Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2018

Até já

Imagem

Amanhã vamos quase todos de férias, bem sei, pelo que este será o meu último post até ao dia 3 de Setembro (descansemos uns dos outros, que só nos faz bem). Espero conseguir ler os muitos livros atrasados que levo comigo, embora raramente consiga cumprir esse desiderato, e também aproveitar este mês para escrever uma comunicação e uns artigos que me «encomendaram». Desejo-vos, pois, que passem um feliz mês de Agosto (de férias ou a trabalhar) e que leiam, evidentemente. Este mês sairá para as livrarias a reedição de um livro de Mário Cláudio intitulado O Pórtico da Glória, que fecha a trilogia iniciada com A Quinta das Virtudes e seguida por Tocata para Dois Clarins e que aconselho a todos, sobretudo aos habitantes do Porto, cidade que foi pioneira no desenvolvimento industrial do nosso país e para onde vai viver o protagonista deste romance que venceu o Prémio PEN Clube Português de Narrativa em 1997 e o Prémio Eça de Queiroz em 1998. Bom descanso e boas leituras.


 


P.S. Pediram-me a divulgação de um projecto que me pareceu interessante sobre livros que se ouvem e, como tal, deixo o link para quem queira ler e dar a sua opinião: http://luizrobalo.blogspot.com/


 


MC O Pórtico da Glória K 3D 2.jpg


 


.

Diário de um gato

Imagem

Quem me conhece sabe que não vou muito à bola com gatos (pronto, não fiquem zangados, eu sei que entre os Extraordinários há imensos com gatos, mas eu sou mais cães). Também por isso estranhei quando, um dia destes, o jornal que leio em papel todas as manhãs dedicava uma página inteirinha a um gato lisboeta chamado Calvin Esparguete que é, segundo ali se dizia, o mais popular felino da colina de Santana, pois, embora tenha casa e donos, longe de querer ficar repimpado num sofá, o que gosta é de se pirar e fazer amigos pela cidade: a peixeira (pudera!), a merceeira (idem!), outros donos de gatos (que visita regularmente) e até o porteiro do Hotel Tivoli, que contou que este gato citadino, de pêlo cinzento e olhos verdes, só atravessa a Avenida da Liberdade quando o sinal abre, atrás dos peões, não correndo riscos desnecessários. Tem uma coleira com o telefone dos donos (como vai cada vez para mais longe, a dona recebe telefonemas para depois o ir buscar) e já se tornou conhecido dos habitantes da cidade e dos turistas por ser tão bonito e sociável apesar dos seus 16 (81) anos! Mas o que o fez merecer o destaque no jornal é o facto de ser o narrador de um livro escrito pela sua dona, a jornalista Filomena Lança, que passou a escrito as suas aventuras. O livro intitula-se Calvin Esparguete – Diário de Um Gato Citadino e é mesmo para todos os que gostam de gatos. A Dom Quixote publicou.


 


_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_DQUIXOT


 

O pessoano

No verão, os jornais optam normalmente por cadernos ligeiros, com reportagens leves e questionários um tanto ou quanto cuscos – para que praia vais, qual é o teu prato favorito, o que vais ler nas férias, que viagem gostarias de fazer, coisas assim… Por sorte, este ano o suplemento P2 do Público resolveu sair durante o Verão com grandes entrevistas – e a que li no dia 16 de Julho a Jerónimo Pizarro feita por Isabel Lucas era mesmo interessante. Pizarro é colombiano – mas português de coração, uma vez que é doutorado em Linguística Portuguesa, é professor titular da cadeira de Estudos Portugueses na Universidade dos Andes, viveu em Portugal muitos anos e é um dos grandes especialistas mundiais na obra de Fernando Pessoa (com livros publicados na Tinta-da-China) para a qual foi despertado pelo Livro do Desassossego. Conta que se apaixonou pela literatura para fugir à violência da política (era jovem na época de Pablo Escobar e teve parentes sequestrados e mortos); e, aos 13 anos, já trabalhava na loja da avó para ganhar uns cobres para poder comprar livros (Dostoiévski, Cortázar, Hermann Hesse e muita poesia). Nós agradecemos que os estrangeiros cultos se interessem pelos nossos escritores e digam que Pessoa já se tornou imagem de marca e uma porta por onde muitos entram em Portugal. E percebemos quando Pizarro diz que uma das razões por que é tão bom viver em Portugal tem que ver com essa sensação de segurança que falta realmente em tanto lado. Entrevistado e entrevistadora estão de parabéns. Leitores, não percam a entrevista, por favor.

Olimpíada

Parece-me que nunca teria chegado a ler a versão integral da Odisseia se a obra não tivesse sido traduzida para português, e bem! (obrigada, Frederico Lourenço, pelo incrível trabalho e pela elegância do texto em português). Mas, graças à tradução, li-a de fio a pavio e, desde então, tenho-a no coração como um dos mais belos textos que se escreveram (nem teria resistido ao tempo se assim não fosse), o primeiro – julgo – do cânone ocidental de Harold Bloom (e de todos nós). Também por isso, dei especial atenção a uma pequena notícia que saiu recentemente no Público, anunciando que o fragmento mais antigo desta obra atribuída a Homero – treze versos escavados numa placa de argila – foi encontrado no decorrer de escavações na antiga cidade de Olímpia por arqueólogos que há três anos «vêm trabalhando em torno dos vestígios de um templo de Zeus naquela região do Peloponeso, berço dos Jogos Olímpicos». A peça regista um pequeno excerto do Canto XIV da Odisseia, que descreve o regresso de Ulisses a casa e o seu reencontro com o porqueiro Eumeu. Transmitido oralmente durante séculos, o texto, ao que parece, foi registado em rolos ainda antes da era cristã, e este tesouro agora encontrado pode datar do século III. Que descoberta olímpica!

Imposturas literárias

Reproduzo quase na íntegra uma história engraçada que li no blogue ou no mural de Facebook de Francisco Seixas da Costa, aonde vale quase sempre a pena ir (e o «quase» é capaz de estar a mais). Talvez os mais novos leitores do blogue não o conheçam, mas para muitas gerações, havia um poema que as famílias recitavam, que toda a gente sabia de cor e que aparecia nas selectas literárias da antiga quarta classe ao longo de décadas: tratava-se de Balada da Neve, de Augusto Gil, e o seu início rezava assim: «Batem leve, levemente, / Como quem chama por mim. / Será chuva? Será gente? / Gente não é certamente / E a chuva não bate assim.» Estava Seixas da Costa a falar justamente deste poema quando passou por ele o poeta Nuno Júdice, a quem logo comunicou estar, por coincidência, a falar de um seu confrade. Depois de saber de quem se tratava, Júdice comentou que tinha sido enganado por Augusto Gil. Mas, não sendo poetas contemporâneos (Gil morreu em 1929), Seixas da Costa quis investigar a razão de tal comentário. E Nuno Júdice explicou-lhe que, sendo algarvio, nunca tinha visto neve, mas que, já adulto, quando teve a experiência do primeiro nevão, constatou que a neve não batia coisa nenhuma, que não há nada mais silencioso… A poesia, enfim, tem direito a mentir.


 

No original

Foi, julgo, na minha geração que o inglês ganhou decididamente ao francês (as músicas, os filmes, as séries  inglesas e americanas com legendas, tornaram-se muito mais cativantes para os jovens portugueses de então do que Aznavour ou Brel, de que gosto tanto, e uma série que devorei na infância-adolescência chamada Belle et Sébastien, com uma cadela São Bernardo e uma criança). Hoje, no nosso país, toda a gente fala inglês – há uns dias a rapariga que estava na caixa do supermercado desenvolveu um diálogo tão irrepreensível com uns clientes estrangeiros que os deixou de cara à banda. (Mas de que estariam eles à espera, hã? Os portugueses têm um inegável talento para as línguas!) Também por isso, o número de livros lidos originalmente em inglês aumentou muito nos últimos anos em Portugal; não só as pessoas viajam mais e compram livros no estrangeiro, como existe uma grande oferta de edições em inglês, em paperback e bolso, às vezes muito mais baratas do que as traduções, em várias livrarias online. Por outro lado, há quem goste de ler sem a mediação de um tradutor e quem não tenha paciência para esperar pela edição portuguesa. Recentemente, publicaram no Clube do Autor o romance do norte-americano André Aciman Chama-me pelo Teu Nome, que deu origem a um filme que passara uns meses antes nas salas de cinema portuguesas. Mas, entre a exibição do filme e a publicação da tradução, já se tinham vendido cerca de 2500 exemplares em inglês (Call me by your name é o título original). Qualquer dia, não valerá mesmo a pena traduzir certas coisas.

Medo e falta de ar

Como é segunda-feira e estou sem ideias – o fim-de-semana faz muito mal às cabeças –, vou escrever sobre uma ninharia. Estava a ler um texto um dia destes e encontrei a palavra «espavorido», de que gosto muito por ser tão gráfica; e, não tinham passado dez minutos, apareceu-me o vocábulo «esbaforido»… Na minha cabeça, olho para estas duas palavras e a imagem que se forma é mais ou menos igual: a de alguém que vem a correr, talvez a fugir, despenteado e com a roupa ao vento. No meu íntimo, o sentimento subjacente às duas palavras é muito semelhante, mas não há como uma consulta ao Dicionário Houaiss para ver que não tenho razão. «Espavorido» tem dentro a palavra «pavor» e, na verdade, quer dizer «apavorado» (outra palavra com susto dentro). Porém, «esbaforido» significa «aquele que respira com dificuldade», e a palavra – está bom de ver – deriva de «bafo». Embora o pavor possa tornar uma pessoa ofegante (ou seja, esbaforida), estas duas palavras que pareciam quase irmãs gémeas não têm, afinal, qualquer parentesco. Para mim, foi divertido descobri-lo e a partir daqui desenhar na minha mente duas imagens diferentes, uma para cada palavra. Para os Extraordinários, uma boa semana de descobertas é o que desejo a todos. Sem medo nem falta de ar.

Flybraries

Conhece a palavra «flybraries»? Calculo que não, mas, na prática, quer dizer «bibliotecas a bordo de aviões». A ideia foi da easyJet, uma companhia aérea que pretende promover a literacia e incentivar a leitura e vai fazê-lo sobretudo no âmbito dos mais pequeninos, transportando clássicos da literatura infantil (17 500 exemplares em sete línguas, incluindo o português) em 300 aviões (livros como Alice no País das Maravilhas ou O Livro da Selva constam desta flybrary). O director de marketing da easyJet para Espanha e Portugal explica que esta iniciativa tem que ver com o facto de o desempenho na leitura dos alunos do 4º ano ter piorado muito entre 2011 e 2016 (já escrevi aqui sobre o assunto) e de esta campanha combinar de certa forma entretenimento e pedagogia: «Queremos que voar seja uma experiência enriquecedora, divertida e memorável, não apenas para os adultos, mas também para as crianças, e consideramos que colocá-las em contacto directo com alguns dos maiores clássicos da literatura infantil será uma experiência enriquecedora em todos os aspectos.» Esperemos que sim, que algum livro torne mesmo a viagem memorável e faça a criança querer ler mais. De todos os modos, há mais aliciantes e, para as crianças entre 6 e 12 anos, em viagens no espaço Europeu, a campanha inclui um concurso no qual meninos e meninas escreverão pequenas histórias completando a frase «Eu olhei pela janela e vi…» e, com sorte, poderão ganhar viagens para toda a família. A história vencedora será ilustrada e publicada na revista que viajará em todos os aviões da easyJet. Tiro o chapéu. Quem poderia pedir mais a uma companhia aérea?

Um novo Nobel

Irritados por tudo o que aconteceu recentemente com a Academia Sueca, que adiou a entrega do Prémio Nobel da Literatura para uma data indefinida e afastou umas quantas pessoas do processo decisório, uma série de intelectuais suecos, sobretudo escritores e jornalistas, resolveu criar uma sociedade a que chamou «Nova Academia» como forma de protesto. Instituiu um prémio alternativo que já tem 47 candidatos oriundos de todo o mundo, nos quais podemos todos votar até dia 14 de Agosto (basta ir ao site, ao que parece). Entre esses, contam-se escritores como Elena Ferrante, Ian McEwan, Paul Auster ou Joyce Carol Oates (os norte-americanos estão, de resto, muito bem representados), mas também nomes menos prováveis, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e uma dúzia de suecos de que nunca ouvimos falar, além da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, o que é de admirar… Em todo o caso, podemos divertir-nos um pouco com este concurso, já que não temos o outro. O vencedor será anunciado em Outubro, como é habitual com o Prémio Nobel, e irá haver uma cerimónia formal para entrega do galardão no dia 10 de dezembro. A Nova Academia será dissolvida um dia após a cerimónia formal, o que também tem alguma piada. Haja imaginação.

Booker de ouro

Qual medalha de ouro, o Man Booker Prize lançou a ideia de se eleger o Booker dos Bookers dos últimos 50 anos. E há uma semana, mais coisa menos coisa, o vencedor do último Golden Booker foi um romance divino chamado The English Patient (o autor é Michael Ondaatje, nascido no Sri Lanka mas de nacionalidade canadiana), que ganhara o Booker ex-aequo com Sacred Hunger, de Barry Unsworth, no ano de 1992, e que por cá foi publicado pela Dom Quixote e traduzido com o título O Doente Inglês, embora o filme nele baseado, de 1996, realizado por Anthony Minghella, viesse com a tradução coxa de O Paciente Inglês (e, ainda por cima, o protagonista não tinha mesmo paciência nenhuma, bem pelo contrário, apesar de ter todas as razões para isso). A obra, que tem passagens maravilhosas que o filme não podia manter sob o risco de se tornar chatíssimo (as viagens ao deserto em solitário) foi traduzido em cerca de 40 línguas e deu liberdade ao autor para largar tudo e escrever apenas, como tantos ambicionam. Quando recebeu o prémio, Ontaatje contou que tudo começou com uma cena (um homem queimado a conversar com a enfermeira) que ele julgou ser o arranque de uma novela curta, com muitos diálogos, à europeia. E depois acabou escrevendo mais de 300 páginas fascinantes, à inglesa. Se nunca leu, tome nota.

Não ler

A percentagem de leitores que lêem por prazer nos Estados Unidos não cessa de cair desde 2004, segundo um artigo publicado recentemente no Washington Post e assinado por Christopher Ingraham. Caiu, durante estes anos, 30%... e em todos os intervalos etários; a descida menos acentuada foi nos leitores entre os 15 e os 24 anos, mas, entre estes, muitos ainda nem criaram hábitos de leitura, andam a experimentar. Por outro lado, a queda mais significativa é entre os leitores do sexo masculino – 40% –, enquanto entre as mulheres leitoras a queda é de 29%. O problema é que as coisas estão a acontecer demasiado depressa: em 1982 eram 57% as pessoas que tinham lido pelo menos um romance, um poema, um conto ou uma peça de teatro no ano anterior, mas em 2015 já eram apenas 43%... Por toda a parte a mesma coisa, o audiovisual a ganhar ao texto, o smartphone e a Netflix a ganharem ao livro. Como já referiu um dos Extraordinários um destes dias, um artigo recente do El Pais relata que, dos livros colocados nas livrarias espanholas, cerca de 40% são devolvidos às editoras… E um dos editores entrevistados diz que de um autor menos conhecido já só imprime 1500 exemplares (o que em Portugal – que tem um mercado insignificante comparado com o espanhol e pouco exporta para a América latina – corresponderia, sei lá, a 250 exemplares?). O desânimo é grande. A ver se o curo nas férias, que se aproximam a olhos vistos, a remar contra a corrente: lendo, claro.

Último reduto?

O mundo perde leitores todos os dias para o audiovisual (conheço um jovem leitor furioso que se mudou recentemente para o Youtube e já não creio que volte aos livros; na sua última visita, não tirou os olhos do ecrã e pouco falou connosco). Contudo, num país pequeno como o nosso, também é verdade que se publicam demasiados livros por ano e que alguns deles têm efectivamente um público tão reduzido que certamente seria mais ecológico e prático editá-los apenas em versão digital (menos desperdício, enfim). Também há autores que, tendo visto os seus livros publicados em papel há muitos anos em editoras que já desapareceram ou simplesmente não os querem reeditar, gostariam de ter agora pelo menos uma versão e-book disponível para que um leitor interessado ainda pudesse aceder ao texto. Ora, a Sociedade Portuguesa de Autores tem, desde finais de Abril, uma plataforma de autopublicação para os seus associados, colocando os livros digitais numa rede de bibliotecas e livrarias onde podem ser vendidos ou alugados sem custos para os membros. Será que, com a perda acentuada de leitores, ainda vamos ter todos de recorrer a este tipo de publicação?

Literatura e gastronomia

Não é todos os dias que o acaso junta à mesma mesa dois autores que publico; mas, desta vez, uma actividade no âmbito do 42.º aniversário do Teatro Amador de Pombal chamada Praça das Letras reunirá amanhã às 18h45, numa tertúlia subordinada ao tema «Gastronomia Portuguesa», Paulo Moreiras (autor de romances históricos e de um sem-número de livros curiosos de pendor etnográfico, muitos deles sobre gastronomia, dos quais destaco Pão e Vinho) e Guida Cândido, uma especialista em História da Alimentação de quem recentemente publiquei Comer como Uma Rainha, obra que explica, entre outras coisas, o que se comia nas cortes de cinco rainhas de Portugal que abarcam cinco séculos. Os dois estarão acompanhados pela sumidade que é Fortunato da Câmara (escritor, investigador e crítico gastronómico do Expresso) e, portanto, quem gostar de comer, tem decerto muitíssimo para ouvir. Uma vez que o ano 2018 foi escolhido como o Ano Europeu do Património Cultural, a Câmara de Pombal entendeu que seria importante reflectir sobre a importância da gastronomia portuguesa como elemento fundamental do património, não esquecendo que a dieta mediterrânica foi classificada em 2013 como Património Mundial e Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas também haverá música e outros divertimentos! Os autores esperam-vos em Pombal.

Memórias

Às vezes, por ocasião de lançamentos de livros – e tentando escapar a um discurso que de algum modo atropele o do orador convidado – conto umas histórias chocantes, curiosas ou engraçadas da minha vida editorial. Um dia destes, um autor de quem já publiquei vários livros ao longo dos anos, disse-me que talvez estivesse na altura de reunir em livro essas anedotas (na maioria, é o que são) com as quais o público iria aprender qualquer coisa e seguramente divertir-se. Já antes, algumas pessoas me tinham dito que um dia devia escrever as minhas memórias. Não penso fazê-lo, pelo menos para já (na velhice, se me sentir demasiado rabugenta e zangada, ainda poderei pensar nisso); no entanto, há vários editores – esses, sim, importantes – cujas memórias podem ser realmente fascinantes. Já aqui falei de Max Perkins, por exemplo, o editor da Scribner que, além de os descobrir e publicar, aturou as bebedeiras de Hemingway, emprestou dinheiro a Fitzgerald e perdeu um tempo infinito com Thomas Woolfe, tendo sido recentemente imortalizado num filme em que o protagonista era desempenhado pelo actor Colin Firth. Mas poderia falar igualmente de Kurt Wolff, fundador em 1908 de uma editora com o seu nome, cujas memórias acabam de sair no Brasil (foi o jornalista e escritor Paulo Nogueira quem escreveu um artigo sobre o livro no Estado de S. Paulo e me chamou a atenção). Kurt é o editor de Axel Munthe (lembram-se de O Livro de San Michelle?), Kafka, Pasternak, Calvino e muitos outros. Uma das suas frases lapidares: «Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Como o compreendo.

Uma inglesa em Portugal

Imagem

Uma inglesa apaixonada por cavalos chegou a Portugal nos anos sessenta com o sonho de aprender a tourear. Determinada, aventureira e apoiada por famílias portuguesas importantes, Ginnie Dennistoun – que escolheria o nome artístico Virginia Montsol – não só venceu todas as barreiras como se tornou uma pequena celebridade no mundo fechado, elitista e masculino dos toiros, arrebatando o público com a sua elegância e beleza. Mas como se sentiria esta rapariga de vinte e poucos anos, alternando entre a Inglaterra dos Swinging Sixties, da emancipação da mulher, dos Beatles, da construção de uma sociedade mais igualitária, e o Portugal salazarista, pobre e marialva, onde as mulheres deviam ser obedientes e discretas e a sua relação com o mestre, bem mais velho do que ela, era certamente um escândalo? A Inglesa e o Marialva narra a vida de uma mulher de coragem que, contra tudo e contra todos, incluindo a própria família, venceu os constrangimentos do seu tempo. Amanhã fazemos o lançamento, apareça por lá.


 


A Inglesa e o marialva_ digital_convite.jpg


 

Sinceridade e meia

Quando se recusa um original por falta de qualidade, está-se na verdade a fazer um grande favor ao autor e aos leitores. Mas a pessoa que o escreveu, a menos que seja alguém muito especial que prefira ser poupado a um enxovalho e a críticas negativas a ter um livro publicado, não vê as coisas assim. É bem certo que custa deitar fora um manuscrito que representou provavelmente um grande investimento em tempo, emoções e às vezes investigação; mas frequentemente a recusa é mesmo a única solução... O escritor Mário Cláudio, que é muito generoso com os que vêm pedir-lhe opinião sobre os seus escritos, contou recentemente no Facebook algumas histórias maravilhosas a este respeito. Numa delas, uma senhora entregou-lhe uma “versalhada do seu punho” para uma avaliação, e o escritor foi sincero e disse-lhe que aquela poesia não tinha qualidade; ao que a madame, em lugar de encaixar o veredicto, ripostou que então iria mandar os poemas a Gunther Grass, que até sabia português, porque ele talvez gostasse. Tinha uma cunhada na Alemanha que era cabeleireira da mulher do romancista alemão e, portanto, não seria difícil lá chegar...

Ficheiros Secretos

Já tive vários computadores desde o meu velhíssimo Schneider, de 1990, com disquetes que se metiam numa ranhura no teclado e gravavam o documento. Quase sempre troquei de máquina quando apanhava um susto (até um copo de água entornei num portátil) e percebia que ela já estava mesmo a dar o berro; mas não me lembro de ter alguma vez perdido coisas demasiado importantes. Mesmo assim, gostaria de ter voltado a alguns desses discos em busca de rascunhos e coisas começadas, pois na verdade, nunca se sabe quando vem uma ideia boa para as continuar... Num velho computador de José Saramago, por exemplo, encontraram recentemente um novo Caderno de Lanzarote, o sexto e último, escrito no ano em que o escritor recebeu o Prémio Nobel da Literatura (1998). O ficheiro, na verdade, esteve sempre lá, numa pasta maior. No entanto, Pilar del Río pensava que só estavam dentro dela os cadernos publicados, até que um estudioso da obra de Saramago precisou de vasculhar os ficheiros dos cadernos (talvez para realizar buscas, que são muito mais práticas no ficheiro digital do que no exemplar em papel) e se descobriu uma pasta que tinha o número 6! Vamos poder saber o que escreveu o nosso Nobel nesse ano tão especial para ele (em que deve ter sido convidado para tudo e mais alguma coisa) no próximo mês de Outubro. O diário será lançado durante um congresso que dedicado ao escritor que assinala o vigésimo aniversário do recebimento do galardão. Imagino que, a par do contentamento, também tenha havido momentos de angústia e de um grande cansaço. Veremos.

Briony e Florence

Lembram-se certamente do filme Expiação – baseado no romance homónimo na versão portuguesa (no original, Atonement) do escritor britânico Ian McEwan. Nessa obra, a irmã mais nova da protagonista desempenhada pela belíssima Keyra Knightley – a tremenda Briony que muda para sempre o destino de duas pessoas que se amam – era a actriz Saoirse Ronan, então uma miúda de apenas 13 anos que, ainda assim, foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Secundária. Pois tem graça que esta mesma actriz, agora com uns aninhos em cima, é a protagonista de um filme recente baseado noutro romance de McEwan. Trata-se desta feita de A Praia de Chesil – e estou certa de que aqui escrevi em tempos sobre este livro excepcional que decorre nos anos 1960, antes ainda das grandes mudanças sociais (e sexuais) que acabaram por influenciar grande parte do mundo (os swinging sixties). O filme deve estar a estrear (ou já estreou) e vou tentar ir ver como o realizador, Dominic Cooke, passou para o grande ecrã uma história que está cheia de subtilezas e que tem como personagens centrais Florence e Edward, jovens recém-casados, em lua-de-mel na Praia de Chesil. Em todo o caso, mesmo que não queiram ir ver o filme, leiam o livro.

Pseudónimos

Quando era ainda universitária conheci um poeta mais velho que, ao saber pelo meu pai que eu escrevia, pediu que lhe mandasse alguns textos. A sua resposta foi gentil e estimulante (mesmo assim demorei anos a publicar) mas, entre as várias afirmações simpáticas, continha uma que não o era: dizia que o meu nome (Maria do Rosário) não era um bom nome literário – e que eu, no momento em que me decidisse a dar à estampa os meus textos, deveria escolher outro. Não foi que não quisesse seguir o conselho de alguém mais sábio; mas, como comecei a publicar pelos livros juvenis, pediram-me na editora que assinasse com o meu nome por ter sido professora e assim poder ser reconhecida pelos ex-alunos (ainda eram bastantes) – e acabei por pensar que fazia sentido. Quando publiquei o meu primeiro livro de poesia, tantos anos mais tarde, pareceu-me estranho ter dois nomes e mantive o do BI. Nunca gostei de ser Maria do Rosário, e um pseudónimo talvez me aliviasse dessa carga pesada; porém, quando olho para os Top de livros e descubro nomes como Raul Minh’Alma e Afonso Noite de Luar, começo a pensar que fiz bem... Já não haverá pseudónimos normais?

Uma questão de orgulho

Conheço José Tolentino Mendonça há muitos anos e até posso dizer que já recitámos poemas (de Cesariny, já agora) um ao outro, sentados nos degraus de uma feira de exposições na Bélgica (num intervalo entre sessões um tanto ou quanto aborrecidas) e que já tivemos um ataque de riso por causa de uma senhora que vestiu um cão a preceito para uma festa (tínhamo-lo visto nessa tarde com uma toilette mais casual, enfim). Não nos encontramos muito frequentemente, é verdade, mas sinto uma grande empatia e ternura pela pessoa que é, além de o considerar um grande poeta, um excelente tradutor, um homem muito culto, e de gostar do seu sorriso e do seu abraço. Por tudo isso – e também, vá lá, por ser patriota – enchi-me de orgulho ao ler nos jornais que esta grande figura da nossa cultura (que é também padre, vice-reitor da Universidade Católica e director do curso de Teologia) foi escolhido pelo papa Francisco para ser bibliotecário do Vaticano (do arquivo secreto e tudo, caramba!). Portanto, não podia deixar de partilhar com os Extraordinários a grande felicidade que senti e de aproveitar o blogue para felicitar o futuro arcebispo, título que vai também ser-lhe concedido. Espero que, com as tarefas que tem pela frente, ele não esqueça Portugal, a literatura e, claro, os seus fiéis amigos e leitores. Parabéns, querido Tolentino.

Assinar

Uma assinatura é uma marca de autoria, e em pintura, pelos vistos, vale dinheiro... Vi uma vez uma cena lamentável, em que um conhecido pintor português vendeu na inauguração de uma exposição um quadro original a uma pessoa que, na sequência da compra, lhe pediu que assinasse, já agora, também o catálogo. E o pintor recusou-se, alegando que a sua assinatura não era de graça... (Ainda bem que nunca gostei dos quadros desse homem.) É bem certo que há também muita gente que assina por baixo do que não escreveu mas com que concorda (petições há-as em grande número e eu já assinei várias); e eu até já me aborreci com um chefe que me pediu para responder a um questionário de um jornal mas queria ser ele a assinar as respostas, o que não permiti, ainda por cima porque nem sequer pensávamos da mesma maneira sobre aquele assunto. Também verifico com frequência, sobretudo em alguma imprensa regional, mas não só, que os textos que aparecem nas contracapas dos livros que publico (e que conheço muito bem) são reproduzidos na íntegra, sem aspas, nas páginas de crítica de livros assinadas por vários «jornalistas», ou aparecem com alterações mínimas (cortam um adjectivo, arranjam um sinónimo) numa secção chamada «As escolhas de...». Não seria, enfim, altura de se ganhar pelo que se escreve, e não pelo que se cita? Ou, pelo menos, de se indicar a fonte?

O que ando a ler

Há certos livros que, assim que lhes pomos a vista em cima, desejamos começar a ler. E, porém, às vezes a vida não nos deixa simplesmente tirá-los da estante, começá-los e levá-los por diante sem interrupções. São por isso abençoados os dias de férias, em que sabemos ter bastantes horas livres para dedicar à leitura. E, como quase sempre acontece, foi isso mesmo que fiz na semana em que saí de Lisboa, principalmente com um livro que me estava aqui atravessado e dá pelo nome de O Mundo de Ontem, publicado há uns dez anos (mas reeditado recentemente) pela Assírio & Alvim. Sou um pouco saudosista (que isto, por favor, não se confunda com qualquer apego ao regime de Salazar); e é nessa medida que um livro que conta as recordações de um tempo que se perdeu para sempre na Europa na voragem de duas guerras mundiais me suscita desde logo uma enorme curiosidade, maior ainda porque o seu autor é o grande escritor austríaco Stefan Zweig que, nascido em 1881, no seio de uma família de judeus abastados, viu ruir em pouco tempo o mundo de segurança em que fora educado, sendo obrigado a exilar-se num dos momentos mais trágicos da história europeia. Curiosamente, muito do que conta sobre a sua própria educação em Viena parece-se incrivelmente com a educação portuguesa anterior à revolução que (eu também o senti) ou estimulava para a descoberta de muito mais (ele e os colegas apaixonaram-se por tudo o que era arte e literatura por causa das aulas francamente desmotivantes que lhes eram ministradas), ou adormecia para sempre as mentes dos estudantes, tornando-os pouco reactivos, como convém de resto a quem manda... Mas isto é apenas um exemplo desse mundo de ontem, pelo que sugiro que leiam este magnífico testemunho de uma época desaparecida pela mão de uma pessoa que pensa as coisas com grande lucidez e, ainda por cima, escreve com incomparável riqueza. A tradução é de Gabriela Fragoso.