Os políticos de hoje
Sou de um tempo em que, geralmente, as pessoas que faziam política eram pessoas genuinamente interessadas em que os seus países dessem melhores condições de vida a toda a gente e pessoas cultas e com conhecimentos muito acima da média. A coisa, como sabemos, deteriorou-se, e não podemos comparar Mitterrand com Sarkozy e muito menos Roosevelt com Trump ou Mário Soares com Montenegro. Regra geral, o nível baixou por todo o mundo, os políticos de hoje lêem pouco ou nada; e, enquanto os de outros tempos tinham vergonha da sua ignorância num ou noutro aspecto, hoje os políticos não se importam de não saber nada de coisa nenhuma. Contaram-me uma história um dia destes bastante ilustrativa do que acabo de dizer. Quando pediram, julgo que na Feira do Livro, a Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, que mencionasse um dos livros da sua vida, ele respondeu Os Filhos da Droga, de Christiane F., um livro de memórias de uma toxicodependente que foi importante provavelmente na sua geração, mas está longe de um Tolstói ou de um Dostoiévsky, que eu esperaria se encontrassem entre os seus livros de cabeceira. E, tendo ido assistir à homenagem a Lobo Antunes, Raimundo ouviu a intervenção de uma sua correlegionária, que era uma das oradoras, mas saiu assim que ela acabou de falar, mostrando que o seu interesse não era pelo escritor homenageado. Também se topa bem que os políticos não lêem um livro quando todos os anos, no 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, os jornalistas lhes perguntam o que andam a ler e muitas das respostas são: «Ah, ando a reler os Maias.» Vê-se logo que desde o liceu não pegam num livro.