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A mostrar mensagens de janeiro, 2022

Ana Luísa Amaral homenageada

No ano passado, escrevi um post aqui no blog sobre as alegrias de ver tantos amigos escritores premiados, pois, nesse âmbito, foi um ano muitíssimo especial. Uma dessas amigas, a poetisa Ana Luísa Amaral, recebeu de resto o Prémio Reina Sofia, que é um galardão de peso entregue pela rainha emérita de Espanha, e não a qualquer um. Muitas vezes, os autores recebem destas distinções lá fora antes de as receberem cá dentro, e em relação aos poetas isso é ainda mais verdadeiro. Mas a Câmara do Porto vai de qualquer modo homenagear Ana Luísa Amaral na próxima Feira do Livro do Porto, que já tem data: será de 26 de Agosto a 11 de Setembro e, como de há alguns anos para cá, acontece nos jardins do Palácio de Cristal. Portuense de adopção, Ana Luísa Amaral é lisboeta, mas foi para a Invicta muito nova. Além de escrever poesia, é também ficcionista, dramaturga, ensaísta e autora de literatura infantil, e foi durante muitos anos professora na Faculdade de Letras do Porto. Tem um programa maravilhoso na Antena 2 com Luís Caetano, no qual nos dá a conhecer belíssimos poemas que frequentemente ela própria traduz. Parabéns adiantados pela homenagem mais do que merecida!

Excerto da Quinzena

Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, nem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de caterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário. Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário. Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fechar-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando pessoas através de palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso – estão com sorte.


Philip Roth, Pastoral Americana, tradução de Maria João Delgado e Luísa Feijó

Correntes

Vêm aí mais umas Correntes d'Escritas, no final de Fevereiro, sendo que a derradeira sessão, que já de há muitos anos a esta parte costuma acontecer no Instituto Cervantes, em Lisboa, será no último dia do mês, 28, véspera de Carnaval. Mas na abertura, na Póvoa de Varzim, teremos como sempre o anúncio do vencedor do Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa, que é alternadamente de prosa e poesia, e é ele que hoje aqui me traz. Porquê? Porque desta vez os finalistas são tantos que nem vale a pena arriscar previsões... Temos o vencedor do Prémio Europeu (Frederico Pedreira, que partilha o apelido comigo mas não é da família); as obras dos irmãos Gonçalo M. Tavares e José Gardeazabal; livros de autores já consagrados como José Luís Peixoto, João de Melo, Mia Couto e Luísa Costa Gomes; os estrangeiros Almudena Grandes (que morreu há cerca de um mês) e Luis Landero (só estes do universo da língua espanhola, que esquisito); os menos badalados Cláudia Andrade, Paulo Scott ou Patrícia Portela, mas nem por isso menos interessantes ; e as minhas ex-autoras Ana Margarida de Carvalho e Djaimilia Pereira de Almeida. A variedade é tanta que nem dá para apostar. Acho que os membros do júri devem ter escolhido os seus preferidos e, quando se foi a ver, não existiam praticamente repetições. Estou curiosa com a decisão final, claro, como toda a gente. Arriscaríeis algum autor?

Viver com arte

Publiquei um livro há muitos anos sobre as máfias que roubam obras de arte (vasos gregos, bocados de templos romanos, portões e candeeiros art déco, azulejos, pinturas renascentistas...) e as substituem por cópias perfeitas para vender os originais a museus que com eles pactuam ou milionários russos daqueles que têm sempre capangas a protegê-los. Muitas vezes, infelizmente, a coisa corre mal; e, no caso de um Picasso roubado e escondido logo a seguir numa lata do lixo, o ladrão foi caçado e, quando informou onde estava o tesouro, já ele tinha sido  esmigalhado no camião... Imagino frequentemente quem terá na sua sala aqueles quadros lindos de Vermeer que foram roubados em São Francisco e lembro o albanês do romance Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos, finalista do Prémio LeYa, que tinha um Rothko na sua sala mas não o podia mostrar a ninguém... E falo disto porque vejo que uma americana que foi a Roma aos dezasseis anos, e atirou a moedinha à Fontana di Trevi exprimindo o desejo de ali voltar, acabou por se casar décadas depois com um príncipe romano e vive numa casa com uma escada em espiral desenhada pelo arquitecto da Basílica de S. Pedro, uma escultura de Miguel Ângelo no Jardim e um tecto pintado por... Caravaggio! Mas agora o príncipe morreu e os herdeiros exigem que se venda a mansão por um valor tão disparatado que vai ser difícil encontrar quem a compre. No entanto, se a casa for efectivamente vendida, nem consigo pensar no que será o choque de deixar de poder viver com tanta arte...

Ler é essencial

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Não pretendo com este título dizer nada que os Extraordinários já não saibam, pois se aqui vêm tanta vez é porque, evidentemente, sabem bem que ler é essencial. Mas queria chamar a atenção para o facto de esta frase («Ler é essencial») ser também o nome de uma interessante plataforma que envia de vez em quando uma newsletter com dados extremamente interessantes, nos quais doravante me poderei até basear para escrever alguns posts, pois inclui muitas estatísticas à volta do livro e da leitura e apresenta dados numéricos nem sempre fáceis de encontrar. Ainda não descobri quem ma envia, embora assim às pressas me tenha parecido um instrumento da Bertrand, nem quem está à cabeça do projecto, mas gostei para já de saber que ler pode equivaler a rir ou fazer ioga em termos de descompressão ou que uma das maiores livrarias do mundo é a Livraria Esperança e fica no Funchal. Como sei se há aqui muita gente que não vive sem ler e gosta de saber o que puder em torno desse objecto miraculoso que é o livro, hoje passo a sugestão de consulta desta plataforma.


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Professores

Aqui há uns anos havia muitos professores que queriam trabalhar e não conseguiam vaga. Hoje leio em todo o lado que já existe falta de professores (alguns alunos ainda nem tiveram aulas de determinadas disciplinas e estamos no segundo período lectivo) e que o problema tende a agravar-se nos próximos anos com a previsão da reforma de mais de 50% dos professores que estão no activo e, pior, com a desistência de cerca de 10.000 professores da docência. As razões são óbvias: não há vagas perto de casa e, com família, é muito difícil ir viver para o cu de Judas ou ter despesas a dobrar; o salário é baixo; a profissão está desacreditada; a burocracia é um susto; a progressão na carreira está congelada; o excessivo número de alunos por turma afasta qualquer possibilidade de sucesso... Não há incentivos, nem apoios a quem vai trabalhar para uma cidade a três horas de caminho, pelo que nas universidades os cursos de Educação perderam 70% de alunos nos últimos vinte anos. É uma tragédia. E só me ocorre dizer que quem quer que venha a governar depois do dia 30 terá de olhar para esta situação com olhos de ver e obviamente mudar a agulha. Eu sou a favor de que sejam os estabelecimentos de ensino a contratar os professores e as pessoas possam concorrer para perto das suas casas, pois um professor deslocado não é um professor contente e nunca será um professor que possa passar a alegria de aprender aos seus alunos. E é preciso pagar melhor a quem tem a responsabilidade de transmitir informação e conhecimentos a milhares de crianças e jovens que são, afinal, os donos do futuro.

Nervosismo

Para quem aprecia a poesia, a revista Nervo está de volta, e o seu número 13 chegou mesmo no início do mês, mas ainda não tinha podido falar dele (parabéns pela longevidade da revista a Maria de Fátima Roldão!). Desta feita, o artista responsável pela capa e pelas ilustrações, reputado como outros que já têm dado a cara a esta revista literária, é Pedro Calapez. Com textos poéticos, participam vários nomes incontornáveis, como se diz agora, como Eduardo Chiote, Inês Lourenço ou António Barahona, a par de talentos mais jovens já firmados, como Andreia C. Faria e Jorge Roque, e também os visitantes estrangeiros Gemma Gorga, em tradução de Miguel Filipe Mochila (um tradutor com ideias extremamente interessantes sobre o ofício, que dá aulas na universidade de Porto Rico); Lamiae El Amrani, de Marrocos, traduzida por Zetho Cunha Gonçalves; ou ainda a brasileira Paula Glenadel. Consta ainda deste número um texto de Adelino Pires sobre os centenários de nascimento de Agustina Bessa-Luís e José Saramago. Se anda tanta gente a dizer que está na hora de virar a página, vamos tomar isso à letra e virar as páginas da primeira Nervo de 2022?

Bons indícios

Em Portugal lê-se pouco, e também se lê muitas vezes mal (vale a pena olhar para os TOP e ver os livros dos primeiros lugares para concordar com isto). Ainda assim, apesar de em todo o lado se dizer que nunca a poupança cresceu tanto como neste período da pandemia (pudera, as pessoas não só tiveram medo de perder os empregos e quiseram garantir uns meses de sobrevivência, como sobretudo, em teletrabalho, não saíram para gastar dinheiro), a verdade é que em 2021 os Portugueses gastaram mais dinheiro em livros (as vendas de livros cresceram cerca de 14%, ao que leio). A juntar a isto, a Feira do Livro de Lisboa há muitos anos que não registava números tão bons, fosse nas receitas propriamente ditas, especialmente na Hora H, fosse no número de visitantes, que superou o dos anos anteriores, situando-se nos 350.000. Dizem também alguns inquéritos feitos em território nacional que as pessoas continuam a considerar um livro um dos melhores presentes que podemos dar e que, em consonância, ofereceram bastantes livros no último Natal. Bem, claro que 2021 continuou a ser um ano atípico, mas será que podemos pensar que são bons indícios para o futuro? Oxalá não seja tudo mera excepção.

Dólitá

Quando era miúda, havia uma distribuidora que colocava nas papelarias e tabacarias portuguesas um monte de livros de quadrinhos e revistas brasileiras. Eu lia muitos Tios Patinhas nas férias, era uma fã do Peninha e detestava o Gastão, mas do que gostava a sério era de uma revista de actividades para crianças chamada Recreio, com textos para ler, figuras para recortar e montar, passatempos, jogos educativos e até ideias de presentes para pais e avós. Uma vez até levei um raspanete porque tinha levado as revistas sem autorização e preguei um calote na papelaria da dona Aninhas que a minha mãe teve de pagar... Mas nunca mais vi nada do género em Portugal, o que é uma pena, pois as crianças pequenas vão logo direitinhas aos telemóveis dos pais quando se querem entreter e já há estudos que dizem que a baixa do QI e a crise de criatividade estão ligadas à massificação do digital. Por isso apoiei a saída em Fevereiro próximo de uma revista infantil com o nome Dólitá, dedicada sobretudo a crianças até aos seis anos, que está aí numa campanha de crowdfunding na plataforma PPL e procura apoios até 28 de Janeiro. Histórias curtas para os pais lerem ao deitar, jogos, desenhos para pintar, bandas desenhadas sem texto para as crianças imaginarem a história, e tudo em material resistente para não ir logo parar ao lixo, há de tudo nesta revista de Mariana Mota Soares que desejamos que chegue depressa a todas as crianças. Para quem quiser apoiar, mando o link:


https://ppl.pt/dolita


 

As possibilidades da ficção

Uma das autoras que mais recentemente descobri, a norte-americana Elizabeth Strout (que começou a publicar já tarde, como Saramago), está a tornar-se uma das minhas preferidas. Em primeiro lugar, porque se percebe logo que não se deixa influenciar pelas modas politicamente correctas, é ela própria em todos os momentos, custe isso a quem custar; em segundo lugar, porque é muito diferente dos escritores da sua geração e descobriu uma forma de fazer romances às fatias, introduzindo personagens novas em todos os capítulos, que compõem histórias independentes que quase podem ser lidas de forma autónoma, embora, claro, ganhem e se iluminem com tudo o resto. A minha mais recente leitura de Strout foi Tudo É Possível, e é fantástico como o anterior O Meu Nome É Lucy Barton é como uma preparação para este livro cheio de possibilidades, onde reencontramos figuras que já conhecemos mas uns anitos mais velhas, incluindo a própria Lucy Barton, que se tornou uma escritora famosa e regressa à sua aldeia natal para visitar o irmão, um rude afável e nervoso que a admira muito e até compra um novo tapete para a receber. Profundamente humana e sem lamechice, esta é uma literatura muito próxima das pessoas, sem paninhos quentes nem mitificações. A ler, portanto.

De costas voltadas

Não é novidade para ninguém que, desde os anos setenta, as literaturas portuguesa e brasileira são mutuamente desconhecidas. Há, claro, uma elite que lê tudo, mas em Portugal essa elite é ainda mais pequena do que a elite que costuma comprar e ler livros traduzidos, por isso, já se vê porque quase não se publicam autores do Brasil em Portugal. O que eu não sabia é que em Espanha acontece algo semelhante e já há quem se queixe de uma espécie de segregação em relação aos autores latino-americanos. Jorge Carrió, o autor do fantástico Livrarias, escreve que, nas listas dos Livros do Ano na maioria dos jornais espanhóis, como o ABC ou o La Vanguardia, o El Pais ou o El Mundo, os livros referidos são quase todos espanhóis, ignorando-se a literatura da América Latina. Ora, quando existem tantos escritores latino-americanos que ganharam o Nobel da Literatura, que aconteceu de repente? Será que os muitos países que geraram autores universais como Borges, Cortázar, Neruda, Fuentes, Bolaño..., estão em queda em termos de criatividade ou, como defende Carrión, o problema é da concentração da indústria editorial em Espanha (só chegam à Europa os escritores latino-americanos que as editoras espanholas entendam publicar) e de algo que o autor do artigo denomina «centralismo neocolonial»? Confesso que me aparecem cada vez menos propostas de autores do outro continente e cada vez mais raparigas espanholas de todas as regiões que começaram a escrever ficção, mas não me tinha passado pela cabeça que havia uma razão por detrás disto. Aqui em Portugal, parece-me mais um desconhecimento puro e duro do que se passa no país grande que fala português.

Excerto da Quinzena

Eva, chama-se Eva, tem menos quatro anos do que eu, e foi sempre o exato oposto de mim: muito expansiva, divertia-se se tinha de passar o fim de semana nalgum dos restaurantes do meu pai, a correr entre as mesas e a brincar às empregadas. Quando o meu pai se matou, a Eva fechou-se em si mesma, passou a falar pouco ou nada, desenhava o tempo todo; era a sua forma de dizer o que queria dizer, que eu não sei o que era nem me importa muito. A minha mãe foi criada por dois tios, e sempre me pareceu curioso que antes do suicídio a minha irmã fosse tão parecida com o tio, o Chico, e depois se transformasse num decalque da tia Soledad, mas que nome tão bem dado. A Eva sempre funcionou por imitação: reproduzindo a atitude que lhe proporcionasse uma maior segurança. Não sei se lhe falta personalidade: é minha irmã, mas não a conheço lá muito bem. A sua vida nunca me interessou, nem na altura nem agora. Posso dizer-te que mal nos damos. No caso da Eva, a mudança de atitude foi de facto uma consequência da história do meu pai, parece-me. No meu caso, não. Eu já era assim.


Elena Medel, As Maravilhas, tardução de Vasco Gato

O luto

Depois de termos perdido recentemente a enorme Joan Didion, talvez a pessoa que escreveu mais desassombradamente sobre o luto em livros como O Ano do Pensamento Mágico e Noites Azuis (respectivamente sobre as mortes do marido e da filha), volto a este tema por um pequenino livro de Chimamanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana que se tornou um fenómeno literário internacional, intitulado Notas sobre o Luto. Durante o que foi certamente um dos piores anos da sua vida, por conta da pandemia que a separou fisicamente da família (ela vive nos Estados Unidos, mas tinha os pais na Nigéria e alguns irmãos no Reino Unido, e não se viram durante muito tempo), o pai morreu sem se esperar. Parecia bem na última videochamada que os dois trocaram e, apesar da idade, nunca lhe falou de sofrer de quaisquer problemas de saúde. O choque foi enorme para a escritora, que era mesmo a menina do papá e que, para mitigar a sua dor, teve de escrever sobre o assunto alguns textos que são a sua forma de fazer o luto deste pai carinhoso e incrível, um académico sem peneiras e incorruptível num país onde ter status é, como veremos, bastante perigoso. São episódios partilhados por ambos, extremamente bonitos e sinceros, e também o relato do escândalo que é sempre qualquer morte imprevista, bem como a impossibilidade de sair para consolar e receber consolo, abraçando os que, tal como ela, sofreram o desgosto. Lê-se de um fôlego.

Cavalos-marinhos

Aqui há uma semana, mais coisa menos coisa, recebi uma mensagem muito especial de um Extraordinário. Além do que dizia a própria mensagem, que era só para mim, havia um link para um texto de um blogue que, curiosamente, me fez lembrar A Metamorfose dos Pássaros, um filme de Catarina Vasconcelos que ganhou já vários prémios internacionais. Não sei se o viram, mas é um objecto artístico muitíssimo especial sobre o amor, a distância e a orfandade (e as coisas que definem algumas pessoas) a que eu chamaria, para resumir, um poema cinematográfico. Por isso me pareceu que ele aqui cabe, até porque o texto do filme talvez pudesse ser lido em vez de ouvido, de tal modo é, a todos os níveis, literário, mas sem que isso torne o filme chato (podia acontecer) ou difícil (costuma acontecer, mas não é o caso). Voltando ao início, há uma cena muito bonita no filme em que a mãe que tem o marido ausente e os seis filhos pequenos em casa recebe de longe um cavalo-marinho fossilizado e o põe, como um brinco, na orelha. Ora, o texto que recebi na mensagem do Extraordinário tinha também que ver com  um cavalo-marinho e, por isso e por achar que deve ser lido, partilho-o convosco. Bons filmes, boas leituras.


https://luizrobalo.blogspot.com/2022/01/cavalo-marinho.html 

Da vida do editor

Por detrás de um livro sério, está quase sempre um editor. Muitas vezes, a sua tarefa é apenas a de escolher e difundir uma obra traduzida, mas de outras existe um trabalho de fundo que permanece diluído no livro final, até porque o autor é quem deve brilhar. É talvez por isso que a maioria dos leitores não conhece os nomes dos editores que publicam os seus autores preferidos (quando muito, saberá os nomes das chancelas que dirigem), o que torna ainda mais justo que um prémio de cidadania que tem como patrono Vasco Graça Moura, atribuído pela Estoril-Sol desde 2015, tenha contemplado este ano o grande editor Zeferino Coelho, cujo impressionante currículo não só inclui a publicação da obra de José Saramago, de Levantado do Chão até à sua morte, como também de oito prémios Camões (entre os quais Sophia, Mia Couto ou, mais recentemente, Paulina Chiziane) e ainda o lançamento de muitos jovens escritores literários com vozes muito interessantes, como Patrícia Portela, Sandro William Junqueira ou Joana Bértholo. Grande leitor de memórias e biografias, Zeferino Coelho sucede, neste prémio, a nomes como Emílio Rui Vilar, Carlos do Carmo, Maria do Céu Guerra ou Eduardo, Lourenço. Parabéns!

Memória de uma voz

Há histórias que parecem ficção. Uma delas contou-a Nelson Ferreira da Silva no Facebook e eu reproduzo-a aqui no blogue, porque merece ser partilhada. Como todos os que já perderam alguém importante certamente sabem, a memória da voz é uma das coisas que mais rapidamente desaparecem. Ora, também todos os que já foram a Londres devem saber que, no metro, estão sempre a avisar-nos «Mind the gap» para vermos bem onde pomos os pés ao entrar e sair da carruagem. Pois parece que uma certa viúva se deslocava diariamente a uma estação da Northern Line do metro londrino por ser do falecido marido a voz que prevenia nos altifalantes «Mind the gap».  Acontece que, com as modernices, as mensagens humanas foram sendo substituídas em todas as estações por vozes robotizadas e, um dia, aconteceu o mesmo à mensagem que a viúva vinha expressamente ouvir. Ela procurou então a empresa para pedir a antiga gravação. Só que, ao contar a sua história, aconteceu o milagre: não só lhe conseguiram o que pediu, como até repuseram a gravação original na estação de metro. Parece ficção, disse eu quando comecei a escrever este post. E é numa ficção, lembrada (e muito bem) por Maria Manuel Viana (a tradutora) como comentário a esta história (para ser mais concreta, em Dia de amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón), que uma viúva vai ao cinema todos os dias para ouvir a voz do marido que era quem dobrava o actor principal.

Fosse

Quem compra o jornal Público à sexta-feira tem a sorte de poder ler um dos raríssimos suplementos culturais portugueses: o «Ípsilon». E na sexta-feira passada era matéria de capa a entrevista feita pelo crítico e escritor José Riço Direitinho, especialista em literatura nórdica, a Jon Fosse, de quem aqui falei a propósito de Manhã e Noite e, mais recentemente, Trilogia, que foi, de resto, considerado o melhor livro de 2021 por quase todos os críticos literários portugueses. Mas a entrevista permite-nos ir mais fundo na vida literária do escritor norueguês, que é considerado acima de tudo um dramaturgo, mas que conhecemos mais pela sua «prosa lenta» (é como o próprio chama à ficção). Há surpresas relativamente ao seu processo criativo (o partir para a página em branco sem ideia nenhuma do que vai escrever porque tudo tem de ser uma novidade também para ele) ou o seu pensamento religioso ou filosófico (diz que confia em algo que não consegue descrever, seja na vida, seja na escrita, e que não tem problemas nenhuns em chamar-lhe Deus). Prefere Hamsun a Ibsen e fala também de Knausgard, que foi seu aluno. Uma entrevista com várias pérolas para guardar.

A obra

É incrível a facilidade com que nos tempos que correm se usa a palavra "obra" a propósito de qualquer pessoa que escreveu um livro ou dois. É ainda pior quando alguém que só agora começou a alinhar umas frases numa página envia o seu original para uma editora com uma mensagem em que refere que a "obra" trata disto ou daquilo. Claro que, com a industrialização do mundo editorial, o autor parece agora importar menos do que o leitor; mas, ainda assim, gostaria de insistir em que só alguns dos autores que actualmente publicam têm ou terão "obra"... Quanto a isto, aliás, vale a pena perguntar a razão do estranho desaparecimento da referência à obra de um autor nos livros novos que vai lançando. Por exemplo, nas últimas páginas de cada livro publicado de Mário Cláudio ou Lobo Antunes (autores que têm "obra" e cerca de cinquenta anos de vida literária) aparece a lista dos livros que escreveram. Pode pôr-se também no princípio do livro, à inglesa, por ordem cronológica ou por género (muitos autores tocam vários instrumentos e podemos separar a sua obra por ficção, poesia, teatro, ensaio...); mas, quando realmente um escritor chega a um determinado patamar, é mais do que justo (e necessário para quem estuda esse autor) que se refira a obra já publicada. Aos que começam, aconselho a que usem palavras como "livro", "romance", "ficção" ou outras que se lhes assemelhem, e que desejem que essas suas primeiras experências literárias partilháveis um dia constituam parte da sua... obra.

Livros e filmes

Já aqui disse que não sou muito dada a séries e que tenho dificuldade em fidelizar-me às que têm mais de três episódios. Também prefiro ver cinema na sala às escuras, mas sem pipocas! No entanto, dadas as restrições, acabei por me sentar algumas das últimas noites do ano em frente da televisão para cheirar uma ou outra coisa, entre séries, documentários e filmes. E fiz algo inédito, que foi ver um filme baseado num livro que queria muito ler quando o que era desejável era que tivesse lido o romance e depois visto a adaptação. Agora não vale a pena chorar sobre o leite derramado, mas sim prevenir quem ainda não viu O Poder do Cão filmado pelas talentosas mãos de Jane Campion de que leia primeiro o livro de Thomas Savage. É um romance do final dos anos 1960 sobre dois irmãos completamente diferentes que vivem num rancho algures no Oeste: um deles elegante e discreto, o outro bruto e agreste. Mas o casamento do primeiro com uma viúva que tem um filho adolescente vai alterar a estabilidade do lar; e, durante umas férias, a chegada do filho da viúva para passar um mês no rancho transformará decisivamente o brutamontes numa pessoa muito distinta. Claro que o principal ficou por dizer, pois se contar serei desmancha-prazeres. Pior do que saber o fim antes de começar a ler, só mesmo não poder pôr uma cara no «mau da fita» e vê-lo sempre com a do Benedict Cumberbatch... Quem me mandou ver o filme primeiro?

Lembrar

A poucos dias do Natal, morreu-nos a escritora Leonor Xavier, que era uma chama acesa nas vidas de quem com ela se cruzava. Poucos dias depois, porém, 2021 não nos poupava a uma outra morte: a de João Paulo Cotrim. Os jornais renderam-lhe homenagem, como era suposto, mas foram muitíssimas as figuras de todas as gerações e áreas da cultura que lamentaram essa perda. O jornalista que sabia imenso de banda desenhada e dirigiu a Bedeteca de Lisboa ao longo de vários anos, o editor de livros, o grande leitor, o também escritor, vai decerto fazer falta a muita gente, amigos e autores. E eu, que apesar de o ter conhecido há uns vinte e cinco anos nunca fui exactamente próxima dele, tenho mesmo assim uma recordação que fez sempre do João Paulo alguém especialmente empático e caloroso. É que, nos anos 1990, quando escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado A Casa e o Cheiro dos Livros, concorri com ele a um prémio literário na altura instituído pela revista Cosmopolitan e uma marca de cosmética que estava a lançar um perfume chamado Poème. Já não me lembro de todos os elementos do júri (recordo Maria Teresa Horta e Francisco José Viegas, e sei que a editora do livro seria a Maria da Piedade Ferreira, então na Quetzal), mas a pessoa que me telefonou nessa tarde a anunciar que eu vencera o dito Prémio Poème foi o João Paulo Cotrim e, por isso, a minha poesia estará sempre associada a essa boa memória. Perdemo-lo demasiado cedo: tinha apenas 56 anos e, ao que sei, ainda muita coisa para nos dar. Que descanse em paz.

O que ando a ler

Sejam bem-vindos os que chegam pela primeira vez ou regressam aqui ao cantinho de sempre depois de uma merecida pausa. Oxalá não tenham apanhado o vírus, mas, se o apanharam, que tenha sido leve. Eu não li tanto como gostaria nestas férias, mas escrevi bastante mais do que planeara, e portanto é como se uma mão lavasse a outra. Não posso dizer que, em matéria de leituras, tenha ficado satisfeita, mas falemos hoje do livro que ainda tenho entre mãos. Chama-se Herança, escreveu-o Vigdis Hjorth, e diz a revista New Yorker que se trata de um romance que "dividiu uma família e cativou um país". O país é a Noruega, onde a autora nasceu, e por lá o romance venceu uma data de prémios e tornou-se um fenómeno de vendas. A família é a da própria história, e está desavinda por causa de umas casas de férias que, pelos vistos, os pais decidiram que só as filhas mais novas deveriam herdar. Mas, por detrás da injustiça relatada por uma irmã que não herdará (ela e o irmão mais velho são os lesados), há um episódio francamente traumático que atravessa toda a narrativa e envolve os dois irmãos e o pai que entretanto morre de forma um tanto misteriosa. Embora seja um livro interessante, é quanto a mim bastante repetitivo e arrasta-se desnecessariamente; porém, ao mesmo tempo, está cheio de pequenos capítulos preciosos, alguns líricos, outros puros apartes sobre filosofia, teatro, psicanálise..., que o tornam bastante original. Já me falta pouco para chegar ao fim e, apesar de trezentas páginas lidas, sinto que ainda não sei tudo o que precisava. Será este o segredo do seu sucesso?