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A mostrar mensagens de abril, 2013

Partidas e chegadas

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Logo mais à tardinha, na Fnac do Chiado, faremos lançamento do romance Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, de Hugo Gonçalves, de que já aqui falei um dia destes – as aventuras e desventuras de um jovem português na Cidade Maravilhosa, onde se cruza com um editor, um ex-agente da PIDE, muitos estrangeiros de várias idades e proveniências, um amigo problemático e popular e, claro, muitas garotas, uma delas igualmente portuguesa e bastante especial. Este é um livro cheio de ritmo, humor, ternura e muita saudade, porque os portugueses deixam o seu cantinho, mas nunca se esquecem dele, mesmo quando as memórias do pequeno rectângulo são tristes e, como é o caso, ameaçadoras. Se quiser, apareça. António-Pedro Vasconcelos apresenta a obra.


 


 


Correr mundo

Agora podemos dar a volta ao mundo num livro só e, ao mesmo tempo, tomar contacto com a mão e a verve de muitos escritores contemporâneos, portugueses e não só. A recentemente criada Parsifal teve a bela ideia de juntar num volume contos dedicados às cidades capitais e chamou-lhe, muito apropriadamente, Contos Capitais. «A beleza e a alma de uma cidade ultrapassam as fotografias dos locais que aparecem nos postais ilustrados, onde se aglomeram turistas ocasionais. Uma cidade constrói a sua singularidade sobretudo nas vielas e nos becos, nos sentimentos dos seus habitantes ou nos rituais da sua vida quotidiana», diz-nos o editor, que pediu a trinta autores muito variados (pronto, pronto, a mim também) que construíssem uma pequena ficção à roda de uma das suas capitais favoritas. Do veterano Baptista-Bastos ao recém-chegado João Ricardo Pedro (com um memorável conto em Montevideu), há aqui histórias para todos os gostos – e, ainda por cima, ilustradas com fotografias muito bonitas de cada cidade. A não perder.

Comer e chorar por mais

And now for something completely different… Pois, sendo eu uma péssima cozinheira, é estranho vir aqui falar de um livro de receitas – mas não resisti porque este é o livro de receitas ideal para quem detesta ou não sabe cozinhar. E porquê? Porque a sua base são as conservas. O autor, Henrique Vaz Pato, é o proprietário de um restaurante na zona do Cais do Sodré chamado Sol & Pesca, muito badalado em guias e artigos sobre Lisboa por esse mundo fora, no qual, para variar, o menu é exclusivamente composto de conservas: de sardinha, de atum, de ovas, de cavala… Com marcas óptimas que não se encontram facilmente num supermercado (a menos que seja gourmet), oferece-nos uma refeição muito original acompanhada apenas de pão e do que se quiser beber. O livro, igualmente intitulado Sol & Pesca, vira, porém, as conservas do avesso e cria com elas pratos que exigem alguma confecção mas farão de certeza a delícia de todos, além de serem extremamente fáceis de preparar. Eu, que sou aselha com os tachos, aplaudo.

Poesia e redes sociais

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Tendemos a tornar nossos amigos nas redes sociais aqueles que conhecemos directa ou indirectamente, mas que cremos estarem interessados no que publicamos ou darem-nos material de leitura agradável. E, depois, há também um sem-número de entidades colectivas às quais nos associamos em virtude das afinidades que sentimos (é, pelo menos, o meu caso). Há já muito tempo fiz-me «amiga» de um grupo no Facebook que dá pelo nome de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen, grupo esse com numerosos membros que, já se sabe, gostam da poesia de Sophia e da de outros poetas portugueses, que divulgam de forma militante. Não pensava que iria um dia conhecer os responsáveis por essa página, mas eles apareceram há uns meses no lançamento da minha Poesia Reunida e apresentaram-se. De algum tempo a esta parte, organizam uma sessão mensal com um poeta na Livraria Férin, em Lisboa, e convidaram-me para estar presente hoje às 18h30 (sucedo a Maria Teresa Horta, pas mal). Como recusar uma conversa com quem gosta de poesia?


 


Criação e criatura

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Antes que me esqueça – até porque devemos sentir-nos gratos pelo seu bom trabalho –, a tradução do livro que hoje me ocupa é de Francisco Agarez (ou, melhor, do extraordinário Francisco Agarez). A obra, absolutamente genial, é assinada por Philip Roth, o decano dos romancistas norte-americanos. Chama-se Engano e tem letras gordas e páginas arejadas, pelo que parece de leitura relativamente rápida; mas não nos iludamos: a sua aparente acessibilidade tem os minutos contados, tratando-se de um livro bastante complexo que só podia ter sido escrito por um craque. Falar dele é perigoso, porque tudo o que se diga ajuda ou desajuda o leitor (e ele tem mesmo de partir sozinho nesta aventura). Por isso, referirei apenas que é um romance sobre a criação literária (não por acaso, uma das principais personagens é um escritor norte-americano chamado Philip) e as criaturas (ficcionais, bem entendido, embora não haja nada tão real como elas – ou talvez eu me ou vos engane dizendo isto, mas faz parte do jogo do autor). Dois amantes (um homem e uma mulher, ela inglesa) encontram-se num estúdio em Londres onde não há sequer espaço para uma cama – razão talvez para que o orgasmo seja provocado não pelo sexo, mas pelas conversas, que são inteligentes, algo angustiantes, desarmantes e, como não podia deixar de ser em Roth, também sobre os judeus e o preconceito que existe em relação a eles. Este é um daqueles livros que se podem ler e reler toda a vida e que têm essa rara virtude de constantemente nos enganar, como os dois protagonistas enganam os respectivos cônjuges (ou talvez não). Só lendo. E deve ser lido.


 


Ler sem roupa

Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao site americano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-se on line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

Chapas

Quando falamos em impressão de livros, ainda nos referimos vulgarmente às «chapas» que, na verdade, eram fotografias tiradas a páginas e depois «reveladas» em papel nas impressoras. A ligação do livro à fotografia pode, porém, ser bem mais criativa, e a Fundação José Saramago lança anualmente um concurso que tem por título «Retratar um livro», propondo, à vez, uma das obras de Saramago como motor de arranque. Este ano, o livro era O Ano da Morte de Ricardo Reis e o júri, composto por António Mega Ferreira, Jorge Vaz de Carvalho e João Francisco Vilhena (este último responsável por dezenas de belíssimos retratos de escritores), deliberou premiar a «chapa» de Maria de Lourdes Poças (poderá vê-la no site da Fundação Saramago). O segundo lugar, curiosamente, coube a Pedro Teixeira Neves, que venceu o concurso no ano passado e foi o autor das imagens projectadas durante o espectáculo que as Quintas de Leitura me dedicaram recentemente no Teatro do Campo Alegre (um fotógrafo e jornalista que sempre se dedicou às duas artes). Parabéns a ambos e à Fundação por esta ideia de promover o livro através da fotografia.

So many books, so little time…

Este mês de Abril é especialmente dedicado ao livro – é no dia 23 que se comemora o Dia Mundial do Livro (creio que por ser a data de nascimento de Cervantes) e, ao longo de todo o mês, haverá acções coordenadas por editores, livreiros e autores em várias cidades do País para celebrar este objecto mágico que muda quem o sabe desfrutar. Na capital, sob a denominação «Ler em todo o lado», a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros organiza também um programa bem amplo, contando com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e a Rede de Bibliotecas Públicas. Se quiser, poderá consultá-lo no primeiro link que coloco após o post. A revista Time Out associa-se à iniciativa e disponibiliza um mapa de todas as livrarias de Lisboa, até porque se propõe aos leitores que votem na sua livraria preferida (ver o segundo link). Enfim, não faltam sessões à volta dos livros, falta é tempo para ler e ir a tanta coisa…


 


http://leremtodolado.wix.com/abril


 


http://www.apel.pt/pageview.aspx?pageid=819&langid=1


 

Sempre a pedalar

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Normalmente, a palavra «oportunista» tem uma carga negativa, mas no caso do livro que hoje me traz, gostaria de a virar para o outro lado. Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, de Hugo Gonçalves – uma narrativa sobre um português imigrado na Cidade Maravilhosa e escrita com um ritmo que combina na perfeição com o protagonista que se farta de pedalar –, é mais do que oportuno, é oportunista no bom sentido! Não só fala de um português desempregado que se viu obrigado a viajar para fora da pátria (mas com a pátria continuamente dentro de si), como o introduz numa intriga altamente imaginativa, que inclui o manuscrito de uma mulher entretanto morta e a busca do seu antigo amante, um agente da PIDE que, depois do 25 de Abril, se exilou no Rio e andou a tentar passar despercebido. É esse manuscrito que o português leva consigo no avião, aceitando um trabalho no Brasil de um editor que outrora amou a autora do livro (mas, já se sabe, foi preterido) e cruzando-se com figuras esquivas e por vezes desaconselháveis, gente dos dois sexos e várias nacionalidades. Pelo meio, uma história de amor profunda e muito ternurenta, reflexão bastante sobre assuntos sérios e, claro, saudades de Portugal.


 


Cobrir e mostrar

Li um interessante artigo que me enviaram pelo Facebook sobre as razões por que em França as capas dos livros são sempre tão sóbrias, ao contrário do que se passa no resto do mundo (e Portugal não é excepção). Defende Charlotte Pudiowski, a autora da peça, que a França tem uma relação com a literatura que se inscreve numa lógica de sacralização que remonta ao século XVIII e que os escritores se tornaram uma espécie de santos e heróis desse país laico no século XIX. É, pois, para os franceses, o texto que conta – as imagens tornam o leitor menos livre para imaginar o que quiser ao longo da leitura – e esse tem de ser auto-suficiente, motivo pelo qual as colecções de ficção das principais editoras francesas têm apenas uma cor de fundo e letras simples e elegantes para o título e o nome do autor – são conhecidas apenas como a blanche (da Gallimard), a jaune (da Grasset) ou a bleue (da Stock) e associam a sobriedade a uma literatura elitista e de grande qualidade. As primeiras capas ilustradas que apareceram em França foram, não por acaso, as das edições de bolso, que se queriam obviamente mais populares para atraírem outro tipo de leitores, e parece que, mesmo assim, o debate foi imenso no seio da intelligentsia editorial... Diz-nos ainda o artigo que, em França, são as livrarias quem vende mais livros, ao contrário de países onde estas foram claramente ultrapassadas pelos supermercados, nos quais o livro é apenas um dos muitos produtos à venda – e, requerendo atenção, tem de se cobrir de cor e imagem para ser visto e adquirido. Domaine intellectuel vs Loisir, acrescenta uma editora ali citada. Hum... Precisávamos de um bocadinho mais de tradição francesa no nosso sistema editorial, ou não?

Maturidade

Sempre quis ler Mario Benedetti, um escritor uruguaio nascido em 1920 e tido pelos seus contemporâneos (e não só) como um dos melhores ficcionistas latino-americanos. Como acontece com muitos outros autores que quero ler antes de morrer, não tinha ainda calhado, mas valeu-me um dia destes uma colega editora – a Rosário Alçada Araújo – para que a ocasião se apresentasse e já não fosse possível fugir-lhe. O livro, A Trégua, foi então emprestado e lido de um fôlego. Com mais de cem edições e de um milhão e meio de exemplares vendidos só em língua espanhola, o romance conta a história de um viúvo à beira da reforma que sonha e teme o ócio em doses iguais, depois de ter criado sozinho três filhos que conhece (e o conhecem) bastante mal. Mas eis que, a seis meses de se refastelar num dolce far nienti, aparece no escritório onde trabalha uma rapariga de vinte e quatro anos, Avellaneda, que vai mudar a sua vida e dar um novo alento a uma existência que antes era apenas rotineira e modorrenta. Escrito como um diário, este é um relato de um homem maduro que descobre que ainda tem direito à felicidade e que ganha uma opinião distinta de si próprio à medida que o seu relacionamento amoroso evolui. E, se a narrativa parece mais ou menos linear, a verdade é que o leitor há-de levar às tantas uma estalada na cara, para a qual não houve avisos nem sinais, revelando a mestria de Benedetti num surpreendente volte-face. A única estranheza do romance é que o protagonista tem apenas quarenta e nove anos e é sempre descrito como alguém à beira da velhice – e eu, que já tenho cinquenta e três, enfim, não me sinto tão acabada. O romance é, porém, de 1960 e, pensando bem, nesse tempo em que eu era criança talvez achasse a minha mãe, como dizem os miúdos, uma cota.

Pagar para ver

Todos os portugueses sabem que, no Porto, existe uma das mais lindas livrarias do mundo. Chama-se Lello e ninguém ficará indiferente se a visitar. O problema das coisas bonitas é todos quererem vê-las – e, se já só podem entrar x pessoas de cada vez na Basílica de S. Marcos, em Veneza, pois parece que a nossa Lello, de tantos lá meterem o nariz, está também a desgastar-se. A palavra «desgaste» vem, aliás, de quem a gere e foi recentemente acusado de cobrar entradas de dois euros aos que ali querem entrar. Estranho, diria eu, não se tratando de monumento nacional nem me parecendo que um estabelecimento comercial possa fazer dinheiro como os museus vendendo bilhetes. Garante, porém, o responsável que há duas mil pessoas que entram diariamente na Livraria Lello e que esse dinheiro é para atender ao forçoso «desgaste» (sim, mas como prová-lo?); e diz que só cobra entradas a grupos de turistas organizados, o que, segundo testemunhos de clientes, é falso, pois um casal português com uma criança – e, ao que parece, visitantes e compradores regulares na Lello – foi surpreendido com a obrigatoriedade de pagar os ditos dois euros. Será que, a comprar livros, a quantia é descontada no total das compras? Ou a livraria está apenas a tentar colmatar a falta de livros vendidos (a crise é grande) com este estratagema? Nas redes sociais, a polémica instalou-se – e não são raros os comentários pouco abonatórios sobre a má-educação dos funcionários e a oferta reduzida e desinteressante da livraria…

Rumo a Leiria

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E lá vamos nós, uma vez mais, a Leiria. A Livraria Arquivo, não me canso de dizer, é um dos lugares que melhor recebe editores e escritores por esse país fora e faz especial caso dos que começaram há pouco tempo, querendo apresentá-los aos seus leitores. Leitores que, como a livreira, Paula Carvalho, são também implicados e aparecem ao fim da tarde para saber o que se anda a escrever e fazer perguntas interessantes, quando não oferecer desenhos e uma boa conversa no momento dos autógrafos. Desta feita, vão comigo João Tordo, para falar de O Ano Sabático, e Cristina Drios, que há dois dias lançou o seu romance de estreia, Os Olhos de Tirésias. Lá mesmo, encontrar-nos-emos com Nuno Camarneiro, que se debruçará naturalmente sobre o livro que ainda ontem aqui referi, Debaixo de Algum Céu. Acho que é a primeira vez que me acompanha uma escritora, o que é um excelente sinal (e não vai ser a única, aposto). Tenho a certeza de que correrá muito bem e espero rever os amigos de sempre – e, claro, conhecer muitos mais. Se estiver por perto, apareça.


 


Os inquilinos do mundo

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Está desde segunda-feira passada oficialmente à venda Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, o romance que venceu a última edição do Prémio LeYa e usa um prédio numa cidade de província e os seus inquilinos para, afinal, falar da sociedade contemporânea e de muitas questões controversas dos nossos tempos, como a morte assistida, o casamento dos padres, a substituição de funcionários de carne e osso por empregados virtuais, a solidão dos velhos, a concorrência e o carreirismo nas empresas. Por vários andares, dividem-se pessoas fundamentalmente sós nos seus desejos que um factor inesperado pode juntar; o apagão provocado por uma tempestade porá, efectivamente, em contacto alguns destes vizinhos desavindos com a vida e, a partir desse momento, já nada será igual. O mais não se pode contar, sob o risco de desmanchar o prazer da leitura e levantar demasiado o véu (ou o céu) sobre as existências destes homens e mulheres que podíamos ser nós ou os que vivem ao nosso lado. Belíssimo.


 


Aniversário

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A extraordinária Ana Bernardo ficará hoje certamente contente por lhe anunciarmos um lançamento que não calha a uma quinta-feira. É verdade: logo mais à tarde apresentaremos publicamente o romance Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios, na Livraria Leya na Buchholz (ao Marquês de Pombal). E a data não podia ser mais adequada: é que a obra relata a vida extraordinária de um soldado português na Primeira Guerra Mundial – e a batalha de La Lys, onde tantos portugueses combateram, iniciou-se precisamente no dia 9 de Abril. Com uma escrita bela e segura, Cristina Drios tomou uma fotografia do avô da sua narradora (uma escritora com o casamento por um fio) – o corpulento Mateus Mateus – como ponto de partida para uma narrativa que começa na aldeia natal do soldado (que foi maqueiro e coveiro antes de ser feito prisioneiro pelos alemães) e termina exactamente no dia da batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, em França. Do que aconteceu a Mateus Mateus e ao casamento da escritora, pois bem, só a leitura o poderá dizer. João Tordo apresenta a obra e ainda teremos o bónus da grande guitarrista Luísa Amaro, que ao longo de anos acompanhou Carlos Paredes, e nos vai tocar duas composições. Não falte.


 


Envelhecer

Nos últimos anos, tenho assistido a um notável desenvolvimento daquilo a que vulgarmente se chama romance gráfico, embora em muitos casos (como o que hoje me interessa) a expressão seja um pouco redutora. Provavelmente, Rugas, de Paco Roca, não é sequer um romance (embora seja uma narrativa) e pode ser gráfico, por ter desenhos, mas aqui as palavras talvez contem mais do que as ilustrações. É, em todo o caso, uma obra francamente interessante sobre o envelhecimento e os lares de terceira-idade para onde são empurrados os que já não são autónomos e dos quais os filhos não podem ou não querem tratar. É isso mesmo que acontece a Emilio, o protagonista de Rugas, quando, aos setenta e picos, dá os primeiros sinais de uma confusão que vem a saber-se ser Alzheimer. Internado numa instituição, primorosa e humoristicamente retratada como uma sequência de salas onde dormitam velhos, com ou sem televisão, o objectivo de Emilio será manter-se no piso de baixo, onde ainda lhe resta alguma dignidade, como lhe aconselha logo à chegada o cínico Miguel, que aproveita as fraquezas alheias para surripiar carteiras e outros bens pessoais e para chamar os bois pelos nomes desapiedadamente. Não é tão insensível como, à primeira vista, possa parecer; mas para isso e para saber o que acontecerá a Emilio será preciso ler este livro muito premiado até ao fim. O que, naturalmente, sugiro.

Generation gap

Quando olho para os meus sobrinhos mais novos (de 2 e 4 anos) de roda de um telemóvel ou de um tablet, fico estarrecida com a rapidez com que compreendem a lógica do aparelho e o põem a funcionar, como se já tivessem nascido com um chip que os predispusesse para as novas tecnologias. Confesso que não tenho grande talento para as máquinas (fotocopiadoras, então, nem se fala) e o que retiro delas é apenas o que se me afigura mesmo indispensável, não perdendo (ou ganhando) tempo a explorar as suas potencialidades e, regra geral, agindo com uma desconfiança antipática, que me leva a guardar demasiadas cópias de ficheiros no disco de vários computadores e ainda em pens e CD. Nasci quando as máquinas de escrever eram mecânicas e, nos meus sonhos de futuro, o máximo dos máximos era alguém tocar à campainha do prédio e, dentro da nossa casa, termos hipótese de ver quem era (um sonho perfeitamente exequível, como se viu, mas que, à época, parecia uma coisa do Além). Enfim, acho que ainda pertenço à geração dos que não trazem o tal chip, embora não chegue obviamente aos calcanhares do senhor do vídeo cujo link vos deixo, para quem um iPad é… Só vendo.


 


 http://www.youtube.com/watch?v=Y4_96f0Ooqg

A invenção do circo

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Quando o meu pai era vivo, fomos uma vez ao Coliseu ver um espectáculo de Leo Ferré e, assim que ele entrou na sala, disse-me que aquilo ainda lhe cheirava a leão… Este ano, o espectáculo de António Zambujo nessa mesma sala tinha o público estranhamente disposto em círculo à roda de um palco, pois eram férias de Natal para as crianças e época de circo. Sobre o circo escreveu André Gago e ilustrou Marina Palácio um livrinho infantil que já vai em 6.ª edição e ganhou o Prémio da APE de obra infantil e do Festival de BD da Amadora de ilustração. Uma história muito bonita de gente que põe mãos à obra para trazer de volta a Lua que se afastou da Terra e, nas suas várias tentativas de a resgatar, descobre o funambulismo, as acrobacias, o malabarismo e muitas outras actividades que viriam a dar origem ao circo. Simples e belo, este livro foi seleccionado pelo PNL para as crianças.


 


Escritores na Madeira

Ontem iniciou-se mais uma edição do Festival Literário da Madeira – e amanhã parto para participar numa conversa cruzada sobre o tema «A Arte de Pagar as Suas Dívidas», que tem Balzac como inspiração. Este ano o mote para as mesas-redondas é um manifesto pela Arte e, partindo de frases de escritores, esperam-se debates interessantes sobre religião, igualdade de género, diáspora, guerra e economia. Os participantes são muitos, portugueses e estrangeiros – e, além das idas a escolas previstas para alguns deles, o encontro alarga-se à universidade, onde decorrerão sessões de diálogo com os estudantes. Na rubrica «Conversas à Mesa», Rui Tavares conversará com Naomi Wolf e José Rodrigues dos Santos com Zygmunt Bauman. Sérgio Godinho fará um concerto numa das noites e a poesia estará muito bem representada (Ana Luísa Amaral, Pedro Mexia, João Luís Barreto Guimarães, Filipa Leal, Inês Fonseca Santos e, naturalmente, esta vossa criada). Prometem-se igualmente momentos de humor e intervenção política, sobretudo pela mão de Rui Zink. Veremos se desta feita se canta a Grândola (na Madeira nunca se sabe).

Argumento ecológico

Uma das coisas boas em ter um blogue é que os leitores (neste caso, os leitores extraordinários), quando vêem alguma coisa que pode divertir-nos e interessar-nos, enviam-na para nós. Neste caso, o extraordinário Joaquim Almeida pôs os olhos num vídeo que achou que fazia as minhas delícias, na medida em que me afirmo como defensora de livro em papel (não necessariamente contra o digital, mas a favor da manutenção do modelo de sempre). Ora, os defensores do digital usam habitualmente o argumento do corte de árvores para citar os malefícios da edição em papel, mas há realmente momentos em que nada mais substitui o velhíssimo papel, muito menos os novos gadgets! Obrigada, Joaquim, adorei a sua atenção e o vídeo. Divirtam-se todos com ele:


 


http://vimeo.com/61275290

O que ando a ler

Os tempos têm sido de muito trabalho – e tenho sido forçada pelas circunstâncias a levar trabalho para casa. De modo que, entre as minhas leituras do momento, estão sobretudo as provas de livros que publicarei daqui por dois meses (e dos quais falarei mais à frente) e também de originais que me enviaram, alguns dos quais há mais de um ano, e que não me tinha sido ainda possível «abater» à pilha. Mas, nos bocadinhos livres, mesmo antes de me deitar, estou a conseguir ler um conto ou outro de um autor absolutamente brilhante, Dalton Trevisan, o brasileiro que é o mais recente vencedor do ilustre Prémio Camões. O livro chama-se O Anão e a Ninfeta, foi oferecido ao Manel pela Isabel Coutinho, uma jornalista apaixonada pelo Brasil e admiradora de Trevisan, e, apesar deste título um nadinha jocoso, a verdade é que é literatura a sério e bastante variada (há contos apenas em diálogo, contos em estrofes, contos mais longos). E tudo cheio de um humor negro e de uma maldadezinha que eu por acaso até aprecio. Nos livros, claro.