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A mostrar mensagens de janeiro, 2016

Cento e dezassete

Terry Pratchett, que morreu no ano passado (creio que tinha Alzheimer), foi um ídolo de muitos jovens no Reino Unido e em muitos outros países devido à criação de uma série de livros de ficção científica de grande sucesso – Discworld. Nunca li a série, por não ser uma grande apreciadora do género, mas espreitei um dos volumes que se publicaram numa editora em que trabalhei e recordo a grande tartaruga sobre a qual se deslocava o planeta. Ao que parece, Pratchett tinha uma imaginação prodigiosa que os seus leitores não esqueceram. E recentemente, por ter sido descoberto mais um elemento químico (o 117), a adicionar em breve à Tabela Periódica, os fãs propuseram que o seu nome fosse “Octarina” em homenagem a Pratchett, sendo esta “Octarina” a sombra de Disworld que é apenas vista por feiticeiros e gatos e que é também uma espécie de cor da magia (Colour of Magic é, de resto, o subtítulo de um dos volumes da colecção). Criaram uma petição e esta conseguiu 112.000 assinaturas só em dois dias... Os químicos acharam, aliás, graça; e muitos deles não se opõem à escolha do nome, justificando a sua concordância com o facto de Terry Pratchett ter feito um trabalho incrível para despertar o interesse pela ciência entre os jovens. Uma bela homenagem póstuma.

David Bowie leitor

No dia em que se soube da morte de David Bowie – completamente inesperada, uma vez que acabara de gravar um CD e escondera muito bem o segredo da sua doença, fosse ela qual fosse – os jornais, as redes sociais, o espaço dos nossos ecrãs de computador, enfim, todas as linhas em que pudéssemos pousar os olhos, encheram-se de lamentos, de espanto, de luto, de elogio, parecendo que o mundo parara para dar, e chorar, aquela notícia. Para quem não fosse apreciador do Camaleão, seguramente um fartote – eu, que até fui ouvi-lo ao Estádio de Alvalade nos anos 1990, estava quase a pedir que parassem com aquilo. Porém, no dia seguinte, ainda houve muito Bowie em todo o lado, e um jornal resolveu publicar uma lista dos 100 livros preferidos do músico que, pelos vistos, era um leitor voraz e lia praticamente um livro por dia. Há de tudo (em cem livros, é natural) e os temas são muito variados, fazendo crer que o artista se interessava por distintas áreas do conhecimento e lia todos os géneros – teatro, poesia, literatura de viagens, autobiografias, ficção, ensaio (e livros sobre música, evidentemente, incluindo um de John Cage) . Passando os olhos pelos romances, reparo que Bowie gostava de O Leopardo e de Lolita, de Pela Estrada Fora e de A Laranja Mecânica (faz sentido), de um dos primeiros McEwan (Entre os Lençóis) e de Don DeLillo. Mas a lista é extensa e vale a pena ser apreciada na totalidade. Deixo-vos, pois, o link.


 


http://www.telegraph.co.uk/culture/music/music-news/10347410/David-Bowie-reveals-his-favourite-100-books.html

O Nobel que nunca foi

Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto. Porém – e apesar de a Academia manter em segredo os finalistas em cada ano –, soube-se recentemente (ao fim de cinquenta anos os ficheiros deixam de ser secretos) que o autor português mais indicado para o Nobel terá sido Miguel Torga. Indicado várias vezes entre 1959 e 1962, parece que chegou à final no ano de 1965 – em que o galardão foi entregue a Mikahil Sholokov –, proposto por um professor universitário de Upsala; nesse ano, a acta da Academia refere outros escritores nomeados, como Yourcenar e Borges, Nabokov e Somerset Maugham, Auden e Moravia (como poderia o nosso homem ganhar, digam-me!). Consta da biografia de Torga uma nova nomeação em 1978 (confirmaremos em 2028 se chegou à final), ano em que comemorava 50 anos de carreira literária. Nunca ganhou, como sabemos, e também não viu ganhar Saramago em 1998 por ter morrido três anos antes com a bela idade de 87 anos (pelo menos, não sofreu de inveja). Mas, nem que seja pela quantidade de vezes em que o seu nome foi ventilado, vale a pena voltarmos aos seus escritos.

Elizabeth Taylor e os gémeos

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Quiçá por deformação profissional, sempre que leio romances brasileiros contemporâneos, sinto que ficam aquém dos escritos pelos escritores portugueses da mesma idade e importância. E, porém, apaixonei-me por Do Fundo do Poço Se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron, que estará nas livrarias esta semana e toca a mesma questão tratada num filme que está a ter muito boa crítica: A Rapariga Dinamarquesa. Depois da morte da mãe – perseguida e torturada pela ditadura militar –, os gémeos idênticos William e Wilson são criados numa redoma pelo pai, actor e encenador num teatro decadente. As semelhanças entre os irmãos são, porém, apenas físicas: enquanto William é bruto, acomodado e taciturno, Wilson é sensível, carente e obcecado pela figura de Cleópatra desempenhada por Elizabeth Taylor. No dia em que os jovens fazem dezoito anos e podem, finalmente, deixar a casa paterna, uma misteriosa tragédia abate-se, porém, sobre toda a família. Numa trama surpreendente que envolve amnésia, dança do ventre, comércio sexual e assassinatos, William receberá vinte anos mais tarde, da cidade do Cairo, um postal de Wilson. E não precisa de muito para saber que se trata de um pedido de socorro… Com um estilo ao mesmo tempo cómico e violento, poético e digno da melhor pulp-fiction, Do Fundo do Poço Se Vê a Lua é uma história admirável sobre como o amor fraternal resiste ao tempo, às diferenças e à ameaça constante da morte.


 


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Editora ou autora?

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Quando me convidam para festivais, congressos sobre a língua portuguesa, debates a propósito de livros e edição, etc., tenho sempre o cuidado de perguntar em que qualidade me querem lá: se como editora, se como autora. Às vezes, querem tudo ao mesmo tempo (dá jeito uma pessoa que veja os dois lados da questão e poupa-se um quarto de hotel, se for o caso), mas, quando a poesia é o cerne da coisa, o mais provável é pedirem-me que leia poemas e fale do acto da criação. Hoje, embora vá estar presente também como poeta, parece que me vão interpelar sobre os jovens autores que publiquei e publico e a minha teimosia em tirar livros das gavetas dos escritores numa tentativa de mostrar ao público nova literatura. A sessão vai acontecer na Livraria Bulhosa do Centro Comercial das Amoreiras, que celebrou recentemente o seu 30.º aniversário e tem um clube de leitura ao qual já foram, ainda por cima, alguns dos autores de quem tenciono falar. A moderação será feita por Olga Marques e a entrada é livre. Por isso, se tiver curiosidade, apareça por lá pelas 18h30.


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Bocage

Disse-me há uns anos um amigo poeta que visita frequentemente escolas e dá a conhecer aos jovens vários poetas portugueses de todos os tempos que os alunos de agora já não acham graça a Bocage. Achei estranho. Lembro-me de a minha avó nos contar histórias divertidíssimas do senhor Manuel Maria, anedotas e tiradas de génio cheias de humor (algumas bem escatológicas), e de, enquanto aluna, me ter também deliciado com muitos sonetos de Bocage. Um dia destes, reparei que se celebraram em 2015 os 250 anos do nascimento desta figura singular do iluminismo português, na qual, segundo um dos organizadores da campanha Bocage Reconhecido, que se realizou no final do ano passado, quase todo o povo português se revê. Não dei por grande barulho à volta da efeméride (mesmo que o grosso dos festejos possa ter sido em Setúbal, donde Elmano Sadino, o nosso Bocage, era natural). Se calhar, porém, o meu amigo poeta tem razão e, em tempos mais escuros, como os que vivemos, não se valoriza a sátira... Eu cá vou ali ler uns sonetos e volto amanhã. E não é só para ir contra a corrente, mas porque, juro, vale mesmo a pena.

Inacabados

Um dia destes falei aqui de autores que perdem os ficheiros dos livros que estão a escrever. Como se viu pelos comentários, alguns deles conseguem, mesmo assim, reescrevê-los e publicá-los mais tarde, outros não. Hoje falo de livros que os autores não conseguiram terminar, a maior parte deles por razões óbvias – ou seja, a morte atravessou-se-lhes no caminho. Mas, se pensavam que estes livros nunca seriam publicados (por não terem fim), pois digo-vos que muitos o foram, ou tal como estavam, ou – o que é mais estranho – terminados (ou editados) por outros. De qualquer modo, há obras-primas mesmo entre romances inacabados, como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que é sempre citado como o melhor que o autor escreveu e um dos melhores da língua portuguesa (imaginem só se o tivesse acabado). Socorrendo-me de um artigo do Observador, avanço mais uns quantos: Amerika e O Desaparecido, ambos de Frank Kafka; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago; Answered Prayers, de Truman Capote; Billy Bud, o Marinheiro, de Melville; Bouvard e Pécuchet, de Flaubert (não sabia que não tinha sido terminado, e não dei por isso); O Primeiro Homem, de Camus – e muitos, muitos outros de vários autores como Jane Austen, Charles Dickens ou Scott Fitzgerald. O mais curioso é que, mesmo sem terem sido concluídos, muitos deles são extraordinários, melhores do que muita ficção acabadíssima que há por aí.

Policial real

Eu cá acho que uma história ligada ao desaparecimento de editores e livreiros numa determinada cidade daria um bom policial, mesmo que não consiga dizer assim de repente quem poderia ser o responsável por essa «evaporação» (dependeria da cidade, claro). No entanto, a história não é nenhum enredo de um autor imaginativo , mas um facto infelizmente bem real. Uma editora de Hong Kong – até há pouco tempo um dos lugares mais «livres» e «a salvo» na China – especializou-se na publicação de livros provocadores sobre algumas figuras gradas de Pequim, denunciando, por exemplo, os gastos das elites no poder. E, como numa história policial, os seus donos e funcionários têm vindo a desaparecer de forma misteriosa. O primeiro – co-proprietário da editora – levantou a suspeita de que a sua ausência não fora voluntária ao deixar na mesa da cozinha uma caixinha com os remédios que tomava diariamente, já separados por refeições, e ao comprar nesse dia alimentos perecíveis, o que não faria sentido se fosse de viagem. A suspeita foi confirmada quando, depois dele, sumiram outros três responsáveis da editora em seis dias apenas, qualquer deles supostamente durante uma viagem à China continental. Entretanto, as famílias receberam telefonemas estranhos dos desaparecidos, que lhes explicaram, em termos muito vagos, que estão a ajudar numa investigação em Shenzhen; mas, como um deles falou mandarim em vez de cantonês, o que não é habitual, a mulher percebeu ser um sinal de que havia coisa, sobretudo porque o passe que permitiria ao marido viajar de Hong Kong para Shenzhen ficara lá em casa. Pois bem, em Hong Kong já perceberam o que aconteceu e milhares de pessoas manifestaram-se para pedir a libertação dos editores. Não está de fora a possibilidade de um conflito envolvendo mais países, até porque um dos desaparecidos é cidadão sueco e outro tem passaporte britânico. Veremos o que acontece. Parece de filme.

Emoções e palavras

Leio uma entrevista bastante curiosa com a historiadora cultural Tiffany Watt Smith, autora de uma obra que quero ler: The Book of Human Emotions. Embora haja grandes dissensões a respeito da forma de definir as emoções, há, pelos vistos, também dois pontos consensuais: a de que uma emoção (tédio, raiva, angústia, etc.) é uma coisa puramente individual, mas a de que, por outro lado, as emoções são experimentadas colectivamente, partilhadas com os outros e, além disso, vividas de forma diferente se estivermos em Portugal (onde «saudade» é, segundo muitos, palavra intraduzível) ou na Coreia (onde «han» é um estado que representa tristeza e esperança simultaneamente, sem expressão noutras línguas). Mas os tempos também definem as emoções: no século XVIII ainda se morria de nostalgia (repare que «algia» quer dizer «dor»): as pessoas sentiam tanta saudade de casa que, além da melancolia, tinham febres, não eram capazes de comer e acabavam por definhar e morrer; há cem anos, porém, que nenhuma certidão de óbito regista esta causa de morte, talvez porque viajar (ir e voltar) se tornou muito mais fácil e, com telefone e computador à mão, podemos contactar aqueles que nos fazem falta. Nos dias de hoje, a obsessão com a felicidade, diz Tiffany Watt Smith, é quase a mesma que existia no século XVI com a tristeza que, na Renascença – pasme-se! –, chegou a estar associada ao génio e era talvez por isso procurada por muitos. Diz ainda a historiadora que ter palavras para o que sentimos é meio caminho andado para entendermos e resolvermos certas emoções – e dá o exemplo do jovem termo «homefulness» que quer dizer qualquer coisa como «virar a esquina e saber que se está perto de casa», ou seja, um misto de alívio e sentimento de pertença. Coisas interessantes que é bom saber.

Anna e os amigos

Há muitos anos, publiquei um relato fascinante sobre um encontro que a poetisa Anna Akhmátova teve em Leninegrado com Isaiah Berlin ao longo de uma única noite (entendam, não foi nada de cama) e que mudaria para sempre a vida dos dois (a obra chamava-se O Convidado do Futuro, e escrevera-o Gyorgy Dalos). Estava-se em pleno estalinismo, e as consequências foram terríveis para ambos: o britânico, funcionário dos Negócios Estrangeiros, foi acusado pelo regime soviético de ser um espião, e a poetisa dizia que era bem capaz de ter sido essa conversa entre os dois a começar a Guerra Fria (um exagero bastante interessante, mas lá que ela sofreu na pele, sofreu). Anna dedicou, de resto, alguns poemas a Isaiah, nomeadamente o «Poema sem Herói», e Berlin nunca esqueceu as palavras da belíssima poetisa para quem a vida na URSS se tornara um autêntico pesadelo. Não conhecia este episódio antes de descobrir o livro de Dalos e também ignorava que Anna tivesse tido outra relação muito especial na sua vida, desta feita com o pintor Amedeo Modigliani, que a conhecera em Paris quando ela e marido estavam a gozar ali a sua lua-de-mel. Os desenhos de Modigliani de Anna Akhmátova estão, porém, expostos até finais de Junho em Londres, na Estorick Collection, para quem os possa ir ver. O livro sobre aquela noite mágica e trágica com o britânico já não está, infelizmente, à venda.

Um par improvável

Hum… A combinação dos dois nomes seguintes parece impensável: Patti Smith e Murakami; pelo menos para mim, não têm nada em comum – e nunca esperaria vê-los juntos… Porém, o destino às vezes tem destas coisas e põe duas pessoas aparentemente opostas no mesmo caminho. Foi realmente o que aconteceu a este par quando Patti Smith anunciou o seu espectáculo sobre a poesia de Allen Ginsberg (já leram O Uivo? Têm de ler) em Tóquio. Pois bem, a cantora tem um show intitulado «O Poeta Fala», que é uma homenagem ao mais famoso poeta da beat generation e no qual canta os seus poemas, acompanhada ao piano pelo enorme Philip Glass. Mas os japoneses precisavam de uma tradução dos textos de Ginsberg para projectarem no ecrã enquanto a diva cantasse, como nós fazemos por cá com as óperas alemãs. Então, apareceu a ideia de ser Murakami a fazer a tradução em colaboração com o ensaísta e tradutor Motoyuki Shibata, considerado o mais importante tradutor da literatura norte-americana contemporânea para japonês. Mas atenção, Murakami não é novato na arte da tradução: apesar de ser conhecido como escritor, foi o tradutor para japonês de Carver, Fitzgerald e Salinger. Poesia é poesia, claro, mas admito que, em japonês, faça uma boa tradução.

Duplicidade

O escritor irlandês John Banville ganhou o prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias e esteve recentemente em Espanha para o lançamento do seu último romance, tendo sido entrevistado pelo El Pais. Falei dele aqui no blogue não há muito tempo por escrever romances literários com o seu nome e policiais com um pseudónimo (Benjamin Black), mas não sabia que a sua vida era dupla noutros sentidos. Pois bem, na entrevista ao El Pais, Banville revela que tem duas mulheres, uma com quem se casou há mais de quarenta anos e com quem vive metade da semana, outra que é sua companheira há mais de vinte e com quem vive o resto do tempo. Tem dois filhos de cada uma, os dois primeiros já nos quarentas, os mais novos com vinte e seis e dezanove. Ama ambas as mulheres e não parece ver necessidade de prescindir de qualquer delas. Elas não se conhecem – nem querem conhecer-se, ao que parece… Quanto à pergunta sobre o que distingue a literatura inglesa da irlandesa, Banville diz que é a língua; mesmo que muitos escritores irlandeses não escrevam nem falem já gaélico, a verdade é que a gramática está interiorizada, e o irlandês é uma língua muito mais poética, na qual não existe, por exemplo, a palavra «não» (mas apenas, citando Banville, «it is not so»), o que torna a literatura irlandesa também mais ambígua; Banville diz que os ingleses – que gostam de ser claros e directos – não pescam nada dessa ambiguidade e acham que os irlandeses escrevem assim porque não os conseguem imitar… A respeito da Europa, o romancista diz que a crise a destruiu, mas que, ao contrário de muita gente, ele não se importa de que seja governada por burocratas, gente que trabalha das 9 às 5 e vai depois para casa comer, ver um filme ou ler um livro. Cito-o: «Sempre que alguém tem uma grande ideia, quer matar judeus, ou muçulmanos. Essa é que é a gente perigosa. Os burocratas são os que melhor governam, e a Europa estava perfeitamente burocratizada. Os burocratas não fazem guerras, é a gente com grandes ideias que faz as guerras.»

Votar? Não.

Recentemente, o Diário de Notícias foi medir o pulso à juventude e inquirir alguns dos que votariam pela primeira vez nas próximas eleições presidenciais sobre as suas opções, esperanças e opiniões. Digo «votariam», e não «votarão», porque o desinteresse patente nas respostas é tão gritante que a maioria dos inquiridos não conhece sequer os candidatos (incluindo o Professor Marcelo, que aparece na televisão há anos em horário nobre pelo menos uma vez por semana; o melhor que o jornalista conseguiu dos jovens foi «Já ouvi falar.» ou «Sei quem é, mas não sabia que era candidato»). Dois estudantes da Faculdade de Medicina do Porto (um transmontano e uma açoreana) dizem que estudam Anatomia dez horas por dia, não vêem televisão há séculos e a política não lhes interessa, pelo que não fazem tenções de ir às cidades onde estão recenseados só para votar. Mas não se pense que é a exigência dos exames que se aproximam que os afastou de poder/dever participar nos destinos da nação; dizem estes e outros entrevistados que não têm nada que ver com política, não percebem patavina do assunto e até é bom não irem votar, porque podiam fazer asneira, dada a sua falta de consciência política. À pergunta se é de esquerda ou de direita, uma rapariga de 21 anos que estuda na Faculdade de Letras afirma ser de direita «por uma questão familiar» (hereditariedade?), mas que não fala de política com os amigos nem sabe o que eles são. Safa-se uma estudante de Psicologia, que se diz de esquerda e louva o aparecimento de candidaturas de mulheres. É a única do grupo que vai às urnas. A abstenção louca a que temos assistido – e que vai sempre aumentando – tem seguramente aqui parte da sua explicação. Será que daqui a uns anos valerá a pena imprimir boletins de voto? Francamente, não sei. Terá a juventude de sofrer na pele para perceber que a política lhe diz respeito? Espero que não.

A morte das bibliotecas privadas

Pacheco Pereira é um grande leitor e escreveu um artigo notável sobre a forma como hoje se lê (como se lê menos, mesmo que haja mais gente a ler) e a anunciada morte das bibliotecas privadas. Há quarenta anos, quem gostava de ler acumulava livros nas estantes, muitos livros a que voltava vezes sem conta – e as gerações actuais não sabem o que fazer com as bibliotecas de seus pais e avós quando estes morrem. Não há espaço para elas nos novos apartamentos, quase sempre mais pequenos; mas, segundo o articulista, mesmo que houvesse, elas não deixariam de ser, em muitos casos, bibliotecas mortas, porque, para estar viva, uma biblioteca tem de ser alimentada regularmente com livros novos, e esta regularidade nem sempre acontece com os leitores mais jovens. O facto de as suas casas não terem muitos livros nas estantes (ou não terem estantes sequer) não pode, porém, como diz Pacheco Pereira, ser explicado apenas por uma troca de suportes – do papel para o digital – mesmo que hoje se leia quase tudo de borla na Internet e haja muita gente a ler livros em tablets. A verdade é que, ainda que, em virtude da democratização do ensino, haja mais gente a ler, isso não significa que leia com o mesmo «grau qualitativo», nem com a mesma necessidade quotidiana que tinham os leitores antigos, que podiam gastar duas horas por dia a ler, sentados na sala, autores como Faulkner ou Balzac, enquanto os actuais, nessas duas horas de leitura, estarão simultaneamente a ver os e-mails que recebem, a ouvir música, a consultar o YouTube, a mandar mensagens (e por isso não estarão a ler com a mesma atenção dos pais e avós, ou seja, não estarão a reter do livro o que aqueles retiveram). Uma excelente análise de um homem que gosta das novas tecnologias, mas não se deixa deslumbrar por elas.

Ajudar

Por cá, os escritores ganham mal… Não que os seus direitos de autor sejam mais baixos do que em outros países do mundo (na verdade, até recebem por vezes mais do que pagamos aos autores e editoras estrangeiras em termos de percentagem); mas Portugal é um país pequeno, o mercado é diminuto e, se os livros não são traduzidos, os autores nunca saem da cepa torta, como diria a minha avó (além de que raramente recebem adiantamentos chorudos, como nos EUA ou no Reino Unido). Por isso, não podemos pedir-lhes milagres. Porém, em Inglaterra, depois das terríveis cheias que causaram danos profundos em muitas zonas, os escritores arregaçaram as mangas e doaram quantias avultadas para a recuperação de livrarias que frequentavam e onde lançavam livros seus e que há trinta anos tinham livreiros fantásticos à frente. Além disso, arrebanharam colegas para autografarem dezenas de exemplares que depois foram vendidos em leilões para angariar fundos, bem como primeiras edições valiosas destinadas a coleccionadores. Um editor pediu até aos seus autores que oferecessem exemplares dos seus livros para repor o stock danificado de uma determinada livraria altamente prejudicada, e eles corresponderam. Claro que ser escritor em Inglaterra é outra coisa, mas é bonito ver estes gestos com quem vende livros.

Celebrar os criadores

Pouco depois de conhecida a desgraça que foi o incêndio no Museu da Língua Portuguesa de São Paulo (onde até morreu uma pessoa), chega-me uma boa notícia da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA): a ideia da criação de um Museu do Autor Português que celebre, no fundo, os nossos criadores em várias áreas e esteja aberto ao público. Parece que as conversações vão já adiantadas entre a presidência da SPA e a Câmara Municipal de Lisboa – o seu presidente e a vereadora da Cultura – para que possa ser pensado na capital um espaço que passe a albergar documentos, obras de arte e muitos, muitos, objectos relacionados, afinal, com a vida dos autores – que podem ser músicos, pintores, escritores, fotógrafos, não importa, terão certamente peças fundamentais para partilhar com os visitantes. Além de uma sala de exposições (que poderão ser temporárias ou permanentes), a SPA crê fundamental a criação em tal museu de um centro de documentação e de uma biblioteca, e eu não posso senão concordar. O facto de a gestão ser conjunta – da SPA e do município – também é novidade. Não vai ser talvez nos tempos mais próximos que vamos ver a coisa de pé, mas a circunstância de divulgarem o projecto é já meio caminho andado para acreditarmos que ele irá avante.

Livros perdidos

Não imagino pior coisa para um autor do que perder um livro em que está a trabalhar – o ficheiro desaparecer do computador, o computador portátil ser roubado e não haver cópias, enfim, aquilo em que gastou meses ou anos de trabalho ser mera poeira na sua memória, incapaz de refazer inteiramente o escrito. Mas há livros que desaparecem de outra maneira – ou porque os seus autores nunca lhes deram grande atenção nem quiseram publicá-los, ou porque os originais (muitos deles escritos ainda à mão) foram entregues em revistas, publicados e, pouco tempo depois, esquecidos, até o autor, muitos anos mais tarde, se tornar célebre. O director da revista The Strand já encontrou, por exemplo, um conto de John Steinbeck que nunca fora publicado, e mais recentemente também um conto que Fitzgerald escreveu pouco antes de morrer – «Temperature» – e que fala de um escritor que bebe descontroladamente e sofre do coração (era o seu caso, de resto, e portanto provavelmente autobiográfico). Também foi encontrado um conto com o herói Sherlock Holmes no sótão de casa de um historiador (imagina-se que seja de Conan Doyle, mas não há a certeza); e, depois de desaparecido por 50 anos, um poema-ensaio contra as Invasões napoleónicas assinado por «um cavalheiro de Oxford» (mas que se sabe ter sido escrito por Shelley) foi achado no meio de uma data de outras coisas num leilão (e está hoje numa biblioteca em Oxford, onde Shelley o escreveu). Enfim, para os estudiosos, deve ter graça encontrar de vez em quando um livro perdido; para os autores, perder livros deve ser uma tristeza.

Leituras visuais

Quando vou a escolas falar sobre livros e leitura com crianças e adolescentes, não costumo apoucar nenhuma forma de arte em benefício da literatura; mas também é verdade que, uma ou outra vez, não resisto a dizer como ler pode, de facto, estimular a imaginação como nenhuma outra actividade. Num filme, a rapariga loira está lá para a vermos, tem a cara daquela actriz precisa que desempenha o seu papel. Num romance, no entanto, cada leitor vê a rapariga loira do texto com um rosto diferente, com características que o seu cérebro desenha e são diferentes das do seu melhor amigo, aquele com quem tem mais afinidades. Claro que, depois da popularidade do cinema, de vez em quando pomos caras de actores e actrizes em determinadas personagens de romances (uma vez, o próprio autor de um livro que publiquei e eu achávamos que Keira Knightley era mesmo a carinha de uma rapariga que entrava na história); mesmo assim, essa coincidência é menos vulgar do que se possa imaginar – e é muito bom termos a liberdade de «refazer» na nossa mente todos os protagonistas dos romances e contos que lemos. Recentemente, soube que Dostoievsky, enquanto escrevia, desenhava (rabiscava, pelo menos) as suas personagens; esses desenhos são, de resto, frequentes nos seus cadernos, nos quais os rascunhos de romances se fazem acompanhar de esboços de homens e mulheres, repetidos em poses diferentes ao longo das páginas. Li que talvez publiquem uma versão de Crime e Castigo com bonecos... Pois eu cá prefiro não ver tais figuras, agora que já fiz na minha cabecinha os retratos dos seus heróis. Tenho a sensação de que iria ficar desiludida, pensar que não correspondem ao que me lembro, exactamente como acho determinado actor mal escolhido para representar uma personagem que apenas conheço do «papel». Deixem-nos visualizar à nossa vontade.

Desbocados e inteligentes

 


Chama-me a atenção o título de uma notícia publicada recentemente no Jornal de Notícias: «Dizer palavrões é sinal de inteligência.» Na verdade, como não conseguia encontrar nenhuma relação entre ser desbocado, insultuoso, agressivo e inteligente, lá tive de ler o artigo de fio a pavio para ficar a saber do que se tratava. E, bem, não era exactamente o que se vendia no título – como, afinal, acontece hoje tantas vezes nos nossos jornais, que apregoam o falso só para nos atrair para a leitura; o que se dizia era que, embora tendamos a associar o uso do palavrão a pessoas com baixo nível intelectual e mal-educadas, aquelas que têm o QI mais elevado são as que efectivamente conseguem dizer mais palavrões em sessenta segundos (o que não equivale a dizer que usar palavrões seja sinal de inteligência). Tanto quanto percebi, as pessoas mais inteligentes são as que conseguem, em sessenta segundos, dizer mais nomes comuns, mais nomes de animais e… mais palavrões, segundo um estudo sobre fluência vocabular realizado por dois psicólogos americanos. Portanto, talvez o título da notícia devesse ser a relação que existe entre inteligência e fluência vocabular – seria mais honesto, embora, claro, talvez não atraísse tantos leitores curiosos; e, quanto a esta conclusão dos psicólogos, tenho também muitas dúvidas sobre a sua validade: é que conheço muitos tímidos que, numa prova deste tipo, não seriam capazes dizer um monte de palavrões em sessenta segundos, embora seguramente os conhecessem. Os tímidos terão um QI inferior? Não me parece.

O que ando a ler

Há livros em excesso (e quase nunca bons) sobre cãezinhos e gatinhos (e não estou a falar de literatura infantil, entenda-se); mas, quando o animal de estimação da história é outro (um burro como em Platero e Eu, por exemplo), é bem provável que o resultado seja melhor e mais agradável para todos. É-o seguramente no caso deste estupendo A de Açor, um livro da britânica Helen Macdonald difícil de classificar, que vendeu como pãezinhos quentes no Reino Unido e recebeu críticas altamente elogiosas em todos os países em que foi traduzido e publicado, além de prémios de monta, como o Samuel Johnson para não-ficção. Gostar de aves de rapina não é para todos, bem sei (e o açor é uma ave de rapina), mas não se assustem os leitores com as garras e os bicos aguçados do animal: esta não é obra que meta medo a ninguém e o açor só é o herói porque, na verdade, desempenha também o papel de uma espécie de pomba da paz, é o que permite à autora fazer o luto insuportável pela morte do pai, o seu grande companheiro desde criança. Helen Macdonald, historiadora, poeta, falcoeira, partilhava com o pai o amor às aves, mas precisou da mais indomável das criaturas aladas para aceitar e resolver finalmente a solidão, a dor e a perda. E nós, ao seu lado, lendo também os livros que retira da estante sobre açores e falcoaria (e ficando a conhecer muito especialmente o senhor White, figura que daria ela própria um livro fascinante), perceberemos o que faz de nós humanos, o que nos aproxima e afasta de um animal selvagem. Segundo alguém escreveu no New York Times, este é um livro que sangra. E vale muito a pena.