Mensagens

Na Figueira

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Quando o escritor António Tavares (de quem recentemente publiquei o belíssimo A Arte Pendular do Baloiço, leiam-no) era autarca na Câmara da Figueira da Foz (se não me engano, vice-presidente e vereador da Cultura), eu ia lá muitas vezes com os autores que publico participar nas 5.as de Leitura, sempre numa quinta à noite, na Biblioteca Municipal. Depois veio a pandemia, e quebrou-se o ritmo; mas hoje vou voltar a assistir a este encontro sempre muito concorrido e rever bastantes caras conhecidas. A sessão tem desta feita apresentação e moderação da crítica Teresa Carvalho. A convidada especial é Carla Pais, a vencedora do Prémio LeYa 2025, que vive em França e veio a Portugal justamente para a cerimónia de entrega do galardão e apresentação do romance A Sombra das Árvores no Inverno em várias localidades: Lisboa, Leiria, Maia e... Figueira da Foz, claro. Portanto, se hoje à noite está sem programa e vive por perto, aproveite para ouvir a conversa que, tendo em conta o tema do livro, promete ser boa e sensível.


 

O que ando a ler

 É curioso, mas eu, que leio pouca literatura africana, passei a semana passada a ler dois livros moçambicanos. Um deles era trabalho (e extenso) e deixo a divulgação para quando estiver mais perto da publicação, porque é uma pedrada no charco e vale mesmo a pena que lhe prestem a atenção na altura certa. O outro (ainda não o terminei) é de um jovem chamado Eduardo Quive e foi recentemente apresentado em Lisboa pela romancista e também comentadora Ana Bárbara Pedrosa, com quem troca cartas-crónicas, entre Lisboa e Maputo, no jornal digital A Mensagem de Lisboa. O romance começa com uma tentativa de suicídio, mas não se assustem, porque o choque é sobretudo perceber como quem salta da janela fica vivo e como quem assiste e sabe o que aconteceu fica culpado por não ter evitado o pulo: o narrador, Eurípedes, que está a contar-nos a história ao mesmo tempo que a narra à sua terapeuta; e a irmã mais velha, Anchia, a artista muito aplaudida, que padece de uma condição rara, é albina, o que levou o pai a abandonar a mãe assim que ela nasceu. A prosa de Quive neste A Cor da Tua Sombra é mesmo bonita e há alguns segredos latentes que estou a ver se descubro ao passar das páginas e se relacionam com Anchia e Sheila, a rapariga que queria morrer; mas fico contente que Moçambique se me mostre literariamente duas vezes na mesma semana, porque tenho de me pôr em dia com a literatura desta terra. Parabéns a este autor ainda jovem que promete! 

O Riso Dissonante

  A caricatura é uma arte muito mais importante do que possa parecer; e, como sabemos, os que a praticam não são pessoas com jeito para desenho, mas gente culta e inteligente que usa o humor para pôr o dedo na ferida e que até correm risco de vida, como se viu pelos atentados terroristas em França sobre a revista Charlie. Ora, na Casa da Achada, criada para celebrar a obra a e a figura de Mário Dionísio, decorre actualmente um ciclo e uma exposição dedicados à caricatura social em artistas como Alfonso Castelao e Jean Bruller (Vercors), cujos curadores são João Rodrigues, Osvaldo Macedo de Sousa e José Smith Vargas e que inclui uma série de conversas que só podem ser interessantes, dados os nomes dos seus intervenientes, entre os quais André Carrilho, António Jorge Gonçalves, Cristina Sampaio, Fernando Rosas, Irene Pimentel, Luís Afonso, Nuno Saraiva, Pedro Piedade Marques e Sara Figueiredo Costa. Vale a pena ir lá dar uma espreitadela às obras expostas e, já amanhã, pelas 15h00, ouvir o debate sob o título «O humor face à guerra, à violência e à opressão», que se debruçará na importância do cartoon e da caricatura para acordar consciências (estamos mesmo a precisar disso!). Mas consultem o programa, pois o ciclo estará activo até finais de Setembro e há conversas a não perder todos os meses. 

Feira do Livro

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Ontem abriu a Feira do Livro de Lisboa, um acontecimento que leva milhares de pessoas ao Parque Eduardo VII, umas para comprar livros, outras a passeio, com crianças e animais de estimação (muitos). Este ano a feira tem mais de 350 pavilhões de 900 chancelas participantes, muitas delas agrupadas em praças, como é o caso da LeYa, da Presença, da Porto, da Penguin... O espaço dos pequenos editores foi renovado e, portanto, também aí se esperam melhorias. Vai haver cinema ao sábado à noite (enquanto uns calcorreiam os pavilhões, os que não apreciam esta «peregrinação» podem ver filmes) e continuam as experiências para crianças dos 8 aos 10 de acampar no parque com histórias, passando lá a noite com a supervisão de adultos. Às sextas haverá também música ao vivo. Uma novidade é o apoio da Lusíadas Saúde (quando faz mesmo calor, os que desmaiam facilmente já têm quem os «refresque», porque vai haver posto médico) e outra é o empréstimo de carrinhos de bebé (sim, porque subir a feira com crianças pequenas pela mão ou ao colo é tudo menos fácil). E o resto são... livros!!! Que bom, lá vai a conta bancária descer, mas é por uma boa causa. No dia 30, no auditório da Praça LeYa, vamos entregar a Carla Pais o Prémio LeYa pelas 18h30, e será apresentado o romance vencedor, A Sombra das Árvores no Inverno, pelo escritor João Pinto Coelho. Se quiser assistir, está convidado.


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Em Berlim

Já viajei por várias partes do mundo, mas, sei lá porquê, embora tenha ido à Alemanha mais de vinte vezes (a Feira do Livro de Frankfurt era obrigatória no tempo em que eu fazia sobretudo livros estrangeiros), nunca visitei Berlim. Se fosse romancista, candidatava-me a uma residência literária nessa cidade, a 11.ª destinada a autores portugueses com obra publicada, promovida pela Embaixada de Portugal e pelo Centro Cultural Português do Instituto Camões em Berlim desde o tempo em que Ana Patrícia Severino, que replicou a residência também em Madrid, era responsável cultural na Embaixada e fundou a iniciativa.  Em edições anteriores, muitos autores contemporâneos beneficiaram desta bolsa, como Patrícia Portela (2016), Rui Cardoso Martins (2017), Isabela Figueiredo (2018), Miguel Cardoso (2019), Afonso Cruz (2020), Judite Canha Fernandes (2021), Claudia Galhós (2022), Jacinto Lucas Pires (2023), Francisco Sousa Lobo (2024) e Margarida Vale de Gato (2025). Se está interessado, não se atrase, pois as candidaturas fecham a 14 de Junho. O endereço é: botschaftbolsa@gmail.com. Boa sorte!

O principal e o acessório

No mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Meu Primeiro Apocalipse, cujo enredo decorre cerca de 2066 (não é um futuro tão longínquo como possa parecer), os céus já têm mais drones do que pássaros, e duas mulheres – uma delas curiosamente jornalista e escritora – querem resgatar a importância da leitura para tentar salvar o mundo. Penso que o assunto, sobretudo tratado por um jornalista, um homem que lida com informação e deve saber de notícias falsas e manipuladas como poucos, deveria ter gerado mais interesse dos nossos jornais, até porque se sabe que o QI tem vindo a baixar desde o princípio do século e que a culpa é sobretudo da falta de linguagem e consequente incapacidade de construir ideias e argumentos, resultado, claro, da falta de leitura. Mas não. Infelizmente, em vez de pegarem nesta questão, que foi falada num debate durante a feira do livro de Évora, por ocasião do Comboio Literário, os blogues, revistas e jornais referem a resposta do escritor à pergunta sobre o que o levou a estudar jornalismo em Lisboa. E porque terá sido? Bem, porque foi um desgosto de amor que fez Rodrigo Guedes de Carvalho abandonar o Porto natal e vir para a Universidade Nova de Lisboa. Caramba, pensei que os nossos meios de comunicação fossem um nadinha mais crescidos... Eu, que recebo os recortes de imprensa das Publicações Dom Quixote, estou sempre a ler sobre o coração partido de Rodrigo Guedes de Carvalho há décadas. Se essa ninharia levar as pessoas a ler o livro, tudo bem, mas duvido. Leiam-no os que se preocupam com o descréscimo do nível das leituras.

Cronicar

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A crónica é um género maior, e a Associação Portuguesa de Escritores tem até um prémio que lhe é muito justamente dedicado. Entre autores vivos, temos cronistas de excelência, como Luísa Costa Gomes e Dulce Maria Cardoso, por exemplo, mas basta abrir os jornais actuais para vermos como são bons cronistas José Tolentino de Mendonça, António Araújo, Ana Bárbara Pedrosa, Pedro Mexia ou Ricardo Araújo Pereira. Luísa Sobral, depois da sua fulgurante estreia literária com Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, um romance que vai na 15.ª edição, atreveu-se às crónicas num livro mesmo bonito que ilustrou com aguarelas suas (incluindo a da capa). Se se quer rir com a aselhice da autora para armar uma tenda no jardim para os filhos ou indignar-se com a desfaçatez com que um médico faz perguntas inconvenientes, Da Minha Janela (assim se chama a obra) chamá-lo-á a ver uma paisagem que podia ser também a sua, porque é impossível não nos identificarmos com estes belos textos que escrevem o dia-a-dia contemporâneo de Luísa Sobral e, afinal, o de todos nós.


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A Adolescência

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Na Praceta das Tílias, ninguém sabe o que acontece na porta ao lado. É entre paredes de betão que nasce esta história. Esmeralda esforça-se por dar à filha o que não teve. E Teresa parece ter tudo para ser uma adolescente feliz. Porém, uma descoberta perturbadora estilhaça a harmonia familiar e põe à prova os laços entre mãe e filha. Ao contrário da sua amiga Teresa, Ana Lurdes cresce desamparada numa casa onde o amor não entra, refugiando-se nos poemas que escrevinha nas aulas. Já Sebastião, que guia um táxi pela cidade, anda desnorteado; quem o segura é Olívia, a filha sempre atenta ao que a rodeia – sobretudo quando observa Teresa da janela do seu quarto e desenha o que mais ninguém vê. E Lúcia julga que tem tudo controlado, até ao dia em que sofre um ataque violento; mas, quando volta à casa da infância para se restabelecer, percebe que o maior perigo, afinal, vem de onde menos esperava. A turbulência que abala todas estas personagens levanta o pó do que está para trás, deixando a descoberto cicatrizes e segredos. E, quando tudo falha, até os vínculos mais fortes se podem romper. Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno – o quarto romance de Susana Piedade, já duas vezes finalista do Prémio LeYa – é uma obra notável pela sua contenção ao falar de temas extremamente difíceis com extraordinária elegância. Surpreende até à última página e oferece-nos um bom retrato da juventude contemporânea.


Publicação II Uma Porta de Vidro entre o Céu

Três futuros

A saudosa poeta Ana Luísa Amaral tem um livro muito bonito chamado What's in a Name, e a Alice de Lewis Carroll pergunta a dado momento no País das Maravilhas se um nome tem de significar alguma coisa. No livro Os Nomes, de Florence Knapp, os nomes são o motor para três vidas diferentes da mesma personagem, um rapaz que nasce nove anos depois da irmã e que é filho de uma mãe vítima de violência doméstica que o pai trata de forma tenebrosa, um pai médico que os doentes adoram e de quem nunca ninguém desconfiaria. O romance começa com a ida de Cora, a agredida, com o filho na cadeirinha e a irmã pela mão, ao Cartório para registar o nome do filho. A pequena Maia gostaria que o maninho se chamasse Bear, a mãe preferia que fosse Julian (que quer dizer «Pai do Céu») e o agressor não põe outra hipótese senão que o filho varão tenha o seu nome, Gordon. Ora, será como Bear, Julian e Gordon que vamos assistir a três futuros distintos deste bebé, aos seus estudos e brincadeiras, às suas paixões e romances, aos seus medos e tragédias, às suas escavações e criações artísticas, sempre com um background semelhante na casa da família e sempre esperando que um destes rapazes acabe por salvar a mãe, a quem o pai conseguiu retirar o poder paternal alegando que a mulher tem distúrbios mentais (os médicos podem muita coisa) e que mantém fechada há séculos em casa. Vale a pena ler, sobretudo como exercício literário. 


 


P. S. Para quem se interesse pela escrita de canções, hoje ao fim da tarde vou estar com o João Gobern a falar da minha actividade como letrista em Coimbra, na Casa da Escrita. Apareçam.

Os 100+

O jornal britânico The Guardian publicou uma lista dos 100 melhores livros de ficção (romances, sobretudo) publicados desde sempre em língua inglesa, mas por autores de qualquer país (sim, estão lá Pedro Páramo ou Cem Anos de Solidão, mas quase não há livros franceses, por exemplo, e o Memorial do Convento não consta). É uma lista feita por escritores e críticos de todo o mundo. O jornal pediu a 172 autores, críticos e académicos que apontassem os seus 10 romances de eleição e os pusessem por ordem de preferência; depois, atribuiu uma pontuação a cada título, consoante o número de vezes em que tinham sido escolhidos, assim achando os 100 mais votados. Penso que estes votantes devem rondar a minha idade, pois eu, surpreendentemente, quando vi a primeira metade da lista (dos 41 aos 100) percebi que tinha lido muitos dos títulos e fiquei aliviada (quanto mais livros lemos, mais ignorantes nos sentimos). No dia seguinte, saíram os romances mais votados (do 1 ao 40) e também eram, na generalidade, conhecidos (nem todos lidos, lamento), embora aqui já houvesse um ou outro título para mim desconhecido (The Prime of Miss Jean Brody, de Muriel Spark, ou Their Eyes Were Watching God, de Zora Neale Hurston). Claro que a lista é muito discutível, porque cá para mim faltam muitos autores notáveis; mas, como não sei se estão traduzidos em inglês (no Reino Unido só cerca de 3% dos livros publicados são traduções), pode ser essa a razão de tão estranha omissão. Também se vê que os britânicos gostam sobretudo de autores britânicos (a senhora Virginia Woolf nunca falha e tem mais de um título seu no rol), mas vale a pena consultar a lista e cada um fazer a sua própria análise. Deixo-a aqui. Divirtam-se.


 


https://www.theguardian.com/books/ng-interactive/2026/may/12/the-100-best-novels-of-all-time?CMP=fb_gu&utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwY2xjawRy0ltleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBPWmtCbld5VXlHc2MwTEJKc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHigZemUjMGaaWJhQYIELEgjtzbbtewOCUVFWbI7l8690UwriFTbPJsUSr8Tc_aem_mNBNXgpmSJxb0MuC538wLg#Echobox=1778652585