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A mostrar mensagens de março, 2021

Morder e ladrar

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O meu primeiro livro do ano só sai hoje, e tudo por causa do «confinamento» das livrarias. Perdeu-se a vinda da autora às Correntes d'Escritas, mas espera-se que as pessoas não percam o livro,  especialmente numa altura em que tantos casais substituem os filhos por animais de estimação e muita gente diz que, quanto mais conhece as pessoas, mais gosta dos animais... Na costa da Colômbia virada ao Pacífico – num lugar onde a paisagem luxuriante contrasta com uma pobreza extrema e o homem é uma migalhinha diante da força dos elementos – vive Damaris, uma negra com cerca de 40 anos que toda a vida quis ser mãe. A sua relação com o marido tornou-se, aliás, fria e turbulenta à medida que o casal foi sacrificando tudo o que tinha à obsessão de Damaris e, apesar disso, ela nunca conseguiu engravidar. Mas a vida desta mulher frustrada parece encontrar uma réstia de esperança no dia em que adopta a última cadelinha de uma ninhada. Só que, tal como os filhos nem sempre correspondem às ambições que os pais têm para eles, Chirli também não será a cadela com que a dona sonhou. A Cadela é uma novela brilhante sobre a maternidade, a traição, a lealdade, a culpa, e também sobre a relação enigmática e por vezes excessiva entre os donos e os seus animais. Chegou à final do National Book Award nos EUA em 2020, na categoria e literatura traduzida, e a sua autora ganhou há poucos meses o Prémio Alfaguara com Los Abismos.


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Livros ilustrados

Tendemos a pensar que os livros ilustrados são só para meninos pequenos e que, quando uma criança os abandona e começa a ler apenas livros de texto, é porque se tornou um leitor independente. Leio no New York Times um artigo de uma especialista, Pamela Paul, que não concorda com isto e tem pena de que os pais privem filhos pré-adolescentes (e até se privem eles próprios) de livros com ilustrações, porque não os considera de forma alguma infantis (embora o possam ser, claro) e diz que frequentemente este preconceito pode acabar por afastar definitivamente as crianças da leitura. Além disso, Pamela Paul diz que os livros com ilustrações fundem duas artes distintas (a literária e a visual), oferecendo duas leituras: a do texto, claro, e a das imagens, que conta uma história paralela, não sendo uma mera tradução do enredo. Depois, as ilustrações contemporâneas, que já não são de meninas lindas e perfeitinhas e meninos certinhos e com a camisa entalada nas calças, ajudarão a que os leitores se identifiquem mais facilmente com as personagens, e isso é o que faz realmente um leitor, a afinidade  com as personagens. É também importante o facto de muitas vezes ser o desenho que esclarece sobre determinada palavra difícil ou nova, somando-a ao léxico da criança. Pamela diz que, para fomentar a leitura, não se devem tirar de repente os livros ilustrados às crianças para elas não os associarem às leituras por prazer e associarem depois os livros de texto à chatice e à obrigação. Razões mais do que suficientes para nunca banirmos os livros ilustrados das nossas bibliotecas e estantes, diria eu, que até gosto de ler romances gráficos e tenho alguns livros infantis guardados no coração.

Os novos portugueses

Recebo uma mensagem da jornalista Anabela Mota Ribeiro, que me alerta para uma coisa em que não tinha ainda pensado: estamos em democracia há quase tantos anos como aqueles que vivemos em ditadura (apenas menos um). E quem são as pessoas que já nasceram ou foram criadas neste novo país que Portugal se tornou em 1974 e andam por aí a dar cartas (ou não)? Num programa de entrevistas que se estreia no próximo dia 1 de Abril (mas não é mentira!) na RTP 3 (e tem tudo para correr bem, diria eu), Anabela Mota Ribeiro vai falar com 25 Filhos da Madrugada (é este o título do programa). «Uns mais conhecidos do que outros. Diferentes sensibilidades políticas. De diferentes áreas de trabalho e geografias.» Haverá um pouco de tudo, naturalmente, mas o essencial é vermos como é a vida destas pessoas na actualidade em comparação com a vida que tiveram os seus pais e avós e o que sabem os «jovens» portugueses desses tempos longínquos (ou não tanto, que eu não me sinto velha e ainda os vivi durante 14 anos). A educação, o sexo, a religião, o preconceito, as oportunidades, tudo isto vai estar em causa nas conversas que terminam no dia 25 de Abril (um belo dia!) e darão a voz a gente muito distinta, de direita e de esquerda, para português ver. Eu cá estou muitíssimo curiosa.

Os mortos e a literatura

Li algures uma frase de Voltaire que apontei logo no meu telemóvel: que devemos respeito aos vivos, mas, aos mortos, devemos apenas a verdade. Vem isto a propósito de um artigo que li no The Guardian há uns dias sobre o grande Thomas Bernhard, o mais talentoso dramaturgo (e romancista) austríaco, e além disso um homem poderosamente charmoso, como se vê pelas várias fotografias que se encontram por aí, incluindo uma do final dos anos 1950 que acompanha o artigo em questão. Parece, porém, que a sua imagem pública de disciplina, génio e generosidade é agora desmantelada por uma biografia escrita pelo seu meio-irmão Peter Fabjan (que, em português, se chamaria algo como Uma Vida ao lado de Thomas Bernhard: Um Relatório) e publicada em alemão há um par de meses, estando a fazer furor sobretudo na Áustria, onde se encontra no Top 10. Pois o meio-mano diz que o grande escritor era afinal um fantasma, até um demónio, e que viver ao seu lado foi penoso, porque se tratava de uma pessoa vulnerável, surda aos demais e que, quando os próximos já nada lhe podiam oferecer, os descartava sem dó nem piedade. Segundo a frase de Voltaire, talvez Fabjan esteja certo em contar tudo isto, mas importa realmente tantos anos depois da morte de Bernhard deixar um testemunho tão negativo de alguém que já não se pode defender? Há quem pense que, depois de mortos, não se deve denegrir a imagem dos escritores (que cai mal, enfim) mas, por outro lado, há também quem espere que o escritor se torne esqueleto ou cinza e afie logo as unhas para lhas enterrar na memória. Será Fabjan um oportunista ou alguém muito magoado a vingar-se de uma ferida que não sara? Em que podem, no fundo, os mortos servir a bela literatura?

Os livros das caravanas

Gostaria muito de visitar uma exposição que estará apenas aberta até 9 de Abril em Las Palmas e, em Maio, se inaugura em Tenerife (mas não estou com planos de ir a nenhum desses sítios tão cedo). É uma mostra de fotografias de famílias mauritanas e dos documentos antigos que elas conservaram, alguns datados do século VIII, quando as rotas caravaneiras e mercantis atravessavam o deserto do Sara para trocar sal por ouro e iam parando pelo caminho. Pois parece que já nesse tempo levavam «livros» e documentos e que, ao deter-se nos oásis, os deixavam ali para serem copiados e lidos pelos que ali viviam, sendo apenas levantados no regresso. Eram copiados de forma mais ou menos rápida e ali ficavam depositados por séculos, servindo de meio de contacto com as cidades por quem ali estava tão isolado do mundo. Mais recentemente, foi dada formação a uma dezena de famílias em dois destes antigos oásis mauritanos para digitalizarem e restaurarem os documentos guardados, e a exposição mostra também, além das preciosidades, as fotografias destas famílias do deserto trabalhando para a conservação de um património incrível: tabuinhas, textos sobre astronomia, religião e matemática, tudo elementos que vêm mostrar que o Sara, longe de ser uma fronteira entre cidades povoadas, foi afinal uma espécie de «continuum cultural».

Imaginação

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Rosa Montero, versátil autora do país vizinho, escreveu o seu mais brilhante livro sobre a imaginação e chamou-lhe A Louca da Casa. Se não o leu ainda, não perca esta homenagem à nossa faculdade de imaginar. Hoje, porém, a imaginação está menos valorizada, pois parece que as pessoas preferem as séries da Netflix aos livros que, como se sabe, são instrumentos que desenvolvem inúmeras capacidades, nomeadamente a imaginação, e obrigam a uma participação mais activa do leitor (o espectador já tem a papa feita, digamos assim). Mas ainda há quem, no mundo dos livros, não se deixe abater pela concorrência e arranje maneira de replicar os tiques de quem está a roubar-lhe público, talvez para lho roubar depois. É o caso de uma bibliotecária inglesa, Jo Clarke, que não baixa os braços. O meu amigo facebookiano Nuno Ferreira da Silva partilhou na sua página a fotografia que aqui publico hoje e que mostra como é precisa imaginação e inteligência quando se pretende fazer leitores, incluindo os mais pequeninos. Este foi o cartaz que Jo pensou e realizou para a escola primária onde trabalha, replicando as listas de filmes e séries à disposição na Netflix. Se todos os nossos professores primários tivessem imaginação e iniciativa como Mrs Clarke, talvez houvesse mais leitores em Portugal.


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Herdeiros de Saramago

Lembram-se certamente de que recentemente a RTP transmitiu cerca de uma dúzia de documentários sobre todos os vencedores do Prémio Literário José Saramago com o título genérico Herdeiros de Saramago, uma maravilha bastante invulgar na nossa produção televisiva, assinada por Carlos Vaz Marques com realização de Graça Castanheira. Pois agora o mesmo título serve de inspiração a Jerónimo Pizarro, o professor da Universidade dos Andes em Bogotá, responsável pela Cátedra Fernando Pessoa, e à revista colombiana Malpensante para uma série de encontros em modo de Clube de Leitura com alguns dos autores contemporâneos portugueses mais representativos (Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto) para se falar da obra do mestre e de temas como a revolução, a memória, a descolonização e a identidade nacional através de livros como O Retorno, A Máquina de Fazer Espanhóis, Morreste-me e Jerusalém. As sessões terão lugar nos dias 15, 22 e 29 de Abril e 6 de Maio, pelas 9 horas da noite portuguesas e as inscrições já estão abertas. Junto o link com mais informação.


Club de lectura - Los herederos de Saramago con Jerónimo Pizarro (google.com)

Estupidez

Disse-se ao longo de mais de uma centena de anos que a América era a terra das oportunidades; infelizmente, passou a ser a terra da oportunidade de ficar calado, pois não se pode agora falar de nada sem que todas as nossas palavras, por mais inocentes que sejam, acabem julgadas da pior maneira. Recentemente soube que recusaram a obra de um autor português com um relatório em que, antes de mais nada, o descreviam como muitíssimo talentoso; mas esse talento era secundário para a editora norte-americana que decidiu não o publicar porque um dos romances falava de forma muito directa de um tema que, para a imprensa norte-americana, era muito sensível (a deficiência); e o outro tinha, entre as suas personagens, uma transexual (mas, como o autor não o é, certamente iria ser acusado de falar do que não sabe; ainda pensaram pedir um segundo relatório de leitura a alguém da comunidade LGBT lá do sítio, mas não encontraram nenhum trans que lesse português). É o que temos na terra das não-oportunidades. Então hoje para uma editora o talento é menos importante do que o assunto de um romance? E um agente cultural como uma editora mete o rabo entre as pernas, recusa-se a arriscar e abdica de mudar mentalidades mesmo quando diz que o autor tem muito talento? Não sei mesmo aonde vamos parar com este tipo de (in)decisões e ainda bem que eu já não vou durar muito para ver este tipo de censura encapotada tomar conta de tudo. É uma outra forma de preconceito que em nada ajuda as minorias, fingindo que as protege. Se os autores não podem falar do que não sentiram na pele, não é isso uma negação da imaginação? Albert Einstein disse que havia duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. E que não sabia qual era mais antiga...

Excerto da Quinzena

Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, um som, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, dancings, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes são, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse «Santos e anjos, mártires e homens bons»; e significaria a mesma coisa.


John Steinbeck, Bairro da Lata (tradução de Luiza Maria de Eça Leal)

Poesia

Estes tempos de pandemia são tempos prosaicos e sem graça. Mas neste domingo celebra-se mais um dia da Poesia e convém, pelo menos nesse dia, ler poemas, mesmo que os Extraordinários sejam mais dados à ficção e alguns digam até que a poesia lhes diz pouco (suponho que apenas porque ainda não encontraram o poeta que os convenceu; ele há tantos e tão diferentes que o mais importante é insistir). Para este domingo, convidaram-me (a mim e a outros poetas, bem entendido) da Casa da América Latina para ler cinco poemas de autores latino-americanos. Escolhi José Emilio Pacheco do México, Eucanaã Ferraz do Brasil, José María Zonta da Costa Rica, Juan Gellman e Roberto Juarroz da Argentina (e não me venham chatear por serem tudo homens, porque aqui o que me interessou foram os poemas, não os poetas, como diz o próprio José Emilio Pacheco no texto que elegi). E, de cada vez que gravo estes pequenos vídeos e investigo, fico feliz por encontrar textos tão bonitos que não conhecia e por vezes até autores que nem sabia que existiam. Façam o mesmo neste domingo: procurem, para variar, um poeta qualquer de um país que escolham. Verão como a descoberta dará bons frutos.

Novos desafios

Gosto muito quando uma arte provoca outra, e já aqui devo ter contado a história de uma joalheira que fez uma belíssima pregadeira sobre um poema meu (e outras peças alusivas a textos de outros autores portugueses). Desta feita, um fotógrafo e formador de Fotografia, Carlos Dias, desafiou-me a deixar que outro poema meu servisse de inspiração a cinco fotógrafas, que tinham a liberdade de pegar nele da forma que entendessem e criar. Responderam ao desafio Ana Botelho, Carla de Sousa (para quem, segundo li, a fotografia é também uma forma de terapia), Clara Moura, Fátima Lopes (que diz ter vestido o poema) e Teresa Valente (caso em que as imagens do corpo  são mais flagrantes). Os seus ensaios fotográficos estão agora reunidos num bonito livro com 63 fotografias (e mais 5 imagens impressas em papel fotográfico como bónus; as minhas autografadas) editado por Carlos Dias. Imagens de árvores outonais, campos, cabelos, nuvens, um abraço, um muro, um vidro estilhaçado... todas pegam no texto «O meu amor não cabe no poema» para nos oferecer uma arte que cabe nas páginas e as ultrapassa. O grafismo é belíssimo. Obrigada a Carlos Dias e às fotógrafas.

À medida do freguês

Já sabemos que, quando um livro publicado não roda nos primeiros dez dias (o que é cada vez mais frequente, dada a falta de espaço para a crítica e a promoção), o livreiro tem de o mandar para trás na primeira oportunidade para não ficar com demasiados elefantes dentro da loja. Mas isso não quer dizer que alguém que, por qualquer razão, se atrasou na compra e na leitura, não queira, três meses passados da publicação, tentar apanhar o comboio. Geralmente, já não encontrará um só exemplar à venda nas lojas físicas, sendo obrigado a encomendá-lo numa delas ou comprá-lo online. Também acontece livros esgotados há muito não se reeditarem por só existir meia dúzia de pessoas interessadas neles (e ainda não haver, no tempo da sua publicação, essa novidade do e-book qjue agora, apesar de tudo, pode ajudar alguém que procura desesperadamente um livro). Por outro lado, num universo de milhões de títulos, uma livraria pode ter mais de dez ou vinte mil à venda? Os livros não vendidos ocupam muito espaço nos armazéns das editoras e, se não forem escoados, acabam quase sempre na guilhotina. A ideia expressa no vídeo abaixo, de uma máquina que imprime livros em sete ou oito minutos e à vontade do freguês pode ser, pois, bastante boa. Sobretudo para quem prefere o papel, como eu. Obrigada a Fausto Marsol, que me deu a conhecer este projecto sevilhano, embora através de outro vídeo. Talvez em breve tenhamos algo parecido em Portugal.


https://www.youtube.com/watch?v=e833YMcMclM


 

Adiamentos

Fez no sábado um ano que vim para casa encerrar-me por causa do vírus (eu e mais de metade dos portugueses). Já tinha passado uma semaninha de reclusão quando se provou que Luis Sepúlveda estava infectado e tinha vindo de Portugal uns dias antes, mas dessa vez o Coronavírus ainda estaria para chegar à  pátria lusa. O 13 de Março é a data que está na minha memória como o princípio do terror e, simultaneamente, do teletrabalho. Em Agosto, passei a ir com máscara e cuidado à editora, mas eram ainda muitos os colegas que continuavam a trabalhar a partir de casa e alguns deles nunca abandonaram o lar, indo apenas esporadicamente à empresa. Muita coisa mudou nas nossas vidas pessoais e profissionais. Em 2020, o Prémio LeYa acabou por ser adiado, pois não havia ninguém para abrir envelopes (e sabia-se lá se o vírus não vinha dentro deles) e poucos eram os concorrentes que, no primeiro confinamento, tinham a coragem de quebrar as ordens de recolhimento obrigatório e pôr-se na fila dos Correios para mandar os seus originais. E, neste segundo período de encerramento, é o Prémio Literário José Saramago que salta para 2022. Como houve muitos lançamentos de livros adiados por conta do fecho de livrarias, a Fundação Círculo de Leitores, promotora do prémio desde o final dos anos 1990, quando Saramago venceu o Nobel, explica que é mais sensato passar a entrega do prémio para 2022 pois assim a próxima edição coincidirá com o centenário do escritor, o que realmente faz sentido. Em Outubro, espero, será conhecido mais um vencedor do Prémio LeYa. Dizem-me que os originais deste ano já começaram a chegar. Esperemos que não haja mais impedimentos até lá.

O tempo das mulheres

Tenho a  sensação de que este é o tempo das mulheres. Uma boa novidade (se eu não estiver do meu lado, quem estará?), mas por vezes, infelizmente, mais forçada do que natural e mais porque tem de ser, e não porque é. Se numa lista de prémios literários não constam obras de mulheres, há logo um grande sururu; mas pôr lá um livro de uma mulher só por ser de uma mulher, convenhamos, é um erro tremendo, se o livro não merecer a distinção. Um dia destes, o organizador de um festival literário mandou a lista dos autores que queria convidar para eu reencaminhar aos  dois ou três que publico e dela faziam parte. Um deles (homem) aceitou o convite, mas fez notar à organização que faltavam mulheres na lista e que era melhor tomar medidas desde já, antes de lhe cair em cima o Carmo e a Trindade... Bem, não podemos de facto prolongar a velha situação em que as mulheres eram constantemente esquecidas ou convidadas de segundo plano, mas também convém ser coerente e não andar a dar prémios à toa só por causa do sexo do escritor ou da temática feminista das obras (voltarei a isto em breve para falar de uma obra específica cuja premiação achei realmente discutível). Em todo o caso, nem sempre é assim, e é muito bom ver que Presidente da República de Portugal substituiu a cadeira vazia de Eduardo Lourenço no Conselho de Estado por Lídia Jorge, talvez a escritora contemporânea que mais tem reflectido sobre os problemas da actualidade e que melhor expressa as preocupações dos intelectuais em relação a uma sociedade sem leitores, mais agressiva e menos empática. Uma pensadora inteligente, culta, coerente e com um discurso que é uma chamada de atenção urgente para quem governa e que pode e deve tomar medidas que salvem o País deste «analfabetismo» estrutural. Aplaudo e agradeço.

Desdobrar

Não sei se se lembram de há já bastante tempo vos ter falado aqui no blogue de um baú cheio de cartas fechadas que foi encontrado cerca de trezentos anos depois de elas terem sido escritas. Eram 2571 missivas do Renascimento que um «carteiro» dos Países Baixos nunca entregou aos destinatários. O que nelas está escrito fará certamente luz sobre vários aspectos da sociedade desse tempo, mas havia um problema que dizia respeito à imensa probabilidade de estragar tudo com um gesto precipitado, até porque, segundo leio no Público de 3 de Março, as cartas estão dobradas de formas incrivelmente engenhosas, em padrões complicados que eram também uma espécie de assinatura de quem enviava, e corriam o risco de se desfazer ao toque. Então, para não deitar tudo a perder, o grande desafio foi ler cada carta sem a desdobrar, ou seja, lê-la com raios-X através de um aparelho criado, vejam lá, para «coscuvilhar» os dentes humanos, que tem uma sensibilidade inédita em cartografia. Um raio-X à História feito, afinal, com a ajuda da medicina dentária, a que posteriormente se associa um programa informático que permite desdobrar virtualmente as cartas em três dimensões e ler, por exemplo, uma missiva de 1697 de um senhor que pede a seu primo, mercador residente na Haia, o envio de uma certidão de óbito do cavalheiro Daniel LePers. As maravilhas da Ciência dedicam-se às Letras. Muito bem.

Tragédias

Uma colega minha mandou-me um recorte de jornal que, se não fosse bastante próximo do que eu já esperava, deitaria abaixo qualquer pessoa que trabalha no ramo dos livros, fazendo-a querer mudar imediatamente de sector. Tem que ver com o estado da leitura em Portugal... que é catastrófico, e não é de hoje. Segundo o Eurobarómetro, dos 27 países da União Europeia, Portugal era em 2013 o último da lista dos que tinham lido pelo menos três ou cinco livros num ano (só 12,5% dos portugueses tinham lido cinco livros num ano e, no país pior a seguir a nós, a Roménia, eram 18,5% os que o tinham feito; no caso dos três livros, a diferença era ainda mais gritante: de 18,7% para 30,5%). Entre 2007 e 2016, houve, porém, uma queda no número dos que tinham lido em Portugal pelo menos um livro (só um!), de 44,7% para 39,5%, concluindo o estudo que, no ano de 2015, houve cerca de 62% de portugueses que não leram um único livro. Com a pandemia e os períodos de confinamento obrigatório, em muitíssimos países europeus cresceu muito significativamente o número de leitores. Aqui, porém, com o fecho das livrarias, a proibição temporária de venda de livros noutros espaços, a desconsideração votada ao livro pelos responsáveis governamentais e, por outro lado, os meninos agarrados aos computadores o dia todo (para a escola e não só), não há esperança de os números melhorarem. Até tenho medo de ver os dados do Eurobarómetro de 2019. A leitura está cada vez mais confinada num grupelho de malucos como nós.

Arte pobre

Leio no Público que a Fundação Calouste Gulbenkian vai apoiar os artistas com mais de um milhão de euros. No artigo, que não vem assinado, diz-se mesmo que o apoio às artes sempre esteve no «ADN» da Fundação que, até hoje, foi vista, aliás, por muita gente como «um Ministério da Cultura informal». É verdade que sim – e ainda bem, pois o Ministério da Cultura «formal» pouco tem servido aos artistas, sobretudo neste período catastrófico que atravessamos, apesar de uns míseros apoios anunciados. Reparo, porém, que as ajudas dos dois ministérios (o verdadeiro e o falso) são sempre para as artes visuais e performativas, mas nunca incluem os escritores que, sei lá porquê, ficam de fora como se não estivessem a sofrer na pele tal como os outros. Ora, com as livrarias fechadas há que tempos, com tantos livros que deixaram de se vender, quando os autores receberem os relatórios de vendas anuais vão levar um verdadeiro rombo nas suas contas. Um autor que conheço bem, por exemplo, passou, de uma semana para a outra, de cerca de 100 exemplares semanais vendidos do último título para 2, queda fulminante de que é difícil alguém recompor-se, até porque, mal abram as livrarias, os editores vão «despejar» nelas tudo o que ficou entretanto parado nos armazéns e os pobres livros saídos no início do ano que nem tiveram tempo para respirar serão logo chutados para fora das lojas para dar lugar aos novinhos em folha de três meses acumulados… Mas os escritores são artistas em que ninguém pensa. O MC formal dá umas bolsas de criação literária todos os anos e acha que chega para apoiar as Letras. E o MC informal não costuma incluí-los nestes programas de apoio. Uma outra arte pobre?

Dietas

Devem estar quase a chegar os livros de dietas para nos apresentarmos elegantes nas praias do próximo Verão (isto, se conseguimos deixar o confinamento com juízo, claro, de contrário não haverá férias para ninguém). É natural que este ano se publiquem muitos, pois ouço dizer que, por causa do teletrabalho e do recolhimento (e do fecho dos ginásios), muita gente esteve sem se exercitar; e, pior, com a nervoseira e a depressão de não ver os amigos, acabou por se refugiar na comida e engordar uns quilitos (não caibo, felizmente, nesse figurino, pois a mim as chatices dão-me geralmente para a falta de apetite e, além disso, comendo em casa, como melhor e coisas mais saudáveis). Mas, como lembrou (e muito bem) Rita Pimenta no jornal Público (a propósito do fecho das livrarias), «ler não engorda» e, por isso, vale a pena prestar atenção ao jornalista João Morales, tem agora uma rubrica no Youtube chamada Alimente as Suas Estantes, na qual aconselha mensalmente títulos e ressuscita autores esquecidos que merecem ser visitados ou revisitados, como, por exemplo, foi o caso de Vasco da Lima Couto. Subscreva o canal 19 e dê saúde a este projecto!

Excerto da Quinzena

Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.


O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, emfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.


Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco

Palavras proibidas

O mundo está cada vez desengraçado, sobretudo desde que, em plena democracia (pelo menos, em teoria, é uma democracia), o que começou por ser um politicamente correcto cheio de boas intenções passou de repente a crítica feroz a determinado tipo da linguagem, mesmo inocente, que leva depois a uma permanente autocensura e a um cuidado excessivo que nos retira qualquer espontaneidade. Li, consternada, a notícia de que num hospital do Reino Unido as parteiras foram aconselhadas a prescindir da expressão «leite materno» para não ostracizar pessoas transgénero e abranger famílias não tradicionais (e cito: «incluindo agenderbigender e genderqueer»), substituindo-a por «leite humano», que é uma coisa que, na minha modesta opinião, cheira quase a filme de terror. Mas, se a arte parecia uma coisa à parte, livre desta «censura» da linguagem, desenganem-se. O medo de ofender chegou à literatura (em certos países mais do que noutros) e deve estar presente na cabeça dos escritores norte-americanos todos os dias. Agora, que tenho mais livros de autores que publico em, Portugal traduzidos noutras línguas, nomeadamente em inglês, tenho verificado que certas metáforas até algo ingénuas (como, por exemplo, referências a índios e cowboys em brincadeiras infantis) são mal acolhidas pelos tradutores norte-americanos, que as acham inaceitáveis e ofensivas para os nativos, pedindo simplesmente para as omitir ou permitir a troca por outras, mais amigas das minorias. Se um autor estiver, por isso, apostado sobretudo em internacionalizar-se, cuidado, pois em certos países vai ter de abdicar de muito do que escreveu.


Deixo o link donde tirei a notícia para que alguns comentadores vejam que aqui as expressões são mesmo as que citei:


https://zap.aeiou.pt/hospital-pede-que-parteiras-nao-digam-amamentacao-e-leite-matern-380356?fbclid=IwAR1B4K9b3wP7RYMo27wfFK4hhe4QkUTgRCst-0NYA3VXUyckhChT-l0cQ7w

Ângulos

Lembram-se certamente de que fez furor, na tomada de posse de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos, uma jovem norte-americana negra chamada Amanda Gorman, que leu um poema da sua autoria muito comentado. Claro que no dia seguinte todos os editores do mundo andavam a tentar comprar a obra poética da jovem para a traduzirem a correr e a publicarem nos respectivos países. Acredito que em Portugal também já esteja nas mãos de um tradutor esse trabalho, para ser editado em breve, mas não é isso que me leva a falar de Gorman hoje, e sim uma notícia completamente estapafúrdia vinda da Holanda, onde a tradução da poesia de Gorman tinha sido confiada a Marieke Lucas Rijneveld, vencedora do Man Booker International Prize com o seu primeiro romance e de outros prémios com livros de poesia. Mas eis que vêm uns  críticos e apologistas de uma coisa chamada «lugar da fala» (que nega por exemplo que uma norte-americana possa escrever um romance sobre mexicanos que tentam passar o muro que Trump construiu na fronteira com o México, porque isso só pode ser feito pelos mexicanos!) dizer que lamentam muito, mas que a linda escritora tem de recusar o trabalho de tradução, porque é branca e, como tal, «não tem experiência neste campo» e nunca poderá entender os poemas de Amanda Gorman. A escritora, pressionada pela crítica, decidiu recusar o trabalho. Acho mal, pois não me parece que cor de pele dê habilidade para traduzir. E sobretudo porque a literatura é universal, não tem cor, e se assim não fosse James Baldwin também não poderia ter escrito O Quarto de Giovanni por não ser branco. Se todos entendemos o poema de Gorman quando o ouvimos (incluindo os críticos holandeses, brancos de certeza), devo depreender que, por ser branca, apenas julgo que o compreendi? O mundo está a ficar um lugar insuportável.

Criticar a crítica

Em Portugal, o espaço para a crítica de livros nos meios de comunicação é tão diminuto que, na verdade, os críticos optam geralmente por promover obras de que gostam e acham que devem ser lidas, sendo geralmente brandos quando se sentem mais desiludidos com algum livro. Quando o número de títulos publicados era muito menor do que hoje, havia bastantes mais polémicas entre críticos e autores e até entre académicos «pró» e «contra» um novo autor; mas actualmente os críticos que só querem ofender ou chatear são sempre os mesmos, pelo que já poucos se inquietam verdadeiramente com o que escrevem. Isso não acontece, porém, em outros países e, especialmente aqui ao lado, os críticos espanhóis não poupam os autores a uma brutalidade às vezes excessiva quando estes já mostraram que eram capazes de melhor. É lícito, evidentemente, que mostrem desagrado, mas também acontece serem irresponsáveis e apanhados em falso, tantas vezes se percebendo que tão-pouco se preocuparam em ler até ao fim o que tão veementemente criticam. E, apesar disso, como escreveu recentemente Javier Cercas no El País, porque será que existe a «superstição» de não criticar o crítico mesmo quando a crítica é gratuita e injusta (referia-se a um texto sobre um livro de Manuel Vilas)? Normalmente, quem responde ao crítico acaba por sublinhar o que fez menos bem? Não faço ideia, mas muitas vezes aconselhei autores a ignorar o pontapé e deixar andar. Porquê? Talvez para nos pouparmos todos a mais sangue. Mas não seria lícito ripostar, abrir a ferida do outro? Uma pergunta que deixo aos Extraordinários.

O que ando a ler

Como começa o mês, está na hora de dizermos o que andamos a ler. Leio, pela primeira vez, um autor norte-americano, a morar em Chicago, chamado Jesse Ball, e o seu romance Censo. É uma escrita em que encontro algumas reminiscências de outros autores dos Estados Unidos (Cormac McCarthy, talvez por narrar uma viagem de um pai e um filho como em A Estrada, ou de DeLillo, por falar de um recenseamento populacional que raia o inexplicável ou o absurdo e implica marcar os entrevistados no corpo, como se faz às vacas...). Mas é bastante interessante como leitura, pois fala, embora de forma elíptica, do que são os Americanos, de como se vive nesse país que é um continente, e das relações que um médico em fim de vida tem com o seu filho deficiente, com as memórias da mulher (que estudou para ser palhaça) e com os outros, essa massa anónima que tem de visitar em muitas localidades de A a Z para fazer o censo. Um pouco inesperado, desperta a curiosidade pelas outras obras do autor.