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A mostrar mensagens de outubro, 2012

Venha o Diabo e escolha

Quando vi num jornal como iria chamar-se o novo livro de José Rodrigues dos Santos – A Mão do Diabo –, o título fez soar uma campainha. Não foi preciso muito para me recordar de que, havia anos, na editora para que então trabalhava, saíra um policial com um título muito semelhante: Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade (um engraçado pseudónimo de Dinis Machado). Contudo, descobri que já houve um livro com o nome exacto do do jornalista, que foi o romance de estreia de Dean Vincent Center, autor para mim desconhecido. E, além da mão, parece que o corpo do diabo se presta a título, pois encontrei na minha estante O Pé do Diabo, de Connan Doyle, A Pele do Diabo, de Richard Hawke e um livro infantil de Daniela Gonçalves intitulado O Diabo sem Rabo (já para não falar de O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet, que, se não erro, até deu um filme homónimo). Porque me estava a divertir, numa busca não muito aturada compreendi que o Demo dá para todos os tipos de livros: desde A Hora do Diabo, de Pessoa, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, O Diabo Veio ao Enterro, de Pires Cabral, A Comédia do Diabo, de Balzac, Os Anéis do Diabo, de Alice Vieira, Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, A Rameira do Diabo, de Catherine Clément, aos mais corriqueiros, como o célebre O Diabo Veste Prada. A lista não é exaustiva, porque na linha policial usa-se e abusa-se do dono do tridente, citando eu apenas aqui A Estrela do Diabo, de Jo Nesbo, ou Sorte do Diabo, de Ian Kershaw. Mas existem ainda dicionários e histórias da besta e até livros de gestão para onde o Diabo é chamado. Um dia destes, faço a mesma experiência com Deus e logo vejo se a coisa anda ou não equilibrada...

O regresso feliz

Depois de edições incertas e muitos soluços, parece finalmente que a obra do grande poeta Eugénio de Andrade encontrou um caminho firme e vai ser disponibilizada sem achaques nem interrupções. A Assírio & Alvim vai tomar conta dos escritos do saudoso Eugénio e acaba de pôr à venda os dois primeiros volumes, que correspondem aos cinco primeiros livros do autor. Num deles, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos e Os Amantes sem Dinheiro (um dos meus preferidos); no outro, As Palavras Interditas e Até Amanhã, este último de 1956, o que quer dizer que ainda há muito para vir porque, ao contrário de alguns poetas parcos ou preguiçosos (nos quais me incluo), Eugénio foi prolixo e escreveu até ao fim. Vou, por isso, ficar de papinho cheio, como todos os leitores que apreciam o grande mestre. E, só para espicaçar os que não se interessam por aí além pela nossa poesia, aqui vai um fragmento belíssimo de As Mãos e os Frutos (XXXV) que os tirará do marasmo.


 


Em cada fruto a morte amadurece


deixando inteira, por legado,


uma semente virgem que estremece


logo que o vento a tenha desnudado.

Universo digital

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Histórias do Pingo-Doce à parte, não se pode negar que a Fundação Francisco Manuel dos Santos tem feito um excelente trabalho no estudo e debate da realidade portuguesa através da edição de vários títulos assinados por especialistas sobre temáticas de interesse para todos – como a medicina, o ensino ou a justiça em Portugal – e a preço francamente acessível. E é já hoje a sessão de apresentação de um novo título, Uma Cultura da Informação para o Universo Digital, de José Afonso Furtado, que é de leitura obrigatória para todos os que se importam com as questões da leitura e da literacia nos tempos que correm e querem saber até que ponto a informação que, em suportes digitais, circula agora pelas redes globais pode constituir uma oportunidade de desenvolvimento das populações quando as medidas tradicionais não foram, efectivamente, capazes de erradicar as desigualdades na competência para a leitura, a escrita e o cálculo. Escrito pelo maior especialista português na área, que já foi presidente do Instituto do Livro e das Bibliotecas e dirigia até há pouco a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, o livro será apresentado pelo sociólogo António Firmino da Costa no El Corte Inglés, às 18h30.


 


Fazer o luto

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Rui Cardoso Martins, que venceu com o seu romance Deixem Passar o Homem Invisível o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2010, regressa agora aos escaparates com uma novidade intitulada Se Fosse Fácil Era para os Outros. Mas não se deixem enganar os leitores mais desprevenidos com este título aparentemente leve e com reminiscências de auto-ajuda, porque se trata de literatura séria, mesmo que não isenta de humor (às vezes, bem negro), como, aliás, seria de esperar de um escritor que foi um dos fundadores das Produções Fictícias e um dos co-autores de programas como Contra-Informação, Herman Enciclopédia ou Estado de Graça. O ponto de partida do livro é, porém, bastante triste e prende-se com a morte da mulher de um narrador que, apesar de ter informado todos os interessados do sucedido, continua a receber em casa correspondência em nome dela, seja do ginásio, do seguro, da empresa de telemóveis ou da agência de viagens. É, de resto, por correio que chegam dois cartões de crédito novinhos em folha para uso da falecida e com alto plafond, que desencadearão um acto bastante louco por parte do viúvo, que é o de financiar um périplo pelos Estados Unidos (onde está o «Pior Povo do Mundo») para si e para os seus amigos Adriano, Luís, Carlos e João (que os apanha já em Orlando e com eles segue viagem). A única condição («único» é, aliás, uma das palavras preferidas de um deles) é ninguém se referir àquela dor maior que é, no fundo, a verdadeira razão desta espécie de fuga, embora ela esteja sempre presente sem ser nomeada e faça da viagem muito mais do que uma aventura de amigalhaços num país reaccionário, onde ainda há gente capaz de se manifestar por causa do adiamento de uma execução (mesmo que, do outro lado da rua, estejam outros a bater-se pela salvação do condenado à morte). Mordaz, com um ritmo alucinante, profundo e ao mesmo tempo surpreendentemente acessível, este é um romance on the road com laivos lobo-antunianos para todos os que gostam de boa ficção e, muito especialmente, para os que, em vez de quererem fazer o luto, o preferem celebrar.


 



 

Escritaria

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Amanhã começa, em Penafiel, mais uma edição da Escritaria, que decorre até domingo. Apesar das medidas de austeridade e das leis que, salvaguardadas pouquíssimas excepções, não permitem às autarquias investimentos que não tenham retorno – o que já obrigou, por exemplo, ao cancelamento do festival LeV, em Matosinhos, no mês de Abril passado –, o município de Penafiel, ainda que com um orçamento mais curto, conseguiu levar a cabo, à custa de muita imaginação, o seu encontro anual, que visa aproximar os habitantes da cidade e alguns forasteiros da literatura através de um sem-número de actividades surpreendentes; e cito: «As letras no divã, as palavras com asas, os jardins de palavras, as montras de livros, as palavras daninhas.» Nesta edição, o homenageado será o romancista António Lobo Antunes, que acaba de publicar o romance Não É Meia-Noite Quem Quer, com mais um título inesquecível «surripiado» desta feita ao poeta René Char. Se está pelo Norte no próximo fim-de-semana, não hesite em ir dar uma espreitadela ao Centro de Penafiel, decorado com livros por todo o lado, e quiçá assistir mesmo a algumas mesas-redondas e apresentações de livros.


 


Visitar o Vale Formoso

No último fim-de-semana, fui ao lançamento do novo livro de poesia de Filipa Leal, que conheci há muitos anos no Porto, quando era a responsável pelo caderno semanal de cultura do Primeiro de Janeiro e, ao mesmo tempo, dizia poemas dos outros nas Quintas de Leitura. Depois disso, ela já publicou vários livros de poemas, todos na Deriva Editores, cujo esforço para manter disponível a obra desta e de outros poetas é francamente louvável. Mas Vale Formoso – assim se chama a obra lançada no último sábado – é uma maravilha rara e imperdível. Trata-se de um longo poema sobre um amor que não chegou a ser, um «equívoco», como a própria autora o descreve no final do seu livro. É, mesmo assim, um dos mais belos «equívocos» da história da poesia recente, que decorre inteiramente neste vale inventado – formoso, pois claro – aonde chegam visitas, mas nenhuma delas a desejada. Na apresentação, que foi de Mega Ferreira, a leitura de Filipa Leal e Pedro Lamares foi tão bonita que me chegaram as lágrimas aos olhos e, confesso, tive ciúmes por não ter sido minha a ideia de construir um lugar assim, atravessando todo o livro e dando-lhe uma unidade que é uma das coisas que mais aprecio nos volumes de poesia. Só para vos dar um cheirinho, deixo aqui, como não quer a coisa, um dos poemas. Para lerem os restantes (melhor dito, o resto do poema), procurem o livro. Não é só a autora que merece, somos nós que merecemos.


 


Apareceu para jantar no Vale Formoso um pianista.


O pianista trazia a mulher pianista, o filho


que preferia jogar às cartas, e um grande saco de maçãs.


 


À refeição, servida no alpendre, contou que vivia no campo


e que procurava em Lisboa uma casa onde coubesse


com a sua mulher, o filho de ambos, e três pianos.


 


Fiquei preocupada com a família do pianista


– eram três –


e com a família de pianos


– eram três –


e pareceu-me melhor avisá-los de que seria difícil encontrar


uma casa onde coubesse tudo aquilo


e a macieira.

Um hobby muito em conta

Nos últimos anos, cresceu exponencialmente o número de autores de livros em Portugal (talvez em todo o mundo, mas falo do nosso cantinho). Perguntei-me muitas vezes por que motivo tantas pessoas desejam ardentemente publicar um livro e sempre me pareceu que a literatura tem uma aura de sagrado e que, para as pessoas em geral, um livro assinado com o seu nome é coisa de meter respeito e, ao mesmo tempo, selo de inteligência e importância. Não vemos, por exemplo, proliferarem pintores, escultores, arquitectos ou cineastas, embora também haja muitos músicos amadores compondo e mostrando constantemente o seu trabalho na Internet. No fundo, talvez a música e a literatura sejam baratas – para a primeira, bastará um instrumento (que hoje até pode ser substituído por um programa informático), para a segunda apenas a língua que falamos. São, efectivamente, actividades ao alcance de todos os que têm ideias ou saibam assobiar (mesmo que muitas vezes assobiem para o lado, já se sabe), hobbies realmente em conta, nos quais o investimento acaba por ser apenas em tempo. Será por isso que se escreve tanto?

Escritores de jornais

Quando comecei a trabalhar – e mesmo antes –, os jornais portugueses tinham muitos jornalistas que eram simultaneamente escritores (Assis Pacheco, por exemplo) e outros que, não tendo publicado livros, escreviam de qualquer modo maravilhosamente. Não sei se a informatização e a paginação automática dos jornais teve alguma coisa que ver com a diminuição da qualidade dos textos (agora os jovens jornalistas e estagiários sentam-se ao computador e preenchem com caracteres exactos o quadradinho ou a coluna que lhes é destinado, muito provavelmente sem que um editor mais velho e sábio corrija, corte, substitua e ensine), mas a verdade é que se torna cada vez mais difícil nos tempos que correm encontrar nos nossos diários alguém que tenha verdadeiro talento de escritor. Foi-me, por isso, ainda mais difícil aceitar a notícia de que Manuel Jorge Marmelo, autor de romances e jornalista do Público no Porto, era um dos 48 funcionários que, recentemente, foram objecto de um despedimento colectivo. Quando o caderno «P2» acabou, senti imediatamente saudades das suas crónicas bem escritas e sempre interessantes, mas, pelo menos, ainda podia lê-lo no suplemento de domingo, no qual aconselhava leituras com a sua bela prosa. Neste momento, vejo-me, porém, na iminência de deixar de o ler no jornal que compro todos os dias desde que saiu (acho que só não o fiz quando estava no estrangeiro em férias ou trabalho); e, se ninguém o contratar para outra publicação, será menos um bom profissional com que poderei contar e de quem terei obviamente saudades. E o jornal ficará também mais pobre com a sua saída. Gostava de rebobinar o tempo e pensar que nada disto aconteceu.

Manuel António Pina (1943-2012)

A maior das penas. A maior das saudades. Que nunca se deixe de ler o que escreveu e lembrar a pessoa que foi.

Olhares sobre a vida

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Agora, que já temos um novo Nobel, cuja escolha provocou alguma polémica, saiu um livrinho do anterior premiado, o poeta sueco Tomas Tranströmer. A sua edição – de resto, muito cuidada, com algumas fotografias bem bonitas – só parece fazer sentido justamente por causa da importância do galardão, já que quase nenhum poeta no seu perfeito juízo deixaria publicar os primeiros poemas que escreveu; mas As Minhas Lembranças Observam-me – assim se chama a obra – não é apenas (ou sobretudo) um livro de poesia, como, aliás, o título indica: é um relato de infância escrito pelo autor aos sessenta anos para dar a conhecer às filhas a sua juventude (relato que, ao que parece, aspirava a uma continuação que não existiu dado o AVC sofrido entretanto por Tranströmer). De outro tipo completamente diferente, até porque escrito por uma mão que não é sua, a vida de Maria Barroso é também objecto de um livro, Maria Barroso, Um Olhar sobre a Vida, assinado por Leonor Xavier. Mais do que uma biografia da ex-primeira dama (que, antes de se casar com Mário Soares, foi uma conceituada actriz e lia poesia como ninguém, segundo me contou o poeta Gastão Cruz), é uma homenagem a uma mulher singular na história recente do nosso país. Para quem gosta de olhar para as vidas alheias, duas boas hipóteses à disposição.


 


Contos, naturalmente

Num artigo publicado há mais ou menos um ano no suplemento «Babelia» do jornal espanhol El País, alguém elegia os «maiores» autores latino-americanos de sempre e, curiosamente (pelo menos para mim), o mexicano Carlos Fuentes aparecia antes de Vargas Llosa ou García Márquez, que arrecadaram o Nobel da Literatura. Fuentes, falecido em Maio deste ano, estreou-se na literatura com um livro de contos, em 1954, intitulado Los Días Enmascarados, e a sua obra posterior revelou-o como um mestre do género. Em 2008, para celebrar o 50.º aniversário da sua obra mais célebre (A Região mais Transparente), a sua editora resolveu compilar em dois volumes uma selecção dos seus melhores contos, seis dos quais estão reunidos agora em Contos Naturais, volume que, a par de Contos Sobrenaturais (ainda não lançado em Portugal, mas no prelo), inclui histórias sobre os seus temas dominantes: a crítica ao falso moralismo, as desilusões da revolução mexicana, a sátira às famílias ricas. Para quem gosta de contos, uma excelente leitura.

Concorrentes

Há muita gente que gosta de brincar, dizendo que sou casada com a concorrência. Grosso modo, é verdade – o Manel e eu trabalhamos nos dois maiores grupos editoriais portugueses. Contudo, porque não nos dedicamos exactamente às mesmas áreas (eu faço sobretudo autores portugueses de ficção, ele faz sobretudo estrangeiros e também publica não-ficção), nunca o vi como um concorrente directo – nem me lembro de termos andado ambos atrás do mesmo livro ou autor nos últimos cinco anos. Mas esta história da concorrência tem hoje aqui um propósito distinto: é que, recentemente, descobri que tenho dois autores concorrendo como finalistas ao mesmo prémio: João Tordo com Anatomia dos Mártires e Ana Cristina Silva com Cartas Vermelhas (não posso, por isso, fazer claque por nenhum deles, o que é uma chatice). Por outro lado, a esse mesmo galardão – o Prémio Fernando Namora – concorrem ainda mais dois livros aqui da casa, ambos da Dom Quixote (um de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, e o outro de Paulo Castilho, Domínio Público), o que, de certa forma, me torna «concorrente» das minhas colegas editoras, não podendo desta feita torcer por elas. Isto da concorrência tem muito que se lhe diga…

Saber e não saber línguas

Tenho a certeza de que aprendi muito do francês que hoje sei com os álbuns do Tintim do meu irmão mais velho, de lombo redondo, capa dura e cheirinho a papel e tinta. E também estou certa de que enriqueci extraordinariamente o meu vocabulário da língua inglesa com a ajuda das letras de muitas canções dos Beatles e não só e de várias séries de televisão. Por outro lado, já ouvi, fascinada, um poeta da Eritreia declamar um longo poema num festival em Liège – e foi como se, mesmo não compreendendo uma palavra do que dizia, a comunicação se estabelecesse e fizesse explodir os aplausos assim que terminou; do mesmo modo, fui uma vez levada por uma amiga entendida em teatro a uma peça de uma companhia polaca: conhecia o enredo, mas não havia tradução – e não fez assim tanta falta entender o que diziam, porque a encenação e a cenografia eram, já de si, sublimes e encantatórias. Mesmo assim, fiquei perplexa quando recentemente li nos jornais que, por falta de verba, a Cinemateca iria deixar de legendar os filmes… Céus, como ver cinema russo, polaco, alemão, japonês, chinês, sem legendas? Terá algum sentido sentarmo-nos a ver um filme mudo que, por acaso, não é mudo? Quantos menos espectadores virá a ter a Cinemateca por causa da miserável poupança? A sua programação obedecerá doravante a uma selecção de filmes de línguas mais próximas e com mais falantes? Seremos privados de um certo cinema de qualidade? E se, de repente, não houvesse dinheiro para traduzir livros?

Temas de sucesso

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Há tempos, estive a  moderar uma mesa no Rossio, no âmbito de um festival que comemorava a abertura do Ano do Brasil em Portugal. Na mesa, além dos portugueses João Tordo e João Ricardo Pedro, estavam três escritores brasileiros: João Paulo Cuenca, Amílcar Bettega e Paulo Lins, sendo que o último não é um ficcionista, embora tenha visto o seu livro Cidade de Deus adaptado ao cinema e, também por isso, transformado num sucesso de vendas. Cidade de Deus é o nome de uma favela carioca onde Paulo Lins cresceu e sobre a qual, já depois de licenciado, fez um aprofundado estudo antropológico que, contra todas as expectativas (do ensaio nunca se espera grande repercussão), acabou por ser um best-seller. Agora, passados vários anos, Paulo Lins regressou com um novo livro – como ele diz, com páginas e páginas de bibliografia –, mais um estudo com todas as condições de se tornar um must-read, sobretudo no país de origem. Trata-se de Desde Que o Samba É Samba e fala, claro, dessa coisa maravilhosa que todos invejamos e que só o Brasil possui: o samba... A capa já dá vontade de dançar – e diz quem leu (infelizmente ainda não é o meu caso) que se lê como um romance.


 


Adultos ou nem tanto

Li há muito tempo um texto de Pessoa, no qual o poeta advogava que um bom livro para crianças tem de ser lido com igual prazer por todos os adultos que lhe deitem a mão. É verdade que há obras de literatura infanto-juvenil que são de tal beleza que não deixarão nenhum adulto indiferente. Lembro-me, por exemplo, de Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, de O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou mesmo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que, apresentando-se como um livro infantil, se calhar nem o é. Porém, fiquei ligeiramente admirada quando me disseram que mais de metade dos leitores da série Harry Potter eram adultos (e o mesmo acontece com a trilogia vampiresca de Stephenie Meyer) e que alguns deles, envergonhados, forravam os livros para que ninguém descobrisse que era naquilo que gastavam as leituras. Conheço também vários adultos – e alguns bastante lidos, garanto – que compram regularmente livros para crianças por se apaixonarem pelas ilustrações e não lhes resistirem. No entanto, não tinha a noção de que 55% dos livros infanto-juvenis eram lidos por adultos, o que descobri recentemente num estudo publicado na Publishers Weekly, que atesta que 78% dos compradores de livros infanto-juvenis os adquirem para consumo próprio. Passo-vos o link mais abaixo. Será que estamos seriamente a infantilizar-nos?


 


http://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/childrens/childrens-industry-news/article/53937-new-study-55-of-ya-books-bought-by-adults.html

Herança genética

Tenho a sorte de ter nascido numa família de leitores. O meu pai era um homem culto e a minha mãe, que nem sequer pôde concluir o liceu, é hoje, aos 88 anos, uma leitora voraz de livros e jornais. Os meus irmãos gostam todos de ler, embora tenham gostos muito distintos, e – não sei se será herança genética –, à excepção de um dos meus sobrinhos, os que já têm idade para ler com regularidade lêem, felizmente, com regularidade. A minha única sobrinha adolescente (os outros já são adultos ou ainda são crianças) começou, de resto, a ler muito cedo os livros da mãe – e papou aos doze ou treze anos obras como O Perfume, de Süskind, ou O Sítio das Coisas Selvagens, de Dave Eggers, que me pareceram leituras talvez demasiado exigentes para a pimpolha que era. Nada contra. Também eu lia os livros da minha irmã mais velha e, só quando a eles voltava noutra idade, percebia aquilo que me passara ao lado. De qualquer modo, nessa montra meio tonta e infantil que é por vezes o Facebook (na qual as pessoas avisam os supostos amigos de que vão ali tomar um cafezinho, que cozinharam bacalhau com batatas – e colocam as fotografias – ou que estão aborrecidas com o patrão), essa minha sobrinha depositou as suas opiniões apaixonadas sobre um livro de Jorge Amado que andava a ler. E eu fiquei orgulhosa e pus lá um «Gosto» e um comentário entusiástico, aconselhando outras obras do autor e falando tu-cá-tu-lá com ela como se andássemos juntas na escola. Espero que o futuro lhe traga muitos livros bons, não a afaste nunca da leitura e, sobretudo, a aproveite bem.

Diário póstumo

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Na véspera do lançamento da minha Poesia Reunida, recebi alguns telefonemas e mensagens de convidados dando-me uma «nega». A razão era compreensível. Exactamente à mesma hora, ia decorrer uma outra apresentação pública a que alguns não podiam mesmo faltar, tratando-se de um livro póstumo de um autor a quem todos devemos o grande impulso na criação da Segurança Social (agora, esqueçam-se da TSU, pois estamos a falar de como tudo começou). Refiro-me a José Niza, que muitos conhecem sobretudo da música – uma vez que foi o compositor de numerosas canções vencedoras do Festival RTP da Canção, entre as quais E Depois do Adeus, que se tornou um marco do 25 de Abril –, mas que foi também médico e deputado pelo Partido Socialista à Assembleia da República pelo círculo de Santarém e colaborou decisivamente na defesa dos direitos de autor no campo da música. O livro, chamado Golden Gate, Um Quase Diário de Guerra, baseia-se na experiência de Niza como médico em Angola durante a Guerra Colonial e reúne a correspondência enviada quase diariamente à mulher durante esse período negro. Ora mais contundente e político, ora mais intimista, este é um testemunho importante que todos devemos ler para não esquecermos o que se passou nem deixarmos que se repita.


 


Portugueses em alta

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Embora os Portugueses se auto-menosprezem e achem que tudo o que vem de fora é que é bom (não todos, claro, mas mesmo assim bastantes), não somos menos do que ninguém – e estou muito feliz por saber que a nossa literatura soma e segue. Há pouco tempo, fui brindada com a bela notícia de que a tradução francesa de O Bom Inverno está na lista de finalistas do Prémio Europeu de Literatura (que já foi ganho há uns anos por Dulce Maria Cardoso com Os Meus Sentimentos); e, uns quinze dias depois, leio com alegria que Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares são ambos finalistas do Médicis em França, que premeia o melhor romance estrangeiro (respectivamente pelas obras O Arquipélago da Insónia e Viagem à Índia) e cujo vencedor será anunciado já em Novembro. Mas não é tudo: o romance de Lobo Antunes repete a proeza na longlist do Fémina, prémio atribuído por um júri exclusivamente feminino a uma obra de ficção, para o qual concorre na mesmíssima posição a tradução francesa de Livro, de José Luís Peixoto, que, entre outras coisas, fala da emigração portuguesa em França. E, como se não bastasse, o romance A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, é finalista do PT no Brasil. Com tanta coisa que há para lamentar, pelo menos em termos da nossa produção literária temos muitas razões para andarmos satisfeitos.


 


Regresso ao passado

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Já não sei há quantos anos – uma dúzia, pelo menos – me dedico com especial afinco à publicação de novos autores portugueses (novos no sentido em que estão a começar, isto para que Joca Martinho, leitor deste blogue, não pense numa espécie de «pedofilia literária» que sacrifique os menos jovens). Li, por isso, centenas de originais nas várias editoras por que fui passando; e é impossível, decorrido tanto tempo, lembrar-me de todos os textos que recusei e dos nomes dos seus autores, embora uma ou outra vez ainda apareça um título que toca uma campainha ou o início de uma narrativa que me parece um déjà-vu. Mas recentemente aconteceu-me uma história bonita. O meu colega Francisco Camacho acaba de publicar um romance do psicólogo Nuno Amado intitulado À Espera de Moby Dick. Fui atraída pela capa, que é belíssima, e mais tarde o João Tordo falou-me dele com imenso entusiasmo. Conhecia o nome de Nuno Amado de livros de não-ficção, pois publica também obras na sua área profissional; mas, francamente, não me dizia nada em termos de literatura. E não é que, quando o conheci pessoalmente, ele me confessou que eu lhe teria recusado há dez anos um livro, dizendo-lhe, porém, que, se a obra fosse tão bem escrita e interessante como a mensagem que a acompanhava, não teria hesitado em publicá-la? Nuno Amado confessou-me que eu estava coberta de razão e, por isso, deitou esse manuscrito fora e se deu tempo de amadurecer. (Esperou dez anos!) Agora, fiquei curiosa sobre o novo livro. É mais um para a minha já longa lista...


 


Consciente e inconsciente

Dedico-me a ler – e ler é, grosso modo, a minha profissão. Porém, não lemos hoje todos e a toda a hora? Num artigo que o jornal espanhol El País publicou há algumas semanas na secção de Cultura, a autora, Virginia Collera, fala de leitura consciente e inconsciente e refere que nunca lemos tanto como actualmente, pois o nosso cérebro está permanentemente a ser convocado pelo texto, seja de uma factura de electricidade, dos ingredientes da caixa de cereais do pequeno-almoço, das tabuletas que nos indicam direcções nas auto-estradas ou dos cartazes publicitários com que nos cruzamos a caminho do emprego: leitura, quase sempre, inconsciente. A consciente pode estar presente quando pegamos no jornal ou num romance, quando fazemos uma pesquisa no Google ou quando queremos saber o que publicaram no nosso mural do Facebook. Mas o verbo, «ler», é o mesmo, embora a atitude seja completamente distinta. Também quanto ao livro, as coisas já não são todas iguais. Se até há pouco tempo o vocábulo significava «um conjunto de folhas de papel encadernadas constituindo um único volume», a verdade é que o digital veio mudar essa acepção e há já quem  proponha uma definição que se preocupa apenas com o conteúdo e ignora a forma. O problema é que, segundo estudos realizados sobre os hábitos de leitura, parece que as pessoas estão a perder a paciência para a leitura pausada, porque a leitura inconsciente, sobretudo na Internet, as desmotivou para o que é profundo e requer esforço e lentidão. Sei que não é o caso dos leitores deste blogue, mas será que a leitura como eu a sinto estará ameaçada?

Coisas do coração

A palavra de ordem deste governo é poupar, sobretudo nos bolsos dos outros... Tenho a certeza de que existem muitas fundações que se aproveitaram das regalias e pouco fizeram de relevante em prol do público durante os últimos anos; mas é escandaloso que se sugira a extinção de outras e se acabe com os apoios concedidos a organismos que contribuem decisivamente para o desenvolvimento cultural dos Portugueses. Fiquei zangada com a notícia, porque ainda temos demasiados analfabetos em Portugal para podermos prescindir de uma educação fora da escola (escola que também estará a poupar em tudo e, por isso, preparará cada vez pior os nossos jovens). Os exemplos são muitos, mas o meu coração bateu quando li, entre os nomes alinhados, o da Fundação Ciência e Desenvolvimento (FCD) – que gere, por exemplo, o Teatro do Campo Alegre, no Porto, onde decorrem todos os meses as Quintas de Leitura, um fenómeno em termos de divulgação de poesia, cujos espectáculos estão sempre a abarrotar de gente que paga voluntariamente o seu bilhete. Daqui do blogue mando um abraço solidário a João Gesta e a toda a sua equipa e desejo que nada de mal lhes aconteça. Tenho a certeza de que as Quintas se pagam a si próprias e seria uma tragédia que a proposta extinção da FCD obrigasse ao seu fim. Poderia citar outros casos, porque são muitos, mas este acertou-me em cheio no coração.

O Fugitivo

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Não sei se alguém se lembra de uma série de TV que fez bastante sucesso na minha adolescência, intitulada O Fugitivo, que contava a história de um médico injustamente acusado de ter matado a própria mulher que era obrigado a fugir. Pois bem, este livro que hoje vos trago aproxima-se dessa história, uma vez que o seu herói teve de andar fugido nove anos sem ter cometido qualquer crime senão o de ter escrito um romance – Os Versículos Satânicos – que a fatwa considerou anti-islâmico. Salman Rushdie soube por telefone que fora condenado à morte pelo aiatola Khomeini em 1989 no dia de S. Valentim (uma ironia) e foi obrigado a mudar de nome, de casa, de hábitos, a viver rodeado de polícias, a entrar na clandestinidade, a reconquistar a liberdade junto de governos, serviços de informação e jornalistas. É isso, de resto, que o contemplado com o Best of the Booker por Os Filhos da Meia-Noite nos conta em Joseph Anton - Uma memória, um relato franco e desapiedado da sua vida nesse tempo (o Joseph foi roubado a Conrad e o Anton a Tchékhov – dois autores que admirava – mas havia outras hipóteses para a sua falsa identidade, como Vladimir Joyce ou Marcel Beckett). O volume é longo e pesa (são mais de 700 páginas), mas não é preciso ler tudo de uma vez. Num momento em que a publicação de um cartoon sobre Maomé ou a divulgação de um filme doméstico grosseiro sobre o Profeta andam nas bocas do mundo e originam a perda de vidas humanas, este testemunho lembra que as hostilidades estão longe de desaparecer.


 


A ortografia

Tenho uma grande admiração pelos editores de livros escolares. E, se posso dizer que sou especialmente cuidadosa com os textos dos meus autores em termos de ortografia, sei que os meus colegas do escolar têm de ser de um rigor absoluto. Se num livro meu passa uma gralha chata, talvez o leitor perceba e me desculpe; se num livro escolar aparece um erro de ortografia resultante de uma distracção, ninguém desculpa e cai o Carmo e a Trindade. Imagino o stress com que os editores escolares trabalham todo o ano, sabendo que vão ter os olhos de todos os alunos, pais e professores em cima de si… E, porém, às vezes pessoas que deviam ser especialmente atentas falham redondamente nestas coisas. Por razões que não interessa estar aqui a desenvolver, pus recentemente os olhos num site de Explicações. Desenvolvido provavelmente para ocupar professores que ficaram desempregados e ajudar alunos cábulas ou com dificuldades, esta página promete resolver problemas e, ainda por cima, a preços especiais. Mas, infelizmente, é descuidada: «Todos os dias disponibiliza-mos vales de desconto.» Ups! Talvez tenha sido um erro de formatação (acontece muito, na transformação de um PDF em Word, os hífenes que estavam no fim da linha ficarem no meio das palavras), mas, com este susto, eu já não queria um filho meu a ter explicações de Português com estes senhores. Um bocadinho do stress que os meus colegas têm todo o ano não lhes teria feito mal…


 


P.S. Já tinha escrito este post quando me ocorreu que hoje é dia de dizermos o que andamos a ler. Pois eu vou começar daqui a nada Estação Central, de José Tolentino Mendonça, e escreverei a propósito deste livro daqui a uns dias.