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A mostrar mensagens de junho, 2021

Hoje há lançamento

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Pois é, ao fim de meses e meses sem lançamentos presenciais, com as carinhas das pessoas estampadas nos ecrãs dos computadores a debitarem sobre o que leram, escreveram, editaram..., estão de volta as apresentações ao vivo, se bem que, claro, condicionadas por regras apertadas (e ainda bem, uma vez que os Portugueses, especialmente os mais jovens, estão, pelos vistos, a ficar relaxados e desobedientes demais). Hoje vai ser no clube Turf, ali ao Chiado, meio no jardim, meio na sala, com máscara e cadeiras de intervalo para não facilitar, pois todos querem ir de férias com saúde e sem ameaças e isto já está como em Fevereiro. Falar-se-á de O Mordomo do Rei, romance histórico de Pedro Beltrão, que se debruça sobre uma figura pouco conhecida que é, porém, referida frequentemente na historiografia francesa pois, com o infante Afonso de Portugal (mais tarde, rei D. Afonso III), privou com o rei Luís IX, aquele que viria a ser santo. Vamos então a esta estreia mais logo, às 18h30, ouvir a especialista Margarida Ortigão Ramos falar do livro, do rei, do autor e do mordomo. E que ninguém tire a máscara!


 


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O desaparecimento da memória editorial

Quando comecei na edição, as editoras (falo de empresas, não de pessoas) tinham quase todas uma identidade perfeitamente definida. Se pensarmos numa chancela como a & etc. ou a Assírio e Alvim, na Ática, nas Publicações Dom Quixote, na Quetzal desses anos noventa, encontraremos evidentemente projectos muito diferentes, mas com uma unidade interna pautada por escolhas de autores, linhas gráficas próprias (oh, como tinha bom gosto o Rogério Petinga e como eram adoráveis os livrinhos pretos com folhas azul-claras da Estampa), filosofias de publicação claras, modus operandi de conquistar o público realmente típicos. Se até determinada altura foi possível contar a história de uma editora enquanto projecto intelectual, a verdade é que (cá como em todo o mundo), quando a indústria tomou conta do ramo livreiro, os arquivos foram todos para o lixo (o espaço custa dinheiro), os catálogos mudaram de mãos porque muitos dos donos das editoras vendidas preferiram sair e, frequentemente, não ficou ninguém também entre os membros do pessoal mais velho para contar como se conseguiu publicar pela primeira vez o autor x ou y, como era um autor consagrado em início de carreira, que loucuras se cometiam por vezes encomendando capas a pintores ou pondo anúncios de página inteira em semanários... Um artigo muito interessante, ainda que escrito em castelhano, fala do fim desta memória editorial e pode ser lido no link abaixo. Borges dizia que a memória era muito frágil. E tinha razão.


La fuga de la memoria editorial | Letras Libres


 

Grandes leitores

Começo este post com um link (tanta inglesice... desculpem) e depois explico do que se trata:


https://www.publico.pt/podcast-grandes-leitores


É um podcast (ai, os puristas da língua vão matar-me, mas não sei traduzir estes termos) chamado Grandes Leitores que a jornalista e crítica literária Isabel Lucas tem em colaboração com o jornal Público. Há uma espécie de convidado de honra que tem o direito de convidar outro grande leitor para o acompanhar. Falam, claro, de livros, daquilo que os fez leitores, do que andam a ler, de onde vêm os laços que os atam nas leituras. Normalmente, o ponto de partida é um tema, no último que ouvi (já há outro depois desse) era a edição da obra de Maria Judite de Carvalho, pois a «grande leitora» era uma das suas netas (Inês Fraga, neta também de Urbano Tavares Rodrigues). O seu amigo leitor era Guilherme Pires, editor que já trabalhou na Elsinore e hoje, além de dois filhos lindos, têm uma horta invejável, repara máquinas de escrever, cuida da publicação dos livros da Bazarov e de outros (e lê, bem entendido). E, nestes tempos em que as pessoas se anestesiam com séries de TV uma a seguir à outra, é tão bom ouvir o que dizem pessoas que gostam de ler, tão bom ser testemunha das suas ideias, dos seus tiques, das suas memórias e dos seus esquecimentos (se julgava que era o único a esquecer-se de grande parte dos livros que leu, fique descansado, tem muitos irmãos). Acho que quem gosta de vir aqui, às Horas Extraordinárias, vai gostar muito de ir ali, aos Grandes Leitores. E até dá para jantar acompanhado de uma boa conversa, se estiver sozinho.

Excerto da Quinzena

[...] Briony também se levantou e, ao fazê-lo, deu outro dos seus gritos penetrantes de criança. Tirou um envelope do assento de Jackson e pô-lo no ar para o mostrar a toda a gente.


– Uma carta!


Ia abri-la. Robbie não conseguiu deixar de perguntar:


– Para quem é?


– Tem escrito: «Para Todos.»


Lola libertou-se da tia e limpou a cara com o guardanapo. Emily afastou-se um pouco mais de Lola ao retirar o bocado de papel pautado. Quando o leu, Robbie e Cecilia também puderam lê-lo.


 


Vamos fujir porque a Lola e a Bettu são orríveis para nós e queremos ir para casa.


Desculpem termos robado fruta. E tamém não houve peça.


 


 Tinham assinado os seus nomes com uma letra ziguezagueante e cheia de floreados.


 


Ian McEwan, Expiação, tradução de Maria do Carmo Figueira


 

Verão Azul

Alguém aqui se lembra de Verão Azul, uma série de televisão espanhola para crianças e adolescentes que passou em Portugal nos anos 1980 e foi um fenómeno de audiências? Era excelente, mas é de outro Verão Azul que hoje vos falo, o nome dado a uma série de sessões relacionadas com a leitura de livros recentes que terá lugar em Portimão a partir de hoje por iniciativa da Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes. É, de resto, de Manuel Teixeira Gomes o livro Agosto Azul que deu origem a este Verão Azul portimonense que reunirá no Jardim 1º de Dezembro quatro pares de autores. Hoje às 18h30 será a vez de João de Melo e João Pinto Coelho trocarem galhardetes, ou seja, lerem passagens dos livros um do outro (respectivamente, Livro de Vozes e Sombras e Um Tempo a Fingir); mas em Julho os autores serão Ondjaki e Sandro William Junqueira; em Agosto, Lídia Jorge e Afonso Cruz no dia 13 e, uma semana mais tarde, os poetas Nuno Júdice e Luís Filipe Castro Mendes. Depois acabará o Verão, azul ou de outra cor, e a Biblioteca certamente anunciará outras actividades. Mas, se hoje estiver pelo Algarve, aproveite. São ambos excelentes romances para ouvir.

Que há num nome?

Na sequência do que ontem aqui escrevi, é absolutamente legítimo que fiquemos contentes quando alguém de quem gostamos ganha um prémio literário. Mais ainda, se gostarmos do que essa pessoa escreve e da forma como o diz (voz linda a ler). E mais ainda se esse prémio não abarca apenas o nosso pequeníssimo Portugal mas todo o espaço Ibero-Americano. Pois é, a poetisa Ana Luísa Amaral, que conheço há pelo menos vinte e cinco anos e com quem me dou muito bem apesar de só nos vermos duas ou três vezes por ano, venceu um galardão de respeito: o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana! Um dos seus mais recentes livros, What's in a name? (sim, chama-se assim mesmo, em inglês, e a mim remeteu-me logo para a pergunta «Must a name mean something?» na Alice de Lewis Carroll, mas tem que ver com outras cosmogonias e reminiscências), já tinha sido o preferido dos livreiros espanhóis; e agora é a obra toda que é tão justamente premiada. Penso que neste século XXI é a segunda vez que o prémio, instituído em 1992, é atribuído a um poeta português, tendo contemplado Nuno Júdice antes de Ana Luísa Amaral. No século passado, só Sophia teve direito a ele. Parabéns, Ana Luísa Amaral.

Finais

Um dia destes, já não sei que alma azeda falava por aí de alguém que tinha ganho prémios só por ser amigo de A e B. Outros defendem que ganham sempre os mesmos, desde que tenham livro novo. Há pelo menos um ensaio publicado em que se tenta provar que as capelas funcionam e que os jurados votam nos amigos e já está. Pode ser, efectivamente, que num ou noutro caso aconteça e até já me contaram há anos a história de que, em dois anos distintos, um prémio específico foi dado a quem estava a precisar de dinheiro (e não deixa de ser bonita esta humanidade, porque os livros em causa eram bons). Enfim, como só fui membro de um júri uma vez e nada vi de estranho (a não ser num concorrente que não queria ficar com o segundo ou o terceiro lugar para poder concorrer a outro prémio com aquele livro), deixo isso a quem queira andar a chafurdar ou se sinta vítima de injustiça. Eu cá o que quero dizer hoje é que os finalistas e o vencedor do último Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores deste ano foram, quanto a mim, bastante inesperados. Além de H. G. Cancela (A Noite das Barricadas), autor que já arrecadou o galardão e foi finalista de outras vezes (mas é um autor pouco conhecido do público), concorriam os escritores Valter Hugo Mãe (Contra Mim), Djaimilia Pereira de Almeida (As Telefones), Teresa Veiga (Cidade Infecta) e João Tordo (Felicidade), todos vencedores de outros prémios, mas nunca deste. E ganhou Valter Hugo Mãe com o livro que é o menos romance dos seus romances. E esta?

As redes

Recentemente, a grande escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie publicou uma reflexão em três partes extremamente interessante sobre os comportamentos violentos e as mentiras publicadas nas redes sociais, especialmente as que rodeiam as pessoas, chamemos-lhe assim, famosas (o famoso tem um poder que o torna paradoxalmente mais vulnerável, segundo Chimamanda, ideia com a qual concordo em absoluto). As histórias que relata e se passaram consigo são, de facto, realmente assustadoras. Na primeira parte, uma pessoa que frequenta um dos seus cursos de escrita e que ela acaba por acolher excepcionalmente em sua casa, criando-se entre ambas uma relação muito próxima da amizade, só por não concordar com uma afirmação feita pela escritora numa entrevista, insulta-a publicamente, mostra fotografias pessoais e revela impressões sobre outras pessoas que Chimamanda trocara com ela em tom de confidência. Esta pessoa teve ainda a coragem de usar o nome da escritora para conseguir um visto nos Estados Unidos... Na segunda parte, a história é ainda pior, pois a pessoa que a insulta nas redes sociais ao ponto de lhe chamar «assassina» e dizer coisas tão graves como a morte dos pais da escritora (com pouco intervalo entre ambos) ter sido uma espécie de castigo merecido, mais tarde inclui o nome Chimamanda Ngozi Adichie na capa do seu romance de estreia como sua «mentora», tirando daí dividendos óbvios em termos de promoção e vendas. Na terceira parte, aliás parcialmente reproduzida no nosso jornal Público, a escritora conta como os jovens hoje se autocensuram permanentemente nas redes sociais  com medo de serem gozados ou saírem do grupo de puritanos que às vezes até lhes pede que denunciem amigos verdadeiros. Leiam, que vale muito a pena:


https://www.chimamanda.com/

Mulheres

Há uns meses escrevi aqui que este é claramente o tempo das mulheres: nunca houve tanta preocupação com o destaque dado ao sexo feminino nas artes, nas letras, na sociedade em geral. Programas de rádio, antologias, exposições, livros, de tudo um pouco. E agora foi a Sociedade Portuguesa de Autores que resolveu dedicar às mulheres um livro: chama-se As Mulheres e a Cultura e contém vinte e oito depoimentos de variadíssimas figuras femininas de todas as áreas possíveis. Prefaciado por Gabriela Canavilhas, este volume reúne as reflexões sobre a cultura de Aldina Duarte, Alice Vieira, Ana Zanatti, Cristina Carvalho, Inês Meneses, Irene Pimentel, Mafalda Arnauth, Teresa Rita Lopes, Yvette Centeno e muitas mais (cantoras, escritoras, radialistas, cineastas...), oferecendo assim perspectivas certamente diversas sobre esse grande assunto a que se chama «cultura» e que é a palavra mais difícil de definir e explicar. O pretexto para o livro foi uma reunião de Sociedades de Autores e Compositores que se realizou em Novembro passado e que contou com a presença de Graça Fonseca, ministra da Cultura. Vamos lá ler o que dizem as autoras.

Bom regresso

Aviso já que ainda estou a meio gás, pois assim que voltei à terra havia tanta coisa à minha espera que ontem tive de almoçar sentada à secretária... E, como sei que não vou conseguir dar conta do recado deste blogue até ao final da semana porque apareceram umas tarefas inesperadas, deixo-vos hoje um post meio apressado, mas pelo menos são boas notícias. Eu, aliás, já me andava a perguntar que seria feito de tão querido e grande escritor e porque decidira ele castigar-nos tanto tempo com a sua ausência... Com os meus botões, cheguei até a pensar que resolvera voltar à Holanda (perdão, aos Países Baixos) e, descontente com o Portugal de hoje, não tencionasse sequer regressar (e, em certa medida, eu percebê-lo-ia). Mais eis que recebo uma bela newsletter da sua editora dizendo que, aos 91 anos, o nosso amado Rentes de Carvalho vai mais uma vez surpreender-nos e desta vez com O País do Solidó, um livro entre o conto e a crónica que terá, de certeza, a sagacidade, a coragem e o humor com que nos habituou sempre que fala de Portugal. Citando o editor: «São histórias reais de gente inventada e histórias inventadas de gente real, mulheres destemidas e homens combativos – mas também capazes de momentos desprezíveis e de atitudes medrosas. Crónicas de um país habitado por um estranho povo: os portugueses.» Sai hoje. Já têm leitura para o fim-de-semana. Que mais querem?

Ausência

Desculpem, queria ter deixado posts prontos para os três dias que vou estar na Galiza a dizer poemas, mas não consegui. Imprevistos e mais imprevistos roubaram-me o tempo todo e agora só posso voltar aqui na quinta. Entretanto, leiam por favor o novo romance de Mário Cláudio, Embora Eu Seja Um Velho Errante. É o livro que sela a relação do escritor com o poeta Tiago Veiga de quem, no passado, editou alguns livros de poesia e sobre o qual teceu uma longuíssima biografia que o arrancou do esquecimento. Muitos desconfiam de que Tiago Veiga é uma invenção, mais um heterónimo do autor. Mas como explicar que os dois apareçam juntos numa fotografia de um velho jornal pouco antes da morte do biografado? O presente livro, dividido em três partes, toma como ponto de partida documentos encontrados depois já de publicada a biografia, um dos quais é um diário da segunda mulher de Tiago Veiga, a pintora irlandesa Ellen Rasmunssen, que, indo fotografar os tuberculosos num sanatório, acabou por contrair a doença e apagar-se no Caramulo. Uma obra, como sempre, a não perder!

Excerto da Quinzena

Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade. Havia alguma coisa naquele objecto – e na dor constante que sentia na perna, e na firme crença de que, dentro de mim, algo apodrecia – que transformava todo o cepticismo da minha juventude no mais puro fel. Não conseguia andar sem coxear e, no entanto, todos me observavam com o mesmo olhar incrédulo do médico, como se eu fosse maluco e imitasse um inválido por puro prazer. O médico tivera razão numa coisa: um homem de trinta e tal anos com uma bengala não lembra ao diabo; era preciso mais atrevimento para que o diabo se lembrasse de nós.


João Tordo, O Bom Inverno, Publicações Dom Quixote, 2010

Medo do escuro?

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É verdade que a escuridão pode ser um bicho de sete cabeças e que a noite é uma inimiga da calma e da ponderação, sobretudo se estivermos num ambiente desconhecido. O que frequentemente ganha proporções disparatadas num quarto escuro de uma casa isolada (um estalo de um móvel, um ladrar de um cão, um zumbido de um mosquito...) de manhã já não tem qualquer significado e até nos faz rir. Mas não ver (é isso o problema do escuro) assusta desde a mais tenra idade. E é sobre isto que fala o mais recente livro infantil de David Machado, Viagem ao Centro do Escuro, que conta com ilustrações (escuras, claro!) da talentosa Madalena Moniz. Esta viagem ao longo de uma noite é a de dois irmãos, ele dois anos mais velho do que ela (7 e 5 anos) e cheio de vontade de a proteger dos perigos, mas, curiosamente, um bocado mais medroso do que a irmãzinha (embora não o possa confessar, bem entendido, e tenha de se fazer de forte). E a história é tão boa que todos os adultos deveriam lê-la (e não só os que têm filhos com medo de apagar a luz à noite, entenda-se), porque a ideia é belíssima e, além disso, a aventura fala dos terrores nocturnos  e dos pesadelos com todas as letras, sem pedagogia barata, e de uma forma com que até eu, que já tenho idade para não temer o escuro, me identifiquei. Bravo: um grande livro para todas as idades. Sigam o monstro e dormirão que nem uns anjinhos!


 


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Cá e lá

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Apesar de falarmos em ambos os lados do oceano Atlântico a mesma língua (o português), nem sempre é fácil a literatura brasileira vingar em Portugal e a portuguesa no Brasil. Falo, claro, da literatura que se está a fazer hoje, porque, apesar de tudo, Machado de Assis, Jorge Amado e Guimarães Rosa (bem como os poetas Drummond de Andrade, Manuel Bandeira ou João Cabral) são lidos e apreciados pela minoria leitora portuguesa; e acredito que o nosso Eça de Queiroz, Lobo Antunes e Saramago o sejam no Brasil (pela minoria de lá). Mas existe agora um clube de leitura mensal para cobrir algumas destas lacunas, organizado simultaneamente pelos jornais Público (cá) e Folha de S. Paulo (lá) que cruza conversas e nos faz descobrir livros (ora portugueses, ora brasileiros) publicados dos dois lados do mar. É um clube orientado pelas jornalistas Úrsula Passos (da Folha) e Isabel Coutinho (do Público) e esta noite, pelas 22h00, terá como tema o romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2018 e publicado no Brasil pela HarperCollins. A sessão pode ser acompanhada por Zoom (as especificações vão numa das imagens abaixo) e o público pode intervir. Um evento ao vivo para abraçar a literatura dos países irmãos.


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Cruzamentos

Uma vez, quando andava na faculdade, pediram-nos que fizéssemos um trabalho para a cadeira de Estudos Literários que se debruçasse sobre um método de análise de texto (psicanalítico, formalista, o que fosse...). Eu resolvi falar de uma análise mais criativa, aquela que gera um novo texto literário ou objecto de arte por alusão, por glosa, por referência. Dei-me até ao trabalho de rescrever um soneto da Florbela e fotografar a partir de Cesariny... O professor achou original mas depois disse que não era bem o que se pretendia (deve ter achado que inventar era mais preguiçoso do que estudar a fundo, e tinha alguma razão). De qualquer modo, isso nunca me afastou de apreciar a criação de arte a partir de arte, e já aqui falei de um projecto de cinco fotógrafas que se dedicaram a uns versos meus recentemente para criarem objectos artísticos muitíssimo interessantes. E agora é a vez de uma artista plástica, Sílvia Mota Lopes, pintar a partir de poemas de vários autores e construir uma exposição que se insere nas comemorações dos 25 anos da Biblioteca Municipal Professor Machado Vilela e dos 150 anos do nascimento do seu patrono. A exposição está patente nesta biblioteca do município de Vila Verde e o catálogo é muito bonito, pois inclui sempre o par poema-pintura além de alguns dados sobre os autores. Aproveitem para lá ir. Parabéns, Sílvia Mota Lopes!

Irmãos de sangue

Gosto muito de um programa da TSF da jornalista Teresa Dias Mendes chamado Uma Questão de ADN. Trata-se de uma conversa com duas ou mais pessoas da mesma família. Lembro-me de muitas das emissões que ouvi ao fim da tarde, quando ia de carro para casa e o programa era a essa hora, entre elas, por exemplo, uma conversa muito boa entre três primos direitos (a cantora Capicua, o ministro João Pedro Matos Fernandes e o actor Pepê Rapazote). Sempre pensei que, se um dia me convidassem, queria ir com o meu irmão Jorge, e foi isso que aconteceu ontem, em que fomos gravar o programa (que passará na próxima quarta às 13h). Este meu irmão é o mais próximo, cerca de um ano e meio mais velho, e logicamente é aquele ao lado de quem vivi a infância e a adolescência (temos amigos comuns), aquele com quem estudei à noite quando andava na faculdade (andávamos na mesma instituição, embora em cursos diferentes), uma das pessoas que mais coisas me ensinaram e uma das pessoas de quem mais gosto. Ele também escreve poesia mas acabou por nunca publicar. Falámos disso no programa. Se ele se tivesse estreado antes de mim, ter-me-ia eu atrevido a dar o passo?... E a crítica, se ambos tivéssemos publicado, conseguiria resistir a não nos comparar? Ao pensar nisto, faço-me várias perguntas: Que terá sentido Gonçalo M. Tavares quando José Gardezabal começou a escrever e publicar livros que (ouvi dizer, não li) são parecidos com os seus? As irmãs Brontë teriam ciúmes umas das outras? E Gerard e Lawrence Durrell? Mais do que os irmãos Grimm, imagino... Mário de Carvalho e as duas filhas (Ana Margarida de Carvalho e Rita Taborda Duarte) serão um trio pacífico? Alguém se lembra de mais irmãos escritores?


P. S. Na sexta não há post, vou aproveitar o feriado para tirar uns dias e acabar um texto. Até para a semana.

O que ando a ler

Pedi este livro por correio a uma livraria independente quando ainda estava a trabalhar em casa. Tinha lido uma excelente crítica, já tinha visto outros elogios a esta autora mexicana que vive nos EUA e escreve em inglês, estava, em suma, curiosa. Porque houve muita gente a ler a mesma crítica, o stock esgotou e, por isso, a tal livraria avisou-me que Deserto Sonoro, de Valeria Luiselli, levaria tempo a chegar (e essa é, no fundo, a razão por que só o comecei muito depois de o comprar). Estou a lê-lo muito dividida: percebo-lhe uma bem-vinda originalidade na mecânica e gosto da tensão. É também sobre um tema importante: a separação das crianças dos pais quando os migrantes mexicanos entram ilegalmente na América. Sim o romance fala de um casal que trabalha com sons, que grava maneiras de falar, ruídos do ambiente, cantos de pássaro, palavras, dialectos, gritos... com vista a documentar trabalhos de investigação. Conheceram-se enquanto captadores de sons numa tarefa que lhes correu bem e acabaram por apaixonar-se e ir viver juntos: ela é mexicana, ele norte-americano; ele tem um filho de dez anos, ela uma filha de cinco. São os quatro uma família porque não existe outra mãe nem outro pai por perto. Mas eis que um dia ela se interessa por umas crianças mexicanas perdidas que atravessaram a fronteira para ir ter com a mãe e nunca mais se soube delas; e, ao mesmo tempo, ele se interessa por documentar as vozes emudecidas dos índios apaches, os sons de Geronimo, Cochise e outros índios mortos... É o trabalho dele que vence. Têm então de atravessar a América de carro com as crianças, e essa viagem vai sem querer distanciando o casal e tornando claro qual é o objectivo de vida de cada um. Ainda me falta bastante para terminar este Deserto Sonoro, mas, confesso, está a custar-me avançar. É muito provavelmente uma questão de gosto pessoal, uma vez que há mesmo muito pouco tempo este Lost Children Archive (o título original) ganhou o Dublin Literary Award e já tinha sido nomeado para uma data de prémios. Leiam-no se o apanharem e depois dêem-me a vossa opinião.