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A mostrar mensagens de setembro, 2015

O que não dizer a um escritor

A escritora britânica Joanne Harris desafiou os leitores do seu blogue a enviarem-lhe frases que fossem simplesmente a última coisa que um escritor quereria ouvir – e houve de tudo, mas a autora seleccionou as que considerou pessoalmente mais irritantes, entre as quais figurava uma, fora do comum, que eu achei divertidíssima: «Desculpe, mas só temos descafeinado.» Em todo o caso, as mais contundentes diziam respeito à ideia que os outros fazem da profissão de escritor e do que, na verdade, é escrever. Ora vejam alguns exemplos: «Para além de ser escritora, o que é que faz?» «Ah, escreve livros? Mas qual é o seu verdadeiro emprego?» «Nunca mais acaba o livro porquê? Caramba, não pode ser assim tão difícil.» «Quando me reformar, também vou escrever um livro.» «Eu também escreveria se tivesse mais tempo livre.» «Que sorte ter uma família que a apoie/sustente.» Num outro patamar, estavam frases um tanto inconvenientes que diziam respeito ao completo desconhecimento da carreira da autora, como «Ah é escritora? E que pseudónimo usa?» ou «Ah, pensei que já tinha morrido». Uma outra questão – a de se achar que os escritores devem fazer borlas, que já tem sido aqui discutida – era levantada pela afirmação «Não lhe podemos pagar nada mas é uma excelente oportunidade para ver o seu nome ligado a uma publicação como a nossa». E, entre muitas outras, gostei da que dizia respeito ao veredicto depois da leitura de uma versão final de um romance: «Até que nem está nada mal para um primeiro rascunho. É um rascunho, certo?» Se conhecer algum escritor, já sabe, há coisas que não lhe deve perguntar.

Turismo literário

Cada vez mais é preciso encontrar o ovo de Colombo em matéria de turismo – e a literatura também atrai portugueses e estrangeiros. A Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) lançou, por isso, recentemente o projecto Escritores a Norte, que inclui vários autores portugueses de renome, promovendo as respectivas obras num itinerário traçado a partir dos espaços que lhes são dedicados. «Hoje as pessoas querem visitar um território que se diferencie e nós entendemos que utilizar estes vultos da cultura nacional, que têm uma relação próxima com o Norte, seria uma boa forma de valorizar o território», diz o director da DRCN, que anuncia também, no âmbito deste projecto, a criação de um portal online (ver link abaixo) onde é possível encontrar toda a informação sobre as casas-museus envolvidas no projecto e os escritores e património associados, bem como a publicação de um livro e a produção de nove documentários. Para já, entre os autores visados (e as suas casas), contam-se Miguel Torga e José Régio, Camilo (claro) e Aquilino, Ferreira de Castro, Eça e Guerra Junqueiro. Mas, com o tempo, se a coisa correr bem, quem sabe se não se multiplicam as visitas a outros locais relacionados com outros escritores e vultos da cultura nortenha? Esta pode ser uma bela forma de viajar.


 


www.escritoresanorte.pt

A menina do cabelo azul

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Os meus autores de romances também gostam de escrever livros para crianças e Não Acordem os Pardais, de Nuno Camarneiro (texto) e Rosário Pinheiro (ilustrações), é o primeiro que publico este ano (mais para a frente darei também a conhecer estreia de Ana Margarida de Carvalho na literatura infantil). Neste belo livro do Nuno, a Rita tem o cabelo azul e muitas perguntas para fazer aos pais que, por cansaço, às vezes não dão muita atenção ao que lhe respondem. Daí que a menina tente saber por si própria onde mora o papão, que afinal é bem medricas, para onde vão os sonhos (estarão em caixas de cartão?) e onde dormem os pardais que, por acaso, fazem bailes bem giros no sótão da casa quando ninguém está a ver. Um texto divertido e imagens muito bonitas para deliciar meninos e meninas com cabelos de todas as cores.


 


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Lembrar

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Já aqui vos falei de uma actividade organizada pelo jornalista João Morales que dá pelo nome de Recordar os Esquecidos e acontece no último sábado de cada mês, ao fim da tarde, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Tem normalmente dois convidados, que escolhem uma pequena lista de livros mais ou menos esquecidos pelo público e pelas livrarias, hoje difíceis de encontrar; e sobre eles falam a quem assiste com o intuito de, pelo menos entre os presentes, conseguirem que alguns desses títulos voltem a ser lidos. Vou estar então por lá amanhã a contar dos meus queridos esquecidos; e em muito boa companhia – com o João Paulo Cotrim, editor da Abysmo e, claro, também o organizador do encontro. Falarei, entre outros, dos livros Casa de Campo, de José Donoso, Clube de Cavalheiros, de Anne Harris, Uma Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras e Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse. Terei todo o gosto em que por lá apareçam para saber o resto.


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Leiria connosco

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Já vai sendo hábito. Mas é irresistível quando a Livraria Arquivo, de Leiria, nos convida a visitá-la. Desta feita, teremos para apresentar dois livros que saíram recentemente: a obra do nosso retratista oficial, João Pinto Coelho, intitulada Perguntem a Sarah Gross, um romance admirável sobre Auschwitz antes e depois de o ser, com as histórias de duas mulheres que guardam muito de terrível e secreto; e o delicioso O Caçador do Verão, de Hugo Gonçalves, com algumas das mais belas páginas sobre a infância de um protagonista meio perdido na história do passado da família. Se estiverem por esses lados, por favor, apareçam e de certeza que não se arrependerão.


 


AConversaCom_JoaoPintoCoelho_HugoGonçalves_Set15_

Pão, pão, vinho, vinho

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Já vos falei do belo livro de Paulo Moreiras – Pão & Vinho – que trata de duas coisas de que os Portugueses (e muitos mais habitantes deste mundo) não abdicam e que fazem, de resto, parte da sua matriz identitária. É uma obra fascinante, além de bonita, que aborda as origens destes dois produtos típicos da nossa gastronomia, mas que nos oferece um sem-número de histórias divertidas e curiosas à sua volta, bem como adivinhas, provérbios, lendas e tradições resgatadas ao nosso património etnográfico. Ora, este livro terá uma sessão de apresentação na próxima sexta, na Casa da Cultura, em Setúbal, com o apoio da Livraria Culsete, do BlogOperatório (de José Teófilo Duarte) e do jornal Sem Mais, com a novidade de contar também com a colaboração de uma enóloga, Joana Vida da Adega Venâncio Costa Lima, que organiza no local uma prova de vinhos. Não falte!


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Mudar o mundo

Há livros que mudam a nossa vida, que a viram do avesso e nos fazem pensar em coisas que nunca teríamos pensado sem eles. Há livros que nos mudam por dentro, e é bom que isso aconteça, significa que cumpriram o objectivo de dialogar com os leitores. Mas há livros que conseguiram mudar o mundo inteiro com as suas ideias e acabaram por influenciar os homens e mulheres do seu tempo e muitos outros de gerações subsequentes. Podem ser tratados ou romances, livros religiosos ou peças de teatro, não importa. O jornal The Guardian (desculpem estar sempre a citá-lo, mas é um jornal tão interessante) elaborou uma lista de dez títulos desta natureza e põe à cabeça O Segundo Sexo, de Simone De Beauvoir, obra revolucionária no tocante à sexualidade feminina que irritou o Vaticano nos finais dos anos 40, quando foi publicada. Mas do rol fazem também parte a Bíblia, claro, ou Analectos de Confúcio, um texto com 2400 anos que continua a ser lido até hoje. Não podiam também faltar textos científicos, como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, ou Elementos, de Euclides. A Interpretação dos Sonhos, de Freud, tinha de fazer parte desta escolha, tal como O Manifesto Comunista, de Engels e Marx, que revolucionou o mundo. Ainda temos a obra de Shakespeare e o romance Beloved, de Toni Morisson, a afro-americana premiada com o Nobel da Literatura. E um livro que confesso não conhecer, A Sand County Almanac, obra póstuma de Aldo Leopold que é, pelos vistos, considerada um dos mais importantes livros sobre a Natureza.

Puro mal

Já aqui falei de A Zona de Interesse, do britânico Martin Amis, por causa da polémica que criou assim que foi publicado no Reino Unido e que levou alguns dos editores habituais do autor noutros países – especialmente em Franca e na Alemanha – a recusarem a sua publicação. Na altura, quando li o artigo que me serviu de base a esse post, fiquei com a ideia de que Martin Amis quisera apenas brincar com coisas muito sérias, como o Holocausto; mas, depois de ler o livro, não acho que seja brincar – talvez mais falar de um assunto que é muito sensível de forma completamente desbragada e introduzir na temática terrível dos campos de concentração uma história de amor entre as não-vítimas, que começa por ser um engate puro e duro, mas acaba por tornar-se uma paixão inusitada – de uma das partes, pelo menos. O romance, que tem lugar em Auschwitz (a zona de interesse), tem três narradores: o dandy Thomsen (sobrinho do secretário de Hitler e, portanto, intocável); o comandante do campo, Paul Doll, conhecido como o Velho Beberrão e marido de Hannah Doll, que Thomsen cobiça; e por fim o judeu Szmul, um dos homens mais tristes do Lager, escolhido para seleccionar entre os seus pares quem morre e quem se safa e para carregar os cadáveres para fora da vista da leva seguinte de judeus (a parte mais bonita, mas se calhar a mais chocante, sobretudo ao abordar velhos e crianças). Para quem gosta do humor inglês, talvez os editores que recusaram publicar a obra possam parecer demasiado picuinhas, porque, não fosse o tom (basta ler a página que o editor português destaca sobre as vítimas de experiências médicas), tudo o que aqui se conta é tremendo, mas soa autêntico e é profundamente interessante. Para mim, o maior problema foi acompanhar páginas e páginas cheias de palavras alemãs – nomes, cargos, tiques de linguagem das personagens (a extraordinária Cristina Torrão tem de certeza a vantagem de não sentir isto como obstáculo) que tornaram a leitura cansativa e não me permitiram tirar todo o partido da obra que seria desejável. Mesmo assim, acho que deve ler-se – mas, atenção, é um prato que se serve mesmo frio.

Arrumadinho ou nem por isso?

O jornal The Guardian revela que, nos dias de hoje, o aspecto das secretárias se tornou uma questão importante para intelectuais e gestores em todo o mundo e que já muito se tem escrito e investigado sobre o assunto. Tenho ideia de que o que temos em cima das nossas secretárias e a forma como as deixamos ao fim de um dia de trabalho dirá bastante acerca da nossa personalidade. Eu sou arrumada na minha desordem, mas tenho de deixar sobre a minha mesa tudo o que é para tratar no dia seguinte, pois, se cometo o disparate de o tirar da minha frente, posso realmente esquecê-lo durante semanas (a memória já não é o que era). O jornal britânico partilha a fotografia da secretária do escritor japonês Haruki Murakami, muito limpinha e organizada: além do computador, uma caneca com a bandeira da suíça, um bibelot de um jogador de baseball do seu clube, alguns talismãs trazidos de viagens, dois copos cheios de lápis iguaizinhos, um candeeiro, uma agenda e pouco mais. Serão assim tão despojadas e vazias as dos outros escritores? E as das pessoas com outras profissões? O Guardian pede que lhes enviemos fotografias das nossas secretárias e promete publicar as suas preferidas, pedindo que, por favor, não as limpemos para o retrato. Quer contribuir ou nem por isso?


 


http://www.theguardian.com/books/booksblog/2015/aug/18/heres-haruki-murakamis-desk-is-yours-as-tidy?CMP=EMCBKSEML3964

Poesia conjugal

Hoje tenham paciência, mas não me vou esforçar muito. Logo à tarde o Manel vai apresentar livro da sua autoria e dá-me de mão beijada um tema para o post de hoje. Pois é, depois de muita insistência minha e de muita preguiça dele (a história já tem uns anitos), lá se convenceu o senhor editor e marido a olhar para toda a sua produção poética escrita desde os anos 1960 até hoje e a escolher os poemas que achou deviam figurar num livro para a posteridade. A sua Poesia Reunida chama-se por isso O Pouco Que Sobrou de Quase Nada (ele foi demasiado exigente, mas a vida do editor é cortar, cortar…) e vai ser lançada hoje pelas 18h30 no Restaurante do El Corte Inglés. Aqui fica uma amostra à la O’Neill para os mais curiosos:


 


CHIADO


 


aquelas pernas ali a dar a dar


dos homens levam os olhos ao passar


 


são borboletas canários verde mar


onde mergulho a medo o meu olhar


são promessas que sei sem cobertura


de uma viagem pela interior natura


 


aquelas pernas ali a dar a dar


dos homens levam os olhos ao passar


 


são às dezenas às centenas ao milhar


a desenharem nos passeios pombas brancas


nascem nos pés e vão até às ancas


por um caminho que é bom de passear


 


aquelas pernas ali a dar a dar


dos homens levam os olhos ao passar


 


umas claras são outras morenas


umas marias outras manuelas


umas maiores outras mais pequenas


mas as tuas são melhores que todas elas


 


as tuas pernas aí a dar a dar


que já nem posso este poema terminar

Invenções

Uma vez, sentada à mesa de um jantar durante um festival literário, ouvi uma conhecida escritora portuguesa dizer, com a maior das calmas, que Borges (esse mesmo, o escritor argentino) não tinha estilo. Não comentei; o disparate só podia ter dois motivos: inveja ou desconhecimento (os escritores não lêem tudo e falam muitas vezes do que não leram como se o tivessem feito). Tenho-me posto a degustar o genial Jorge Luis no original depois de o ter feito em português – e se há coisa de que não pode ser acusado é de não possuir uma voz própria, inimitável e, porém, capaz de se intrometer na escrita de dúzias de escritores até aos dias de hoje. O argentino que tinha portugueses entre os seus antepassados é realmente um fantástico inventor – e isso é desde logo notório nos seus textos sobre livros fictícios (mas que bem podiam ter existido), como o famoso «Pierre Menard, autor do Quixote», «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius» ou (em espanhol agora, porque não me lembro de como foi traduzido em português) «El acercamiento a Almotásim». Estes e outros (como o muito citado conto «A Biblioteca de Babel») fazem parte do volume Ficções, que obteve o Prémio Internacional de Literatura, atribuído por editores de França, EUA, Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha em 1961 e reli agora numa velhinha edição de bolso da Alianza Editorial roubada às estantes do Manel. Mas o mestre está todo traduzido em português e é imperdível, por isso avancem quanto antes, não dêem ouvidos a quem desconhece e apouca, prestando um mau serviço.

Portoguês

Não, não me enganei a escrever, nem errei por mera ignorância. A palavra não existe, mas faz parte do título de um dicionário à moda do Porto. Admirado? Não fique; a justificação até tem graça: um grupo de autores (portuenses, suponho) – Ana Cruz, Cristina Vieira Caldas e João Carlos Brito, todos ligados ao ensino – resolveu coligir mais de 1000 termos e expressões de calão da variante linguística dos falantes do Porto e traduzi-los para inglês, apresentando a sua tradução literal (que, segundo leio, dá um resultado risível na maioria dos casos), o seu significado e, por fim, as expressões equivalentes em inglês, com variantes para Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e Escócia. A obra intitula-se Dicionário PORTOguês-Inglês e os seus autores acreditam que contribui para a afirmação e a identidade do acervo linguístico dos portuenses, sendo ainda útil aos turistas que visitam a Invicta e que assim podem tomar contacto com a diversidade lexical do português falado na capital nortenha. O dicionário contém ainda capítulos sobre alimentação típica do Porto, bem como algumas histórias e, como não podia deixar de ser, um capítulo sobre futebol.

Na Indochina

Antes de férias, comuniquei que estava de regresso a alguns autores clássicos – e cheguei a escrever sobre livros de Steinbeck e Camus. Mas na verdade não me fiquei por aí e deliciei-me com outros, entre os quais Graham Greene e o seu O Americano Tranquilo que, de resto, partilhei com o Manel (já se sabe, isto das leituras atrai sempre quem está perto). A história passa-se na Indochina durante a guerra com os Franceses e envolve na mesma trama o narrador – um jornalista inglês que se adaptou ao Vietname e não tem qualquer desejo de regressar à pátria –, o jovem americano Pyle – tranquilo, ingénuo e um pouco tonto, mas a trabalhar para os Serviços Secretos dos EUA – e a bela Phuong – uma rapariga local que vive com o primeiro há dois anos mas é desejada pelo segundo, união que agrada à irmã mais velha, que vê nela uma hipótese de um bom casamento (o jornalista é casado, mais velho e sem bens). Mas o triângulo amoroso e o que se passa com cada um dos seus vértices ultrapassam grandemente a questão romântica, e o brilhante Greene dá-nos uma visão sublime das forças em jogo numa guerra sangrenta que causou muitas mortes a civis, ao mesmo tempo que vai desvendando a vida do protagonista e as acções inesperadas do americano tranquilo entre emboscadas, viagens perigosas e bombardeamentos em praças e cafés de Saigão e Hanói. Deixando-nos a nós, leitores, numa guerra de nervos até à última página, este romance é realmente uma delícia de construção.

Ler e andar

Leio num blogue do Brasil a notícia de que na Roménia o incentivo à leitura é levado muito a sério e que se multiplicam acções para o concretizar, algumas delas francamente originais. É o caso da praticada numa determinada cidade universitária, na qual um estudante teve a ideia de propor ao presidente da Câmara, ao longo de meia dúzia de dias, o transporte público gratuito para quem se fizesse acompanhar de um livro. Era suposto que a obra fosse para ler durante a viagem – e o poder local aceitou-a, mesmo sabendo que muitos passageiros podiam carregar com eles livros já lidos ou que nem tencionavam ler. Mas, para aumentar o incentivo, o mesmo estudante criou o projecto Bookface, que implica que, no Facebook, todos os membros que ponham no perfil fotografias suas a ler (e mostrando com nitidez a capa do respectivo livro) ganhem descontos em livrarias. Não sei se por cá a coisa funcionaria, mas até podia ser giro vermos o que os nossos amigos facebookianos andam a ler e receber as suas sugestões de leitura através dos retratos.

Angola minha

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São muitíssimos os Portugueses que viveram em Angola no século passado e regressaram na ponte aérea de 1975. Este livro de que hoje falo é também para eles, mas não só. Escreveu-o um autor que viveu essa viagem de perto e pertence a uma família que passou uma parte importante da sua vida em Angola. O País Fantasma, assim se chama o novo romance de Vasco Luís Curado, conta a história de duas famílias portuguesas, a de um militar e a de um civil. Ambos, Capelo e Mateus, partiram para Angola em 1961 – ano dos massacres de brancos em fazendas no Norte do país, aqui descritos de forma avassaladora – e regressaram em 1975, como tantas personagens reais que voltaram a um Portugal onde, às vezes, nem família já tinham. Um deles fez duas comissões na Guerra Colonial, o outro foi chefe de posto num lugar isolado. Um era de esquerda e muito crítico; o outro enriqueceu e nunca compreendeu porque teve de abandonar as suas plantações de café e voltar com uma mão à frente e outra atrás. Os dois lados da questão e as atrocidades cometidas ora por um, ora por outro, são aqui relatados de forma imparcial e sem paninhos quentes, mostrando que, afinal, ninguém teve razão numa Angola que ainda hoje é, segundo a epígrafe escolhida pelo autor, uma grande loba que tudo devora. O País Fantasma é, também por isso, talvez o livro mais esclarecedor sobre a história de Angola e o fim do império colonial editado em Portugal nas últimas décadas.


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O totalitarismo de volta

Não é surpresa que alguns de nós sentimos que, apesar da queda dos muros e dos regimes totalitários, há muita coisa má que está de regresso, umas vezes sub-repticiamente, outras nem tanto. Agora é o senhor Putin que se arma em culto e quer seguir os passos de Oprah Winfrey, aconselhando livros para os leitores da sua nação com uma espécie de Clube do Livro. E mais: promete ajuda na renda e um corte nos impostos aos livreiros que exponham uma lista de livros propostos pelo seu governo… O objectivo, diz um seu ministro, é aumentar as vendas de literatura de qualidade, bem como das obras sobre arte, história e educação. Assim as coisas até nem parecem ter nada de preocupante, excepto quando o discurso começa a referir livros que «contribuam para o sentimento patriótico da população» e outras frases do tipo, o que já lembra uma certa propaganda. Sabe-se, ainda por cima, que houve directivas governamentais para certos manuais escolares que as crianças russas usavam há anos serem banidos do sistema educativo, e os livreiros queixam-se de que foram «aconselhados» a retirar dos seus espaços comerciais obras que poderiam ser consideradas ofensivas apenas por terem símbolos fascistas nas suas capas (a suástica em Maus, de Art Spiegelman, foi um deles). Sob o véu da promoção da literatura, muitos acreditam que Vladimir Putin quer moldar as mentes dos leitores. Cuidado.

Livros da Selva

No meio das terríveis notícias que enchem as páginas dos jornais em todo o mundo sobre os refugiados e migrantes que tentam chegar à Europa, descobrem-se por vezes pequenas boas notícias. Num campo de refugiados em Calais, baptizado com o nome The Jungle (a Selva) – com cerca de 3000 pessoas, muitas das quais oriundas do Sudão e da Eritreia, que tentam ir para Inglaterra trabalhar –, uma professora inglesa de nome Mary Jones, que já apoiava o campo como voluntária, tomou consciência de que havia muitos refugiados com formação acima da média e resolveu criar uma biblioteca equipada exclusivamente com livros oferecidos. Além deste material, a biblioteca possui outros serviços: dá aulas de Inglês e orienta quem quiser na procura de uma profissão. Além desta biblioteca, o campo tinha já barbearia, mercearia, restaurantes, igrejas, uma mesquita e uma loja de reparação de bicicletas, parecendo querer sair da «Selva» o mais rapidamente possível. Mary Jones diz que muitos dos refugiados lhe pedem livros de poesia e ficção e afirma que seria muito importante receber livros noutras línguas que não apenas o inglês, que nem todos dominam, e também dicionários que facilitem a aprendizagem da língua inglesa. Todos podemos colaborar – e, se quiserem, aqui vai o endereço da professora:


 


maryjones@orange.fr

Pentear e escrever

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O que se passa por dentro das cabeças é mais importante do que o que se passa por fora? Falar de cabelos é sempre uma futilidade? Não necessariamente, até porque, segundo a narradora do belo e contundente Esse Cabelo, «escrever parece-se com pentear uma cabeleira em descanso num busto de esferovite» e visitar salões é uma boa forma de conhecer países, de aprender a distinguir modos e feições e até de detectar preconceitos. Esta é a história de uma menina que aterrou despenteada aos três anos em Lisboa, vinda de Luanda, e das suas memórias privadas ao longo do tempo; mas é também a história das origens do seu cabelo crespo, cruzamento das vidas de um comerciante português no Congo, de um pescador albino de uma praia mítica, de católicas anciãs de Seia, de cristãos-novos maçons de Castelo Branco – uma família que descreveu o caminho entre Portugal e Angola ao longo de quatro gerações com um à-vontade de passageiro frequente. E, assim, ao acompanharmos as aventuras deste cabelo crespo – às vezes confundido com o abismo mental –, é também à história indirecta da relação entre vários continentes – a uma geopolítica – que inequivocamente assistimos. Não percam. O lançamento, dia 15 deste mês na FNAC do Chiado, terá como orador o fascinante Abel Barros Baptista.


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Poesia sem grades

«O recluso de hoje pode ser o nosso vizinho de amanhã», diz Filipe Lopes, o criador de A Poesia não tem grades, um projecto que vem sendo desenvolvido desde 2003, com o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e em parceria com a Direcção-Geral da Reinserção e dos Serviços Prisionais. Tem como objectivo primeiro criar hábitos de leitura entre os detidos que, na sua maioria, possuem um baixo nível de escolaridade e provêm de meios sociais com poucos hábitos culturais, mas que podem transformar o tempo do cumprimento da pena numa oportunidade de aprendizagem e ampliação de conhecimentos que, inclusivamente, serve a muitos para voltarem a estudar e a alguns para concluírem uma formação superior. No projecto A Poesia não tem grades, a literatura é usada como instrumento para abordar temas diversos, como o amor, a morte ou a solidão, permitindo um debate e uma reflexão gratificantes entre os reclusos. No entanto, dado o excelente resultado atingido até agora e para alargar a actividade a mais estabelecimentos prisionais, são agora precisos voluntários; e, portanto, se alguém estiver interessado em inscrever-se, aqui fica o link:


 


www.apoesianaotemgrades.pt

Curiosidades

A maior vantagem da leitura é que um texto, mesmo que não faça as nossas delícias (e uso a expressão porque vou falar de alimentação), quase sempre nos ensina qualquer coisa que não sabíamos. Eu sempre pensei, por exemplo, que expressões como «pôr a mesa» e «levantar a mesa» estavam relacionadas com o facto de, para comermos à mesa, termos de lá pôr em cima uma data de coisas, como pratos, talheres, copos, travessas, guardanapos – e, claro a própria comida – e as tirarmos de lá no fim da refeição. Mas não – e eis porque é tão bom ler! A verdade é que, segundo apurei numa tese que recentemente me veio parar às mãos na área da História da Alimentação, da autoria de Guida Cândido, as salas de jantar dos nossos dias só se tornaram comuns em Setecentos porque, antes disso, se comia em muitos sítios dos palácios, dependendo dos que vinham (se eram mais íntimos, se mais afastados), pelo que era necessário ir pôr a mesa nesses lugares e tirá-la, ou levantá-la, no final das refeições. Seguramente, muitas outras coisas de que estou convencida cairão por terra à medida que for encontrando informações deste tipo. Lendo, claro.

Pessoa para as pessoas

Tendo em conta a quantidade de turistas que nos dias de hoje – e sobretudo no Verão – visitam Lisboa, a Casa Fernando Pessoa faz um forcing até 29 de Setembro e aumenta significativamente o número de visitas guiadas (mas qualquer lisboeta pode e deve aproveitá-las, claro). E não só organiza diariamente visitas em português e inglês, como se compromete a desvendar as memórias do poeta através dos objectos que a casa possui (mobiliário, quadros, manuscritos, coisas pessoais) e ainda a realizar itinerários mais sofisticados, para leitores exigentes, como o delineado pela relação entre Pessoa e Almada Negreiros (a partir do retrato do primeiro pintado pelo segundo) ou mesmo, para os mais românticos, aquele que pode ser seguido acompanhando as histórias de amor do poeta, seja na sua obra, seja na sua vida. Nunca conheceremos inteiramente um homem e um escritor como o mestre Pessoa, mas lá que podemos ficar a saber sempre mais qualquer coisinha, isso é inegável.

O que ando a ler

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Ora bom dia a todos – e espero que as férias (para quem as teve) tenham sido revigorantes, sobretudo em matéria de leituras. É mesmo por aí que começo e o melhor é ir direita ao assunto: 10:04, de Ben Lerner, saído recentemente para as livrarias portuguesas. Trata-se de uma obra que aparenta ser um romance, mas não é só isso, e que, num género que percebo estar agora em voga nos Estados Unidos (já aqui vos falei de Rebecca Solnit e do seu Esta Distante Proximidade, por exemplo), talvez seja mais interessante do que a maioria, pelo menos a avaliar pelos encómios dos pares do autor e pelas críticas positivas das publicações respeitáveis. Pois bem, dito isto, começa por estranhar-se e depois, como na frase de Pessoa, entranha-se. Livro em que narrador e autor são figuras que coincidem, em que personagens com nomes diferentes acabam por ser as mesmas, em que o livro que o narrador está a escrever e pelo qual lhe pagaram uma bela maquia é e não é o que estamos a ler, enfim, aqui as categorias da narrativa estão bastante baralhadas e podem baralhar-nos também a nós, se não estivermos suficientemente atentos. Mas, se estivermos, apreciamos as reviravoltas e proezas do autor, ou narrador, ou seja o que for, enquanto descobre uma deficiência na própria aorta, combina com a melhor amiga ser pai biológico do seu filho, faz uma residência literária no deserto do Texas ou ajuda um miúdo hispânico de uma família «sem papéis» a escrever um trabalho sobre um dinossauro que nunca existiu. O livro é bastante exigente e o tradutor fica um nadinha aquém; em todo o caso, para quem gosta de meta-literatura, vale a pena atrever-se a esta ficção/não ficção do aplaudido Ben Lerner.


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