Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2012

Sair do armário

Durante muito tempo, os académicos inibiram-se de escrever romances históricos. Numa ficção, o rigor é evidentemente importante e tem de se ter especial cuidado para evitar asneiras e anacronismos; mesmo assim, a ficção permite pequenas liberdades que a escrita ensaística não autoriza e, quiçá temendo a crítica dos pares, raramente os historiadores portugueses se atreveram ao subgénero literário do romance histórico. Num debate na última Feira do Livro do Lisboa, percebi, porém, que as coisas estão claramente a mudar. João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, saiu do armário e escreveu dois romances em dois anos (O Império dos Pardais e O Fio do Tempo). E o mesmo aconteceu a João Pedro Marques, um historiador doutorado por aquela mesma universidade, que também se estreou em 2010 com o romance Os Dias da Febre e chegou agora aos top de venda com o seu mais recente Uma Fazenda em África, que tem um título bem sugestivo e uma capa que pisca o olho ao famoso Equador, de Miguel Sousa Tavares. Não li ainda nenhuma das obras para ver se falta aos especialistas talento para contar onde lhes sobra informação. Mas é um bom sinal que ponham os seus conhecimentos ao serviço do público leitor, já que há muitas obras de cariz histórico que mostram preguiça em investigar e trazem erros de pôr os cabelos em pé. Vamos lá ver se outros se atrevem.

O real ao serviço da escrita

Li algures que, nos últimos dez anos, os livros de ensaio escritos em português e publicados em Portugal foram significativamente menos do que nas décadas precedentes. Não falo de não-ficção em geral, uma vez que se multiplicaram biografias de reis, rainhas e estadistas e não faltaram também os livros de dietas, cozinha e psicologia; falo, sim, de obras de pensamento estruturado, normalmente de índole política e filosófica, que aparecem cada vez menos nos nossos escaparates. Num destes fins-de-semana, porém, uma breve notícia no suplemento «Actual» do Expresso referia que em Espanha a situação, que era semelhante, está a inverter-se com o movimento contestatário 15-M, que já deu origem, com a sua acção, a mais de duas dezenas de obras «filhas» deste grupo, algumas das quais questionam o direito à desobediência civil e propõem alternativas à actual política social espanhola. Talvez o nosso espírito demasiado brando obste a um movimento deste tipo (somos, apesar de tudo, mais «come e cala» do que os espanhóis), mas não me admiraria muito se, com a austeridade vigente e o agravamento das condições de vida, não começassem a surgir de repente ensaios portugueses que nos ajudem a pensar o momento e apresentem alternativas às medidas da Troika.

Curso em papel

Há uma editora na Caminho, Isabel Garcez, que promove cursos muito interessantes, alguns dos quais ministrados pelos autores «da casa» (Gonçalo M. Tavares sobre o pensamento filosófico contemporâneo, por exemplo). Há cerca de um ano, foi organizado um curso de ficção portuguesa contemporânea orientado por Miguel Real que, além de escritor e crítico, é provavelmente uma das pessoas mais informadas sobre literatura lusófona, conhecendo quase tudo o que existe, sobretudo dos novos autores. Pois bem: não só o curso foi um sucesso (houve mais inscritos do que vagas e foi preciso encontrar um espaço que desse para todos os interessados), mas também a já referida editora decidiu transformar o curso em livro, que está disponível há pouco mais de um mês sob o título O Romance Português Contemporâneo: 1950-2010. Não se querendo de profundidade excessiva, este é um bom guia para conhecermos os autores que se estrearam a partir da segunda metade do século passado, divididos por quatro grandes grupos, desde os mais realistas aos mais desconstrucionistas. Com um precioso índice de autores, encontraremos na obra muitos nomes que se consolidaram, mas também outros que, tendo surgido já no século XXI, ainda vão ter de caminhar bastante para mostrar o que valem. Um excelente livro de consulta para quem gosta de saber mais sobre o que se escreve no País.

Sala de estar

O Horas Extraordinárias fez dois anos há cerca de quinze dias. Confesso que, com a lufa-lufa da Feira do Livro, a efeméride me passou, mas agora não posso mesmo deixar de agradecer aos meus muitos leitores que todos os dias cá vêm, quase como se fossem para o emprego. Tem sido muito bom contar com tantas visitas e ver que as pessoas se sentem neste blogue como em família: lêem, dão a sua opinião, fazem comentários apropriados, conversam uns com os outros e até deixam recados que nada têm que ver com o assunto do dia, pois já sentem noutros visitantes uma espécie de amigos com quem têm afinidades. Alguns dos meus visitantes são tão frequentes que, se não aparecerem por dois ou três dias, estranho e até me pergunto se andarão doentes ou de viagem. Outros são tão interventivos que até respondem por mim e me poupam a réplicas. Um ou outro já veio apresentar-se pessoalmente e foi bom poder pôr uma cara num nome. Mas o que é mais engraçado é que neste blogue dialogam pessoas muito diferentes, umas muito mais velhas do que outras, sem se sentir essa diferença nem haver entre elas qualquer tipo de distanciamento ou reverência. Enfim, é como se estivéssemos todos numa grande sala de estar – e, claro, os sofás fossem confortáveis. Obrigada, pois, por trazerem as almofadas. Por mim, só posso prometer continuar a dar o mote para muitas conversas. Até sempre.

Literatura e jogo

Já trabalhava na edição há uns tempos quando assisti à fantástica campanha de lançamento de um livro infantil (mas com o qual muitos adultos se divertiram) chamado Onde Está o Wally? Tratava-se de um livro-jogo no qual, entre densas multidões em vários contextos, tínhamos de encontrar o Wally, um rapaz de óculos, barrete e camisola às riscas. Conheci na Feira de Frankfurt o editor canadiano, que me contou que em Montréal puseram um Wally em tamanho natural à porta das livrarias com a seguinte inscrição: «Vai lá dentro à minha procura!» Foi, ao que parece, um êxito – e a esse primeiro livro sucederam-se muitos outros, que se venderam como pãezinhos quentes por todo o mundo. Vem isto a propósito de ter recentemente descoberto que a literatura também não está isenta de jogo. O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, agraciado com o Prémio LeYa, inclui um episódio em que, num determinado museu austríaco, uma personagem feminina copia de um quadro de Brueghel (e os quadros deste pintor têm por vezes semelhanças com os livros do Wally no caos de figuras) uma mulher de muletas com um lenço na cabeça. Ora, aqui no blogue apareceu um leitor que já tinha andado à procura dessa senhora em muitas das telas do pintor e andava meio perdido, de tal forma que o autor lhe propôs um encontro na Feira do Livro para o esclarecer (e ele foi). Uns dias mais tarde, foi a vez de o jornalista Manuel Jorge Marmelo escrever no Público que estava convencido de que a figura mencionada no romance tinha transitado para um outro quadro de Brueghel que não o que o autor referia. Também no Facebook, uma leitora confessou, depois de ler esse artigo no jornal, ter procurado em vão a tal mulher de lenço e muletas naquele quadro, mas estar desconfiada de que a encontrara noutro (afirmando, porém, que esse não se encontrava num museu austríaco). Enfim, a menção de um pequeno detalhe acabou por levar uma data de gente a perder tempo com a pintura de Brueghel, o que é muito positivo, já que não é todos os dias que observamos uma obra de arte ao pormenor e com atenção redobrada. Provavelmente, por muito que cresçamos, nunca deixaremos de gostar de brincar – e a literatura é, pelos vistos, uma forma excelente de não nos esquecermos de como se brinca.

As leituras dos escritores

Tenho a sensação de que quase toda a gente acha que os escritores lêem muito mais do que as outras pessoas. É lógico que se pense que a maioria dos escritores se apaixonou primeiro pela leitura e que foi essa paixão que, muito provavelmente, os conduziu à escrita. Mas daí a pensar-se que são os que mais lêem e que leram todos os livros fundamentais, bem... quanto a isso, já não tenho tanta certeza. Sei de leitores vorazes que paparam todos os clássicos sonantes e andam sempre actualizados sobre a literatura mundial, parecendo-me bastante mais lidos do que muitos escritores que conheço (e não estou a falar dos mais jovens), que «cumpriram» a sua quota-parte de leituras até terem começado a escrever mas depois passaram a ler apenas os grandes autores, ignorando todos os que vão aparecendo depois deles, excepto se se tornam célebres ou ganham prémios chorudos. Há, de resto, uma coisa que sempre me fez muita confusão e que tem que ver com o facto de um escritor dizer que, quando está a escrever, não lê nada (ou lê apenas jornais, revistas ou livros de receitas) para não se deixar influenciar. Até já apanhei uma vez um grande escritor a hesitar e a ficar nervoso quando lhe perguntaram o que andava a ler; permaneceu calado tanto tempo para se lembrar do título do livro que se tornou evidente que não lia nada há que tempos. Não generalizo, evidentemente, até porque sei de alguns que não adormecem sem ler umas páginas e de outros que andam tão bem informados sobre os autores novos que, de facto, os devem conhecer de ter lido, e não apenas de ter ouvido falar. Percebo também que, enquanto se está a escrever um livro, a paixão por ele deve ser tão grande que não deixa muito espaço a leituras (a não ser das páginas do próprio livro, lidas e relidas até à exaustão). Mesmo assim, tenho quase a certeza de que há gente que nunca escreveu uma linha que leu muito mais do que alguns escritores.

Manolo apresenta-se

Imagem

Já aqui falei de O Intrínseco de Manolo, um romance de estreia muito divertido e acutilante publicado recentemente com a chancela da Teorema. É a história de um casal alentejano – o Manel e a Maria – que a mediocridade da aldeia maldiz e acusa, mas cujo amor parece resistir a todas as safadezas, se não metermos a morte nisso. O seu autor, João Rebocho Pais, leitor apaixonado que passa demasiadas horas nos aviões, confessa que nunca tinha pensado publicar profissionalmente um livro, mas ainda bem que se enganou, porque o romance tem personagens que ficarão na nossa memória para sempre, por boas e más razões (um tasqueiro vestido de enfermeira e maquilhado não se esquece do pé para a mão). Amanhã, vamos ouvir, por exemplo, o que pensa Luís Filipe Borges da obra na sessão de apresentação pública que terá lugar na Livraria Buchholz pelas 19h00. Tenho alguma curiosidade em saber se a tónica será nas personagens algo disfuncionais e cómicas como Tonho ou Idalina, se, pelo contrário, o apresentador se deterá nas diferenças entre os Manéis e as Marias de Cousa Vã e as Conchitas e Manolos de Ciudad del Sol, ali mesmo ao lado. Mas, para isso, é mesmo preciso ir lá. Estão todos convidados.


 


 


Livraria bonita

Muitas revistas de livros em todo o mundo incluem uma secção de livrarias bonitas – e a nossa Lello, no Porto, aparece quase sempre na lista das mais belas. Contudo, não me parece que os portuenses, quando querem comprar livros, a frequentem, talvez por não responder com a mesma eficácia de uma Fnac ou de uma Bertrand aos seus pedidos e ter um acervo bastante limitado (pelo menos, da última vez que lá fui, foi isto que senti). Sem querer comparar, em Lisboa também há livrarias bem bonitas e, embora possa parecer suspeito (a livraria pertence de há uns tempos para cá à LeYa), tenho de confessar que a Buchholz é uma das minhas preferidas. Era lá que, nos meus tempos de faculdade, comprava os livros de poetas ingleses e, ainda que sinta alguma saudade da desarrumação desses já longínquos tempos, a verdade é que, arrumada e organizada, a Buchholz é ainda mais bonita. Mas, além da vantagem que é podermos comprar e vasculhar livros sem termos de ouvir uma música aos altos gritos (a mim irrita-me um bocado ter banda sonora para tudo), a verdade é que descobri há poucos meses que esta livraria tem uma mais-valia de peso: livreiros que gostam de ler, sabem o que andam a vender e, ainda por cima, são simpáticos (a Fernanda, a Cristina, a Paula, a Isabel e o Manuel que me perdoem entrar nestes pormenores, mas às vezes um belo sorriso ou uma informação na hora certa são decisivos para pôr alguém a ler determinado livro; e digo isto porque foi exactamente assim que trouxe, muito jovem ainda, para casa uma edição de A Comunidade, de Luiz Pacheco, que ainda guardo religiosamente). Por isso, se está cansado de demasiado barulho, movimento e filas para pagar e gosta de uma boa conversa sobre livros, a Buchholz é uma boa hipótese. Além do mais, é bonita.

José despede-se

Imagem

Um septuagenário incorrigível descobre que tem Alzheimer e recusa-se a deixar este mundo sem primeiro fazer as pazes com um velho amigo que em jovem lhe roubou a namorada (e não só). Uma dentista, cansada da incomunicabilidade doméstica, recorre a um chat e encontra nele uma alma gémea que, afinal, conhece melhor do que pensava. Uma criança usa o computador que o avô lhe ofereceu para desabafar sobre uma crise familiar, na qual abundam segredos que se prendem com a Guerra Civil de Espanha, os grupos terroristas do País Basco e as convulsões em que a Europa mergulhou e transformaram o pai em mais um desempregado entre milhares. Estes são os três narradores de A Despedida de José Alemparte, segundo romance de Paulo Bandeira Faria, escritor português que reside na Galiza e se estreou com um livro sobre as feridas da Guerra Colonial e da descolonização intitulado As Sete Estradinhas de Catete, muito aplaudido pela crítica. Com um talento inegável para falar do duro e do difícil com humor e boa-disposição, este novo livro é uma reflexão muito bem apanhada sobre os dramas das sociedades contemporâneas e as mazelas que certos acontecimentos políticos deixam em famílias inteiras ao longo de décadas, sobretudo quando o silêncio substitui as conversas e gera equívocos insanáveis. Mas nada é insanável para José Alemparte, que não há-de partir desta vida sem pôr tudo em pratos limpos (tirando-os, muito provavelmente, da máquina de lavar loiça, com a qual imagina uma cena bastante arrojada que inclui uma senhora a quem recusou casamento). Obviamente, recomenda-se.


 


 


Música para cavalos

Confesso que, da primeira vez que ouvi o nome de Sandro William Junqueira, pensei tratar-se de um escritor brasileiro. O nome tinha um eco tropical, o que nem é estranho, agora que sei que este autor ainda jovem nasceu em África, mais propriamente na Rodésia. Não é que não goste de literatura brasileira, que fique claro, mas gosto de dar primazia aos novos romances portugueses e a verdade é que a geografia do parto não impediu Sandro William Junqueira de ser um escritor português. Tenho, pois, pena de não lhe ter prestado a devida atenção quando saiu o seu romance de estreia, intitulado O Caderno do Algoz, tendo-me estreado agora com o seu segundo, Um Piano para Cavalos Altos, publicado há poucos meses pela Caminho. Devo, desde já, avisar que não se trata de leitura para estômagos fracos, pois parte do encanto deste romance é justamente um lado violento e cru que é raro na literatura nacional. A história decorre numa cidade sem nome (a Cidade) onde há um muro que divide, grosso modo, os que vivem bem dos que passam mal. E, do lado pior, como se não bastasse, há ainda zonas definidas por cores – azul, amarela, castanha – com níveis de vida bastante diferentes. Existem também prisioneiros políticos, tortura, segredos, conspirações e revoltas; e, entre as personagens, todas identificadas por funções e/ou características (o Militar Coxo, o Ministro Calvo, a Ruiva, a Criada, o Operário, o Médico Loiro...), tece-se uma teia que é ao mesmo tempo pessoal e pública e que dá lugar a cenas muito dramáticas (o autor tem ligações ao teatro, e isso vê-se), caricatas, pesadas e até levemente nojentas (como aquela em que a Ruiva trata da candidíase introduzindo iogurte na vagina). Porém, apesar da violência que perpassa todo o romance, existe nele um lirismo devastador – achando eu que alguns dos pequenos capítulos, mesmo fora do contexto, funcionariam muito bem como poemas ou micro-narrativas poéticas para ler ou ouvir isoladamente. Por vezes, admito, senti-me um pouco incomodada, mas a sensação de que estava a ler um parente moderno de 1984, de George Orwell, e o desejo de saber o desfecho arrastou-me sem dar por isso até à derradeira página. E valeu a pena.

Idiossincrasias

Todos nós temos manias – é verdade –, uns mais do que outros; mas, se estas nos afectam apenas a nós próprios, que ninguém nos venha criticar por causa delas. (O pior é quando não é assim.) Os escritores não fogem à regra e, por vezes, desenvolvem idiossincrasias que se vão tornando doentias ao longo da carreira. Enquanto decorria, na última Feira do Livro de Lisboa, uma daquelas longas tardes de autógrafos, com as mesas completamente cheias de autores de todos os géneros e idades, estava eu a acompanhar quatro escritores quando fui abordada por uma das colaboradoras da LeYa num tom ciciante. Vinha averiguar se eu, por acaso, tinha uma esferográfica (e nem valia a pena perguntar, porque ando sempre munida de duas ou três, já para evitar que um leitor apareça e os autores não tenham como autografar-lhe o livro). Mas, desta feita, havia uma especificação: a esferográfica tinha de escrever a preto. O autor em causa usa sempre esta cor, e a caneta que tinha levado, quiçá à conta de muitas e longas dedicatórias, dera as últimas. Porém, nem naquela emergência ele aceitava escrever a azul e tinha sido categórico: se ninguém lhe arranjasse uma caneta preta, ir-se-ia embora e não daria mais autógrafos, mesmo que diante da sua mesa engrossasse a fila de pessoas em busca de uma assinatura. Pareceu-me um bocado exagerado pôr tal condição para continuar ali. Talvez estivesse farto e quisesse apenas arranjar pretexto para ir para casa. A sorte foi que, entre as várias canetas que eu trazia na carteira, uma era, de facto, preta. Não ma devolveram até hoje, mas isso até é o menos. Pior teria sido deixar tantos leitores à míngua...

Nomes literários

Muitos autores preferem assinar as suas obras com pseudónimo, o que faz algum sentido se tiverem nomes pouco afeiçoados à literatura (como o poeta Eugénio de Andrade, que se chamava José Fontinhas) ou se toda a vida foram conhecidos por alcunhas (como Mia Couto, que se chama António Emílio). Outros ainda assinam com os apelidos dos cônjuges, que guardaram por casamento, e o mantêm mesmo quando o casamento se desfaz. Mas esta opção por vezes é uma carga de trabalhos ou alvo de confusões em termos práticos. Lembro-me, por exemplo, de que, quando Portugal foi país convidado numa Bienal do Livro em Genebra, os quartos de hotel das duas autoras da colecção Uma Aventura tinham sido reservados nos seus nomes literários, mas os nomes dos passaportes não coincidiam (Ana Maria Magalhães tem o apelido Martinho – é, de resto, irmã do actor Tozé Martinho; e Isabel Alçada – sendo, creio, Veiga de solteira – agora, casada com Rui Vilar, chama-se Isabel Vilar). Também o meu autor Miguel Real tem um nome bem diferente desse; e, quando damos o seu telefone a jornalistas e nos esquecemos de os avisar, ligam-nos por vezes a dizer que nos enganámos no número, porque a gravação acusa a propriedade daquele telefone de um certo Luís Martins. Mas a história mais engraçada que conheço a este respeito prende-se com Mia Couto, que foi convidado para participar nos Estados Unidos num encontro sobre questões feministas. Quando chegou ao aeroporto, ficou uma eternidade a aguardar que alguém aparecesse para o vir buscar; já um pouco desesperado, reparou, porém, que havia alguém ali há quase tanto tempo como ele e resolveu perguntar-lhe se, por acaso, não estaria à sua espera. E estava! Só que com a surpresa estampada no rosto: é que, sendo Mia moçambicano, pensavam que era negro; e, além disso, estavam convencidos de que era mulher...

Erros com graça

Quem, como eu, passa a vida a ler originais encontra erros recorrentemente (alguns até ajudam a identificar a geração do respectivo autor) e, além disso, anacronismos e asneiras de criar bicho; quem revê traduções tem também histórias deliciosas para contar (uma vez descobri a expressão «sacudir as mãos» por «shake hands», calculem). No entanto, ninguém encontrou de certeza tanta matéria risível colectável como os professores que ensinaram ao longo de anos (um deles coligiu em tempos, de resto, uma História de Portugal em Disparates, que foi best-seller). Um destes dias, uma amiga francesa professora reencaminhou-me uma mensagem de uma colega que era de ir às lágrimas; mas, porque alguns dos disparates não têm graça senão em francês, deixo aqui apenas uma amostra para se divertirem – tudo respostas de alunos: «A um homem que tem várias mulheres, chama-se polígono.» «Quando alguém tem prisão de ventre, deve pôr um supositório de nitroglicerina.» «O tecido celular é o que os prisioneiros fabricam nas próprias celas.» «O osso do ombro denomina-se canícula.» «Quando uma mulher deixa de ter a menstruação entra na mesopotâmia.» «O álcool é mau para a circulação: os bêbados causam acidentes frequentemente.» «Na Idade Média, a mortalidade infantil era muito elevada, excepto entre os velhos.» «A fome era um problema para quem não tinha de comer [na mesma época].» «O nome de Joana d’Arc vem do arco com que ela atirava mais depressa do que a própria sombra [Confusão com Lucky Luke?].» «O cavalo-vapor é a força de um cavalo que arrasta ao longo de um quilómetro um litro de água a ferver.» «Esta figura geométrica chama-se trapézio porque nela se pode suspender qualquer pessoa.» «Quando um rapaz está apaixonado pela mãe, sofre de complexo adiposo.» Houve ainda um aluno que declarou que o «jeune homme» se encontra nos cromossomas. Era o «genoma», entenda-se... 

A casa dos loucos

Ficamos sempre incrédulos quando alguém que anda ao nosso lado há anos, ou nos habituámos a ver na televisão com um comportamento absolutamente «normal», acaba por revelar-se capaz de certos actos que cremos pertenceram apenas a gente doida ou psiquicamente muito perturbada. Foi assim que seguramente se sentiu a maioria de nós quando Carlos Cruz foi acusado de pedofilia, por exemplo; e, seja ele condenado ou não, a verdade é que haverá sempre gente que acreditará na sua inocência e jurará a pés juntos que foi vítima de uma maquinação. Pois aquilo em que creio ao fim de mais de cinquenta anos de vida – em que vi tantas pessoas serem, afinal, aquilo que não esperava (não necessariamente criminosas, entenda-se) – é que a linha que separa a loucura da sanidade é mesmo ténue, podendo quebrar-se a qualquer momento e desvendar um lado obscuro e estranho em alguém que parecia aos nossos olhos inofensivo e transparente. Assim, os hospitais psiquiátricos não estarão cheios de loucos ferozes, como no nosso imaginário infantil e adolescente, mas de muita gente que, provavelmente, pareceria completamente sã se andasse na rua ao nosso lado. A este título, António Lobo Antunes – escritor e psiquiatra – disse, de resto, um dia destes uma coisa muito curiosa, referindo-se ao que tinha sentido depois de acabar o curso de Medicina e ao entrar pela primeira vez num hospital psiquiátrico: «Uma mistura entre um filme de Fellini e a casa da minha avó!»

Histórias da censura

Muitos escritores portugueses sentiram na pele a repressão do Estado Novo e viram os seus livros proibidos ou riscados pelo lápis azul da censura. Mário Soares, que na época escrevia nos jornais com pseudónimo, apercebeu-se, porém, de que alguns dos censores eram bastante burros e conseguia dar-lhes a volta com uns truques estilísticos, poupando alguns dos seus artigos a cortes ou à simples proibição de serem publicados. Mas, pelos vistos, não foi só em Portugal que a censura teve agentes que não conseguiam ir mais longe do que a sua fraca inteligência. Juan Marsé esteve recentemente em Portugal para lançar Caligrafia dos Sonhos, a que voltarei quando a leitura estiver feita, e a uma pergunta do público sobre os incómodos da censura na Espanha franquista, respondeu com uma maravilhosa revelação. Tinha escrito um romance que era claramente contra o regime e decidira publicá-lo no México, consciente de que, se o fizesse no seu país, arranjaria seguramente problemas com a Polícia política. Porém, os seus receios acabaram por parecer-lhe injustificados quando os censores o chamaram mais tarde e, curiosamente, aquilo que tinham para lhe apontar era o facto de abusar das palavras «mamas» e «coxas»...

De filho para pai

Hoje faria anos o meu pai, que amava e admirava e de quem sinto diariamente a falta desde que morreu. Fui, também por isso, especialmente sensível a um texto maravilhoso que o jornalista Tiago Bartolomeu Costa escreveu para o Público do dia 25 de Abril sobre o seu pai, que por acaso era furriel miliciano no Quartel de Santarém e acompanhou Salgueiro Maia na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 (não ponho aqui o link, porque só os assinantes do jornal têm autorização para ler o texto na Internet, mas sugiro que procurem o jornal desse dia e leiam). Era um texto de uma beleza extraordinária, raro nos dias que correm nos jornais (nos quais a escrita é hoje mais apressada e os assuntos nem sempre piscam o olho à escrita literária), e uma homenagem sentida e comovente de um filho a um pai (eu cá chorei). Na mesma linha, é também assinalável o primeiro texto que José Luís Peixoto publicou, ainda em edição de autor, intitulado Morreste-me, que fala da sua experiência e dos seus sentimentos após a morte do pai – um tributo lírico e belo que muita gente continua a considerar o seu melhor texto. Embora o texto do jornalista tivesse como objectivo contar a história de um companheiro de Salgueiro Maia, os dois textos acabam por confluir na saudade e na admiração dos filhos por pais simultaneamente muito simples e muito especiais.

A química da literatura

Prometi voltar a falar de Primo Levi e da sua «autobiografia», que traduzi no final dos anos 80 e agora volta a estar disponível para os leitores portugueses. Intitula-se O Sistema Periódico e é uma obra-prima do escritor italiano que esteve num campo de concentração nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial (era judeu) e se suicidou mais tarde, deixando-nos, porém, livros magníficos e inesquecíveis. Um deles é, de resto, este maravilhoso conjunto de memórias da sua vida como químico (e quanta literatura há nesta profissão), que foi considerado o melhor livro de ciência de sempre pela Royal Institution of Great Britain em 2006. Nele, a vida de Levi é-nos contada através de episódios cronológicos, cada um dos quais associado a um dos elementos da Tabela Periódica. E assim assistiremos à relação de Levi com a química desde a infância no Piemonte ou no laboratório do liceu, até ao estratagema que encontrou para sobreviver em Auschwitz ou a sua experiência nas minas ou na indústria de resinas. Mas, se assim à partida pode parecer prosaico, o facto é que é tudo menos isso: mais poético, aliás, do que muito romance que anda por aí. E para Levi o amor não está de forma alguma isento de química, pelo que assistiremos igualmente à sua vida amorosa a par da profissional (e bem assim à sua vida literária, pois fazem parte do livro dois contos que escreveu na juventude e não tinham sido publicados antes de este livro ter sido dado à estampa). Um primor de inteligência, humor e autocrítica a não perder.

Literatura e desemprego

Li uma interessante entrevista dada ao DN Magazine por dois vencedores de Prémios Literários com romances de estreia: João Ricardo Pedro, que arrecadou o Prémio LeYa com O Teu Rosto Será o Último, já em terceira edição, e Tiago Patrício, que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís, da Sociedade Estoril-Sol, com o romance Trás-os-Montes (ignoro se já está publicado e por quem). O primeiro é engenheiro e o segundo farmacêutico – nenhum portanto homem de letras, embora ambos provavelmente leitores experimentados. Tradicionalmente, embora com excepções (Namora, Torga...), o grosso dos autores portugueses vinha da chamada formação humanista (sobretudo de Filosofia e Literatura, embora também de Direito). Hoje, porém, quando olho para as badanas dos livros que tenho vindo a publicar, descubro vários com formação na área das ciências: David Machado, por exemplo, licenciou-se em Economia, e Nuno Camarneiro em Engenharia Física. Dizem-me alguns professores das Faculdades de Letras de Lisboa e do Porto que são cada vez menos os alunos inscritos nos seus cursos (e é bem possível que a falta de vagas para professor tenha alguma coisa que ver com isto). Será, no entanto, que fogem para os cursos mais técnicos alunos que seriam tendencialmente de Humanidades, apenas porque lhes parece mais fácil arranjar emprego? Espero que não. A verdade é que os dois autores premiados que referi no início estão actualmente desempregados...

Um ou dois séculos, tanto faz?

Comemora-se este ano o bicentenário do nascimento de Charles Dickens, um dos autores com quem decerto aprendi a ler literatura e de que tenho pena que muitos adolescentes deixem passar em branco, porque estou convencida de que é um desses escritores que fazem leitores entre as camadas mais jovens. Tempos Difíceis, David Copperfield ou heróis como o avarento Scrooge de Conto de Natal ficam para sempre pregados à memória de quem os conheceu. A imprensa portuguesa dedicou, bem sei, algumas páginas à efeméride, mas ou as livrarias se fizeram desentendidas ou realmente não tinham as obras para destacar, porque por onde andei não vi nada da festa que Dickens merecia. Este é também o ano do centenário do naufrágio do Titanic, e não sei se o Homem é mesmo mórbido, mas a verdade é que as páginas dos jornais e os documentários sobre o navio chique que chocou contra um icebergue são muitos – e quase adivinho que os livros a mostrarem as loiças, os talheres e todas as outras mariquices a bordo estão por aí a romper para consolarem os que gostam de luxos, mesmo no fundo do mar. Bem sei que a miséria nunca encheu o olho, ainda assim tenho pena do pobre Charles, que se afundou na infância a trabalhar numa fábrica e veio ao de cima a escrever histórias em fascículos com um êxito enorme – e a quem se liga bem menos do que devia.

O karma da adolescência

Imagem

«O grande romancista americano», como lhe chamou a revista Time assinalando a saída de Liberdade, o seu mais recente romance (pelo menos, em Portugal), escreveu um livro de não-ficção extraordinário (fica bem dizer a palavra neste blogue). Jonathan Franzen, como todos nós, foi adolescente – e, se pensamos que a nossa adolescência foi um período complicado e cheio de contrariedades, vale bem a pena acompanhar a dele em A Zona de Desconforto, publicado há cerca de um mês pela Dom Quixote. Franzen nasceu no mesmo ano que eu e, embora a Europa e os Estados Unidos favoreçam experiências de vida bastante distintas, as pessoas dos 10 aos 18 anos são adolescentes onde quer que morem e encontrei neste relato dos dramas e conquistas do escritor americano muita coisa que vi e senti exactamente do mesmo modo. Aliás, as discussões dos pais sobre se o ar condicionado devia ou não estar na zona de conforto lembraram-me algumas das que assisti entre os meus progenitores à beira da separação. Mas há muito mais pontos em comum, como a adoração pelos Peanuts, de Charles Schultz (Charlie Brown é uma espécie de alma gémea do Franzen adolescente) e a invenção de asneiras colectivas, como retirar badalos de sinos, que a minha irmã também levou a cabo no colégio para fazer durar mais o intervalo. Não é, no entanto, a identificação que importa – e feliz será quem não se identifique com nada, digo eu – mas a circunstância de este ser um livro profundo, sincero, justo e gerador de razões para Jonathan Franzen ser hoje um grande escritor do mundo inteiro.


 


Bons pretextos

Quando em Portugal começou a crescer visivelmente o número de leitores de romances ditos comerciais, tantas vezes sem sumo, fiz – confesso – uma pequena aldrabice. Tínhamos comprado um romance inglês literário – mas sem espinhas e cheio de humor – e cobrimo-lo com uma capa com rosas, bonita mas representativa de um género que não era exactamente o seu. A primeira edição voou num abrir e fechar de olhos e fiquei a pensar que, provavelmente, quem o comprara lera uma coisa de qualidade, ainda que leve e acessível, fazendo qualquer coisa por si próprio. É, de qualquer modo, matéria para reflexão se, com aquela capa, os potenciais leitores desse romance também o adquiriram, pois podem simplesmente ter-lhe passado ao lado, assustados com os ornatos florais e os tons pastel. Aqui no blogue, quando falei do romance vencedor do Prémio LeYa, um dos comentários exprimia alguma preocupação por o seu autor estar, infelizmente, a ser descrito pela comunicação social como um desempregado que conseguiu uma proeza, e não como o excelente escritor que é. É parcialmente verdade, claro, e se o livro vai em terceira edição e mal saiu há um mês, temos de admitir que esse episódio muito mediatizado pode ter influenciado as vendas. Mas não será, apesar de tudo, um bom pretexto para levar a certos leitores um livro melhor, mais interessante, que as faça pensar e contribua para uma mudança dos seus hábitos de leitura? Sei que uma percentagem acabará por achar a obra um pouco complexa, mas não haverá muitos outros que, sem encontrarem dificuldades de maior, deram um passo em frente com este O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro?

O contrário do idílio

Conheço muitas pessoas que se fartam da cidade e sonham refugiar-se depois da reforma (se a tiverem) numa aldeia quieta e perdida entre pedregulhos. Mas quem leu O Rebate, o mais recente livro de J. Rentes de Carvalho publicado em Portugal pela Quetzal, saberá que a vida na aldeia pode ser o contrário desse idílio. No local onde decorre a acção do romance, abundam, efectivamente, coisas tremendas: desde logo a pobreza que toca a todos, cheios de dívidas que nunca conseguirão pagar – e de vinho para se esquecerem delas; mas também a inveja em relação aos que voltam de França forrados à custa de um sogro que lhes pôs a filha mais ou menos à disposição para a guardar de uma vida que tudo indicava vir a ser demasiado licenciosa. Quando Abel Valadares põe o pé na sua aldeia natal casado com uma francesa para as festas de Agosto, a pagar copos a toda a gente e a perdoar as maldades dos rapazolas que logo lhe partem o vidro do carro, nem sabe o que o espera; porque ali ninguém perdoa o êxito de ninguém, a força bruta sabe dar murros, tiros e apalpões à má-fila quando calha – e uma francesa que mostra as coxas e fuma... já se sabe. Difícil por vezes descobrir quem diz o quê nos longos diálogos que atravessam esta história transmontana e crua (mas, como são quase todos da mesma cepa, se calhar nem importa assim muito), O Rebate fica a repicar dentro de nós por muito tempo depois de termos lido a última página. E desmotiva um pouco esses sonhos com aldeias...