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Os políticos de hoje

Sou de um tempo em que, geralmente, as pessoas que faziam política eram pessoas genuinamente interessadas em que os seus países dessem melhores condições de vida a toda a gente e pessoas cultas e com conhecimentos muito acima da média. A coisa, como sabemos, deteriorou-se, e não podemos comparar Mitterrand com Sarkozy e muito menos Roosevelt com Trump ou Mário Soares com Montenegro. Regra geral, o nível baixou por todo o mundo, os políticos de hoje lêem pouco ou nada; e, enquanto os de outros tempos tinham vergonha da sua ignorância num ou noutro aspecto, hoje os políticos não se importam de não saber nada de coisa nenhuma. Contaram-me uma história um dia destes bastante ilustrativa do que acabo de dizer. Quando pediram, julgo que na Feira do Livro, a Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, que mencionasse um dos livros da sua vida, ele respondeu Os Filhos da Droga, de Christiane F., um livro de memórias de uma toxicodependente que foi importante provavelmente na sua geração, mas está longe de um Tolstói ou de um Dostoiévsky, que eu esperaria se encontrassem entre os seus livros de cabeceira. E, tendo ido assistir à homenagem a Lobo Antunes, Raimundo ouviu a intervenção de uma sua correlegionária, que era uma das oradoras, mas saiu assim que ela acabou de falar, mostrando que o seu interesse não era pelo escritor homenageado. Também se topa bem que os políticos não lêem um livro quando todos os anos, no 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, os jornalistas lhes perguntam o que andam a ler e muitas das respostas são: «Ah, ando a reler os Maias.» Vê-se logo que desde o liceu não pegam num livro.

Poetas e poesia

Reparo que, ao contrário do que acontece em muitos outros países (sobretudo no Reino Unido e nos Estados Unidos), em Portugal a poesia aparece muitas vezes na categoria de ficção. Ora, muita da poesia pode ser também ficção, é um facto, mas eu apostaria que a maioria não o é. Além disso, também há romances que não são ficções, baseando-se em histórias completamente verdadeiras. Até me lembro de As Cinzas de Ângela, que foi um êxito nos anos 1990, ser considerado não-ficção nos EUA porque se baseava na vida do autor e em Portugal ser classificado como romance. Contudo, vários jornais e revistas, ao publicarem semanalmente as listas dos títulos mais vendidos, parece que apenas separam a ficção da não-ficção, como se não houvesse mais categorias (a poesia, o teatro, a correspondência...). Também é esquisito que essas publicações nem sempre considerem os poetas escritores. Quantas vezes vejo em legendas frases do género: Fulano de tal é poeta e escritor... Ora, a escrita de poemas não faz dos autores escritores porquê? Só são escritores os ficcionistas? Mas então porque metem a poesia na categoria de ficção quando fazem aquelas listas dos melhores do ano?

Adília

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A poetisa Adília Lopes tinha (tem) uma legião de fãs cá dentro e lá fora (no Brasil, são mesmo muitos os seus admiradores). É, de facto, uma voz única no panorama da poesia em língua portuguesa, não se parecendo com nenhum dos seus confrades. E é bom saber que todos os estudiosos e apreciadores da poesia da Adília, apesar de terem perdido a pessoa, não perderam o que ela deixou, pois a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova vai acolher o espólio da escritora, criando um Centro de Documentação com o seu nome coordenado por Joana Meirim, com vista não apenas à preservação da obra, mas também à disponibilização dos seus materiais a todos os que queiram investigar e trabalhar a autora. O espólio reúne documentos, fotografias, livros e manuscritos e foi doado pelas herdeiras de Adília, permitindo-nos conhecer alguns dos seus objectos pessoais e também a sua biblioteca. A integração deste espólio na Nova, que teve o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, reforça o papel desta Universidade na valorização da poesia portuguesa contemporânea. Parabéns!

 https://www.fcsh.unl.pt/a-nova-casa-da-adilia/

 


 

 

Lembrar Persépolis

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Como provavelmente muitos dos leitores deste blogue, conheci Marjane Satrapi através de um maravilhoso romance gráfico da sua autoria chamado Persépolis. Era um livro que contava a sua vida no Irão durante a infância e a adolescêndia e os constrangimentos criados pelo regime dos aiatolas que tomou conta do país quando ela tinha apenas dez anos e que era, em tudo, diferente daquele que a sua mãe vivera. As mulheres da sua família, que eram cultas, tiveram de se reduzir à sua insignificância e pôr o véu obrigatório na cabeça; e muitas das colegas de escola de Marjane deixaram simplesmente de estudar. A parte mais “engraçada” era quando Marjane comprava discos dos seus ídolos no mercado negro, que então estavam proibidos. A obra deu lugar a um filme co-realizado  pela própria Satrapi que venceu o Prémio do Júri do Festival de Cannes em 2007 e foi candidato aos óscares. Satrapi já estava então exilada em França, onde continuou a trabalhar em cinema. Foi, de resto, em Paris que morreu no início deste mês, ao que anunciaram, de tristeza, por ter perdido há pouco o seu companheiro e nunca mais ter recuperado do desgosto. E, para a lembrar e homenagear, o seu filme Persépolis estará de volta aos cinemas portugueses a partir de dia 16, numa nova versão restaurada. Consulte a agenda e veja este filme.


 

Os Poemas de António

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Quando entrei na LeYa, há cerca de quinze anos, António Lobo Antunes ainda era uma visita regular e aparecia sempre que saía um dos seus livros para autografar exemplares para a comunicação social. Sentava-se rodeado de caixotes numa salinha com o meu colega da comunicação e, enquanto dava ao dedo com as assinaturas, parece que ia recitando poemas que sabia surpreendentemente de cor, de várias épocas e línguas e de autores variados. Era um grande leitor de poesia, género a que se atrevia de vez em quando, embora sem lhe atribuir a importância que dava à ficção de que era autor. Mas algumas dessas tentativas poéticas despretensiosas acabaram por valorizar-se em fados cantados por Kátia Guerreiro, Vitorino e outros, ou em textos cheios de humor como aquele que fala dos homens quando estão doentes. A Dom Quixote, com a ajuda da família, resolveu publicar estes poemas e versos de António Lobo Antunes para o homenagear na Feira do Livro deste ano e o pequeno volume de capa vermelhinha chamado apenas Livro de Poemas (título que consta apenas da contracapa) está aí. Se não conhece esta faceta do génio, leve e divertida, atreva-se e não se arrependerá.


 

Excerto da Quinzena

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O melhor eu. Durante séculos, este foi o conceito-chave subjacente a qualquer definição essencial de amizade: o de que o amigo é um ser virtuoso que fala à virtude que existe em nós. Como é estranho tal conceito aos filhos da cultura das terapias! Hoje não olhamos para ver, e muito menos para ratificar, o nosso melhor eu uns nos outros. Pelo contrário, é a abertura com que admitimos as nossas incapacidades emocionais – o medo, a raiva, a humilhação – que excita os laços contemporâneos da amizade. Nada nos aproxima mais do que o ponto a que encaramos abertamente a vergonha mais profunda na companhia do outro. Coleridge e Wordsworth abominavam tal exposição de si mesmo; nós adoramo-la. O que nós queremos é sentir-nos conhecidos, com verrugas e tudo; aliás, quantas mais verrugas, melhor. A grande ilusão da nossa cultura é pensar que aquilo que confessamos é o que somos.

  

Vivian Gornick , A Mulher Singular e a Cidade,

tradução de Maria de Fátima Carmo