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A mostrar mensagens de 2014

Vésperas de Natal

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Há uns dias partilhei convosco um maravilhoso desenho de João Pinto-Coelho, no qual estavam representados alguns dos mais participativos leitores deste blogue. Mas não vos disse que o artista tinha actualizado esse desenho com a presença de mais alguns comentadores regulares. Porém, como estamos em vésperas de Natal, decidi expor a obra completa e deixá-la aqui hoje como uma mãe-natal entregando um presentinho (alheio, bem sei, mas é bom servir de intermediária). Até porque convinha compensar os leitores do blogue do facto de este ser o último post do ano: amanhã entro de férias e só regressarei ao Horas Extraordinárias no dia 5 de Janeiro. Desejo-vos umas boas festas e que entrem o ano de 2015 com o pé direito. Obrigada pela companhia de sempre e pelas palavras. Obrigada ao João, sobretudo, por esta maravilha:


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Revistas

Agora, que os jornais têm cada vez menos espaço para a cultura e, certamente por isso, divulgam todos aproximadamente os mesmos livros e autores, torna-se mais importante ler revistas literárias, incluindo, claro, as antigas, através de cuja consulta podemos tomar contacto com nomes pouco falados habitualmente, com excertos de obras que desconhecemos, com escolhas de poemas, com artigos e entrevistas sempre interessantes. Sem querer fazer publicidade – porque, na verdade, também se trata de uma forma de negócio, e sobretudo para coleccionadores e gente com muito dinheiro no bolso –, não posso deixar de aconselhar a quem se interessa por estas relíquias um blogue que dá justamente pelo nome de Revistas à portuguesa e disponibiliza colecções inteirinhas de revistas literárias raras e difíceis de encontrar e que fizeram, em alguns casos, história – no fundo, uma espécie de alfarrabista de publicações periódicas de qualidade. Bem sei que cada uma destas colecções é bem capaz de custar um salário mensal, mas o que importa não será tanto comprar os lotes ali anunciados como passar os olhos pelos índices e ver a diversidade de títulos e conteúdos. Depois de estimulada a curiosidade, podemos então procurar a obra de algum autor que nos passou despercebido e ir acompanhando também as revistas literárias novas, a preços substancialmente mais adequados às nossas possibilidades. O endereço do blogue é:


http://revistasaportuguesa.blogspot.pt/

Presente antecipado

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Agora, que o Natal se aproxima, recebo, deliciada, um presente adiantado que é também um presente para os leitores das Horas Extraordinárias (em especial, para alguns dos seus comentadores mais prolixos e regulares). Daqui a uns meses ouvirão falar do autor da oferenda como escritor – estou certa –, pois é o autor de um dos romances finalistas do Prémio LeYa 2014 e dará que falar, até porque o seu livro é uma obra rara no panorama das letras portuguesas. Mas, antes disso, João Pinto-Coelho era (e continua a ser) arquitecto e, ao que descubro agora, também leitor assíduo deste blogue. Talvez por isso, foi acompanhando o que se passa nesta nossa sala de estar e identificando quem nela se senta e conversa todos os dias como se picasse o ponto. E vai daí resolveu dar-se ao trabalho de desenhar aquilo que podia ser um dia típico aqui no blogue, como se, em vez de falarmos virtualmente, falássemos ao vivo. O resultado é magnífico (vou emoldurar o original, claro). Não resisti, por isso mesmo, a partilhá-lo com os Extraordinários. Obrigada, João, pela sua boa ideia e pelo belíssimo trabalho. Já sabia, pelo livro, que tinha mão para as personagens, e agora só posso confirmá-lo. Para os ciumentos, que não se revejam aqui, esperem uns dias... E verão.


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Ler sempre

Durante doze anos, trabalhou em minha casa uma senhora que não sabia ler. Arranjávamos sempre forma de comunicar através de objectos, porque eu não lhe podia deixar um bilhetinho a pedir que me fizesse a cama de lavado ou me apanhasse a roupa do estendal; mas encontrávamos códigos em que nos entendíamos e tive pena quando ela deixou de poder ajudar-me porque éramos (ainda somos, porque a visito frequentemente) cúmplices e amigas. Ela confessou-me muitas vezes que teria adorado ir à escola e eu ofereci-me para lhe ensinar as letras, mas respondeu-me que, naquela idade, já não valia a pena. Pois leio um interessante artigo no Público, no qual se diz que a aprendizagem da leitura se pode fazer em todas as idades e que, seja em que idade for, ela melhora o desempenho visual dos novos leitores, permitindo-lhes até detectar diferenças entre objectos de qualquer género, e muito mais depressa do que acontece aos analfabetos. Ao que parece, quando aprendemos a ler, o nosso cérebro reorganiza-se e essa reorganização acontece independentemente da idade de quem está a aprender e da língua que fale. E a literacia, segundo os autores do artigo científico referido no jornal, tem como efeito imediato o aumento do rigor na discriminação de objectos semelhantes, por exemplo, ou a capacidade de reconhecer imagens num espelho – coisa, ao que consta, mais difícil para os iletrados. Já sabíamos que a leitura era boa para a saúde e a alma, mas para os olhos é mesmo uma novidade!

Mini-escritores

Às vezes, os professores de Língua Portuguesa do Ensino Básico dizem a um aluno ou aos pais que o menino ou a menina tem um inequívoco talento para a escrita. Nem todas as composições são originais e escritas com imaginação e primor – e é natural que, em cada turma, um ou outro aluno se destaque por escrever diferente e melhor. Também no seio das famílias, há por vezes um rapaz ou rapariga elogiado pela sua capacidade de escrita, mas como saber realmente se é apenas a afeição dos mais próximos a ver as coisas desse modo? Pois a verdade é que agora há uma boa bitola – e é de aproveitar o mês de Dezembro: a Associação Atrevida acaba de lançar um concurso literário para jovens lusófonos entre os 8 e os 14 anos. O tema é livre e os textos melhores serão publicados numa antologia, o que faz toda a diferença (os autores dos três melhores ainda receberão outros prémios: computadores portáteis e uma resma de livros). A associação lança o lema «Atreve-te a escrever» e declara não andar à procura de meninos-prodígio, mas tão-só querer estimular a escrita entre a miudagem, uma vez que as crianças não têm habitualmente um espaço para comunicar e partilhar as suas histórias. O projecto, que começou em Espanha em 2009, chegou a Portugal há três anos e foram já publicadas duas colectâneas: Ler É Bom, Escrever É Melhor e A Pátria É a Infância. Os elementos do júri deste ano ainda não estão definidos, mas em anos anteriores contaram-se entre os jurados os escritores Alice Vieira e Ondjaki, por exemplo, o director do Plano Nacional de Leitura e professores de vários níveis de ensino, além dos jovens vencedores das edições anteriores do concurso. Parece que costumam concorrer mais de 1000 textos originais, o que é um bom sinal. O regulamento pode ser consultado em http://www.culturaatrevida.com. E, se conhece jovens que queiram concorrer, avise-os de que vão ter concorrência à altura, pois o responsável pela iniciativa declara que as histórias até agora publicadas não são «histórias engraçadinhas», mas boa literatura, para crianças e adultos também.

Em Sintra

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Já aqui vos falei há tempos de um pequeno romance muito belo que é também uma homenagem à própria literatura e foi, em 2013, finalista do Prémio LeYa. Trata-se de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, de Antonio Tavares, e relata a infância e adolescência de um rapaz algo solitário nos anos 1960-1970, em Moçâmedes, Angola. Ao longo das suas páginas, acompanhamos o protagonista rodeado pelas fantásticas figuras do seu bairro, seja a belíssima Aninhas que não acaba bem, o Ivo que deixou de falar por causa de um coice, o Neca que é um traumatizado da Guerra Colonial e vive com uma senhora casada cujo marido está sempre ausente, a São modista, que ensina os números pela fita métrica, ou mesmo a Luísa, filha do sucateiro, que chupa limões e parece uma rapariga insensível e plana até descobrir o imenso encanto dos livros. Já apresentámos o romance na Figueira da Foz, onde reside o autor, com sala cheia, mas vamos fazê-lo de novo mais logo, em Sintra, com a colaboração de Miguel Real, que já escreveu sobre ele no Jornal de Letras. A sessão decorrerá com o apoio de Alagamares, que trata dos eventos culturais em Sintra, no Mu.sa – Museu das Artes de Sintra, às 18h00. Se quiserem aparecer, serão, claro, muito bem-vindos. Se não puderem ir, não deixem de ler.


 


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Palavrinhas

Hoje era dia de palavras e expressões em desuso, mas a verdade é que andei a vasculhar uma palavra só e é essa que trago para a vossa extraordinária leitura. Pois bem, trata-se de «antipático», uma qualidade que não chega a sê-lo e faz de quem a tem alguém longe de nós. A palavra «antipatia» deriva do grego «antpathéia», criada pelo prefixo «anti», que não vou explicar o que significa porque todos sabem, e por uma palavra que ainda hoje uso muito, «pathos»; ora este pathos (que falta a tanta coisa que leio diariamente no trabalho) utilizo-o eu como qualquer coisa capaz de gerar ou evocar emoções; mas li algures que este sentido mais lato só lhe é, efectivamente, atribuído desde Descartes, pois antes disso o pathos era o que estimulava uma emoção, sim, mas triste, sobretudo de pena e compaixão (e daí o «patético» que, ao contrário do que muitos julgam, não tem que ver com nada apatetado na acepção de tonto, mas com algo digno de pena – claro que os patetas são dignos dela também). O antipático é, assim, aquele que tem feição contrária à minha, que sente de maneira oposta, fazendo do simpático o que sente como eu (em inglês sympathetic é solidário) e do apático o que não sente, pura e simplesmente. Mas este pathos mais antigo, ligado ao sofrimento, é curiosamente também a raiz da palavra «patologia» que hoje associamos à doença. A doença é, pois, coisa triste, sofrida e digna de pena, o que, de resto, faz todo o sentido; e, em última análise, também um grande sofrimento moral pode tornar-se uma doença, o que, aliás, Freud já sabia muito antes desta época em que a depressão é frequentemente tratada com químicos, tal como a gripe ou a diabetes. Isto para dizer que, quando encontrarem alguém antipático, essa pessoa, mesmo que em sofrimento, não vos vai parecer digna de pena…

Reconhecimento tardio

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Peguei há dias num romance que foi publicado originalmente nos anos 1960, mas passou despercebido – ou não teve, pelo menos, o reconhecimento que merecia. Parece, no entanto, que há relativamente pouco tempo foi redescoberto e elogiado pela romancista francesa Anna Gavalda e que, desde então, tem sido traduzido em todo o lado e recebido os maiores encómios. Aliás, a sua capa está cheia deles, vindos de respeitabilíssimas personalidades do mundo das letras de várias gerações, desde Ruth Rendell a Breat Easton Ellis, passando por Julian Barnes ou Ian McEwan. Não é, de resto, estranho que McEwan afirme que não percebe como passou Stoner, de John Williams, praticamente incógnito tantos anos – embora se trate de um romance americano (e não sei dizer exactamente porquê, mas vê-se que é americano assim que se começa a ler), ele tem claros laços de afinidade com, por exemplo, A Praia de Chesil, do próprio McEwan. Mas, à parte a convergência, Stoner atravessa a vida de William Stoner, um rapaz do campo, criado por uma família trabalhadora e pouco afectuosa, que se torna, quase por artes mágicas, professor universitário de Literatura pouco depois da Primeira Guerra Mundial e se casa nos anos 1920 com uma estranha rapariga que, apesar de fria e capaz das mais inesperadas atitudes em relação ao marido e à filha, tem alguma coisa da histeria dramática que sobressai em O Monte dos Vendavais, o que é bom. Mas Stoner é um homem enfeitiçado pelo texto literário que, até certo ponto, constituirá sempre a sua salvação. Nem que fosse só por gostarmos também nós de literatura, já valeria a pena deitar a mão a este excelente romance. Mas ele é muito mais do que isso.


 


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Casos raros

A nossa literatura foi, ao longo de décadas, contida e envergonhada em matéria de sexo e corpo. Até recentemente, os nossos escritores eram incapazes de reproduzir por escrito uma cena de sexo com naturalidade, tornando às vezes ridículo e nada visual o que descreviam nos seus livros, ou simplesmente contando que aquilo se tinha passado, e pronto, estava dito que os protagonistas tinham tido relações sexuais. Já houve, aliás, quem fizesse um levantamento de «pérolas» literárias contemplando o relacionamento íntimo de personagens, trazendo à luz algumas metáforas bastante risíveis ou até de mau gosto. Lembro-me da lufada de ar fresco que foi para mim ler há muitos anos Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, que, talvez pela sua parte africana e quente, descrevia como ninguém uma cena de amor físico. Mas parece que, com a geração mais nova (que vive, e ainda bem, uma sexualidade mais descomprometida e sem tabus), a literatura ganhou nesse sentido, e agora fala-se muito do romance O Meu Amante de Domingo, da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho, vencedora com a sua obra anterior do Grande Prémio de Romance e Novela da APE. A protagonista, revisora de texto, resolve vingar-se de um homem que podia ter amado escrevendo um romance sobre um suposto amante, mecânico de profissão, com violência e até, ao que leio numa entrevista, palavrões... É caso raro e fico curiosa, não por causa do sexo, claro, mas por causa do que é novo na literatura portuguesa.

Inspiração e transpiração

Há quem defenda que, para escrever, tem de se estar inspirado – e que esta inspiração é claramente algo transcendente e externo ao escritor que nem sempre aparece. Sim, acredito que haja para cada pessoa um momento ou um tempo mental mais propício à escrita, embora não tenha a certeza de que as mãos sejam guiadas (como Lobo Antunes diz que lhe acontece) por qualquer força divina ou energia desconhecida. Por outro lado, alguns alegam que é tudo trabalho (transpiração versus respiração), mas conheço muitos pretensos escritores que são perseverantes e disciplinados e que, ainda assim, não produzem nada de notável. Michael Cunningham, o norte-americano que escreveu As Horas, esse belíssimo e premiado livro, esteve recentemente em Lisboa e diz que a única coisa que sabe é que não há regras para se escrever. Mas adianta que um escritor tem de estar em contacto com a escrita (seja do que for) todos os dias – vá lá, descansar ao domingo, quando muito. E contou que o truque é sentar-se à secretária e escrever a mesma frase uma dezena de vezes ou mais até parecer que não está assim tão mal. É verdade que é esta oficina que torna um mero escrevente um escritor, o problema é que há muita gente com pressa de acabar um livro e não se dá a «transpirações». Pior ainda se não tiver «inspiração», digo eu.

Russos gratuitos

Nunca fui a Moscovo, mas visitei Sampetersburgo no final dos anos 1990 e fiquei absolutamente rendida à beleza do metropolitano. Dizem-me que em Moscovo é igualmente bonito – se não mais – e, assim mesmo, é possível acrescentar-lhe beleza com palavras. Como? Uma ideia gira! As estações de metro vão em breve disponibilizar uma biblioteca virtual de autores clássicos da pátria: as obras de Tólstoy, Pushkin ou Chékhov, por exemplo, poderão ser descarregadas pelos vários milhões de passageiros que viajam diariamente no metropolitano de Moscovo. O projecto está pensado para, em pouco tempo, ser também estendido aos eléctricos e autocarros da cidade, e os moscovitas estão a ser encorajados a aconselhar outros títulos  além dos primeiros cem que farão parte da iniciativa. Não é a primeira vez que o metropolitano de Moscovo se torna plataforma cultural, tendo tido já pequenas galerias de arte montadas nas suas várias estações, num diálogo artístico com o público que nem sempre tem tempo para visitar exposições. Ventos bons da Rússia dos nossos dias. Para variar.

Herberto

Se nos perguntam lá fora sobre a poesia portuguesa, há um nome que nos vem aos lábios sem quase pensarmos: Herberto Helder. Se pedem que indiquemos o nome de um autor português que deveria ser proposto para um superprémio literário, dizemos logo Herberto Helder, embora sabendo que o recusaria (porque ele é mesmo assim). Herberto – como se lhe referem quase todos – pode ser um homem peculiar e difícil, mas julgo que se diverte muito a, de tempos a tempos, reformular a sua obra completa, oferecendo-nos um novo volume, que não é de modo nenhum o anterior acrescentado com o que escreveu entretanto, mas um livro do qual cortou o que quis que não voltássemos a ler e a que somou alguma coisa. Este gesto tem sido objecto de muita reflexão e crítica, mas tenho simpatia por um autor que decide sozinho sobre a própria obra e só permite que dela se leia o que, em determinado momento, lhe dá na gana (bem sei que tenho volumes anteriores da obra reunida e talvez por isso me sinta menos lesada do que muito boa gente). Isto para dizer que temos de novo uma antologia da poesia de Herberto Helder, desta vez com o título Poemas Completos. Um excelente livro cartonado de capa sóbria com 700 e tal páginas de poesia a não perder (e a guardar, pois pode desaparecer na próxima edição). Não sei qual foi a tiragem, nem se haverá uma espécie de caça doentia aos livros, mas lá que dava um bom presente de Natal, se chegasse até ao Natal, lá isso dava.

Esquecidos

A minha amiga Aldina Duarte, fadista de profissão, é além disso uma leitora astuta, curiosa e experiente. Também escreve bem – não apenas letras para os seus fados e os dos colegas, mas num blogue que alimenta regularmente e a que chamou A Porta Estreita (o endereço vai no fim deste post para quem tenha curiosidade e queira ir lá espreitar). Pois bem, a Aldina – que é uma admiradora dos grandes – resolveu dedicar as sextas-feiras do seu blogue a uma rubrica intitulada não por acaso «Estranho Fulgor» (o título de um poema de Pedro Homem de Mello), na qual fala de gente que, sendo ultra-talentosa em variadíssimas áreas (cinema, literatura, pintura, música...), não tem (ou não teve) o reconhecimento que efectivamente merecia. Entre estes nomes estão artistas como o pintor Alvarez (que só expôs individualmente uma vez em toda a vida) ou a grande escritora Maria Judite de Carvalho que, voluntariamente ou não, ficou certamente atrás do marido, Urbano Tavares Rodrigues, no reconhecimento e na consideração que lhe eram devidos. Uma boa ideia, digo eu, contemplar os esquecidos num post e numa rubrica independentes, acompanhando-os de belos textos e imagens, para todos podermos acabar melhor cada semana.


 


http://aldinaduarte.blogspot.pt/

A língua inglesa

Dizem que tivemos um Prémio Nobel da Literatura e que há-de passar uma eternidade até termos outro – mesmo que isso nada tenha que ver com o nível dos autores que estão vivos e a escrever no nosso cantinho; que as coisas são mesmo assim e que os países pequenos, como o nosso, só têm direito a um prémio internacional de peso muito de vez em quando. Pois um dia destes surpreendi um amigo ao dizer que a Irlanda, pequena e tudo, já tinha tido quatro Prémios Nobel da Literatura: o enorme (não estou a exagerar) William Buttler Yeats (para mim, um dos maiores poetas de sempre) em 1923, o dramaturgo George Bernard Shaw dois anos depois, Samuel Beckett em 1969 e Seamus Heaney em 1995. É bem certo que existiu um lapso de tempo bastante grande entre o segundo e o terceiro e entre o terceiro e o quarto – mesmo assim, a Irlanda pode dizer que já cá cantam 4 vencedores... País pequeno e tudo, a sua língua é o inglês – e talvez seja isso que a salvou de uma eventual falta de atenção internacional aos seus autores que, aliás, muitos não sabem realmente não serem ingleses. Há também quem diga que a Irlanda teria levado muito mais tempo a sair da crise se falasse outra língua. Será?

Literatura brasileira

Portugal e o Brasil fazem esforços para se manterem irmãos, mas as suas literaturas parecem-me francamente de costas voltadas. Embora muitos autores portugueses tenham os seus livros publicados do lado de lá do Atlântico, exceptuando aqueles que já são considerados consagrados ou os que se distinguiram em festivais nos quais a sua presença foi notada e aplaudida, a verdade é que estes se vendem muito pouco. E a situação inversa – os autores brasileiros cá publicados – também não tem grandes resultados, mesmo que se trate de autores interessantes como Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Bernardo de Carvalho, Paulo Lins ou Luiz Ruffato. Talvez as duas autoras que venceram o Prémio Literário José Saramago (Adriana Lisboa e Andréa del Fuego) tenham tido mais sorte; ainda assim, as suas obras não tiveram nem metade da exposição mediática que mereceram as dos seus congéneres portugueses (Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, José Luís Peixoto...). Não sei quando se deu a cisão, mas diz-me a minha mãe que, nos anos 1960, não era assim, e Jorge Amado era, de facto, tão amado lá como cá. Quando lemos os clássicos brasileiros, também não descortinamos qualquer diferença linguística em relação aos portugueses da mesma época – e aí pode ter residido o segredo do interesse mútuo ao longo de anos. Não será, pois, má ideia começar por aí e, nesse sentido, interessa dizer que a editora Glaciar, com a colaboração da Academia Brasileira de Letras, acaba de lançar em Portugal uma colecção de literatura brasileira de referência. Os primeiros quatro volumes dizem respeito à obra de Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Euclides da Cunha e Alfredo Bosi – numa edição luxuosa, mas indispensável a quem queira pôr-se em dia com o lado de lá.

O que ando a ler

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Com meia tarde livre num domingo de trabalho atrasado trazido para casa no fim-de-semana, lancei mão ao mais recente romance de Milan Kundera (na verdade é tão pequeno que lhe chamaria apenas uma novela ou coisa assim), A Festa da Insignificância, título, de resto, belíssimo. A letra gorda ajuda a que as páginas corram depressa sob os nossos olhos, e pareceu-me ideal para quem, como eu, tinha pouco tempo. Conheci, pois, com muito prazer um grupo de homens maduros – Alain (que gosta de miúdas novas), Ramon (que não tem paciência para filas), D’Ardelo (que mente sobre o cancro que não tem), Charles e Caliban (que organizam cocktails em empresas ou casas particulares, entre elas a de D’Ardelo). Quando se juntam (sem D’Ardelo, que não é um amigo, embora os conheça), contam divertidas histórias de Estaline (Kundera sabe do que fala), têm saudades das respectivas mães e conversam, claro, sobre a insignificância, que um deles defende ser a essência da vida e estar presente, mesmo que nos recusemos a vê-lo, nas instâncias mais dramáticas da existência. Um livro com imenso humor que fala de coisas muito sérias, este A Festa da Insignificância talvez não mereça a celebração de alguns livros mais notáveis do escritor checo, mas vale ainda assim a pena ser degustado, sobretudo pela inteligência com que nos apresenta a vida contemporânea (e às vezes realmente insignificante).


 


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Dia da livraria e do livreiro

No próximo domingo, dia 30, celebra-se o Dia da Livraria e do Livreiro. Ora, quem visita regularmente este blogue é porque gosta de livros, e quem gosta de livros gosta geralmente de livrarias (embora actualmente os possa comprar em outros sítios, incluindo bombas de gasolina e supermercados); se gosta de livrarias e as frequenta há muito, é natural que tenha conhecido livreiros interessados que, num dia especial, ou desde sempre, fizeram toda a diferença. Eu, por exemplo, recordo-me de, com os meus dezassete anos, ter conversas muito interessantes com um livreiro sobre alguns autores que andava a descobrir; e de, já a trabalhar na edição, conhecer outros que sabiam imenso de literatura universal e me ensinaram coisas que ignorava. E ainda hoje conheço livreiros fantásticos que sabem o que são e onde estão os livros que procuramos (e são inteiramente diferentes daqueles que têm conhecimentos informáticos e nos tentam ajudar, mas nem sempre conseguem por nem saberem digitar o nome do autor). Pois bem, hoje sugiro uma visita à livraria e a compra de um livro neste dia tão apropriado. Boas leituras!

Portugal lá fora

Leio numa revista de fim-de-semana que os nossos vinhos foram considerados recentemente dos melhores do mundo e que, em publicações estrangeiras, Lisboa e Porto são dos melhores destinos turísticos que encontrar se podem. Estamos em alta em muita coisa, para variar, e a nossa literatura, pelos vistos, também não deixa a desejar fora de portas. Em Março do ano que vem, num festival que dá pelo nome de «Iberian Suite: Arts Remix Across Continents», José Saramago vai ser homenageado em Washington, numa mostra do que se faz de bom (culturalmente) em Portugal e Espanha, no John F. Kennedy Center for Performing Arts. Mas o Nobel português é apenas uma pequena parte de um programa mais extenso, que incluirá uma evocação de Fernando Pessoa (até porque existem norte-americanos que lhe dedicaram vida e obra, como é o caso de Richard Zenith) através dos desenhos que o artista Vhils fará nas paredes do Kennedy Center a partir de páginas da obra do poeta e dos seus heterónimos. O festival prevê ainda a participação de escritores vivos como Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso e Gonçalo M. Tavares. Boas notícias para quem às vezes sente que a cultura portuguesa não tem o reconhecimento que merece.

Um editor com pronúncia inglesa

Em Portugal, onde não existe muita tradição de editing (ao contrário do que se passa no mundo literário anglo-saxónico), fundem-se frequentemente na mesma pessoa as funções de publisher e editor. Este último é, porém, alguém que «fixa» o texto, o corrige, anota, sugere alterações, e não apenas o que selecciona os títulos para publicação (e que às vezes nem os lê). Passei os olhos por um interessante artigo sobre a matéria, escrito por um editor (à inglesa) experimentado, que teve de servir de anjo-da-guarda e psicólogo a autores que tinham perdido o amor-próprio e a fé no que escreviam com outros editors, ao que parece sem as necessárias qualificações para a função e que, entre outras coisas, tinham pura e simplesmente ignorado que eles tinham um estilo... Pois bem, o artigo refere, afinal, quem deve e não deve ser editor, e num título destacado descubro, afinal, o principal: O livro é seu, não meu. Mas leio também que um bom profissional de editing deve ter uma obsessão pela gramática e corrigir a par e passo a ortografia e a pontuação, e que ajuda muito tratar-se de um leitor voraz com empatia pela escrita (pode ser um jornalista, um blogger, ou até um escritor). O bom senso parece também fundamental, bem como a capacidade de se exprimir com objectividade e poder de síntese; deve saber sempre manter a voz do autor e nunca deixar a sua própria pegada no texto; ter olho para o detalhe e ser especialmente sensível às inconsistências; e, por fim, ser brutalmente honesto sem nunca perder o respeito pela obra e o autor com quem está a lidar. Gostei destas dicas e concordei com todas. Segui-las-ei no meu trabalho (se é que não as sigo já).

Jogo de palavras

Como em tudo na vida, é preciso saber onde aperta o sapato, mas parece que tomei o gosto a estas brincadeiras, e hoje permito-me explorar o vestuário na língua portuguesa, que é tudo menos um espartilho – na verdade dá pano para mangas – quando uma pessoa percebe como descalçar a bota. Pois bem, agora que andamos todos de tanga, que fazem de nós gato-sapato e não temos outro remédio senão apertar o cinto no último furo, há por aí uns senhores que cometem crimes de colarinho branco a quem nada de grave acontece: o pé-de-meia que têm chega-lhes para o resto da vida – e isso é uma pedra no nosso sapato. Mas de nada serve cortarmos-lhes na casaca, porque, mesmo metidos numa camisa de onze varas ou num colete-de-forças, é provável que não sejam sequer julgados (ou que alguém tenha recebido luvas para os safar, sei lá, ajudando-os a sacudir a água do capote). Nós, pelo contrário, que não enfiamos a carapuça por pecadilhos deste teor, andamos todos de calças na mão, quando não a apanhar bonés, e vemo-nos todos os dias obrigados a arregaçar as mangas para nos sustentarmos se não queremos bater a bota cedo demais. Se perguntam se acho isto justo, pois dir-vos-ei que essa é quase uma pergunta de algibeira, obviamente não bate a bota com a perdigota ver um criminoso ser tratado com punhos de renda ou luva branca (mesmo sendo eu bota-de-elástico); mas infelizmente há por aí muito lambe-botas a quem a corrupção assenta como uma luva e que, depois de uma boa combinação, é capaz de pregar barretes à direita e à esquerda em defesa destes senhores (senhores, qual carapuça!); alguns até viraram a casaca e agora vestem a camisola por eles, conseguindo meter em seu lugar na cadeia apenas um dos seus mangas-de-alpaca, num golpe de se lhes tirar o chapéu. Enfim, não podendo eu dar-lhes as mil sapatadas que merecem, resta-me ir ler um livro de bolso para me distrair destas ignomínias; quem não goste de ler pode também dançar sapateado, ou apanhar uma touca para se alienar, ou perseguir o primeiro rabo de saias que encontrar, retirar-lhe o cinto de castidade e... divertir-se, em suma (usando camisa de vénus, claro). Bem, isto hoje ia dando bota... Mas, se não gostaram, olhem, chapéu!


 


P.S. Escrevi este post há mais de uma semana, na verdade, e parece irónico que ele seja publicado hoje. Contudo, quero dizer que estava a pensar nos «banqueiros» quando o escrevi.

Irmãos diferentes

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Este ano, foram tantas as indagações e pedidos, por parte de livreiros e leitores, que – ao contrário do que tem acontecido – o livro vencedor do Prémio LeYa em 2014 é posto à venda no mesmo ano em que foi atribuído (e parece que esta vai ser a tendência a partir de agora). Chama-se O Meu Irmão o romance acabadinho de sair e escreveu-o o jovem Afonso Reis Cabral, um nado em Lisboa que se criou no Porto e só regressou à capital quando chegou a hora de estudar Literatura. É um romance invulgarmente maduro – quer em termos da escrita, muito segura, quer em termos do enredo, impiedoso – para um autor que conta apenas 24 anos; e disse-me um membro do júri que a notícia deixou toda a gente admirada na hora de abrir o envelope, pois esperavam um autor com 40 e tal, 50 anos, a idade, aliás, do narrador. Narrador que acompanha o irmão deficiente, portador de síndrome de Down, numas curtas férias no interior desertificado de Portugal, onde os pais – ambos falecidos – compraram em tempos uma pequena casa. É lá que se rememora a vida em comum dos dois irmãos, desde a cumplicidade que partilharam na infância (têm apenas um ano de diferença) até ao episódio estranho e algo violento que desencadeia uma possível ruptura no seu relacionamento. Sem sentimentalismos de qualquer natureza, este é um texto que trata o tema sensível da deficiência, mas também o dos afectos perdidos e o da crueza de um certo Portugal que está a morrer. Aconselho vivamente a sua leitura.


 


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Museu do Pão

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Quando ouço falar de dietas – impostas por razões de saúde ou por imperativos de beleza –, pergunto-me muitas vezes de que alimentos facilmente abdicaria. Não sou um bom garfo, confesso, tão-pouco gulosa (os chocolates em minha casa duram séculos), pelo que, na verdade, acho que sofreria menos com restrições alimentares do que a maioria. E, contudo, há duas coisas que me custaria muito deixar de comer: uma são batatas fritas caseiras aos palitos (fininhos de preferência) e a outra essa suprema maravilha que é pão com manteiga. Um amigo diz que gostaria de ser padeiro, pois mesmo em tempo de guerra teria clientes... E o pão é, sem dúvida alguma, o alimento-base de muitos países – razão certamente por que em Portugal se usa na expressão «ganha-pão». Ora, para quem não sabe, existe em Seia um fantástico Museu do Pão, com quase tudo o que há para saber sobre a sua confecção, os seus cereais, a sua introdução nos hábitos alimentares humanos um pouco por toda a parte há muitos séculos. E digo «quase» porque o resto está no delicioso livro que vamos apresentar amanhã no dito museu, Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber, de Paulo Moreiras. Se estiver nessas terras frias ou lá perto, venha sentir o calor de um forno e fazer-nos companhia.


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Trabalhar e escrever

Hoje muitos escritores (sobretudo lá fora) são profissionais da escrita e vivem disso a tempo inteiro (a alguns pagam-lhes avanços chorudos sobre os direitos dos seus próximos livros, quantias que julgaríamos impensáveis fora do universo de Hollywood); mas nem sempre foi assim e, ao longo de séculos, os escritores tiveram profissões que frequentemente nada tinham que ver com o gosto pela escrita, podendo apenas exercitar a pluma nos tempos livres. Mas não seriam essas experiências laborais de algum modo enriquecedoras para a literatura dos próprios? Ou seja: teria escrito Melville o famoso Moby Dick se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, ou Dickens descrito tão magnificamente as crianças e os jovens da classe operária se não tivesse ele mesmo trabalhado numa fábrica logo aos seis anos de idade? Pessoa, já se sabe, era empregado num escritório bastante desinteressante, tal como Kafka era administrativo numa companhia de seguros; pode pensar-se que nada disto inspirava ambos, mas não teria sido o tédio destes lugares a desenvolver a veia criativa de ambos? Leio que Nabokov, quando se mudou para os EUA, era o curador de uma colecção de borboletas num museu universitário e que escreveu vários textos sobre borboletas e traças (a borboleta pode ser uma metáfora de Lolita, de resto). E Jack Kerouac lavou pratos – uma excelente iniciação para quem anda Pela Estrada Fora e tem de ganhar dinheiro rápido para alimentar os custos da viagem. Em suma, ter uma profissão «ao lado» será uma frustração ou um motor da criatividade?

Balanço egoísta

Quando olho para trás, tenho a tentação de dizer que este foi o ano das selfies. A palavra entrou no nosso vocabulário à velocidade da luz e, suponho, já não sairá. Todos os famosos fizeram selfies, mesmo na cerimónia dos Óscares, e a moda pegou de tal maneira que dei comigo a perguntar se não é mais um sintoma da falta de atenção que damos ao outro e da egolatria da actualidade. Até porque descubro uma notícia de arrepiar os cabelos sobre uma holandesa que inventou um brinquedo para bebés de berço que, quando estes lhe tocam, lhes permite tirar selfies ou filmar pequenos vídeos que são automaticamente reproduzidos nas redes sociais. O New Born Fame – assim se chama a coisa – foi desenvolvido por uma holandesa, está disfarçado de peluche, mas é na verdade um brinquedo tecnológico com a forma do logo do Facebook e do passarinho do Twitter (ai, meus Deus!). Parece que 62 por cento das mães de crianças menores de três anos têm conta no Facebook e que, dessas, mais de 90 por cento publicam as fotografias dos seus rebentos; mesmo assim, parece-me uma tolice de todo o tamanho esta forma de captar imagens e ainda mais tolo meter a fama no nome do brinquedo. Enfim, não quero ser bota-de-elástico, mas às vezes penso que o mundo está mesmo perdido.

O filho pródigo

Há dois anos, João Rebocho Pais foi nomeado para o Prémio Mais Alentejo com o livro O Intrínseco de Manolo, cuja acção decorria em Cousa Vã, aldeia alentejana da Raia; o prémio foi instituído pela revista com o mesmo nome, que atribui anualmente galardões em muitas áreas da cultura e da cidadania e organiza uma gala com direito a roupa chique e apresentadores da televisão, bem como uma assistência cheia de ilustres (incluindo alguns políticos de renome). O livro não ganhou e tanto eu como o autor apanhámos uma chuvada em Évora de que nunca mais nos esqueceremos. Arrumei o assunto, mas eis que este ano a história se repetiu e foram nomeados quatro autores meus (Cristina Drios, Gabriela Ruivo Trindade, Carlos Campaniço e de novo João Rebocho Pais – em suma, não conheço as pessoas que escolhem os nomeados, mas tinha quatro finalistas em cinco, o que me pareceu simpático da parte deles). Não participei da gala, que decorreu em Beja no fim do mês de Outubro, mas devia ter ido porque arrecadou o prémio o livro Mal Nascer que, nunca referindo o local da acção, parece aos olhos de todos passar-se no Alentejo, donde o autor é oriundo. No fundo, acho que foi bonito a revista não se esquecer dos filhos da região (e, como o Carlos Campaniço mora no Algarve, foi um regresso a casa) e mando daqui os parabéns ao premiado.

Em desuso

Estamos, mais coisa menos coisa, a meio do mês – e prometi brindar-vos todos os meses com um post sobre palavras e expressões que estão a cair em desuso para que se sirvam delas e não as deixem morrer. Devo dizer que tive de suar as estopinhas para trazer aqui coisas que façam mesmo saudades (isto porque, no mês passado, uma leitora deste blogue que conheci no Museu do Fado disse-me que ainda usava todas as expressões que aqui postei – e era bastante jovem; Que topete!, diria a minha avó). Resolvi por causa das tosses cavar então mais fundo (apetecia-me dizer que tive de porfiar, mas se calhar ainda toda a gente usa este verbo). Assim, lembrei-me da palavra rajado (que quer dizer às riscas, conheciam esta?), de entanguido (tolhido de frio), de dadivoso (generoso), de sacripanta (sacrista também está a desaparecer) e de bonifrates (pessoa com um ar ridículo). Descobri também que os mais novos não têm ideia nenhuma do que é flostria (folgança), empáfia (soberba) ou frioleira (insignificância, mas também podia ser bagatela, outra palavrinha curiosamente esquecida das conversas) e que provavelmente já não vão dizer que comeram à tripa-forra, ou andaram de carro na bisga, ou fizeram uma coisa a trouxe-mouxe (de qualquer maneira). Em completa extinção está a expressão a sério, porque infelizmente já miúdos e graúdos dizem à séria, o que é um disparate pegado. E com esta me vou, para o mês que vem há mais.

Guerras de palavras

Deixei passar duas semanas desde o post «Parentescos» – e pode até parecer que quis pensar no assunto (o que não é inteiramente falso) mas, por acaso, não foi só isso. A verdade é que tive um problema com o meu computador profissional durante vários dias e, sempre que punha o endereço do Horas Extraordinárias, aparecia-me um post antigo e, quando a coisa se parecia ter resolvido, o post era o do dia, mas os comentários estavam escondidos. Só quando chegava a casa podia lê-los, mas nessa altura estava demasiado cansada para me meter ao barulho e sabia que provavelmente também os autores dos comentários já não regressariam ao blogue àquela hora. Mas fiquei a matutar em algumas coisas, achando que mereciam, apesar de tudo, uma achega. Então, aqui vai:


 



  1. Os concorrentes ao Prémio LeYa fazem-no sob pseudónimo. Abre-se apenas o envelope do premiado (depois de o júri decidir qual o original vencedor, vai buscar-se o envelope correspondente). A escolha é, portanto, cega. Basta, de resto, o número de escritores desconhecidos que o têm ganho para o comprovar. Depois de aberto o envelope, o presidente do júri, Manuel Alegre, telefona ao vencedor e dá-lhe a boa notícia. Suponho, embora nunca tenha assistido, que conversem ambos uns minutos e que desta conversa surjam elementos curiosos, engraçados ou mesmo dramáticos. A seguir é feita a divulgação oficial, com a presença da comunicação social, que faz perguntas aos jurados sobre a obra e sobre o vencedor. Os jurados respondem. (O tratamento dessa informação é da exclusiva responsabilidade de quem o veicula.) Posteriormente, é publicada a lista de obras finalistas (com o respectivo pseudónimo) no sítio da LeYa. Os finalistas normalmente acusam-se, até para saberem se o seu livro vai também ser publicado (nem sempre é). Todos os restantes originais e envelopes vão para o lixo (não muito depois, porque ocupam quase uma sala inteira e essa sala é precisa). Concordo que os livros vencedores devem valer pelo seu conteúdo, e não por qualquer circunstância relativa ao autor (refiro-me aos comentários sobre o «desempregado» ou «o trineto de Eça»), até porque, quando o júri os escolheu, não sabia se os seus vencedores estavam empregados nem de que família eram. Porém, se a informação veiculada sublinha pormenores irrelevantes, parece-me que é porque não pode falar do que importa – o livro – uma vez que este ainda não foi publicado.

  2. Quanto à minha condição de editora e aos meus autores, coisa que lançou muito azedume entre defensores e atacantes, quero explicar que nunca me achei uma editora de excelência (se o fosse, acertaria sempre – e falho muita vez); que tenho um enorme carinho pelos meus autores e admiro o seu talento, mas que há muitos escritores que não são «autores da Rosário» de que gosto e que considero tão ou mais talentosos do que os meus; que ser «autor da Rosário» é, segundo se leu nos comentários, um pau de dois bicos e, portanto, não necessariamente vantajoso (às vezes os autores que publico apanham por tabela); que, ao contrário do que aqui se escreveu, os meus autores também não são «os mais populares» (a grande maioria, pelo menos, embora alguns autores de quem publiquei os primeiros livros sejam hoje muito populares), até porque normalmente só se é popular ao fim de várias obras, prémios, distinções, etc.

  3. Quanto a este blogue, nunca o anunciei como literário (o prémio que me deram não é da minha responsabilidade e, antes de mim, foi ganho por outros blogues igualmente não literários; talvez seja o nome do prémio, enfim, o que está errado), mas um espaço para falar de livros e de coisas a eles ligadas (como a edição).Se falo mais dos livros que publico do que dos de outras editoras, é também porque as minhas horas extraordinárias são poucas para ler outras coisas além das do trabalho; mas basta ir ao arquivo para ver que já falei de muitos livros que não são da LeYa, omitindo apenas aqueles de que não gostei, porque me parece pouco ético falar mal de livros da concorrência e, por outro lado, o objectivo deste blogue é partilhar horas extraordinárias, e não horas más (aliás, também nunca refiro livros da LeYa de autores de que não gosto, só faço «publicidade» àquilo de que gosto).

  4. Por último: neste blogue há espaço para todos os que quiserem vir, gostem de mim ou não, mas não é preciso – diria eu – insultar ninguém nem perder as estribeiras. Nunca limpo os comentários contra mim, já aqui o escrevi uma vez, mas limpo os que considero demasiado ofensivos para algum comentador, e tive de eliminar um no post que gerou esta minha explicação, porque era mesmo reles.


 


Obrigada, em todo o caso, por me darem assunto para um post (nem sempre tenho ideias boas). E já me alonguei tanto que hoje me vou dispensar de responder a comentários. Até segunda e bom fim-de-semana.

Ler e sobreviver

Sabe quem lê que a leitura só traz benefícios, até porque aprender é maravilhoso. O que não é fácil é convencer disso quem diz que não gosta de ler e quem nunca experimentou porque lhe cheira que implica esforço e trabalho e não acredita na recompensa. Faz-se de tudo pelo mundo fora – e desta feita o Canadá montou uma campanha nacional em colaboração com a CBS Books para mostrar que a leitura traz saúde. Construído um gráfico atraente que foi colado por tudo quanto é sítio, nele podemos ver que quem tem hábitos de leitura goza claramente de melhor saúde física e mental, além de provocar mais facilmente empatia nos outros; que bastam seis minutos de leitura atenta para reduzir o stress em 60%, diminuir a tensão muscular e acalmar os batimentos cardíacos; que, para acabar com o stress, a leitura é de facto muito superior a tomar um chá, ouvir música e, principalmente, jogar videojogos. Enfim, além de que ler um livro de que gostamos é uma sensação de deslumbramento incomparável e que saber mais dá muitíssimo gozo (e a felicidade dá saúde também). Agora, quando vejo gente muito mal-encarada, pergunto-me logo se serão não-leitores... O cartaz, se quiserem ver, está no seguinte link:


 


http://www.teleread.com/reading-2/canadas-national-reading-campaign-shows-reading-good-body/

Mania de escritor

A minha avó costumava dizer que cada maluco tem a sua mania. Pois bem, não querendo chamar malucos aos escritores, leio num blogue que vários autores tinham idiossincrasias e que a escrita de um livro obedecia a uns quantos tiques. Nabokov, por exemplo, escrevia com lápis (o que não o fez apagar cenas que nos EUA foram consideradas chocantes – Lolita foi publicado originalmente em França), objecto usado igualmente por Hemingway que só depois do primeiro rascunho passava à máquina de escrever. O lápis era também a ferramenta de escrita de Steinbeck, que trabalhava com caixas de 24 lápis e terá, ao que parece, gasto 300 lápis para concluir A leste do Paraíso. Entre os aficionados da tinta permanente estão Simone de Beauvoir, Dylan Thomas ou o escritor de livros de terror Stephen King – que usa desde sempre um modelo da marca Waterman. Dickens preferiu a cor preta até 1840, após o que passou a escrever a azul. Mark Twain fabricava os seus próprios blocos, enquanto Jack Kerouac tendia a escrever em cadernos escolares. Cormac McCarthy era um adorador da máquina de escrever Olivetti, e o seu último exemplar (imagino que se tenha rendido aos computadores) foi leiloado por mais de 250 000 dólares! Eu só escrevo a preto e aprecio muito as macias Uni-Ball Eye; além disso, tenho sempre um daqueles minicadernos na mala para ir apontando coisas de que me vou lembrando. Qual é a sua mania?

Com o rei na barriga

Nesta profissão que escolhi – e que, em boa parte, está ligada ao talento alheio – encontrei pessoas de todos os géneros e feitios. Com algumas, foi muito fácil trabalhar – e nem se pode dizer que eram mais humildes (não, o ego estava lá), mas eram seguramente mais abertas e inteligentes; noutros casos, o trabalho foi sempre acidentado, com curvas apertadas e lombas permanentes, obrigando frequentemente a frustração, cedência e, uma vez ou outra, mau génio ou tristeza da minha parte. Aqui e ali, sobressaiu um desejo cego de se ser admirado pelo público, não um desejo normal que deve ser comum a todos os criadores, mas uma vontade quase doentia de reconhecimento (poucas vezes, claro, mas inesquecíveis). Eu, que sou principalmente leitora, nunca me prestei muita atenção como escritora. Claro que me magoo com certas reacções, mas sou, acho eu, bastante discreta quanto à minha obra (há até quem diga que não a levo a sério, mas não é verdade). A minha mãe, por exemplo, ofende-se quando não a previno de uma entrevista que fui dar à televisão, entrevista essa que apanhou por acaso e já a meio. Pois há uns dias, num desses momentos em que estava irritada com alguma coisa e não me conseguia concentrar em mais nada, pus-me a jogar uma daquelas paciências com cartas de jogar no computador e, quando terminei o primeiro jogo, saltou um quadrado a meio do ecrã a dar-me os parabéns por ter cumprido, a dizer-me qual era a minha pontuação e a oferecer-me uma estranha possibilidade: Tell friends. Contar aos amigos que fiz uma paciência? Para quê? E de repente lembrei-me de algumas pessoas que no passado se cruzaram comigo nesta profissão e que dariam tudo para «tell friends» qualquer merdilhice de que fossem capazes... Enfim, cada um é como cada qual.

A várias mãos

No tempo do surrealismo, inventou-se em França uma espécie de jogo literário que, apesar da tradução defeituosa (exquis quer dizer de sabor refinado, requintado, e não esquisito), ficou conhecido entre nós como «cadáver esquisito». Um poeta escrevia um verso numa folha de papel, dobrava-a, escondendo o texto, e passava a outro, que fazia o mesmo; no fim, tinham um poema colectivo (e certamente surrealista). Por cá, tivemos experiências baseadas neste princípio do texto a várias mãos, mas com o texto à vista, e lembro-me por exemplo de Alice Vieira, João Aguiar, Leonor Xavier e Rosa Lobato Faria terem participado num livro intitulado Treze Gotas ao Deitar (não me recordo dos outros autores) que, na verdade, era uma só história com cada capítulo escrito por seu autor. Mas parece que agora quinze escritores internacionais de renome foram desafiados a, e aceitaram, brincar ao cadáver esquisito, escrevendo uma pequena história comum. Entre eles encontramos autores mais literários, como Zadie Smith (conhecida sobretudo por Dentes Brancos ou Uma Questão de Beleza) ou Nicholson Baker (um escritor muitíssimo «fora do baralho» que escreveu, entre outros, um livro muito original cuja acção decorre enquanto um pai dá um biberão à filha, Room Temperature) e autores de ficção mais comercial, como David Baldacci (um inventor de thrillers) ou R. L. Stine (o popular criador da série juvenil Rua do Medo, não sei se se recordam, que entrou para o Guinness por ter vendido mais de 400 milhões de exemplares de obras suas). Não consigo imaginar o resultado que isto vai dar, mas tinha alguma piada fazer uma coisa parecida com portugueses que estivessem para aí virados.

Um pecado em Sines

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Nesta altura do ano, todo o tempo é pouco. Há muitos livros que têm de estar prontos para o Natal, há que ler as obras finalistas do Prémio LeYa para ver se precisam de alindamentos para serem publicadas, preparam-se os primeiros livros do ano que vem já a pensar na maravilha das Correntes d’Escritas e multiplicam-se sessões de apresentação pelo País fora de quantas obras foram publicadas em 2014. Pois bem, embora eu não me costume mexer ao sábado para nada disto (na verdade, é quando tenho mais tempo livre para me dedicar ao presente blogue e reunir ideias para vários posts), também é bom dizer que a ocasião justificava o «sacrifício» por mais de um motivo. O primeiro é, evidentemente, o facto de a respectiva sessão ser organizada pelo grande Joaquim Gonçalves, não só um dos mais resistentes e lidos livreiros nacionais, mas aquele que arrecadou o prémio nacional do melhor atendimento aos clientes. Como recusar, pois, a viagem até Sines para o bonito convívio na livraria A das Artes, que sempre expõe na montra os livros que publico de autores mais jovens e menos conhecidos, mas que o Joaquim procura ler sempre para estar em dia com o que se vai fazendo literariamente em português? E, depois, o segundo motivo era também de peso: o autor em visita era desta feita o Norberto Morais, que ali vai falar amanhã de O Pecado de Porto Negro, um dos finalistas do Prémio LeYa em 2013, que tem vindo a conquistar cada vez mais leitores entusiásticos – e com quem eu ainda não tinha, realmente, ido a lado nenhum. Assim, amanhã lá partiremos direitinhos a Sines para pecarmos por lá durante a tarde. Tenho a certeza de que seremos muito bem atendidos pelo Joaquim e não sofreremos qualquer penitência. Se está por aquelas bandas, venha também.


 


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Prémio merecido

Ana Margarida de Carvalho acaba de vencer o Grande Prémio Literário de Romance e Novela da APE com o romance Que Importa a Fúria do Mar. Fiquei muito feliz. Parabéns à escritora.

Histórias de comer e beber

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Já vos falei aqui ao de leve no novo livro de Paulo Moreiras, um autor que tem feito tudo e mais alguma coisa para dar expressão – e literária, claro – a algumas coisas que constroem a alma portuguesa e que estão pouco estudadas a todos os níveis. Já publiquei há uns anos uma obra do Paulo Moreiras sobre a ginjinha – e não lhe faltavam palavras sobre ela, o problema foi doseá-las, ou nunca mais acabava o livro. Mas há muitos outros produtos portugueses fascinantes que fazem parte da identidade nacional, mesmo que existam por esse mundo fora. É agora o caso do pão e do vinho, reunidos num notável volume chamado Pão & Vinho, que será esta tarde apresentado na Livraria Barata, pela jornalista e pessoa de bom gosto Helena Vasconcelos. Adivinhas, superstições, anedotas, excertos de obras literárias, curiosidades e até receitas, teremos certamente para nos deliciarem muitas histórias de comer e beber, como só Paulo Moreiras sabe contar. Apareça e será muito bem-vindo.


 


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Tudo sobre a literatura americana

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Se quer saber quase tudo sobre a literatura norte-americana, a partir do próximo dia 10 já tem como fazê-lo. À semelhança de outros anos, estão abertas as inscrições para um conjunto de sessões teórico-práticas que dão pelo nome genérico de Asas sobre a América (Ler Mais, Escrever Melhor), dedicadas a dois módulos distintos, cada um com dez sessões de 150 minutos. O primeiro abarca os Clássicos e contempla autores de poesia e prosa, como Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Emily Dickinson, Ezra Pound, Raymond Chandler, Faulkner e Philip Roth; já o segundo vai tratar de autores contemporâneos, entre eles Lydia Davis, Cormac McCarthy, Don Delillo, Jonathan Franzen e David Foster Wallace. O método inclui dois tempos, um para ouvir falar dos autores e do seu universo literário, o outro para fazer exercícios de escrita criativa, desenvolvendo o potencial dos participantes a partir da relação estabelecida com o autor e as obras anteriormente abordados com a orientadora, a jornalista e escritora Filipa Melo. As sessões têm lugar em horário pós-laboral para facilitar as coisas. Se está interessado, os dados para a inscrição vão abaixo.


 


Valor de inscrição (por módulo): 70€


Inscrições através do email asasamerica@gmail.com ou pelo telefone 21.3935800


Local:


Auditório da FLAD, Rua do Sacramento à Lapa, 21, Lisboa


Módulo I: Segunda-feira, das 18h às 20h30 - 10/11/2014 a 26/01/2015


Módulo II: Quarta-feira, das 18h às 20h30 - 12/11/2014 a 28/01/2014


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Encontro a norte

Li algures, não há muito tempo, que o facto de as livrarias tradicionais não terem aguentado o embate da indústria do livro e de terem, por isso, desaparecido muitos livreiros autênticos, em suma, os que sabiam, mudou claramente a forma de ler em Portugal e o nível e qualidade do que é lido. Perdidos entre capas às cores, com computadores substituindo pessoas conhecedoras da matéria, como poderão os leitores escolher bem e saber o que compram? Isso vicia naturalmente quem até podia ser um excelente leitor e acaba ganhando apego a coisas sem importância. Mas é bom saber que há livreiros que resistem e que sonham algo diferente da mediania. Eles reúnem-se habitualmente todos os anos em Setúbal, naquele que é conhecido por Encontro Livreiro, para premiar quem merece e discutir o futuro com os colegas de profissão. Este ano, porém, esta reunião acontecerá também no Porto, na tarde do próximo dia 23 de Novembro, em cenário indiscutivelmente bonito: a Livraria Lello, uma das mais belas livrarias de todo o mundo. É ali que se falará de tudo o que diz respeito ao livro e à sua comercialização, em lojas ou feiras, porque, como eles dizem, «Isto não fica assim!». Se quiser participar, consulte a página do Encontro Livreiro no Facebook ou o blogue deste movimento. Leve as suas ideias, se forem boas, e ouça as dos outros, dos que sabem.


 


https://www.facebook.com/pages/Encontro-Livreiro/196721297018707


 


http://encontrolivreiro.blogspot.pt/

O que ando a ler

Ando a ler quase apaixonada, com muito medo de que chegue ao fim, o mais recente romance de José Luis Peixoto, de seu nome Galveias, que é, aliás, a terra natal do autor. Razão de sobra para que ele saiba do que fala, evidentemente, razão de sobra para que queira homenageá-la nas páginas deste seu romance maduro e fulgurante. Personagens verdadeiramente únicas – desde o Miau, o deficiente que cresceu e continua sendo um menino, até aos motoqueiros enamorados dos seus veículos, as putas que também são padeiras, o carteiro com segredos em África, a professora do Douro que diz palavrões ao lado da freira e, claro, os cães, que aqui desempenham papéis de luxo, quase de gente. Todos estes e mais alguns assistem, com comoção e de roupa interior, à coisa sem nome que atravessa a vila numa noite e faz chover um dilúvio, abre cratera grande e torna o sabor do pão sulfuroso a partir de então. Mas se calhar Galveias já estava carregada de infernos, porque cada um tem as suas trevas particulares, quase sempre mais escuras do que as do vizinho, mas lindas lindas na mão do escritor que atingiu aqui a maioridade. Por muito que alguns se irritem com o seu sucesso (a carne é fraca) ou, mais estúpido ainda, com piercings e tatuagens braços abaixo, por favor não vão atrás de cantigas de maldizer, Galveias é seguramente um dos melhores romances do ano, um caso sério na literatura portuguesa. Para vosso benefício, não o percam. Eu só tenho pena de que chegue ao fim.

Cortes na educação

Já não me devia admirar com cortes e mais cortes que este Governo tem levado a cabo em todas as áreas. Embora não seja seguramente das pessoas mais afectadas com eles, também os senti – e tenho, sobretudo, olhos na cara para ver o que se passa à minha volta, principalmente com os mais desprotegidos. Apesar de tudo, quando o orçamento de 2015 foi anunciado, não queria acreditar que a educação tivesse sofrido um corte tão drástico (depois dos inexplicáveis cortes nas universidades, que deixaram de ter dinheiro para quase tudo, e das bolsas de investigação que se evaporaram, foi simplesmente demais). Na verdade, era em cultura e educação que devíamos investir pois sem ambas nunca chegaremos a lado nenhum (e às vezes sinto que, com a emigração de tantos licenciados bem preparados, que nunca mais voltarão a Portugal, sobrarão apenas os mal preparados e os ignorantes, o que dá, aliás, muito jeito a quem manda para lhes cair em cima e não haver reacção). A diminuição na venda de livros recentemente divulgada por um estudo universitário exaustivo sobre a matéria tem certamente já que ver com isto: a escola não está a saber criar hábitos de leitura. Os condicionamentos são cada vez maiores: crianças que andam todos os dias quilómetros de autocarro porque fecharam as escolas da sua área de residência, professores que são colocados a milhas de casa e que não têm motivação nenhuma para ensinar. Isso explica talvez porque em 2014 concorreram mais pessoas à Casa dos Segredos do que à universidade. Não, não é o País que temos; é o País que querem que tenhamos.

Coca-bichinhos

Quando a minha avó materna morreu, eu tinha oito anos e o último presente que recebi dela foi um livro ilustrado chamado A Menina Coca-Bichinhos. Durante o Verão, o meu irmão Jorge e eu brincávamos bastante com a bicharada (seguindo carreiros de formigas e observando ninhos de lagartixas) e, talvez por isso, o livro parecesse tão apropriado. Pois resolvi aceitar o desafio lançado por essa recordação e buscar no dicionário, à semelhança do que aqui fiz já com aves e vegetais, expressões construídas a partir de bichos mais pequenos. O Manel até disse que eu estava com bicho-carpinteiro, de tal maneira andava sempre a levantar-me para ir apontar mais um termo que me ocorria. Eu prefiro dizer que parecia um mosquito eléctrico, o que é, de qualquer maneira, bem melhor do que ser uma mosca morta ou uma barata tonta... Mas, para que conste, há também quem queira ser mosca, ou mosquinha, para poder estar onde não está e ouvir o que por lá se diz (quem esteja em pulgas para saber o que se passa); e quem perca a vergonha ao perguntar sistematicamente o que não é da sua conta e receba o epíteto de abelhudo (e o interpelado há-de queixar-se da perseguição com um «que melga!» ou mesmo «uma autêntica carraça!»). Quem anda desconfiado de alguém e com a pulga atrás da orelha pode também sentir um formigueiro avisador. Os que exigem dinheiro por tudo e por nada são verdadeiras sanguessugas. Os molengas são lesmas. A um garoto armado em adulto, diz-se frequentemente «já a formiga tem catarro». Chama-se verme a alguém capaz de coisas realmente vis. Estar em apuros é também estar em palpos de aranha. As coisas insignificantes são minhoquices. As portas velhas dos elevadores eram conhecidas como lagartas. Um cinema-piolho, expressão hoje desaparecida, era um cinema rasca. Percevejos era o nome dado a um certo tipo de pioneses. Uma sala às moscas está quase vazia. Nada-se mariposa, mas a paixão faz borboletas no estômago. Um certo zumbido dos despertadores é conhecido por besouro. Mulher com as medidas certas tem cinturinha de vespa, mas num vespeiro há normalmente muita maldade junta. Alguém que gosta de livros é uma traça. Popularmente, gafanhotos são perdigotos. No Brasil, grilo é preocupação. Gente com teias de aranha na cabeça é o que mais encontramos por aí e os andarilhos, equipamentos que servem para aprender a andar, também são conhecidos como aranhas ou aranhiços. Sempre adorei um modelo de Volkswagen a que se dá o nome de Carocha. E pronto, acho que já fui coca-bichinhos que bastasse. Qualquer dia dedico-me a animais maiores. Como dizem os irmãos brasileiros: Me aguardem.

Parentescos

Conheci há alguns anos Siri Hustevdt, escritora norte-americana de origem norueguesa que é casada com o romancista Paul Auster. Embora em muitos países ela tenha bastante sucesso e seja uma autora literária muito considerada, a verdade é que, noutros, as pessoas não resistem a referir-se-lhe como «a mulher de Paul Auster» e alguns jornalistas chegam até a perguntar-lhe, durante entrevistas que deviam cingir-se à sua obra, como é ser casada com o escritor norte-americano. Siri confessa que isso a irrita, como também aborreceria certamente Maria Judite de Carvalho ser mencionada como a mulher de Urbano Tavares Rodrigues, sendo ela uma escritora de mão cheia. Há vários escritores que tiveram filhos e netos também escritores – e os herdeiros (como, pelos vistos, os cônjuges) raramente gostam de ser tratados enquanto tal e comparados com os seus antecessores. Viu-se, aliás, no dia do anúncio do Prémio LeYa, como o jovem vencedor Afonso Reis Cabral, que é trineto de Eça de Queirós, logo quis afastar a genética das razões que o tinham levado a arrecadar o galardão, sublinhando que o importante era o livro, e não ele ou os seus genes supostamente literários. Também o escritor Mário de Carvalho tem duas filhas escritoras. O facto de uma não assinar com o apelido do pai livra-a certamente de associações forçadas. Quanto a Ana Margarida de Carvalho, que já assim assinava como jornalista há muito, foi mais difícil afastar a história do parentesco dos comentários e críticas ao seu livro. No entanto, se alguém pensava que era por causa da filiação que a crítica tinha sido tão entusiástica relativamente a Que Importa a Fúria do Mar, pode agora tirar o cavalinho da chuva: apesar de ser um romance de estreia, encontra-se entre os cinco finalistas para o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Português de Escritores, talvez o mais sonante prémio nacional, que será anunciado no mês que vem, e também entre os seis finalistas do Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril Sol, ao qual concorre também A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, que igualmente publico e está nomeada pela terceira vez consecutiva. Uma proeza que só a ela se deve, e a mais ninguém.

Alimento para o corpo e para a alma

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Se há duas coisas que nunca faltam à mesa dos portugueses, são o pão e o vinho. Em minha casa, tanto eu como o Manel não passamos sem pão, mesmo às refeições, e quando vamos a um restaurante japonês ele fica sempre a achar que lhe falta qualquer coisa... Pois destes dois produtos privilegiados há muitíssimo a dizer e contar – e foi o que fez o genial Paulo Moreiras, autor de romances e também de vários livros que recuperam as tradições nacionais (a ginjinha, o palito, a morcela e o tremoço, por exemplo), no recentemente dado à estampa Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber, ilustrado com gosto e discrição. Nele aprendemos como entraram o pão e o vinho na alimentação corrente dos homens, as suas origens mais remotas, mas também a forma como ambos minaram o nosso quotidiano na forma de provérbios, adivinhas, superstições, versos e muito mais; cheio de curiosidades interessantes (porque se chama Pão de Açúcar à montanha que está no meio do Rio de Janeiro, por exemplo), de listas de tipos de pão, de castas, de festas que se celebram com pão e vinho e também de algumas receitas muito bem apanhadas, a obra recupera ainda excertos da literatura popular, filmes e apontamentos incríveis de muitas épocas e lugares nos quais pão e vinho são os verdadeiros protagonistas. Deixo-vos dois pequenos exemplos do cancioneiro popular só para aguçar a curiosidade. Mas, por favor, não deixem de ler.


 


Ó rosca do meu consolo,


Meu amado pão de bico,


Ó meu prezado miolo,


Como, ao mastigar-te, eu fico


Pateta, maluco e tolo!


 


Hei-de morrer numa adega,


Um tonel ser meu caixão,


Hei-de levar de mortalha


Um copo cheio na mão.


 


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O da Joana

O da Joana é um pequeno livro de Valério Romão, autor que é considerado pela crítica um dos mais promissores ficcionistas da actualidade e esteve presente já por duas vezes na revista Granta com textos de sua autoria. Mas a expressão «o da Joana» ou «Isto não é o da Joana» é, segundo leio recentemente na Revista do Expresso, uma expressão bastante antiga, normalmente aplicada a um lugar terrivelmente desarrumado ou a um comportamento desajustado ou, por assim dizer, indecoroso. Pois parece que a dita expressão está ligada a Joana de Nápoles (Joana I, condessa da Provença) que, acusada de conspiração com vista à morte do marido, se terá refugiado depois em Avignon, cidade papal, no século XIV. Aí terá aprovado um decreto que regulamentava os bordéis, do qual fazia parte a colocação de uma porta bem visível por onde todos pudessem entrar e sair (e deviam entrar e sair muitos, gerando confusão). Esses bordéis ficaram então conhecidos como «paços da mãe Joana», dando mais tarde origem a «casas da Joana», ou simplesmente, «os da Joana» e, por isso, apesar de se ter perdido a conotação sexual, não se perdeu a de sítio onde há confusão e mau-comportamento. Para que saibam, o livro de Valério Romão nada tem que ver com esta história – embora aproveite a graça da expressão – mas com uma Joana grávida a quem acontece um terrível percalço. É o segundo volume da trilogia «Paternidades Falhadas», iniciada com Autismo, muito aplaudido pelos críticos.

VGM

Com o tempo, os intelectuais portugueses foram-se transformando – e hoje faltam-nos aqueles que eram realmente intelectuais completos. Falo por exemplo de Eduardo Prado Coelho, que podia escrever com a mesma profundidade sobre livros, dança e comida, ou do recentemente desaparecido Vasco Graça Moura que, além de poeta e romancista, era um homem cultíssimo em muitas artes (um melómano confesso, de resto) e um interessante opinion-maker, mesmo que não concordássemos sempre com as suas opiniões. Mas a sociedade Estoril-Sol, que é já conhecida pelo lançamento de dois Prémios Literários (Revelação Agustina Bessa-Luís e Fernando Namora, ambos atribuídos anualmente) e também pela publicação da revista Egoísta, não esqueceu o grande Vasco Graça Moura e resolveu homenageá-lo, tornando-o patrono de mais um prémio. Desta feita, o galardão contemplará a Cidadania Cultural e, digo eu, não podia calhar melhor.

Leiria sempre

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Já aqui vos falei muitas vezes da Livraria Arquivo, em Leiria, um espaço muito bonito e acolhedor no que toca a livros e autores. Sempre que a oportunidade se apresenta, lá vou eu à Arquivo, acompanhada de um ou mais escritores, para uma sessão à roda dos seus livros para um público que costuma ser bastante interessado e participativo. Desta feita, a viagem far-se-á depois de almoço com a vencedora do Prémio LeYa em 2013, Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz, e, já na cidade de Leiria, iremos encontrar-nos com António Tavares, o autor de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, que, por viver na Figueira da Voz, faz a viagem no sentido inverso. A conversa promete ser boa, digo eu – sendo que aquelas a que tenho assistido na Arquivo o foram sempre. Se estiver pelas redondezas, vá fazer-nos companhia.


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Envenenados

Muitos dos autores de ficção que publiquei ao longo da vida eram também poetas. Alguns, aliás, já eram poetas antes de se terem tornado ficcionistas (José Luís Peixoto e valter hugo mãe, por exemplo). Diz a crítica que é difícil jogar nos dois lados com o mesmo nível – e talvez por isso uma das artes impere sobre a outra, fazendo com que determinado autor seja sempre conhecido ou como poeta ou como prosador (Saramago foi um romancista de excepção, mas a sua poesia não é muito difundida). Em todo o caso, não convém generalizar: acabo de ler O Uso dos Venenos, uma colectânea de poesia de José Carlos Barros, e não a acho nem superior nem inferior ao romance que dele publiquei no ano passado – Um Amigo para o Inverno – que foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Vejo entre os dois livros pontos de contacto inequívocos, uma ligação às origens, à ruralidade, à memória. Até alguns objectos e palavras se cruzam nos dois volumes. Pedro Mexia, numa crítica ao poemário, fala de uma reunião de textos «com uma tonalidade humanista e melancólica que não teme o poético». Um exemplo, para que fiquem a conhecer melhor:


 


Ruína


 


Guardava a casa, o lume intemporal, como outros


guardam uma língua ou escondem da usura


alguns aspectos de uma biografia. Guardava a casa


como se não houvesse mundo além da escaleira


 


ou ao mundo não fosse dado entrar atravessando


a porta. É difícil compreender agora que a ruína


possa começar assim pelo lado de dentro, do interior


dos objectos que se chegou a supor imperecíveis.

Pano para mangas

Quando eu andava no liceu, uma professora de Português disse à nossa turma que Gil Vicente dava pano para mangas. É bom referir que o comentário vinha a propósito de uma adaptação muito pouco ortodoxa que tínhamos feito de A Farsa de Inês Pereira e que fora depois representada por vários alunos para toda a escola. Mas a senhora tinha razão – há autores que dão pano para mangas, suscitam facilmente a escrita de outros textos ou abordagens ditas artísticas. Outro caso assim é o de Agustina. Além das várias adaptações cinematográficas a que os seus livros já foram sujeitos, algumas delas do realizador Manoel de Oliveira, chegou agora a vez de um compositor, Eurico Carrapatoso, transformar numa ópera um texto inédito da escritora portuense intitulado Três Mulheres com Máscara de Ferro. A estreia, na Fundação Calouste Gulbenkian, aconteceu recentemente por ocasião do I Congresso Internacional dedicado à obra de Agustina Bessa-Luís, mas esperamos poder ver a ópera por esse País fora com brevidade.

A família de Eça

Leio num dos jornais de fim-de-semana que o filme Os Maias, de João Botelho – cineasta que é chegado à literatura e também já nos deu o Desassossego de Bernardo Soares, entre outras obras –, já foi visto por mais de 70 000 espectadores em Portugal. Parece, pois, que os portugueses perderam finalmente o medo do cinema português (melhor dizendo, o preconceito), ou então são os pais dos alunos que vão ter de ler a obra de Eça de Queirós durante este ano que os levam para que fiquem já com uma ideia da história e, se não chegarem a passar-lhe os olhos, possam mesmo assim debitar alguma coisa nos testes. A verdade é que também eu estava curiosa em relação a este Os Maias, e fui vê-lo, mas sem adolescentes. Gostei bastante dos cenários pintados e da interpretação dos actores, já menos da ligação dos episódios com voz off – que na maioria dos casos nem me pareceu necessária – e do final um pouco chocho, sem a graça que, na minha memória, tem no livro essa corrida para o americano. E apreciei obviamente o Eça, dito ali com todas as palavras que estão escritas por quem teve de as decorar ipsis verbis (opção do realizador que, digo eu, deve admirar o escritor) mas que antevejo de muito difícil compreensão para jovens de 15 anos que não leram a obra, sem hipótese de rebobinarem e voltarem a ouvir certos diálogos ou de irem ao caderninho de significados ver o que querem dizer determinadas palavras. Na sala onde vi o filme, a bem dizer, era tudo gente da minha idade. Mas talvez seja melhor assim. Sem terem visto o filme, alguns alunos sentir-se-ão obrigados a ler o romance, e isso é que é importante.

Vai um livrinho?

Num destes domingos em que havia sol fui almoçar com o Manel a um japonês que tem uma simpática esplanada ali para os lados da Expo. Na mesa ao nosso lado, ficaram dois casais jovens, um dos quais com a filha, uma menina muito pestanuda que tinha, quando muito, dois anos. Deram-lhe de comer de um tupperware trazido de casa antes de eles próprios se servirem (o restaurante é self-service) – uma massa de lacinhos com carne, que normalmente agrada às crianças; e, terminado o repasto, a miúda começou a ficar irrequieta e a pedir colo. Como os graúdos também queriam almoçar, o pai da menina perguntou à sua cara-metade se tinha trazido o telefone da filha. O telefone «dela», disse e eu ouvi muito bem. E, quando eu julgava que iria sair da enorme bolsa que as mães de filhos pequenos sempre trazem com elas um telefone de brincar, desses que tocam campainhas e têm muitas teclas coloridas, eis que aparece sobre a mesa um moderníssimo iPhone, logo entregue à bebezita que já sabia tudo sobre a geringonça e começou imediatamente a passar fotografias e a jogar, deixando os progenitores à-vontade para degustarem sushi e sashimi. Ora que diabo, pensei eu, então o telefone «dela», de uma criança de dois anos, era aquela máquina estupenda e caríssima a que tantos adultos aspiram? Porque não um livrinho, meus senhores, com bonecos, ruídos e até cheiros, que também os há? Irão estes meninos tecnológicos ser capazes de brincar a alguma coisa mais tarde e com alguém? Ou vê-los-emos sós durante toda a infância, diante de ecrãs de computador, sem abrir a boca para comunicar com os da sua idade, mandando apenas mensagens escritas ou apondo comentários em redes sociais? Um susto, é o que é...

Cinquentona

Ninguém imaginaria que Mafalda, a menina rebelde que odeia sopa e tem uma visão do mundo muito desassombrada, pudesse fazer este ano meio século. Na verdade, ela permanece igual, não envelhece apesar do correr do tempo que aos restantes traz rugas e cabelos brancos. E não envelhece sobretudo porque continua actual e oportuna num mundo que mudou imenso em muita coisa, mas é ainda o mesmo em quase tudo. Não consigo esquecer a lufada de ar fresco que foi descobrir este magnífico cartoon do argentino Quino (diminutivo de Joaquín) e as suas deliciosas personagens: além da própria Mafalda, claro, toda ela um programa, o Manelinho, o Filipe, o Miguelito, o Gui, a absolutamente irresistível Liberdade com a sua tartaruga Burocracia, e ainda a supremamente irritante Susaninha, capaz de me arrancar gargalhadas com as suas frases intempestivas. Numa tira desta banda desenhada, saindo de uma loja de artigos para o lar, vem um casal de braço dado; e a sempre romântica e sonhadora Susaninha observa o homem de alto a baixo, como se avaliasse mercadoria, e logo pergunta à senhora: Por quanto lho venderam? Mas a política nunca deixou de estar também presente nas notáveis histórias de Mafalda e abriu os olhos a muitos adolescentes, até em países com regimes ditatoriais, como era há cinquenta anos a terra natal do autor. Parabéns, Mafalda.

Em desuso

Hoje é dia de falar de palavras e expressões que os nossos jovens provavelmente já não usam e que é importante que apareçam de vez em quando em textos e conversas, para que não morram. Um dia destes, por exemplo, a minha mãe contou-me que tinha ido de escantilhão ao supermercado e que estava cansada porque andara toda a semana numa fona (note-se, tem 90 anos, mas ainda não está a cair da tripeça). Como a arenga não parecia terminar, achei por bem pôr-me na alheta. Há pessoas muito mais novas do que ela que são um pelém (adoro esta, usada frequentemente pelo escritor Mário Cláudio e que me cheira a infância, pois a minha avó paterna aplicava-a a meninos que adoeciam por tudo e por nada, sempre queixosos). Outra palavra que desapareceu do uso corrente – e se calhar ainda bem – é enjeitadinha, originalmente referindo-se a criança rejeitada ou abandonada pelos pais e presente em muitos fados da primeira metade do século XX. Tal como a expressão a esmo, que eu aprecio pela sonoridade estranha e que é hoje quase sempre substituída por «ao acaso», «à toa» ou «indistintamente». Um dia disse a uma rapariga que cortara o cabelo que lhe tinha feito bem ir ao baeta; ficou na mesma, não conhecia a expressão. Por fim, três outras palavras que só as pessoas de alguma idade ainda usam: pífio (já ouvi o professor Marcelo dizê-la a propósito de uma remodelação governamental insignificante); flausina (o mesmo que sirigaita) e capitosa (que vem de capo, cabeça, e significa «obstinada», mas sempre a ouvi designar louras que causam impressão indelével). E pronto, para o mês que vem, há mais.

Porto mais rico

Uma das vantagens de se ser convidado para um festival literário fora do País não é conviver com os conterrâneos do mesmo ofício, uma vez que a esses temos acesso todo o ano, se o quisermos, e a verdade é que não queremos assim tantas vezes, até porque podemos não simpatizar com alguns deles ou com as suas obras e preferimos não ter de o dizer. A vantagem é, na verdade, conhecermos os nossos confrades de outros lugares, pessoas que não têm qualquer ideia do nosso trabalho e por isso estão naturalmente abertas e curiosas como, aliás, nós sobre elas. Quantas vezes não me aconteceu ler um jovem autor completamente desconhecido para mim só porque o ouvi falar na mesa de um encontro de escritores a quilómetros de casa e me pareceu que só podia escrever livros interessantes? Aconteceu-me em França, num festival de poesia, travar conhecimento com um poeta espanhol que leio até hoje e um dia gostaria até de traduzir. Pois agora é a vez de uma autora que publico, Ana Margarida de Carvalho, ir representar Portugal a Porto Rico no Festival de la Palabra, que se realiza anualmente naquele país e cujo director é José Manuel Fajardo, um romancista espanhol residente em Lisboa. Será a única escritora portuguesa do cartaz e terá a oportunidade de se encontrar com colegas das letras de todo o mundo, maioritariamente de língua espanhola – colombianos, mexicanos, espanhóis (Javier Cercas e Rosa Montero, óptima companhia), entre outros – mas também alemães, haitianos e norte-americanos, além dos muitos porto-riquenhos que estarão a jogar em casa. Fico muito contente que tenha sido ela a escolhida este ano e tenho a certeza de que, com a sua presença, Porto Rico ficará ainda mais rico.

As crianças merecem

Nada como começar cedo nestas coisas da arte e da literatura. Uma autora de livros infantis que já publiquei em duas das editoras por onde passei, Marina Palácio, também ilustradora de excelência, é, além disso, de 2009 para cá, uma fervorosa construtora de projectos interessantes para crianças em várias áreas, desenvolvendo regularmente catorze oficinas de leitura e criatividade, nas suas palavras, «laboratórios para a criação da consciência da identidade “Nós e o Mundo” (...) cruzando expressões artísticas, ciência, humanismo, natureza, e promovendo ideias criativas e inovadoras». As oficinas (Como Nasce Um Livro? Jardineiros das Madrugadas, Educar pelo Livro, Oficina das Árvores e dos Avós, entre muitas outras) têm lugar em escolas, bibliotecas e outras instituições culturais em todo o País e recebem crianças entre os 3 e os 17 anos para formar leitores que se tornem elementos activos na sociedade. Deixo-vos, pois, os links do seu vídeo de apresentação e espero que inscrevam os mais pequenos em alguma destas actividades.


 


http://www.marinapalacio.blogspot.pt/

Amarrados

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Por estes dias, sai para as livrarias um livrinho muito bonito de José Fialho Gouveia (o excelente entrevistador do infelizmente extinto programa Bairro Alto), acompanhado de um CD cujas músicas foram compostas por Manuel Paulo (da Ala dos Namorados, entre outros). Trata-se de Amarrada à Tua Mão, uma peça de teatro para todas as idades que pode ser lida como um conto sobre esta pressa louca com que hoje vivemos e que nos tira o tempo e o prazer das coisas que são realmente importantes para nós. As personagens são um casal – ele sempre doido de trabalho, sem sequer tempo para ir ver o pai ao lar, ela uma jornalista farta da profissão e desiludida por nunca ter disponibilidade para a filha de ambos (quantas vezes chega a casa e já ela dorme?) – e uma boneca, a boneca que foi o brinquedo preferido da jornalista, mas jaz agora na prateleira de cima de um armário, sem préstimo, e nos canta a sua solidão (essas são as canções presentes no CD). Num dia especialmente triste, o casal resolve fazer um balanço sobre a sua vida e confirmar que os sonhos que tinham antes de se tornarem adultos foram, afinal, completamente ultrapassados por essa vida voraz e triste que levam. Então, também a boneca conhecerá um novo destino... Muito bonito e uma boa lição para todos nós, Amarrada à Tua Mão já esteve em cena, mas queremos que regresse, nem que seja aos palcos de muitas cabeças.


 


P.S. Apareça na Fábrica Braço de Prata dia 16 às 19h para ouvir Alice Vieira falar do livro e também algumas das canções.


 




Nobel

Parabéns a Patrick Modiano. Escrevi aqui sobre um livro dele, Horizonte, em 19 de Julho de 2012. O Manel, pelo que disse nesse post, está contente. Eu irei explorar outras obras para ver se também fico.

Passarinhar

Como há uns tempos os Extraordinários se divertiram com um texto que aqui publiquei sobre «vegetarianismo linguístico», resolvi voltar à carga e dizer que, para evitar os males da carne vermelha, sempre podemos recorrer às aves e fazer, na mesma, um brilharete lexical. Senão, vejamos: No galinheiro de um estádio de futebol, pode ser triste um adepto ver perder a sua equipa por causa de um frango – é, na verdade, um galo se isso acontecer e até o pode deixar com pele de galinha; pior ainda é se, à saída, está a chover e chega a casa um pinto. Se assim for, mais vale à mulher, que é uma gralha, calar o bico (antes que ele lhe corte o pio), comer como um pisco e a correr a sopa a ferver (o que vale é que tem goela de pato) e ir deitar-se com as galinhas para evitar discussões (já tem penas que cheguem). O seu vizinho, um pato-bravo da habitação clandestina, casado com uma perua de nariz aquilino com a mania das grandezas, queria multiplicar a fortuna, acreditou na galinha dos ovos de ouro (foi um pato), contou com o ovo no cu da galinha, mas o negócio trazia água no bico e, afinal, acabou depenado (mais valia um pássaro na mão, disse-lhe a mãe, uma pata-choca com pés de galinha debaixo dos olhos). Por sua vez, o sobrinho, um borracho que tinha o hábito de se pavonear por aí, verdadeiro galifão, pôs-se a galar a pombinha do andar de cima, que era o patinho-feio do prédio, papagueou-lhe uns poemas de amor, ela derreteu-se, caiu que nem um patinho, mostrou-lhe a passarinha (no Norte seria o pito) e agora vem aí a cegonha – e tomara que a rapariga seja uma mãe-coruja, porque o rapaz é um galo doido, capaz de a trocar por uma pega à primeira oportunidade (estes galarotes deviam era morrer como tordos, comentou a mãe da desonrada). Gostaram? Estou a tornar-me uma ave rara, mas escarafunchar nos dicionários é ou é não o ovo de Colombo?

Autora-mistério

Há muitos anos, li dois pequenos romances muito agradáveis, algo eróticos, de uma autora chamada Agustina Izquierdo: Um Amor Puro e Uma Recordação Indecente. (Se ainda os encontrarem nos alfarrabistas, dediquem-lhes a vossa atenção.) Talvez porque a autora, sendo de origem espanhola, escrevia em francês (ao que parece, era de uma família antifranquista que se refugiara em França), gerou-se o boato de que era apenas um pseudónimo de Pascal Quignard, que negou a autoria dos romances e afirmou que já lhe tinham atribuído quatro pseudónimos, todos falsos. Pois parece que temos, desde os anos 1990, mais uma autora-mistério: trata-se de Elena Ferrante, italiana, que, ao enviar a sua primeira obra ao editor, pôs como condição para ser publicada nunca aparecer em lado nenhum e apenas responder a entrevistas por escrito, nas quais já declarou ter nascido em Nápoles, ser licenciada em Estudos Clássicos, ensinar e ser mãe. Peguei num volume recentemente dado à estampa pela Relógio d’Água, Crónicas do Mal de Amor, constituído por três distintas novelas, e – ainda que só tenha lido a primeira –, fico na dúvida sobre se as declarações de Ferrante são mesmo de Ferrante. Isto porque, nesse texto, encontro múltiplas ressonâncias de autores espanhóis que conheço relativamente bem – o Juan José Millás de A Ordem Alfabética ou Assim Era a Solidão (que usa recorrentemente como protagonista Elena, o nome de baptismo da escritora italiana), algum Marsé e ainda traços de Buñuel aqui e ali – mas também porque me parece ser mão de homem a escrever, mesmo que os temas sejam, como o da relação entre mãe e filha, tipicamente femininos. Alguém me disse que, ao pé de Ferrante, Bukowski é um menino do coro. Quem quer que seja esta Ferrante, só posso dizer que não a percam.

Do outro lado

Do outro lado do mar, na América do Sul, também se lê em português. E não é raro que todos os anos, quando se anunciam os finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, surjam entre os nomeados, além de brasileiros, autores portugueses publicados no Brasil. Este ano não é excepção: na categoria de Poesia, chegaram à final Ana Luísa Amaral com o seu livro Vozes e Gastão Cruz (já nomeado noutros anos) com o seu Observação de Verão seguido de Fogo. Na categoria de Romance, o prémio que já foi ganho por Gonçalo M. Tavares volta a contemplar o autor como finalista, desta feita com a obra Mateo Perdeu o Emprego, sobre o qual já aqui escrevi no Verão do ano passado, pois foi nas férias de 2013 que o levei para ler. Mas não é tudo: a jornalista Alexandra Lucas Coelho, que se estreou no romance com E a Noite Roda (vencedor do Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores) e viveu largo tempo no Rio, escrevendo textos para o Público sobre a vida no Brasil, concorre na categoria de Conto e Crónica com a sua obra Viva México!, publicada originalmente pela Tinta-da-China. Os concorrentes do outro lado são de peso, mas já não seria a primeira vez que ganharia um português.

Bibliotecas

Vila Franca de Xira inaugurou uma moderníssima biblioteca municipal. E ainda há pessoas que passam uma vida inteira sem ter posto os pés numa biblioteca. No princípio deste século, trabalhei para uma empresa que tinha, na sua sede, um grupo de jornalistas recentemente licenciados, contratados para escreverem entradas de dicionários e enciclopédias sobre tudo e mais alguma coisa, mas que pesquisavam exclusivamente na Internet, não fazendo a mais pequena ideia do que era entrar numa biblioteca e requisitar um livro. Um dia, um dos responsáveis pela empresa pediu a um desses jovens que escrevesse um verbete de quinze linhas sobre João de Deus (o assunto era literatura); e então ela foi ao Google ou à Wikipédia e fê-lo em menos de nada (copy/paste, provavelmente); só que, quando se foi a ver, a figura do verbete era o S. João (o apóstolo preferido de Deus, estão a ver?)… Bem, como homenagem às bibliotecas públicas, junto hoje uma colecção de fotografias que revelam exemplos bem curiosos. Divirta-se a ver e, claro, vá à biblioteca.


 


http://www.telegraph.co.uk/culture/photography/11070618/10-unusual-and-beautiful-public-libraries.html?frame=3024436