorarem que certas actos, praticados em determinada idade, comportam alguns riscos... Vamos ver o que se segue.

Escrever e pensar

Tenho a clara suspeita de que me transformarei um dia destes em Velha do Restelo, se já não o sou; olho para certas decisões modernas e cada vez gosto mais de modos de ver antigos, ainda que, para falar com toda a franqueza, entenda algumas vantagens em termos práticos que as minhas opções difcilmente trariam. Contudo, lembro-me de copiar à mão parágrafos inteiros e listas de nomes de reis e rios para os meter na cabeça, e resultava, bem como de estudar muitas disciplinas tomando notas (para isso, sobretudo, serviam os cadernos, e não para copiar o sumário do quadro). A minha letra, de tanto que escrevi, foi-se ela própria parecendo mais comigo. Quando anoto o original de um autor, a minha caligrafia reflecte a minha zanga ou a minha alegria com o que leio, às vezes tanto como as próprias anotações... Há estudos que mostram que o papel é um suporte melhor do que o monitor porque facilita a localização e a memorização. Mas, sei lá porquê, a moda agora é a «desmaterialização» e, por isso, os alunos que este ano fizerem provas de aferição (dos 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade) fá-las-ão exclusivamente no computador; os exames do secundário do próximo ano serão também feitos longe do querido papel. Percebo evidentemente o argumento ecológico (e o papel está caríssimo), o de quem corrige não ter de decifrar letras difíceis e o da correcção e atribuição de pontuação nas respostas ter muito provavelmente a ajuda preciosa da máquina, mas... Então a letra já não é importante? E escrever com a nossa mãozinha não ajuda a pensar? E o computador não se substituirá aos alunos na correcção de erros ortográficos e no completar de frases e palavras? Nem sei o que pensar.

Calendário do advento

Quando eu era criança, a minha avó dava-nos um calendário do advento. Era suposto fazermos boas acções e irmos abrindo as portinhas de cartão todos os dias até podermos respirar fundo por termos sido bonzinhos e sabermos que iríamos ter presentes no dia de Natal. Hoje, porém, falo-vos do Calendário do Advento da RTP3, um programa de entrevistas de cerca de meia hora conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro a propósito da quadra natalícia. Os convidados são personalidades de todas as áreas do conhecimento, que, puxando das suas memórias, falarão do que foram os seus Natais e, se for caso disso, trarão para a cena objectos, presentes, fotografias, enfim, tudo aquilo que possa ilustrar como têm vivido a quadra natalícia desde que eram crianças, não se esquecendo por certo de referir como as coisas mudaram com as mortes dos que eram próximos ou com os nascimentos de filhos ou netos. Se havia tradições em relação ao enfeitar da casa, ao que se servia na Consoada e outras particularidades, iremos sabê-lo passo a passo, pois as figuras que dialogarão com Anabela Mota Ribeiro pertencem a geografias e gerações diferentes. A série de entrevistas já começou no dia 27 com a fadista Aldina Duarte e, como um verdadeiro calendário do advento, irá até mesmo à véspera de Natal. Vamos ficar atentos?







 


 




 





 




 

 

Excerto da Quinzena

De súbito, respirou fundo e disse:


– Isto faz-me lembrar...


[...] Que lhe fará isto recordar?, perguntei a mim mesmo. Será o pato na loja de ferragens? O cavalo do bar? O rapaz que chegava aos joelhos de um gafanhoto? Far-lhe-ia lembrar o ovo de dinossauro que encontrara certo dia e que a seguir perdera, ou o país que em tempos governara durante quase uma semana?


– Isto faz-me lembrar – repetiu ele – o tempo em que era rapaz.


Olhei para aquele velho, o meu velho, como os pés brancos e velhos metidos na água límpida do rio, nesses momentos que se contavam entre os últimos da sua vida, e de súbito pensei nele, simplesmente, como um rapazinho, uma criança, um jovem, com a vida inteira à sua frente, tal como a minha estava diante de mim. Até então nunca o vira daquele modo. E essas imagens – o hoje e o ontem do meu pai – convergiram e, nesse instante, ele tornou-se um ser misterioso, selvagem, simultaneamente velho e novo, moribundo e recém-nascido.


O meu pai transformou-se num mito.


 


Daniel Wallace, O Grande Peixe, tradução de Ana Falcão Bastos

Em Beja

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Eu bem sei que hoje era dia de partilhar um excerto de um livro, mas deixo isso para a próxima segunda-feira, pois estou sem tempo para subir ao escadote e tirar de lá um livro e, aliás, nunca é tarde de mais para uma citação. Na verdade, também aproveito nesta sexta-feira o espaço do blogue para publicitar uma actividade em que participarei mais logo, em Beja, na Biblioteca Municipal José Saramago, lugar onde conheci um grande bibliotecário, o saudoso Joaquim Mestre, há muitos anos, quando eu era ainda editora de José Luís Peixoto (e que graça era ver o Zé Luís falar com sotaque alentejano assim que começava a conversar com o Mestre). Mas, histórias à parte, a dinâmica Elsa Ligeiro, da Alma Azul, convidou-me para ir falar de poesia mais logo, às 19h00, a Beja; e, claro, vindo ela de longe só para isso, eu também não podia recusar. Assim, se estiver em Beja ou por perto, fica aqui feito este convite também a si, para aparecer se tiver vontade de ouvir, ou perguntar, sobre esta coisa maravilhosa que é a poesia. Até logo. O excerto virá na segunda.


Há Poesia no Jardim - Maria do Rosário Pedreira


 

As Pequenas Coisas

Fala-se muitas vezes de pequenas coisas sem importância, mas estas de que hoje falo foram, pelo menos para mim, bastante importantes, porque corresponderam a momentos de leitura extremamente bem passados e fascinantes. Refiro-me ao pequeno romance Pequenas Coisas como Estas, da escritora irlandesa Claire Keegan, que foi finalista do Man Booker Prize e se lê em duas tardes ou duas noites. É uma daquelas pérolas que poríamos com prazer no nosso colar de livros queridos. Quando o terminei, achei até que o Frank Capra, se fosse vivo, de certeza que quereria fazer um filme a partir desta história, de mais a mais, porque o seu protagonista, Bill Furlong, dono de um depósito de carvão numa época de muito frio, é uma dessas personagens intrinsecamente boas que já são muito difíceis de encontrar na literatura. Estamos perto do Natal, e este homem, que vive desde sempre com a mágoa de ser filho de mãe solteira, fornece carvão a toda a vila; entre outros locais, a um convento para onde as famílias atiram rapariguinhas grávidas que ali são escravizadas nas lavandarias e privadas dos seus bebés. A história de Keegan, como ela logo previne, é uma ficção, mas parte de factos reais acontecidos na Irlanda ao longo de décadas, que incluíram milhares de mortes, e é uma lição de compaixão e bondade que dá gosto. Uma autora a reter.

Rimas

Os autores que publico, se estiverem a ler este post, devem pensar que vou falar das minhas anotações nos seus originais, porque não raro faço círculos à volta de palavras próximas e escrevo à margem: «Evite esta rima.» As rimas em prosa nem sempre soam bem, mas na poesia e, sobretudo, nas letras de fados e canções ajudam à harmonia ou são mesmo necessárias. Há vários dicionários de rimas, bem como um número apreciável de sites na Internet que, quando estou a fazer uma letra para alguém, costumo consultar (um deles, curiosamente, chama-se Poeta Vadio). E, recentemente, recebi uma mensagem de uma pessoa que não conheço, mas sabe seguramente que sou uma utilizadora deste tipo de recursos, e que creio ter-me escrito do Brasil. Diz-me no e-mail enviado: «Eu criei essa ferramenta pensando em facilitar a vida de quem faz poesia (inclusive a minha), e seu funcionamento é muito simples: basicamente, você digita o início ou terminação desejada, clica em "procurar palavras", e então a ferramenta apresenta os resultados de um banco com mais de 1 milhão de palavras portuguesas que compilei de dicionários e similares.» Dá muito jeito, asseguro, e por isso deixo aqui o link para os eventuais interessados. Obrigada ao autor.


https://comofazerumpoema.com/dicionario-de-rimas/


 

Centenário de Natália

Há muitas escritoras portuguesas dignas de nota, claro, mas Natália, pela sua figura, a sua voz, a sua intervenção pública, é realmente inesquecível, mesmo para quem só a viu e nunca a leu. Incluí-a no meu livro juvenil Portuguesas Extraordinárias e incluí-a também na recente antologia de poemas para fado que assino com Aldina Duarte, Esse Fado Vaidoso, uma vez que muitos textos seus foram cantados por várias vozes do fado. Vai sair em breve sobre si uma biografia da escritora Filipa Martins, que já tinha sido autora do  guião de Três Mulheres (uma série sobre Natália, Snu Abecassis e Vera Lagoa), bem como participado com entrevistas importantes no documentário sobre Natália da autoria de Joaquim Vieira; e hoje mesmo, para celebrar o centenário da autora nascida em 1923, a Sociedade Portuguesa de Autores homenageia a escritora com um concerto na Reitoria da Universidade de Lisboa às 21h30 (a transmitir na RTP no ano que vem), no qual desfilarão apenas intérpretes mulheres, entre as quais Ana Bacalhau, Amélia Muge, Rita Redshoes, Mafalda Veiga e Kátia Guerreiro, que cantarão poemas da escritora açoreana musicados por Renato Júnior. Viva Natália!

Direitos das crianças

Em 1959, ano em que nasci, passaram-se coisas boas, entre as quais a adopção pela Sociedade das Nações da Declaração dos Direitos da Criança, o primeiro texto do mundo que foi adoptado por todos os países sem reservas. Este texto, que tivera uma versão inicial nos anos vinte, foi ampliado em 1959 e também quarenta anos depois, em 29 de Novembro do ano de 1989, passando então a chamar-se Convenção dos Direitos da Criança; ora, dada a proximidade da efeméride, a revista Visão Júnior, pela pena de Fernando Carvalho,  inclui um interessante artigo em que selecciona livros infantis que servem como ponto de partida para as crianças saberem e respeitarem estes direitos de que são as protagonistas. Tu e Eu e Todos, de Marco Farina, fala, por exemplo, do que torna uma criança única, abordando os temas da diferença e da igualdade. Já a Carta aos Líderes do Mundo, assinada conjuntamente por Maria Inês Almeida (portuguesa) e Flávia Lins da Silva (brasileira), é um apelo de uma menina de doze anos para que quem manda no mundo cuide do estado do Planeta para as gerações futuras. Assim como Tu, de Raquel Salgueiro e Jorge Margarido, está mais focado no problema da tolerância; mas há mais livros, claro, que ajudam a transmitir aos mais pequenos os direitos consagrados nos documentos que lhes são dedicados. De pequenino se torce o pepino.

Uma visita desassossegada

O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, um dos mais espantosos e originais livros da literatura portuguesa, celebra 40 anos de publicação (e depois da primeira edição muitas mais se seguiram, revistas e aumentadas). Estando, por isso, em destaque na Casa Fernando Pessoa, será esta a obra sobre a qual este sábado se debruça a rubrica Residências Pessoanas: Especialistas na Casa. Um dos maiores conhecedores desta e de outras obras do autor, o professor Fernando Cabral Martins, da Universidade Nova de Lisboa, será desta feita o guia que levará os interessados a uma visita à área museológica e à biblioteca da Casa, sempre com a tónica no Livro do Desassossego, partilhando conhecimentos e histórias singulares e respondendo a seguir às perguntas do público. A sessão acontece às 15h00 de sábado 19 e terá a duração de uma hora e meia, sendo necessária a compra de bilhete (online ou na bilheteira da Casa Fernando Pessoa) para poder participar. Vá lá, desassosseguem-se.

Morte de uma escritora

Os que lêem o título deste post pensam provavelmente que me vou referir a alguém que não é de papel, mas de carne e osso; mas desta vez parece-me que podem sossegar o vosso desgosto. Trata-se de uma personagem, nomeadamente, de Cristina Pinho Ferraz, escritora «premiada e temida» que foi vista pela última vez num festival literário da Póvoa de Varzim, à porta do Teatro Garrett, após o que desapareceu durante mais de um ano sem que ninguém aparentemente perguntasse por ela. Então, foi encontrada partida em três bocados nos jardins onde, curiosamente, se costuma realizar a Feira do Livro do Porto. Casada com Samuel, um judeu de família rica que começou a escrever antes da mulher (mas precisou dela para escrever, não vos conto como), Cristina será oferecida a esse polícia genial que é Jaime Ramos em  vários retratos e relatos feitos por pessoas que lhe eram próximas (ou nem tanto) no romance maravilhoso que é Melancholia, o mais recente livro de Francisco José Viegas. E entretanto descobriremos coisas muito interessantes sobre livros que são e não são de Cristina Pinho Ferraz, sobre o passado da família do falecido, sobre as entrevistas que nunca chegaram a acontecer, embora prometidas, sobre vaidade e vingança... Além, claro, de também sermos servidos por uma melancolia que atravessa todo o livro e que afecta Olívia, a senhora que substitui agora o tristonho inspector Ramos à frente do departamento de homicídios. Melancólicos também nós, não deixaremos mesmo assim de seguir as páginas até ao que realmente aconteceu arrastados pela beleza de cada um dos seus parágrafos.

Um pequeno filme luminoso

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Há algum tempo recebi um telefonema de Teresa Júdice, que eu conhecera havia muito na produção de um programa de entrevistas realizadas por Carlos Vaz Marques, mas nunca mais tinha voltado a ver. Desta feita, a Teresa estava a fazer um trabalho académico e queria levar a cabo a produção de um pequeno filme documental sobre poetas (mais velhos e mais jovens) e sobre o motor da respectiva criação; e convidava-me a participar nele, tal como aconteceu com Nuno Júdice, André Tecedeiro e Ana Freitas Reis. Conversámos bastante e acabei por recebê-la em minha casa (o lugar da criação) para duas interessantes sessões de perguntas e filmagens que, afinal, custaram muito menos do que supunha. A realizadora, Rita Féria, recolheu imagens bonitas de objectos e outros pormenores que identificam os poetas e voltou para descobrir a luz certa para as palavras de cada um. Hoje vai ser transmitida ao público esta curta metragem documental nas instalações da Brotéria e aqui vos mando o convite para o caso de quererem aparecer. A seguir, haverá conversa sobre o assunto.


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Apoios

Num país como o nosso, em que o arco da governação oscila quase sempre entre dois partidos, o PSD e o PS, na Cultura ora temos secretário de Estado, ora ministro, conforme o governo é mais à direita ou mais à esquerda. O actual ministro conseguiu que o seu pecúlio crescesse em relação ao da sua antecessora; mas, sendo Portugal um país com pouca gente, e ainda com menos público para a Cultura (basta ver quem lê os clássicos), se não for o Estado a apoiar as letras, as artes e os espectáculos, seria completamente impossível levar a cabo algumas actividades (o cinema, certas produções teatrais, óperas internacionais ou mesmo exposições que implicam trazer peças de fora com seguros muito caros). Porém, «descentralizar» tem sido essencial e parece que o minstro em funções quer andar pelo País e não ficar apenas em Lisboa, onde se diz que se passa quase tudo. Talvez assim mudem algumas coisas, talvez não... Leio que, no Reino Unido, para corrigir as assimetrias do País, Londres vai levar uma talhada brutal no apoio às artes, quase 40 milhões de euros, que vão ser realocados em cidades e vilas que habitualmente são «subfinanciadas». Veremos o que acontece por cá. Em Londres já está tudo a piar...

Uma questão de gratidão

Lembro-me de que alguns jovens escritores que publiquei pela primeira vez no início deste século convidaram para o lançamento dos seus livros de estreia professores que, segundo eles, tinham sido essenciais na sua formação. Alguns destes professores haviam sido docentes do ensino primário, estavam já distantes no tempo, mas, pela sua dedicação, nunca tinham sido esquecidos pelos seus ex-alunos. Sinto que isso acontece cada vez menos, não sei se por falta de gratidão dos escritores, se de facto pela falta de qualidade de muitos professores, alguns dos quais, sei-o por experiência própria, nem sequer gostam de ler. Encontrei, porém, no mural do Facebook de um poeta-professor, António Carlos Cortez, uma carta belíssima de Albert Camus que, depois de ser galardoado com o Nobel da Literatura, não esqueceu o mestre que acolheu aquele menino pobre que ele era e constituiu para ele um exemplo de peso. Acho que vale muito a pena lê-la e, por isso, transcrevo-a aqui no blogue.


Caro Monsieur Germain:


Deixei extinguir-se um pouco o ruído que me rodeou todos estes dias antes de vir falar-lhe com todo o coração. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que não procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da notícia, o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isto teria acontecido. Não imagino um mundo com essa espécie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda é para mim, assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser o seu grato estudante. Abraço-o com todas as minhas forças.


Albert Camus


 

Excerto da Quinzena

– Deixo-vos isto aqui porque o tempo atraiçoa


e atraiçoa de facto, as nuvens sempre a mudarem, o catavento da igreja indeciso


– E agora?


a minha mãe sentada, a olhar para ontem no banco quase sem pintura a que faltava uma tábua, sempre na companhia de uma dúzia de pombos de mãos atrás das costas, com um rebuçado escondido lá dentro, às vezes, mesmo crescida, tinha a certeza de ir encontrar o meu pai na rua, igualzinho ao que me lembrava dele mas o aspecto de quem se aproximava alterava-se de súbito, pumba, e nunca era ele, outras feições, outros gestos, outra roupa, nenhum aceno claro, nenhuma careta cúmplice, nenhum sorriso sequer, mirava-me surpreendido


– Aconteceu-te alguma coisa garota?


de modo que eu a virar logo a cabeça, envergonhada


– Desculpe


isto aos doze, treze, quinze anos, na volta da escola, isto quando comecei a trabalhar


– Dizem que o teu pai é rico


uma fábrica, duas fábricas, laboratórios, camionetas, dúzias e dúzias de empregados, a Dona Virgínia


(- Sou a Dona Virgínia, sou a Dona Virgínia)


para a minha mãe


– E deixou-as assim?


e depois eu o emprego numa loja, e depois eu o emprego numa creche, e depois eu o emprego num escritório, e depois um colega bom rapaz, e depois outro colega bom rapaz, por sinal ruivo (há sempre um ruivo em cada escritório, como há sempre um gordo) e depois não era aquilo, não era aquilo, não era aquilo, e depois eles, sem entenderem, tentando agarrar-me o braço


– Deixarmos de nos


(como há sempre um de óculos)


– Deixarmos de nos ver porquê?


António Lobo Antunes, O Tamanho do Mundo

Viagens

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Na véspera de viajar fico sempre com um certo frio na barriga, sobretudo se a viagem mete aeroportos. Se os meus nervos se mostram bem nestas alturas, a Nervo, excepcional revista de poesia (coisa rara e em extinção), mostra-se também agora na sua primeira versão temática. É justamente sobre a viagem que escrevem mais de trinta autores, amparados por uma dezena de artistas plásticos (entre os quais Álvaro Siza e Sobral Centeno), neste número belíssimo e bastante alargado em relação ao habitual. Ao contrário do que acontecia inicialmente, em que os poetas eram geralmente menos conhecidos, agora os consagrados já reconhecem qualidade à Nervo para lá publicarem os seus textos; e por isso encontraremos poesia dos sonantes Nuno Júdice, Luís Quintais e Pedro Mexia ou dos «veteranos» Eduarda Chiote, Yvette K. Centeno ou A. M. Pires Cabral, mas também da geração talentosa que inclui Rita Taborda Duarte, Marta Chaves ou Rui Lage e das boas surpesas como João Paulo Esteves da Silva. Não esquecer que também há poemas de outros países de língua portuguesa (Brasil, Angola e Cabo Verde), representados por nomes como Alexei Bueno, Luís Maffei ou José Luiz Tavares. Ler, ver e viajar!


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O país mais fechado do mundo

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Tenho um amigo estrangeiro que desde jovem «coleccionava» países; ou, melhor, estava sempre a partir para lugares que não conhecia senão dos mapas, muitos deles com nomes e localizações estranhos. Foi nesse contexto que viajou para as ilhas Feroe ou Tonga, por exemplo, mas também para a Coreia do Norte, que é talvez o país mais fechado do mundo. Lá, contava ele, andava para todo o lado acompanhado por três homens: o seu intérprete (chinês-inglês); um tipo que percebia inglês e que estava ali para garantir que o intérprete não dizia mais do que devia; e um suposto guarda, que se assegurava de que os outros dois não perguntavam ao estrangeiro como poderiam ir-se embora dali... Mas, tanto quanto sei, este meu amigo nunca saiu da capital, onde viu todos os museus dedicados ao «Dear Leader» e ao «Big Chief», nos quais havia presentes oficiais de todas as latitudes, até, calculem, um galo de Barcelos. Há, porém, quem na Coreia do Norte tenha conseguido passar mais tempo e sobretudo em lugares aonde não ia um estrangeiro há sessenta anos... José Luís Peixoto escreveu sobre essa sua visita no livro Dentro do Segredo, que acaba de fazer dez anos de publicação. O aniversário é celebrado com nova edição, agora com capa dura e fotografias inéditas feitas pelo próprio autor.


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Retratar o País

Começou por ser um convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos ao fotógrafo Duarte Belo (que fotografa com a poesia do pai, Ruy, e a empatia da mãe, Teresa) para que, de certo modo, tirasse um retrato ao nosso Portugal. O livro teria um prefácio de Álvaro Domingues, geógrafo com reflexões importantes sobre as razões pelas quais o País é tão incrivelmente vetusto em tanta coisa, mas o prefaciador escreveu textos belíssimos sobre todas as fotografias que Duarte Belo lhe ia entregando e acabou por se tornar co-autor da obra que agora sai para os escaparates com o título Paisagem Portuguesa. O fotógrafo, segundo leio num artigo do jornal Público que deu origem a este post, dividiu o mapa de Portugal em rectângulos de 30 x 32 quilómetros e escolheu patra fotografar um lugar no interior de cada rectângulo que, no fundo, «caracterizasse o espaço natural que acolhe o povoamento». É por isso que Lisboa não está (é «o buraco negro» que absorve tudo à sua volta, segundo Álvaro Domingues) e que o território ora é representado pelo que dele já desapareceu (o pinhal de Leiria antes de arder, por exemplo), ora pela introdução de elementos modernizadores como os passadiços junto a rios e praias ou os parques eólicos. Vale de certeza a pena, vindo de quem vem, e será um belíssimo presente de Natal, até pelo preço módico que tem para uma edição desta natureza. Ver e ler.

Amantes de gatos (e não só)

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Já aqui disse mais de uma vez que eu sou mais cães, embora, quando o sabem, os leitores da minha poesia fiquem admirados, porque tenho imensos poemas em que entram gatos. Ao longe, gosto deles, é um facto: são elegantes, independentes e cheios de personalidade. Já ao perto... Mesmo assim, não pensava vir a publicar um livro sobre gatos e apaixonei-me por História de Um Gato, de Laura Agustí, autora e ilustradora de gabarito, pois a sua história não é exactamente a de um gato (Oye, o siamês que a acompanhou durante dezassete anos!), mas a história de um tempo em que as crianças, em vez de ficarem o dia todo sentadas em frente de um computador, brincavam ao ar livre e conviviam com galinhas e coelhos, colhiam fruta das árvores, faziam sopinhas e saladas com plantas verdadeiras e criavam bichos-da-seda, a quem davam a comer folha de amoreira. As ilustrações são muito bonitas, delicadas e ternurentas. Mas, além do que já referi, há uma parte extremamente informativa neste livro, sobre os gatos na arte e na literatura, por exemplo, e também sobre o papel dos felinos ao longo do tempo em certas religiões e culturas. Vale muito a pena, garanto, mesmo para quem não gosta especialmente de gatos.


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Pseudónimos e outras denominações

Quando comecei a publicar, houve um poeta consagrado que me disse que o meu nome não era grande coisa como nome literário; tinha razão, claro (Maria do Rosário?), e ainda equacionei a hipótese de usar outro com que, de resto, assinei uns poemas nos idos de oitenta de que já mal me lembro. Depois, porém, quando me tornei escritora juvenil (com prémio e tudo) num tempo em que era professora, a editorial Verbo pediu que mantivesse o meu nome verdadeiro para que os alunos o reconhecessem na capa dos livros. Achei então que dois nomes eram demais para alguém com metro e meio e resolvi usar o mesmo para tudo. Mas ainda tenho saudades daquele pseudónimo. Por vezes, porém, os pseudónimos causam algumas situações inesperadas e acho que já vos contei aquela vez, há muitos anos, em que Mia Couto foi convidado para um encontro sobre feminismo na África do Sul e todos estavavam à espera de uma mulher negra (Mia e moçambique...) quando lhes apareceu à frente aquele homem de olhos claros e pele branca. Mas também me lembro de um ano em que as duas autoras da colecção Uma Aventura não puderam receber logo o seu pocket money num festival em Genebra porque nenhuma delas tinha o apelido com que assinava os livros. Alçada e Magalhães eram, na verdade, os apelidos dos ex-maridos das escritoras, mas, como a colecção já ia de vento em popa, não fazia sentido alterá-los.

13 anos

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Há muita gente supersticiosa com o número 13 e creio que, por exemplo, a maioria dos hotéis não tem o quarto número 13 para evitar recusas ou miúfa dos clientes. Diz-se ser o 13 o número do azar, em especial se se tratar de um dia 13 que calhe a uma sexta-feira, data geralmente escolhida pelos hackers para fazerem das suas. Mas eu não tenho nada contra o 13 (até me baptizaram num 13 de Outubro, data da última aparição da Nossa Senhora em Fátima), e menos ainda contra o 13.º aniversário das 5.as de Leitura da Figueira da Foz, as quais frequento há muitos anos, sobretudo como editora, uma vez que muitos dos autores que publiquei ao longo dos anos já foram convidados a participar nelas. Desta feita, vou como escritora celebrar uma actividade que começou por ser conduzida por António Tavares (quem diria que eu haveria de publicar os seus livros quando o conheci como vereador da Cultura da Câmara da Figueira?) e que agora conta com a moderação irrepreensível de Teresa Carvalho. Por isso, mais logo, pelas 21h00, lá estarei a apagar as treze velas enquanto converso sobre os meus livros e a minha actividade editorial. Se estiver por lá ou por perto, apareça.


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O que ando a ler

Nos últimos anos, apesar de um grande desencanto com muito do que para aí se escreve, descobri alguns bons autores de quem procuro ler tudo. Uma escritora, por exemplo, de que não costumo falhar um livro é Leïla Slimani, vencedora do Goncourt com o impressionante Canção Doce e, pelo que sei, residente em Lisboa. À excepção daquele relato/encomenda que nasceu de um convite para ela passar a noite sozinha num museu, que é bastante atípico na sua obra, os romances são extremamente interessantes e reflectem geralmente factos da vida da família de Slimani, o que se passa, aliás, com o belíssimo O País dos Outros, que tem agora uma segunda etapa que ando a ler, Vejam como Dançamos, e segue a história de Mathilde (uma alsaciana que se casa com um marroquino e vai viver para o país do marido), mas com ênfase especial na geração dos filhos do casal: Aïcha, a menina que era uma aluna excelente e teve a sorte de poder ir para a Europa estudar Medicina; e o seu irmão Selim, um adolescente que não estuda, está perdido de tudo e de si mesmo, anda com hippies que procuram uma espécie de paraíso de drogas em Marrocos e faz, em suma, demasiadas asneiras que só pode pagar à frente, algumas com a conivência da sua estranha tia. Mas ainda só vou a meio desta história em que verei certamente Aïcha apaixonar-se por um rapaz que ontem, quando pousei o livro, estava a dançar sozinho numa boîte dos arredores de Rabat. Estou curiosa sobre o que hoje vai acontecer e, quando terminar, voltarei a falar deste livro aqui no blogue.

O senhor Pina

Conheci Manuel António Pina (ao vivo, quero eu dizer, porque obviamente já o conhecia dos livros e das crónicas jornalísticas maravilhosas) num festival de poesia em Genebra, no qual, como agora se usa dizer, coincidimos numa mesa-redonda. Desse grupo de poetas (que incluía também Gastão Cruz e Pedro Tamen), infelizmente só Fernando Pinto do Amaral e eu permanecemos vivos. Mas o Manuel António Pina seguirá vivo para quem o leia e para quem queira contar ou ouvir as suas histórias sempre tão engraçadas, como aquela de ter um número absolutamente louco de gatos, «parte deles em pensão completa e o resto em meia pensão». Fez recentemente dez anos que o poeta do Porto morreu e a Feira do Livro da Invicta decidiu que estava na hora de o escolher como homenageado: vai, pois, ter a sua tília com o nome gravado no jardim do Palácio de Cristal e um festival literário com programação de João Gesta coordenado pelo também poeta (e romancista) Rui Lage. Falta quase um ano, mas já está decidido. Uma boa ideia para 2023.

Excerto da Quinzena

– És feliz? – perguntou-lhe inopinadamente a senhora.


O filipino não era desses que se perturbam com uma pergunta íntima e inesperada.


– Sou – respondeu logo, sem hesitar. – Quando a senhora também o é.


O sol e a luz do lume brilhavam no quarto. Oscilava na parede um raio luminoso, que Alison observava, enquanto ouvia distraída o monólogo do rapaz.


– O que me custa compreender é que se saiba – dizia ele. Muitas vezes principiava a conversa por uma alusão vaga, misteriosa, como esta. Era preciso esperar um pouco para apreender o sentido das suas palavras. – Só depois de estar muito tempo aqui- é que percebi que a senhora sabia. Agora creio que toda a gente… excepto o senhor Sergei Rachmaninov.


– De que é que estás a falar?


– Minha senhora, acredita mesmo que o senhor Sergei Rachmaninov saiba que uma cadeira é uma coisa sobre a qual nos sentamos ou que esse relógio marca as horas? E se eu tirar um sapato e lho meter à cara, dizendo: «Que é isto, senhor Rachmaninov?», o senhor pianista será capaz de responder, como qualquer pessoa, «É um sapato»? Custa-me tanto a crer!


 


Carson McCullers, Reflexos nuns Olhos de Oiro

Uma vida dinamarquesa

Suspeito que, por haver tão poucos tradutores de línguas nórdicas, tenhamos um grande défice de livros publicados em Portugal vindos destas paragens. Mas a boa notícia é que, de vez em quando, aparecem uns bons autores que desconhecíamos completamente, como é o caso de Tove Ditlevsen, dinamarquesa, de quem a Dom Quixote publicou recentemente A Trilogia de Copenhaga. O livro, uma autoficção que se lê como um romance, foi originalmente publicado em três volumes curtos (Infância, Juventude e Casamentos) que na edição conjunta tem um subtítulo ligeiramente diferente, Infância, Juventude, Relações Tóxicas, o que faz muito sentido, uma vez que a dependência terrível de fármacos, ministrados à narradora pelo próprio marido, médico e psicótico, ao longo de muitos anos é a marca mais visível desta última parte da trilogia. Mas o livro é sobretudo interessante porque nos oferece um retrato da Dinamarca muito inesperado: as famílias muito pobres, o frio das casas, o desemprego crónico entre guerras, a marginalização, a frustração de não se poder comprar um vestido ou um casaco quando se é uma rapariga a querer namorar. A infância e a juventude de Tove, que quer ser poeta desde criança mas aprende depressa que as pessoas querem sempre qualquer coisa umas das outras (e por isso vem a casar-se com um editor que podia ser seu pai), é uma infância pessoal que se torna universal na sua narração limpa e fria, sobretudo nas descrições familiares, muito pouco abonatórias. A tradução é do também escritor João Reis.

Pecar com prazer

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Não é que exista uma hora indicada para pecar, mas venho aqui falar-vos de um ciclo de conversas chamado Sete Pecados à Tardinha, ideia do escritor Nuno Camarneiro (que já se responsabilizara pelas conversas Havemos de Falar de... em Aveiro há uns anos), que se incia hoje na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, às 18h00, e se repetirá nas últimas quartas-feiras dos meses de Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril e Maio. Não que não se peque no resto do ano, mas os chamados «pecados mortais» são «só» sete (ira, avareza, gula, luxúria, preguiça, soberba e inveja) e, por isso, temos de deixar muitas quartas-feiras livres para a penitência. O programa, segundo a organização, prevê diálogos sobre as perspectivas simbólicas, históricas, religiosas, culturais, científicas e sociais do pecado e reunirá no palco, além de Nuno Camarneiro, que modera, um par de convidados de diversas áreas. Hoje à tarde falar-se-á sobre a preguiça. Carlos Tê, de quem admiro as letras absolutamente notáveis que tem feito para Rui Veloso, estará a contracenar com esta vossa criada que pode ser acusada de quase tudo, mas por acaso não é especialmente preguiçosa. Se estiver pelo Porto, apareça!


P. S. Hoje ao final da manhã o júri anunciará o vencedor do Prémio LeYa 2022.


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Um país perigoso

Recentemente, no âmbito do festival FOLIO, esteve em Óbidos para uma boa conversa o escritor nigeriano Akinwande Oluwole Babatunde Soyinka, conhecido por Wole Soyinca, dramaturgo, poeta e romancista. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura no ano imediatamente anterior a eu entrar no mundo da edição (1986) e tem a bonita idade de 88 anos, mas está óptimo de cabeça, afianço, pois pude cumprimentá-lo num barzinho onde provava uma ginja de Óbidos. Tem, aliás, um grande sentido de humor. E, por ser tão simpático e divertido, a sua editora na Livros do Brasil disse-lhe que ainda haveria de o ir visitar um dia à Nigéria, que é, como sabem, um dos países mais perigosos do mundo, onde o grupo jihadista Boko Haram faz sequestros todos os dias e, de uma só vez,raptou de uma escola mais de cem raparigas que, tanto quanto sei, continuam desaparecidas em parte incerta. Quanto à posibilidade de ser visitado pela sua editora, Wole Soyinca sorriu e concordou, mas logo a seguir disse que iria ele próprio buscá-la ao aeroporto, depois levá-la-ia directamente aos raptores, negociaria com eles a sua liberdade e então, sim, ela poderia andar à vontade nas ruas de Abuja...

O que nos torna escritores

Estive no segundo fim-de-semana do FOLIO em Óbidos em diversas actividades, entre elas a conversa entre Pilar Quintana e Bernardine Evaristo sobre emancipação. Mas, se esta última escritora foi bastante militante e previsível (o que não lhe retira o interesse, atenção), creio que Pilar supreendeu pela leveza com que falou do assunto, partindo da sua própria vida. Escrevia histórias, contou, desde criança, mas percebeu cedo que não poderia viver da escrita na Colômbia; decidiu então fazer o curso de jornalismo por achar que era, apesar de tudo, o mais parecido com escrever. Infelizmente, depressa chegou à conclusão de que não queria narrar factos, mas inventá-los. Resolveu, pois, escrever o seu primeiro romance e mandou-o a várias editoras. Porém, como ia estar fora, foi a morada da mãe que deu para o caso de vir uma resposta de alguma editora. Ora, como era natural na época, os editores que recusaram o livro devolveram com a carta de recusa os originais recebidos; e, intrigada com tanto envelope gordo para a filha, a mãe de Pilar não resistiu e foi bisbilhotar de que se tratava. Quando regressou da viagem, PIlar nem se importou muito com as tampas que levou, porque, quando a mãe lhe disse «Uma rapariga decente não escreve estas coisas!», compreendeu que, apesar de ainda não atingido o livro perfeito, já era uma escritora.

Borges poeta

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A monumental obra de Jorge Luis Borges (não me refiro ao tamanho, bem entendido) não foi brindada, como merecia, com o Nobel da Literatura, o que pode considerar-se bastante injusto se tivermos em conta que se trata de alguém que inventou uma forma de escrever única e irrepetível (apesar dos epígonos). Mas mais importante é tê-la disponível para leitura. Ora, a poesia de Borges foi traduzida pelo também poeta Fernando Pinto do Amaral e editada em quatro volumes pela Teorema e o Círculo de Leitores há uns quinze ou vinte anos, mas estava desaparecida do mapa das livrarias, o que era um tremendo mau sinal. Não havendo agora carcacanhol para comprar quatro volumes (ainda por cima eram todos de capa dura e sobrecapa), a Quetzal dá  milagrosamente à estampa num único volume a Poesia Completa. São poemas escritos pelo mestre argentino de 1923 a 1985, de Fervor de Buenos Aires (o primeiro livro) até Os Conjurados (o último),  reunidos numa edição de luxo com uma capa que tem uma belíssima ilustração de Lia Pereira. À venda a partir de ontem. Ide ler!


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Alto Minho

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Iniciado em Abril, regressou ontem o ciclo de encontros literários do Alto Minho, As Palavras Que Nos Unem, integrado no projecto «Inclusão ativa de grupos vulneráveis: Cultura para todos», que permite a invisuais e deficientes auditivos acompanharem todas as sessões através de suportes em braille e tradução em línguagem gestual. Numa programação de conversas orientada pelo jornalista João Morales, grande dinamizador cultural, desta vez os encontros acontecem nos municípios de Melgaço (foi ontem, lamento chegar tarde, e ainda por cima estavam presentes Nuno Camarneiro e Ana Ventura), Ponte da Barca (21 de Outubro), Viana do Castelo (27 de Outubro), Monção (28 de Outubro) e Paredes de Coura (29 de Outubro). Foram convidados, além dos já referidos, António Mota e José Pedro Leite em Ponte da Barca; José Mário Silva e Rita Taborda Duarte em Viana do Castelo; Olinda Beja e Carlos Quiroga (galego!) em Monção; e, por fim, Filipe Homem Fonseca e Adolfo Luxúria Caníbal em Paredes de Coura. Haverá música e teatro para animar e o programa está disponível para ser descarregado no link abaixo com a novidade de ter a «audiodescrição» ou consultado no cartaz aqui reproduzido. É assim mesmo!


http://redebibliotecas.altominho.pt/noticias/detalhes.php?id=1084


 


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O regresso de João Pinto Coelho

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Alguns dirão que o seu tema era Aushwitz ou a Segunda Guerra Mundial, mas não só. Desta feita, João Pinto Coelho rumou à Nova Inglaterra e brinda-nos com uma história de família. Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente a mãe, Patience, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há uma fronteira que nenhum dos dois ousa atravessar. Quando Noah conhece Frank O’Leary – um jesuíta excêntrico que guia um Rolls-Royce –, descobre nele o amparo que procurava. Mesmo assim, há coisas que o padre prefere guardar para si: os seus anos de estudante; o bar irlandês de Boston onde ele e os amigos se embebedavam e recitavam poemas; e ainda a jovem ambiciosa que não temeu desviá-lo da sua vocação. É, curiosamente, a terrível experiência de solidão num colégio religioso – assombrado por histórias de Dickens e um assassínio macabro – o primeiro segredo que Patience partilhará com Noah; contudo, quando essa confissão se encaixar no relato do padre Frank, ficará no ar o cheiro da tragédia e a revelação que se lhe segue só pode ser mentira. O desfecho é mesmo genial. De que estão à espera? Esta semana o livro é posto à venda.


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À procura da língua materna

No último dia 7 fui, como oportunamente avisei, ao Instituto Cervantes ouvir a conversa entre Lídia Jorge e o escritor guatemalteco Eduardo Halfon, que foi, aliás, soberba. Entre as muitas coisas que foram ditas, há, porém, uma história que Halfon contou e que explica a forma original como se tornou escritor. De família de direita e abastada, o romancista viveu na Guatemala até aos dez anos; mas, quando a guerra civil atingiu um ponto insuportável, os pais resolveram mudar-se para os Estados Unidos. Foi, pois, em inglês que Eduardo e os irmãos fizeram a parte mais substancial da sua educação, tendo ele cursado engenharia numa universiade americana. Enquanto viveu nos EUA, segundo disse, os livros não lhe interessavam nada, pouco lia, gostava era de jogar à bola e estar com os amigos. Mas eis que as leis da imigração norte-americanas fizeram com que, acabado o curso, Halfon fosse obrigado a regressar ao seu país de origem. Ele, que falava inglês com os irmãos e os amigos, usando o castelhano apenas com a geração mais velha, teve uma dificuldade extrema em de repente mudar o chip e ter de falar a língua materna para conseguir trabalhar e viver na Guatemala. Decidiu então ir estudar para a universidade; e, embora tenha inicialmente pensado em Filosofia, acabou por ser «recambiado» por um professor para Letras. E eis que, à procura da sua própria língua, começa a ler e a escrever e percebe o gosto pela literatura e pela construção da ficção, um rapaz que antes não lia um livrinho... Diz que continua a pensar em inglês, mas que só consegue escrever em espanhol (traduzirá os pensamentos?). Afinal, se os americanos quisessem lá todos os estrangeiros que para lá vão estudar, já teríamos perdido um escritor...

Excerto da Quinzena

Nina levantava-me, e era bom o seu levantar, mas eu nunca lhe hei-de contar como numa noite de Inverno uma chuva inesperada, de mistura com trovões, na casa que lá deixei, entrou pelo buraco da instalação do telefone, se infiltrou ao longo da parede, acumulou-se a um canto da sala e foi desaguar na cesta das revistas. Não vou contar a ninguém, nem sequer a Nina, os desaires que são só meus. Não lhe vou contar como nessa cesta eu havia abandonado, por acaso, O Grande Atlas do Mundo, quando o seu lugar era sobre o tampo da escrivaninha. Só que os objectos são como os seres humanos, procuram o lugar da perdição quando têm de se perder. Ora, nessa noite de tempestade, a água da chuva, seguindo o seu caminho imparável, ao infiltrar-se até chegar ao canto da sala, foi transformando tudo o que era papel acumulado na cesta de verga numa massa informe, sem eu dar por nada. Quando dei pelo material ensopado era demasiado tarde. À chuva e à trovoada seguiu-se o bom tempo, e ali estava o desastre. O Grande Atlas ainda era reconhecível mas estava perdido. Com esperança de recuperá-lo, cheguei a colocá-lo ao sol, ainda lhe apliquei o secador e o ferro de engomar. De nada serviu. Despeguei folha a folha, mas elas tinham-se colado, e à medida que as separava, grandes manchas brancas iam ocupando o espaço onde antes havia a representação de oceanos, mares, continentes, países, páginas bem assinaladas por onde eu estudava o mundo à minha maneira.


Lídia Jorge, Misericórdia


 

FOLIO outra vez

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Hoje seria dia de «Excerto da Quinzena», mas tenho outra matéria para publicitar, pelo que terão o excerto na próxima segunda-feira sem falta. Amanhã, há dois acontecimentos no FOLIO, em Óbidos, que quero partilhar com os leitores do blogue, até porque gostaria muito de os ver por lá, assim tenham tempo livre e interesse. Às 15h00, a escritora colombiana Pilar Quintana, de quem publiquei os romances A Cadela e Os Abismos (este último vencedor do Prémio Alfaguara de Romance no ano passado), vai estar na Tenda Vila Literária a falar de Emancipação com a escritora britânica Bernardine Evaristo que, como devem saber, é uma das vencedoras do prestigiado Booker Prize. A conversa será moderada pela jornalista do Expresso, Luciana Leiderfarb. Às 17h00, na Livraria de Santiago, ocorrerá por sua vez o lançamento do romance A Casa Ocupada, de Graça Videira Lopes, que será apresentado por Fernando Cabral Martins, professor na Universidade Nova de Lisboa e especialista em Fernando Pessoa. O convite aqui fica para os interessados. Apareçam!


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Literatura e inteligência artificial

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Num encontro de poesia em Oeiras, já não sei se no final do ano passado, convidaram-me para discutir o tema da inteligência artificial aplicada à poesia com uma professora do Instituto Superior Técnico. Como sabia pouco sobre a matéria, estive a investigar e, curiosamente, descobri poesia criada por máquinas bastante boa, alguma até melhor do que muitos versos tremendamente fracos que estamos sempre a encontrar por aí. Claro que a poesia criada por «cérebros artificiais» parte sempre de um conjunto grande de textos poéticos preexistentes escritos por pessoas de carne e osso; e, como na máquina da taluda, no fundo o computador mistura todas as bolas e depois deixa cair uma poesia nova; o que não sabemos é se faria um poema assim jeitoso sem lhe darmos a «ler» antes muitos poemas jeitosos. Mas, se quer saber mais sobre este assunto, vá hoje ao Goethe-Institut de Lisboa, pelas 19h00, onde dois especialistas vão falar de poesia digital e ciberliteratura: Rui Torres, professor catedrático no Porto, e João Gabriel Ribeiro, jornalista e designer. Ambos têm plataformas de poesia digital e, suponho, vão defender as suas damas.


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«Esplanar»

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Pelas estatísticas que de vez em quando consulto, sei que este blogue tem leitores nos quatro cantos do mundo, embora, claro, como seria de esperar, o grosso esteja aqui no Portugal pequenino. Porém, os dados não me permitem saber se tenho mais leitores no Norte ou no Sul, no Porto ou em Lisboa. Partindo do princípio de que terei uns quantos na capital, aviso-os então de que hoje ao fim da tarde vou «esplanar» e tomar «chá com livros» no Parque das Nações (e gostaria de estar acompanhada, bem entendido). Num diálogo com António de Oliveira, que moderará a sessão, estou convidada para passar umas horas num belo espaço chamado «Esplanando» onde se fala de literatura com um chazinho sobre a mesa. Por certo, terei oportunidade de contar como comecei a ler a a escrever, dos livros que publiquei (meus e dos outros), das mudanças que encontrei na edição ao longo do tempo, da minha preguiça como autora. Por isso, se lhe apetecer, venha «esplanar» connosco, o convite segue abaixo.


cartaz Maria do Rosário Pereira com moderação d

Conhecer

Quando Afonso Reis Cabral ganhou o Prémio LeYa com vinte e poucos anos, ouvi-o dizer numa entrevista que escrevia sobre o que conhecia. O seu romance O Meu Irmão, sendo obviamente ficção, tinha como protagonista um homem que tinha um irmão com síndrome de Down, e não por acaso Afonso Reis Cabral também o tinha, o que lhe permitiu seguramente descrições mais credíveis do comportamento da personagem. Devemos escrever sobre o que conhecemos bem? Será melhor a nossa ficção se ela espelhar uma realidade de que estejamos mais próximos? Perguntei-me isto por causa da entrevista de Arturo Pérez-Reverte ao Ípsilon na sexta-feira passada a propósito do seu Linha da Frente, que decorre durante a Guerra Civil espanhola. Ali pode ler-se que teve «três fontes fundamentais de informação: “Uma, os muitos livros de uma biblioteca sobre a guerra civil, li tudo o que fosse História, ensaio, romance, e também vários autores estrangeiros. Outra fonte foi a minha família: o meu pai, o meu tio e o meu avô, que fizeram a guerra civil. Foram fontes directas, contavam-me histórias, não eram discursos manipulados por terceiros, contaram-me algumas das suas experiências. A terceira fonte foi o facto de eu ter estado em guerras civis [como repórter para o canal de televisão TVE]. Das dezoito guerras em que estive, oito foram guerras civis: Angola, Moçambique, El Salvador, Nicarágua, Jugoslávia, Líbano... Eu sei o que é uma guerra civil. Não foi o cinema que me contou. Vi-as, ouvi-as, cheirei-as e falei com as pessoas. Tenho três boas bases de autoridade para falar sobre isso.”» Tiremos daqui as nossas conclusões.

Alma fadista

Tenho andado muito ocupada com as provas de uma antologia que assino com a fadista Aldina Duarte e que para o mês que vem, se tudo correr como esperamos, verá a luz (e as prateleiras das livrarias). Tem que ver com o fado, e mais tarde voltarei a ela, mas a canção lisboeta hoje aparece aqui no blogue porque no passado sábado foi lançado no Museu do Fado um volume que vou querer ler assim que tenha tempo. Trata-se de Severa 1820 e fala, pois claro, da primeira «fadista» conhecida (e guitarrista, já agora), que se chamava Maria Severa Onofriana e nasceu há quase dois séculos na Madragoa, impressionando as gentes que a ouviam cantar, em especial, segundo reza a lenda, o Conde de Vimioso, que muito contribuiu para que a sua carreira vingasse e, com ela, o próprio género. É o duplo centenário da Severa, e ao mesmo tempo os dez anos da inscrição do fado como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, que se comemoram com a saída deste livro, cuja coordenação esteve a cargo de Paulo Lima e inclui textos de várias figuras conhecidas, como Jorge Sampaio, Rui Vieira Nery ou Salwa Castelo-Branco, bem como fotografias de Augusto Brázio. Inclui ainda dois CD, sendo um deles com a banda sonora do filme A Severa, que é o primeiro filme sonoro português. Vai ser um belo presente de Natal para quem gosta de fado.

Eduardo Halfon

Quando se fala de literatura latino-americana de língua espanhola, pensa-se quase sempre em escritores mexicanos, argentinos e colombianos, talvez por serem naturais dos países mais fortes em termos literários e com mais tradição de prémios internacionais e índices de leitura acima da média. Estive em Buenos Aires e fiquei louca com a quantidade de bancas de livros por todo o lado, com El Ateneo, uma das maiores e mais belas livrarias do mundo, e com a quantidade de gente que acorre a eventos literários em museus e bibliotecas. Na Colômbia, onde tenho a sorte de ter uma antologia de poemas traduzida e publicada, vi o interesse genuíno dos leitores, que compareciam às apresentações em Bogotá e Cartagena sem me conhecerem de lado nenhum, e dos jovens universitários numa sessão para que fui convidada; e no México, tive casa cheia em sessões de leitura de poesia e numa conferência que fiz com Rui Vieira Nery sobre fado. Sim, são países muito dados às letras e com muitíssimo bons escritores. Mas não podemos escamotear o facto de o Peru, o Chile e a Guatemala já terem tido prémios Nobel da Literatura, apesar de terem menos autores conhecidos. E é justamente deste último país um dos escritores mais interessantes da actualidade, Eduardo Halfon, de que já aqui falei a propósito de Canção e Luto, mas cujo projecto literário é verdadeiramente fascinante, combinando o registo ficcional com as memórias da família de ascendência libanesa. Não percam hoje, às 19h00, a sua conversa com Lídia Jorge no Instituto Cervantes. Só pode valer muito a pena. Eu vou!

FOLIO

Hoje começa mais uma edição do festival FOLIO, na vila literária de Óbidos, e se consegue um tempo livre até dia 16 há realmente muitas razões para lá ir. Puxando a brasa à minha sardinha, desde logo a presença de Pilar Quintana, a «minha» autora de A Cadela e Os Abismos, que irá no dia 15, pelas 15h00, contracenar com Bernardine Evaristo, a vencedora do Booker Prize com Rapariga, Mulher, Outra, sobre o qual já aqui escrevi. Mas estarão também Eduardo Halfon (já leram Luto?), Manuel Vilas, Olga Tocarczuk e Wole Soyinca (dois Prémios Nobel da Literatura), Mia Couto, Pacheco Pereira e muitos outros. O programa inclui ainda sessões em escolas, oficinas, seminários e cursos, incluindo um ministrado pelo escritor Gonçalo Tavares a partir de dez versos de poemas portugueses. Como sempre, haverá ainda concertos, exposições de ilustração e muitas mais actividades ao longo de dez dias de sonho, em que o tema central é... o PODER! Vamos?


P. S. Atenção, hoje às 12h00 é anunciado o Prémio Nobel da Literatura!

Figuras de estilo

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Lembro-me de que, nos meus tempos de estudante da Escola Secundária (na altura, chamava-se apenas liceu), estudávamos uma série de figuras de estilo e de retórica e tínhamos de ter a sua definição na ponta da língua, o que nem sempre era fácil, sendo muito mais fácil reconhecê-las num texto. Recordo, porém, que um dia, por causa de uma frase em que se falava com pompa excessiva de uma autêntica ninharia de forma a fazer-nos rir, um professor nos disse que a melhor forma de definir «ironia» era dar a entender o contrário do que se queria efectivamente dizer. Não nos pareceu, na altura, uma definição muito boa, mas na verdade era-o; e um dia destes, no jornal Público, apareceu um anúncio procurando candidatos para um emprego que prova como esse professor estava afinal completamente certo. Parabéns ao Sindicato dos Oficiais de Justiça por pôr a criatividade ao serviço da defesa dos trabalhadores e, antes de tudo, claro, pela ironia.


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O que ando a ler

Estas duas últimas semanas foram pesadinhas, pois, a seguir ao calor, ao barulho e ao movimento da Feira do Livro de Lisboa (que este ano incluiu um enfarte em directo, mas o autor que o sofreu já está fora de perigo, graças a Deus), veio o planeamento dos livros de 2023 e os orçamentos, com contas para cada livro previsto, o que cansa qualquer cabeça nascida para as letras. Talvez por isso não fui capaz de entusiasmar-me por aí além com o livro que trago em mãos, do vencedor do Prémio Nobel da Literatura nascido em Zanzibar (mas a residir há muito em Inglaterra), Abdulrazak Gurnah. Trata-se de Paraíso e é, de certa forma, também um romance de formação, na medida em que relata a vida de um adolescente na companhia de um comerciante a quem foi entregue pelo pai em pagamento de uma dívida. Maltratado pelos capatazes, protegido pelo comerciante, muito belo e cobiçado por homens e mulheres, está sempre no fio da navalha e prestes a ser vítima de abuso. Primeiro a trabalhar numa loja e a mimar um jardim, depois numa grande viagem comercial pelo interior de África, o jovem Yusuf conhecerá tribos hostis, dissensões religiosas, atitudes violentas e primárias, costumes estranhos e mosquitos capazes de matar; e lembrar-se-á cada vez menos do rosto da mãe, que chorou ao vê-lo partir de casa aos doze anos. Escrito com delicadeza, mas talvez um nadinha arrastado, este romance foi finalista do Booker Prize em 1994 e tornou conhecido o seu autor no Reino Unido e não só.

Excerto da Quinzena

Sinto-me completamente esgotado, e esgotadas as reservas de oxigénio intelectual e físico que pude armazenar com os dois anos que consegui estar fora. O meu passaporte já vai fazer três anos de novo, sem um carimbo salvador para onde quer que seja! A exaustão da exaustão leva este gato vadio a pôr a pata no ar e, por uma vez na vida de um gato, a olhar insistentemente para si, como única chance de salvação. Sei que a Menez, também tomada de angústias, vendeu um guacho da Maria Helena, o que vai proporcionar-lhe uma saída daqui para fora. Seria tão grave para si como o é para mim pedir-lhe que me enviasse, me desse, um guacho libertador, talvez por mais dois anos, talvez para sempre, desta morte no vácuo. [...]


Carta de Mário Cesariny a Vieira da Silva de Julho de 1968, in Gatos Comunicantes: Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952-1985

Açores com música e literatura

Há uns anos fui falar a um festival literário sobre música e poesia, artes com muitos pontos em comum (trabalham fundamentalmente o som e o sentido, por exemplo); e hoje reparei que vem aí um festival que se realizará em duas ilhas dos Açores, São Miguel e Terceira, chamado Arquipélago de Escritores, que misturará música e literatura e tomará de certa forma a cantiga como «arma narrativa». Em São Miguel, as actividades decorrem de 7 a 9 de Outubro; na Terceira, de 13 a 16. Será convidado o biógrafo de Fernando Pessoa, Richard Zenith, residente em Portugal há muitos anos, para uma entrevista sobre o mais emblemático poeta português, que passou por Angra do Heroísmo (mas que bela cidade!) quando era adolescente. Entrevistados vão ser também a escritora Isabela Figueiredo e o fundador das Produções Fictícias e ex-director da RTP Nuno Artur Silva. Entre outros autores, José Carlos Barros, vencedor do Prémio LeYa com As Pessoas Invisíveis, estará nos Açores para falar desse romance. Na música, haverá concertos dos The Wants e de Os Perdedores. São os Açores a mexer e ainda bem.

Literatura fantástica

Não é o meu género preferido, mas há cada vez mais gente a gostar dele, talvez pela influência das séries televisivas de sucesso como A Guerra dos Tronos e os seus sucedâneos. E, portanto, vale a pena difundir aqui o Fórum Fantástico, que regressa este ano à Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, de 30 de Setembro a 2 de Outubro. Os temas são sempre variados, e em 2022 há muitos convidados estrangeiros, incluindo a escritora e cientista Julie Novakova (da República Checa), a escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues (do Brasil) e a escritora e criadora de jogos Kseniya Tomasheva (da Ucrânia). Os registos, segundo o organizador, estendem-se do lúdico ao académico, e não faltarão conversas, bancas de livros, exposições, oficinas e actividades para todos os gostos, entre as quais um quizz que dará direito a prémio. A quem quiser espreitar o programa, o link vai já aqui abaixo:


https://forumfantastico.wordpress.com/ 

Cursos e conferências

Fundamentalmente, nos meus tempos livres... leio, como se não lesse já o resto do tempo. Tenho leituras obrigatórias e leituras livres; e também a noção de que não vou conseguir ler tudo o que quero até ir deste para outro mundo. Mas, por pensar isso, descuro talvez outras artes, nomeadamente a música, de que percebo tão pouco... Claro que o desconhecimento tem remédio, e digo-o porque o incansável El Corte Inglés me mandou mais um Magazine donde constam os seus cursos e conferências até final do ano, e houve logo um que achei que podia fazer muito pela minha ignorância. Trata-se de As Grandes Formas da Histórica da Música, ministrado por Teresa Castanheira, que aborda a história da música através dos grandes géneros: a sinfonia, o concerto, a música vocal e religiosa, a ópera e a música contemporânea. Não sei se vou conseguir ir (saio sempre da editora demasiado tarde e o curso começa dia 3 às 19h00), mas sugiro que consultem o Magazine Cultural para, se tiverem tempo, frequentarem este ou outro dos cursos propostos e escutarem as conferências, algumas das quais por vultos bem conhecidos e temas actuais. Não podemos morrer estúpidos, mesmo que literatos.

O mundo que é a casa

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Entre os finalistas do Prémio LeYa do ano passado, encontrava-se um romance bem escrito e especialmente bem-humorado de uma estreante, Graça Videira Lopes, que foi professora universitária de Literatura Medieval e agora, que tem tempo livre, resolveu dedicar-se (e muito bem!) à ficção. A Casa Ocupada, assim se chama o seu livro de estreia, fala das famílias que vão ocupando ao longo de um século um palacete de Lisboa, mandado construir por um brasileiro torna-viagem em 1889 para nele instalar a numerosa prole (que não cessou também de aumentar fora de casa). O edifício – abandonado pelos anos 1950 e ocupado na sequência do 25 de Abril de 1974 – está hoje transformado num condomínio de luxo onde moram Júlia e Pedro, um jovem casal endinheirado. É pela voz de Júlia – curiosa sobre o passado da casa –, mas também pela de outros narradores, que vamos conhecendo não só as histórias das próprias personagens, mas também as que elas vão gradualmente descobrindo: a do republicano José Anastácio, o primeiro proprietário do palacete; e a do pai de Pedro e de Sofia, maoista em tempos da Revolução de 1974 e empresário de sucesso muitos anos depois. Inteligente, divertido e cheio de surpresas, este romance toma as décadas anteriores à implantação da República, os anos da Revolução e os tempos atuais para nos oferecer um retrato breve e irónico de algumas elites portuguesas, raramente tratadas em romances. A não perder!


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O senhor Molière

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Entrei na Faculdade no ano dos primeiros cursos de Línguas e Literaturas Modernas, que permitiam, pela primeira vez, a combinação de duas línguas de origens diferentes. Estudei por isso Francês e Inglês e, apesar de ter feito quase todas as cadeiras no Departamento de Estudos Anglo-Americanos, onde estavam muitos dos professores de quem gostava, tenho de dizer que me licenciei sem ter lido uma única peça de Shakespeare (li-as, mas fora das aulas), o que só pode ter sido fruto da confusão efervescente daqueles anos. Tive a sorte, porém, de poder num só ano estudar três peças de teatro em Literatura Francesa, ensinadas por três belíssimas professoras: Cristina Ribeiro, Maria João Brilhante e Helena Buescu. Tratava-se de Cid, de Corneille, Fedra, de Racine e D. João, de Molière, que é um texto absolutamente brilhante e divertido, embora não acabe lá muito bem... Sai agora outra peça de Molière para o mercado, O Misantropo, pela mão da Quetzal, no contexto da publicação das obras traduzidas por Vasco Graça Moura. Fala, como o título indica, de um homem metido consigo e pessimista que odeia positivamente a sociedade mas que ama uma jovem que, ao contrário dele, gosta imensamente da vida mundana e se recusa a viver isolada. A capa é também muito bela, pelo que significará para mim um regresso a este dramaturgo e ao teatro, que é talvez o género que menos leio. Leiam também.


P.S. Amanhã às 16h00 vou estar no Porto, na cooperativa Árvore, a convite da Poetria, a falar com a poetisa Rosa Alice Branco do meu novo livro de poesia. Apareçam!


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Boas esperanças

Não é novidade para ninguém que o romance que ganhou o Prémio LeYa em 2018 (e depois também os prémios Jabuti e Oceanos no Brasil) – Torto Arado, de Itamar Vieira Junior – tem tido uma extraordinária repercussão pelo mundo fora. São já dezassete países aqueles onde está ou vai ser traduzido e teve mais de 300 000 exemplares vendidos no Brasil. Está a ser adaptado a uma série (haverá notícias em breve), será um romance gráfico e os seus direitos de adaptação teatral foram vendidos a uma companhia do Brasil e a outra, «multinacional», que circula pela Europa. É desta última que falo hoje, pois estou ainda verdadeiramente impressionada (no bom sentido, claro) com o espectáculo que vi no Teatro S. Luiz na semana passada, O Agora Que Demora, da encenadora brasileira Christiane Jatahy, vencedora do Leão de Ouro da Bienal de Veneza. É um espectáculo moderno, belíssimo e muito original sobre refugiados, feito com uma inteligência rara no sentido de poder ser exibido em qualquer país sem grandes alterações (inclui um filme, música e representação ao vivo). Ora, isso prenuncia o que pode ser Depois do Silêncio, o espectáculo sobre Torto Arado que já começou a correr as salas da Europa e não tarda poderá ser visto também em Lisboa. Chamo já a atenção para que não o percam qando chegar. É bom voltar para casa de papinho cheio quando se assiste a um espectáculo assim e o Itamar Vieira Junior merece!

Ensinar a contar

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Há uns tempos, publiquei um livro infantil que foi um sucesso para pais e educadores ensinarem as letras do abecedário às crianças. Chamava-se O Alfabeto Nojento e tinha (tem) texto de David Machado e ilustrações de David Pintor (um artista da Corunha que tem trabalhado muito com editores portugueses, sendo ele próprio autor de alguns livros, como o genial A Minha Árvore Secreta ou a maravilha sem palavras que é A Grande Aventura de Nara). O Alfabeto Nojento contava as patifarias de um menino impossível de aturar chamado Henrique, capaz de fazer partidas bem nojentas (com ranhos, cocós e larvas, por exemplo) mas, claro, de fazer os miúdos morrerem a rir. Dado o êxito do livro junto da pequenada, os autores resolveram reincidir agora com Os Números Nojentos, para ver se as crianças aprendem com gosto e bom humor não apenas números inteiros, mas também decimais, e se preparam para o fantasma da matemática que, mais cedo ou mais tarde, se materializará para algumas delas. Vamos lá ver se estes números igualam o sucesso que tiveram as letras.


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Blá-blá-blá

Não é novidade para ninguém que o mundo hoje é essencialmente inglês. Nos países onde se aprendem línguas estrangeiras, o inglês é seguramente disciplina obrigatória e, se não o for, é certamente a primeira opção de quase toda a gente. O francês, que era a língua com que comecei ainda na escola primária, formou muitas gerações de intelectuais portugueses: as pessoas da idade do meu pai arranhavam o inglês, mas falavam (e liam) bem francês, mesmo quando não tocavam piano; e faz pena que o francês tenha perdido protagonismo, até porque é uma língua musical e bonita. Porém, para quem tiver nostalgia, hoje começa o Bla Bla Café às 17h45 na Medicateca do Instituto Franco-Português. Não é, atenção, um curso, mas um espaço de conversa em francês para os que querem praticar ou aperfeiçoar a língua. Todas as semanas é proposto um tema para a conversa, que é moderada por uma pessoa nativa da língua. Ouvir com respeito e dar opinião (em francês, claro) é o objectivo destes encontros, temperados com um cafezinho. Inscrevam-se os interessados no link abaixo.


mediatheque@ifp-lisboa.com