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A mostrar mensagens de setembro, 2024

FOLIO

Todos os anos nos preparamos para vários festivais literários em muitos lugares do País. O momento mais alto do ano, para mim, é sem dúvida o das Correntes d'Escritas, não só porque o acompanho quase desde o primeiro momento, mas também porque atingiu uma dimensão impressionante (cheguei a ver Adriano Moreira discursar de pé para mais de 700 pessoas) e porque quase sempre inclui intervenções memoráveis, já que os temas são muito vagos e permitem aos convidados falar do que querem. Mas em Outubro temos o FOLIO, outro dos festivais literários a que nunca falto, e este ano ainda menos, pois tenho lá três autoras que publiquei: Hanna Bervoets, a holandesa que é autora de um pequeno romance admirável que fala de um grupo de jovens que modera conteúdos numa rede social, Tivemos de Remover Este Post; Anna Kim, austríaca de ascendência coreana, que escreveu História de Uma Criança, um romance que fala de um caso real de segregação na América dos anos 1950 (ela vai estar a dialogar com um autor bósnio de que um dia destes vos falarei); e Mónica Ojeda, a equatoriana que escreveu Mandíbula, um romance sobre uma professora que rapta uma aluna num colégio da Opus Dei. O FOLIO está quase a começar, por isso não deixem de consultar o programa, pois vai de certeza valer muito a pena.


https://foliofestival.com/programa/


 

Revisitar

Apesar das centenas de livros que saem em Portugal todos os meses (é impossível acompanhar tudo e há muita coisa boa que passa despercebida porque não consegue ocupar os melhores lugares dentro das livrarias e não chega quase a ser vista), tenho-me dado conta de que há muitos autores que estão a ser repescados e lançados como novidades. Noutro dia, reparei que Manuel Vásquez Montalbán, que tinha deixado a Asa pouco antes de eu entrar na LeYa, há uns quinze anos, começou a ser republicado pela Quetzal, editora que também está de novo a dar à estampa o grande Gonzalo Torrente Ballester e que lançou já A Saga/Fuga de J.B. e mais recentemente o delicioso Filomeno (a que Saramago chamou "espantoso" no lançamento, na presença do autor, sem se lembrar que "espantoso" em castelhano quer dizer "horroroso"); esse romance traz-me muitas recordações, até porque Ballester participou nessa altura, junto com Torcato Sepúlveda e Saramago, num programa de televisão conduzido por Francisco José Viegas sobre livros; e foi justamente por causa desse programa (e do livro Diplomacia, de Kissinger) que eu e o então editor com quem trabalhava tivemos uma discussão que me levou a pedir a demissão no dia seguinte. Isto foi em 1996, e já não interessa para nada, mas não deixem de ler estes dois autores agora relançados, que valem mesmo muito a pena.

Jesus na primeira pessoa

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Para o autor livro de que hoje vos falo, Jesus é uma coisa e Cristo é outra. Quando em pequeno Miguel Real explicou ao catequista que não acreditava que ninguém que tivesse morrido pudesse voltar à vida, este ficou tão chocado com aquela sinceridade que foi queixar-se à mãe do rapazinho, de quem recebeu a resposta que merecia. Foi desde então que o problema da Ressurreição não mais deixou de preocupar o escritor e, tantos anos volvidos, o levou a escrever esta Autobiografia de Jesus tomando a voz do Filho de Deus, já que nada se conhece que Jesus tenha deixado escrito pela sua mão e os Evangelhos praticamente não falam do que foi a sua vida familiar, a sua aprendizagem, as suas revelações, a sua conduta com as mulheres e, sobretudo, a sua tremenda solidão. É sobre tudo isso que trata este romance de um autor frequentemente atraído pelos assuntos religiosos. Com um final incrivelmente inventivo e inesperado, parece que aquele nó cego criado na mente do autor durante a infância vai certamente ser desatado durante a nossa leitura.


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Posadas

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Tenho uma enorme simpatia e ternura por Carmen Posadas, autora uruguaia que publiquei na Temas e Debates no princípio da minha carreira como editora (já tinha sido assistente editorial noutra casa, mas foi em 1998 que pude passar a escolher os títulos, e um dos primeiros romances estrangeiros que publiquei foi Pequenas Infâmias, desta autora, que ganhara pouco antes o Prémio Planeta). Lembro-me de termos inaugurado o auditório da FNAC do Chiado, que tinha aberto pouco antes, com o lançamento desse livro, que foi então apresentado por Francisco José Viegas, e de ter sido um prazer conhecer Carmen ao vivo, porque é uma pessoa muito querida, bonita e sem peneiras (apesar de ter todas as razões para as ter). Quando saí da editora, em 2005, perdi-a como autora (não foi a única, são ossos do ofício), mas fico contente que ela tenha vindo parar à LeYa, embora não pela minha mão, e vou de certeza ao lançamento de Hoje Caviar, Amanhã Sardinhas, livro que assina com o irmão, Gervasio Posadas, lançamento que vai ocorrer dia 30. Não li ainda o livro, mas não vou perdê-lo: filhos de um diplomata, os autores contam as aventuras e desventuras de passar a infância e a adolescência mudando permanentemente de morada (Madrid, Londres, Moscovo...) e elogiam uma mãe embaixatriz que, estando onde estivesse, era sempre capaz de resolver todo o tipo de situações, embora se metesse em sarilhos com frequência. Deixo-vos o convite para se quiserem aparecer.


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Angola por quem lá viveu

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Já aqui falei deste livro e, por causa de um comentário que logo surgiu, queria sublinhar que ele foi escrito por alguém que nasceu e viveu em Angola até 1975, e que já o seu avô morava ali desde o início do século XX, ou seja, o autor não está a inventar, sabe bem do que fala. Mas hoje é a festa de lançamento, e não podia deixar de trazer Amarelo Tango, de Nicolau Santos, de novo à baila, até porque gostaria muito que nos acompanhasse nesta apresentação, que irá ser feita por outra pessoa que nasceu em Angola, voltou a seguir ao 25 de Abril e escreveu sobre tudo isso no magnífico livro O Retorno; sim, Dulce Maria Cardoso. Por isso, se puder, apareça mais logo; senão, leia este maravilhoso relato de três gerações de portugueses em Angola, que é também a história de um país e das suas mudanças ao longo do tempo, contada por quem lá estava e queria ficar, mas não pôde. Até logo.


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Complementaridade

Há algumas pessoas extremamente ingénuas que acham que se consegue ser um bom escritor sem ter lido nada. Até já me aconteceu aconselhar um autor que me tinha mandado um original a ler mais (percebia-se pelo que escrevera que precisava muito de ler) mas ele respondeu-me que não gostava de ler, gostava era de escrever (e eu fiquei de cara à banda). Enfim, há que perceber que a leitura e a escrita não existem uma sem a outra e que a segunda só se aperfeiçoa lendo e escrevendo muito. Não há escritor conhecido que não tenha lido imenso (geralmente é o gosto pela leitura que leva alguém a ser escritor). Mas qualquer escritor tem de ler mesmo enquanto está a escrever porque em certos casos é preciso fazer investigação sobre determinados assuntos ou buscar sinónimos para palavras (e o dicionário também é bom de ler, acreditem). Até para uma simples crónica, por exemplo, abro sempre pelo menos dois ou três livros para confirmar isto ou aquilo e não meter a pata na poça, confiando demasiado nas minhas memórias; mas, mesmo que não seja matéria de pesquisa, ler dá-nos ideias, ensina-nos novas técnicas narrativas, aumenta o nosso vocabulário, ilustra-nos sobre a forma como podemos estruturar uma história e por vezes até nos dá vontade de começar uma coisa nova. Stephen King fala de tudo isto em Escrever, um livro maravilhoso para os que estão a começar no ofício de escritores, mas há muitos outros guias que podem ajudar, sendo que todos eles dizem o mesmo: que a leitura é o primeiro passo para quem quer escrever.

Excerto da Quinzena

Observo-a. As suas mãos são transparentes, e tem uma tatuagem imprecisa no bíceps esquerdo. Uma cobra-real. A sua saia malva deixa entrever um delta de varizes na barriga das pernas, uma cartografia azul-clara. O seu corpo regista tudo. Posso ler todos os amores passageiros, os abortos, as traições, as viagens, as rendas por pagar. Um flamingo ferido, um anjo tantas vezes caído que já não consegue levantar-se. O verniz das suas unhas está lascado, deslavado, tão cansado como as suas olheiras. Quase adivinho uma tosse forte e profunda que lhe dilacera o tronco muito magro -- como se cada amante de passagem tivesse bebido o ar do seu peito até à última gota. Apesar de uma espessa camada de maquilhagem, vejo duas, três crateras no seu nariz. Treme enquanto fuma o seu longo cigarro mentolado.


 


Velibor Čolić, O Livro das Despedidas, tradução de António Gonçalves

Drogas

A leitura é a minha droga, e às vezes bem dura, como sabem todos os leitores destas Horas Extraordinárias. Ainda assim, duvido que me prejudique, como acontece com outras que infelizmente têm matado muita gente ao longo dos tempos. Mas a verdade é que o consumo de algumas drogas é muito mais antigo do que supomos e que, desde que supervisionado por especialistas, pode ter efeitos bem mais positivos e rápidos para a saúde mental do que pensamos. Este é, por exemplo, o caso dos psicadélicos, como nos diz o livro Psicadélicos, da autoria de Pedro Teixeira, professor e investigador, que vai estar hoje a falar do assunto destas novas terapias no El Corte Inglés às 18h30, dividindo a mesa com João Taborda da Gama, advogado especialista em regulação de drogas, e Maria do Carmo Carvalho, professora universitária nesta área. A moderação é da jornalista Filipa Melo. Para quem quer saber mais, até pode ir lá e perguntar.

Festival de Poesia de Lisboa

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Hoje inicia-se o Festival de Poesia de Lisboa, que se prolonga até ao próximo domingo e inclui actividades várias num figurino nem sempre vulgar, pois em várias das sessões as conversas serão entremeadas por música e leituras. Não fui às outras edições do festival, tenho de confessar, mas achei bem simpático que quisessem homenagear-me na sessão de abertura, embora saiba bem que isso quer dizer que já estou com certa  idade (no sábado, aliás, entro dolorosamente na terceira). Na primeira sessão vou falar um bocadinho do meu percurso como poetisa e na sexta 20 partilhar uma mesa com dois amigos, o Fernando Pinto do Amaral e o Nuno Miguel Guedes, com moderação do sempre gentil Alex Cortez. Se gosta de poesia e se anima com estes encontros, deixo abaixo algumas ideias. Hoje o blogue tem mais cartazes do que palavras, mas há dias em que eu também preciso de descansar.


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Uns sapatos muito especiais

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Acusado de ter engravidado uma senhora de origem francesa, Estanislau Augusto dos Santos vai como degredado para Angola logo no início do século xx. É lá, porém, que lhe sai a sorte grande, tornando-o acionista de um pequeno império composto de pastelaria, cervejaria, fábrica de refrigerantes e quatro cinemas. Casa-se por procuração com uma jovem de quem terá três filhos, mantendo embora uma relação com a mulata Rosalinda, de quem terá mais um. Encabeça as reivindicações dos comerciantes contra o poder da Metrópole e passa por peripécias várias, quase chegando a ser preso; abalado e desgostoso com a situação, decide regressar a Portugal em 1964. Quem fica a tomar conta dos negócios é Tati, o filho mais velho, que tem um jeito especial para falar com os operários quando as coisas começam a azedar. No início dos anos 1970, o único neto de Estanislau que tem o seu nome andará envolvido na luta pela independência de Angola, mas compreende que os seus sonhos são de papel – e que o papel se rasgou. É esse neto que, anos depois, se apaixonará por uma jovem que o fará regressar ao maior segredo da família, o que liga toda a narrativa em torno da cor de uns sapatos: amarelo tango. Esta é a saga absolutamente fascinante de três gerações de uma família, contada num mosaico de pequenos episódios que – do cómico ao trágico – nos oferecem de forma magistral a história de Angola no último século. Amarelo Tango é o primeiro romance do jornalista Nicolau Santos.


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Um caderno só seu

É impossível não pensar em Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf, quando lemos O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes, nascida em Roma em 1911, filha do Embaixador de Cuba. Este seu romance, escrito nos anos 1950, é um livro sobre a falta de tempo e espaço para si própria que sente uma mulher casada com dois filhos já universitários, pois dela se espera que resolva tudo em casa, apesar de ter também um emprego como secretária, pois a guerra foi há pouco tempo e o seu ordenado tornou-se necessário para equilibrar as contas da família. De repente, porém, compra um caderno e começa a escrever nele as suas reflexões, os seus pensamentos e, claro, também os seus segredos. Esconde o caderno sempre muito bem escondido, mas passa a vida apavorada a pensar que um dos filhos ou o marido possa dar com ele e descobrir-lhe os pecados (mais intenções do que actos). Porém, o mais interessante nesta história é que aquilo que ela critica na filha (demasiada liberdade, uma relação avançada...) acaba por ser um pouco o que ela, afinal, deseja para si própria. Muito curioso também é o conservadorismo extremo do filho que, num toque surpreendente, acaba por cair nas suas próprias armadilhas e fazer o contrário do que prega. Esta é uma autora que vale muito a pena ler, agora redescoberta e republicada em muitos países, elogiada por Annie Ernaux e Elena Ferrante. A tradução é de Ana Cláudia Santos.

Coisas com nervo

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Capicua? Sim, o número é 22 e saiu no passado dia 2. Falo da revista de poesia Nervo, cada vez mais viva e consolidada. Desta feita, participam reconhecidos poetas portugueses, como Ana Paula Inácio, Inês Lourenço, Paulo José Miranda e Nuno Felix da Costa, entre outros, e bem assim congéneres da Palestina traduzidos por Regina Guimarães e poetas do Brasil que vale muito a pena conhecer. Além dos poemas, a revista inclui um testemunho de Almeida Faria sobre O'Neill. Tudo «decorado» com imagens de Nuno Viegas e com o anúncio extra de uma sessão chamada«Os Nervos da Voz», que decorrerá amanhã no anfiteatro ao ar livre, em Tancos, às 16h30, na qual leitores, poetas, dizedores e apreciadores estarão juntos a interpretar e ouvir poemas como nos tempos em que a transmissão do texto poético era sobretudo oral. Se estiver por perto, a coisa promete. Também amanhã, em Lisboa, no CCB, o espectáculo baseado em Torto Arado, chamado Depois do Silêncio (a terceira parte da Trilogia do Horror), encenado pela premiada Christiane Jatahy. A ver absolutamente.


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Diário Incontínuo

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É hoje o lançamento na cidade do Porto de Diário Incontínuo, o mais recente livro de Mário Cláudio, e a apresentação estará a cargo de João van Zeller, que foi companheiro de liceu do escritor e o conhece portanto há muito tempo, antes ainda de ele ter começado a escrever o diário, aos dezasseis anos, que depois viria a ser várias vezes interrompido e retomado. A par das entradas mais pessoais, que tratam de questões domésticas (como obras em casa ou idas ao supermercado) ou relacionamentos mais ou menos íntimos, poderemos acompanhar neste livro também a história do País nos últimos sessenta anos, sobretudo a intelectual e a da comunidade literária. Mas já correu bastante tinta sobre este livro nos jornais, e cada um dos que escreveu sobre ele se centrou em diferentes aspectos, pelo que, se estiver pelo Norte, vai ser bom ouvir João van Zeller: apareça e será muito bem-vindo. No final, antes dos autógrafos, o poeta Aurelino Costa lerá excertos da obra.


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À vontade do... escritor

Lembro-me perfeitamente de o meu pai nos contar que Balzac escrevia de pé, numa espécie de prancheta inclinada, semelhante a um estirador de arquitecto, e ia atirando para o chão as folhas que concluía, apanhando-as apenas ao final da jornada de trabalho. Onde leu ele isto, não sei, pois então não existia Internet, esse depósito de informações inúteis; provavelmente num livro sobre Balzac, ou nem isso,  num livro que apenas o mencionasse en passant, isto para usar uma expressão na língua do autor de A Mulher de Trinta Anos. Bem, a verdade é que foi num livro que li há muito pouco tempo (e também en passant, porque o dito livro não é sobre escritores) que Balzac não estava sozinho na opção de escrever as suas obras nessa estranha posição, pois escreviam igualmente de pé, apoiados numa escrivaninha alta, Hemingway, Virginia Woolf, Dickens, Lewis Carroll e o querido Philip Roth. E que escritores ainda mais excêntricos (em termos de postura a criar) escolhiam escrever deitados, sendo isso mais ou menos esperado num Proust sempre doente, mas já não tanto em Truman Capote, Mark Twain ou até George Orwell que se definiu, aliás, como um autor "completamente horizontal" e incapaz de pensar estando na vertical... Ele há coisas.

Leituras atrasadas

Quando tenho livres alguns dias seguidos, como nestas férias, procuro ler alguma antiguidade que me escapou, a par dos romances acabados de sair e muito badalados. Este ano aconteceu com Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, que recuperei da estante dos autores lusófonos mas foi relançado pela editora Maldoror recentemente. É uma colectânea de sete contos belíssimos, o primeiro dos quais dá nome ao conjunto, escrita originalmente em 1964 por um homem cujo talento foi descoberto por José Craveirinha, Rui Knopfli e Eugénio Lisboa, mas que lamentavelmente se separou muito cedo da literatura, casando-se decididamente com a política. Moçambicano, Honwana foi perseguido pela PIDE, torturado e preso, e este seu livro, que é uma denúncia do colonialismo, foi apreendido quando saiu. As actividades do autor como membro da FRELIMO não cessaram por causa disso e foi, além de uma personalidade bastante interventiva, um destacado jornalista e dirigente político, tendo, já com o país independente, desempenhado uma série de cargos nacionais e internacionais de grande relevo. Nós Matámos o Cão Tinhoso tem contos magistrais, sendo o meu preferido o que se chama "Dina" e que fala de uma rapariga negra que tem um encontro marcado com o branco que é capataz do pai. 

Os dias que correm

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Dois anos depois de ter matado um terrorista islâmico evitando um atentado num café de Paris, Laura viaja pelo mundo contando a sua história e promovendo o livro em que relata o acontecimento. A fama em torno do seu nome espalha-se por toda a parte mas, nas redes sociais, o debate acerca do que fez levanta questões sobre racismo, xenofobia e todo o tipo de extremismos. Laura é glorificada por muitos, mas também alvo de ameaças de morte que, se a princípio prefere desvalorizar, acabam por obrigá-la a fugir e procurar refúgio no único lugar onde, contrariamente a tudo aquilo em que acreditava, se sente segura. É então nas pausas desse ruído virtual que enche o mundo, e de que ela também depende inexoravelmente, que Laura, nas suas múltiplas reflexões acerca do passado, da sua relação com os pais e com o ex-marido e da sua experiência como repórter de guerra, compreenderá as implicações do seu acto. Numa narrativa muito pessoal e emotiva, Os Dias do Ruído – o muito ansiado novo romance de David Machado, vencedor do Prémio da União Europeia para a Literatura – explora as complexas dimensões do mundo contemporâneo, profundamente dominado pelas redes sociais, em que as vozes se sobrepõem quase sempre numa estridência incompreensível.


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Excerto da Quinzena

Festejávamos, com alguns meses de atraso, os dez anos da refundação do Instituto por Paul, ao mesmo tempo que prestávamos homenagem à pessoa do fundador. Ou, mais precisamente, celebrávamos o décimo aniversário da «unificação» do Instituto, na primavera de 1991, e o quadragésimo aniversário da sua criação em 1961. Mas tratava-se, acima de tudo, de uma celebração dos trabalhos de Paul. Acho que não faltava ninguém – dos históricos, os do Leste, estavam todos presentes; os novos membros, os colegas de Berlim e de outros lugares tinham quase todos aceitado o convite. Alguns, como Linden Pawley, Robert Kant e alguns investigadores franceses, até tinham vindo do estrangeiro. Este congresso flutuante intitulava-se Jornadas Paul Heudeber; estavam previstas dois sessões por dia, teoria dos números, topologia algébrica, assim como uma sessão de história da matemática na qual eu iria participar.


O único ausente era o próprio Paul.


Maja acabava de festejar o seu octogésimo terceiro aniversário.


Maja bebia litros de chá.


Maja estava alegre e triste e silenciosa e faladora.


Todos sabíamos que o lugar dela não era ali, a bordo do Beethoven num colóquio de matemática; todos sabíamos que ela era indispensável ali.


 


Mathias Énard, Desertar, tradução de Joana Cabral

Maravilhosamente original

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Hoje há lançamento, e é na Figueira da Foz, onde vive o autor, António Tavares, que já foi finalista e vencedor do Prémio LeYa (e que ganhou muitos outros prémios com esses ou outros livros). É um escritor prolixo, que mexe vários cordelinhos; e, se me surpreendeu muitíssimo positivamente no ano passado com um pequeno livro de poemas chamado A Arte de Usar a Baioneta em Tempo de Guerra, que inclui também algumas ilustrações belíssimas e delicadas, surpreendeu-me mais ainda ao propor o livro de contos que hoje apresentamos, intitulado Mesmo não Indo, o Tempo Vai, a que o crítico João Lopes não poupou encómios numa excelente recensão saída no mês passado no Diário de Notícias, na qual fala da extrema criatividade, da diversidade e da capacidade ficcional e cinematográfica deste livrinho num tempo em que filmes, séries e livros estão a ficar cada vez mais planos e menos imaginativos. Se estiver por perto, acompanhe-nos, vai valer a pena ouvir o professor Manuel Portela falar deste livro.


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A culpa é dos jornais?

Todos os dias alguém se queixa de que as pessoas lêem textos cada vez mais curtos. As redes sociais, quando alguém publica um texto um nadinha maior, só mostra as primeiras linhas, seguidas de um «Ver mais...» em que é suposto clicarmos para ler o resto. Se o início não for suficientemente apelativo, esqueçam, ninguém se preocupará em ler a parte escondida. Os jornais, que estão sempre a queixar-se de serem cada vez menos lidos, também têm culpa nesta matéria: promovem um título em letras garrafais nas redes, mas, na maioria das vezes, quando clicamos, só há meia dúzia de linhas legíveis, mais meia dúzia que aparece em sombra e de repente o resto é só para assinantes. E, mesmo sendo assinante, tive um dia destes de gramar uma quantidade estúpida de anúncios entre parágrafos para conseguir chegar ao fim do artigo, sendo que, enquanto o lia, era sistematicamente bombardeada com interrupções sobre coisas que não me interessam absolutamente nada, mas das quais só me posso livrar x segundos mais tarde, quando, aparece a palavra «Avançar». Quem é que consegue realmente ler um texto mais longo e todo seguido num jornal online? Digo-vos que está cada vez mais difícil e temo que num futuro próximo os jornais só tenham títulos e leads, de tal modo é difícil chegar ao osso dos artigos e crónicas sem ter de ver reclames a carros e supermercados, cartazes de festivais de música, campanhas das operadoras telefónicas e promoções de imobiliárias jurando encontrar a casa dos nossos sonhos. Queridos jornais: neste caso, o meu sonho era poder ler um texto de ponta a ponta sem ser chateada. Percebo que a publicidade é o que paga o jornal, mas... essa coisa da leitura permanentemente entrecortada também não vos tirará leitores e não formará outros da pior maneira?

Boas notícias

Não votei PSD, mas tiro o chapéu a este governo por ter interrompido a entrada de mais turmas no programa-piloto de manuais escolares digitais que em Setembro entra no seu quinto ano de experiência. Depois de em outros países se ter chegado à conclusão de que o impacto foi claramente negativo, sobretudo no primeiro ciclo do Básico; depois de centenas de estudos científicos terem provado que, quando os ecrãs substituem o papel, a capacidade de retenção de conhecimentos diminui (e terem por isso voltado atrás), aqui em Portugal havia a intenção de juntar mais vítimas ao programa no próximo ano lectivo, mas graças a Deus o Ministério da Educação achou que já chegava de desgraçados para poder fazer o balanço e tirar conclusões. Mesmo assim, o projecto prosseguirá mais um ano para cerca de 24.000 alunos (começou em 2020 com cerca de 1050, triplicou no ano seguinte e foi-se sempre multiplicando por turmas e alunos que, coitados, segundo os especialistas, já tinham sido bastante penalizados com a escola online dos confinamentos pandémicos). No Norte da Europa, já abandonaram os manuais escolares digitais, reconhecendo que o papel torna mais fácil localizar e memorizar e que escrever à mão ajuda a pensar e é extremamente importante para estudar e reter a matéria. Livrem-se desta coisa de uma vez por todas, aprendam com quem já experimentou.

O que ando a ler

De volta, depois de um mês cheio de contratempos de que agora não vale mesmo a pena falar, venho desejar que tenham passado umas excelentes férias, durante as quais tenham, claro, lido bons livros que queiram partilhar com os outros Extraordinários. A minha primeira leitura de Agosto, recomendada pela minha irmã, foi uma tradução de um livro coreano que, pelos vistos, vendeu como pãezinhos quentes no país de origem e está publicado em variadíssimas línguas. Chama-se Amêndoas, mas estas «amêndoas» não são de comer, referem-se a amígdalas minúsculas que causam uma doença rara que impede o jovem protagonista de exprimir o que sente e que o faz passar muitas vezes por um tipo completamente frio e insensível, quando não  acéfalo e bruto. Temido pelos colegas da escola, é um solitário que a mãe e a avó educam com todo o zelo e imaginação que conseguem, mas, como um mal não vem só, uma tragédia completamente inesperada vai fazer a sua vida dar uma grande volta. Com uma livraria pelo meio (as livrarias nos romances estão decididamente na moda), Amêndoas, de Won-Pyung Sohn, fala-nos do que é esta doença, a alexitimia, e como dois rapazes que sofreram perdas e azares terríveis conseguem unir-se para vencer as suas próprias angústias e limitações. Interessante, mesmo não sendo especialmente literário, este livro adapta a tradução brasileira. Bom regresso e obrigada por estarem desse lado.