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A mostrar mensagens de novembro, 2017

Ibero-americana

Para quem se queixa do preço dos livros, não há desculpas: aqui está uma belíssima colecção que o Público vende desde o último dia 24 a preço mesmo módico. Julgo que são apenas 4,45 Euros – e a notícia é excelente se pensarmos que o Natal está à porta e que os doze títulos que compõem a série são obras-primas indiscutíveis; para quem já possua a maioria, os livros podem constituir um excelente presente para alguém que esteja a começar a montar a sua biblioteca (quero crer que ainda existam alguns jovens que o façam, senão o melhor é reformar-me). O domínio é o da literatura ibero-americana (a melhor) e, além de Lobo Antunes (Portugal) e Juan Marsé (Espanha), representando a Europa (e muito bem), há obras de Jorge Amado (Brasil), García Márquez (Colômbia), Vargas Llosa (Peru), Cortázar (Argentina), Juan Rulfo (México), Alejo Carpentier (Cuba), Skármeta (Chile), Augusto Monterrosso (Honduras), Feliberto Hernández (Uruguai) e Miguel Ángel Asturias (Prémio Nobel da Literatura em 1967, oriundo da Guatemala). Os livros têm um bonito grafismo, são resistentes (capinha dura) mas afeiçoam-se à mão (são jeitosinhos). E, claro, são  grandes textos, o que é o mais importante!

Vinho e literatura

Agora, pelo menos, Viseu será notícia por boas razões (e não por causa do fogo ou da seca): o Festival Literário Tinto no Branco, que inicia a sua terceira edição já no próximo dia 1 de Dezembro e contará com a presença de numerosos convidados. Não serão só escritores, embora estejam presentes Afonso Cruz, Pedro Mexia, Fernando Dacosta ou Miguel Real, entre outros. Também participarão algumas pessoas de outros sectores, como Raquel Varela, Carlos Fiolhais, Rodrigo Moita de Deus, Daniel Oliveira (o jornalista e comentador), Pedro Santos Guerreiro, Frei Bento Domingues e o excelente diseur Isaque Ferreira (além do Manel, que vai defender o vinho contra a cerveja). Mas o convidado que provavelmente vai gerar maior curiosidade é Michael Palin, um senhor apresentador de televisão que, para quem tem a minha idade, associamos imediatamente ao colectivo de actores Monty Python e estará num frente-a-frente com Ricardo Araújo Pereira dia 1 às 18h00, que é a não perder. Mas, além das conversas que porão em confronto ciência e religião, poesia e prosa, campo e cidade, ócio e trabalho, o festival proporciona ainda exposições, filmes, visitas guiadas, concertos e ateliers infantis (espera-se que, nestes últimos, a presença do vinho seja moderada). A maioria das actividades acontece no Solar dos Vinhos do Dão e o programa completo pode ser visto no link abaixo:


 


http://www.tintonobranco.pt/


 

Da diferença

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É muito bom quando sabemos que pessoas que trabalharam connosco no princípio da sua carreira e de quem nos separámos a dada altura por contingências da vida continuaram com a sua paixão e fizeram conquistas importantes. Recentemente, descobri que a Sofia Fraga, que começou a trabalhar comigo na edição na época da QuidNovi e está actualmente na Porto Editora, onde trabalha os livros de escritores como Mário de Carvalho e Richard Zimler, acaba de publicar o seu primeiro livro – uma história infantil ilustrada pelo enorme Paulo Galindro, intitulada A Tartaruga Celeste o Menino Que Chorava Música (edição da Minotauro), na qual um menino (Pedro, como o filho mais velho da Sofia), em vez de chorar, canta verdadeiras árias de ópera; e uma tartaruga nasce curiosamente sem carapaça, o que mesmo assim não a impede de andar descontraidamente por aí a meter o nariz em tudo (a ilustração que a mostra de lenço na cabeça é mesmo uma delícia). Há também um anjo-estrela extenuado com uma busca, mas é melhor não adiantar mais nada... Trata-se de um livro bonito e inteligente para os mais novos folhearem, lerem e aprenderem a viver com a diferença (e aceitá-la nos outros, evidentemente), até porque, se fôssemos todos iguais, o mundo seria uma grande monotonia. Parabéns, Sofia, ficamos à espera do próximo. E diferente, claro!


 


A tartaruga Celeste e o menino que chorava musica_


 


 

Na Rua Mazur

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Paris, 2001. Yankel – um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama – recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se vêem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade da Polónia onde cresceram – e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk – hoje um escritor famoso – está muito doente, mas não quer morrer sem escrever um livro que servirá de ajuste de contas com o passado. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira. Com o encontro dos dois se inicia Os Loucos da Rua Mazur, o segundo romance de João Pinto Coelho que lhe valeu o Prémio LeYa e, estando à venda apenas há dias, já deu celeuma na Polónia, com os jornais a tentarem escamotear o tal «incidente», esquecendo-se de que, em 2015, o próprio presidente polaco e um bispo pediram desculpas pelo sucedido durante a Segunda Guerra Mundial. Polémicas à parte, Os Loucos da Rua Mazur é um digno sucessor literário de Perguntem a Sarah Gross (em quarta edição) e uma ficção igualmente inesquecível. O lançamento é no dia 29, na Livraria Buchholz, em Lisboa, às 18h30. Apresenta o romance José Tolentino Mendonça.


 


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Confissões

João Morales não pára e há três anos consecutivos que organiza a actividade Confesso Que Li com o apoio da Câmara Municipal de Almada. A sessão contempla sempre uma entrevista feita pelo jornalista a uma personalidade mais ou menos conhecida do público (em Setembro, por exemplo, foi dedicada às leituras do compositor Tozé Brito) que traz consigo alguns livros (ou os títulos) que permitam falar acerca do seu passado, das suas escolhas, recordações, percurso pessoal e profissional. É já amanha, às 16h30, que tem lugar a terceira sessão da edição de 2017, cujo convidado será o curador e crítico de arte Delfim Sardo, também autor de vários livros, que foi – entre outras coisas – curador da Trienal da Arquitectura de Lisboa e colaborou com a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém ou a Culturgest, à qual ainda está hoje ligado. Desta vez, a conversa decorre na Biblioteca José Saramago, no Feijó. Se quer saber o que leu (e lê) Delfim Sardo, a entrada é livre.

Aniversário

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Falo muitas vezes aqui das Quintas de Leitura do Teatro de Campo Alegre, no Porto, mas existem outras, as 5.as, assim escritas, que acontecem na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz uma vez por mês (à quinta, claro), depois do jantar, e que festejam agora o seu oitavo aniversário. Já lá estive com imensos autores: João Ricardo Pedro, Paulo Moreiras, Ana Margarida de Carvalho, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade, Afonso Reis Cabral e muitos outros, assistindo e acompanhando boas conversas com o público; e hoje, no âmbito das festividades, participo numa sessão com a presença dos escritores Mário Cláudio e João de Melo, ambos publicados pela chancela da Dom Quixote, que, embora vivendo longe um do outro, são amigos há muito tempo e têm uma afinidade difícil de encontrar em autores consagrados: gostam de ler livros de autores mais jovens e acompanhar a cena editorial nacional (são, aliás, muito requisitados por principiantes para lerem as suas obras). O presidente da Câmara da Figueira da Foz dá as boas-vindas e modera a conversa. Mas o público terá certamente muita coisa para perguntar. Se estiver, pois, para aqueles lados, apareça e venha trocar ideias connosco.


 


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Uma centena

Adoro organizar antologias e percebi isso há relativamente pouco tempo, quando me convidaram para antologiar os poetas eruditos que escreveram para fado ou a quem os fadistas roubaram poemas que transformaram em letras (às vezes com um nadinha de liberdade a mais). Mas, se me pedissem para reunir num volume os autores ou textos de que mais gostasse, ui, acho que ficaria uma eternidade a pensar e dificilmente conseguiria decidir. Admiro por isso o jornalista José Mário Silva, o responsável pela secção de livros no seminário Expresso, ao juntar num mesmo volume Os (seus) Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (a editora é a Companhia das Letras), que abrangem Pessoa, Sophia ou Herberto, evidentemente, mas também Inês Dias, Matilde Campilho ou Rosa Oliveira, poetas que começaram há menos tempo. No prefácio, ele admite que o livro não é senão a sua escolha pessoal – e, como tal, subjectiva – mas claro que no Facebook já houve quem discutisse presenças e ausências, como se o livro afinal devesse ser um desses tesouros da literatura que antes se publicavam e que contemplavam quase sempre os mesmos batidíssimos versos. Neste livro, admito que muita gente que habitualmente não lê poesia, levada pelo «melhores» do título, vá pela primeira vez ler muitos dos autores (Jorge Sousa Braga, Daniel Faria, Luís Quintais, Miguel-Manso, eu?…) e se interesse por algum, começando a comprar os seus livros. Mas para outros leitores, como eu, o divertimento está sobretudo em ver o que faríamos diferente na escolha dos nomes e dos poemas. Provavelmente, quase tudo… Bem, se quer uma amostra da poesia que se escreve de há um século para cá, aqui tem um bom ponto de partida.

O medo e outras histórias

Não costumo ler biografias, menos ainda de vivos (talvez prefira a ficção à realidade), mas deitei a mão uma destas noites a um livro que acaba de ser publicado pela Bertrand – De Que Cor É o Medo, assinado pela jornalista Sílvia de Oliveira, que é uma biografia autorizada de Paulo Teixeira Pinto. A maioria das pessoas conhece-o como o banqueiro do BCP, mas eu gosto mais de o referenciar como ex-editor da Babel e ex-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, pois foi nessas funções que o conheci pessoalmente, embora o pudesse mencionar também como artista, pois ele teve a generosidade de, há uns anos, nos oferecer um quadro da sua autoria que está na parede maior da nossa casa da Ericeira. Foi, aliás, para saber o que acontecerá realmente à Babel (hoje em decadência absoluta) que abri o livro e o folheei, mas não resisti a investigar igualmente o que sente alguém que descobre numa consulta de rotina que tem Parkinson (e que contempla a possibilidade da eutanásia se um dia se tornar apenas um fardo para os outros); ou como se sobrevive à morte súbita de um filho de 22 anos que não estava doente, sobretudo quando a autópsia é inconclusiva (um filho que era uma espécie de «santo» nas palavras do pai); ou como, depois de se pertencer durante anos a uma instituição como a Opus Dei, se deixa de acreditar em Deus da noite para o dia. O livro não é profundo, fala destas e de outras coisas um pouco ao de leve, pela rama, mas se calhar, para o biografado falar, a condição era capaz de ser não ir muito ao fundo das questões. A capa é que é mesmo esquisita: Paulo Teixeira Pinto parece estar a assustar-nos… e ele, ao que sei e percebo por este livro, é tudo menos agressivo. Escreve o prefácio Pedro Abrunhosa.

Em Timor

Recebi um convite para ir à estreia do novo filme de Luís Filipe Rocha, intitulado Rosas de Ermera; e, como gosto muito do realizador e do seu cinema, não pude faltar. Não era um filme de ficção, como os que vi dele, mas um filme de não-ficção em torno da família de Zeca Afonso, narrado, aliás, pelo seu irmão mais velho (João Afonso dos Santos, com cerca de noventa anos) e a sua irmã mais nova (Mariazinha, a que cheirou as rosas de Ermera, com mais de oitenta). Mas não pensem que é um filme sobre a carreira do Zeca, pois não tem que ver com isso, mas com a separação da família no final dos anos 1930: vivendo em Lourenço Marques, o pai – que era juiz – concorreu a um lugar em Timor. Como no sítio para onde ia, Lahane, não havia liceu, os dois rapazes vieram estudar para Coimbra, e a menina, ainda na escola primária, acompanhou os pais. Ora, quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor foi invadida por tropas japonesas – e Mariazinha e os pais ficaram impossibilitados de comunicar com o exterior, pelo que durante vários anos João e Zeca não souberam deles e puseram mesmo a hipótese de se terem tornado órfãos. Conhecia mal esta história da ocupação japonesa de Timor e a forma como uma coluna de timorenses se aliou aos japoneses contra o colonizador português. O filme é maravilhoso também pelos seus protagonistas e narradores; mas, como vai fazer itinerância pelo País, vejam se não o perdem nas vossas cidades e, entretanto leiam o livro de João Afonso dos Santos sobre o mesmo assunto, O Último dos Colonos. Às vezes, a realidade supera a ficção.

Desassossego

Ui, esta palavra tem muitos SS e quem anda aos SS anda desassossegado. Ontem começaram em Lisboa os Dias do Desassossego de 2017, esse período do ano em que as ruas da capital se enchem de música, leituras, oficinas, exposições e muito mais à roda da obra de Fernando Pessoa e José Saramago (e não só). A festa decorre até final do mês e, já este fim de semana, estão previstos pelas dez da manhã passeios literários dedicados aos dois escritores, Lisboa de Fernando Pessoa e José Saramago e o Memorial do Convento. No sábado, para quem tiver filhos, a Fundação José Saramago organiza uma oficina de «postais desassossegados» e, para os mais velhos, o lançamento de um livro com 145 poemas de Kavafis, traduzidos do grego por Manuel Resende. E, na semana que vem, há concerto no Teatro Municipal S. Luiz, uma aula, uma conferência, teatro, mesas-redondas, arte urbana... Enfim, o suficiente para nos desassossegar até dia 30, dia em que a Casa Fernando Pessoa faz vinte e quatro anos! Ufa!


 


O programa completo aqui: http://diasdodesassossego.org


 

O que vamos ler em 2018

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Não, não pensem que sei mais do que devia e que vou aqui apresentar uma lista de títulos que serão publicados no ano que vem por muitas editoras. Na verdade, trata-se apenas do título de uma sessão à volta de livros que ocorrerá esta tarde no Museu da Farmácia em Lisboa e para a qual a entrada é livre. Numa mesa em que estarei acompanhada pelo Manel (Porto Editora), por Diogo Madre Deus (Cavalo de Ferro), Francisco Vale (Relógio d'Água), Bárbara Bulhosa (Tinta-da-Chuna) e mais algumas pessoas, contaremos com a moderação do jornalista Luís Caetano para falar de muitos assuntos, tais como a vida dos editores e dos críticos literários, a apresentação de algumas novidades ao público presente (presumo que também estejam farmacêuticos que gostem de ler) e um cheirinho do que vai ser o ano de 2018. Antes ainda de o debate se abrir ao público, teremos tempo para escolher um livro de outro editor, ali presente ou não. É logo às 18h00 num lugar mágico e contamos com a sua presença!


 


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A noite não é eterna

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Depois de várias nomeações com o seu romance anterior, Cristina Silva foi este ano galardoada com o Prémio Fernando Namora da Estoril Sol pelo seu romance mais recente, A Noite não É Eterna, cuja acção decorre nos anos de chumbo da Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, com a população enfraquecida pela fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército no qual os soldados são treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, a culpa e o desgosto já não a abandonarão, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade. Mas será que o seu sofrimento pode ser aplacado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo? Leia para saber.


 


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Papões e outras criaturas

Aqui há tempos, num encontro literário que se realiza no Fundão, conheci duas pessoas extraordinárias que vivem em Alcobaça e têm uma pequena editora – a Escafandro. Trata-se da Rita Nabais e do Nuno Matos Valente, ambos professores, ele autor também de alguns livros, nomeadamente  o que aqui me traz hoje: Bestiário Tradicional Português. Conta o Nuno numa entrevista ao Observador que, há uns tempos, se apercebeu de que as criaturas das antigas histórias portuguesas – bruxas, monstros, almas penadas, papões, gigantes, etc. – começaram a perder claramente terreno para o massificado Halloween, por exemplo, que pouco ou nada tem que ver com as nossas tradições. Surgiu-lhe então a ideia de recolher as histórias tradicionais que incluem estas figuras (enquanto há quem se lembre de as ouvir de pais e avós). Fez uma pesquisa ao longo de quatro anos, mergulhando na obra de Leite de Vasconcelos, Alexandre Herculano, Teófilo Braga e muitos outros autores – e também ouvindo relatos em muitas partes deste nosso Portugal, chegando, de resto, à conclusão de que muitas histórias se repetem, mesmo que os nomes das criaturas não sejam sempre os mesmos. E o resultado é então um livro que vai já em segunda edição e agrada tanto a crianças como a adultos. Publicado pela Escafandro e ilustrado por Natacha Costa Pereira.

Sempre na moda

Releio livros e revejo filmes de que gostei muito quando li e vi pela primeira vez, mas que agora me parecem tremendamente datados, e garanto-vos que não é por não haver neles telemóveis ou computadores. É uma coisa que se sente – e até já me aconteceu com autores importantes, como Vergílio Ferreira, ou filmes muito «badalados», como American Gigolo. Mas há autores que, por mais que se vão tornando de nicho, nunca passam de moda – e é o caso de Eça de Queirós (que até se permite ser «continuado» por outras mãos no século XXI) ou Camilo Castelo Branco, que, usando embora linguagem que hoje os jovens acharão decerto rebuscada, permanece profundamente actual, como nesta passagem, em que descreve com primor um «novo-rico»:


 


«No Chiado abjurou um chapéu de molas de merino, e comprou outro de castor, à inglesa. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas da sua vida. No vesti-las arrostou com dificuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou-o na árdua empresa.


Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiência do sujeito desconhecido. Um deles, confiado na inépcia tolerante do provinciano ou suposto brasileiro, disse, a meia voz, ao outro:


– Quatro pés nunca vestiram luvas.


Calisto encarou nele com sorriso minacíssimo, e disse à luveira:


– As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.»


 


Pertence a A Queda de Um Anjo. Que maravilha, não é?

Economia para todos

Quando era pequena, tinha uma grande dificuldade em perceber por que motivo os banqueiros eram ricos se o dinheiro que estava depositado nos bancos não lhes pertencia. (Não sabia que eles o investiam nos seus negócios e que, em suma, o faziam render.) Um pouco mais tarde, o problema foi com as empresas em bolsa e o comprar e vender acções; e, mais tarde ainda, com a especulação financeira e a desvalorização da moeda. Embora tenha lido vários livros que me ilustraram sobre alguns assuntos, a economia para mim continua a ser basicamente misteriosa e impenetrável – e parece-me que talvez fosse bom a escola dar desde cedo algumas noções de economia aos alunos, até porque ela está presente no quotidiano de todos. Descubro então, quase por acaso, que o senhor Varoufakis (lembram-se dele?) escreveu há uns anos (e apenas em nove dias, caramba!, segundo conta no prefácio) um livro intitulado Falando de Economia com a Minha Filha, agora publicado também em inglês. Diz o ex-ministro grego nesta sua brevíssima história do capitalismo que economia é política e que, como tal, deve ser discutida em termos que todos entendam, incluindo a filha que era, na data da publicação da obra original, apenas uma adolescente. Acho que se calhar vou comprar a tradução inglesa do livro de Varoufakis e tentar realmente adquirir um conhecimento do qual estou francamente carente para compreender algumas notícias deste nosso mundo.

Profético

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Sinclair Lewis foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1930. Mas o reconhecimento pelos seus romances satíricos, críticos dos políticos corruptos e do materialismo fútil da classe média americana não abarcava ainda o  livro de que falarei hoje, publicado em 1935, que se tornou uma obra profética após a eleição de Donald Trump. Escrito durante a Grande Depressão e publicado quando o fascismo começava a emergir na Europa de forma alarmante, Isso não Pode Acontecer Aqui conta a história de Buzz Windrip, um demagogo xenófobo e racista e que, apesar de praticamente iletrado, consegue derrotar Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais com a promessa de um regresso da América à prosperidade e ao orgulho, acabando por instaurar um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível. No centro da acção, está Doremus Jessop, um jornalista do Connecticut que testemunha com horror a fragilidade da democracia e se torna um dos grandes resistentes à tirania, passando à clandestinidade. Oitenta anos depois da publicação original, este livro é assustadoramente atual.


 


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Ler, beber e petiscar

Nem tudo o que acontece de interessante nos dias que correm se realiza nas grandes cidades – e Alcobaça, além de ser um lugar belíssimo que só por isso já merece visita, recebe pela quarta vez o festival Books & Movies – Festival Literário e de Cinema, que decorre entre 4 e 14 de Novembro e junta variadíssimas personalidades do meio cultural português para falarem de livros, filmes e muito mais «num clima de diálogo, de tolerância e de abertura» em espaços públicos da cidade. Este festival, organizado pela Câmara Municipal de Alcobaça, apresenta propostas para o público escolar e para o público em geral; e, no dia do fecho, às 18h00, na Granja de Cister, convida o escritor Paulo Moreiras (autor, simultaneamente, de romances literários e livros de gastronomia e etnografia) para falar da relação entre a literatura e a culinária, coisa que ele conhece como ninguém, não só por ter escrito sobre o assunto em livros como Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber (e chorar por mais, claro) ou O Elogio da Ginja como ainda por ser alguém que escreve, cozinha e come muito bem. Se não puder ir a esta sessão, moderada por José Fanha, há muito mais. O programa completo segue no link abaixo.


 


http://www.cm-alcobaca.pt/pt/menu/1115/booksmovies.aspx

BIS

Toda a gente sabe que um dos mais prestigiantes prémios literários portugueses é o que anualmente atribui a Associação Portuguesa de Escritores (APE) nas categorias de romance ou novela, poesia e ensaio. Na ficção, é muito raro um autor conseguir vencê-lo com um livro de estreia – e Ana Margarida de Carvalho ganhou-o com o seu primeiro romance, intitulado Que Importa a Fúria do Mar (o título parte de uma canção de Zeca Afonso). É também pouco comum este prémio ser atribuído mais de uma vez à mesma pessoa – em quase trinta anos, só houve seis autores que bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e, agora, Ana Margarida de Carvalho! Mas o que penso aconteceu pela primeira vez foi um autor receber o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB pelos seus dois primeiros livros; e foi isso que aconteceu a Ana Margarida de Carvalho que, com Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, foi também finalista do Prémio P.E.N. de Narrativa (ganho por Ernesto Rodrigues) e do Prémio Oceanos (antigo PT), no Brasil, que vai ser decidido no dia 7 de Dezembro. Mais logo, pelas 18h00, no renovado Palácio Galveias, em Lisboa, Ana Margarida recebe o seu segundo prémio da APE na presença de alguns dos jurados e do Ministro da Cultura, o poeta Luís Filipe Castro Mendes. Apareçam.

Pessoas e escritores

Uma das coisas de que mais gosto em Eduardo Lourenço é que ele é muito gente por detrás do grande intelectual e pensador que também é. Estar com ele é um prazer também por causa disso, por estar ao nosso lado como um de nós, com uma humanidade muito especial. Há escritores que são muito distantes – ou muito artistas, muito «elevados» em relação ao resto das pessoas (e isso irrita). Mas há outros que gostam tanto de escrever como de comer, conversar ou ir ao futebol (penso que Carlos de Oliveira, por exemplo, era um doido pela bola e uma destas pessoas muitíssimo «normais», apesar da fama e da importância). A este título, Jorge Amado é também um bom exemplo de «gente», e a história que li recentemente no mural do Facebook de Josélia Aguiar, a curadora da FLIP (o festival literário de Paraty), comprova-o. Quando o escritor brasileiro tomou posse como membro da Academia de Letras da Bahia vestiu o smoking da ordem para proferir o seu discurso; ao terminar, uma repórter aproximou-se dele para perguntar como se sentia. A resposta, segundo o Jornal do Brasil, foi a seguinte: «Muitíssimo suado, minha filha.»

Em leilão

Recebi um e-mail sobre leilões – e tê-lo-ia apagado imediatamente se não tivesse reparado, numa rápida vista de olhos, que a coisa iria ocorrer na Cooperativa Árvore, no Porto, um lugar de culto a que não sou indiferente. Deitei então um olhar mais demorado ao texto para ficar a saber que estava em causa o património de um senhor que conheci há muitos anos e é admirado por muitíssimas pessoas: o livreiro portuense Fernando Fernandes, segundo Agustina «o maior dos livreiros portugueses», fundador da Livraria Leitura, passagem obrigatória de tudo o que era intelectual e leitor sério na Invicta ao longo de várias décadas. Pois bem, os tempos mudaram e Fernando Fernandes é agora obrigado, por razões de saúde e necessidade, a «desfazer-se» de 4000 peças!, incluindo 120 obras de arte (de pintores como Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Zulmiro de Carvalho, Fernando Lanhas ou Júlio Resende) e 650 livros seleccionados, como Poesias Completas (1951-1981), de Alexandre O´Neil, com dedicatória assinada; Quadros Portuenses, uma edição de luxo de Agustina Bessa-Luís – com 10 aguarelas de António Cruz; ou até As Quatro Estações, de Jorge Sena, Eugénio de Andrade, Faria Almeida e Vergílio Ferreira, ilustrado a cores em folhas à parte. Não consigo imaginar o que será para Fernando Fernandes separar-se de uma colecção como a sua, embora ele confesse que ainda fica com muitos livros para ler. Parece-me, de qualquer modo, um terrível sinal dos tempos. (Os leilões decorrem até amanhã.)

O que ando a ler

Javier Cercas escreve estupendamente sobre personagens e acontecimentos reais num tom de romance em que é tudo inventado; em Espanha até se diz que escreve «romances de não-ficção». Sim, é mais ou menos isso – e o livro que ando a ler neste momento não é excepção. Chama-se O Monarca das Sombras e regressa ao período da Guerra Civil espanhola já visitado pelo autor no maravilhoso Os Soldados de Salamina, obra que o celebrizou. Depois de muito hesitar, em parte também por se encontrar nos antípodas políticos do seu protagonista, em parte por vergonha assumida, em parte por não querer entrar em litígio com parentes (incluindo a mãe), Cercas decidiu dedicar este livro a um tio-avô materno, Manuel Mena, que combateu ao lado dos Franquistas e morreu em 1938 na Batalha do Ebro, dois anos apenas depois de se ter alistado, tornando-se uma espécie de herói oficial da família (o pobre rapazinho «que morreu do lado errado da História»). Todos os que morrem jovens, com uma vida inteira por viver, invocam uma certa sensação de desperdício – e o sobrinho-neto de Manuel Mena quis saber mais sobre o passado desta figura de que, em Ibahernando, a terra onde nasceu (e donde os pais emigraram poucos anos mais tarde para a Catalunha), muita gente se orgulhava. Descobrir algumas coisas incómodas (e não só sobre o jovem combatente, mas também sobre outras gerações da família) faz, naturalmente, parte do processo. Ainda vou no primeiro terço do livro, mas já entendi que é para ler a correr até ao fim.