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A mostrar mensagens de janeiro, 2011

Uma coisa dramática

Toda a gente que estuda Literatura Inglesa lê nem que seja uma peça de Shakespeare, mesmo que nunca tenha a sorte de assistir a uma. E, no entanto, a literatura dramática, incluindo a de Shakespeare, pede encenação, performance e, em suma, espectáculo. Talvez por isso, mesmo quem gosta muito de ler raramente se atira a um texto de teatro e, como também se vai pouco ao teatro em Portugal, permanecerá mais pobre e ignorante em muitos aspectos. Lembro-me de, ainda muito nova, ter lido As Três Irmãs, de Tchekhov, com bastante prazer – e este prazer não advinha apenas do texto, mas também do subtexto, da novidade que era encontrar indicações de cena, como a voz sussurrada do autor russo, que mais tarde aprendi chamarem-se didascálias. Pouco depois disso, a professora de Francês mandou-nos ler A Cantora Careca, de Ionesco, e foi também uma leitura fascinante que, ainda por cima, me fez frequentemente rir até às lágrimas. Já na Faculdade, passei um ano inteiro a estudar Corneille, Molière e Racine e fiquei completamente seduzida pela Fedra, deste último, que me contaram uns amigos que moraram em França fazer parte do currículo da escola secundária e ser lida nas salas de aula em voz alta, distribuindo-se os papéis pelos alunos e valorizando-se a leitura com o objectivo de interessar os jovens pelo texto. Em Portugal, porém, a relação entre os leitores e o teatro parece mesmo uma coisa dramática...

Perder o comboio

As ditaduras assustam quem já passou por elas e fiquei contente com o que aconteceu recentemente na Tunísia, tal como quando vi pela televisão desmantelarem o muro de Berlim. Assistir, mesmo que não ao vivo e a cores, a acontecimentos deste tipo é magnífico, mas sê-lo-á ainda mais para quem lutou, tantas vezes na sombra, por que um dia se tornassem possíveis. E, no entanto, estas alegrias não dispensam o reverso da medalha. Um escritor dissidente, como por exemplo Soljenitsine – autor do polémico O Arquipélago do Gulag, que denunciava as práticas nos campos de trabalho soviéticos –, se não tivesse morrido em 2008, assistiria certamente a um decréscimo do número de leitores da sua obra, muitos deles nascidos já em países independentes e livres e sem memória da ditadura soviética; e Milan Kundera, autor do inesquecível A Insustentável Leveza do Ser, apesar de continuar a publicar, perdeu certamente impacto desde 1989 e, embora mereça, possivelmente já não será lido nem acarinhado hoje como o foi internacionalmente nos anos 80. Tantas vezes apontado para o Nobel da Literatura, a verdade é que, apesar do seu talento e do interesse da sua obra para lá da política, pode ter perdido claramente o comboio e, se não for nos tempos mais próximos, deixará quase naturalmente de ser um candidato ao dito galardão.

Leituras solidárias

Temos, em geral, pouco espaço para arrumar livros e há muitos que podemos, na verdade, descartar: os repetidos (o Manel e eu temos alguns), os que já tiveram o seu tempo e os que nunca leremos ou voltaremos a ler. Pois bem, antes que seja tarde, há uma campanha de recolha de livros para Moçambique, da Associação Karingana Wa Karingana, que se propõe, com a ajuda de todos, fornecer material de leitura, dicionários, enciclopédias, atlas, gramáticas, etc. a escolas, bibliotecas e instituições daquele país tão precisado de livros (tudo menos livros escolares, que lá não são iguais aos nossos). E é fácil: basta entregá-los numa estação dos Correios das capitais de concelho e do resto tratam eles. Como a campanha termina já no dia 31 de Janeiro, não perca tempo. Porém, se não se conseguir desfazer dos seus livros, pode ser solidário na mesma comprando alguns. A APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) inaugurou um site onde se leiloam livros usados (www.dejalu4ds.blogspot.com), cuja venda reverterá na totalidade para aquela instituição. E a boa notícia é que vai haver dias especiais para leiloar livros... autografados! Quem sabe se não encontrará um livro assinado pelo autor de que mais gosta? Alguns dos autores que publico já estão a oferecer.

Portuguesismo

Uma das maiores tristezas dos autores portugueses é o facto de não se conseguir que sejam traduzidos noutras línguas e publicados noutros países, podendo assim elevar-se mais facilmente à condição de universais. Para mim, que trabalho sobretudo com literatura portuguesa, o tempo para investir na internacionalização não é muito, mas as tentativas que faço quase nunca dão frutos. Em primeiro lugar, porque são raras as editoras estrangeiras com leitores de língua portuguesa capazes de apreciarem a obra no seu todo e de se envolverem na publicação de nomes desconhecidos no seu mercado; em segundo lugar, porque há países com uma produção literária tão significativa (o caso do Reino Unido, por exemplo) que quase não publicam traduções; em terceiro lugar, porque os custos de tradução são elevados e, sobretudo em anos de crise, só se aposta naquilo que se sabe vai funcionar. Porém, há muitas vezes um problema suplementar que induzo da circunstância de muitas editoras e agentes estrangeiros se interessarem sempre pelos africanos lusófonos que publico, mas quase nunca pelos portugueses – é que, frequentemente, as obras são demasiado portuguesas e de difícil absorção noutras línguas e realidades geográficas, e este portuguesismo tem obstado a que a nossa literatura seja exportada como outras o são. Creio que os novos autores estão a tornar-se mais cosmopolitas e universais, mas a verdade é que muitos dos nossos mais conhecidos escritores só podem ser inteiramente apreciados para cá da fronteira. Certamente é por causa disto que Agustina Bessa Luís, entre outros, só tem um romance traduzido, e numa ou duas línguas. Mas não é caso único.

Há males necessários?

Recentemente, li um interessante artigo na revista Lire, da autoria do escritor Frédéric Beigbeder, intitulado «Editor, um mal necessário». Contava ele que as editoras em todo o mundo se têm afadigado a publicar as versões originais (antes da intervenção do editor) de alguns autores consagrados assim que eles morrem, procurando quiçá relançá-las e fazer mais barulho e dinheiro à volta delas. E constata que, por exemplo no caso de Raymond Carver, o editor foi esse mal necessário que conduziu a um texto mais perfeito, aproveitando o melhor no génio de Carver e desperdiçando o que nem era assim tão bom no autor norte-americano. Beigbeder está, porém, preocupado com o futuro dos editores e observa que os que estão no activo lêem cada vez menos e passam cada vez mais horas em reuniões. Também eu me preocupo com o mesmo e, embora teime em ler – mesmo que por vezes apenas na diagonal – tudo o que enviam, a verdade é que o excesso de reuniões, muitas das quais pouco têm que ver directamente com o que faço, me rouba um tempo imenso à leitura. Neste momento, a minha secretária tem uma pilha de originais em crescimento contínuo que não sei quando vou poder começar a desbastar. E todas as semanas me marcam mais uma reunião. Será apenas outro mal necessário?

Revivalismo

Tenho uma afilhada adolescente chamada Catarina que, durante anos, levava às compras numa manhã de Dezembro para que escolhesse o seu presente de Natal (e nunca vi ninguém experimentar tanta roupa em tão pouco tempo). Não é filha única e, nesse périplo por lojas e mais lojas de um determinado centro comercial, eu aproveitava para a inquirir sobre os desejos da irmã seis anos mais nova e para comprar, também para esta, uma prenda adequada. Este ano, curiosamente, foi-me poupada a difícil jornada colombiana, porque a Catarina me transmitiu que preferia dinheiro vivo a embrulhos – e, francamente, fiquei bastante feliz com a decisão. Era, mesmo assim, preciso contemplar a sua irmã Maria com aquilo a que a minha avó chamava «uma lembrança» e achei por bem fazer alguma investigação para não disparar a seta para demasiado longe do alvo. Foi-me dito que lhe comprasse um dos livros d’As Gémeas, de Enid Blyton (que eu própria li em miúda e que agora estão a ser editados com umas capas magníficas pela Oficina do Livro), ou o também recentemente tirado da hibernação Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, que fez as delícias das raparigas de muitas gerações antes da minha, mas eu ainda apanhei como leitura aconselhada por mãe, avó e irmã. Com tanto livro novo português e estrangeiro a sair todos os meses em Portugal, é no mínimo curioso este revivalismo, até porque o colégio interno é coisa que deve parecer às miúdas dos nossos dias uma parcela do mundo congelada no tempo. Mas as vendas, segundo sei, mostram que há livros que nunca passam de moda e que, por muito que as capas mudem, o que lá está dentro serve os leitores de todas as épocas.

Politicamente correcto?

Miguel Real escreveu há poucos anos um excelente romance (se não me engano, finalista do prémio da APE no ano em que Francisco José Viegas o arrebatou com Longe de Manaus). Chama-se O Último Negreiro e é sobre o último grande traficante de escravos português, Francisco Félix de Sousa, que teve mais de cem filhos a quem, sem excepção, deu baptismo cristão e escolaridade. Ao contrário daquilo que o público poderia esperar, embora longe de fazer a apologia da figura, o escritor também nunca atira o homem para a fogueira, situando-o no contexto histórico, e não olhando-o pelos olhos escandalizados do nosso século (onde, apesar de tudo, o tráfico e os escravos permanecem). Há dias, soube que uma editora norte-americana se prepara para substituir as mais de duzentas ocorrências da palavra «nigger» do livro As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, pelo mais sedoso e moderado vocábulo «escravo», a fim de que a obra não seja banida nas escolas. Politicamente correcto? Pode ser, mas a minha resposta é: não, obrigada. Em primeiro lugar, porque ninguém tem o direito de pôr a mão no texto de um génio; em segundo lugar, porque a obra tem de ser lida não apenas como literatura, mas – como disse Sarah Churchwell, professora de Literatura Americana citada pelo Público – como documento histórico que também é, no qual «a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura» e a sua rasura ocultará dos leitores a «evolução moral do carácter» do protagonista. Será que daqui a uns anos nos proíbem de ler A Arte de Amar, de Ovídio, por ser, aos olhos do século XXI, um texto machista?

Nem tudo é o que parece

Já ouvimos dizer mais de mil vezes que as aparências iludem e que nem tudo é o que parece. O título deste post é, de resto, semelhante ao de um bem divertido livro de contos da uruguaia Carmen Posadas (Nada É o Que Parece), de quem já falei neste blogue e que, curiosamente, inaugurou o Fórum da FNAC do Chiado com o lançamento do seu segundo romance (o primeiro publicado em Portugal) Pequenas Infâmias – romance no qual também existem bastantes coisas que parecem o que não são. Mas, mesmo confiando na sabedoria popular, a verdade é que sempre achei que a maioria das palavras da nossa língua combinavam bem com a coisa ou ideia que representam – e, a este respeito, daria como exemplo o vocábulo «fofo», com qualquer coisa de onomatopeico, que não pode ser mais elucidativo daquilo que realmente significa. E, contudo, há duas palavras que sempre achei estarem nos antípodas do que significam e, talvez por isso mesmo, sejam cada vez menos utilizadas, quer pelos escritores, quer pelos meros falantes do português. Uma delas é a estranhíssima «pulcritude», que cheira logo a coisa apodrecida e malcheirosa, mas quer dizer, nem mais nem menos, «beleza». (Aqui para nós, prefiro que me chamem feia a que alguma vez se refiram à minha pulcritude.) A outra é a não menos surpreendente «alacridade», que associo logo a gente alarve, bruta e mal-educada e é, afinal, fundamental para a nossa vida, pois significa simplesmente «alegria» (se virmos bem, a raiz é, de resto, a mesma para os dois vocábulos). Assim sendo, o melhor é continuarmos a confiar nos ditos populares, porque é mais do que certo que, como noutras coisas da vida, também na língua portuguesa as aparências iludem – e muito.

Pela boca vive o peixe

Quando João Tordo venceu o Prémio Literário José Saramago, em Outubro de 2009, muita gente veio dar-me os parabéns por ser já a terceira vez que um dos «meus» autores recebia aquele galardão. O talento era deles, claro, mas a multiplicação levou a que eu fosse chamada a dar entrevistas sobre a feliz coincidência. Numa delas, ao fantástico entrevistador Carlos Vaz Marques (que tem um dos mais interessantes programas de rádio de sempre – Pessoal e Transmissível), fui a dada altura consultada sobre se me tinha escapado algum autor; e, embora a pergunta tivesse que ver com os escritores que, por várias razões, já não publicavam comigo, entendi que se referia a jovens escritores que não tinham sido lançados por mim e respondi que, por exemplo, me tinha escapado David Machado, autor que apreciava bastante e era então editado pela Presença. Pois bem: o meu mau entendimento deu frutos, porque, em mais uma feliz coincidência, David Machado estava a ouvir a entrevista e, ao escutar o seu nome, agradeceu-me através do Facebook e veio mais tarde ter comigo para me apresentar o romance que tinha terminado havia pouco, o que me deixou verdadeiramente exultante. Em breve, falarei desta obra imperdível, de seu nome Deixem Falar as Pedras, disponível no próximo mês de Março. Hoje é só para dizer que às vezes pela boca vive o peixe.

Casal-maravilha

Sou editora e casada com um editor, mas isso nunca atrapalhou a nossa relação; tenho consciência de que comecei depois e de que sei menos – e admiro o trabalho do Manel ao longo dos anos e a sua capacidade de adaptação às mudanças o suficiente para nem me atrever a concorrer com ele. Porém, pergunto-me frequentemente se um casal de escritores viverá assim tão pacificamente. Em alguns casos, acredito que sim e que a admiração (recíproca ou de uma das partes) facilite a convivência artística – calculo, por exemplo, que o poeta e dramaturgo Jaime Rocha tenha quase uma idolatria por Hélia Correia e que a generosidade de Urbano Tavares Rodrigues tenha estimulado a criatividade de Maria Judite de Carvalho. Mas noutros casos não é assim tão simples – e senti uma vez que Siri Hustvedt não apreciava por aí além que lhe mencionassem Paul Auster (o marido) durante as entrevistas, quando estava a promover um livro seu. Neste momento, dois dos mais promissores escritores norte-americanos, ambos destacados pela famosa revista Granta no ano em que se iniciaram nas lides da publicação – Nicole Krauss e Jonathan Safran Foer – são casados e claramente concorrentes (para quem não conhece, não perca Está Tudo Iluminado, do segundo, e A História do Amor, da primeira). Por vezes, pergunto-me se este casal-maravilha vai conseguir ser um casal por muito tempo.

Estreia fulgurante

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Que este vai ser um ano terrivelmente difícil, já se sabe. Para mim, certamente o será, uma vez que trabalho com novos autores, alguns estreantes, e que será uma dor de cabeça promovê-los e mostrá-los ao mundo num ano em que as pessoas resistem a toda a despesa supérflua e escolhem tendencialmente o que é certo e sabido. Tenho, por isso, muito medo de que venham a passar despercebidos nomes que julgo irem enriquecer o panorama literário nacional, mas que, sem público, ficarão quiçá condenados a publicar apenas um primeiro livro e com os próximos na gaveta. No meu plano para 2011, conto três estreias fulgurantes – e uma delas, por ser o primeiro livro a sair (já em Fevereiro, com a chancela da Dom Quixote) e por ser de uma mulher (há tão poucas escritoras com esta qualidade na nova geração) – merece destaque neste meu post. Chama-se Os Pretos de Pousaflores, assina-o a angolana Aida Gomes (que vive actualmente na Guiné, pois é funcionária das Nações Unidas, que agora promove nesse país uma missão de paz) e junta numa aldeia perdida de Portugal um homem desencantado que teve de deixar a África que o formou e onde estava há quase quarenta anos e os seus três filhos mulatos, cada um de sua mãe, que uma aldeia atrasada como Pousaflores vê, preconceituosa, como «os pretos». Tão depressa terno e poético como hilariante e esclarecedor, este é um romance que conta a história da colonização portuguesa, do declínio do império, da guerra civil em Angola, dos retornados e do abismo para onde muitas vezes são atirados os mais fracos. A ler, absolutamente, porque queremos mais livros de Aida Gomes depois deste. (Ah, a autora estará nas Correntes d’Escritas no final de Fevereiro.)


 


Os editores discretos

Há uns tempos, um dos proprietários de um grande grupo editorial disse numa entrevista que os editores de livros não escolares pouco acrescentavam a um livro. Embora suspeite de que não era bem isto o que queria dizer e saiba de alguns editores que não têm na verdade praticamente nenhuma intervenção no que publicam (além da selecção, mas até isso é muito), fiquei logo de cabelos em pé – e até gostava que alguns autores pudessem explicar-lhe o trabalho que muitos dos editores desenvolvem entre o momento em que enviam os livros para avaliação e a sua ulterior publicação. Não me cabe, porém, elogiar o meu próprio trabalho (até porque nenhum editor pode criar o talento onde ele não existe e o sucesso de um livro é sempre da responsabilidade do autor) e só por isso não escrevo este post para me queixar de uma afirmação que considerei bastante infeliz (pronto, já me queixei), mas para dizer que efectivamente é uma pena que alguns editores escolares (ou coordenadores, como já lhes ouvi chamar muitas vezes) não tenham o reconhecimento que merecem nem apareçam referidos nos meios de comunicação como acontece tantas vezes aos editores de literatura geral. Porque fazer livros escolares deve ser mesmo uma tarefa hercúlea: escolher os professores-autores, garantir que entregam tudo a tempo (tratando-se de livros com prazo certo para serem apresentados às escolas e ao ministério, não há como adiar a sua publicação), escolher um layout e ilustrações adequados e apelativos, controlar a revisão que tem de ser absolutamente rigorosa e imaculada a nível da informação e da correcção gramatical (se aparece um erro num livro escolar, dá logo notícia nos telejornais), ser, enfim, responsável, em última instância, pela aprendizagem de determinada matéria por milhares de crianças e jovens em todo o País. E, embora tenha sido professora durante algum tempo e nem todos os livros escolares tivessem o mesmo nível, hoje quero partilhar com os leitores deste blogue a minha admiração pelos que, tão discretamente, fazem um excelente trabalho que o público nunca aplaude.

Palavras difíceis

Na minha já longa carreira, passaram-me obviamente muitos autores pela mão, mas, pela natureza do meu trabalho e das minhas preferências, raros foram os que já tinham obra extensa e eram escritores consagrados. Não quero dizer, mesmo assim, que por dar à estampa autores menos experientes, não tenha aprendido muito com os seus livros; mas recentemente tornei-me editora de um escritor bastante mais sábio e rodado e, em algumas páginas, senti-me uma completa ignorante. Estou, para que saibam, a ler o próximo livro de Mário Cláudio – e acho que nunca aprendi tantas palavras novas nem tive o dicionário tantas vezes debaixo do braço como nestes dias. E não estou a falar de vocábulos ou expressões que – podia ser o caso – se usem exclusivamente no Norte (coisa que me vem acontecendo cada vez mais, pois tenho muitos autores fora da capital que escrevem «à beira de» em vez de «ao lado de», «encorrilhar» por «amarrotar» e outras coisas que identifico logo como típicas do português nortenho); estou, sim, a falar de termos que nunca na vida li e ouvi e que, embora tire pelo sentido, quero certificar-me do que significam. Só numa manhã, fui brindada com os deliciosos «bazulaque» para «gordo», «embrechado» para «incrustado de conchas, pedra ou loiça» (um muro, por exemplo), «repoltrear» para «refastelar», «gárrulo» para «falador, linguareiro», «castorina», um tecido de lã, «gloríola» para «pequena ufania» (esta até era mais ou menos óbvia) e «rémora», que é o nome de um peixe. Mas a descoberta mais feliz foi a de que a palavra «tolerada» também quer dizer «prostituta», embora se trate não da que anda na rua, mas da que trabalha num bordel, e não por aí à vista de toda a gente. Tão burra me senti que tomei nota de algumas destas iguarias linguísticas e as li ao Manel para ver se ele me consolava com a sua ignorância. Na maioria, ficámos quites, mas em dois ou três casos explicou-me que eram vocábulos de Camilo Castelo Branco, escritor muito do gosto e da leitura do nosso Mário Cláudio. Já percebi que tenho de voltar ao Camilo para morrer mais culta... E, entretanto, delicio-me com o «plumitivo» vencedor do Prémio Pessoa que me coube em sorte. Lá para Abril, deliciem-se também.

Desaparecido

Há alguns escritores que fazem furor em determinada época e, de repente, desaparecem para sempre como se nunca tivessem existido. No tempo em que trabalhava na Gradiva, lançámos o romance de estreia de Frank Ronan, um autor irlandês que veio na ocasião a Portugal (nessa altura, ainda não era comum convidar os autores para os lançamentos dos seus livros) e que, por ser realmente um tipo giro, simpático e inteligente (e ter escrito um livro delicioso que se chamava Os Homens Que Amaram Evelyn Cotton), colheu o entusiasmo unânime da crítica jornalística. Depois disso, publicou outros romances que também se venderam muito bem e estiveram nos top das livrarias (Piquenique no Paraíso e A Morte de Um Herói) e um livro de contos que foi editado em Portugal antes até de o ser no Reino Unido (Os Homens Bronzeados Ficam Bonitos), a que se seguiram os romances Lovely e A Comunidade, que ficavam a dever muito aos primeiros, mas que, pelo que sei, não correram mal em termos de vendas. A vida de Ronan deu, a dada altura, uma volta estranha (acho que teve que ver com drogas, mas não juro) e o escritor acabou por desaparecer completamente dos escaparates, sobretudo em Portugal, que parecia gostar especialmente dele. As novas regras do mercado dificilmente deixarão que o editor recupere os seus livros, o que é uma pena, mas, se alguém tiver coragem para os desencantar algures, não perca uma experiência de leitura deste irlandês desaparecido (A Morte de Um Herói, com Deus como narrador, é talvez o melhor título para se afeiçoar).

Candidatos a autores

Um dia destes aconteceu-me uma coisa que mostra bem como a literatura foi dessacralizada. Dantes, quem queria publicar um livro vinha de mansinho com humildade e cheio de dúvidas, querendo saber se o que escrevera tinha qualidade para ser publicado. Agora, recebo mensagens de e-mail anunciando obras-primas de qualquer um, às quais se anexam muitas vezes «romances» de vinte páginas e textos mais longos, mas desconexos, banais e até descuidados. Na semana passada, li, por exemplo, umas trinta páginas de um livro que, embora bem-intencionado, padecia de uma estrutura tão complexa que exigiria do seu autor grande experiência de escrita para lidar com ela e, por se tratar de um principiante, não funcionava. E, além disso, estava o texto pejado de erros de ortografia – coisa que dificilmente se perdoa a quem quer ser considerado escritor. Na minha resposta-comentário, fui (creio) demasiado branda para o que é costume, não deixando, mesmo assim, de referir ao autor de tais páginas a quantidade de erros e a necessidade de ler mais para os corrigir em próximas aventuras literárias. Já estou habituada a reacções secas, indispostas e até visivelmente irritadas – e, ainda que não viva bem com isso, talvez pela quantidade de vezes que acontece construí uma espécie de escudo protector; mas, desta feita, a resposta foi completamente inesperada: o potencial escritor agradecia os comentários críticos, mas explicava que eu estava a ser demasiado exigente, pois não se podia pedir a um autor que estivesse ao mesmo tempo atento ao desenvolvimento da história e a coisas tão comezinhas como a ortografia... E esta, hã?

O país de poetas ameaçado

Diz-se que Portugal é um país de poetas e a verdade é que, em muitos países europeus e não europeus, a poesia portuguesa é sempre elogiada se comparada com a respectiva e a sua boa forma em todas as épocas referida em comentários laudatórios. Nós, os que gostamos dela e a lemos, ficamos um pouco decepcionados com o magro espaço de exposição que ela tem em livraria e a sua inexistência nos supermercados e outros pontos de venda mais democráticos, bem como com a escassa publicação de livros do género sobretudo desde que se iniciou o fenómeno da concentração editorial. Embora a poesia circule na blogosfera – mas nem toda é de qualidade –, tenho a certeza de que existem muitos bons livros de poesia que não conseguem passar das gavetas e dos círculos de amigos. E temo que venham a ser cada vez mais, pois, como referiu em entrevista mais ou menos recente um dos patrões do mundo editorial português, o mais provável será daqui a dez anos fazer-se dos livros de poesia apenas uma impressão digital de trinta exemplares para distribuição restrita por amigos, familiares e mais meia dúzia de interessados. De momento, não publico poesia na LeYa (apenas ficção), mas, se todas as editoras pensarem deste modo, podemos concluir que o país de poetas é coisa em extinção e que, por força das circunstâncias, nos vamos tornar um país de inventores de anedotas, actividade em que também não somos nada de deitar fora.

De pequenino se torce o pepino

Nos dias que correm, os livros infantis multiplicam-se e vendem-se às pazadas. Acredito, porém, que muitas vezes os pais, diante da birra da criança no hipermercado, levem a primeira coisa a que deitam a mão, colorida o bastante e, de preferência, a preço leve. Uma pena, claro, porque há livros bons e livros muito bons, livros maus e livros muito maus. Tenho visto coisas de bradar aos céus que nem descortino porque são publicadas: histórias sem tom nem som, ilustrações de fugir, erros de ortografia graves, traduções tremendas, palavras tão fora de moda que nem os mais velhos já as usam. Pessoa dizia que um bom livro para crianças tem de ser lido por qualquer adulto com prazer. Claro que no tempo dele (e até no meu tempo de criança) os livros infantis não tinham nada que ver com os que hoje os supermercados despacham às dúzias; ainda assim, devo dizer que muitos dos livros que fizeram as delícias dos meus sobrinhos eram, para mim, uma grande xaropada (incluindo os que eu própria escrevi) e nem por isso deixaram de ser sucessos de vendas e de tornar alguns dos seus autores autênticos fenómenos de popularidade. Mas, tirando os livros da moda que os filmes e programas de animação fabricam – e que todas as crianças querem ter e, na maior parte das vezes, têm –, a verdade é que, com ou sem birra, seria proveitoso que os pais lessem os textos e olhassem para as ilustrações antes de chegar à caixa registadora, para saberem o que estão a dar aos filhos, porque, como dizia a minha avó, de pequenino se torce o pepino – e era bom que ele torcesse para o lado certo...

Aconselhamento

Quando acabei o curso na Faculdade de Letras (e é melhor nem pensar há quanto tempo foi), senti um enorme vazio. Não que tivesse aprendido lá mais do que aprendi com os livros, a vida e as muitas pessoas com quem me fui cruzando, mas, talvez até pela época em que fui universitária, foi na Faculdade que senti que me abriam os olhos e me mandavam ver de tudo. Ficava, por isso, uma sensação estranha de que doravante não tinha quem me aconselhasse livros, filmes, peças de teatro ou exposições e de que, sozinha, não iria conseguir separar o trigo do joio. Quando, ao falar com ex-colegas, percebi que não era a única que o temia, o vazio foi-se enchendo naturalmente. Julgo, mesmo assim, que é para rechear esses ocos existenciais que todos os anos os nossos jornais (e, afinal, os de todo o lado) se apressam a compor listas de livros, filmes, discos, etc., enumerando o que de melhor os seus leitores podem (ou puderam) consumir no ano que passou. E, correndo o risco de dizer que, decorridos alguns dias, já a ninguém importará o que leu, a verdade é que, cruzando informação, aparecem aqui e ali denominadores comuns que ficam na memória e se colam aos nossos desejos de ter, ler, ver e ouvir. Por mais que o tempo passe, a verdade é que todos gostamos de ser aconselhados.

Profissionalismo

Debato-me muitas vezes interiormente com a questão de saber se exerço a minha função com o desejável e exigível profissionalismo. Será um bom editor aquele que procura e identifica o talento do escritor e o revela depois ao público, dentro de um cânone mais ou menos estabelecido pela Academia, ou aquele que responde melhor aos desafios que lhe são apresentados pelo patrão ou a entidade que o emprega e que, como referi no meu post anterior, se prendem mais com o negócio do que com coisas como inovação, qualidade ou intemporalidade? Embora já me tenham descrito como «caça-cabeças da literatura portuguesa» e outros epítetos ainda mais engraçados («preparadora física da selecção nacional», por exemplo), não raro antevejo para mim um futuro negro, no qual não há leitores suficientes para o que hoje reputo de um bom livro (o que resultaria quiçá no meu despedimento). Tento, por isso, conciliar a edição desses textos evidentemente literários e susceptíveis de agradar aos intelectuais com a de outros que, num país como o Reino Unido, apareceriam na categoria Commercial Fiction, capazes de chegar a leitores menos experientes e menos exigentes (mas sempre com o cuidado de eleger apenas aqueles cuja estrutura, desenho de personagens e linguagem seja irrepreensível, porque o fácil ou acessível não tem de ser sinónimo de mau, mesmo que alguns o advoguem e não queiram dar o braço a torcer). Com estes últimos, tenho a esperança de fazer leitores que um dia se atirem aos primeiros (os que realmente gosto de ler e publicar). Mas seria uma melhor profissional se os não fizesse? E sê-lo-ia ainda melhor se excluísse os que terão cada vez menos leitores, a avaliar o estado de (des)educação em que nos encontramos?

Perversões

Ouvi um dia Francisco Balsemão (FB) dizer numa entrevista, depois de confrontado com a mediania (para não dizer pior) da programação televisiva, que a sua televisão (a SIC) dava às pessoas o que elas queriam. Achei a afirmação bastante perversa. Em primeiro lugar, porque é de um grande pretensiosismo alguém (FB no caso) arrogar-se o direito de conhecer os desejos alheios. Em segundo lugar, porque tenho a certeza de que FB não vê quase nenhum programa da SIC (basta estar minimamente informado do seu percurso para o deduzir – e, logo, para deduzir que não se inclui no grupo de pessoas de quem fala). Em terceiro lugar, porque me parece mais acertado pensar que as pessoas vêem não o que querem, mas o que lhes dão – embora isso possa tornar-se, a curto ou médio prazo, aquilo que realmente querem ver; e digo isto porque, nos tempos em que a televisão era outra coisa, a minha mãe tinha a trabalhar lá em casa uma rapariga praticamente analfabeta que, ainda assim, não perdia às terças-feiras uma única Noite de Teatro. Não eram, evidentemente, peças de Brecht ou Shakespeare, mas não deixavam por isso de ter por base textos bem escritos e enredos ricos e estruturados com rigor. Ora, hoje seria impensável passar na televisão em horário nobre uma peça de teatro (embora não fosse má ideia usar os actores de telenovela mais apreciados para dar a conhecer às tais pessoas em que FB não se inclui alguns textos e dramaturgos importantes). E com os livros passa-se um pouco a mesma coisa: publicam-se livros muito maus alegando que as pessoas os querem ler, quando afinal talvez as pessoas os leiam apenas porque eles são publicados. Acredito que, também neste caso, quem os publica não faz deles livros de cabeceira. Mesmo que possa estar a exagerar e a atitude de quem decide tenha sobretudo como objectivo o negócio, não estarão os decisores a criar populações estáticas e sem capacidade de reacção para, no caso de ser preciso, um dia as poderem dominar?

Toma e embrulha

Quando comecei na edição, quase todas as capas eram tristes, mesmo as bonitas. (Talvez os portugueses sejam um pouco murchos, e o seu carácter acabe por se reflectir no que fazem em termos criativos.) Havia muito menos editoras – e as suas colecções não raro eram embrulhadas em tons de castanho, azul-pardo e cinzento – pouco apetecíveis, em suma. Chegada a globalização, as coisas inverteram-se, o que, por um lado, foi extremamente positivo, mas, por outro, gerou situações em que o embrulho não corresponde ao presente que tem dentro e, em casos extremos, em que o embrulho ainda vem embrulhado em sacos de gaze e caixas de plástico – como se o invólucro contasse mais do que tudo o resto. Enfim, o mercado mudou e os clientes precisam de ser atraídos... e temos de viver com esta realidade, gostemos dela ou não. Em todo o caso, há muitos bons artistas gráficos a quem podemos dizer «Toma e embrulha» e fazem capas belíssimas (e adequadas); e também editoras que têm linhas gráficas de extremo bom gosto e servem plenamente os objectivos de um livro, não o tornando menos vendável por causa disso. O problema é que o que sobra é uma amálgama tão indiferenciada que, ao entrar numa livraria, quem não seja um leitor habitual se arrisca a não perceber mesmo que livro comprar...