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A mostrar mensagens de março, 2025

Lusitânia

Sei que, ao longo de muitos anos, um colega meu editor de banda desenhada, o Vítor Silva Mota, tentou tudo por tudo para que uma das histórias de Astérix passasse aqui pela terrinha. E não é que conseguiu? Acabo de ler na newsletter da LeYa que, em finais de Outubro próximo, iremos publicar mais um volume (o 41º) da incrível série Astérix (originalmente da dupla Goscinny- Uderzo) que se intitula, vejam lá, Astérix na Lusitânia! Caramba... que honra termos o gaulês a pisar a calçada portuguesa, ou seja, o chão do extremo ocidental do Império Romano, onde, já sabemos, a comida é boa (sorte do Obélix) e os seus habitantes generosos. Vai tudo correr bem, suponho, embora os novos autores (Fabcaro e Didier Conrad) talvez não estejam assim tão seguros, até porque os romanos... são loucos! Preparem-se: um Astérix em Portugal é coisa nunca vista.

Livros e livrinhos

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Se Março é o mês da poesia, vem aí o mês dos livros. Em 23 de Abril, data de nascimento de Cervantes e Shakespeare, celebra-se o Dia Mundial do Livro (que em Espanha é também conhecido por dia de São Jorge, em que nas ruas se espalham tendas e barraquinhas com livros e se oferecem rosas nas livrarias). Mas é já no dia 2 que se celebra o Dia do Livro Infantil (daí eu ter escrito «livrinhos» no título deste post), e este ano a DGLAB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas) escolheu a talentosíssima Rachel Caiano para fazer o cartaz celebrativo, seguindo uma tradição que já tem 20 anos. Esse novo cartaz (que partilho abaixo) e todos os outros dos anos anteriores vão estar juntos numa exposição intitulada Ler é ser livre, que se inaugura nesse mesmo dia 2 de Abril às 17h30 na Torre do Tombo e ficará aberta ao público até final de Maio. Para mostrar que, em termos de ilustração, Portugal dá cartas e tem grandes artistas. Vamos ver?


 


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Para sempre

Recebo um e-mail do PEN Clube português sobre a abertura do concurso literário que todos os anos premeia um (ou mais, se ex-aequo) poeta (P), um ensaísta (E) e um narrador (N). E, nada é por acaso, o e-mail seguinte é sobre a nova edição de Para sempre, de Vergílio Ferreira, pela Quetzal, um romance que ganhou o PEN de Narrativa em 1984 (além do Prémio Literário do Município de Lisboa no ano anterior) e que é seguramente um dos livros preferidos dos leitores de Vergílio. Como o protagonista tem demasiadas afinidades e semelhanças com o autor, e no livro regressa já velho à casa onde  cresceu para fazer uma espécie de balanço da sua vida, a editora escolheu (e bem) reproduzir na capa deste reedição uma fotografia da Vila Joséphine, onde Vergílio passou parte da infância. Para sempre é um dos romances mais emblemáticos da literatura portuguesa (a par de outros como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, Finisterra, de Carlos de Oliveira ou Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio) e em boa hora volta aos escaparates, relembrando um autor que também deu muito ao ensino (foi professor no Liceu Camões) e deve ser lido pelas novas gerações.

As redes

Este ano, no âmbito da organização de um evento, pedi vídeos a autores lendo textos seus. Fiquei surpreendida quando muitos disseram que apenas concordariam se a exibição dos vídeos se restringisse àquele evento específico e esses não fossem partilhados, nem sequer em páginas de promoção da actividade. Já muita gente prefere não estar nas redes ou na Internet e recusa deixar por aí o seu rasto. Uma das autoras explicou muito claramente que, por causa de um vídeo que foi deixado a circular livremente e apareceu numa rede social, já recebeu mensagens desagradáveis e teve dissabores. Estar presente nas redes também pode ser estar enredado, não poder sair. Se eu chamar um nome a alguém numa sala em que não há mais ninguém, é menos problemático e envolve menos humilhação do que se insultar alguém diante de mais pessoas ou mesmo de uma multidão. Numa série britânica de que toda a gente fala neste momento, Adolescência, este problema é muito visível. E, embora o meu blogue seja sobre livros, não posso deixar de aconselhar a série que, além de ser um primor de realização, vem confirmar muita coisa que ando aqui a dizer há séculos sobre jovens e redes sociais.

O mês da poesia

No fim-de-semana passado estivemos a celebrar o Dia Mundial da Poesia no CCB com várias actividades. Março é mês de Poesia e da Primavera e lá fora, especialmente nos países francófonos, há muitos lugares onde se festejam ambas com um festival chamado Printemps des Poètes, como é o caso do Luxemburgo, aonde irei no fim do mês. Enquanto não chega a data, estou a deliciar-me com uma antologia que tem organização do poeta Rui Lage chamada Filhos da Época e dedicada ao 25 de Abril, na qual 50 poetas portugueses escrevem poemas políticos. De Manuel Alegre às ainda jovens Beatriz Almeida Rodrigues ou Inês Francisco Jacob, passando pela minha geração, com Fernando Pinto do Amaral, Jorge Sousa Braga ou Rosa Oliveira,  esta é uma antologia que representa bastante bem a poesia contemporânea e conta com um prefácio de Augusto Santos Silva, presidente da Assembleia da República aquando da ideia e da encomenda aos poetas. Aliás, a edição é da própria Assembleia. Espreite e deguste.  

Paulo Teixeira e a baiana

Conheci o poeta Paulo Teixeira em 1996, já lá vão quase trinta anos, num encontro de poetas que surgiu por iniciativa de João Soares, então presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Nesse mesmo dia, travei também conhecimento com a querida Ana Luísa Amaral, de quem fiquei amiga, e de Fernando Guimarães e da mulher, tradutora de poesia (Maria de Lourdes); jantámos no Hotel Mundial (que parece que vai mudar de nome e de mãos) e ficámos na mesma mesa. O Paulo esteve que tempos sem publicar e há um ou dois anos publicou a Poesia Reunida que inclui um livro novo; o que eu desconhecia era que também escrevia prosa e acabo de saber que o seu primeiro romance será lançado amanhã no Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa, às 18h30, com apresentação de António Carlos Cortez. Segundo a contracapa é um livro cheio de humor, coisa bem rara na literatura portuguesa contemporânea (o que me provoca ainda maior curiosidade). Chama-se Não Digas O Que a Baiana Tem e trata dos vários encontros que Isabel, uma jovem portuguesa, estabelece em Salvador da Baía. Como ainda nem espreitei, reproduzo o que leio na apresentação: «A narrativa regista os rituais do encontro, os diálogos ferinos, as letras de pagode, as coreografias ousadas. A festa surge como um espaço de realização pessoal, onde as personagens se vingam da rotina e da violência sempre presente. O que o leitor tem em mãos é um romance lúdico e hilariante, que retrata as vivências da juventude e reproduz a rica e inventiva linguagem popular.» Eu cá vou ler. E os Extraordinários?

Excerto da Quinzena

Ao anoitecer a cidade mergulhava numa névoa espessa que, mais do que descer do céu, parecia surgir do rio, supurada pelas suas águas pestilentas. Uma névoa que se arrastava pelas ruelas e adquiria uma tonalidade amarelenta como se se impregnasse, ao passar, da sujidade das docas e dos subúrbios portuários, por mais que os últimos raios de sol conseguissem arrancar-lhe às vezes enganadoras centelhas de cobre. De madrugada, a sua densidade tornava-se sufocante e apenas com a chegada da manhã começava a transformar-se, sem pressas, numa ténue neblina que só desaparecia já bem entrado o dia.  Londres tornava-se então corpórea, real, tão real que podia chegar a ser insuportável. Talvez por isso os habitantes dos bairros mais pobres apreciassem, no fundo, a neblina que envolvia as noites. Ela era a mãe severa que os aconchegava e que ocultava a miséria das suas vidas, uma ardósia onde podiam desenhar sonhos até o sol voltar a levantar o véu a cada dia e a urbe, populosa, febril, fervente como um caldeirão que as águas do Tamisa não conseguiam arrefecer, mostrar o corpo feroz. Uma cidade de onde emanava um halo de corrupção que flutuava com particular densidade sobre os edifícios enegrecidos pela fuligem do bairro de Soho, como uma segunda neblina invisível ao olhar mas perceptível na alarme da pele, que se eriçava perante o espectáculo das ruas.


Ódio, de José Manuel Fajardo, Tradução de Miranda das Neves, Teodolito

Possessivos e altruístas

Um das vantagens de aprendermos várias línguas é a graça das associações que vamos fazendo ao longo da vida. Um dia destes, já nem sei bem onde, ouvi uma pessoa num balcão de uma loja tratar a funcionária por «minha senhora» e, passaram apenas uns minutos, li a legenda de uma pintura italiana de Caravaggio chamada «Madonna di Loreto». Na verdade, a expressão «Madonna» é formada por «ma» (forma arcaica de «mia», minha) e «donna», que quer dizer senhora em italiano (nós usamos também a palavra «dona» como forma de tratamento ou para aristocratas e rainhas, por vezes abreviada D.). Assim sendo, «madonna» é equivalente a «minha senhora», o que tem alguma graça, porque o «minha» é um tanto ou quanto possessivo, ou não? Já aqui na nossa terra traduziríamos «Madonna di Loreto» por «Nossa Senhora do Loreto», ou seja, usando nossa somos mais altruístas, dividimos a senhora com todos, não a queremos só para nós. Donde virá esta diferença é que não sei... No entanto, ao lembrar algumas performances da cantora Madonna quando estava no auge, dou razão aos italianos e não deixa de me ocorrer a expressão: Minha Senhora!

Relato de uma tragédia

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Naquele dia, Griselda acordou com uma dor de cabeça insuportável e não se conseguiu levantar da cama. Teve de ser Flavia, a filha de seis anos, a lembrá-la de que tinha de ir para a escola. A mãe levou-a a custo e, já em casa, sentou-se ao espelho e maquilhou-se exageradamente, enquanto os filhos pequenos brincavam por ali. Mas a dor persistiu e, quando abriu a porta para dizer ao marido que não se sentia nada bem, Claudio ignorou-a (detestava vê-la maquilhada), desconhecendo a surpresa horrorosa que o esperava no regresso a casa. Griselda e Claudio, argentinos fugidos da ditadura e exilados em França, eram porteiros de uma escola onde a autora deste livro, sua conterrânea, os visitou em criança; e foi com a recordação da sua incredulidade perante os factos acontecidos naquele dia que, mais de trinta anos depois, resolveu contar esta história improvável de um homicídio e entrevistar todos os implicados: Griselda, Claudio, a pequena Flavia, a professora, até a advogada... E é pelas vozes de todas essas pessoas que saberemos como uma mulher que passou por tantos contratempos e desgostos desde a infância se tornou um monstro naquele dia e, ainda assim, depois do crime hediondo que cometeu, foi para a filha uma mãe amorosa. Baseado numa história verdadeira, Naquele Dia, de Laura Alcoba (que virá no final do mês a Portugal), é o relato incrível das causas e consequências de um acto inominável e da forma como por vezes basta uma palavra para desviar alguém do seu destino. Um livro que não se consegue parar de ler.


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A Booker is a Booker is a Booker

Há prémios que não me dizem nada, mas tendo a confiar no Booker Prize, pois provavelmente a maioria dos romances que chegaram à final ou venceram esse prémio foram livros de que gostei bastante ou de que gostei muito. Nos últimos anos, claro, houve algumas excepções (Bernardine Evaristo não é a minha praia, devo dizer...) e o Booker, como todos, teve alturas em que fugiu mais para as questões fracturantes do que para a literatura, o que me desiludiu; ainda assim, a média manteve-se muito alta em termos de qualidade. E não é que este não tenha qualidade, mas o penúltimo vencedor do Booker Prize Internacional publicado em Portugal pareceu-me na verdade aborrecidíssimo: repetitivo, pretensioso, cheio de filosofices e com referências muito óbvias a peças de música clássica, não sei explicar, mas li-o arrastando-me ao longo de muitas páginas e suspirei de cansaço em alguns capítulos, quase iguais a outros que tinham aparecido umas quantas páginas antes. Calculo que o problema não seja do livro, mas meu; afinal, os encómios lá fora e cá dentro a este livro (Kairos, de Jenny Erpenbeck) repetem-se, e a badana até sugere a ainda jovem autora como obviamente nobelizável (expressão retirada de um artigo de um jornal bastante respeitável); por isso devo ser eu que ando sem grande ânimo para leituras do tipo. Aos que já o leram pergunto se gostaram, talvez isso me possa dar uma ideia clara sobre o meu estado actual, mesmo que não sobre o romance. Um autor que publico, ao entregar-me o seu último original, perguntou-me se ainda estaria bem de cabeça e podia continuar a escrever. Eu pergunto a quem já leu se a minha cabeça ainda estará boa para apreciar originais...

Desabafo

Nota: este post foi escrito na quinta-feira, para adiantar, porque vou ter uma semana de loucos. Está fora de prazo, como poderão perceber, mas não vou escrever outro pelas razões indicadas. Serve de qualquer maneira para dizer que, quando o assunto é um, o comentário não deve ser a outra coisa...


Na semana passada fui um pouco brusca com um dos Extraordinários. Teve de ser. E hoje escrevo este post para lhe agradecer ter vindo assumir-se como «culpado», ou «retractar-se» simpaticamente, pois imediatamente a fúria me passou. No entanto, acho que devo fazer aqui um esclarecimento: comecei este blogue sozinha e, quando me reformar, provavelmente ainda estarei a escrevê-lo. É um blogue que fala de livros e edição com comentários abertos (por enquanto), mas não é um blogue profissional nem da LeYa, é meu. Até posso comentar livros de colegas (se só lesse os que publico, a minha vida não seria o que é), mas não é por trabalhar na LeYa que conheço as motivações dos outros editores e muito menos algumas celeumas e polémicas que de vez em quando acontecem. De resto, tento meter-me o menos possível nas propostas e decisões de quem trabalha ao meu lado porque também não quero que me façam o  mesmo. E, para quem não sabe, é enorme a quantidade de pessoas desde 2021 que faz teletrabalho e vem à editora apenas uma vez ou duas por semana; nem conheço o nome de todos os assistentes editoriais. Por isso, quando me vieram aqui ao blogue falar do caso de um livro recusado pela LeYa, eu tinha estado uma semana fora e não sabia de nada. Perguntei e deram-me a resposta que vos dei. Não li o livro e sei o mesmo que toda a gente. Os jornais já disseram tudo o que havia para ser dito. E quando saírem outras notícias, saberemos todos ao mesmo tempo. Deixem-me por favor em paz com o livro do Germano Almeida que (sabe-se já) vai ser publicado pela LeYa porque quem se queixou afinal não se queixou (e ainda bem).

Poesia para todos

Daqui por uma semana é Dia Mundial da Poesia (21 de Março, dia da Primavera também), mas eu cá vou comemorá-lo no dia 22, sábado, que é quando terá lugar a programação que começa logo de manhã no CCB. Este ano, convidaram-nos, à Filipa Leal e a mim, para programarmos um dia inteirinho de actividades poéticas e, claro, dissemos que sim! Haverá uma oficina para miúdos de todas as idades (uma espécie de poema-harmónio); uma homenagem ao poeta Nuno Júdice, com testemunhos de amigos próximos e um filme inédito sobre o seu fazer poético; leituras por actores profissionais de alguns dos cerca de quinze poetas que perdemos desde 2020 (e este ano começou logo com a grande perda de Maria Teresa Horta); um podcast de Inês Maria Meneses (quem se aventura a ir até lá ler um poema?); uma instalação de vídeo com leituras de mais de 40 poetas contemporâneos de várias gerações ao longo de todo o dia; um miniconcerto com conversa sobre a poesia do fado com Aldina Duarte e, entre outras coisas, um incrível espectáculo do grande João Gesta, autor de uma série de recitais no Porto que esgotam há anos, recital esse que atravessará a poesia portuguesa ao longo de mais de cem anos. E (o melhor) é que é tudo com entrada livre. Então, vêm? O programa detalhado fica abaixo.


https://www.ccb.pt/evento/dia-mundial-da-poesia-2025/


 

Uma estreia auspiciosa

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Quem Tem Medo dos Santos da Casa, de Sara Duarte Brandão, é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina. Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação. Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa; porém, é numa amizade improvável com uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção. Com um ritmo poético e introspectivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que reflectem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas. Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade. Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa? Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades. Vencedor do Prémio Cidade de Almada.


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Solidão do escritor

Falei aqui há cerca de uma semana da solidão com que se escreve (a partir de uma frase de Paul Auster) e da leitura como possibilidade de ficarmos menos sozinhos, de percebermos as personagens como alguém que sofre ou se alegra ao nosso lado. Mas há outro tipo de solidão para um escritor, a da incapacidade de partilhar a vida seja com quem for, porque escrever está sempre primeiro, escrever é a própria vida. Li um dia destes num post de um amigo espanhol no Facebook que o romancista norte-americano Philip Roth está entre os solitários deste tipo. Parece que disse uma vez numa entrevista: «Vivo sozinho, sem ninguém por quem seja responsável ou com quem dividir o tempo. A minha agenda é inteiramente minha. Escrevo todo o dia e, se me apetecer, volto para o meu escritório depois do jantar. Não tenho de me sentar a entreter quem quer que seja. Se acordo às duas da madrugada com uma ideia, acendo a luz e vou escrever. Estou de serviço, como um médico nas urgências. Eu sou a emergência.» Percebo que a escrita às vezes é tão absorvente que não deixa espaço para outra vida. Mas essa outra vida não é o que oferece matéria ao escritor?

Educar

As grandes empresas como aquela em que trabalho oferecem muitos cursos de formação nas mais variadas áreas (uma das quais a prevenção de ataques cibernéticos, cada vez mais sofisticados), mas também conversas (no meu caso, as LeYa Talks), geralmente com especialistas, com uma duração de 45 minutos a uma hora, na maioria das vezes interessantes. Na semana passada, tivemos uma destas conversas sobre as desigualdades na educação com Miguel Herdade, com quem aprendi muitas coisas e confirmei suspeitas que tinha sobre outras; mas hoje o importante é que todos fiquem a saber que os primeiros três anos de vida são aqueles em que o cérebro mais se desenvolve e que, por isso, se apostarmos em todo o mundo em creches de qualidade para as crianças mais pequenas, elas estarão desde logo mais preparadas para o futuro e isso significará, a longo prazo, melhor emprego e melhor desempenho. Segundo Miguel Herdade, que estuda o assunto, pode haver uma diferença cognitiva entre ricos e pobres aos três anos de idade de cerca de vinte meses (os ricos estão muito mais adiantados por comerem melhor, terem pais mais cultos que podem ajudar na aprendizagem, melhores educadores nas creches onde são estimulados etc.). Sobre o caso português (Miguel Herdade vive em Londres e falou do caso inglês por comparação), a realidade mostra que a creche, longe de ser um lugar de estímulo e conhecimento, é mais um lugar onde os pais vão depositar os filhos para poderem ir trabalhar, e uma das provas disto é que os infantários públicos estão dependentes do Ministério do Trabalho, e não do Ministério da Educação. A par deste facto, o segundo elemento mais importante para o desenvolvimento das crianças e adolescentes são os professores (e em Portugal a falta de professores é crítica) e os dados dizem-nos que um bom professor reduz de 50% para 10% o número de negativas numa turma. Dois dados importantes em que os governos deviam pensar: um ensino pré-escolar de qualidade e professores realmente com uma boa formação e com vocação.

Portugal em Espanha

A nossa conselheira cultural em Madrid não pára e Portugal está cada vez mais presente no país vizinho. Depois da representação em peso na ARCO Madrid, mais de 40 artistas portugueses estarão espalhados em exposição por 34 galerias espanholas em 11 cidades diferentes e haverá ainda visitas guiadas (as últimas) à exposição de Almada Negreiros que já aqui referi há tempos. Mas, além da pintura, haverá recitais, sessões de fado (com Sara Correia), conferências, dança e mesmo cinema, com o filme Grand Tour, de Miguel Gomes, premiado em Cannes. E onde fica a literatura no meio disto tudo? Pois também não foi esquecida, e seremos muito bem representados pela nossa escritora Patrícia Portela, que esteve em residência literária há uns tempos e que lançará na capital espanhola a tradução do seu Para cima e não para o Norte, que terá três apresentações, e por uma conversa que se prevê mesmo boa entre Lídia Jorge e a fantástica Rosa Montero sobre o premiadíssimo romance Misericórdia. Como se costuma dizer, Madrid me mata (porque não posso lá ir ver nada disto, claro).

Excerto da Quinzena

Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.


«Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!» E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.


 


Sara Duarte Brandão, Quem Tem Medo dos Santos da Casa,


Prémio Literário Cidade de Almada 2023

Outra história

Nas Correntes d'Escritas ouvem-se sempre histórias belíssimas, dessas que, claro, podiam estar dentro de um livro; e o problema é que geralmente são tantas em tão pouco tempo que esta minha cabeça senil já não consegue identificar quem contou o quê e, neste caso, o autor da história que me perdoe por não ser aqui nomeado. Numa das mesas, alguém falou de uma avó antiga, que já estava velhinha e viera viver para a cidade para estar mais perto dos filhos, em casa de quem, por falta de coisas para fazer, rezava todos os dias o terço. No início, rezava pelas amigas que ainda estavam vivas, mas, ao fim de um certo tempo, as amigas foram morrendo,  e a avó decidiu que podia rezar pelas pessoas da sua aldeia com quem tinha convivido e de quem tinha muitas saudades. Começou, pois, rua por rua, a ver quem morava em cada casa e a rezar pelos respectivos habitantes. No entanto, ao fim de algum tempo, chamou a filha, preocupada, e disse-lhe que se calhar o melhor era passar a rezar pelos mortos. E, quando esta quis saber o porquê daquela decisão, respondeu apenas: «É que lá na aldeia há ruas inteiras que já morreram.»

Um pacho contra a solidão

Leio numa rede social uma frase do saudoso Paul Auster (de quem li muitos romances e que tive o prazer de conhecer pessoalmente em Lisboa) que faz tocar uma campainha na minha cabeça. Diz o seguinte: «A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o acto de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos.» Quando disse ainda agora que tocou uma campainha na minha cabeça, disse-o porque nos meus e-mails, junto da assinatura, acrescentei uma frase de C. S. Lewis que complementa a de Auster: «Lemos para saber que não estamos sozinhos.» Acho que quem lê e escreve sabe disso melhor do que ninguém, o que falta é convencer as pessoas em geral de que estão muito mais bem acompanhadas por um bom livro do que por horas e horas nas redes sociais a ler tantas vezes coisas agressivas, pobres e imbecis. Se, como diz o povo, «burro velho não aprende línguas», temos de começar pelos mais pequenos. Um filho único, por exemplo, ficará muito menos sozinho com um livro na mão.

O que ando a ler

Como penso que já aqui disse, a grande escritora norte-americana Elizabeth Strout esteve em Portugal há uns dez dias para uma sessão na FLAD e outra (a que pude assistir ao vivo, e que boa foi!) na Livraria Buchholz. Já o tinha começado a ler, ao seu Conta-me Tudo, o romance que saiu pouco antes da sua visita, mas ainda ia no princípio e, por isso, ainda bem que ela não contou tudo. Com o seu hábito de fazer saltar personagens de livro para livro, neste encontramos a querida Lucy Barton (ainda a viver com o ex-marido junto à praia, o que principiou com Lucy à beira-mar por causa da pandemia), mas a conviver também com Olive Kitteridge, que neste romance está com perto de noventa anos, viúva, a visitar uma amiga no lar todos os dias e a contar igualmente histórias a Lucy (quando não a ouvi-las da sua boca). Mas, para quem ainda não saiba, conheceremos Bob e Jim Burgess (de The Burgess Boys, ainda não traduzido em Portugal), um par de irmãos próximos e distantes com muita tristeza e culpa às costas. É um livro especial, por ter tanta gente dos outros livros lá dentro, e é provavelmente o fecho das histórias de Lucy, Olive e Bob, segundo Elizabeth Strout disse, embora ela dê sempre respostas muito curtas ao que se lhe pergunta e provavelmente não conte tudo. Leiam-no e esperem ansiosamente pelo que há-de vir.