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A mostrar mensagens de março, 2023

O valor dos livros

Já escrevi aqui muitas vezes que ninguém rouba os livros quando assalta uma casa; e que serão cada vez mais raros os manuscritos de escritores encontrados, não sendo sequer credível que, daqui a vinte anos, ainda haja alguém a escrever num caderninho, à mão, e só depois passar ao papel... (Até poesia se escreve hoje em computador!) Do mesmo modo, a correspondência dos escritores com confrades ou editores tem os dias contados, e não terá assim muita graça que se reproduzam em biografias ou testemunhos e-mails, pois seria muito fácil, no fundo, inventá-los ou modificá-los (e eu nem sei nada de informática, imaginem os experts). Porém, enquanto ainda permanecem espalhados por aí bilhetinhos e cartinhas de gente famosa, há pelos vistos quem lhes deite o olho. Um jovem italiano apaixonado pelos livros desde criança estagiou durante um tempo numa agência literária londrina e apercebeu-se de que havia por lá vários manuscritos de autores consagrados, como, por exemplo, Margaret Atwood. Como não conseguiu ficar lá a trabalhar, fez-se então passar por quem não era, criou um endereço de correio electrónico falso e vai daí começou a pedir a vários autores textos escritos pelas suas belas mãos ao longo de...seis anos. Segundo o Observador, que conta a história, quando os recebia era como se continuasse a trabalhar na agência e nunca tivesse deixado a indústria editorial, como desejava. Não chegou a vendê-los, não chegou a apanhar os 20 anos de prisão que podiam ter-lhe sido aplicados, mas acabou por ser descoberto e, arrependido do que fizera, teve de pagar 82 mil euros... E ainda dizem que os livros não dão dinheiro.

Na ilha

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Louise é uma alpinista experiente, Ludovic um jovem atlético. Destemidos e desejosos de um ano de liberdade, deixam o apartamento em Paris e uma vida bastante convencional para se lançarem numa aventura: darem a volta ao mundo num veleiro. A ilha onde aportam, no pólo sul, atrai-os pela beleza selvagem: picos nevados, crateras geladas, um lago seco. Mas de repente surge uma nuvenzinha escura ao longe… Quando a tempestade levanta, destrói tudo à sua volta e o barco desaparece. Os dois ficam subitamente sós; os pinguins, as otárias, os elefantes-marinhos e as ratazanas passam a ser a sua única companhia numa velha estação baleeira, abandonada há décadas. A aventura romântica torna-se um pesadelo e a relação do casal deteriora-se a cada dia. Será possível sobreviver numa natureza tão estranha e hostil? Durante quanto tempo? Como poderão lutar contra a fome e a exaustão num lugar tão isolado? E, se sobreviverem, como será regressar para junto dos seres humanos? Como contar-lhes o inenarrável? Subitamente, Sós é uma obra notável escrita por Isabelle Autissier, a primeira mulher que deu a volta ao mundo num veleiro em solitário, sobre o engenho e as estratégias de sobrevivência em momentos de crise e, ao mesmo tempo, um aviso sério relativo ao poder da natureza sobre o homem. Acabadinho de sair.


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Tecer e escrever

Quando publiquei o meu primeiro livro de poesia, em 1996, o saudoso Eduardo Prado Coelho dedicou-me uma crítica cujo subtítulo dizia: «A poesia de Maria do Rosário Pedreira vem de saber tecer, à maneira de Penélope, uma imensa teia de gestos e referências, objectos e frases, sinais e afectos.» Esta analogia do tecer quando falamos de escrever não é nova; e não é por acaso que se fala tanta vez, por exemplo, no fio da narrativa ou de urdir uma trama ou numa história mal cosida. Mas eu não tinha pensado nunca realmente a sério que talvez a literatura oral tenha sido transmitida sobretudo por mulheres que, não sabendo ler, sabiam contar histórias e as transmitiam umas às outras e às crianças enquanto cosiam ou teciam. A historiadora do livro Irene Vallejo, autora de O Infinito no Junco, gravou para o jornal El País um pequeno vídeo imperdível sobre esta sua convicção (a do papel importantíssimo das mulheres na transmissão da literatura desde tempos muito antigos). E, embora não sabendo se todos compreendem o castelhano, achei irresistível aqui partilhá-lo, pois em cinco minutos é realmente fascinante a ideia que veicula.


https://www.facebook.com/watch/?v=271951907342171


 


 

Uma história real

No ano passado, como se devem lembrar os alfacinhas, a Feira do Livro de Lisboa decorreu em Agosto/Setembro e tivemos, num domingo, um acontecimento bastante inesperado... Estava o escritor Moita Flores a autografar os seus romances numa mesinha quando, de repente, teve um enfarte e caiu literalmente para o lado. Alguns minutos antes, eu tinha estado a acompanhar a cantora Luísa Sobral e a ilustradora Camila Beirão dos Reis, autoras de um livro que publiquei, e o cardiologista que operara Salvador Sobral passara para as cumprimentar e pedir um autógrafo. Foi uma sorte! O médico ainda se encontrava no recinto quando Moita Flores sucumbiu e foi quem fez a massagem cardíaca ao escritor. A reanimação demorou imenso tempo, e houve muita gente que pensou que perdíamos Moita Flores na Praça LeYa. Graças a Deus, o INEM trazia desfibrillhador e conseguiu trazê-lo de volta à vida. Internado, operado e recuperado, Moita Flores acabou a escrever um romance sobre o dia fatídico, no qual conta como o seu coração parou, como foi salvo por médicos compradores de livros e como pertence a uma ínfima percentagem de sobreviventes do tipo de ataque cardíaco que sofreu. Não isento de humor, o livro Um Enfarte no Alto do Parque é também uma chamada de atenção para que acompanhemos de perto os nossos problemas de saúde e possamos prevenir o pior. Entre as acções de promoção do livro, o autor quer matar o fantasma e... voltar à Feira do Livro.


 


 

«Nervo cáustico e terno»

Esta é a semana da poesia e há que falar dela. No sábado dia 18, fui a Constância, à Casa-Memória de Camões (o poeta maior das nossas letras que ali nasceu), a uma tertúlia de poesia, com apresentação de um livro meu, conversa, perguntas e leituras dos circunstantes. E foi de lá que trouxe mais um número da revista Nervo, que aqui sempre publicito e divulgo, e que me foi oferecido pela editora, Maria de Fátima Roldão, ela própria poetisa. A dedicatória fala de «Nervo cáustico e terno», uma boa definição desta revista de poesia, que tem sempre poetas muito distintos e pertencentes a várias famílias (mais cáusticas ou mais ternas). Desta feita, podemos ler textos dos poetas de língua portuguesa Daniel Jonas (também grande tradutor, entre outros, da poesia de Milton), Eduarda Chiote, José Emílio Nelson, Paulo Henriques Brito (do Brasil) ou Regina Guimarães; e, pela mão de outro grande tradutor chamado Miguel Filipe Mochila, poemas do mexicano Eduardo Lizalde. Este número inclui ainda um texto de Vítor Ferreira sobre Eugénio de Andrade e um testemunho de João Vilhena sobre Gastão Cruz. A capa é de Cristina Ataíde. Leia poesia.

Excerto da Quinzena

Aos vinte e dois anos [Janet Frame] deu entrada num hospital psiquiátrico; entrou voluntariamente, mas mantiveram-na ali à força. Foi diagnosticada erradamente como esquizofrénica e aplicaram-lhe electrochoques. Isto foi no fim dos anos quarenta, de modo que receio que também não tenham usado relaxantes ou anestesia. E assim foi passando o tempo, entre o tormento dos electrochoques e o atordoamento dos fármacos, até a deixarem sair em 1954. Tinha passado oito anos lá dentro. Pouco antes de sair da clínica, aconteceu o milagre que quero contar. Os médicos tinham decidido fazer-lhe uma lobotomia, um tratamento selvagem muito em voga nessa altura, que consistia em cortar uma parte do cérebro (isto, felizmente, já não se faz). A entrada de Frame na sala de operações estava iminente quando, uma tarde, o Dr. Blake Palmer, director do hospital, fez uma visita insólita ao pavilhão onde Janet estava internada. Além disso, «para assombro de todos», foi direito a ela: «Decidi que você deve continuar como está. Não quero que mude. Viu as notícias de última hora do Star desta tarde?», perguntou-lhe, abrindo o jornal que trazia debaixo do braço. É evidente que Frame não o tinha visto: naquela área do hospital a leitura não era permitida. «Você ganhou o Prémio Hubert Church para o melhor trabalho em prosa. Pelo seu livro The Lagoon. A colection of short stories.» Era um volume de contos, o primeiro que a escritora publicara. Janet ficou maravilhada: «A sério?» «Sim», respondeu Palmer. «Vamos tirá-la deste pavilhão. E nada de lobotomia.»


 


Rosa Montero, O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo

Um curso

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Desafiaram-me a fazer um curso sobre edição, um curso que, no fundo, explique em termos gerais o que deve ter um livro para ser publicado e fazer o seu caminho literário. Em relação às outras artes (pintura, música, escultura, cinema, dança...), é suposto as pessoas terem uma formação adequada antes de se atraverem a ser artistas (e algumas, mesmo com formação, nunca lá chegam). Mas, quanto à literatura, está mais ou menos vulgarizada a ideia de que basta saber gramática, ter imaginação e possuir um computador para se publicar um livro. Nada mais falso: há excelentes alunos a Português que nunca serão capazes de concluir um bom romance... Neste curso de duas sessões (de duas horas cada), aos domingos às 18h00 (para toda a gente poder assistir), vou tentar falar de leituras, de competência, de talento, de escrever até doer, de humildade, do que é editar e publicar... e de muito mais coisas. Se estiver interessado, inscreva-se, começa já no próximo domingo. A organização é da Retiros Literários e os contactos estão no cartaz.


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Uma vida escrita

Tenho falado de bastantes autores que cumprem este ano o seu centenário; e, claro, não poderia falhar o queridíssimo Eduardo Lourenço, um dos mais importantes pensadores de e sobre Portugal e, além disso, aquele senhor absolutamente delicioso e cheio de graça que tanta falta nos faz. A Fundação Calouste Gulbenkian marca a efeméride com um colóquio que lhe é dedicado no próximo dia 28, no qual haverá conversas, música, exposição de fotografias e o lançamento do último volume das suas Obras Completas, que inclui inéditos; o colóquio «parte desta ideia de vida escrita, que é uma ideia que Eduardo Lourenço desenvolve a propósito de Montaigne, que foi uma grande referência da sua obra, que é uma designação perfeita do núcleo da obra de Eduardo Lourenço», fiz o organizador. Entre os participantes, encontraremos António Feijó, Rita Patrício, Richard Zenith, Carlos Mendes de Sousa, Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, João Dionísio, Margarida Calafate Ribeiro, Clara Caldeira, João Tiago Lima, José Carlos de Vasconcelos, Isabel Lucas e Pedro Sepúlveda, além de Guilherme d’Oliveira Martins, da administração da Gulbenkian, sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, onde passou a ocupar a cadeira de Eduardo Lourenço. A não perder.

Natália

Já aqui escrevi várias vezes sobre «a Natália», poetisa e mulher tão fascinante que ninguém que a tenha conhecido alguma vez poderá esquecer. De boquilha na boca e batom nos lábios (em O, à Castafiore), uma voz com um timbre especial e uma fantástica coragem (às vezes, era quase desfaçatez), Natália Correia foi muita coisa além de escritora e deputada, e é agora a protagonista de O Dever de Deslumbrar: Biografia de Natália Correia, de Filipa Martins, ontem mesmo lançada no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores com apresentação da escritora Lídia Jorge e leitura de poemas por Teresa Tavares (alguns também cantados por Mia Tomé). A biógrafa andou a estudar a vida de Natália ao longo de muito tempo, sendo autora do argumento da série de televisão Três Mulheres (em que Natália ombreava com Snu Abecassis e Vera Lagoa) e ainda a co-autora, com Joaquim Vieira, de um documentário muito bom sobre Natália, que aconselho vivamente, com importantes testemunhos, como o de José Manuel dos Santos, que conheceu Natália de perto. O Dever de Deslumbrar está já disponível nas livrarias e segue-se a outras biografias e livros dedicados à diva, de que recordo em especial uma Fotobiografia da autoria de Ana Paula Costa e um livro sobre o Botequim (o bar de Natália Correia) de Fernando Dacosta. Ide ler!


P. S. Para quem se interesse: hoje às 19h00, na Casa Fernando Pessoa, haverá uma homenagem a Ana Luísa Amaral. Com Lídia Jorge, Margarida Vale de Gato, Francisco José Viegas e euzinha, moderados por Luís Caetano.

Feira da Poesia

Nas grandes livrarias, é dado geralmente protagonismo à ficção e, dentro dela, à ficção estrangeira de nomes conhecidos ou à dos autores portugueses que vendem muito. A poesia está sempre numa estantezita estreita e, além da obra do Pessoa, que consta quase sempre de meia prateleira, o resto é sempre uma incógnita, pois raramente há mais de um livro de cada título e os títulos também são quase só os que saíram no ano em causa. Por isso é tão bom que haja uma feira do livro dedicada especialmente à poesia, comemorando também o Dia da Poesia, festejado mundialmente em 21 de Março. E, depois de uns anitos de ausência à conta da pandemia (e talvez também das obras do metro), vamos ter finalmente de volta a Feira do Livro de Poesia no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Com uma organização conjunta da Casa Fernando Pessoa e da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, vai estar aberta de 21 a 26 de Março e terá mais de dez editoras de poesia a participar. Por isso, se anda à procura de um livro de poesia que não encontra em lado nenhum, esta é oportunidade certa para o comprar.

Loucura

Ninguém que tenha lido A Louca da Casa, de Rosa Montero, pode ter ficado indiferente. É um livro que mistura autobiografia e ficção e que fala da imaginação de forma bem louca e, passe a redundância, imaginativa. De todos os livros da autora, é seguramente o mais marcante (embora ela tenha escrito romances incríveis), e é nessa linha o seu mais recente volume publicado em Portugal e intitulado O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo, usando um verso «roubado» a Emily Dickinson. A proposta é incrível, pois associa aos criadores uma certa dose de loucura, justificando que para se ser um verdadeiro artista há que ter um desequilibriozinho. Partindo de exemplos reais, a começar pelos seus próprios ataques de pânico em diversas alturas da vida, Rosa Montero conta-nos as histórias fascinantes de alguns escritores a quem foi diagnosticada doença mental (Virginia Woolf, Sylvia Plath, Janet Frame...) e cuja salvação foi muitas vezes a escrita; e fala-nos cientificamente desse grãozinho de loucura que levou tantos autores ao vício ou ao suicídio, como Scott Fitzgerald, Hemingway ou mesmo Bukowski. Ao mesmo tempo, atravessa todo o livro a história de uma mulher anónima que se fez passar pela própria Rosa Montero durante anos, perturbando a autora de O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo em variadíssimas situações (uma das quais apresentando-se em vez dela numa universidade americana como escritora convidada). Fascinante. Pena que a tradução tenha demasiados castelhanismos («relato» por «conto», «narrador» por «romancista»...), sobretudo porque a tradutora já assinou outros trabalhos de qualidade e não se esperavam dela erros de palmatória (O Ruído e a Fúria, de Faulkner?). Mas leiam na mesma, não se arrependerão.

Tudo num volume

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São bastante comuns as Poesias Reunidas, e há autores que até têm mais de uma Poesia Reunida ao longo da vida, ora porque mudam de editora e fazem edições novas, ora porque vão sempre escrevendo volumes independentes e, ao fim de algum tempo, actualizam com eles as suas reuniões de poemas. Já é menos vulgar um autor agarrar em toda a sua prosa e juntá-la num único livro, até porque geralmente os romances são mais extensos do que os poemários e não se consegue juntá-los todos porque ficaria um tijolão pesadíssimo. Porém, autores mais parcimoniosos, como (estou a lembrar-me deste) Carlos de Oliveira, conseguiram a proeza de juntar toda a sua produção literária em prosa num só volume (e as estantes agradecem!), mesmo que em papel de Bíblia. E há mais: chegou a vez de Manuel Alegre reunir a sua obra ficcional em Toda a Prosa, um volume que compreende os romances Alma, A Terceira Rosa, Jornada de África ou O Miúdo Que Pregava Pregos, mas também textos mais curtos e mais difíceis de encontrar, como certos contos e novelas. O livro é hoje apresentado ao final da tarde na Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, com apresentação da professora Paula Morão, que também assina o prefácio da obra. Apareçam.


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Expressamente para si

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Num tempo em que circulam pelas grandes cidades quase mais motos e bicicletas de serviços de entrega de refeições ao domicílio do que automóveis, não posso deixar de vir dar novidades sobre o serviço que o grupo onde trabalho oferece. Chama-se LeYa Express e, criado no tempo da pandemia para facilitar a leitura em confinamento, tem agora novidades: não só alargou a entrega de livros a outros locais (além de Lisboa, Oeiras e Cascais, estendeu o serviço também ao Porto e a Gaia), como encurtou o tempo da entrega, pois os leitores que vivem nos locais referidos, desde que a compra ultrapasse os 15 euros, podem receber livros de todas as editoras portuguesas (não só da LeYa) no próprio dia e gratuitamente. O tempo de espera é em média duas horas em Lisboa e no Porto, e é também possível pedir para embrulhar o livro, se a ideia é oferecê-lo a alguém. O LeYa Express é acessível através da LeYaOnline, seguindo passos simples: escolha dos livros, verificação da disponibilidade inserindo código postal, inserção de morada de entrega e pagamento. Este foi o primeiro serviço do género lançado em Portugal e está cada vez mais perto dos leitores.


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O islão

Já aqui falei várias vezes das conferências e dos cursos que o El Corte Inglés oferece a quem queira inscrever-se, cultivar-se e passar um bom bocado. E desta feita chamaram-me a atenção, na área da História, as três sessões que o medievalista e catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa Hermenegildo Fernandes vai ministrar sobre o islão. Sabemos que a presença do islão na Península Ibérica teve enorme impacto no desenvolvimento da identidade nacional, apesar de, como se diz na apresentação deste pequeno curso, essa evidência ser frequentemente esquecida e o período correspondente ser considerado apenas um «intervalo». Mas agora, ao longo de três sessões (16 e 23 de Março e 13 de Abril), vamos poder ficar a saber mais sobre a conquista da Hispânia pelo islão no século VIII; os efeitos  do califado com sede  em Córdova na península (incluindo na zona onde hoje fica o Algarve) nos séculos IX e X; a criação no século XI de principados locais, verdadeiros paraísos de gente letrada (taifas); e por fim a extinção das taifas pela ameaça dos reinos cristãos. Belos fins de tarde para quem possa ir.

Fake news e ingenuidade

Vivemos num tempo em que o jornalismo já não é o que era e não temos outro remédio senão acreditar nas notícias que nos passam debaixo do nariz. E, como não sou diferente, também fui vítima das fake news e, pelos vistos, completamente ingénua ao crer num tweet de uma pessoa que nem conheço, no qual se dizia que o Instituto Camões consideraria mortas todas as palavras não usadas num período de três anos. A pessoa que partilhou o dito tweet no Facebook é respeitável e, como tinha exercido um cargo importante numa Secretaria de Estado da Cultura aqui há uns anos, não duvidei de que estivesse a veicular informação confirmada. Ainda por cima, como passou uma semana entre eu ler o post e publicar a notícia aqui no blogue, e ninguém desmentiu entretanto o que fora dito (o que multiplicou as partilhas), fiquei mesmo convencida da verdade daquele escândalo. Mas, pensando bem, aquilo não tinha sentido (devia ser apenas uma tirada humorística) e eu tinha obrigação de, pelo menos, ter duvidado. Mea culpa. Venho, assim, retractar-me e dar-vos boas notícias: afinal, o Instituto Camões está tão interessado como nós na defesa e preservação da língua portuguesa e não vai matar palavras nenhumas, nem as inventadas aqui, nem as dos países de língua oficial portuguesa. Apesar de me ter sentido uma autêntica parva, fiquei contente de me ter enganado e de podermos continuar a aumentar o nosso dicionário em vez de o irmos podando. E, desse lado, desculpem ter-vos dado eu própria uma notícia falsa, embora os vossos comentários tenham sido excelentes no dia em causa.

Excerto da Quinzena

A decisão de lavrar a terra tinha sido tomada de um dia para outro, depois de muito remoer sobre o passado e o futuro. Era arriscada, mas algo precisava ser feito. Não esperaria que lhe tomassem os restos e se pôs na linha de frente para reivindicar o que considerava legí­timo. Se não fizesse algo por si, estava fadada a desaparecer como tantas vezes outros desejaram.


Resignada, lançava a manaíba na cova aberta, e fechava, paciente, ignorando tudo mais à sua volta. O homem gesti­culava com os braços, Maria Cabocla falava cada vez mais alto. Então, ele ordenou que ela parasse a irmã, do contrário ele não responderia por si.


[…]


«Luzia, Luzia, pelo amor de Deus, deixe o diabo dessa manaíba aí! Estou vendo a hora de esse homem te matar.»


Luzia parou, levantou o rosto suado e coberto de terra. Ela estava suja porque ele se aproximava arrancando os tocos, e os fragmentos de terra e mato recaíam sobre seu corpo. Agora uma lama grossa feita de barro e suor descia de sua face. Mas ela não guardava nenhuma expressão de desgosto ou desâ­nimo em seu semblante. Ignorou o homem e a ameaça. Olhou para Maria Cabocla com um ar de insubmissa satisfação.


«Não paro, Mariinha.»


 


Itamar Vieira Junior, Salvar o Fogo, quase quase a chegar!

Manifesto

Creio já aqui ter falado de Livrarias, um livro-manifesto de Jorge Carrión que defende a livraria e o livro como pilares da civilização; Carrión é um autor que tem de ser lido por todos nós que gostamos de ler e que agora volta a atacar com um livro obrigatório que está a ser traduzido em todo o mundo. Chama-se (Carrión é corajoso) Contra a Amazon e é mais uma vez um manifesto, desta feita contra o gigante de Jeff Bezos e «o poder crescente dos algoritmos» na venda de livros, a favor da figura do livreiro e do carácter incomparavelmente mais humano e pessoal das livrarias independentes e das bibliotecas. Carrión acusa a Amazon de se ter apropriado do prestígio do livro e de ter construído um hipermercado de livros que é, na verdade, «uma cortina de fumo em forma de biblioteca»; insurge-se contra aquela imensa livraria «impessoal» e «global» e partilha visitas várias a livrarias que se estão a reinventar e a resistir em todo o mundo para mostrar como é, afinal, possível manter o livro como «pilar da nossa educação sentimental e intelectual». Com uma nota introdutória escrita propositadamente para a edição portuguesa, Contra a Amazon é de certeza uma obra polémica que dará que falar nos tempos mais próximos.

Para rir e chorar por mais

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O novo romance pícaro de Paulo Moreiras fará garantidamente as delícias de quem o ler. E, deixem-me puxar a brasa à minha sardinha, é dos livros mais ricos em vocabulário e expressões saborosas que podemos encontrar neste século na literatura portuguesa. Paulo Moreiras leu tudo o que existe de literatura picaresca, estou certa; e, admirador confesso do género, construiu duas obras à altura dos seus mestres. Em primeiro lugar, A Demanda de Dom Fuas Bragatela, que já tem sei lá quantas edições; e agora, saidinho do forno, este imperdível A Vida Airada de Dom Perdigote, que decorre em Valladolid, sede da Corte no reinado de Filipe II de Espanha, III de Portugal; está por isso cheio de personagens espanhóis, o que só por si já justificaria que amanhã o lançamento decorresse no Instituto Cervantes. Mas há mais, pois o próprio Miguel de Cervantes (sim, o do Quixote) passa mais de uma vez pelas páginas do romance, bem como Quevedo, El Greco e até um autor de teatro britânico sobejamente conhecido que corre perigo de vida. Venha fazer-nos companhia (e ao autor). A apresentação fica a cargo de José Carlos Barros, vencedor do Prémio LeYa em 2021 com As Pessoas Invisíveis e grande poeta também. A não perder, lançamento e livro!


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Olhar para trás

No ano em que a FNAC comemora o seu 25.º aniversário, a revista Estante publica um artigo sobre livros que marcaram os últimos vinte e cinco anos, ou seja, desde 1998 até hoje. Mandaram-me o link e, ao «folhear», fosse nos destaques, fosse nas obras referidas como igualmente importantes, descobri vários livros que publiquei e, desculpem lá, fiquei orgulhosa: começou logo em 1998, com As Partículas Elementares, de Michel Houellebecq (curiosamente, no ano em que comecei a Temas e Debates e estava a construir uma colecção de ficção que tinha capas e projecto gráfico da autoria de António Rochinha Diogo); em 2000, seria a vez de Escrever, de Stephen King (que editei com o Círculo de Leitores que publicava também os seus livros de suspense e terror, mas que era um ensaio admirável que foi recentemente reeditado e deve ser lido por todos os que querem publicar). Em anos subsequentes, a pérola que é Morreste-me, de José Luís Peixoto (um livro que nunca morre e está sempre a ser traduzido e reimpresso); As Três Vidas, de João Tordo, que muito justamente ganhou o Prémio Saramago, entregue ainda pelo nosso Nobel durante a Escritaria de 2009, em Penafiel; e A Vegetariana, de Han Kang, esse livro incrível que levou o Booker Prize internacional no Reino Unido e também continua a ser regularmente reimpresso na versão portuguesa. Mas há muitos outros na lista (entre realmente bons e realmente bem-sucedidos, como O Segredo) que marcaram os últimos vinte cinco anos da FNAC. E os nossos. Deixo-vos a lista para poderem olhar para trás.


https://www.fnac.pt/25-livros-que-marcaram-os-ultimos-25-anos-parte-1/cp4828/w-4?origin=fb_paid_25ano_blog1&fbclid=IwAR2KLPmkPfLDblhaxWkEyD4F06nSo2EecUZy6yoXN_ItNSNaO87HwO0R3-c


 

Bookcrossing

Apanhei aqui nos blogues da SAPO um post de alguém sobre «bookcrossing». Tenho a certeza de que já falei aqui disso, há certamente muito tempo; mas, como estamos de novo em altura de apertar o cinto e as casas são pequenas demais para os livros todos que gostaríamos de ter, o assunto bem pode voltar à calha. Se há livros que começou a ler e não gostou, se há outros a que não pretende voltar, se tem repetidos mas não arranja a quem dá-los, porque não deixá-los por aí para quem pode desfrutar da sua leitura? (Não querendo ser rebarbativa, acho que é o que vou fazer com aquele tijolo das plantas francês que se atravessou indevidamente no meu Verão.) Num banco de jardim, na esplanada de um café, no provador de uma loja de roupa... todos os sítios são bons para cruzarmos livros com os outros leitores. Com o meu feitio, já sei que, se encontrasse um livro num café, andaria logo à procura do dono e nem me ocorreria trazê-lo comigo, mas o bookcrossing é assim mesmo e temos de nos convencer de que não estamos a roubar nada, só a levar emprestado. Desde que no fim voltemos a pôr o livro à disposição de um novo leitor, bem entendido. Tem livros para a troca? Já sabe o que fazer.

Ainda as palavras

Ontem falei aqui do perigo de morte de certas palavras que as novas gerações já não usam e da importância de as passarmos, nem que seja como curiosidades, aos mais novos. Na verdade, esqueci-me de contar uma história que vinha a propósito. Um autor de romances que publiquei em tempos, Hugo Gonçalves, e também um grande cronista que escreveu no DN, contou no Facebook: «Fosso de gerações: hoje ligou-me uma rapariga muito simpática a saber como corria a renovação da minha assinatura digital de um jornal: "Teve oportunidade de usar a app e ver se está tudo bem?" Respondo eu: "Hoje só passei os olhos pelas gordas." Silêncio. Ela não fazia a mínima ideia do que eu queria dizer com aquilo.»  A história não acabava aqui, tinha ainda uma nota de humor sobre o desaparecimento da palavra «gordo» dos livros de Roald Dahl, de que também já aqui falei; mas, para o caso, o que queria dizer é que me aconteceu exactamente o mesmo «fosso de gerações» com a expressão «ir ao baeta» quando uma ex-assistente minha, na geração dos vinte, tinha feito um novo corte de cabelo e eu lhe disse que fizera muito bem em «ir ao baeta». Lembro-me de, quando eu era pequena, «giro» soar esquisito na boca da minha avó (que dizia «jeitoso»), mas qualquer dia «giro» vai ser uma antiguidade...

Palavras mortas

Não sei se alguém reparou, mas no meu post de ontem, sobre o livro de Clara Dupont-Monod, usei dois vocábulos que estão em desuso: «flausina» e «mastragança». São palavras cheias de sumo, forradinhas de sentido, mas infelizmente a cair no esquecimento. Porém, apelo aos leitores deste blogue que se esforcem por incluí-las nos vossos escritos e discursos; e, tal como estas que referi, muitas outras que todos ouvimos decerto aos nossos pais e avós e correm o risco de desaparecer dos nossos dicionários. Eu sei, não é normal retirar do vocabulário uma palavra só porque não anda nas bocas dos contemporâneos. Porém, segundo li, no mês passado o Instituto Camões anunciou que vai considerar palavras mortas todas aquelas que não tenham sido utilizadas nos últimos três anos. Quem deu a notícia com escândalo no Facebook fez, de resto, questão de juntar imediatamente à informação uma dúzia de saborosos vocábulos, como «zureta», «pelém» e «sanapismo». E eu junto «bazulaque», que aprendi com o escritor Mário Cláudio, «lambisgóia», «amásia» ou a expressão «a nove» para dizer «a correr» que, infelizmente, já quase não ouço por aí. Faça o mesmo e não deixe as palavras morrer. Se isto já está pobrezinho, ainda mais pobre ficará.

O que ando a ler

Ultimamente, não sou especialmente atraída pelos livros franceses, sobretudo desde a banhada que apanhei nas férias do Verão com aquela mastragança da Breve Vida das Plantas (já nem sei se o título era exactamente esse); mas, não me lembro onde, alguém aconselhava vivamente O Nosso Irmão, um pequenino romance de Clara Dupont-Monod (chefe de redacção da Marianne, uma revista que tem nome de publicação para entreter flausinas, mas não é nada disso) e acabei por comprar, quiçá um pouco influenciada pela ressonância do título O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral (Prémio LeYa 2014) e por ser igualmente sobre a temática da deficiência. Fiz bem em começar a lê-lo, porque vou a mais de meio e, embora a prosa seja às vezes borrifada com algumas imagens estranhas, a verdade é que se trata de um livro muito bonito (e contado pelas pedras, vejam lá), sobre a relação de três irmãos ("o mais velho", "a mais nova" e "o último") com o irmão nascido com uma deficiência profunda e sem grandes perspectivas de sobreviver aos primeiros anos de vida. O romance, que venceu os prémios Femina, Goncourt des Lycéens e Landerneau, é especialmente interessante pela forma como na mesma família são tão diferentes os modos de cada um reagir ao incómodo e à diferença da criança que não vê, não fala e não anda. Com cenas absolutamente comoventes a espaços, vale muito a pena (às vezes é preciso desatar o nó no peito e respirar fundo, como na vida).