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Irmãos na desgraça

Já aqui aludi a um acontecimento dedicado às letras a que recentemente assisti na Cidade da Praia, em Cabo Verde. O convidado especial era, nesta primeira edição da Festa da Palavra, o Ceará, e – para falar com franqueza – não tinha ideia nenhuma de que havia uma afinidade entre este Estado brasileiro específico e o arquipélago, mas parece que é até bastante antiga. Aprendi, aliás, uma enormidade de coisas numa palestra muito interessante proferida por Simone Caputo Gomes, professora universitária em S. Paulo e especialista em literatura cabo-verdiana, sobre a irmandade das duas culturas. É que, tanto no Nordeste brasileiro como em Cabo Verde, a seca é recorrente, e os romances e poemas de ambos os lados do Atlântico (o Ceará é o estado brasileiro mais próximo do arquipélago) reflectem sobre essa circunstância e, pelos vistos, de forma muito obsessiva. Simone quis até citar uma canção cearense que bem podia ter sido escrita por um autor cabo-verdiano para ilustrar as parecenças. Porém, como o jovem que apoiava a sessão no auditório não percebia grande coisa de informática e trocava sistematicamente a peça musical pela música do próprio telemóvel – gerando umas gargalhadas –, a professora cansou-se e cantou ali em directo a canção Asa Branca sem inibição e com aquela graça que os brasileiros têm quando cantam. Foi um sucesso!

A ilha como cenário

Há pequenas pérolas que podem escapar-nos, sobretudo entre tantos calhamaços com capas cheias de relevos e vernizes, mas esta – garanto – seria uma grande perda se não se lesse. A Ilha, de Giani Stuparich, um livro anterior à Segunda Guerra Mundial e publicado agora em Portugal pela Ahab, que vem recuperando clássicos e alguns livros esquecidos ou ignorados pelo nosso mercado, é uma novelinha (ou um conto longo) absolutamente fascinante. Conta a história de um homem doente que pressente a proximidade da morte e desafia o filho a acompanhá-lo à ilha onde nasceu, no Adriático, que quer ver uma última vez. A descrição desses dias é dolorosa e magnífica, não só porque nos custa assistir a uma despedida que é, simultaneamente, uma luta constante contra o tempo, mas também porque, apesar da condição do pai, é o filho quem, pela preocupação excessiva e o pânico de que algo aconteça ao progenitor, parece o doente, e o velho quem, em contacto com os ares da ilha, se torna o mais enérgico dos dois. E, assim, o homem de idade descobrirá a importância de ter deixado descendência, enquanto o mais novo experimentará, fatalmente, a perda anunciada. Numa linguagem bela que me lembrou um pouco Lampedusa, eis um belo livrinho, a que Vila-Matas chamou nada menos do que «perfeito», para um par de horas extraordinárias.

Contradições

Estive há poucos dias em Cabo Verde numa feira do livro – a Festa da Palavra – em representação da Leya e a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde. Era uma feira relativamente pequena numa rua do centro da Cidade da Praia, o chamado Plateau; e, apesar de haver bastantes alunos de escolas secundárias nos colóquios que paralelamente se realizavam na Biblioteca Nacional, a verdade é que no recinto da feira não se via muita gente a comprar (nem mesmo a ver) e a quantidade de títulos disponíveis de livros «locais» era bastante reduzida (havia sobretudo autores considerados clássicos, muitos deles também publicados em Portugal, e livros de ensaio apoiados por organismos oficiais, mas nada de realmente novo). E, porém, 98% da população do arquipélago é alfabetizada, o que podia significar muitos potenciais leitores. Mas não: ou porque os livros são caros, ou porque não há ainda uma cultura da leitura, nem sequer na escola, os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade. Aparentemente uma contradição, esta situação mostra que ter os instrumentos não chega para ser leitor. Porventura, faltam ainda incentivos – como o do preço acessível e a constituição de bibliotecas escolares – e o estímulo que as famílias de não leitores e os professores sem hábitos de leitura ainda não conseguiram dar.

Contos do Nobel

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Gabriel García Márquez escreveu bastante, para gáudio dos leitores que apreciam a sua prosa. Mas, como sempre acontece com os grandes romancistas, os seus contos andavam por aí espalhados em livros e jornais, não tendo nós até agora em Portugal acesso ao todo maravilhoso destas histórias mágicas. Foi uma bela ideia a que teve a Dom Quixote este ano de reunir num só volume – com capa muito bonita, ainda por cima – os contos do escritor colombiano publicados entre 1947 e 1990. Contos Completos é seguramente leitura compensadora para quem já o conhecia e pode desfrutar de uma narrativa por dia – e também para quem quer tomar pela primeira vez contacto com o vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1982, mas prefere apalpar terreno antes de se atrever a um romance. Vamos a isso?


 


 


Malditos russos

Na capa, há uma burqa azul-clara pendurada num gancho numa parede de uma divisão aparentemente vazia. Se não me engano, trata-se de uma embaixada abandonada no Afeganistão, talvez a francesa, e ninguém sabe o que fazia lá aquela vestimenta, a menos que um dos funcionários diplomáticos tivesse um caso secreto com uma afegã. De qualquer modo, a coscuvilhice não é para aqui chamada, mas a burqa é importante porque, em Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi – o livro que aqui me traz hoje –, há uma mulher misteriosa que o narrador viu de costas vestida de azul-claro num dia muito especial e que reaparece de vez em quando ao longo da narrativa, seja nos sonhos, seja na realidade do terrível quotidiano do pobre Rassul, mas sempre a fugir. E o dia da sua primeira aparição foi especial porquê? Bem, Rassul queria livrar a namorada de uma patroa autoritária que a escravizava, mas, quando já tinha o machado bem a jeito junto do pescoço da velha, lembrou-se de Crime e Castigo, de Dostoiévski – e a coisa saiu-lhe para o torto. Só que, no Afeganistão presente, ler os russos cai mal – e tê-los na «estante» é um problema suplementar para quem já estava metido numa alhada das grandes. Diferente de quase tudo quanto li até hoje e francamente desconcertante, este romance do afegão que escreve em francês e já ganhou o Goncourt é, segundo a crítica, o ponto mais alto da sua carreira.

Autobiografia Política

Quando estava na Temas e Debates, publiquei alguns livros de Mário Soares, embora a sua editora fosse – e ainda é – Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores. Mas acompanhei-o nos lançamentos em várias cidades do País e tive muitas vezes o privilégio de o ouvir relatar episódios da sua vida durante a ditadura. Goste-se dele ou não, é impossível negar que o ex-presidente Soares é o político mais digno desse nome com que Portugal contou nos últimos trinta e tal anos, o mais experiente, mais internacional e mais culto que alguma vez tivemos (e provavelmente viremos a ter). Ora, este senhor octogenário não pára e vem dar mais um contributo importante nesta época de crise com um ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que dá pelo título Um Político Assume-se. Testemunho seguramente ímpar de um político militante que se soube adaptar às mudanças na Europa e no Mundo, este é um texto que conta a história do seu envolvimento antes e depois do 25 de Abril e inclui, para quem tenha curiosidade, declarações bem interessantes sobre a sua mais recente derrota nas presidenciais. Algumas fotografias em extra-texto abrilhantam o volume.

Dias mais belos

Vêm aí dias muito difíceis e felizmente alguém decidiu ajudar-nos a torná-los mais belos e saborosos. Como acontece de há alguns anos a esta parte, vamos ter de novo duas agendas muito especiais. A primeira é o Poemário, que tem um poema por dia para lermos durante o ano de 2012 de autores tão distintos como Herberto, Pessoa, José Agostinho Baptista ou Al Berto. A segunda chama-se Culinário e pretende presentear-nos com receitas para todo o ano (para quem tem falta de imaginação na cozinha é o presente ideal), algumas das quais – calculem! – retiradas do Antigo Testamento. A ideia, de resto, é convidar os leitores a conhecerem melhor as obras de onde foram extraídas. Portanto, para líricos e gulosos, o problema está decididamente resolvido; para os outros, está na hora de deitar fora aquelas agendas cinzentonas e mudar para uma destas, cujas capas são uma obra de arte.

Inspiração para quê?

Numa mesa-redonda reunindo cinco escritores não muito conhecidos de vários países (que a Feira denominou, com outros vinte, «os 25 segredos mais bem guardados da América Latina» – a precisarem de divulgação, em suma), o moderador perguntou se havia alguma coisa neste mundo globalizado que de certa forma influenciava a sua escrita. A chilena e o mexicano falaram de infâncias passadas a ver televisão e referiram-se também à leitura e à Internet, da qual o segundo foi muito crítico, dizendo que gerou dúzias de jornalistas instantâneos que retiraram à escrita informativa o que ela tinha de belo. Por seu turno, o guatemalteco disse não precisar mais do que a realidade do seu país para escrever, contando que, na semana anterior, numa prisão, os guardas tinham andado a jogar à bola com a cabeça de um homem que haviam eles próprios decapitado; a hondurenha – que não consegue publicar o que escreve no seu país – pareceu saber o que isso era, explicando que, em sua casa, referindo-se às pessoas que são mortas todos os dias, já só perguntam: hoje foram quantas? E o jovem equatoriano explicou que, dois dias antes de chegar a Guadalajara, fora à padaria e a rapariga que lhe vendera o pão tinha marcas de uma corda grossa no pescoço; e que, no regresso a casa, construiu um conto na sua cabeça sobre ela. Realmente, com um quotidiano assim, quem precisa de outra inspiração?

Publicidade encapotada

A Notícias Magazine – que é, segundo creio, a revista mais lida em Portugal – apareceu de cara lavada, com novos cronistas, boas reportagens e mais páginas. A diferença pareceu-me francamente para melhor e encontrei nesta sua nova «estreia» mais sumo e mais qualidade. Eis se não quando, ia eu lançada no elogio mudo, apareceu uma entrevista a Margarida Rebelo Pinto fora do desenho e do espírito que vinha apreciando. Torci ligeiramente o nariz, mas pensei cá com os meus botões que, apesar de tudo, uma revista que quer conservar um grande número de leitores não pode armar-se em elitista. Passei as páginas até ao fim e pu-la na pilha dos jornais «vistos» no fim-de-semana, já conformada. Chegou então a vez de o Manel a ler e, bem mais atento do que eu, logo desfez o equívoco: aquelas quatro páginas eram, afinal, publicidade – da editora, suponho – ao novo romance da popular escritora. Fiquei sem saber se era bom ou mau sinal. A palavra «publicidade» estava lá escrita num cantinho, é certo, mas a verdade é que parecia opção da redacção da revista dedicar uma atenção especial ao assunto. No momento em que escrevo este post, desconheço se, em números seguintes, o espaço fica reservado para outro atrevido que queira publicitar um produto de forma assim encapotada; mas achava mais bonito que daqui para a frente os entrevistados fossem uma opção apenas da revista, e não dos anunciantes.

Pais autoritários

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A Feira do Livro de Guadalajara, embora com três dias reservados a negócios, um país convidado (neste ano, a Alemanha), os stands das editoras, o Centro de Agentes e uma área internacional, não se assemelha muito à Feira de Frankfurt; é, acima de tudo, um festival literário – e neste ano tinha cerca de 150 escritores em actividade permanente, encontrando-se com os leitores, os alunos das escolas, apresentando livros, fazendo sessões de autógrafos e conferências. Com as salas sempre cheias, lembrou-me – embora a dimensão fosse outra – as nossas queridas Correntes d’Escritas, nas quais é preciso chegar cedo para não se ficar sentado nos degraus duros ou mesmo fora da sala. Em Guadalajara, uma das sessões mais aguardadas (e com o auditório a abarrotar) era uma conversa com dois Prémios Nobel da Literatura – Herta Müller e Vargas Llosa – conduzida por Juan Cruz. Quando este perguntou ao escritor peruano se se lembrava quando e porque começara a escrever, este foi categórico. Os pais haviam-se separado logo a seguir ao seu nascimento e tivera uma infância felicíssima junto da mãe e dos avós maternos. Inesperadamente, o pai e a mãe reconciliaram-se quando tinha onze anos e isso veio perturbar dramaticamente o seu equilíbrio emocional, até porque – frisou – o pai era um homem muito autoritário. Para fugir a esse jugo, Vargas Llosa começou a ler furiosamente, vivendo vidas diferentes da sua – e isso levou-o naturalmente à escrita. Quase me apetece dizer: Bendito pai autoritário...


 



Um termómetro com graça

Já aqui contei algumas histórias divertidas passadas em livrarias e geradas por equívocos ou ignorância de quem estava a vender. Umas aconteceram comigo, a outras assisti enquanto cliente que aguarda a sua vez. E, mesmo que, no fundo, o desconhecimento gritante de coisas básicas seja uma coisa muito triste, a verdade é que não conseguimos deixar de rir – ou, pelo menos, sorrir – com certos dislates e confusões que testemunhamos. Vem isto a propósito de um blogue que me aconselhou a minha amiga Aldina Duarte chamado A Livreira Anarquista. Nele, além de posts fotográficos de extremo bom gosto, que não raro representam mulheres a ler em cenários de todo o tipo (e com os quais a autora do blogue se identifica sempre com uma tirada cheia de bom humor), uma livreira inteligente e culta narra episódios vividos na livraria onde trabalha quase sempre hilariantes. Porque quem passa o dia a vender livros encontra obviamente de tudo, e muitos dos que vão comprar demonstram que o seu nível de conhecimentos precisava mesmo de subir (com leituras de qualidade, de preferência). Entre muitos exemplos, cito apenas o caso de uma senhora que pede Os Maias, de Elsa de Queirós, e o de uma mãe que pede uma gramática para o seu pimpolho, mas que, quando a livreira lhe pergunta para que ano a quer, responde que, claro, para 2012... Embora rir da desgraça alheia não seja propriamente bonito, este blogue, para quem estiver interessado em espreitar, pode ser um bom termómetro (como aquela reportagem que saiu recentemente na revista Sábado sobre estudantes universitários) para aferir o estado da cultura nacional. Pode chegar lá através da barra aqui ao lado.

Um prémio para os animais

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A sessão inaugural da Feira do Livro de Guadalajara incluía a atribuição de um prémio à obra de um escritor de línguas românicas (Lobo Antunes foi o feliz contemplado em 2008, mas tenho ideia de que não o foi receber) no valor de 150 000 dólares. Desta feita, o sortudo era o colombiano Fernando Vallejo, que é claramente um autor controverso e uma pessoa com aquela frontalidade incómoda que nem todos aguentam (o seu discurso foi tudo menos plácido, sobretudo no que tocou à Igreja, que se percebeu ser um seu inimigo figadal). O programa impresso que nos entregaram à entrada oferecia uma biografia mais ou menos extensa do escritor, destacando o seu amor aos animais e a sua militância na luta pelos direitos destes. A fotografia, por assim dizer, oficial do catálogo exibia-o com um gato ao colo e, referindo-se a um certo cardeal mexicano, Fernando Vallejo disse que lhe falava porque tem muito respeito pelos animais e ele é um verdadeiro pavão... Conheço várias pessoas que não comem carne porque estão contra os métodos usados na criação, transporte e abate dos animais que a fornecem. Trabalhei até com uma pessoa que chorava mais quando ouvia histórias de cães e gatos abandonados do que quando se falava dos abusos praticados em crianças (aí, o sua expressão era de asco, não de comoção). Mas nunca tinha ouvido um escritor recusar «em directo» tanto dinheiro. Fernando Vallejo, quando tomou a palavra para fazer os seus agradecimentos, anunciou imediatamente que o valor do prémio seria dividido por duas sociedades protectoras dos animais. Depois soube que, quando uns anos antes ganhou o prémio Rómulo Gallegos, ofereceu os 100 000 dólares a uma outra organização que trabalha na defesa dos direitos dos animais. É mesmo precisa paixão e coragem para se fazer uma coisa destas.


 


Mártires à tardinha

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Hoje à tarde realiza-se o lançamento público do último romance de João Tordo, cuja história inclui uma investigação do próprio autor (no livro levada a cabo pelo narrador) sobre as inconsistências e divergências relativas à história de Catarina Eufémia nos vários textos ensaísticos e ficcionais que sobre ela se escreveram. Mas esse, digamos assim, é apenas o ponto de partida para se reflectir sobre a crise que assola a Europa, o jornalismo alinhado e o jornalismo displicente, a apropriação política dos mártires, o papel dos mitos e o comportamento de uma certa juventude perdida. A apresentação será feita por José Pacheco Pereira às 18h30, no Museu da Electricidade (Av. de Brasília, Central Tejo, Lisboa). Não falte.


 


O quê?

Os livros em vários volumes são raros, excepto se estivermos a falar de histórias de vampiros ou quejandos, cujos autores e editores costumam aproveitar o sucesso do primeiro para explorar o filão até à náusea. Mas falo de literatura – e as trilogias e tetralogias contam-se pelos dedos (vá lá, das duas mãos). De qualquer modo, os japoneses são sempre uma surpresa (para mim, pelo menos) e o famoso Murakami, o mais internacional de todos, atreveu-se à obra de fôlego que, em Portugal, tem já o primeiro volume publicado, mas verá os restantes dois saírem para as livrarias em 2012 com tradução de Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso. O título é, no mínimo, estranho, 1Q84, qualquer coisa reminiscente do 1984 de Orwell, mas com o seu Q de enigmático. E a história gira em torno de Aomame e Tengo, dois professores que, afinal, não são só o que parecem e que, talvez por isso mesmo, o destino reúna num mundo que também só aparentemente é normal e no qual tudo acaba por ser questionado, incluindo a religião, a condição feminina e a corrupção – um mundo com um ponto de interrogação que busca, se não a nossa resposta, pelo menos, a nossa leitura.

Beleza

Embora haja uma leitora deste blogue que descobriu que os meus posts sobre poesia são os que menos comentários têm, nem por isso posso deixar de falar do tema, sobretudo tratando-se de alguém que merece ser lido e apreciado por todos. Por ocasião do recente congresso dedicado a Ruy Belo, a Assírio & Alvim pôs na rua nada menos do que três títulos: Homem de Palavra(s), saído pela primeira vez nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote em 1970, ainda no tempo de Snu Abecassis; uma antologia de textos escolhidos por um outro grande poeta – Manuel Gusmão – que dá pelo nome de Na Margem da Alegria; e ainda um belíssimo álbum de Duarte Belo, filho de Ruy, que reúne fotografias de manuscritos, objectos, jornais onde saíram textos do poeta, máquinas de escrever que este usou e até capas de livros – e cujo título é O Núcleo da Claridade. Uma boa maneira (ou três) de conhecermos melhor o escritor ou de travarmos finalmente conhecimento com ele.

Coragem

Sim, vai ser precisa coragem, porque estamos a falar de 850 páginas de letra miudinha. Mas dizem que Vida e Destino, de Vassili Grossman, traduzido por Nina e Filipe Guerra, é uma espécie de segunda Guerra e Paz (ainda só o farejei). O tempo da acção é, porém, o da Segunda Guerra Mundial, e a narrativa dos horrores a que a alma humana consegue chegar não se fica pela Alemanha – o país normalmente evocado nas ficções sobre o tema –, estendendo-se desta feita também à Sibéria (quase apetece dizer que um mal nunca vem só) para criticar o anti-semitismo do regime estalinista. No centro deste romance épico – que o KGB confiscou em 1961 e fez desaparecer durante vinte anos, tendo sido publicado em 1980 na Suíça e só em 1988 na pátria do escritor – está uma família da classe média que a vida e o destino dispersou entre o país em que hoje manda a senhora Merkel e a o país em que hoje manda Putin. Mas as personagens são muitíssimas e, entre elas, não faltam os responsáveis pelo Inferno, Hitler e Estaline. É a primeira vez que a tradução do original russo é publicada em Portugal e exige bom estômago e bons olhos.

Carta no baralho

Quando há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei aquele que era o segundo romance de Michel Houellebecq, intitulado As Partículas Elementares, houve muita gente que achou que eu perdera a cabeça. O livro era bastante polémico, evidentemente, e o autor tinha fama de ser uma carta fora do baralho, politicamente incorrecto, racista e bêbado. O seu romance seguinte – que já não publiquei, embora por razões que nada têm que ver com o facto de me terem chamado a atenção –, chegou a ser considerado ofensivo e até reaccionário. Previa-se, assim, que o escritor fosse perder a glória aos poucos, mas o que sucedeu foi justamente o contrário e ele acabou por conseguir que a crítica o aplaudisse e a Academia o premiasse nada mais nada menos do que com o famoso Goncourt. O romance galardoado saiu recentemente em Portugal e tem por título O Mapa e o Território. Desde logo, merece ser lido por contar com a tradução do poeta Pedro Tamen, mas é um retrato muito lúcido da sociedade contemporânea através da história de um homem que curiosamente também pintava retratos – entre eles, um do próprio autor – e da forma como ajudou um comissário da Polícia a esclarecer um crime terrível. Parece que Houellebecq entrou finalmente no baralho.

Falar em círculo

Vila-Matas é um dos mais interessantes autores espanhóis e falei não há muito tempo neste blogue do seu romance Dublinesca. É de certa forma à roda deste romance que gira o seu mais recente livrinho – chamo-lhe assim porque é mesmo pequeno – que não ouso classificar, pois, tendo aparência de ensaio (prefaciado e tudo), deita ficção por todos os poros. De qualquer modo, tem o título sério Perder Teorias e conta a história de um escritor (Vila-Matas, quem mais?) que, convidado para um festival de escritores em França, é depositado no hotel por um taxista português e nele permanece todo o tempo que devia estar no dito festival por ninguém aparecer para o orientar e ele não ter ânimo para se desenrascar sozinho. Aborrecido com essa ausência – mas nem tanto –, resolve então escrever uma nova teoria do romance, pensando sobretudo no seu próximo livro, que não é senão aquele Dublinesca de que aqui falei, saído, por acaso (ou não) antes deste – e não só em Portugal, em Espanha também. Regressado a Barcelona depois de não ter participado em festival nenhum, o romancista descobrirá, porém, a teoria bastante inútil (embora estejamos a lê-la e, como tal, provavelmente não o seja). Circular e delirante, este divertimento muito sério é um dos seis primeiros livros publicados pela novíssima Teodolito.

De volta

Cheguei ontem, bastante aparvalhada com a diferença horária e com a correria para apanhar os aviões todos, pois as escalas foram muito curtas. A mala só virá hoje, mais lenta do que eu - e mais pesada. Segunda volto à «vida» e haverá post, embora ainda não sobre Guadalajara, pois deixei alguns textos escritos antes de partir e só agora me porei a escrever sobre a feira mexicana. Agradeço a todos os comentários, desejos de boa viagem e fidelidade. Aproveitem o fim-de-semana para ler!

Intervalo

Pela primeira vez em mais de vinte anos de carreira, uma feira do livro estrangeira convida-me e paga-me para lá estar. Fica longe, bem sei, a cidade mexicana de Guadalajara – e tantas horas de avião vão ser mesmo um suplício. Mesmo assim, não iria dizer que não a um programa que inclui, entre outras coisas boas, dois Prémios Nobel da Literatura à conversa: Herta Müller e Vargas Llosa. Dificilmente teria oportunidade de os ver juntos outra vez... Resultado: aceitei e o blogue é que paga e vai ter de estar parado até ao fim do mês. Que me desculpem os leitores, sobretudo os que cá vêm ler-me todos os dias. Mas podem sempre trocar esta fraca prosa por umas horas extraordinárias com um bom livro.

O primeiro a saber

Um dia destes, jantámos com Pilar del Río e, como o assunto Nobel da Literatura veio mais uma vez à baila, ela contou-nos uma história deliciosa. Parece que, durante muitos anos, em Espanha, todos tinham esperança (e fé) de que o escritor Miguel Delibes recebesse, mais cedo ou mais tarde, o galardão (morreu, no entanto, em 2010 sem que isso chegasse a acontecer). Então, no dia e hora marcados pela Academia Nobel para o anúncio do premiado, não era raro ver à porta de sua casa um bando de jornalistas das rádios, televisões e imprensa espanholas, armados de gravadores, câmaras de filmar e canetas, para – a confirmar-se a suspeita – serem os primeiros a entrevistar o nobelizado. Mas, como disse, Delibes nunca chegou a receber o prémio. E, porém, num tempo em que estávamos ainda longe dos dispositivos portáteis e da tecnologia que permite saber a notícia em tempo real, o escritor dava-se ao trabalho de, assim que sabia quem fora o feliz contemplado por algum colega mais bem informado, vir cá fora dar a boa nova aos jornalistas, que tomavam nota, agradeciam e logo debandavam, deixando-o de novo em paz.

Mudanças de agulha

Num Natal passado, um dos meus irmãos teve um ataque de saudosismo e ofereceu-me de presente os DVD de uma antiga série de televisão chamada Holocausto, na qual praticamente se estreara a grande Meryl Streep e que fora um verdadeiro sucesso na altura em que a víramos juntos, ainda em casa dos pais. Os filmes e séries televisivas sobre a Segunda Guerra Mundial sempre constituíram um êxito no nosso país, ao contrário dos livros, que, à excepção de O Diário de Anne Frank e outros clássicos, foram sempre difíceis de vender – situação que se alterou apenas ao de leve com o testemunho de Irène Nemirovsky em Suite Francesa, a obra de Primo Levi ou o belíssimo A Música da Fome, do Nobel francês Le Clézio. Lembro-me de, em princípio de carreira, ir à Feira do Livro de Frankfurt incumbida de recusar delicadamente tudo o que me oferecessem sobre a Segunda Guerra Mundial, sob o risco de arranjar um mau negócio aos patrões; e de, mais tarde, essa espécie de restrição se ter estendido também à Guerra Civil de Espanha, uma vez que mesmo os melhores livros sobre o tema (vamos excluir Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway) – como Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas – tinham sido um flop em termos comerciais. Achei, por isso, engraçado que, entre alguns romances que publiquei no último ano, todos de autores portugueses, dois falassem justamente desta última guerra (Rio Homem, de André Gago, e Deixem Falar as Pedras, de David Machado, embora este só de raspão); e que um outro que publicarei em 2012 também se refira aos fuzilamentos de tantos civis na Galiza, tomando como personagens dois inimigos figadais com pais de lados opostos da barricada. Estarão por acaso as coisas a mudar e ainda me aparece um dia destes um romance português sobre o próprio Holocausto para avaliar?

Andar para trás

Agora, que os Portugueses estão condenados a grandes sacrifícios por via da dívida externa do País, disse-me um político e economista que não teremos outro remédio senão vivermos como vivíamos nos anos 80 do século passado. Os custos não serão apenas os reais (subsídios cortados, desemprego, ausência de regalias e férias passadas no autocarro para a Costa de Caparica, e não em Punta Cana ou Varadero), mas também os da chicotada psicológica que foi terem-nos permitido ao longo de tantos anos experimentar o que, afinal, não passava de uma ilusão. Quando ouvi aquilo, perguntei-me se não teria sido melhor não termos chegado sequer a provar a guloseima, já que a experiência de passarmos de cavalo para burro é seguramente mais traumática do que a de permanecermos potros toda a vida. Que será, por exemplo, ficarmos de repente sem estruturas como a FNAC – hoje parte integrante do nosso quotidiano – que, na Grécia, segundo contou ao Manel um editor grego, já fechou as lojas e saiu do país? Ou deixarmos simplesmente de publicar livros, como também lhe explicou esse editor, não porque não haja leitores, mas porque as lojas, com a crise, não encontrarão forma de pagar? Depois de vivermos – mesmo que num arremedo de sonho impossível – no século XXI, será que conseguiremos realmente recuar trinta anos?

Lisboa e Porto

O Manel nasceu no Porto (em Gaia, para ser mais precisa) e, terminado o liceu, fez o que era natural para uma pessoa do Norte: iniciou a sua vida universitária em Coimbra. Porém, com o pretexto de que era em Lisboa que viviam os escritores e tudo acontecia, mudou-se de armas e bagagens para a capital pouco tempo depois, acabando aqui o curso de Direito. Muitos dos autores do Porto queixam-se de que são muito menos dignos de atenção por estarem longe do centro cultural do País – e talvez até tenham uma certa razão, se pensarmos que as revistas, os jornais e as televisões têm o grosso das suas redacções instalado em Lisboa e, quando precisam de um escritor para comentar qualquer coisa, é sempre na capital que o desencantam. É também em Lisboa que se vendem mais de 60% dos livros de Portugal inteiro, incluindo os vendidos no Porto, e que se apresentam mais livros em lançamentos públicos (porque até os autores do Porto quase sempre «reclamam» um segundo lançamento na capital, aproveitando a oportunidade para umas entrevistas). O Porto não tem obviamente a mesma dimensão que uma cidade como Barcelona tem para o país vizinho (e cuja concorrência com Madrid é fortíssima), mas tenho pena de que a geografia possa ser responsável pelas carreiras um pouco mornas de alguns escritores do Norte, que em nada ficam a dever a muitos dos seus colegas alfacinhas. Não me parece sequer que o asfalto das milhentas auto-estradas que se construíram os tenha ajudado.

Histórias Picantes

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À semelhança do que foi feito à roda do chocolate no ano passado, a Casa das Letras reúne agora num volume um leque de histórias que ardem na boca. Pediram-me uma e não sei se consegui cumprir, mas, para quem goste de ler e de pratos picantes, aqui tem este volume bonito (um bom presente de Natal) que junta contos de diversas autoras com receitas de fazer sair fumo pelo nariz. O lançamento é hoje às 18h00, na Livraria Barata, com apresentação do jornalista João Gobern.


 


Um clássico moderno

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Miguel Real leu o clássico de José Alencar sobre o tema e decidiu fazer uma espécie de réplica. Chama-se A Guerra dos Mascates e conta a história de um conflito entre aristocratas e comerciantes no Brasil do século XVIII, que leva, entre outras coisas, à elevação de Recife a cidade numa altura em que, no Pernambuco, Olinda era a única digna desse nome. Por estas páginas passam personagens deliciosas, algumas transitando de outros romances do autor, como Julinho e Violante, outras novinhas em folha, como o fantástico Lula Aparecido da Silva. A apresentação é hoje, na Livraria Fnac Colombo, pela professora Inocência Mata. Estão todos convidados.


 


Descascar o mito

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Recentemente, João Tordo «passou a coroa» à brasileira Andréa del Fuego, vencedora do Prémio Literário José Saramago de 2011 com o romance Os Malaquias, a publicar em breve pela Porto Editora e pelo Círculo de Leitores. Mas o galardoado em 2009 não parou de escrever durante o reinado e volta agora aos escaparates com um novo romance, Anatomia dos Mártires, no qual um jovem jornalista – ambicioso e ignorante – se verá enredado numa teia de acontecimentos que o levarão a investigar em profundidade a verdadeira história de Catarina Eufémia – a camponesa assassinada pela GNR em Baleizão nos anos 50 do século passado. Decorrendo em plena crise europeia – portanto, actualíssimo! – e com acção em Lisboa, Berlim e Dublin (é, desta feita, uma jornalista irlandesa a apaixonada do narrador), este romance descasca os mitos dos mártires religiosos e políticos de forma polémica e empolgante, confirmando João Tordo como um dos nomes mais consolidados da sua geração. A capa, do Rui Garrido, é belíssima.


 



 

O rapaz e o homem

Deliciosa novela esta, para ler de fio a pavio durante um serão, porque as páginas são menos de cem e a letra grande para não cansar os olhos. Boa noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio, é uma história inteligente e bonita que cruza o jovem aspirante a caixeiro António Felício e o tradutor Soares no escritório dirigido pelo senhor Vasques, onde também circulam o Moreira, o Borges e outras personagens que facilmente reconheceremos do Livro do Desassossego – porque este Soares que convoca o respeito e exerce o fascínio do António não é senão o Bernardo, heterónimo de Pessoa, um tipo bastante neurasténico que escreve poemas e come pouco, fala quase nada e está atento a tudo, mesmo quando parece que não. Contada pelo António – moço que veio da província e se instalou em casa da irmã, moura de trabalho por causa de uma sogra e de um marido insuportáveis que só merecem ser conhecidos no papel –, esta é a história do pequeno a olhar para o grande, do provinciano a admirar a capital, do rapaz sensível com medo de se rir da estranheza do génio. De leitura extremamente aprazível e até ternurenta, não falha nesta novela uma referência de passagem a Tiago Veiga, protagonista do mais recente livro do autor, como um anúncio velado do que estaria para vir.

Um novo evangelho

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Acabo de lançar um romance intitulado Os Últimos Dias de Pôncio Pilatos, da autoria da açoriana Paula de Sousa Lima. Centrado na figura de Pilatos – e na da sua mulher, Cláudia Prócula, uma das primeiras seguidoras de Cristo –, ele conta a história do casal nos seus últimos dias, quando Pedro e Paulo, perseguidos pelos Romanos, enfrentam a morte, e Pilatos se encontra, já ancião, a escrever um evangelho, única forma que descobriu de expiar a culpa e o arrependimento pelo destino trágico de Jesus. A narração dos sonhos premonitórios de Cláudia – que sabe desde a infância estar destinada a um marido que reconhece mais tarde na figura de Pôncio Pilatos – é fulgurante, bem como a recuperação dos episódios da vida de Cristo narrados por Pôncio nos seus escritos ou a descrição belíssima das investidas romanas no seio da seita cristã através das imagens de pássaros negros e nuvens vermelhas. E, com o prazer da leitura, vem igualmente o da tomada de conhecimento de factos menos difundidos, como o da intervenção de Cláudia na escolha dos seguidores de S. Pedro ou o fim do imperador afastado do poder. Para apreciadores de romance histórico, mas não só, este é um romance que sugere a existência de um evangelho que ainda não foi encontrado.


 


Reunião

Um dia destes, o Manel chegou a casa com uma boa novidade. Tratava-se, claro, de um livro, mas a verdade é que, sendo ambos editores, trazemos para casa tantas vezes livros que estes já custam a causar-nos surpresa. Porém, desta feita o exemplar que estava pousado no braço gordo do sofá era um livro de poesia – e tanto mais surpreendente porque publicado pela Quetzal, que, normalmente, não se dedica ao género. Mas, além disso, quem o assinava era João Luís Barreto Guimarães, um poeta que muito estimo e de quem nem sempre é fácil encontrar livros à venda nas nossas livrarias, com a obra espalhada por editores que desapareceram de vez ou que, pela sua dimensão, nem sempre conseguem espaço no ponto de venda. E, contudo, agora temos aí para ler e nos deliciar a Poesia Reunida deste autor, que começou a publicar no final dos anos 1980 e, como diz José Ricardo Nunes – outro poeta – no posfácio, nos oferece um universo quase transparente numa rara atenção ao quotidiano. Sinta-se convidado a ler.

Um abraço a todos

O País vai de mal a pior e estamos mesmo a precisar de mimos. Pois bem, um escritor português chamado José Luís Peixoto decidiu dar-nos um Abraço em forma de livro. Trata-se de uma colectânea de textos que escreveu ao longo do tempo e que, falando de si próprio e das suas memórias – o Alentejo, a infância, os amores, as leituras, as viagens –, nunca deixam o leitor de fora, envolvendo-o num abraço muito especial. Dividido em três partes – seis anos, catorze anos e trinta e seis anos: as idades, respectivamente, do seu filho mais novo, do seu filho mais velho e a sua –, este volume que ultrapassa as seiscentas páginas inclui alguns dos mais belos textos do autor, publicados em jornais, revistas e antologias, nos quais nos é estendida a mão para uma certa intimidade e ternura a que não poderemos ficar indiferentes. Experiências do ofício de pai e escritor, reminiscências de autores marcantes, reflexões sobre o presente e o passado do País, tudo cabe nestes textos envolventes como um verdadeiro abraço. Aproveite o mimo.

Poesia em prosa

Não é fácil fazer perguntas a um poeta sobre a sua obra – e às vezes é precisa a cumplicidade de um confrade para deixar sair o que se pensava impartilhável. A poetisa Ana Marques Gastão, que trabalhou ao longo de muitos anos no Diário de Notícias, entrevistou mais de quarenta poetas contemporâneos de várias gerações para o jornal e coligiu agora esses textos – revistos e aumentados – num volume que dá pelo título O Falar dos Poetas. Incluindo nomes tão distintos como Ana Hatherly, Vasco Graça Moura, Eduardo Pitta ou António Franco Alexandre – e não esquecendo outros, mais novos, como Tolentino Mendonça ou Luís Quintais –, este é um livro para matar a curiosidade sobre alguns autores, mas também para servir de guia e orientação a quem os estuda. Num formato grande e com excelente apresentação, uma boa forma de fazer falar, em prosa, umas dezenas de poetas.

O trabalho compensa

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Já sabemos que saem em Portugal cerca de quarenta livros por dia e que as livrarias e os supermercados não conseguem acolher tudo ao mesmo tempo. Primeiro devolvem-se os monos – que apresentam vendas insignificantes – mas, logo a seguir, vão os livros de venda média, de autores estreantes ou, pelo menos, não consagrados, porque é preciso lugar para as novidades. Faz agora um ano publiquei o romance Rio Homem, do actor e encenador André Gago, que Lídia Jorge apresentou no dia do lançamento. O autor trabalhou nele dez anos e, quanto a mim, fez uma estreia invulgarmente boa no mundo da ficção. E o trabalho compensou porque, recentemente, lhe foi atribuído o Prémio de Primeira Obra pelo PEN Clube, o que quer dizer que temos um bom pretexto para o recolocar nas mesas e estantes dos pontos de venda, onde há muito não estava. Se da outra vez não deu por ele, eis uma segunda oportunidade que não deve perder.


 


Heróis anónimos

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É já hoje o lançamento do novo romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas, apresentado na Livraria Bulhosa de Entrecampos, às 18h30, pela professora Annabela Rita. Nele se celebram os heróis anónimos que, não ficando para a História, são decisivos nas alterações históricas das respectivas nações. Desta feita, o protagonista chama-se Vicente Maria Sarmento e está apostado em salvar da má vida a sua amante, até agora estrela de um bordel na Venda do Negro, propriedade de um homem sem língua mas sempre com pistolinha à mão. A tarefa não se revela, porém, fácil – são muitos os rivais – e o nosso Vicente da Bufarda terá de regressar ao crime para garantir o futuro da sua dama. O ouro e as jóias da rapina não pertencem, mesmo assim, a quem calculava – e há de certeza um rei português bastante aborrecido por, de repente, se ver sem fundo de maneio para as despesas da guerra. Divertido e com uma linguagem cuidada, este é um romance digno da melhor literatura picaresca. Apareça.


 


A doença da culpa

Muito bom o último Philip Roth publicado em Portugal – Némesis. Uma história passada em Newark no ano de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, no Verão que se seguiu ao desembarque na Normandia. Não se trata, porém, de um livro sobre a guerra (que, apesar disso, não deixa de estar presente), mas da chegada intempestiva de um vírus de poliomelite ao bairro judeu (e a outros bairros vizinhos) num período que é, obviamente, anterior à vacina. O protagonista do romance é um jovem atlético que toma conta de um grupo de crianças e adolescentes num campo desportivo durante as férias. Bucky (ou senhor Cantor, como preferirem), embora os casos não parem de aumentar entre os seus rapazes – e se tenham já verificado algumas mortes –, resiste estoicamente a abandonar o campo, apoiando os alunos e os respectivos pais. E, porém, quando a epidemia se instala, será acusado por alguns deles de ser responsável pelo contágio, tomando uma decisão que mudará completamente o seu destino. Roth é exímio em factores surpresa, pelo que o narrador deste romance se revelará apenas já passada a metade do livro. Mas é mesmo preciso chegarmos ao fim para apreciarmos este jogo fascinante de culpa e expiação, de doença e cura, de vingança como castigo para o único momento de fraqueza. Indispensável ler.

Gavetas

Quanto trabalhei na Temas e Debates (que hoje só edita livros de não-ficção, mais de acordo, aliás, com o seu nome), publiquei os dois primeiros romances de Jonathan Safran Foer – na altura um dos mais promissores romancistas norte-americanos, segundo a revista Granta; da lista de talentos fazia também parte uma menina bonita de Nova Iorque que soube mais tarde ser a mulher do escritor: Nicole Krauss, cuja primeira obra publicada em Portugal se intitula A História do Amor, romance que venceu dois prémios importantes e foi finalista de quase todos os outros que valiam a pena, quer nos EUA, quer nos países em que foi traduzido (como o Médicis e o Fémina). Saiu recentemente desta autora o romance A Grande Casa – e não é por acaso que, na sua belíssima capa, não existe nenhuma casa, mas, afinal, apenas três gavetas. É que a história gira em torno de uma secretária enorme, que pertenceu a um poeta desaparecido no Chile de Pinochet e acolheu depois – e ao longo de vinte e cinco anos – os escritos de uma romancista americana, a quem a filha do poeta aparece um belo dia para reclamar o móvel de que é herdeira. Mas a secretária tem o poder de mudar a vida a quem a possui ou se desfaz dela e, por isso, a desta mulher solitária nunca mais será igual. O mesmo acontece, de resto, a todas as outras personagens que, ao longo do século xx, estiveram na posse da dita secretária. Misterioso e belo, o romance visita lugares distintos em alguns dos mais importantes acontecimentos dos últimos cem anos e, de acordo com a crítica, irá granjear ainda mais leitores para a jovem Krauss.

Privado e público

À semelhança do que fez Georges Duby há muitos anos em França, o historiador José Mattoso dirigiu recentemente uma obra colectiva para o Círculo de Leitores e a Temas e Debates que dá pelo nome de História da Vida Privada em Portugal. Dividida em quatro volumes – Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea e Os Nossos Dias –, cada um deles coordenado por um especialista na época respectiva, este é um monumento histórico que torna público o privado, abordando temas tão variados como a família, a casa, o convívio, o corpo, a sexualidade, a religiosidade, as festas ou as representações da morte. Profusamente ilustrado e num formato simpático que se pode abrir no colo sem dificuldade, o conjunto destes quatro livros deixará a nossa curiosidade sem dúvida satisfeita no domínio do doméstico e do íntimo. Para os que tiverem coragem, o texto pode ser lido de um fôlego; para os que, como eu, preferem a ficção, é bom arranjar um lugar na estante para abrigar esta fantástica obra de consulta e ir lá espreitar de vez em quando.

Agustina

Um olhar muito vivo e um discurso calmo mas decididamente desarmante, uma inteligência fina e uma atracção por coisas boas (uma carteira de crocodilo, por exemplo, comprada na Suíça na minha presença – e quanto custou!), são tudo características que recordo da figura. Vi recentemente no jornal que Agustina Bessa Luís fez 89 anos. Talvez pela situação em que se encontra – afectada na sua capacidade criativa por uma doença, tanto quanto sei, irreversível –, Agustina não tem sido muito falada nos nossos meios de comunicação nos últimos tempos, embora não se possa obviamente dizer que já foi esquecida. A verdade, porém, é que, nesta fogueira de vaidades que é o nosso meio artístico, quem não aparece arrisca-se a ser riscado do mapa – e isso seria grave para uma autora como ela. Ignoro se os jovens continuam a ler A Sibila na escola secundária (espero que sim), mas, para quem não teve ainda oportunidade de tomar contacto com a senhora do Norte, essa é talvez a melhor obra para começar; de qualquer modo, Agustina foi relativamente prolífica e não faltarão títulos a que deitar a mão. O que não podemos é esquecer o que escreveu por ela estar de algum modo retirada, pois trata-se de uma das mais importantes vozes literárias do século xx.

Malhados e corcundas

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Nas guerras liberais, os malhados eram os liberais e os corcundas os absolutistas. Estes faziam demasiadas vénias, andando sempre curvados ao seu rei, daí o epíteto; e, porque uma mula malhada se empinara e deixara cair D. Miguel ao chão, passaram a dizer-se malhados os partidários do seu irmão D. Pedro. Ora, é no contexto desta guerra que se desenrola o último romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas – a deliciosa história de Vicente Maria Sarmento, regressado a Chão de Couce depois de uns anos na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, pronto a regenerar-se e a viver em paz e decência o resto dos seus dias com a puta Tomásia, que não conseguiu esquecer desde que rumou à capital. Mas, se os dois irmãos estão em guerra pelo trono de Portugal, a Vicente Maria também não são poupados adversários e rivais, e as suas boas intenções ver-se-ão sistematicamente goradas. Valer-lhe-á um último golpe de má conduta, mas o acaso pregar-lhe-á uma partida das grandes, mostrando que um pequeníssimo imprevisto pode, realmente, mudar a história de um país inteiro. Cheio de humor e recorrendo a uma linguagem rica e poderosa, eis o novo romance de um escritor que se tem destacado na literatura picaresca em Portugal.


 


Leitores

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter. Contudo, O Leitor de que hoje falo é um dos protagonistas do bonito livro de Bernard Schlink: um adolescente que se inicia sexualmente com uma mulher bastante mais velha, com quem mantém um ritual de banhos e leituras, descobrindo, muito mais tarde, que ela foi guarda num campo de concentração nazi. O romance já deu um belo filme – o que ajudou seguramente a que muitos comprassem o livro –, mas aqui fica mais uma chamada de atenção para um pequeno romance fascinante, traduzido em cerca de quarenta línguas.

Contos

Já aqui escrevi sobre a dificuldade de publicar em Portugal colectâneas de contos. Talvez os portugueses prefiram romances, uma vez que, se o autor não é já bastante conhecido, raramente os contos vingam, sobretudo comercialmente. Pressionados pela nossa desconfiança em relação ao seu sucesso, nós, editores, só arriscamos quando o conjunto é realmente excepcional. Todavia, a iniciativa que a FNAC tem há vários anos de publicar no Dia Mundial do Livro uma pequena colectânea de contos, cujos direitos revertem para a AMI, é uma boa excepção. E a última edição de O Prazer da Leitura é uma grata surpresa. Não só porque inclui alguns nomes que trabalham frequentemente o género – como Ondjaki – ou mais sonantes – como Dulce Maria Cardoso –, mas também algumas das promessas da literatura portuguesa – como Afonso Cruz e Ricardo Adolfo – e ainda uma estreia completamente inesperada num livro de ficções: a de Onésimo Teotónio Almeida, que conhecemos melhor das crónicas divertidas e sagazes que publica há anos. Para uma viagem de autocarro ou uma hora na sala de espera do dentista, uma boa escolha – e suficientemente variada para agradar a todos.

Lugares donde não somos

Todos somos africanos, uma vez que era de lá, pelos vistos, o primeiro macaco capaz de dizer e pensar. Eu certamente que sou, embora só tenha estado em África três vezes e a primeira das quais já depois dos trinta. O meu bisavô esteve nas campanhas em Moçambique e casou-se com uma rapariga de Lourenço Marques; ela teimou em acompanhá-lo e acabou por morrer no mato com uma infecção oito dias depois de dar à luz a minha avó materna. Esta ficou entre os militares uns meses, amamentada pela mulher de um soba; e, depois de quatro anos na capital com a avó (da qual nada sabemos senão o nome), veio para a metrópole com o pai, onde viveu até se casar. O marido – um brasileiro provavelmente descendente de outro africano traficado – levou-a mais tarde para Angola, donde regressou ao fim de um ano com a minha mãe na barriga (concebida, portanto, em África). Interrompeu-se aqui o ciclo africano da família, mas tenho já um sobrinho no Brasil à procura de uma oportunidade de trabalho que, se não fosse publicitário, podia muito bem estar em Luanda a esta hora. Enfim, apesar da segregação em 1975, na sequência da maior ponte aérea de todos os tempos (meio milhão de pessoas!), todos somos bisnetos, netos, filhos ou amigos de retornados. (Muitos dos autores que lemos – Gonçalo Tavares e valter hugo mãe, por exemplo – nasceram nas ex-colónias.) E é deste retorno que fala o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso – ela que viveu na carne o choque de deixar a terra que era a sua para se ver instalada com a família, a milhares de quilómetros, num hotel transformado em lar para tantos repentinos sem-abrigo. Muito lobo-antuniano na sua cadência musical e na recorrência de certos elementos-chave, este é um livro importante por muitas razões, entre elas a de dar a conhecer, envolta num feito literário de respeito, uma situação vivida por muitos portugueses que outros tantos desconhecem ou preferiram ignorar. Francamente contundente, ele tem assim mesmo a qualidade de fechar a chaga que abre, convidando-nos não só a perceber o outro lado, mas a estar desse lado (porque nos sentimos irremediavelmente mais próximos de Rui – o narrador adolescente – do que, por exemplo, da directora do hotel ou da mais simpática Teresa Bartolomeu, colega de liceu do protagonista). Com uma construção primorosa entre memória, sonho, maturidade e decepção, O Retorno, assim se chama o romance, faz-se ao mesmo tempo arte e documento e, como tal, não se pode perder.

Da vida do editor

Desde que, em todo o mundo, as editoras se concentraram em grandes grupos, o papel do editor sofreu grandes alterações. Muitos dos que eram figuras de referência internacionais, ao venderem as suas editoras, tornaram-se assalariados e, em muitos casos, perderam autonomia: as suas escolhas têm hoje por base não apenas na qualidade dos livros, mas também a sua rendibilidade. Houve, porém, alguns que conseguiram manter as casas que fundaram e bem assim a sua linha editorial. Um deles foi o espanhol Jorge Herralde, o proprietário da Anagrama em Espanha, que só muito recentemente decidiu associar-se à gigante Feltrinelli para garantir a continuidade da empresa (pois não tem herdeiros), mas continua a publicar aquilo de que gosta e a usar as mesmas capas de há décadas, não se ralando com a profusão de cores, relevos e dourados que inundam o mercado. No texto de uma conferência proferida em Barcelona (e depois publicada em livro no México), Herralde, citando um outro editor (Olivier Cohen, da Seuil, esta já absorvida por um grupo), diz que não devemos julgar um editor pelos bons livros que recusou, mas pelos livros maus que publicou. Uma perspectiva, sem dúvida, interessante. E, mais adiante, fala da diferença entre as editoras de supermercado (que publicam tudo) e as editoras boutique (que fazem uma selecção de títulos apertada e criteriosa), avançando que muitos dos grandes grupos não resistem a ter uma destas boutiques, tal como os armazéns El Corte Inglés não podem deixar de vender a marca Armani. Se tiver razão, daqui a uns anos, é bem capaz de alguém se interessar pela Tinta-da-China...

Direitos de autor

O aparecimento dos e-books levanta várias questões, entre elas o problema da pirataria, uma vez que um hacker que se preze conseguirá sacá-los da Internet sem pagar e quiçá copiá-los indefinidamente e até comercializá-los, tramando o autor que, como proprietário dos direitos, ficará a ver navios em matéria de retribuição. Li algures, enquanto me preparava para um debate sobre e-books e livros em papel na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, que as bibliotecas americanas que «alugam» e-books a estudantes (e os compraram dentro da maior legalidade, suponho) estão impedidas de permitir mais do que 32 downloads de cada um (se o número estiver incorrecto, perdoem-me, mas foi o que me ficou na cabeça), tendo de voltar a comprar o livro quando estas «descargas» chegarem ao fim. Pois bem, se um e-book numa biblioteca americana vale 32 leituras, pois a verdade é que um livro em papel valia até agora todas as leituras possíveis e imaginárias (e o autor só recebera direitos da venda de um exemplar, situação bastante ingrata, mesmo tendo em conta que as bibliotecas existem para prestar um serviço público e promover a leitura, embora em Portugal algumas bibliotecas ainda pediam até há pouco tempo livros de borla aos editores). Estando as bibliotecas por esse mundo fora a digitalizar livros em papel constantes do seu acervo, os perigos da cópia e do roubo informático multiplicam-se, penalizando mais uma vez o autor; parece ser este o caso de uma biblioteca universitária, creio que em Michigan, que decidiu permitir downloads indefinidamente de uma lista de livros cujos detentores do copyright (autor ou herdeiros) não se acusem em 90 dias. Pois acontece que várias Sociedades de Autores (EUA, RU, Austrália, Canadá) se uniram para lhes pôr um processo e que a operação já foi interrompida. Mas, por essas e outras, há já um movimento para se cobrar por cada utilização de um livro, seja digital ou em papel, em todas as bibliotecas. Se isto for avante, os autores que se alegrem.

Línguas estranhas

É lícito que um autor português – como, de resto, um autor de qualquer nacionalidade – aspire a ser traduzido e publicado noutros países. Em Portugal, lemos provavelmente tantos livros traduzidos como livros escritos originalmente em português, mas, por exemplo, nos países de língua inglesa, a produção nacional é tão extensa que quase não há espaço para a publicação de autores estrangeiros. Quando entrei na edição, para além dos escritores portugueses consagrados, quase só estavam traduzidos os que, por razões de credo político, haviam conseguido entretecer-se nas redes clandestinas que os faziam sair nos países da Europa de Leste (e, provavelmente, nem ali eram muito lidos). Nos anos 90 – em parte por causa da atribuição do Nobel a Saramago, que abriu muitas portas – a situação melhorou bastante, mas continua a ser ainda hoje muito difícil colocar os nossos escritores no mercado internacional – sobretudo o de língua inglesa; mesmo que o português seja falado por milhares de pessoas em vários continentes, ele é para o grosso dos países estrangeiros uma língua estranha que praticamente ninguém aprende ou estuda, pelo que, em geral, as editoras não têm, entre os seus quadros, ninguém que possa ler e avaliar uma obra portuguesa com vista à publicação. Mas também em Portugal acontece algo do género, pois a produção editorial de livros estrangeiros não vai muito além dos autores ingleses, americanos, franceses, italianos e espanhóis, traduzindo-se meia dúzia de russos e alemães de comprovado gabarito (mas poucos contemporâneos) e um ou outro nome mais sonante dessa Europa que fala línguas minoritárias (como o sueco, o húngaro ou o neerlandês). Por isso mesmo, muitos de nós desconhecíamos o mais recente Prémio Nobel da Literatura, o poeta Tomas Tranströmer, como desconhecemos certamente uma enormidade de autores que se calhar fariam as nossas delícias, mas que, infelizmente, não há quem possa ler e traduzir.

Ossos do ofício

Sou muito pouco talentosa na cozinha e admiro quem fala de coulis, chutneys, espumas e reduções com a mesma familiaridade com que eu me refiro ao sal ou ao açúcar. Tenho uma amiga que cozinha muito bem e chega ao ponto de dizer que, quando olha para uma receita, sabe exactamente o que vai ter de alterar para que o prato fique completamente a seu gosto. Estou certa de que muitas pessoas que gostam de ler acham (um pouco ingenuamente, claro, porque só vêem o lado bom da profissão – passar a vida a ler livros) que o meu ofício é um dos melhores do mundo. E, porém, mesmo sem contar com o número de originais imprestáveis que ocupam seguramente grande parte do meu tempo, a verdade é que quem faz vida nos livros acaba por aparentar-se a essa cozinheira minha amiga: é que, por mais que tentemos, já não conseguimos ler virginalmente um livro, não conseguimos deixar de pensar que esta ou aquela frase a escreveríamos nós de outra forma, que resolveríamos uma situação criada pelo autor de um modo muito distinto (e, pensamos nós, de longe mais eficaz), que de maneira nenhuma optaríamos por aquela expressão para traduzir o que nos parece que o original dizia. Enfim, passa a ser tão difícil simplesmente lermos (ou lermos simplesmente) que um dia destes tropecei num livro no qual, ao fim de meia dúzia de páginas, já tinha alterado tanta coisa para poder gostar dele que achei melhor interrompê-lo e devolvê-lo à estante.

Literatura em filme

Fui ver o último filme de Woody Allen e, embora não tenha embandeirado em arco nem achado que era o melhor desde Match Point, como a crítica disse, assistir à obra cinematográfica deste judeu franzino nunca é dar o tempo por perdido. Penso, entre outras coisas, que o filme é muito feito a pensar nos americanos – e que nele existem talvez demasiados clichés para os europeus, mas isso não fere nem incomoda. A verdade é que Woody Allen sabe contar uma história como em literatura, tem sempre tiradas geniais e escreve os seus filmes como muitos escritores deviam escrever os seus livros – sem palha. Além disso, este Meia-Noite em Paris é, de certo modo, uma homenagem à arte, à literatura e a muitos artistas e escritores (se é que os escritores não são eles próprios também artistas) que escolheram a Cidade das Luzes como lugar de aprendizagem e criação. Se gosta de livros – e, em particular, dos autores que estavam no auge nos anos 30 –, não perca. É pura literatura.

Escritor-pessoa

Praticamente até ao advento das novas tecnologias, os escritores eram seres distantes que ninguém via, a não ser o editor que lhes publicava os livros. Não iam à televisão, não se faziam sessões em bibliotecas à volta dos seus livros, nem sempre se punham fotografias suas na badana das obras que deles se publicavam. A Internet, entre outras coisas, facilitou uma espécie de humanização do escritor e aproximou-o do público, que hoje pode ver e ouvir o seu autor favorito em qualquer lado aonde vá – e até corresponder-se com ele ou pedir-lhe facilmente um autógrafo ao vivo. Quando eu era adolescente, imaginava os escritores pessoas formais, fechadas em casa a escrever, muito sérias e contidas (excepto quando se tratava de sabidos noctívagos com pendor alcoólico, que também havia estereótipos desses). Foi, pois, com grande alívio que, numa noite de lançamento de um livro há mesmo muito tempo, vi o historiador José Mattoso (que até tinha sido frade) dançar o tango como ninguém e arrecadar o primeiro prémio nos Alunos d’Apolo. Pode parecer uma infantilidade – e não deixa de o ser – mas, alguns anos depois, quando visitei uma escola por causa de uns livros juvenis que então escrevia, ouvi uma menina dizer a outra em surdina: «Viste? Toquei-lhe no cabelo!» Depois, vieram os computadores, veio o futuro, e os escritores perderam a sua aura de pequenos deuses.

Ir para o céu

Passei a infância num Portugal amordaçado e cheio de vénias à Igreja católica, que mandava muito mais em tudo do que parecia. Para fazer a primeira comunhão, estudei por um catecismo na escola primária em que Eva e Adão andavam vestidos e eram lindos (não descendiam dos macacos nem se pareciam com os homens primitivos). O pecado e o castigo estavam estreitamente ligados – e, para completar o trio, a ideia do Inferno a arder para quem se portasse mal nunca deixava de estar presente. Porém, com o tempo – e embora continue a acreditar em Deus –, a ameaça das chamas diluiu-se, tal como a imagem de um paraíso perfeito onde todos poderão um dia ser felizes (desde que na Terra tiverem sido exemplares, claro). Por estas e por outras, fico um bocado desconcertada com o sucesso de livros que nos acenam com um lugar assim no fim das nossas vidas como o que há semanas não sai dos Top das livrarias e, ao que consta, narra a história de um menino que esteve morto uns segundos, falou com Deus e foi testemunha de que O Céu Existe mesmo. Nem sequer o abri, confesso, mas a ideia de haver tanta gente a comprá-lo faz-me pensar que ou não nos conseguimos ainda libertar desses símbolos com que nos moldaram a meninice, ou somos um País (quiçá um mundo, porque o êxito de vendas não se resume a Portugal) de pessoas tristes e perdidas que contam com o post-mortem para serem visitadas por algum tipo de felicidade, mas não querem, apesar de tudo, partir para o Além desavisadas. Com vendas de 3000 exemplares por semana só em Portugal, a história deste interlocutor privilegiado está, provavelmente, nas casas de muitas famílias que nunca tinham comprado um livro e quiçá não comprarão outro tão cedo.

Três vidas

As Três Vidas é o título do livro de João Tordo que venceu o Prémio Literário José Saramago em finais de 2009 e que é agora finalista – com a edição brasileira – do Prémio PT de Literatura. O título, para quem não leu o romance, é a tradução do nome de uma livraria de Nova Iorque – Three Lives – que, na história, está ligada à rapariga que o protagonista procura naquela cidade. Mas a expressão serve-me neste momento para outra coisa bem diferente, que vem a propósito de uma chuvada gloriosa de comentários neste blogue a um post que escrevi sobre o pretensiosismo de se citarem edições originais de livros que têm tradução portuguesa. Pois nos EUA e no Reino Unido a maioria dos livros têm três vidas – uma edição em capa dura (hardcover), uma em capa mole (paperback) e uma de bolso (pocket); alguns saltam a primeira, se se prevê que o número de leitores para eles é mais modesto, mas restam-lhes sempre duas. Em Portugal, até há pouco tempo, ficávamo-nos pela edição em capa  mole, já que a capa dura é cara de produzir e as tiragens pequenas não a justificam. Porém, o livro de bolso – ao contrário do que muitos disseram – teve recentemente um crescimento assinalável, com uma colecção de clássicos resultante de uma parceria de três editoras e outras duas colecções regularmente alimentadas pelos dois grandes grupos editoriais portugueses. Mas os leitores continuam a queixar-se de que se faz pouco (quem não se sente não é filho de boa gente) e dos preços dos livros de bolso, sobretudo se comparados com as edições do mesmo tipo noutros países. Ora, não podemos esquecer-nos de que vivemos num país pequeno; e que, se os nossos vizinhos espanhóis podem editar tudo em bolso porque são mais de 40 milhões (e não ficam com livros nos armazéns se fizerem tiragens de 10 000), aqui não podemos quase nunca ultrapassar os 3000 exemplares – e, ainda assim, com o risco de não os vendermos a todos. Além disso, em tiragens assim pequenas o custo unitário nunca desce o suficiente para permitir preços mais baixos do que os praticados. Não creio, pois, que se possa ir mais longe neste campo e penso que o que tem sido feito é já bastante louvável para merecer mais elogios do que críticas.

Parabéns

A Pedro Rosa Mendes (narrativa), André Gago (primeira obra), Jaime Rocha (poesia) pelos prémios PEN. Conheço os três e aqui vai o meu abraço.

Blogues literários

Os blogues multiplicaram-se nos anos recentes – e há hoje imensos blogues (o meu um deles) que falam de livros e literatura. Muitos, porém, debruçam-se unicamente sobre obra alheia e dão, acima de tudo, conta da saída de novidades, podendo, ou não, incluir umas linhas a seu respeito. (O que quero dizer é que não são blogues de criação literária, mas de crítica.) Quase todos os autores que publico têm, na verdade, blogues deste tipo, nos quais aproveitam também para informar os seus leitores das actividades que levam a cabo em torno dos seus livros e dos lugares onde vão estar a falar deles. (Tento acompanhá-los – nem sempre tão regularmente como gostaria – mas sentindo, apesar de tudo, que, no período entre encontros, me ponho a par da sua vida de escritores.) Há, porém, dois dos meus autores – Vasco Curado e Nuno Camarneiro – que usam os seus blogues com um propósito um pouco diferente: o da criação de textos literários ou de reflexão (mas não menos literários por causa disso). Ora, tendo eu encontrado neles dois textos que achei francamente interessantes – e armada em galinha a gabar os pintainhos –, aqui vos mando os respectivos endereços para que os possam igualmente ir acompanhando.


 


http://www.vascoluiscurado.com/blog/2011/08/22/campos-de-exterminio-campos-agricolas-campos-de-fadas/


 


http://acordarumdia.blogspot.com/2011/09/its-gonna-rain.html

Transportes públicos

Comecei há duas semanas – mas já o interrompi por causa de outros afazeres – o livro de Herta Müller que a Dom Quixote publicou recentemente e dá pelo belíssimo título: Hoje Preferia não Me Ter Encontrado. Conta a história de uma mulher casada que é intimada a comparecer na Polícia política para um interrogatório e vai no eléctrico que a levará ao destino desfiando os seus medos e as agruras da sua vida pessoal (entre outras, um marido alcoólico). É também em meios de transporte que o narrador de Uma Mentira mil vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, se entretém a contar aos passageiros que se sentam ao seu lado, para escapar ao silêncio e à solidão, a história inventada de um autor e das suas personagens. Embora não tenha ainda lido deste livro mais do que a sinopse da contracapa, gosto muito do Manuel Jorge Marmelo e das crónicas que escreve uma vez por semana no Público, pelo que não podia deixar de me alegrar com a chegada deste livro novo (creio que o último era de 2008). Hoje, quando apanho o metro para qualquer lado, vejo também muito mais gente a ler do que nos tempos em que ainda não tinha carro. Pelos vistos, os transportes públicos estão a prestar um bom serviço à literatura.

Cartas Vermelhas

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Já aqui falei deste livro, da escritora Ana Cristina Silva, mas volto a ele pela simples razão de se realizar hoje o seu lançamento. Intitula-se Cartas Vermelhas e conta a história – em parte real, em parte imaginada – de Carolina Loff, uma militante do Partido Comunista Português que trabalhou nas mais altas esferas do Comintern, apoiou os camaradas na Guerra Civil de Espanha, foi impedida de resgatar a filha em Moscovo pela eclosão da Segunda Guerra Mundial e acabou banida pelo Partido em virtude de ter ido viver com um inspector da PIDE por quem se apaixonou doidamente. A apresentação será feita por Miguel Real na Livraria Barata às 18h30. Apareça.


 


A saga das estrelinhas

No dia do lançamento do novo romance de valter hugo mãe, encontrei imensa gente indignada com o facto de o autor da crítica ao livro publicada no Ípsilon da véspera – outro escritor (José Riço Direitinho) – lhe ter dado apenas duas estrelas e meia. A indignação, porém, não vinha só de se dar nota quase negativa ao romance (cinco estrelas é o máximo) – até porque algumas das pessoas escandalizadas ainda não o tinham lido –, mas de, nesse mesmo suplemento, terem sido classificados com quatro estrelas livros de autores de um nível literário francamente mais baixo, como José Rodrigues dos Santos ou Mónica Marques. Na verdade, se os leitores se guiarem por estas classificações para saberem que livros devem ou não ler, a situação pode ser perigosa e extremamente injusta, na medida em que qualquer das obras de um Escritor (com E), mesmo que gore de algum modo as expectativas dos seus leitores, será sempre infinitamente melhor leitura do que uma ficção menor. Parece-me, porém, que o critério do jornal pode ser classificar por tipo de livro e, se assim for, não teríamos hesitações em dar cinco estrelas a thrillers ou policiais notáveis como os de Le Carré ou Agatha Christie e de as dar também a grandes romances como os de Vargas Llosa ou Faulkner (lamento não apresentar exemplos de cinco estrelas em livros de ficção romântica, mas a verdade é que não sou leitora do género). No momento em que escrevo este post, ainda não li o romance de valter hugo mãe, embora já o tenha começado; mas aquilo que me parece desde logo discutível é a crítica do Ípsilon ter sido encomendada justamente a um seu «concorrente», uma vez que sobre os novos valores deveriam debruçar-se os mais velhos, a quem eles já não fazem sombra, sob o risco de, por mais honesta que seja a opinião de um colega da mesma geração (e com menos projecção nacional e internacional), as pessoas falarem logo de dor de cotovelo e de rivalidade. Na verdade, será que pode avaliar condignamente o romance de um autor alguém que se calhar leu menos do que ele, alguém que se calhar nem leu toda a sua obra? Não será por isto que, do júri de prémios literários de relevo, não fazem normalmente parte jovens escritores?

Uma experiência nova

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Há muitos anos, quando escrevia regularmente livros juvenis, a Editorial Verbo encomendou-me um texto para uma colecção chamada Terra Verde, que então iniciara. O seu objectivo era o de educar as crianças na protecção do ambiente através de histórias simples e lúdicas. O título do meu livro era A Ilha do Paraíso e punha frente a frente um miúdo citadino mimado e estragadão e um índio que habitava um paraíso natural e temia a invasão de maus hábitos nos seus domínios. Recentemente, o Teatro Bocage contactou-me com vista à adaptação teatral deste pequeno livro e, no sábado passado, armada de expectativa e com a companhia de sobrinhos e amigos pequenos, lá fui ver a peça. Depois de ultrapassada uma certa estranheza inicial pelo barulho ensurdecedor e a correria dos miúdos junto ao palco enquanto não começava o espectáculo, assisti à metamorfose do meu texto, ajudada por três jovens actores talentosos e muito expressivos, uma montagem de efeitos sonoros bastante interessante e algumas intervenções espontâneas da pequenada que, nestas coisas, não se faz rogada e gosta de intervir. Por isso, se tem crianças e quer que passem um bom bocado, leve-as ao Teatro Bocage, ali perto da Damasceno Monteiro, em qualquer sábado até finais de Outubro. Pode ser que elas aprendam qualquer coisa que as ajude realmente a tornar a Terra mais verde.


 


Curto reinado?

Há uns tempos, indignámo-nos com a passagem do Instituto do Livro e das Bibliotecas a uma mera Direcção-Geral. Os que trabalham com livros sabem a importância que este organismo tem tido ao longo dos tempos, seja na internacionalização da literatura portuguesa, seja na promoção da leitura, seja ainda na realização de feiras do livro em países lusófonos carenciados como a Guiné-Bissau, Moçambique ou Cabo Verde. Nas operações de poupança da despesa pública, houve agora por parte do Governo a decisão de fundir a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas com a dos Arquivos, criando assim uma nova entidade cuja sigla faz pensar em experiências de laboratório (DGLAB). Não sei bem o que significa esta fusão, porque, segundo percebi, se trata apenas de diminuir o número de cargos dirigentes com vista a uma gestão mais racional (e mais barata) e nos dizem que, apesar dela, a política para o livro é central para a Secretaria de Estado da Cultura. O que me pergunto é se o Director-Geral do Livro, José Manuel Cortês, que foi nomeado há tão pouco tempo, conseguirá manter o lugar ou se tornará, afinal, o monarca do mais curto reinado de sempre à frente da instituição.

Ler em estrangeiro

Não tenho nada contra as pessoas que lêem livros estrangeiros, mesmo quando essas obras estão disponíveis em português, até porque frequentemente as nossas traduções deixam bastante a desejar. Eu própria já li numerosos livros noutras línguas, fosse por imperativo profissional (para avaliar se valia a pena publicá-los em Portugal), fosse por gostar tanto do autor que se tornava penoso esperar por uma tradução quando o original já ali estava à mão de semear, fosse até por crer, em certos casos específicos (sobretudo tratando-se de poesia), que uma tradução, fosse portuguesa ou numa língua diferente da original, nunca faria jus ao que o autor escrevera. Porém, sempre que me pediram de revistas ou jornais que indicasse a lista dos livros preferidos ou do que andava a ler, referi as edições portuguesas, acreditando que deste modo levaria mais pessoas a comprarem e lerem esses livros. Vem isto a propósito do novo suplemento do Diário de Notícias que veio substitui a falecida NS e no qual se pergunta a uma figura pública quais as suas leituras no momento. E é curioso que, até onde me foi dado ver, todas elas citam maioritariamente livros em inglês, muitos dos quais já publicados há muito tempo em versão portuguesa. Embora possa não ser nada disso, cheira-me a pretensiosismo intelectual e não creio que essa opção (quiçá sincera) ajude os leitores a aceitarem as sugestões e a lançarem-se na aventura de procurar nas livrarias os correspondentes títulos em português.

O mal dos pequenos

Diz o autor de As Mãos Pequenas, publicado na bela colecção Minotauro, que muito provavelmente não teria escrito o livro se não lhe tivessem lido o Requiem por Um Menino Morto, de Rilke. Pois ainda bem que lho leram, porque Andrés Barba é um jovem escritor espanhol digno de nota e esta novela a prova de que poderá ir longe na literatura. Partindo de uma premissa interessante, que é a de uma menina de família ficar precisamente sem família aos sete anos na sequência de um desastre que lhe mata os pais e ser, por isso, entregue a um orfanato, esta é a história de um confronto – entre quem chega e quem estava, entre o indivíduo diferente e a massa incaracterística, entre a memória e a hipótese, morta à nascença, de um futuro. Brilhantemente escrito, com uma tradução cuidada, violento porque a infância está sempre cheia de maldade, mas elegante e subtil na sua descrição, não se perca esta obra singular e inteligente que é também sobre o fascínio do desconhecido e a incapacidade de amar o que não se compreende.

Os livros que somos

Enquanto me dedico a apreciar originais com vista à publicação, consigo dizer com relativa facilidade quais pertencem a autores que lêem e quais são escritos por gente que escreve sem ter lido. Em alguns casos, garanto, é até possível identificar algumas das leituras de um autor pelo que escreve (e não estou a falar de influências explícitas). Mas – escritores ou não – todos somos aquilo que lemos, pois os livros são como gente com que nos cruzamos ao longo da vida (e gostamos de uns mais do que doutros, mas todos são determinantes para o que nos tornamos). Não me tinha, porém, ocorrido essa fantástica perspectiva de Manuel António Pina numa crónica recentemente publicada na revista Notícias Magazine: a de que, curiosamente, também somos aquilo que não lemos; no seu artigo, Cavaco era, por exemplo, os livros todos de economia que lera, mas também Os Lusíadas que nunca lera – e acho que tem razão o nosso mais recente Prémio Camões. O pior é que agora, quando olho para as minhas estantes, descubro que sou imensa coisa que nunca me tinha passado pela cabeça (ou pelos olhos).

Os três males

Uma das coisas boas na vida de um editor é conhecer autores inteligentes e interessados que nos ensinam coisas e passam boa informação. Há algum tempo, o Nuno Camarneiro, autor de No Meu Peito não Cabem Pássaros, publicado em Junho, enviou-me um link para o segmento de uma longa entrevista a Gilles Deleuze sobre cultura no qual ele falava de literatura e edição. Antes de mais, foi um consolo saber que um homem como ele acreditava que, apesar de a cultura e a educação estarem a viver um péssimo momento em todo o mundo, quase a baterem no fundo, isso não queria dizer que não fosse possível suceder-lhe um período rico (o Renascimento sucedeu, afinal, à Idade Média). Mas o que mais me fascinou foram os três males que apontou para que as coisas tivessem chegado ao ponto a que chegaram no mundo das letras: 1) Que os jornalistas se tivessem posto a escrever livros (Deleuze dizia que sempre houve escritores jornalistas, claro, mas que muitos dos que hoje publicam livros não são, realmente, escritores). 2) Que, em parte por causa disso, toda a gente achasse que podia escrever um livro (não podia estar mais de acordo: o talento tem de ser a excepção, e não a regra). 3) Que a relação entre o livro e o leitor passou a ser, infelizmente, mediada pelo ponto de venda, que subverte tudo, porque precisa de facturar – e depressa –, devolvendo livros aos editores que ainda não tiveram tempo de se afirmar no mercado e obrigando os editores a produzir um número de novidades muito superior ao razoável e, por isso, de qualidade muitas vezes duvidosa. Muito bem, monsieur.

O texto e o suporte

Nunca como nestas férias vi tanta gente a ler num e-reader. Bem sei que a maioria desses leitores provinha de países estrangeiros – falavam inglês e neerlandês, sobretudo. Mesmo assim, parece que a coisa veio para ficar, e reconheço que, se tivesse de ler, por exemplo, para uma tese durante as férias, essa seria a melhor forma de levar comigo a bibliografia (levei oito livros numa pasta, que pesava bastante, e não era trabalho). Confesso que ainda não me habituei a ler livros num ecrã – gosto de folhear, dobrar o cantinho, ler duas passagens de páginas distantes em simultâneo, dividir o livro entre o que já li e o que ainda falta com o polegar, tudo tiques que, na máquina, seriam mais ou menos impraticáveis. No entanto, desde que herdei um iPad do Manel, já não o dispenso e quase todas as noites o ligo para investigar alguma coisa, nem que seja o nome de um actor que me escapa ou assistir ao trailer de um filme que vai dar na televisão e quero saber se vale a pena trocar por um livro ou por uma boa conversa. No fundo, porém, acho que aquilo que importa realmente é o texto, e não o suporte, e admito que estes livros virtuais possam ser realmente mais práticos de arrumar (o que eu não teria poupado em estantes) e mais ecológicos. Ao mesmo tempo, lembrando alguns textos de poesia de autores como Apollinaire, nos quais a forma era também o conteúdo (se é que isto se pode dizer), pergunto-me se estes dispositivos (nos quais se pode aumentar a letra a gosto, alterando as linhas e, consequentemente, o formato do texto) não poderão de algum modo subverter as intenções originais de um autor.

Clarissa, meu amor

Dificilmente encontrei entre as minhas leituras um autor mais visionário e moderno para a sua época do que Virginia Woolf. E os seus romances são talvez os únicos em que os pontos de exclamação espalhados pelas páginas nunca me incomodaram. É absolutamente fantástico pensar hoje que Mrs. Dalloway – a obra aonde Michael Cunningham foi beber para escrever o também extraordinário As Horas – foi escrito em 1925! (E aqui a exclamação é minha, e justifica-se.) Pois bem: a senhora Dalloway desta imperdível obra-prima é Clarissa, que começa o livro a comprar flores para mais uma das suas muitas festas (à qual não faltará sequer o primeiro-ministro) e o termina aparecendo junto a um convidado muito especial – Peter Walsh, o homem que se apaixonou por ela na juventude e, apesar de preterido por Richard Dalloway, nunca deixou de a amar um único minuto da sua vida (com tudo o que ela tem de snob e detestável, o que é ainda mais engraçado). Entre o primeiro e o segundo momentos, existe, porém, um tempo que contém tudo: as memórias, a crítica implacável, os efeitos da Primeira Guerra Mundial, a relação da Inglaterra com a Índia, o fosso entre as classes sociais, enfim, um sem-número de questões, dramas e análises impiedosas numa escrita que parece por vezes quase automática, mas que é de extraordinária inovação ainda hoje. Uma das coisas melhores nos bons autores é que nunca envelhecem, e o caso de Woolf é paradigmático.

Ler e não ler

Há pouco tempo fui passar um fim-de-semana junto ao mar; e, embora tivesse levado comigo um livro, não consegui passar das primeiras trinta páginas, tão precisada estava de ter os olhos todos para as ondas. Sou uma mulher tipicamente urbana, mais de me fechar em casa a ler um bom livro, mas em certas ocasiões também não dispenso isso a que chamam contacto com a natureza e que me traz excelentes recordações de infância de férias ao ar livre com passeios de bicicleta, caminhadas no areal e explorações científicas em pinhais e terrenos abandonados. Hoje as crianças das cidades estão muito metidas em casa e, quando não, trocam frequentemente a rua e o jardim pelos corredores dos centros comerciais, nos quais as pessoas se atropelam aos sábados e lambem montras cheias de coisas que nunca poderão comprar. Li que algumas crianças americanas, quando lhes pedem que desenhem uma galinha, a representam depenada e embalada como a vêem no supermercado, porque nunca tiveram realmente oportunidade de ver ao vivo um simples pintainho. E, por muito que ler seja importante, nada substitui o pôr as mãos na terra e descobrir. Nenhuma ilustração do mar substitui as verdadeiras ondas.

Carta à filha

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Ana Cristina Silva tem-se destacado pela autoria de romances psicológicos em torno de personagens reais. Já escreveu sobre várias mulheres, entre as quais Florbela Espanca ou Mariana Alcoforado, tendo agora chegado a vez de se dedicar a Carolina Loff, nascida em Cabo Verde, onde na infância, pelas injustiças a que assistiu entre brancos e negros, lhe nasceu o sonho de tornar o mundo um lugar mais justo. Mandada para Lisboa com o objectivo de concluir os estudos, Carolina acabou a militar no Partido Comunista, sendo presa pouco tempo depois de se envolver com um jovem camarada e engravidar. A mãe cuidou-lhe da criança durante a clausura, mas quando foi libertada Carolina levou a menina para Moscovo, onde trabalhou para os altos quadros do Comintern. Chamada, porém, a desempenhar funções em Madrid durante a Guerra Civil, deixou-a temporariamente num colégio interno; e, por vicissitudes que o romance explicará, só voltou a vê-la vinte anos depois, já depois de ter sido banida do Partido por se ter apaixonado por um inspector da PIDE, com quem foi viver. Cartas Vermelhas é, pois, como uma longa carta a essa filha que cresceu sem mãe, na qual Carolina Loff – que conheceu Cunhal e muitas outras figuras de proa do Partido – se justifica e confessa, rememorando toda a sua vida na viagem de comboio que se sucede ao encontro entre ambas. Muitas vezes comovente, esta é uma obra de ficção que também merece ser lida como um documento de uma época e de várias circunstâncias.


 


Um amor japonês

Murakami é talvez o mais internacional dos escritores japoneses contemporâneos e os seus livros são um êxito de vendas em vários países europeus, entre os quais Portugal. Vai, por exemplo, em nona edição o romance Sputnik, Meu Amor, de que tomei conhecimento por uma jovem leitora que o comprara em inglês em Nova Iorque há uns dez anos, quando eu ainda estava na Temas e Debates, mas que, por qualquer razão, ainda não tinha tido ocasião de ler. Embora me tenha parecido melhor na primeira metade do que na segunda (ou seja, até ao desaparecimento da jovem Sumire numa ilha grega), é obviamente um livro muito curioso sobre as vidas sentimentais de um homem e duas mulheres, sobre o amor não correspondido, os traumas de adolescência e o que é sentir e não sentir, sobretudo fisicamente, o amor. Com um tom levemente informal, mas sem esquecer a poesia em muitas passagens, esta é uma obra também interessante pela alternância do relevo ficcional das três personagens – Sumire, Miu e o narrador – e por um certo desdobramento dos vários eus, quase roçando a literatura de mistério.

Principesco

É quando se tem tempo livre que se deve ir à prateleira recuperar um clássico que estava a pedir uma oportunidade há séculos – e foi o que fiz nas férias, levando comigo o principesco romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa, que serviu de base a um filme de Visconti memorável. Enquanto o lia, não conseguia, de resto, afastar das personagens os rostos de Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon, mas isso não me impediu de apreciar cada pormenor de uma prosa muito cuidada, de um bom gosto inexcedível, cheia de ironia e sagacidade, às vezes muito cruel na análise dos factos e na descrição das pessoas. Passado na Sicília nos tempos da reunificação italiana, O Leopardo conta a história do Príncipe de Salina, Don Fabrizio, e da sua família (sobretudo o seu amado sobrinho, Tancredi) enquanto as convulsões políticas vão influenciando a sua vida de aristocratas e a vida dos burgueses, parecendo inverter os papéis, mas, de certa forma – como vaticina Tancredi –, deixando tudo mais ou menos na mesma. Primoroso também como romance histórico, não abusando de informação mas esclarecendo quanto baste, senti neste livro uma afinidade com alguns romances russos (por exemplo, de Turgeniev) escritos muitos anos antes, sei lá se por terem constituído leituras do autor a ponto de o influenciarem, se por os ambientes e situações aqui descritos pelo príncipe de Lampedusa se situarem, na verdade, na época em que viveram esses russos. A tradução é mesmo muito boa, de José Colaço Barreiros. Para quem aprecia um bom clássico, não falhe este.

A sorte grande

Leio tantas coisas más e sofríveis ao longo do ano à procura daquela que fará realmente a diferença que considero ter ganho a sorte grande na escolha do pacote de livros que levei comigo para férias, pois fui acertando título a título (como se de algarismos se tratasse) até ver desenhado o número premiado. Sorte pura, pois os avisos da crítica nem sempre se casam com o nosso gosto pessoal. No monte, uma obra-prima que seria um festim para Almodóvar, se ele gostasse de basear os seus filmes em textos alheios. Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé – o autodidacta (julgo que fazia jóias) que se tornou um dos maiores escritores espanhóis contemporâneos –, é notável a vários títulos, entre os quais a composição do protagonista, o genial David, de catorze anos, que adora vestir-se de rapariga e colecciona rabos de lagartixa com vista a curar as hemorróidas do seu amigo Paulino, aprendiz de barbeiro a quem o destino prega bastantes partidas. Passado no mesmo ano em que os Aliados lançaram as bombas atómicas, numa Barcelona refém do racionamento e vítima dos esbirros de Franco, a história – não se assustem – é contada por um feto (o irmão de David a quem este não raro chama rãzinha peluda, girino ou verme nojento e que manda agarrar à placenta quando quer pregar um susto à mãe) e inclui um leque de personagens que se agarram a nós para todo o sempre, entre vivos e fantasmas (sim, também há alguns). Francamente imaginativo, mas sem nunca perder o pé ao que realmente interessa, este romance, publicado originalmente em 2001, ganhou os principais prémios literários de Espanha e um lugar muito especial no meu coração.

A Constituição

Na Universidade de Verão do PSD, António Barreto disse que a Constituição da República Portuguesa devia ser revista (e até falou em referendo!). A afirmação fez correr muita tinta (muita gente afirmou que Barreto perdeu a cabeça e se passou para o lado do poder e quase toda a Esquerda se mostrou indignada). Este não é um blogue sobre política e quero que se saiba desde já que o que direi a seguir nada tem que ver com o que pretendia (ou pretende) o senhor professor. Mas aqui há tempos um instituto estatal lançou um projecto de publicação de uma Constituição Explicada aos Jovens e, entre outras pessoas, fui chamada a trocar por miúdos um dos seus artigos. Pois tenho de ser absolutamente sincera e confessar que a prosa era tão obscura e ambígua que me vi grega para entender e traduzir em linguagem simples e perceptível o conteúdo do dito artigo. Não é deste tipo de revisão que fala António Barreto, evidentemente, mas, se todos os Portugueses se tivessem de pronunciar sobre a Constituição, estou mesmo a ver os equívocos em que meio mundo ia cair...

Mais vale tarde

O Manel costuma dizer que, quando acabar o mundo, os estrangeiros podem vir para Portugal, pois aqui as coisas costumam chegar com alguns anos de atraso. Foi isso que aconteceu com a edição da obra de J. Rentes de Carvalho, escritor português bastante conhecido na Holanda, onde vive, e em Portugal praticamente ignorado até há pouco tempo, quando a Quetzal resolveu começar a dar à estampa a sua obra. E eu, para que conste, estou cheia de ciúmes porque gostava de ter sido eu a fazê-lo, mas, para que também conste, andava na mesma ignorância dos outros (e tinha, ainda por cima, obrigação de estar mais desperta). Enfim, o que importa é que já nos podemos deliciar com os livros de Rentes de Carvalho e acabo de ler o primoroso La Coca, que daria um filme tão bom como Cinema Paraíso misturado com Às Segundas ao Sol e que trabalha a memória num sentido algo proustiano, mas (não me matem) bastante menos chatinho. Na contracapa chamam-lhe um pequeno romance por não chegar às 200 páginas de letra algo miúda, mas é um grande, grande, romance de formação que é imperioso ler. Tomando como ponto de partida uma investigação sobre o tráfico de droga no Minho e na Galiza para um livro ou uma reportagem que o narrador (o autor?) escreverá, este livro tem personagens absolutamente inesquecíveis e riquíssimas quer do ponto de vista humano, quer literariamente, entre velhos contrabandistas, traficantes, «brasileiros» ricos, uma preceptora francesa, um lorde enfiado numa quinta cheia de obras-primas impressionistas e até – a sério – o próprio Picasso. A não perder. E agora, assim haja tempo livre, o autor já não me escapa.

Novas do acordo ortográfico

Os livros escolares já seguem todos o novo acordo ortográfico, a maioria dos jornais também, na LeYa as traduções adoptam a nova ortografia, sendo os autores lusófonos ainda os únicos que podem decidir ignorá-la. Há muita coisa nesse acordo com que não concordo, é bom que se diga, mas, como profissional da área do livro, não posso deixar de o ir conhecendo, até porque – estou quase certa – alguns dos autores que publico optarão por segui-lo em breve (sobretudo, aqueles que são professores do Ensino Secundário). Para nos pormos em dia, saiu um livro de três especialistas que é de grande ajuda, pois não só ensina o que mudou, como inclui exercícios para irmos praticando. Se anda perdido, não deixe, pois, de adquirir este Saber Usar a Nova Ortografia, de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão.

Sábados mais pobres

Já muito se disse por aí sobre o facto de a crítica literária ter desaparecido dos nossos meios de comunicação, substituída que foi por uma forma mais ligeira de falar dos livros – a que vulgarmente se chama recensão, mas que, frequentemente (sobretudo na imprensa regional), não passa de uma sinopse da obra junto da respectiva capa (e quantas vezes essa sinopse não é a da contracapa do livro, escrita pelo editor, mas escandalosamente assinada pelo jornalista que devia ler o livro para poder opinar, mas não esteve para isso). Mesmo assim, nós, editores e escritores, ficamos consolados quando os livros que publicamos e escrevemos são referidos num jornal ou numa revista, sabendo que, pelo simples facto de preencherem parte de uma página, a sua existência é menos solitária do que na mesa ou na prateleira da livraria. Custou-me, por isso, que o Diário de Notícias tenha acabado («descontinuado» era a palavra usada) tão abruptamente com a revista NS, que saía todos os sábados e tinha duas páginas exclusivamente dedicadas a livros. O seu conteúdo não era profundo, bem entendido, mas, para além de este desaparecimento poder originar mais um lote de desempregados, o que é grave, agora temos menos um sítio para divulgar e partilhar. E sábados, evidentemente, mais pobres.