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A mostrar mensagens de julho, 2013

Período de repouso

Neste momento em que vos escrevo, dou graças a Deus por me ter casado (tarde, mas bem). As tendinites de que há tempos aqui me queixei não se atenuaram, nem com os vossos votos de melhoras – e a verdade é que não consigo tirar um cabide do varão do roupeiro, nem vestir um casaco que não seja largo e maleável, nem coçar as costas, nem sequer apertar o soutien. Não se riam, se não fosse o Manel, desconfio de que a minha vida seria ainda mais limitada – e talvez não tivesse sequer coragem para alimentar este blogue. Até porque, diz o médico (o mesmo que ainda não me conseguiu tratar, depois de consultas, exames e fisioterapia que me raparam a conta bancária), os teclados, os ratos de computador e os tablets – e o exercício da leitura puro e duro em má posição – são provavelmente responsáveis pelo estado a que cheguei (eu não descontaria o stress diário e o meu feitio eléctrico, mas enfim). Assim, como amanhã é Agosto e todos – mesmo sem fundos – vamos entrar em mood de férias, vou fazer um repouso da escrita (da leitura será impossível) e os Extraordinários compreenderão que este blogue só regresse em Setembro, que é também quando começa a rentrée e terei os curiosos todos por aqui. Por isso, desejo um bom descanso a todos os leitores destas Horas Extraordinárias – e aos que acreditem em Deus peço que rezem para que estas minhas dores vão também de férias... e já não voltem. No dia 1 cá estarei, provavelmente cheia de novidades literárias para dividir convosco. Boas férias!

Um postal para Sílvia

A Livraria Arquivo, em Leiria, tem uma comunidade de leitores muito participativa e assídua (e os escritores, por isso mesmo, gostam de lá ir e ser interpelados pelos leitores). Mas, como esse Clube de Leitura interrompe em Julho e Agosto as suas actividades, alguém (provavelmente de nome Sílvia) sugeriu que, em vez de irem ao Facebook partilhar as leituras de férias (o que está mais do que gasto), deveriam escrever um postal, à boa maneira antiga, posto no correio e tudo, sobre o que andavam a ler. A proposta não só foi aceite pelos demais membros do clube, como deu origem a uma ideia mais ampla, que é a de estender o envio do postal a todos os leitores do País que queiram partilhar as suas leituras estivais, mediante um excerto ou um comentário sobre o livro, com a simpática «Sílvia». A livraria compromete-se a receber o correio e a fazer, no final do Verão, uma exposição de todos os postais, venham eles de onde vierem. Uma belíssima ideia que, se não me engano, é mesmo à medida dos leitores deste blogue. Eu vou escrever! Se também quiserem participar, façam-no para:


 


Um Postal para Sílvia


Av. Combatentes da Grande Guerra, 53


2400-123 Leiria

Fechada e sem obras

Sempre que vou ao Chiado, passo os olhos por meia dúzia de montras que ainda têm gosto a infância (e, se não fosse o incêndio nos anos 1980, muito mais teria com que me deleitar, pois tenho saudades de apalpar as fazendas de xadrez no Eduardo Martins e beber batidos de ananás na Pastelaria Ferrari entre paredes de espelhos). Uma dessas montras era a da Livraria Sá da Costa, que – como aconteceu a tantas outras nos últimos anos (a Livraria Portugal, por exemplo, na Rua do Carmo) – vai fechar (ou já fechou) as suas portas. É realmente uma pena vermos fechar para sempre livrarias bonitas, humanas e com história, de soalho encerado e livreiros informados, e ficarmos reduzidos às cadeias de lojas que, embora com espaços muito mais amplos, também não oferecem, afinal, muito mais do que as novidades. Mas a verdade é que a Sá da Costa já há muito que estava a definhar e, provavelmente porque nem se encontrava em situação de poder comprar livros às editoras, tinha o ar de uma loja de livros usados. Tenho pena de não ter entrado lá mais vezes nos últimos anos à procura de alguma coisa nova ou antiga, até porque os cinco funcionários que a geriram nos últimos tempos vão decerto engrossar as filas de desempregados. Eles que me desculpem por não ter comprado lá livros neste período mais difícil. Agora, vou compenetrar-me e tentar visitar com mais assiduidade outras livrarias independentes e humanas que ainda restam.

Fotocópia

Há uns anos, estava eu na Temas e Debates, houve um Congresso de Editores na Fundação Calouste Gulbenkian. Na ocasião, lembro-me de ter ouvido com prazer um espanhol falar da legislação que tinham acabado de aplicar no país vizinho por causa desse tremendo e lesivo hábito de fotocopiar livros. A fotocópia de livros integrais ou de capítulos de livros nas escolas e universidades não previa então o pagamento de qualquer percentagem aos autores dos textos e era um verdadeiro flagelo para escritores e editores (e artistas também, se pensarmos em obras com ilustrações e pinturas), que assim se viam privados de receber os seus direitos. Apesar de alguma coisa ter sido feita no sentido de acabar com a «mama», a verdade é que tem sido difícil cobrar às reprografias a parcela adequada, alegando aquelas frequentemente que os alunos estão em dificuldades financeiras e bem assim os estabelecimentos de ensino (e os autores não?). Mas eis que o Tribunal de Justiça Europeu abriu os olhos, conferindo agora aos Estados-membros a possibilidade de imporem aos fabricantes de fotocopiadoras e impressoras uma taxa pela reprodução não autorizada de trabalhos, destinada a compensar materialmente os detentores dos direitos. Não será obviamente suficiente, até porque do decreto à sua aplicação ainda há-de correr muita tinta, mas é bom que se abra caminho a uma situação mais justa. Claro que, a par desta «pirataria», existe outra muito mais difícil de conter – todas as semanas há queixas de que os PDF de livros acabadinhos de publicar estão à venda na Internet. Ilegalmente, bem entendido. E, quanto a isso, não há legislação que nos valha.

Figueira da Foz

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Já aqui falei muitas vezes das Quintas de Leitura – um espectáculo magnífico organizado por João Gesta no Porto, no Teatro do Campo Alegre, que esgota assim que os bilhetes são postos à venda e conta com a colaboração de um poeta, de diseurs, de artistas e músicos. Mas estas, como descobri no ano passado, não são as únicas Quintas de Leitura que existem, pois outras há na Figueira da Foz todos os meses, que ocorrem depois do jantar e têm um autor por convidado na Biblioteca Municipal da cidade à beira-mar. Depois de algumas alterações forçadas mas aconselháveis (a primeira quinta que me marcaram acabou por revelar-se a véspera de um feriado e, portanto, o público iria provavelmente de fim-de-semana; e, na segunda, havia à mesma hora um espectáculo de bailado que era um sério concorrente), hoje estarei nas 5.as de leitura da Figueira da Foz, para falar da minha poesia a quem queira ouvir e responder a perguntas do público. Se estiver por lá, apareça.


 




Afinal, havia outra

Pois bem, algumas mulheres que conheço – escritoras – defendem que os seus livros vendem menos porque os jornalistas e críticos literários só dão atenção aos livros dos seus confrades homens. No caso que hoje me traz aqui, nada podia ser mais falso, uma vez que o livro era de um homem – Robert Galbraith, para ser mais exacta – e, desde que saíra, no Reino Unido, vendera uns míseros 1500 exemplares (que, por lá, é quantidade ínfima, como sabemos). E isso não acontecera por ter passado despercebido: tinha recebido excelentes críticas o policial de capa chamativa com o título The Cuckoo’s Calling publicado pela editora Sphere, que se pensava ser de autor estreante e promissor. Contudo, no domingo 14 de Julho, o Sunday Times, que adora uma boa manchete, pôs a descoberto a verdadeira identidade do autor, revelando que se tratava nada mais, nada menos de uma obra da pena de J. K. Rowling, a celebrada inventora de Harry Potter. Em poucas horas, o romance já era um dos mais vendidos da Amazon… Talvez os ingleses não possam ser acusados de machismo, enfim.

Primeiro balanço

Prometi que voltaria ao assunto da Nova Narrativa para a Europa – e tenho andado a adiá-lo porque, por mais tempo que passe, a verdade é que não consigo processar o acontecimento e chegar a uma conclusão que me convença. Fui para esse debate europeu à espera de ver serem tomadas decisões ou anotados os contributos de peso, mas senti que, por muito interessante que fosse a ideia de construir uma Europa mais humanista e cultural, não se foi além das palavras. Houve intervenções de que gostei (a melhor foi a de um contador de histórias búlgaro convidado a falar – a maioria dos presentes, como eu, limitou-se a ouvir, até porque as intervenções não podiam ultrapassar um minuto porque a sessão começou atrasada), mas ficou bastante claro no discurso de Durão Barroso que a Comissão Europeia pede a ajuda dos intelectuais, artistas e cientistas para escrever esta nova narrativa, mas não parece disposta, por sua vez, a apoiá-los. E, além disso, pareceu-me feio que, enquanto o Primeiro-Ministro da Polónia falava (era o anfitrião), o português estivesse sempre a ver mensagens no telemóvel (bem sei que tem muitas outras responsabilidades, mas caiu-me um pouco mal) e que, por sua vez, Donald Tusk abandonasse a sala assim que Durão Barroso acabou o seu discurso e começaram os debates (também será um homem ocupado, mas se eu convido alguém para minha casa não me passa pela cabeça ir-me embora). Bem, se calhar também eu estou a ser mal-educada, dizendo mal da «festa» para que fui convidada; voltarei, portanto, a esta reunião aqui no blogue quando tiver lido umas papeladas e umas notas que reuni sobre a matéria, até para não ser injusta ou precipitada nos meus juízos. Contudo, a quente, a sensação com que fiquei é que estes encontros sucedem porque a cultura tem de fazer parte da agenda da Comissão, mas se deles nascerá alguma coisa de interessante e benéfico, ai isso, francamente, já não sei.

Especulação

Publiquei aqui há tempos um post sobre Herberto e o seu livro novo que teve imensos comentários dos extraordinários habitués deste blogue e não só. Nele, contava que havia pessoas a comprarem o Servidões aos cinco e aos seis na Feira do Livro, provavelmente para amigos e familiares, sabendo que, com uma tiragem tão contadinha, o dito se esgotaria em três tempos. Foi mais ou menos o que aconteceu, claro, e a obra desapareceu rapidamente dos escaparates para pena de muitos apreciadores do mestre que não chegaram a tempo de adquirir o seu exemplar. Mas não nos iludamos: esses livros comprados aos magotes aqui e ali não foram apenas para leitores sedentos de meter o nariz no último Herberto. A verdade é que, como também aqui foi dito e previsto, muitos deles estão agora à venda a preços absolutamente estonteantes (120 Euros, por exemplo) em certos alfarrabistas que perderam umas horitas em filas quando Servidões começou a ser vendido, mas deram esse tempo por bem empregado, já que lhes bastará vender um ou dois exemplares aos consumidores mais relapsos para, afinal, facturar uma bela maquia. Acho que deviam contar a Herberto que a sua mania das tiragens curtas dá azo a este tipo de especulação, quanto a mim, nada bonita. Pode ser que ele entenda que é parcialmente responsável pela situação e se deixe de fitas da próxima vez que publique um livro.

Performance

Há uns dez anos fui a um festival de poesia numa pequena localidade do Sul de França. Era suposto recitarmos pelas esquinas, em parques onde os ouvintes se deitavam em cadeiras reclinadas ao sol, junto de lagos cristalinos acompanhados por músicos e sentados a mesas toscas colocadas no meio de belas paisagens. Foi bonito – e as participações eram, normalmente, discretas, mas recordo-me de uma poetisa francesa (o nome varreu-se-me) que tinha um vestido branco largo e transparente do qual pendiam rebuçados e croissants que ela desafiava o público a arrancar e comer durante a sua performance. Em Portugal, este tipo de actividade já tem uma competição: chama-se Poetry Slam e convida conhecidos e anónimos a dizerem num palco textos da sua autoria de uma forma artística. O espectáculo aconteceu recentemente num bar lisboeta e contou com a criatividade de muitos anónimos que, em três minutos apenas, tinham de mostrar o que valiam (como autores e intérpretes) perante um júri constituído por pessoas do público e também Pilar del Río, J. P. Simões e o jornalista Nuno Miguel Guedes. Os brasileiros, talvez por serem mais descontraídos, arrancaram boas pontuações e, ao que parece, grandes gargalhadas (dedicando-se, entre outras coisas, a fazer odes à vagina e a poetar sobre a flatulência), mas a vitória coube a um contador de histórias profissional (a experiência ainda conta nestas coisas). A sala esteve cheia e houve todo o tipo de performances. Fiquei com pena de não ter assistido, mas curiosa sobre este Poetry Slam. Para o ano há mais.

Desassossego

Essa palavra aí em cima, a servir de título ao post, tem muitos SS e remete logo para o nosso amado Bernardo Soares e o seu livro (com L maiúsculo, desculpem). Mas pode também ser apenas uma tradução de «Disquiet», que é, entre outras coisas, o nome de um programa literário internacional que todos os anos costuma trazer a Lisboa escritores norte-americanos para conhecerem a capital e a literatura portuguesa. A iniciativa, que se traduz numa espécie de universidade de Verão, concedendo bolsas a quase uma centena de jovens escritores, foi criada há três anos pela editora Dzanc Books e conta com a colaboração em Portugal do Centro Nacional de Cultura, local onde decorrem leituras e debates entre os escritores visitantes e os escritores residentes (neste ano, Gonçalo M. Tavares, João Tordo e Patrícia Reis). Mas este interessante intercâmbio não se fica pelos contactos e, pela primeira vez, inclui a tradução de um romance português nos Estados Unidos, tendo sido escolhido O Verdadeiro Ator, de Jacinto Lucas Pires, livro que elucida os leitores norte-americanos sobre a austeridade por que o nosso país está a passar, coisa que, para eles, segundo li, resulta remota e complexa. A obra será apresentada por um dos bolseiros, Brian Sousa, luso-descendente e vencedor de uma das bolsas. Pode ser que outros mais ou menos jovens escritores portugueses cheguem assim ao lado de lá do Atlântico.

Itinerários

Leio num jornal que, na Vidigueira – numa iniciativa que se chama Vidigueira Cidade do Vinho 2013 e integra a rede Os Caminhos de Vinha na Europa –, a autarquia promove o vinho da região através de um itinerário turístico que inclui a participação nas vindimas, um passeio guiado pelas vinhas e provas de vinhos. O néctar dos deuses, pelo menos de Baco, está na moda – e existe um turismo vinícola consolidado no Velho Continente e não só (na Califórnia, consta que também dá uvas). Mas, se às vezes parece que a cultura em época de crise está reduzida ao vinho e à gastronomia, não é bem assim – e contam-me que alguns operadores turísticos usam os livros como motivo de viagem (nunca houve tantos americanos no Louvre como depois de ter sido publicado O Código Da Vinci) e os escritores como guias (depois de ter escrito Dentro do Segredo, por exemplo, José Luís Peixoto foi requisitado para «mostrar» a Coreia do Norte a quem quis e teve dinheiro para o acompanhar). Na cidade de Dublin, há muitos anos, já havia itinerários para os turistas baseados no Ulisses, de Joyce (ainda guardo um mapa lá em casa), e no Porto lembro-me de ter sido traçado um caminho romântico a partir da obra de Camilo. Há muitas viagens literárias que gostaria de fazer, é um facto, embora saiba que nenhuma agência pode transportar-me a Macondo ou ao Coração das Trevas. Mesmo assim, não é má ideia inventar roteiros que nos levem a conhecer melhor os cenários dos livros que amámos. Ou usar essas viagens para despertar o interesse pela leitura a quem ainda não os tenha lido, claro.

Dar graxa ao amor

Juan Marsé é sempre garantia de horas extraordinárias – e O Amante Bilingue não foge à regra, embora assente numa história que custa a crer tivesse, na realidade, os efeitos desencadeados pela graça ficcionista do grande prosador espanhol (que já mereceu o Cervantes, o Quixote das Letras Espanholas e o Juan Rulfo, entre muitos prémios). E, se falo em graça, não posso também deixar de falar em graxa, porque é de verdadeiros e falsos engraxadores que se faz esta trama fantasiosa. O enredo envolve um pobre diabo, metido por engano numa greve de fome e transformado provisoriamente em herói por uma mulher míope da classe alta que acaba por se casar com ele. Mas a miopia não a impede de olhar para outros homens (vê bem ao perto), especialmente os morenos do Sul, e de trair o nosso protagonista com um engraxador que, depois de apanhado em flagrante com ela, se surpreende a ouvir desabafos do marido enganado enquanto lhe engraxa os sapatos todos lá de casa. Quinze anos mais tarde, ainda não passou a dor de corno a Marés (assim se chama o pinga-amor) e, numa noite de Carnaval, ele tem a ideia peregrina de se fantasiar de engraxador e assim tentar reconquistar a mulher da sua vida. Entre um caderno de memórias na primeira pessoa e um relato de um narrador externo na terceira, esta história deliciosa prova que até ao amor convém dar alguma graxa...

Empatia

Se é certo que a minha inclinação política e a dele não coincidem, também não deixa de ser verdade que, tanto quanto sei, nenhum de nós milita em partido algum nem veste camisola de cor assim tão definida. Assume-se, todavia, como um homem de Direita enquanto eu me considero claramente de Esquerda. Mas isso não me impede absolutamente nada de apreciar a sua inteligência e a sua escrita, nem de ler de fio a pavio – e sempre com enorme prazer e empatia – as crónicas que publica semanalmente no suplemento «Atual» do Expresso, especialmente as que têm um pendor autobiográfico, mesmo que atravessado nas histórias de outros, como acontecia na última, cujo ponto de partida era um filme português que não vi sobre adolescentes, mas com bastas referências ao meu querido Éric Rohmer, de quem vi muito. Às vezes, quando o leio sobre a própria adolescência e o martírio (a palavra é minha) do crescimento (presumo que tenha sido um rapaz misantropo, se é que não o é ainda), lembro-me do meu irmão que, enquanto eu passava os verões na rua a fazer amigos de todas as nações, permanecia em casa a ler a História Universal da Verbo ou, mais novo, a fazer pistas de automóveis com feijões a tarde inteira. Mas também me lembro da minha própria adolescência – e da dificuldade que era ter um metro e meio e ficar sempre atrás de toda a gente nos concertos de rock (não se riam, que é mesmo chato) ou não poder olhar por cima do ombro do parceiro durante os slows (que também não foram muitos porque me atrasei um bocado nos namoros – e não por estar a ler em casa). Há uma ternura, enfim, e uma cumplicidade muito boa que me ligam às crónicas de Pedro Mexia, uma qualquer matéria triste mas nunca lamentosa com que me identifico prontamente. Mesmo que muitas vezes pensemos de maneiras distintas sobre vários assuntos, a verdade é que o oiço e leio sempre (e, na maior parte das vezes, fico a ganhar).

Europa diferente precisa-se

No primeiro dia de Julho, chegou à minha caixa de correio electrónico um convite, no mínimo, inquietante (fiquei um pouco nervosa, é o que quero dizer). Não me considero ninguém no universo europeu (posso ser alguém na minha casa, metade de alguém na empresa onde trabalho e um cagagésimo de alguém no meu país), mas a Europa – nomeadamente, o presidente da União Europeia (e também o anfitrião, o primeiro-ministro polaco) – resolveu dar-me uma importância que não tenho e convidar-me para participar num encontro-debate em Varsóvia (viagem e estadia pagas) no âmbito de um programa que dá pelo nome de A New Narrative for Europe. «Narrativa», aqui para as nossas bandas, faz se calhar pensar logo naquela história de José Sócrates, mas a verdade é que a Europa, segundo o discurso de Durão Barroso no lançamento deste programa, em Abril passado, não quer ser só uma união económica, como até aqui, considerando a cultura um valor nuclear e um elemento unificador da integração europeia. Logo, é preciso que se escreva uma nova narrativa para a Europa, baseada numa perspectiva mais humanista. Nessa medida, cientistas e intelectuais (devo estar neste grupo, ui) de todos os países-membros são, pois, chamados a participar numa de quatro sessões de debate ao longo de 2013 e 2014 e a ajudar a «reescrever» a história da Europa para que possa existir, com o contributo de todos, um maior investimento na cultura, na educação, na investigação e na inovação e, no futuro, um maior crescimento, mais emprego e coesão social. No momento em que escrevo este post, não apanhei ainda o avião para Varsóvia, mas oportunamente darei conta do que lá se passou. Como editora de novos autores, tenho uma especial atracção pelas novas narrativas. Deve ser por isso que me convidam.

E Eça, hem?

Lembrei-me de Fernando Pessa a dizer «E esta, hem?» no fim das suas reportagens e não resisti… José Luís Peixoto reescreveu há meses Os Lusíadas para garotos e deram-lhe forte e feio nos jornais e no Facebook, por isso não sei o que lhe vai acontecer agora – a ele e a mais cinco autores, a quem o semanário Expresso pediu que prolongassem a história d’Os Maias até à fundação do jornal, em 1973. Vamos, pois, ver como vão Peixoto, José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal, Rentes de Carvalho, Clara Ferreira Alves e Gonçalo Tavares imaginar, cada um num período específico, a história desta família que já passou pelos olhos de milhares de portugueses, nem que tenha sido na Escola Secundária, na qual foi leitura obrigatória ao longo de muitas décadas. Os estilos da narrativa prometem variedade; e sendo, como li, o pivot de todos os volumes o mesmo – Carlos da Maia –, a circunstância vai certamente causar alguma estranheza que pode ser igualmente enriquecedora. Eu, pelo menos, fico curiosa e desejosa de saber se este Maia tem mais sorte do que os seus antecessores… O primeiro volume sai já no próximo sábado. Com o Expresso, evidentemente.

Aniversário

Recebo regularmente informação sobre um grupo de livrarias independentes por esse País fora, que têm um papel preponderante junto de muitas comunidades e que, em certos casos, foram inclusivamente precursoras de actividades culturais hoje tidas como vulgares, mas noutros tempos francamente inovadoras. Essa informação chega-me através do Encontro Livreiro que, na última remessa, me anunciou o 40.º aniversário da Culsete, em Setúbal (parabéns a Fátima e Henrique Medeiros, seus proprietários e grandes dinamizadores culturais), uma livraria de excepção que soube destacar-se da mediania e sempre lutou pela literatura de qualidade. De 7 a 17 de Julho haverá, para comemorar, um sem-número de iniciativas, desde lançamentos a palestras, momentos musicais a sessões de autógrafos, conversas com autores a debates e leituras. Estarão presentes escritores, ilustradores, actores e editores – e, claro, muito público numa arruada que vai acontecer na Avenida 22 de Dezembro, no passeio fronteiro à Culsete. Se vive por perto ou for dar um mergulho para aqueles lados, passe por lá para homenagear o trabalho de uma vida do qual todos beneficiamos.

Tudo por causa de uma vírgula

Quando, por vezes, recuso originais e aponto os erros que neles encontrei (de inverosimilhança, estrutura, previsibilidade, incongruência), falo também, se for o caso, de uma ortografia que deixa muito a desejar e até de uma pontuação deficiente. Alguns autores já me têm respondido que isso da pontuação é irrelevante, pois corrige-se facilmente, e que sou um bocado exagerada ao mencioná-lo. É óbvio que nunca recusaria um bom livro por ter simplesmente as vírgulas mal postas, não me interpretem mal, mas acho que saber pontuar faz parte do saber escrever – e uma vírgula no sítio errado pode inclusivamente mudar todo o sentido de uma frase. Que o diga o presidente da Câmara de Leiria, que acaba de ser brindado com uma queixa-crime num caso que se prende com a recolha de lixo no concelho. É que, segundo leio na imprensa, a uma deliberação da câmara foi, no contrato que se lhe seguiu, acrescentada uma vírgula – só uma – que alterou tudo e obrigou o município a prolongar a concessão da recolha do lixo a uma determinada empresa por mais cinco anos, o que implica o dispêndio da módica quantia de… quinze milhões de euros! E ainda acham que a pontuação não tem importância?

Em carne viva

Se tem estômago fraco, o melhor é nem se atrever a este romance, que é de extraordinária crueza no que toca a tudo: política, sexo, tortura e, sobretudo, carência de afecto e de humanidade. Dá para ficar deprimido um bom par de dias depois de virar a última página – mas é também dessas depressões que nos ensinam muita coisa sobre o ser humano em geral e sobre os dominicanos em particular. Chama-se A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao esta maravilha que nos magoa e interpela, e escreveu-a Junot Díaz, nascido na República Dominicana e actualmente professor universitário no MIT. Ganhou o Pulitzer (nem outra coisa seria de esperar) e conta-nos, através de três gerações de uma família amaldiçoada (de que Oscar Wao é apenas o membro mais novo), a história incrível de um país do qual pouco mais sabemos do que a existência de um lugar chamado Punta Cana, para onde se arrastam anualmente turistas que não se importam com a miséria que grassa à roda dos resorts. Mas esse paraíso de águas supostamente transparentes e brancos areais (nunca lá fui, mas acredito que seja assim) foi um autêntico inferno para os que lá viveram na época de Trujillo, o ditador que «reinou» durante uma parte considerável do século XX e praticou actos de confrangedora humilhação e vileza. Oscar Wao, no entanto, não passou por isso (senão através dos relatos da mãe e de uma tia), pois já nasceu em New Jersey, onde a vida não é fácil a um dominicano como ele, obeso, carente e sem namorada. A sua breve vida (e a vida mais longa dos seus parentes) é contada neste romance fulgurante por um ex-namorado da irmã, que foi seu companheiro de quarto na universidade e tentou ajudá-lo (mas não ajudou grandemente e sabe disso). Para leitores com estômagos decentes, este é um livro completamente imperdível.  

O escritor suíço

Quanto pensamos na Suíça, pensamos em queijos, bancos, relógios e chocolates antes de pensarmos em pessoas. Podemos pensar também na organização levada ao extremo – a minha irmã foi uma vez a um médico na Suíça e veio de lá a dizer que até a vaca estava arrumada na paisagem; outras pessoas que lá viveram contaram-me que, depois da meia-noite, ninguém pode puxar o autoclismo e que, quando alguém faz uma festa em sua casa à noite, tem de colocar um aviso junto das caixas do correio para que os vizinhos não chamem a Polícia. Naquilo que certamente não pensamos é em gente célebre – e a mim, mesmo fazendo um esforço, só me ocorre assim de repente o pintor Paul Klee, o psiquiatra Jung ou – aquele que hoje me traz aqui – Robert Walser, o escritor de língua alemã que foi um dos favoritos de Musil e Hermann Hesse e parece ter agradado bastante a muitos outros confrades, incluindo Kafka. Sobre ele escreveu, de resto, Gonçalo M. Tavares um dos seus Senhores (O Senhor Walser) e, para mim, é um autor dos mais desconcertantes em que pus os olhos, pois consegue a proeza de escrever uma coisa e o seu contrário sem que isso nos pareça estranho, antes louvável e original. Por exemplo, num livro de ficções curtas que li recentemente, A Rosa, uma personagem não só consegue discordar de si própria como, ainda por cima, se consola por causa disso. Os textos de Walser estão cheios de coisas inesperadas, frases que parecem aterrar neles vindas de um tempo mais moderno do que o seu, criaturas metidas em cenários que simplesmente não as pediam (um macaco numa taberna sem saber como se comportar com as senhoras), uma deliciosa desfaçatez que pode ser logo a seguir desarmada por um pedido aos leitores para que não levem aquilo a sério; enfim, têm uma pitada de loucura – o que, bem vistas as coisas, pode ter uma razão de ser, porque Walser esteve internado mais de vinte anos num asilo para doentes mentais (mesmo que alguns médicos achassem que ele estava bom, recusou-se a deixá-lo até à morte) e havia até uma história de doença mental na sua família. Mas não são todos os génios um pouco loucos? Mesmo na bem-comportada Suíça?

Luxos poéticos

Dizem que a poesia não dá de comer aos autores e até já ouvi a teoria de que alguns poetas publicam todos os anos para ver se lhes dão um prémio que se veja (em termos pecuniários, quero eu dizer, porque com tiragens tão pequenas não há direitos de autor que lhes valham). Já é difícil a um romancista viver do que escreve (falo de Portugal), mas um poeta ganhar dinheiro com a poesia está mesmo fora de questão. Apesar disso, deixem-me ser um bocadinho mundana. Hoje, no momento em que escrevo este post (uns dias antes de o publicar no blogue) estou instalada num resort de cinco estrelas no Algarve, com arquitectura de inspiração árabe que lembra alguns pormenores do Alhambra, como, por exemplo, um pátio com fonte e laranjeiras entre duas arcadas sob as quais ficam os quartos. Melhor: deram-me uma suite luxuosíssima com uma banheira maiúscula e jacuzzi privado que deve ter uma área total equivalente a metade de um andar de quatro assoalhadas. Melhor ainda: ofereceram-me o jantar durante uma semana num restaurante com uma varanda sublime. E porquê isto tudo? Na verdade, por eu ter escrito poemas e o meu último livro ter recebido o Prémio da Fundação Inês de Castro. Ao arrepio do que é costume, esta fundação, proprietária da Quinta das Lágrimas em Coimbra e do Vilamonte (onde estou) em Moncarapacho, perto de Olhão, dá ao premiado em cada ano um voucher para experimentar estas delícias e se sentir um escritor de sucesso por uns dias. E eu agradeço, e muito. Quem disse que a poesia não pagava umas boas férias, hã?

Balzac para totós

Uma noite destas apanhei, num canal qualquer, completamente por acaso, uma adaptação cinematográfica de Os Miseráveis, com Uma Thurman, Liam Neeson e Geoffrey Rush, que fiquei a ver (e era bastante mazinha, por sinal). Mas isso lembrou-me um livro genial que foi publicado em Portugal há muitos anos, Balzac e a Costureirinha Chinesa, de Dai Sijie (um chinês residente em França que escreve em francês), que deve ser muito difícil de encontrar nos tempos que correm mas que merecia seriamente ser republicado. Conta os destinos de dois adolescentes chineses durante a Revolução Cultural (tempos de Mao – e maus, portanto) que são «castigados» pelas suas origens intelectuais (filhos de médicos e engenheiros) e enviados para o interior da China para trabalharem no campo. Aí conhecem, porém, uma jovem costureirinha de alfaiate muito atraente mas quase analfabeta que resolvem ensinar a ler. E como? Nada mais, nada menos do que com a ajuda de um monte de livros de Honoré de Balzac que descobrem por acaso (e nunca o revelam a ninguém) numa velha arca de uma casa abandonada. Os dois rapazes cultos apaixonam-se pela discípula e hão-de disputá-la com o chamariz da literatura. Ignoram, porém, que, no momento em que ela se tornar igualmente ilustrada, decidirá pela sua própria cabeça… Parece que fizeram um filme deste livro delicioso, mas não o vi, embora ele tenha sido mostrado no Instituto Franco-Português há uns dois anos. Tomara que não seja tão mau com a adaptação d’Os Miseráveis que vi a semana passada…

Ilustradores portugueses em alta

No ano passado, como sabem, foi publicado um livro infantil na Dom Quixote para o qual escrevi o texto. Tratava-se de A Minha Primeira Amália, uma biografia sumária da grande fadista portuguesa, figura de proa nacional. Na altura em que o convite para escrever o livro me foi feito, pediram-me uma sugestão para o autor das ilustrações e, com a imagem da capa do primeiro CD dos Deolinda na cabeça, propus que o livrinho fosse ilustrado por João Fazenda, cujo trabalho admiro há muito. Pois bem: e não é que acertei na mouche? As ilustrações desta introdução à vida de Amália para crianças foram muito justamente premiadas com a medalha de bronze pela revista norte-americana 3 x 3, considerada a mais importante publicação internacional dedicada à ilustração contemporânea. João Fazenda ganhou a medalha na categoria Livro, mas não foi o único português distinguido. Na categoria Animação, André da Loba ganhou a medalha de ouro e houve ainda cinco distinções para André Carrilho, que é um génio na caricatura e recebeu prémios nas categorias de Animação, Cartoon/BD, Editorial e Retratos. A ilustração portuguesa está de parabéns!

O que ando a ler

Já não sei se foi García Márquez se Vargas Llosa quem disse que Juan Carlos Onetti foi prejudicado por ter nascido no Uruguai, um país a que se prestava pouca atenção, sobretudo em termos culturais. Segundo um desses dois autores, Onetti foi um dos maiores da literatura latino-americana e teria merecido ser mais conhecido, aplaudido e premiado internacionalmente, sobretudo enquanto foi vivo. Um dos livros que comprei este ano na Feira do Livro de Lisboa foi justamente Os Adeuses, de Onetti, e acabei-o ontem. A história é a de um ex-jogador de basquetebol famoso que chega a uma terra de bons ares para se curar de uma tuberculose. O seu estatuto (ou a sua recusa em admitir a doença) permite-lhe ficar ao longo de meses num hotel – e não no sanatório – e alugar até uma pequena casa (a casita das portuguesas, curiosamente) e deslocar-se pela cidade de fato elegante, visitando frequentemente a venda (cujo proprietário é o narrador), onde recolhe a sua correspondência: cartas com letra azul e desenhada da suposta mulher, cartas dactilografadas em envelopes pardos da suposta amante. Estas duas mulheres visitá-lo-ão na sua convalescença, a mais velha permanecendo no hotel, a mais nova na casa alugada. As más-línguas terão, pois, com que se entreter – e é especialmente pela voz de um enfermeiro do hospital e de uma criada do hotel que o narrador toma conhecimento das andanças e do estado de saúde do protagonista, embora o seu sentido de observação seja já bastante apurado e não precise de grande ajuda. E, no entanto, apesar dos cuidados que o jogador parece pôr naquelas visitas femininas alternadas, não é impossível que elas coincidam e, claro, tudo pode acontecer. Uma escrita sublime, um enredo fascinante, uma espécie de tristeza que subjaz a cada frase, fazem desta novela uma das melhores que li nos últimos tempos. A tradução é de Hélia Correia.