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A mostrar mensagens de julho, 2019

Crónica e boas férias!

Hoje é dia de crónica, pelo que aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/13-jul-2019/interior/na-montra-11106191.html


Este ano parto para férias mais cedo, já amanhã, pelo que só voltará a haver post aqui no blogue dia 1 de Setembro. Preciso de descansar e de ler descontraidamente e, no regresso, prometo falar do que li. Espero que tenham umas boas férias também, se for o caso. Para os que ficam, coragem e bom trabalho!


 

Novela exemplar

É estranho, mas sempre que leio o livro de um autor oriundo do território da antiga União Soviética, independentemente da época em que foi escrito, encontro afinidades e tiques que não são palpáveis mas me fazem imediatamente ver que estou perante um escritor «daqueles lados». Encontro-me agora a ler uma exemplar novela initulada Djamila, de Tchinguiz (também já vi «Chinguiz») Aitmatov, da Quriguízia, que Louis Aragon traduziu para francês em 1959, tornando-a conhecida em vários países europeus, e que começa quando os homens partiram para a guerra e as mulheres (incluindo Djamila) se vêem obrigadas a substituí-los no trabalho braçal (neste caso a transportar sacos de cereal dos campos para as moagens e os mercados). Quando iniciei a leitura, essa marca «russa» era tão forte que até pensei que a guerra fosse mais antiga, mas a páginas tantas percebi que afinal a história se passava no Verão de 1943 e, portanto, em plena Segunda Guerra Mundial. Porém, os sentimentos, os hábitos, o modo de vida ainda bastante rudimentar,  tudo fazia pensar na época em que escrevia Dostoiévski. Djamila é um texto belíssimo, a história de um adolescente fascinado pela mulher do irmão (que a deixou para ir combater e nem sequer lhe escreve da Frente, preferindo dirigir a correspondência à própria mãe, que também não perde muito tempo a transmiti-la à nora): um misto de admiração, amor, ciúme, por uma mulher de corpo inteiro que consegue rir no meio da tragédia e, na altura em que tem de decidir o que é melhor para si, não hesita um instante. Pequenino, dá para uma tarde ou noite de grande alegria. (Tem gralhas e erros e uma paginação mesmo coxa, mas isso é o menos.)

Leitura paga

Já aqui discutimos muitas vezes se a leitura nas escolas não deveria ser uma prática mais regular e obrigatória. Há tempos até publiquei a história de uma escola (francesa ou espanhola, já não me recordo) que, a determinada hora da manhã, fazia tocar uma campainha para os alunos saberem que o quarto de hora seguinte tinha de ser obrigatoriamente dedicado à leitura. Muitos dos Extraordinários opuseram-se a essa actividade, dizendo que as obrigações nunca dão bom resultado e que até podia ser contraproducente e criar ódio à leitura. Acontece que descobri que se pode ir ainda mais longe… O escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura, deu uma entrevista em Itália ao La Repubblica em que conta – pasme-se! – que, quando os filhos eram pequenos, lhes oferecia dinheiro para lerem livros que eles depois tinham de resumir (como aquela analfabeta de que falei há dias). Ai, aqui no blogue, se nos tivessem feito isto, estávamos todos ricos por esta altura, não?

Revistas

Os jornais estão claramente a desaparecer, mas parece que a vontade de fazer revistas continua. For City Lovers é uma delas e «é o novo projecto editorial do grupo El Corte Inglés, desenvolvido em parceria com a 004 e a Pacote de Açúcar Design». Com coordenação editorial da escritora Patrícia Reis, é bilingue, divulgará a oferta cultural e de lazer disponível no País e será distribuída em hotéis e nas lojas do El Corte Inglés em Portugal. A outra é Wookacontece, a revista distribuída gratuitamente a quem compra livros na livraria digital Wook e que já vai no segundo número – que, de acordo com a directora, Ana Chaves, está aliás diferente: «Aumentou em tamanho (mancha de texto) e em número de páginas e passou a ter uma capa robusta com gramagem superior à do miolo. Uma coisa tão simples, que dignifica os conteúdos, os entrevistados e vai espelhando as muitas horas de trabalho ali investidas.» Portanto, consolemo-nos com estas novidades, enquanto, infelizmente, vemos desaparecer tanta coisa interessante.


 

Telepatia editorial

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Esta é uma história de coincidências que agradaria ao Caderno Vermelho de Paul Auster e que aconteceu recentemente com o livro de Itamar Vieira Júnior, Torto Arado, vencedor do Prémio LeYa. Quando, em Novembro de 2018, começámos a preparar o livro, perguntei ao autor se tinha alguma ideia do que gostaria de ver na capa. Tratando-se de um romance que tem duas irmãs negras como protagonistas, Itamar enviou-me um grupo de fotografias de cariz etnográfico, entre as quais se inclui a que reproduzo aqui:


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Não a usámos, até porque as mulheres eram muito mais velhas do que as personagens, optando por uma solução diferente. Entretanto, a editora Todavia, uma editora literária importante, comprou os direitos do livro para o publicar no Brasil. Recentemente, chegou a capa da edição brasileira e era esta aqui:


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Pensei, claro, que tinham perguntado ao autor o que gostaria de ver na capa e que ele teria enviado as mesmas fotografias que mandou para mim; por sua vez, Itamar pensou que os editores da Todavia teriam falado comigo e que eu lhes teria passado as imagens. Mas nada disso aconteceu, na Todavia quem fez a capa fê-la sem saber de nada. É a isto que eu chamo telepatia editorial. Não é mesmo incrível? Magia da boa, como fica bem ao Brasil.

Crónica e livrarias

Como é sexta, aqui vai o link da crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/06-jul-2019/interior/beijos-e-abracos-11080642.html


Li que Buenos Aires é a cidade que tem mais livrarias per capita; mais do que Hong Kong e Madrid, que são as cidades que ficam respectivamente em segundo e terceiro lugares (bravo, hermanos!) e duas vezes mais do que Nova Iorque e Londres. Em alguns bairros de Buenos Aires, há livrarias em praticamente todos os quarteirões... O resto pode ler-se aqui:


https://www.theguardian.com/world/2015/jun/19/argentina-books-bookstores-reading

O prazer de ler

Quando me fazem entrevistas na qualidade de editora, perguntam-me frequentemente o que precisa de ter um livro para ser publicado, ou o que é que um bom livro tem que não se encontre num mau livro. Não tenho uma resposta imediata para nenhuma destas duas questões (podia tentar, mas seria longa e complexa), mas também não consigo avançar apenas com o feeling de que aquele autor vai acabar por vingar ou o simples faro, a intuição de que estou perante um livro que vai dar que falar (o que me aconteceu, por exemplo, com Han Kang e A Vegetariana). Porém, recebi esta semana uma newsletter de uma editora australiana, a Text Publishing, que, sem oferecer definições ou propostas, apresenta uma formulação para o gesto de publicar com a qual concordo em absoluto: «Publicamos livros para dar prazer, para mudar o tema da conversa e para pôr algo novo no mundo.» É isso mesmo que eu gostava que acontecesse com os livros que publico, claro – dar prazer acima de tudo. Mas será também isso que os leitores procuram? Talvez o maior problema esteja em que muita gente não associa a leitura ao prazer, mas a um tremendo frete…


 

Três painéis

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Hoje vou a caminho do Porto para o lançamento de um romance de um escritor que pertence à mesma família romanesca de Camilo e Agustina (que, de resto, admira profundamente). Trata-se de Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio, sobre a encomenda de uma pintura religiosa com três painéis (a Crucificação, a Deposição e a Ressurreição de Cristo) ao pintor Lucas Cranach. Porém, para desconcerto do católico que faz a encomenda do quadro, é visita regular do estúdio do pintor o controverso Martinho Lutero... É também por esta circunstância que hoje temos a apresentar o romance, um professor da Universidade Católica e um bispo protestante. Vamos assistir com gosto. Se estiver por perto, apareça.


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Uma história bonita

Juan Cruz, que foi o grande editor da Alfaguara e que vi moderar um debate maravilhoso há anos com Herta Müller e Vargas Llosa, escreve uma bela crónica no jornal El País. No último sábado falava de um encontro em torno da edição em que a leitura tinha sido apontada pelo filósofo Gregorio Luri como a experiência deleitosa que salvaria a Espanha (e o mundo) da mediocridade e contou uma história bonita. O actual director do Departamento de Neurocirurgia Pediátrica no Centro Johns Hopkins, um posto muito importante, era filho de uma empregada doméstica analfabeta. Mas a sua mãe, que trabalhava em várias casas, percebeu que os patrões que liam e tinham bibliotecas em casa eram os que mais sucesso tinham; assim, racionou a televisão na sua própria casa, obrigou os filhos a ir à biblioteca todas as semanas, a ler livros e a resumir as suas histórias, e até fingia corrigir esses resumos (os filhos só muito mais tarde compreenderam que ele não sabia ler). A descendência foi toda mais longe do que ela e hoje reconhece que, se não fosse a mãe e os livros, o mais certo era isso não ter acontecido. Gregorio Luri diz que a semente tem de ser plantada muito cedo para haver uma boa colheita mais tarde. E eu concordo.

Ainda os títulos

Na semana passada publiquei aqui um post sobre os títulos na ficção e os títulos na imprensa, todos por vezes bastante enganadores: ou apontando para livros melhores do que realmente são, ou levando os leitores de notícias a crer em factos opostos aos verdadeiros. Na altura, porém, faltou-me dizer uma coisa que tenho aqui entalada desde que descobri que «a palavra começada por F» (uma tradução livre de «the F word»), quando aparece num título de um livro, seja ele de que autor for, faz com que o dito atinja o Top Ten em menos de uma semana. Não consigo perceber porque se sentem as pessoas tão atraídas por livros que lhes peçam na capa para não f... os outros, ou para aprenderem a dizer aos outros que se f... O que sei é que é matemático: todos os títulos que incluam a palavra F com o sentido metafórico de «lixar, tramar, chatear», têm sucesso garantido. Por isso, se (como suspeito) alguns dos Extraordinários têm livros em preparação ou prontos na gaveta (ou até já recusados por alguma editora a quem os mandaram), vão ao ficheiro do computador, parem no frontispício, prantem-lhe no título a palavrinha milagrosa e verão que os publicam em três tempos e com extraordinário êxito. Como 47% dos portugueses confessam não ler um único livro há seis meses, o melhor é facilitar.

Crónica (e férias estragadas)

Ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/29-jun-2019/interior/a-praga-do-silencio-11054943.html


 


Como o assunto da crónica se relaciona com férias, um belo livro (e cómico) sobre o assunto, de que me lembrei mal escrevi a crónica, é Notícias do Paraíso, de David Lodge. Leiam-no e vão passar um bom bocado, garanto. Bom fim-de-semana.


 

Títulos

Em todos estes anos de trabalho editorial, encontrei títulos francamente maus e nada apelativos nas primeiras versões de certos romances (que foi preciso alterar), mas também títulos óptimos que, por vezes, até prometiam livros melhores do que depois se revelavam. Pôr um título num romance ou num livro de poesia não é uma tarefa fácil, porque o título tem de sintetizar todo um programa ficcional ou poético e é aparentemente impossível dizer muita coisa em poucas palavras. Na imprensa,  mesmo assim, o título não tem de ser bonito, mas informativo e sintético. Noto, porém, de há uns tempos para cá como os títulos das notícias ultrapassam em larga medida a sua função. Falo por exemplo do facto de um jornal querer atacar um sistema político que não é da sua simpatia pondo títulos em parangonas que apontam para uma crítica a esse mesmo sistema e explicando depois em letra pequenina o contrário (e nós todos sabemos que muitos leitores só lêem as gordas). Um dia destes, por exemplo, o título de uma notícia fazia crer que os chefes militares queriam a trabalhar a tempo inteiro um soldado amputado (o que parecia chocante) quando, lendo as primeiras linhas, percebíamos que afinal os chefes o queriam no quadro permanente para que não sofresse dificuldades financeiras nem afastamento social. Enfim, uma coisa que devia ser directa tornou-se perniciosa, umas vezes por aselhice, outras por má-fé. Esperemos que a ficção não siga estas pisadas e passe a inventar títulos muito bons só para épater le bourgeois.

Máquinas de escrever

O Extraordinário Henrique Vogado, leitor deste blogue, enviou-me um interessantíssimo artigo do Courrier Internacional (e, para mim, algo assustador), publicado originalmente no Los Angeles Times. Fala sobre a plataforma Wattpad, criada no Canadá em 2006 para que os utlizadores da Internet partilhassem as histórias e os textos que escrevessem, não tendo de esperar pela publicação por uma editora para receberem críticas e comentários. Esta rede social de partilha literária atingiu em poucos anos cerca de 70 milhões de membros (toda a gente quer ser escritora!), a maioria dos quais do sexo feminino com menos de 35 anos. Observando os comentários laudatórios e entusiastas que alguns textos recebiam parágrafo a parágrafo (a sequência e o desfecho acabavam frequentemente por ser alterados de acordo com a vontade dos fãs), os senhores da Wattpad arranjaram maneira de criar ferramentas para identificar best-sellers em potência que, por sua vez, fossem adaptados ao formato audiovisual e originassem séries e filmes  de grande sucesso. Investindo em Inteligência Artificial, no ramo de machine-learning, desenvolveram então um algoritmo próprio que pesquisa na plataforma em que há milhões de textos êxitos mais do que certos; e depois pega neles, reescreve-os sob a forma de guiões e vende-os a grandes produtoras. Se, como diz o artigo, tudo o que dantes se via na TV ou no cinema era decidido por meia dúzia de cabeças, agora o público tem uma palavra a dizer e participa, mesmo sem o saber, no produto final.  Diz um dos senhores da Wattpad que qualquer dia os robôs também vão começar a escrever histórias e os humanos não terão outro remédio senão competir com eles... Já me devo ter reformado nessa altura.

Jules e os seus irmãos

Conheço mal a literatura alemã contemporânea. Embora tenha estudado alemão durante quatro anos, nunca foi suficiente para conseguir ler um romance; e o facto de haver certamente muitos editores como eu é, provavelmente, o que impede que mais obras alemãs cheguem a Portugal (eu, pelo menos, tenho dificuldade em comprar direitos de livros que não li). Mas tenho em mãos uma preciosidade, O Fim da Solidão, de Benedict Wells (pseudónimo de um escritor nascido em Munique em 1984), publicado pela ASA e vencedor do Prémio da União Europeia para a Literatura. É a história de Jules, Marty e Liz, três irmãos amados e felizes até que os pais lhes morrem num acidente de aviação. Têm então de ir viver para um internato, onde cada um lidará à sua maneira com o desgosto (Liz experimentará drogas, Marty estudará loucamente, Jules começará a escrever). O colégio aceita também alunos da região e, entre eles, está Alva, uma ruiva introspectiva que gosta de literatura e música e de quem Jules se tornará muito próximo. O acompanhamento da vida dos irmãos ao longo do tempo é muito interessante, pois assistiremos às mudanças sofridas pela sociedade (o aparecimento da Internet e das start-up, por exemplo). Em todas as fases do livro, dividido em grupos de anos, há grandes surpresas, o que serve para manter sempre o leitor interessado. Recomendo.


 

Passar ao lado

Foi logo desde a sua fundação – em 1944, ainda durava a Segunda Guerra Mundial –, que o jornal francês Le Monde (um dos mais respeitados internacionalmente) começou a publicar críticas e fazer destaques a livros. Recentemente, um artigo no mesmo jornal faz uma espécie de revisão da matéria dada e mostra as obras que, em cada ano, tiveram maior destaque. E, embora – como é natural – a tónica tenha sido dada ao «domaine français» (não só por chauvinismo, mas também), foram incluídas algumas traduções de autores de nomeada. Mas o que é mais curioso é que o Le Monde passou completamente ao lado de alguns livros que hoje têm uma importância indiscutível e marcaram a história da literatura, o que podia indicar que, entre tudo o que recebem, nem sempre os críticos intuem o que vai vingar e cativar a academia e os leitores. Camus – que recebeu o Prémio Nobel da Literatura com 50 e tal anos – é, por exemplo, um dos grandes ausentes. E, enquanto têm parangonas alguns livros de autores que foram rapidamente esquecidos, existem obras que tinham tudo para ter sido destacadas e não o foram: Moderato Cantabile, de Marguerite Duras, ou (pasme-se!) A Bela do Senhor, de Albert Cohen. Em relação a este último, o Le Monde deve ter ficado tão perplexo que até foi tentar saber o que pode ter acontecido junto do então responsável, e a resposta deste foi o mais sincera possível: «Preguiça.» Sim, o livro tinha uma lombada de 5 cm que metia medo, 800 e tal páginas em letra pequena, parágrafos longos e proustianos; além disso, era Verão, pedia-se qualquer coisa mais leve, e havia um apetecível livrinho de Françoise Sagan a piscar o olho entre os montões de pacotes com livros que as editoras generosamente enviavam. Foi simplesmente assim, em suma. Pode chocar-nos, claro, mas, ao msmo tempo, serve para nos «consolarmos» quando não sai uma crítica a um livro que nos parecia fundamental (mas era muito grande) e explica porque tantas críticas a livros pequerruchos (e importantes) saem quase logo a seguir à publicação.

Crónica e regresso

Hoje é dia de partihar a crónica e o link aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-jun-2019/interior/os-iletrados-11026539.html


 


É também o dia do lançamento do mais recente romance de José Luís Peixoto, que não publicava ficção desde Em Teu Ventre. Chama-se Autobiografia e conta a história de um jovem escritor incumbido de escrever a biografia de Saramago. Diz a editora na sua nota de imprensa: «A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.» Vou ler.

Para jovens e adultos

Parece que esta semana apostei sobretudo no tema da literatura infanto-juvenil com os posts dos últimos dias sobre autores consagrados que escreveram para crianças e as ofertas de livros infantis do (pato) Donald Trump; e hoje reincido, mas juro que isto não constitui qualquer espécie de programa, foi simplesmente um acaso (e, aqui para nós, dos bons). A verdade é que recebi a notícia de que sairá para as livrarias muito e breve uma adaptação de A Ilídia, de Homero, para os leitores jovens, levada a efeito pelo seu grande tradutor, Frederico Lourenço, e com os desenhos originais de Richard de Luchi. Já tinha saído A Odisseia aqui há tempos, mas A Ilíada é que é o primeiro texto da literatura europeia, «um canto de sangue e lágrimas, o mais belo épico da tradição ocidental». É realmente um texto bastante mais violento do que o que se lhe segue, até porque a guerra e o sofrimento estão sempre presentes, e esta ideia de a «abreviar» pode realmente servir também para adultos mais preguiçosos, pois acredito que não se deva deixar este mundo sem tomar o pulso a estas duas obras seminais.

Recusar livros

Tenho dificuldade em recusar livros, mesmo quando sei que os não vou ler; e também de dizer logo que não quando me estendem aqueles sacos pesadíssimos nas Câmaras Municipais e nas bibliotecas, mesmo que à partida sejam coisas que não me vão interessar. Mas há quem não pense assim e faça até desse «não» uma afirmação de carácter político. Quiçá para se reconciliar com os professores, no Dia Nacional da Leitura Trump resolveu oferecer em nome da mulher às bibliotecas de escolas primárias que tinham atingido o padrão de excelência (uma em cada Estado) uma colecção de dez livros ilustrados pelo Dr. Seuss (bastante conservadores e cheios de lugares-comuns, mas também não seria de esperar outra coisa). E «mandou» também a sua Melania, que tem um rosto bem bonito, a algumas dessas escolas ler as histórias às crianças. Porém, a bibliotecária do Massachusetts cuja escola foi visada recusou o presente, dizendo que havia escolas de comunidades muitíssimo mais carenciadas que não tinham tido direito à oferta e que era a essas que deveriam ter sido dadas as colecções de livros. E que, além disso, os títulos daquela colecção eram demasiado caricaturais, com estereótipos antiquados, e um deles incluía mesmo comportamentos racistas. Antes de assinar, aconselhava dez títulos alternativos. Chama-se Liz Soeiro. Deve ser cá das «nossas».

Grandes autores para pequenos leitores

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A literatura infantil é pouco valorizada – tendo, sobretudo, em conta que é por ela que se começa a ler (e, se algo falhar então, é provável que os miúdos nem se tornem leitores). Apesar de algumas excepções, os autores de livros infanto-juvenis não são tratados com o mesmo respeito dedicado aos outros escritores e, por outro lado, também não se dá grande importância aos livros infantis escritos por escritores consagrados de literatura adulta. Li um artigo sobre os livros infantis desconhecidos de nomes maiores da literatura universal e cheguei à conclusão de que não tinha conhecimento de grande parte deles. Por isso, escrevo hoje este post para chamar a atenção para isso e dizer que Faulkner e Joyce, por exemplo, escreveram livros para crianças (The Wishing Tree e The Cat and the Devil, respectivamente); Carson McCullers escreveu um colectânea de poesia para os mais pequeninos; James Baldwin, Gertrude Stein, Sylvia Plath, Umberto Eco, Patricia Highsmith – todos eles são autores de pelo menos um livro para os mais novos, muitos dos quais com ilustrações de sonho (a que mostro abaixo é de Yoran Cazac, do livro Little Man, Little Man, de Baldwin), tal como os pouco prováveis escritores de literatura infantil T.S. Eliot, Salman Rushdie, Saramago, Ian Fleming ou Toni Morrison.


 


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O que ando a ler

A tradição de publicar em fascículos independentes, ou às pinguinhas em jornais e revistas, morreu, até porque os jornais e as revistas também já não são o que eram e ninguém hoje lê e encaderna fascículos (e muita gente já nem lê jornais). Mas houve um tempo em que era bastante comum (Dickens começou assim a carreira, por exemplo) e o hábito durou quase até à era do digital (sim, ainda comprei um atlas em cadernos que depois mandei coser dentro de uma capa que também ofereciam). O que agora ando a ler também começou a ser publicado em capítulos, e curiosamente na revista Playboy. Trata-se um romance de Yukio Mishima (o grande Mishima que amava as tradições e se matou desencantado com a modernidade) que, graças a Deus, a Livros do Brasil acaba de publicar em livro. Chama-se Vida à Venda e conta como um jovem publicitário de 29 anos, na sequência de um suicídio fracassado, resolve despedir-se e pôr um anúncio dizendo que vende a sua vida. Claro que esta estratégia de acabar com ela vai criar peripécias que terão frequentemente o efeito contrário, ao ponto de o fazer talvez reequacionar o valor da vida. Veremos, claro.