O enciclopedista e o pretenso poeta

Quando tinha dezasseis anos, saiu-me num exame de Francês um texto delicioso. Contava a história de um jovem poeta que tinha ido encontrar-se com o grande Diderot para lhe mostrar o que andava a escrever e auscultar a sua opinião. O enciclopedista não se negou a dar-lha, mas pediu que deixasse os poemas e lhe desse tempo para os ler com atenção. Quando, ao fim de alguns dias, o jovem regressou, seguramente expectante, Diderot explicou-lhe que não só aqueles poemas eram maus como mostravam que o seu autor nunca seria capaz de escrever bons poemas... Como não sou Diderot – e embora às vezes me apetecesse –, não posso dizer nada de semelhante a alguns jovens (e não tão jovens) pretensos escritores que me mandam os seus livros (embora um dia destes Lobo Antunes me tenha dito que só se pode fazer um bom editing com crueldade). Tento, mesmo assim, ser frontal sem magoar demasiado na minha tentativa de dissuasão. Mas nem sei se chego aonde quero, porque, para ser franca, sei de muitos livros que recusei e foram, ainda assim, publicados por outras editoras. Alguns – pasme-se – até me incluíam nos agradecimentos... A propósito, O Poeta de Pondichéry, livro de poemas de Adília Lopes, refere-se a este jovem poeta que Diderot mandou passear.

Comentários

  1. Então... são queridos.... e bem-educados:)

    ResponderEliminar
  2. Mas admitirá, por certo, a presença de alguma hubris nessa sua ideia de frontalidade...
    Recordemos que o Diário de Anne Frank foi rejeitado 16 vezes e Dubliners, de James Joyce, foi alvo de 22 “nãos”. Mesmo campeões de vendas como a saga Harry Potter caíram primeiro nas mãos de editores algo pitosgas; 9, neste caso.
    A pobre Lolita, de Nabokov, foi descrita como sendo “overwhelmingly nauseating” e condenada a um fim bem triste: “I recommend that it be buried under a stone for a thousand years.” Sylvia Plath também foi alvo de um desses juízos demolidores e sem apelo: “There certainly isn't enough genuine talent for us to take notice.”
    E que sabe hoje os nomes dessas luminárias tão cheias de si e da perspicácia dos seus gostos?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Concordo Karlos, o exemplo do Harry Potter é paradigmático, pois a sua autora só conseguiu publicar o primeiro volume numa editora (àquele tempo) pequena, praticamente desconhecida, que achou piada à história e resolveu publicar 500 exemplares. Vi um programa de televisão sobre isso, foi entrevistado o director (agora milionário) dessa editora, que, ao saber que a J. K. Rowling vivia de subsídio de desemprego, lhe disse: "Não desista de procurar emprego, pois não pense que poderá viver apenas de livros infanto-juvenis"!!!

      Claro que a J. K. Rowling é uma excepção. Mas prova que casos como os dela são possíveis. Por mais competência que um editor tenha, tem sempre uma opinião pessoal, gostos próprios. E, o facto de não gostar de um original, não quer dizer que ele não valha nada (embora, na sua maioria, seja mesmo assim).

      Também conheço o caso de um livro alemão que foi recusado por cerca de 20 editoras. Também deu programa de televisão, pois, quando, finalmente, foi publicado, tornou-se num Best-Seller. O título é "Schlafes Bruder", não tenho o nome do autor presente e o caso já se deu há alguns anos.

      "Sei de muitos livros que recusei e foram, ainda assim, publicados por outras editoras" - acho, com todo o respeito, cara Rosário Pedreira, esta frase um pouco infeliz, ninguém é dono da verdade.

      Sim, eu acuso-me, tenho "pedra no sapato". Vamos ver no que dá...

      Eliminar
    2. Conheço o livro, publiquei-o em Portugal com o título «Quem Ama não Dorme». Era de um autor austríaco, Robert Schneider. Lindo, de facto. Todos os editores falham de vez em quando, claro, e também podem recusar livros que pensam não ser bons para a sua editora e que noutra ficarão bem. Não é a mesma coisa que recusar poemas obviamente maus, como era seguramente o caso do poeta de Pondichéry. Mas deixe-me eslcarecer que tento deixar o meu gosto pessoal de lado: há muitos autores que considero de grande qualidade e de quem não gosto. Não os deixaria de publicar por isso, evidentemente.

      Eliminar
    3. Sim, mas há coisas que têm de ser vistas no contexto. Nos anos 50 a Lolita era um choque, sobretudo para os puritanos da América, e por isso foi publicada em Paris. E Plath também era uma poesia completamente nova, a que provavelmente o editor não foi sensível. Gide recusou Proust , como sabe, e não me parece que Gide fosse uma besta. Claro que para nós, que vivemos hoje, estas recusas são um choque, mas estamos a olhá-las de um tempo em que já sabemos o grande sucesso que tiveram os autores.

      Eliminar
    4. Ora aí está: há quem meça gostos e aprovações pelo que se usa, pelo air du temps. E há, felizmente, quem veja mais longe.
      Todos vemos, no presente, as coisas "no contexto". Só que isso nem sempre é bom.

      Eliminar
    5. Errar é humano e ninguém consegue ser objectivo a 100%. Mas, se a Maria do Rosário diz que tenta deixar o seu gosto pessoal de lado, revela honestidade e preocupação por um juízo o mais isento possível.

      De qualquer maneira, acho o assunto interessante e, apesar de eu afirmar no meu comentário anterior que, na grande maioria dos casos, o editor tem razão quando recusa um texto, não resisto em mencionar mais um curioso "erro de prognóstico", que vi em mais um programa de televisão (é capaz de ter sido o mesmo em que vi a reportagem sobre o Harry Potter).

      Um dos responsáveis por uma das maiores editoras francesas recusou o "Código Da Vinci", já depois de o livro ser um sucesso nos Estados Unidos, por achar que não se adequava aos leitores europeus. Claro que uma outra editora aproveitou a ocasião para adquirir os direitos. E o editor que o recusou disse, perante as câmaras, qualquer coisa como: "Claro que foi um grande erro. Que assumo!"

      Valha-nos a honestidade ;)

      Eliminar
    6. Desculpe a ignorância, mas não percebi o seguinte:
      "tento deixar o meu gosto pessoal de lado".
      Essa imparcialidade é boa? Não seria preferível seguir o seu instinto, treinado pela experiência?

      "há muitos autores que considero de grande qualidade e de quem não gosto".
      Não gosta dos livros ou das pessoas?
      Muito obrigado.

      Eliminar
    7. Sobram os exemplos, claro; mas não precisamos de recuar tanto no tempo, se nos lembrarmos que Saramago foi recusado por Nelson de Matos, então a imagem (e boa) da D. Quixote

      Eliminar
    8. Um exemplo: não sou uma fã da obra de Kundera mas nunca deixaria de o publicar.

      Eliminar
  3. Não compreendo alguns comentários neste post. Naturalmente que a visão do editor é sempre subjectiva. Aliás, a história da arte está cheio de casos destes. Basta pensar na pintura e os casos são muitos. Nenhum editor é dono da verdade e temos que considerar sempre a linha editorial, isto é, se é uma editora de poesia não adianta enviar trabalhos de ficção científica, por exemplo, porque será recusado, obviamente. E mesmo sendo aceite há sempre a edição:
    "Quem corta um conto... corta um ponto."

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas não me parece complicado: o problema é alguém arrogar-se o direito de afirmar que alguém "nunca seria capaz de escrever bons poemas". Pelos exemplos, já se percebeu que abundam palpites similares que redundaram em disparate.
      E apostar no que é "normal" e consensual para um dado tempo é fácil: difícil é reconhecer o génio e a inovação quando aparecem. E, de Nabokov a Proust, muitos sofreram com a miopia de quem tem o poder e julga ter o discernimento.

      Eliminar
    2. Chama-se a isso ser apenas humano, palpita-me. E suponho que os visionários que primeiro editaram o "Dubliners" também são capazes de ter cometido algumas asneiras. É a vida.

      Eliminar

Enviar um comentário