De olhos em bico

Eu e o Japão não nos damos lá muito bem – mas tenho a certeza de que a culpa é minha, que não consigo entender, entre outras coisas, que, mesmo num país seguro, possam andar sozinhas crianças de quatro anos entre a casa e a escola. Quando estive em Tóquio há uns anos, achei demasiadas coisas estranhas (censuram os pêlos púbicos em livros, filmes e até anúncios de lingerie, tornando-os uma mancha indefinida, mas vendem uma manga horrorosamente violenta e não raro pornográfica); e perguntei-me – sem obter resposta – porque não têm as personagens dos desenhos animados «olhos em bico», e sim uns olhões verdadeiramente arregalados, quando se diz que os Japoneses nos consideram uma raça inferior. Não consigo alcançar o Japão, é o que é. E, ainda assim, há um escritor japonês que vive em Londres que leio com um prazer desmedido. Ganhou o Booker Prize com o magnífico Os Despojos do Dia (que deu um filme vencedor de vários Óscares), mas escreveu muitos outros romances de grande qualidade. Talvez seja um escritor já europeizado, mas a verdade é que, embora os seus cenários sejam frequentemente europeus, as suas histórias não deixam de estar impregnadas de valores tipicamente japoneses. Em Os Inconsolados, por exemplo, vê-se bem que Kazuo Ishiguro não podia ser senão japonês.

Comentários

  1. Sim, os "olhões verdadeiramente arregalados" da manga são intrigantes. Eu chamo-lhes o olhar da Heidi. Porque, a primeira vez que os vi, foi na série de desenhos animados japonesa da Heidi, que, na altura (eu teria uns onze anos) muito me impressionaram.

    Esse olhar repete-se, na manga e noutros filmes animados japoneses, até à exaustão...

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  2. sonia ferreira da silva22 de outubro de 2010 às 05:23

    Esses olhos enormes e redondos já me intrigavam desde a mocidade e minha mãe costumava dizer que era porque os japoneses, no fundo, tinham uma grande inveja de nossos olhos "ocidentais" e mostravam a frustração que sentiam ao usar nossos olhos nos desenhos deles.

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  3. Você não gosta de Haruki Murakami? Eu amo de paixão. Mas sou suspeita: tenho uma atracção forte pela cultura japonesa.

    Concordo com o que diz sobre a essência japonesa de Kazuo Ishiguro (hoje um cidadão britânico). Não conseguia explicar exactamente o quê. Passei muito tempo a pensar sobre isso em 2008. Até que um dia o meu orientador disse: é o sentido de dever. É algo que está presente não só em "The Unconsoled" e "The Remains of the Day" mas também, e sobretudo, eu diria, em "Never Let Me Go" (cujo filme homónimo foi apresentado na semana passada no Festival de Cinema de Londres).
    Muito leitores criticam o facto de as personagens de "Never Let Me Go" não fugirem (detalhe que o filme tenta justificar através da presença de chips na parte interna do pulso). Dizem que é inverosímil. Ora, não é inverosímil precisamente porque estas personagens sentem que aquilo que fazem é importante, é o que lhes compete. Há vestígios de resignação, é certo, mas acima de tudo há contenção e... o sentido de dever. Vê-se muito bem isso na cena final, lindíssima, na qual Kathy contempla o arame farpado, e os despojos que nele ficam retidos, e imagina aqueles que ela amou, entretanto já mortos, a regressar. Antes que o devaneio a domine, Kathy diz:

    "The fantasy never got beyond that - I didn't let it - and though the tears rolled down my face, I wasn't sobbing or out of control. I just waited a bit, then turned back to the car, to drive off to wherever it was I was supposed to be."

    É o sentido de dever.

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  4. Os olhos grandes da animação e banda desenhada japonesa são um fenómeno com muita história. Osamu Tezuka , o mais famoso pioneiro japonês neste meio, introduziu essa técnica influenciado pelos filmes de animação da Walt Disney, que no pós-guerra se tornaram ubíquos no Japão. (A sua mais famosa criação da época, o Astroboy ", tem uns olhos que rivalizam com os do Bambi ".)

    A influência enorme de Tezuka na cultura japonesa (é cognominado o Deus da Manga) terão levado à generalização dessa representação um pouco por todo o lado. É essa pelo menos a teoria que mais correntemente é apresentada.

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  5. agradeço ao João G. a informação. também sempre me intrigaram os olhos das figuras animadas japonesas. lembro da Heidi e acompanhei alguns episódios dos Pokemon e Digimon (com grande esforço pessoal, diga-se, lol!) com a minha filha mais velha para saber o que ela via. é realmente intrigante que existam essese códigos de conduta e depois estejam tão vulgariazadas as mangas violentas e pornográficas.

    a única coisa que me atrai no Japão (além de, se pudesse, gostava de visitar muitos países) é ser país de origem de algumas artes marciais, já que, mais novinha, pratiquei durante algum tempo karate-do.

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  6. Estimada Maria do Rosário:

    É absolutamente natural que imensa coisa made in Japan ' se faça imensa confusão.

    Mesmo a mim, que amo profundamente este país que me acolhe já lá vão quase três anos, um ou outro dos exemplos que invoca, a par de muitos outros que poderia, em causa própria, aqui elencar, fazem uma espécie terrível.

    Mas peço-lhe que conceda, a este sublime Império insular, o benefício da dúvida.

    Não é, de facto, um país nada fácil de compreender, nem mesmo para aqueles que o conhecem especialmente bem, como posso afirmar ser o meu caso.

    Talhada, intimamente, ao longo de mais de dois mil e seiscentos anos, por valores muito, mesmo muito distintos daqueles que presidem ao 'nosso' Ocidente, a civilização de Yamato é como um planeta, algures, de uma distante galáxia.
    É normal que se não goste de muita coisa que lhe é próprio. Mas é um caso que merece, em meu modesto entender, ser contemplado por via de um 'olhar panorâmico alargado', se me faço entender, por quem optar por lhe conceder essa 'chance'...

    Em todo o caso, permita-me que lhe deixe aqui um ou outro reparo, com o devido respeito:

    1. Os Japoneses não têm os "olhos em bico" — isso posso garantir-lhe, uma vez que estou rodeado pelos ditos 24-7 —, essa é uma característica física vulgar e genericamente associada pelos não-orientais às gentes deste hemisfério, mas que não corresponde rigorosamente à verdade.
    E de facto ao cabo de algum tempo de aqui estarmos, começamos a notar que apesar, de todas as semelhanças que encontramos entre pessoas de origem diversa, e das generalizações fáceis e redutoras que possamos ser tentados a adoptar, mormente por efeito de um certo comodismo de olhar, cedo ou tarde torna-se evidente que há características físicas (a par de outras) que fazem o 'cliché' sem que correspondam, com um mínimo de rigor, àquilo que um olhar mais atento e persistente nos revela. Ao cabo de algum tempo de se estar aqui, posso afirmar sem quaisquer reservas, e a título de exemplo, que se torna relativamente fácil identificar, numa multidão, um indivíduo de origem Coreana — cujos ditos "olhos em bico" são manifestamente distintos dos da gente nativa (experimente estar cá mais de seis meses, em particular na cidade japonesa mais próxima da península Coreana, Fukuoka , onde eu me acho, e dir-me-á então de sua justiça...)

    2. "Os Japoneses nos consideram uma raça inferior" — eis outro 'cliché' (queira perdoar o tom possivelmente impertinente da minha parte, mas tenho mesmo que tratar, aqui, 'a coisa pelo nome') herdado do período anterior à Guerra do Pacífico e disseminado pelo mais inescrupuloso sensacionalismo de certos canais de comunicação.
    Não existe, entre o grosso da população Japonesa, qualquer complexo de superioridade em relação ao homem Ocidental.
    Muito pelo contrário, o sentimento inverso — por muito estranho que pareça, e ainda que submetido a fortes mecanismos culturais de contenção —, esse sim, prevalece e de que maneira!... Sobretudo se e quando falamos do Japão pós-'45.

    3. Ishiguro Kazuo nasceu, é facto, em Nagasaki em 1954, no seio de uma família Japonesa, mas ainda mal tinha completado os 6 anos de idade, foi, com a sua família, viver para Inglaterra, onde cresceu, foi educado, se fez homem, iniciou a sua carreira literária, e cuja língua, cultura e realidade quotidiana guarda como de sua pertença.
    Ishiguro Kazuo possui, de pleno direito, a nacionalidade Britânica — e não a Japonesa: o legislação do Japão não admite a acumulação de segundas nacionalidades por cidadãos seus originários ou de proveniência diversa que pretendam adoptar a nacionalidade Nipónica.
    Ou se é Japonês ou se é outra coisa qualquer.
    As duas ao mesmo tempo é que não.
    Eles não deixam.

    Meus mais amigáveis e respeitosos cumprimentos,
    de um seu dedicado leitor,

    Luís Filipe Afonso, Fukuoka , Kyushu , Japão



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    Respostas
    1. Nada foi impertinente no seu comentário, pode acreditar. Agradeço-lhe muitíssimo os esclarecimentos. E dou, evidentemente, o benefício da dúvida, com a consciência - como digo no post - de que sou eu que não alcanço o Japão. Só lá estive uma semana - e ainda por cima nem saí de Tóquio.

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  7. Haruki Murakami, autor japonês, é de longe o meu escritor favorito. Mas é dos poucos elos de ligação que tenho verdadeiramente com o mundo oriental.

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  8. Como vejo manga com os meus filhos pokemon e outros...) e também os filmes mais recentes do realizador Hayao Miyazaki (os deliciosos Castelo Andante e Ponyo ), o mesmo da Heidi e do Marco, que também vi, claro, como talvez 95% das pessoas da minha geração, tenho esta ideia de que existem no Japão pessoas com um talento especial (para a ilustração? para a imaginação?) que têm conseguido cativar crianças (e não só) de várias gerações. Isto inclui o quase vício do meu marido no seu «consumo» mensal da revista Lanfeust , que tem sempre muita manga.

    Os olhos redondos e brilhantes sempre me intrigaram. Partilhava até da teoria da mãe da Sónia, mas fiquei convencida com o esclarecimento do Luís.

    Nunca estive no Japão (mas tenho pena), nem conheço nenhum japonês. Do Oriente, conheço apenas um pouco da Tailândia (fora das rotas turísticas), alguns restaurantes chineses e japoneses e, da literatura oriental, conhecia apenas uns livros de contos.

    Até que, no final deste Verão, conheci Haruki Murakami e fiquei com vontade de ler mais. Sobretudo porque todo aquele surrealismo, humor e imaginação, dentro de um quotidiano tão real e cinzento, me fascinou muito...

    Quanto a Kazuo Ishiguro , que nunca li, mesmo que tenha vivido apenas 6 anos no Japão, foram os 6 primeiros anos da sua vida. Os anos de maior aprendizagem e crescimento: aprendeu a falar, a andar, a ler (provavelmente), criou os primeiros vínculos nesse país e nessa cultura, o que certamente o terá marcado para a vida e, nesse sentido, é natural que a sua origem se faça notar na escrita. É biológico. Mesmo sendo britânico de nacionalidade.

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  9. Bom dia Maria do Rosário,
    A questão dos olhos dos desenhos animados japoneses foi sempre uma incógnita para mim (agora bem mais esclarecida!).
    Em relação à cultura Japonesa quando vivia Portugal tive a oportunidade de iniciar um curso noturno na Universidade Nova de Língua e Cultura Japonesa (penso que apoiado pela Fundação do Oriente???) ... tive a sorte da professora ser Japonesa pelo que as conversas sobre as diferenças culturais, que são extraordinárias, tornaram-se tão mais interessantes!
    Eu tenho um certo fascínio pela cultura nipónica, que vai desde o interesse pela sua história, arte (Utagawa Hiroshige) e muito mais recentemente literatura (Haruki Murakami). Tal como outros comentadores antes de mim recomendo-lhe uma vista de olhos a este autor (e.g. Kafka on the shore or Norwegian wood são dois excelentes romances).

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  10. em 'o Japão é um lugar estranho' do Peter Carey, a questão e história das mangas e animações japonesas estão muito bem explicadas.

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  11. Amei o post de hoje!


    CST

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