Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2026

O Riso Dissonante

  A caricatura é uma arte muito mais importante do que possa parecer; e, como sabemos, os que a praticam não são pessoas com jeito para desenho, mas gente culta e inteligente que usa o humor para pôr o dedo na ferida e que até correm risco de vida, como se viu pelos atentados terroristas em França sobre a revista Charlie. Ora, na Casa da Achada, criada para celebrar a obra a e a figura de Mário Dionísio, decorre actualmente um ciclo e uma exposição dedicados à caricatura social em artistas como Alfonso Castelao e Jean Bruller (Vercors), cujos curadores são João Rodrigues, Osvaldo Macedo de Sousa e José Smith Vargas e que inclui uma série de conversas que só podem ser interessantes, dados os nomes dos seus intervenientes, entre os quais André Carrilho, António Jorge Gonçalves, Cristina Sampaio, Fernando Rosas, Irene Pimentel, Luís Afonso, Nuno Saraiva, Pedro Piedade Marques e Sara Figueiredo Costa. Vale a pena ir lá dar uma espreitadela às obras expostas e, já amanhã, pelas 15h00, ouvir o debate sob o título «O humor face à guerra, à violência e à opressão», que se debruçará na importância do cartoon e da caricatura para acordar consciências (estamos mesmo a precisar disso!). Mas consultem o programa, pois o ciclo estará activo até finais de Setembro e há conversas a não perder todos os meses. 

Feira do Livro

Imagem

Ontem abriu a Feira do Livro de Lisboa, um acontecimento que leva milhares de pessoas ao Parque Eduardo VII, umas para comprar livros, outras a passeio, com crianças e animais de estimação (muitos). Este ano a feira tem mais de 350 pavilhões de 900 chancelas participantes, muitas delas agrupadas em praças, como é o caso da LeYa, da Presença, da Porto, da Penguin... O espaço dos pequenos editores foi renovado e, portanto, também aí se esperam melhorias. Vai haver cinema ao sábado à noite (enquanto uns calcorreiam os pavilhões, os que não apreciam esta «peregrinação» podem ver filmes) e continuam as experiências para crianças dos 8 aos 10 de acampar no parque com histórias, passando lá a noite com a supervisão de adultos. Às sextas haverá também música ao vivo. Uma novidade é o apoio da Lusíadas Saúde (quando faz mesmo calor, os que desmaiam facilmente já têm quem os «refresque», porque vai haver posto médico) e outra é o empréstimo de carrinhos de bebé (sim, porque subir a feira com crianças pequenas pela mão ou ao colo é tudo menos fácil). E o resto são... livros!!! Que bom, lá vai a conta bancária descer, mas é por uma boa causa. No dia 30, no auditório da Praça LeYa, vamos entregar a Carla Pais o Prémio LeYa pelas 18h30, e será apresentado o romance vencedor, A Sombra das Árvores no Inverno, pelo escritor João Pinto Coelho. Se quiser assistir, está convidado.


Picture1.png

Em Berlim

Já viajei por várias partes do mundo, mas, sei lá porquê, embora tenha ido à Alemanha mais de vinte vezes (a Feira do Livro de Frankfurt era obrigatória no tempo em que eu fazia sobretudo livros estrangeiros), nunca visitei Berlim. Se fosse romancista, candidatava-me a uma residência literária nessa cidade, a 11.ª destinada a autores portugueses com obra publicada, promovida pela Embaixada de Portugal e pelo Centro Cultural Português do Instituto Camões em Berlim desde o tempo em que Ana Patrícia Severino, que replicou a residência também em Madrid, era responsável cultural na Embaixada e fundou a iniciativa.  Em edições anteriores, muitos autores contemporâneos beneficiaram desta bolsa, como Patrícia Portela (2016), Rui Cardoso Martins (2017), Isabela Figueiredo (2018), Miguel Cardoso (2019), Afonso Cruz (2020), Judite Canha Fernandes (2021), Claudia Galhós (2022), Jacinto Lucas Pires (2023), Francisco Sousa Lobo (2024) e Margarida Vale de Gato (2025). Se está interessado, não se atrase, pois as candidaturas fecham a 14 de Junho. O endereço é: botschaftbolsa@gmail.com. Boa sorte!

O principal e o acessório

No mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Meu Primeiro Apocalipse, cujo enredo decorre cerca de 2066 (não é um futuro tão longínquo como possa parecer), os céus já têm mais drones do que pássaros, e duas mulheres – uma delas curiosamente jornalista e escritora – querem resgatar a importância da leitura para tentar salvar o mundo. Penso que o assunto, sobretudo tratado por um jornalista, um homem que lida com informação e deve saber de notícias falsas e manipuladas como poucos, deveria ter gerado mais interesse dos nossos jornais, até porque se sabe que o QI tem vindo a baixar desde o princípio do século e que a culpa é sobretudo da falta de linguagem e consequente incapacidade de construir ideias e argumentos, resultado, claro, da falta de leitura. Mas não. Infelizmente, em vez de pegarem nesta questão, que foi falada num debate durante a feira do livro de Évora, por ocasião do Comboio Literário, os blogues, revistas e jornais referem a resposta do escritor à pergunta sobre o que o levou a estudar jornalismo em Lisboa. E porque terá sido? Bem, porque foi um desgosto de amor que fez Rodrigo Guedes de Carvalho abandonar o Porto natal e vir para a Universidade Nova de Lisboa. Caramba, pensei que os nossos meios de comunicação fossem um nadinha mais crescidos... Eu, que recebo os recortes de imprensa das Publicações Dom Quixote, estou sempre a ler sobre o coração partido de Rodrigo Guedes de Carvalho há décadas. Se essa ninharia levar as pessoas a ler o livro, tudo bem, mas duvido. Leiam-no os que se preocupam com o descréscimo do nível das leituras.

Cronicar

Imagem

A crónica é um género maior, e a Associação Portuguesa de Escritores tem até um prémio que lhe é muito justamente dedicado. Entre autores vivos, temos cronistas de excelência, como Luísa Costa Gomes e Dulce Maria Cardoso, por exemplo, mas basta abrir os jornais actuais para vermos como são bons cronistas José Tolentino de Mendonça, António Araújo, Ana Bárbara Pedrosa, Pedro Mexia ou Ricardo Araújo Pereira. Luísa Sobral, depois da sua fulgurante estreia literária com Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, um romance que vai na 15.ª edição, atreveu-se às crónicas num livro mesmo bonito que ilustrou com aguarelas suas (incluindo a da capa). Se se quer rir com a aselhice da autora para armar uma tenda no jardim para os filhos ou indignar-se com a desfaçatez com que um médico faz perguntas inconvenientes, Da Minha Janela (assim se chama a obra) chamá-lo-á a ver uma paisagem que podia ser também a sua, porque é impossível não nos identificarmos com estes belos textos que escrevem o dia-a-dia contemporâneo de Luísa Sobral e, afinal, o de todos nós.


download.jpg

A Adolescência

Imagem

Na Praceta das Tílias, ninguém sabe o que acontece na porta ao lado. É entre paredes de betão que nasce esta história. Esmeralda esforça-se por dar à filha o que não teve. E Teresa parece ter tudo para ser uma adolescente feliz. Porém, uma descoberta perturbadora estilhaça a harmonia familiar e põe à prova os laços entre mãe e filha. Ao contrário da sua amiga Teresa, Ana Lurdes cresce desamparada numa casa onde o amor não entra, refugiando-se nos poemas que escrevinha nas aulas. Já Sebastião, que guia um táxi pela cidade, anda desnorteado; quem o segura é Olívia, a filha sempre atenta ao que a rodeia – sobretudo quando observa Teresa da janela do seu quarto e desenha o que mais ninguém vê. E Lúcia julga que tem tudo controlado, até ao dia em que sofre um ataque violento; mas, quando volta à casa da infância para se restabelecer, percebe que o maior perigo, afinal, vem de onde menos esperava. A turbulência que abala todas estas personagens levanta o pó do que está para trás, deixando a descoberto cicatrizes e segredos. E, quando tudo falha, até os vínculos mais fortes se podem romper. Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno – o quarto romance de Susana Piedade, já duas vezes finalista do Prémio LeYa – é uma obra notável pela sua contenção ao falar de temas extremamente difíceis com extraordinária elegância. Surpreende até à última página e oferece-nos um bom retrato da juventude contemporânea.


Publicação II Uma Porta de Vidro entre o Céu

Três futuros

A saudosa poeta Ana Luísa Amaral tem um livro muito bonito chamado What's in a Name, e a Alice de Lewis Carroll pergunta a dado momento no País das Maravilhas se um nome tem de significar alguma coisa. No livro Os Nomes, de Florence Knapp, os nomes são o motor para três vidas diferentes da mesma personagem, um rapaz que nasce nove anos depois da irmã e que é filho de uma mãe vítima de violência doméstica que o pai trata de forma tenebrosa, um pai médico que os doentes adoram e de quem nunca ninguém desconfiaria. O romance começa com a ida de Cora, a agredida, com o filho na cadeirinha e a irmã pela mão, ao Cartório para registar o nome do filho. A pequena Maia gostaria que o maninho se chamasse Bear, a mãe preferia que fosse Julian (que quer dizer «Pai do Céu») e o agressor não põe outra hipótese senão que o filho varão tenha o seu nome, Gordon. Ora, será como Bear, Julian e Gordon que vamos assistir a três futuros distintos deste bebé, aos seus estudos e brincadeiras, às suas paixões e romances, aos seus medos e tragédias, às suas escavações e criações artísticas, sempre com um background semelhante na casa da família e sempre esperando que um destes rapazes acabe por salvar a mãe, a quem o pai conseguiu retirar o poder paternal alegando que a mulher tem distúrbios mentais (os médicos podem muita coisa) e que mantém fechada há séculos em casa. Vale a pena ler, sobretudo como exercício literário. 


 


P. S. Para quem se interesse pela escrita de canções, hoje ao fim da tarde vou estar com o João Gobern a falar da minha actividade como letrista em Coimbra, na Casa da Escrita. Apareçam.

Os 100+

O jornal britânico The Guardian publicou uma lista dos 100 melhores livros de ficção (romances, sobretudo) publicados desde sempre em língua inglesa, mas por autores de qualquer país (sim, estão lá Pedro Páramo ou Cem Anos de Solidão, mas quase não há livros franceses, por exemplo, e o Memorial do Convento não consta). É uma lista feita por escritores e críticos de todo o mundo. O jornal pediu a 172 autores, críticos e académicos que apontassem os seus 10 romances de eleição e os pusessem por ordem de preferência; depois, atribuiu uma pontuação a cada título, consoante o número de vezes em que tinham sido escolhidos, assim achando os 100 mais votados. Penso que estes votantes devem rondar a minha idade, pois eu, surpreendentemente, quando vi a primeira metade da lista (dos 41 aos 100) percebi que tinha lido muitos dos títulos e fiquei aliviada (quanto mais livros lemos, mais ignorantes nos sentimos). No dia seguinte, saíram os romances mais votados (do 1 ao 40) e também eram, na generalidade, conhecidos (nem todos lidos, lamento), embora aqui já houvesse um ou outro título para mim desconhecido (The Prime of Miss Jean Brody, de Muriel Spark, ou Their Eyes Were Watching God, de Zora Neale Hurston). Claro que a lista é muito discutível, porque cá para mim faltam muitos autores notáveis; mas, como não sei se estão traduzidos em inglês (no Reino Unido só cerca de 3% dos livros publicados são traduções), pode ser essa a razão de tão estranha omissão. Também se vê que os britânicos gostam sobretudo de autores britânicos (a senhora Virginia Woolf nunca falha e tem mais de um título seu no rol), mas vale a pena consultar a lista e cada um fazer a sua própria análise. Deixo-a aqui. Divirtam-se.


 


https://www.theguardian.com/books/ng-interactive/2026/may/12/the-100-best-novels-of-all-time?CMP=fb_gu&utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwY2xjawRy0ltleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBPWmtCbld5VXlHc2MwTEJKc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHigZemUjMGaaWJhQYIELEgjtzbbtewOCUVFWbI7l8690UwriFTbPJsUSr8Tc_aem_mNBNXgpmSJxb0MuC538wLg#Echobox=1778652585


 

Infantis de que os adultos gostam

Não tenho filhos, mas dei a uma das minhas sobrinhas-netas um presente que vai sendo oferecido ao longo dos anos: todos os meses lhe mandam um pacote em seu nome com dois livros e algumas folhas com actividades ou autocolantes. No princípio, ela recebia os livros dos 0 aos 3 anos, mas agora a faixa etária mudou e já recebe uns mais adiantados, ficando para a irmã de um ano os mais abebezados que tem na estante. Espero que essa minha sobrinha goste sempre de livros e que este meu presente a ajude a formar uma boa biblioteca. Há, de resto, livros infantis de que eu também gosto e, recentemente, houve dois títulos de uma colecção da Lilliput que me encheram as medidas. Um por razões óbvias, o outro talvez pela importância e o tratamento do tema. O primeiro chama-se História da Escrita (de Loic Le Gall e Karine Maincent) e ensina às crianças como começou o homem a escrever, que objectos usou ao longo do tempo (o pau, o estilete, a pena, o lápis, o computador...), que formas de escrita se conhecem (a escrita cuneiforme, os hieróglifos, os ideogramas...), o que foi a revolução da imprensa, enfim, tudo contado com rigor e interesse. O outro, chamado Fronteiras (de Karim Ressouni-Demigneux e Karine Maincent) é realmente uma delícia. Começa por nos mostrar como o Homo sapiens andava por onde queria até que descobriu fronteiras naturais (rios, montanhas, bosques cerrados...) e que começou ele próprio a construí-las (muros, fortificações, cercas, vedações, etc.) e a definir territórios e impérios. Mais tarde teríamos países divididos, como a Alemanha da Guerra Fria ou a Coreia. O livro menciona ainda as migrações, os documentos necessários para mudar de país, e muitas outras coisas com as quais todos aprendemos, e as crianças ainda mais. 

Nuno Júdice

No dia 29 de Abril celebrámos o aniversário de Nuno Júdice publicando o seu livro póstumo intitulado paradoxalmente Primeiro Poema (mas os últimos são os primeiros). A organização do mesmo esteve a cargo de Manuela Júdice, a mulher do poeta que, entre muitas outras coisas, dirigiu a Casa Fernando Pessoa e a Casa da América Latina ao longo de vários anos, e o também poeta e estudioso da obra de Nuno Júdice Ricardo Marques. Esteve presente o Presidente da República, que fez um pequeno discurso muito bom, e uma data de amigos saudosos de Nuno Júdice, bem como a vencedora da primeira edição do Prémio de Poesia que celebra o seu nome, Carla Louro, arquitecta e grande escritora que assinou Entra-se na casa pelo pátio, um poemário mesmo bonito. Falo disto para vos dizer que neste mesmo dia 29 de Abril abriu o concurso para a 2.ª edição do Prémio de Poesia Nuno Júdice, cujas candidaturas podem ser feitas até 30 de Junho. Se tem algum original de poesia na gaveta, não hesite. Os dados vão abaixo, para ser mais fácil consultar. Boa sorte.


Regulamento do Prémio de Poesia Nuno Júdice | Leya


CANDIDATURAS: https://premiojudice.leya.com

Excerto da Quinzena

Memórias do amor


 


A realidade é uma mentira. Eu sei que estavas nesta fotografia em que não apareces. Recordo perfeitamente o que me dizias ao ouvido no momento do flash.


 


José Carlos Barros, Vocação para os Desastres (contos)

E se?

Às vezes é engraçado pensar que certos livros, hoje considerados inescapáveis e importantíssimos na história da literatura universal, poderiam nunca ter sido publicados e lidos. Lembrei-me disto a propósito de um vídeo que encontrei no qual Gabriel García Márquez conta que em jovem devorava livros e que, quando lhe foi parar às mãos A Metamorfose, de Kafka, parou a reflectir que estava perante algo muito diferente do que lera até ali, algo que ficaria para sempre com ele. E, porém, a história do homem que acordou transformado em insecto, virado de pernas para o ar, e que mesmo assim a estuporada família espera que vá trabalhar para a sustentar, poderia não ter chegado aos nossos dias. Kafka era demasiado discreto e tímido para falar com editores, e até deixou dito que não queria que lhe publicassem os livros (muito mais do que esse que fala da tragédia do homem-barata) quando morresse. No caso, valeu-nos a desobediência de um amigo, que percebeu certamente o alcance que o autor poderia vir a ter, mesmo morto. Mas há outros casos, em que obras-primas foram recusadas por editores (Em busca do Tempo Perdido, de Proust, por exemplo, ou mais recentemente o romance de David Uclés, A Península das Casas Vazias, que venceu uma data de prémios e se vendeu em muitos países) e talvez não tivessem chegado a ser dadas à estampa se os seus autores não tivessem insistido em vê-las nos escaparates. E se Os Lusíadas se tivessem mesmo perdido ao largo de Macau, já imaginaram?


 

Manuel Alegre

Ontem fez 90 anos o poeta Manuel Alegre. Chamo-lhe poeta, claro, até porque este é um blogue sobre livros e literatura; mas, além do poeta, foi um combatente pela liberdade, um lutador que teve de se exilar na Argélia durante o antigo regime, um resistente que inspirou muitos dos seus contemporâneos a rebelarem-se contra o fascismo que mantinha o País cheio de fome, embora ainda haja gente a dizer que nesse tempo é que era bom. Manuel Alegre foi um político de nomeada (ainda hoje é chamado a colorir algumas campanhas do Partido Socialista) e, curiosamente, embora tenha escrito muita poesia amorosa, tem uma boa quantidade de poemas que podemos considerar também políticos, escritos sobretudo antes do 25 de Abril. É também autor de letras de fado (algumas das quais cantadas por Amália Rodrigues, muitas por João Braga), uma espécie de Teoria do Fado. Já que não podemos desejar-lhe longa vida aos noventa, desejemos-lhe que continue a escrever e a viver envolvido e sempre militando pela democracia. Parabéns!

Ler com que idade?

Haverá uma idade para ler certos livros? Já aqui comentei, julgo, que na terceira idade em que me encontro, embora há pouco tempo, tornou-se de repente mais difícil fixar o que se leu na véspera (às vezes é preciso voltar atrás umas páginas para me situar); mas, pior do que isso, é duas semanas depois de acabar um livro (e é mais ou menos irrelevante se gostei ou não da leitura) já quase não me lembrar da história (e o mesmo aocntece com certos filmes). Um dia destes aconteceu cruzar-me com alguém que estava muito entusiasmado a falar de um livro que eu lera há uns dois meses e reparei que muitas das cenas que essa pessoa evocava estavam, para mim, parcialmente obliteradas. Fiquei chateada, mas a velhice não tem remédio, pelo que, a seguir, me passou a telha. Pensei sempre guardar alguns calhamaços para a reforma, mas agora vejo que fiz mal, pois deveria tê-los lido era com a cabeça fresca para os aproveitar ao máximo. Vi que uma jovem autora minha andava a ler Steinbeck e fiquei contente, pois também eu o li com a idade dela, ou mais nova ainda, e hoje consigo lembrar-me bem de muitos dos seus romances. Foi pena não ter feito o mesmo com O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio. Mas agora que é que se há-de fazer?

Ler com que idade?

Haverá uma idade para ler certos livros? Já aqui comentei, julgo, que na terceira idade em que me encontro, embora há pouco tempo, tornou-se de repente mais difícil fixar o que se leu na véspera (às vezes é preciso voltar atrás umas páginas para me situar); mas pior do que isso é duas semanas depois de acabar um livro (e é mais ou menos irrelevante se gostei ou não da leitura) já quase não me lembrar da história (e o mesmo acontece com certos filmes). Um dia destes aconteceu cruzar-me com alguém que estava muito entusiasmado a falar de um livro que eu lera há uns dois meses e reparei que muitas das cenas que essa pessoa evocava estavam, para mim, parcialmente obliteradas. Fiquei chateada, mas a velhice não tem remédio, pelo que, a seguir, me passou a telha. Pensei sempre guardar alguns calhamaços para a reforma, mas agora vejo que fiz mal, pois deveria tê-los lido era com a cabeça fresca para os aproveitar ao máximo. Vi que uma jovem autora minha andava a ler Steinbeck e fiquei contente, pois também eu o li com a idade dela, ou mais nova ainda, e hoje consigo lembrar-me bem de muitos dos seus romances. Foi pena não ter feito o mesmo com O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio. Mas agora que é que se há-de fazer?

Escolher

Na viagem do Comboio Literário este fim-de-semana houve uma história muito bonita. Entre muitos adultos, mais de cento e cinquenta, quase todos com mais de quarenta anos, estavam dois rapazes, um já a fazer o mestrado, e uma rapariga mesmo novinha, provavelmente ainda a estudar no Secundário ou no primeiro ano da universidade. Contou que fazia anos por estes dias e tinha pedido aos pais a inscrição no Comboio Literário como presente de aniversário para poder viajar com escritores e leitores, e ir a debates, conversar com gente que também gosta de ler e pedir autógrafos a alguns dos «seus» autores. Pode ser que seja uma excepção, mas dá-nos alguma esperança encontrar jovens assim quando tudo indica que a imagem vai ter cada vez mais força do que a palavra e que as pessoas lerão textos cada vez mais curtos. Talvez o segredo seja apanhar os leitores ainda novos e escolher com cuidado o que os pode seduzir como obra literária, o que lhes pode agradar. Proponho, por exemplo, Luís Sepúlveda e O Velho Que Lia Romances de Amor, ou então Cão como Nós, de Manuel Alegre, um escritor que amanhã completa 90 anos. Escolham também os leitores deste blogue livros para os vossos filhos, se os tiverem. Não os deixem parar de ler.

Escolher

Na viagem do Comboio Literário este fim-de-semana houve uma história muito bonita. Entre muitos adultos, mais de cento e cinquenta, quase todos com mais de quarenta anos, estavam dois rapazes, um já a fazer o mestrado, e uma rapariga mesmo novinha, provavelmente ainda a estudar no Secundário ou no primeiro ano da universidade. Contou que fazia anos por estes dias e tinha pedido aos pais a inscrição no Comboio Literário como presente de aniversário para poder viajar com escritores e leitores, e ir a debates, conversar com gente que também gosta de ler e pedir autógrafos a alguns dos «seus» autores. Pode ser que seja uma excepção, mas dá-nos alguma esperança encontrar jovens assim quando tudo indica que a imagem vai ter cada vez mais força do que a palavra e que as pessoas lerão textos cada vez mais curtos. Talvez o segredo seja apanhar os leitores ainda novos e escolher com cuidado o que os pode seduzir como obra literária, o que lhes pode agradar. Proponho, por exemplo, Luís Sepúlveda e O Velho Que Lia Romances de Amor, ou então Cão como Nós, de Manuel Alegre, um escritor que amanhã completa 90 anos. Escolham também os leitores deste blogue livros para os vossos filhos, se os tiverem. Não os deixem parar de ler.

Comboio Literário

Imagem

Lembram-se de vos ter falado aqui do Comboio Literário? Pois bem, é já amanhã, dia 9, que partirá a primeira composição rumo ao Alentejo, com uma paragem em Casa Branca, onde a LeYa celebrará a entrega de minibibliotecas a vários concelhos da zona e um grupo de cante certamente nos surpreenderá. Depois iremos até Évora, sempre em carruagens históricas, para, já fora do comboio, visitarmos a Sé, o Templo Romano e a seguir participarmos na Feira do Livro, quer em debates com o público (moderarei um deles, com o título «A  Viagem da Palavra», no qual estarão Daniel Sampaio, Isabela Figueiredo, João Pinto Coelho e Rodrigo Guedes de Carvalho), quer em sessões de autógrafos, quer ainda a ouvir um show case com a cantora e escritora Luísa Sobral, que recentemente foi a vencedora do Prémio Livro do Ano Bertrand na categoria de ficção portuguesa (prémio do público e dos livreiros). No dia seguinte, correremos o Paço Ducal de Vila Viçosa, e Hugo Van der Ding fará uma performance baseada em Uma Família Surreal. Esta é uma iniciativa inédita que a LeYa organiza com a cooperação da CP e do Turismo de Portugal. Se correr bem, tenho a certeza de que se repetirá... com outros destinos.

comboio literario.png

Comboio Literário

Imagem

Lembram-se de vos ter falado aqui do Comboio Literário? Pois bem, é já amanhã, dia 9, que partirá a primeira composição rumo ao Alentejo, com uma paragem em Casa Branca, onde a LeYa celebrará a entrega de minibibliotecas a vários concelhos da zona e um grupo de cante certamente nos surpreenderá. Depois iremos até Évora, sempre em carruagens históricas, para, já fora do comboio, visitarmos a Sé, o Templo Romano e a seguir participarmos na Feira do Livro, quer em debates com o público (moderarei um deles, com o título «A  Viagem da Palavra», no qual estarão Daniel Sampaio, Isabela Figueiredo, João Pinto Coelho e Rodrigo Guedes de Carvalho), quer em sessões de autógrafos, quer ainda a ouvir um show case com a cantora e escritora Luísa Sobral, que recentemente foi a vencedora do Prémio Livro do Ano Bertrand na categoria de ficção portuguesa (prémio do público e dos livreiros). No dia seguinte, correremos o Paço Ducal de Vila Viçosa, e Hugo Van der Ding fará uma performance baseada em Uma Família Surreal. Esta é uma iniciativa inédita que a LeYa organiza com a cooperação da CP e do Turismo de Portugal. Se correr bem, tenho a certeza de que se repetirá... com outros destinos.


comboio literario.png

Homenagens

Amanhã começa o Bibliotecando em Tomar, um festival literário de dois dias que vai na sua 16.ª edição e terá como presidente da Comissão de Honra Guilherme d'Oliveira Martins, que também fará uma palestra e será moderador de alguns debates. A organização está a cargo de Agrupamentos de Escolas do concelho, da Câmara Municipal de Tomar, do Centro Nacional de Cultura, do Politécnico de Tomar e ainda de outras instituições locais e nacionais, e homenageará este ano o escritor Valter Hugo Mãe, cuja obra será analisada por académicos e leitores em várias sessões. O tema será «Entre o natural e o construído», propondo-se que os intervenientes examinem «as tensões dialógicas entre essas duas realidades, o modo como mutuamente se interpenetram, se confrontam e se redefinem», e o programa contará com personalidades conhecidas de todos, como Pilar del Río, Carlos Reis ou Fátima Vieira, e também com a desta vossa anfitriã. Segundo a organização, «nestes dois dias este encontro procura ser o local de embarque para viagens mediadas pelos nossos ilustres convidados». Tudo acontece na Biblioteca Municipal e o programa pode ser consultado abaixo.


https://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/2026/


 

Homenagens

Amanhã começa o Bibliotecando em Tomar, um festival literário de dois dias que vai na sua 16.ª edição e terá como presidente da Comissão de Honra Guilherme d'Oliveira Martins, que também fará uma palestra e será moderador de alguns debates. A organização está a cargo de Agrupamentos de Escolas do concelho, da Câmara Municipal de Tomar, do Centro Nacional de Cultura, do Politécnico de Tomar e ainda de outras instituições locais e nacionais, e homenageará este ano o escritor Valter Hugo Mãe, cuja obra será analisada por académicos e leitores em várias sessões. O tema será «Entre o natural e o construído», propondo-se que os intervenientes examinem «as tensões dialógicas entre essas duas realidades, o modo como mutuamente se interpenetram, se confrontam e se redefinem», e o programa contará com personalidades conhecidas de todos, como Pilar del Río, Carlos Reis ou Fátima Vieira, e também com a desta vossa anfitriã. Segundo a organização, «nestes dois dias este encontro procura ser o local de embarque para viagens mediadas pelos nossos ilustres convidados». Tudo acontece na Biblioteca Municipal e o programa pode ser consultado abaixo.

https://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/2026/

 

Ideias originais

Quando conheci Afonso Reis Cabral, em 2014, tinha ele vencido o Prémio LeYa antes ainda dos 25 anos, fiquei a saber que, em adolescente, ele tinha ido de camião TIR até a Alemanha sem a família em busca de uma história. Depois disso, atravessou o País a pé pela Estrada Nacional 2 (a mítica) e publicou um livro sobre essa aventura; e, mais tarde, tentou tudo por tudo para acompanhar os militares num submarino durante dez dias, mas por qualquer razão não conseguiu que o deixassem integrar a equipa. Agora teve mais uma ideia louquíssima e está a viver por uma semana no Centro Comercial Colombo, numa loja de sapatos desactivada onde lhe puseram uma cama e para onde levou duas malas de rodinhas com roupa, computador e papel, disposto a tomar banho nos balneários do ginásio, pois a ideia é mesmo não sair de lá para nada e ir assistindo ao que por lá se passa. Um sítio onde está sempre tanta gente só pode oferecer boas histórias, e o Afonso quer escrever um pequeno livro sobre o que é viver num Centro Comercial, entrevistando lojistas e consumidores, quiçá empregados da limpeza também, e passeando provavelmente pelos espaços vazios quando o Centro fecha, como outros escritores já fizeram em museus, embora ver pintura e escultura deva ser mais compensador do que ver montras. Vamos lá ver como acaba esta residência literária e o que nos trará. Ideias originais, não há dúvida.

Ideias originais

Quando conheci Afonso Reis Cabral, em 2014, tinha ele vencido o Prémio LeYa antes ainda dos 25 anos, fiquei a saber que, em adolescente, ele tinha ido de camião TIR até a Alemanha sem a família em busca de uma história. Depois disso, atravessou o País a pé pela Estrada Nacional 2 (a mítica) e publicou um livro sobre essa aventura; e, mais tarde, tentou tudo por tudo para acompanhar os militares num submarino durante dez dias, mas por qualquer razão não conseguiu que o deixassem integrar a equipa. Agora teve mais uma ideia louquíssima e está a viver por uma semana no Centro Comercial Colombo, numa loja de sapatos desactivada onde lhe puseram uma cama e para onde levou duas malas de rodinhas com roupa, computador e papel, disposto a tomar banho nos balneários do ginásio, pois a ideia é mesmo não sair de lá para nada e ir assistindo ao que por lá se passa. Um sítio onde está sempre tanta gente só pode oferecer boas histórias, e o Afonso quer escrever um pequeno livro sobre o que é viver num Centro Comercial, entrevistando lojistas e consumidores, quiçá empregados da limpeza também, e passeando provavelmente pelos espaços vazios quando o Centro fecha, como outros escritores já fizeram em museus, embora ver pintura e escultura deva ser mais compensador do que ver montras. Vamos lá ver como acaba esta residência literária e o que nos trará. Ideias originais, não há dúvida.

Renascimentos

Imagem

O romance vencedor do Prémio LeYa 2025, de Carla Pais, acaba de sair; é uma história de sobrevivência dos que perderam quase tudo e do amor que se recusa a morrer, mesmo quando o resto já desabou. Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu. Aïsha – filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição – vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas. Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra. As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno – vencedor do Prémio LeYa por unanimidade – é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de protecção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos. Vale muito a pena.


Carla Pais.jpg

Renascimentos

Imagem

O romance vencedor do Prémio LeYa 2025, de Carla Pais, acaba de sair; é uma história de sobrevivência dos que perderam quase tudo e do amor que se recusa a morrer, mesmo quando o resto já desabou. Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu. Aïsha – filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição – vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas. Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra. As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno – vencedor do Prémio LeYa por unanimidade – é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de protecção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos. Vale muito a pena.

Carla Pais.jpg

O que ando a ler

A editora da romancista norte-americana Elizabeth Strout, que esteve em Lisboa há uns tempos a lançar o seu mais recente romance (no qual apareciam personagens de vários outros livros, fechando o ciclo Lucy Barton e Olive Kitteridge), acaba de recuperar um dos seus livros antigos, com o título Os Irmãos Burgess. Estes irmãos (Bob e Jim), oriundos do Maine, fugiram de lá assim que puderam e instalaram-se em Nova Iorque, onde são advogados. Mas Jim é uma estrela (ganhou um caso ultramediático e ficou conhecidíssimo) e Bob é um pobre diabo que faz trabalho de sapa, bebe, foi abandonado pela mulher, tem pouco dinheiro e... é muito melhor do que o irmão, pois está sempre a tentar contemporizar e ajudar os outros. Desta feita, ambos sabem que o sobrinho, filho da irmã que nunca quis sair do Maine, foi acusado de um crime de ódio, tendo atirado uma cabeça de porco para dentro de uma mesquita onde rezava um grupo de refugiados da Somália. Então, deslocam-se ambos os irmãos ao Maine, para tentar ajudar o adolescente em termos judiciais, mas a verdade é que os insultos de Jim a Bob, seguidos de uma confissão sobre uma morte que aconteceu na infância, bem como o desaparecimento súbito do adolescente, mudam um pouco o rumo das coisas. Este é talvez o mais político dos livros que li de Strout, e talvez também o mais americano. Leiam-no e perceberão o que digo.

O que ando a ler

A editora da romancista norte-americana Elizabeth Strout, que esteve em Lisboa há uns tempos a lançar o seu mais recente romance (no qual apareciam personagens de vários outros livros, fechando o ciclo Lucy Barton e Olive Kitteridge), acaba de recuperar um dos seus livros antigos, com o título Os Irmãos Burgess. Estes irmãos (Bob e Jim), oriundos do Maine, fugiram de lá assim que puderam e instalaram-se em Nova Iorque, onde são advogados. Mas Jim é uma estrela (ganhou um caso ultramediático e ficou conhecidíssimo) e Bob é um pobre diabo que faz trabalho de sapa, bebe, foi abandonado pela mulher, tem pouco dinheiro e... é muito melhor do que o irmão, pois está sempre a tentar contemporizar e ajudar os outros. Desta feita, ambos sabem que o sobrinho, filho da irmã que nunca quis sair do Maine, foi acusado de um crime de ódio, tendo atirado uma cabeça de porco para dentro de uma mesquita onde rezava um grupo de refugiados da Somália. Então, deslocam-se ambos os irmãos ao Maine, para tentar ajudar o adolescente em termos judiciais, mas a verdade é que os insultos de Jim a Bob, seguidos de uma confissão sobre uma morte que aconteceu na infância, bem como o desaparecimento súbito do adolescente, mudam um pouco o rumo das coisas. Este é talvez o mais político dos livros que li de Strout, e talvez também o mais americano. Leiam-no e perceberão o que digo.