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A mostrar mensagens de fevereiro, 2014

Fotografias lusófonas

Às vezes, é preciso chegar quase ao fim para começar tudo de raiz. Isso aconteceu, pelos vistos, a Sandra Nobre, uma portuguesa nascida em França e licenciada em Relações Internacionais numa universidade lisboeta, que se livrou de uma leucemia aguda com um autotransplante e decidiu ir atrás do que realmente lhe interessava: os livros e a fotografia. Traçou um percurso num mapa aberto no chão da sala e começará em breve uma aventura belíssima: a de fotografar pessoas a ler em todos os países onde se fala português. Partirá do Porto já no próximo dia 10 de Março para o Brasil e terminará a viagem, previsivelmente seis meses mais tarde, em Cabo Verde, devendo passar por Díli, Maputo, São Tomé e Luanda. Leva consigo um bloco, para registar as histórias dos leitores, e uma máquina fotográfica, para os registar para a posteridade com um livro na mão. O seu blogue Acordo Fotográfico dará certamente conta do que irá acontecendo ao longo deste périplo, mas eu espero que as fotografias disparadas por Sandra Nobre nos quatro cantos do mundo onde ainda se lê em português possam ser expostas futuramente num lugar mais amplo, para que todos nós possamos ir vê-las.

Fábrica de sonhos

Disseram-me que os televisores vão ter muito rapidamente ecrãs tácteis, como os dos telemóveis e dos iPad, nos quais as crianças tocarão para mudar de canal, aproximar a imagem ou ajustar o volume do som. Não me pareceu nada do outro mundo, se, na verdade, os pimpolhos dominam a técnica na perfeição (basta vê-los operar os telemóveis dos pais quando estes se distraem por instantes). Não estava, porém, à espera da notícia bombástica de que a Walt Disney – quem mais? – se prepara para, por meio de impulsos eléctricos transformados em microvibrações, oferecer aos telespectadores uma outra função, que é a de, ao passarem os dedos no ecrã, sentirem a textura do objecto ali mostrado. Mas parece que a tecnologia já foi testada e funciona mesmo. Já vejo a criançada a fazer festinhas a televisivos cães peludos (mesmo que eles não abanem a cauda em sinal de reconhecimento) e as meninas a experimentarem a suavidade da seda e dos tules das princesas dos desenhos animados; e – porque não? – as donas de casa a enterrarem os dedos naqueles turcos muito fofos que entram sempre nos anúncios a detergentes de máquina de lavar. Quiçá os adolescentes solitários se atreverão então a tactear o corpo de uma actriz famosa para depois contarem aos amigos que beliscaram a nádega da estrela... Enfim, com livros a cheirarem a chocolate e televisores macios como alcatifas, não sei que mais podemos esperar.

Palavras derradeiras

Quem sobressai através das palavras tem certamente a capacidade de dizer coisas bonitas e originais nos seus últimos momentos. Mas, embora fosse de esperar que os escritores coroassem o adeus à vida com frases que os tornassem ainda mais imortais, a verdade é que muitos deles foram, antes de tudo, gente com medo da morte ou perturbada pelo sofrimento. Leio algures que, por exemplo, Aldous Huxley – que já ninguém deve ler nos tempos que correm, mas foi autor de um clássico que era obrigatório para a minha geração, O Admirável Mundo Novo – pediu à mulher uma dose de LSD quando sentiu a ceifeira aproximar-se, aspirando talvez a morrer «numa boa». Voltaire, por seu turno, num acto de humor inteligente, terá dito ao padre que lhe pedia que renunciasse ao Diabo que aquela não era altura de fazer inimigos... Já Jane Austen, quando a irmã a interrogou sobre os seus últimos desejos, respondeu que o que desejava era morrer, enquanto, ao sentirem o mergulho nas trevas, Goethe pediu apenas mais luz e Emily Dickinson declarou que estava na hora de entrar em casa porque o nevoeiro se adensava. O autor de Alice no País das Maravilhas ordenou que lhe levassem dali as almofadas, pois já não iria precisar delas para nada, e Tchékov quis celebrar a partida com champanhe, que terá pedido à mulher com a dose de morfina que tomava habitualmente. O poeta romântico Byron avisou simplesmente que ia dormir... E dormiu, de facto, para todo o sempre.

Aqui há gato

Dizem que, em tratando-se de comer frango, uns gostam de perna e outros de peito (cá em casa é exactamente assim – e dá jeito, porque nada se desperdiça). Dizem também que os que gostam de cães não são especialmente apaixonados por gatos, e vice-versa. Eu sou mais cães, confesso, e também confesso que não consigo confiar inteiramente em gatos nem pegar-lhes ao colo, embora não faça fitas quando vou a casa de alguém que os tenha (geralmente, mais de um). Mas gosto de os ver nas traseiras da casa a brincar, a uma certa distância, claro, e gosto de pôr gatos em poemas, talvez porque os ache mais inteligentes e sagazes do que os cães (alguns, pelo menos) e admire até certo ponto a sua natureza independente e selvagem (e, por isso, mais apropriada ao poema). No entanto, fiquei um dia destes rendida à singularidade dos felinos, ao ler uma notícia inesperada sobre a sua apetência para ouvir ler. A sério, parece que os bichanos, sobretudo se já passaram por traumas nas suas sete vidas, apreciam o ritmo da leitura de histórias, o som ritmado de vozes humanas. Na Pensilvânia, na Berks Rescue Animal League, existe mesmo um programa com o nome engraçado de «Book Buddies», em que crianças a partir dos seis anos se oferecem para ler aos gatos residentes, tendo a actividade apresentado resultados extraordinários: além de os bichos ficarem mais mansos e simpáticos (o que os tornará mais facilmente adoptáveis por famílias interessadas num animal de estimação), as crianças aperfeiçoam o seu desempenho na leitura e, melhor ainda, criam raízes na prática de voluntariado. Há coisas que não se explicam, mas, quando eu pus gatos nos meus poemas, talvez já tivesse o pressentimento de que eram animais literários...

Livro sem Ninguém

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Acabo de publicar um dos romances finalistas do Prémio LeYa de 2012 (o autor quis revê-lo), intitulado Livro sem Ninguém, que é um projecto altamente original, uma vez que conta uma história abdicando das personagens. Como? Pois bem: na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso o livro é sem ninguém. Ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, comece uma vida nova. Há bengalas (e, portanto, há velhos), há fraldas e bicicletas com rodinhas (e, portanto, há crianças) e, de vez em quando, há até um skate parado num pátio (e, portanto, há jovens também). Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos (quando o violino cigano se ouve ao longe, chora uma terrível injustiça e, quando a bengala se parte contra o muro, é certamente a raiva que a move). Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam afastar do mês em que estamos. Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar questões tão polémicas como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – o que é um milagre – sem precisar de ninguém.


 


Livres e acorrentados

O diário francês Libération acusou (como quase todos, imagino eu) uma diminuição significativa do número de exemplares vendidos em 2013. Os administradores da empresa proprietária do jornal consideraram então que se devia fazer alguma coisa para o modernizar e aproximar de uma comunicação mais de acordo com os tempos actuais, e digitais, propondo que ele não fosse apenas um título da imprensa escrita, como até aqui, mas também uma espécie de plataforma geradora de conteúdos e passível de se tornar lucrativa. Pois bem: os jornalistas não gostaram e, traindo o espírito visionário que o jornal possuía quando foi criado em 1973 por Sartre, mostraram-se completamente intransigentes com as modernices e resolveram reclamar dos objectivos da administração no próprio jornal, com uma edição especial em que, na primeira página, declaravam: «Nós somos um jornal.» O mais paradoxal é que quem pagou essa edição foram os administradores, ali duramente criticados, para não dizer enxovalhados, pelas suas ideias monétisables. Mas, ironia à parte, a verdade é que o império do dinheiro chegou a todo o lado; e, se a publicidade deixou de pagar o custo do papel (há jornais que já não têm praticamente anúncios), muitos dos diários e semanários correm o risco de fechar se não se tornarem, de facto, uma coisa completamente diferente da que têm sido. Na edição de livros, foi decerto também a busca do lucro rápido que fez com que os editores se pusessem a publicar livros menores mas potencialmente vendáveis, sem se aperceberem de que estavam a criar leitores crédulos e mal formados, muitos dos quais incapazes de pensar pelas próprias cabeças e de, mesmo com um empurrão, passar a um patamar de leitura superior. No entanto, agora já não é possível voltar atrás, e a recusa dos funcionários do Libé a adaptarem-se a novas estratégias também me parece um pouco exagerada. Até porque, pelos vistos, ainda têm quem lhes «sustente» as críticas...

Correntes 2014

Por estes dias, não poderei responder a quaisquer comentários dos leitores deste blogue. É hoje que se inauguram mais umas Correntes d’Escritas e, tal como é hábito, estarei pelo Norte, na Póvoa de Varzim, a acompanhar alguns dos meus autores, a Ana Margarida de Carvalho (que escreveu o excelente Que Importa a Fúria do Mar) e o João Ricardo Pedro (autor do Prémio LeYa 2012, O Teu Rosto Será o Último), dois estreantes nas Correntes que, tenho a certeza, vão adorar a experiência. Nesta que é a 15.a edição do festival literário mais amigo dos autores que conheço em todo o mundo, haverá 64 convidados (eu vou à pendura), entre escritores, críticos, jornalistas, pintores (teremos Cruzeiro Seixas, por exemplo), pensadores, editores, professores e até, como vem sendo costume, alguém ligado também à política, como é o caso de Adriano Moreira, que fará a conferência inaugural. Constam da lista muitos jovens talentosos, como Valério Romão e Golgona Anghel, o que é também um bom sinal, porque frequentemente os encontros de escritores só querem ouvir os consagrados. Se estiverem por perto, apareçam. As sessões este ano serão no auditório do hotel e é por lá que se encontrarão todos os participantes. Espero ter muitas coisas que contar no regresso.

Templos do livro

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Leio num artigo da Internet que quarenta e quatro por cento dos holandeses são ateus. Existem vinte e oito por cento de católicos (que são a maioria dos crentes), dezanove por cento de protestantes, cinco por cento de muçulmanos e os restantes quatro por cento pertencem a outros credos e seitas. Porém, a maioria dos não ateus frequenta muito pouco a igreja e os outros locais de culto, sobretudo os católicos que, ao que parece, desde que Bento XVI fez um discurso homofóbico que os deixou de cabelos em pé, se zangaram e desistiram de ir à missa. Resultado: as instituições religiosas deixaram de ter fundos para manter os seus belos edifícios (sem fiéis e sem esmolas ficou difícil) e tiveram de alienar alguns deles, que se tornaram bares, cafés, livrarias e até salas de concerto. Em Amsterdão, por exemplo, uma igreja do século XIX transformou-se num templo de música pop e rock muito badalado, e em Maastricht outra belíssima igreja deu lugar à livraria Selexyz, uma das mais belas do mundo, cuja fotografia deixo aqui em baixo. Talvez esta transformação signifique o fim de uma época, mas não é mau que haja templos tão belos para o livro.


 


Levar com um livro na cabeça

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As novas tecnologias são hoje um dado adquirido e, apesar de já não conseguirmos viver sem elas, muitas vezes penso que as máquinas inteligentes e a informatização de um sem-número de serviços simplificaram enormemente os processos, mas, ao mesmo tempo, mandaram bastante gente para o desemprego. Para o desemprego irão também, um dia destes, os funcionários dos Correios alemães (embora lá, aposto, o subsídio de desemprego seja melhor do que a maioria dos ordenados por cá), porque a Deutsche Post se prepara para os substituir na entrega de encomendas por drones, uma espécie de mosquitos gigantes telecomandados, até agora usados apenas com fins militares e, uma vez ou outra, no cinema (no filme O Aviador, eram drones que filmavam os voos de Howard Hughes). A utilização é polémica, não só porque a tecnologia avançou mas a legislação sobre a matéria não acompanhou, pelos vistos, o avanço, mas também porque se multiplicam histórias que acabam mal sobre estes «bichos», entre as quais a de um drone com uma câmara de filmar de alta resolução que foi lançado de um arranha-céus nova-iorquino e, certamente por aselhice do dono, andou a dar tombos em janelas de mais de dez edifícios circundantes antes de iniciar uma queda vertiginosa e de acabar partido aos pés de um transeunte que só por milagre não levou com o dito na cabeça. A Polícia, que confiscou os restos do aparelho, sabia que devia ser uma coisa importante, mas não sabia o que era exactamente... Ora, na imagem que anunciava o recurso a drones pelos Correios alemães num futuro próximo (mas será tão próximo assim?), vejo um pacote (que podia conter um dicionário) seguir caminho nas garras do mosquito electrónico e temo que venha a cair cima da cabeça de alguém. Encomendas de livros online vão ter os dias contados para muita gente quando as entregas passarem a ser feitas por drones. E queira Deus que isso não signifique mais gente no desemprego.


 


Poesia versus prosa

Embora os dois géneros literários se toquem frequentemente (e muitos romancistas tenham uma escrita surpreendentemente poética, enquanto alguns poetas são narradores não especialmente líricos), a verdade é que nem sempre os leitores gostam igualmente de poesia e prosa. A confirmá-lo está, de resto, a notícia um tanto absurda de que houve recentemente na Rússia um homicídio (uma morte que envolveu numerosas facadas e consequente sangramento) por causa de uma discussão que tinha como tema justamente a poesia e a prosa. A vítima, de 67 anos, terá emitido a opinião de que a única forma literária digna desse nome era o romance; e, ao ouvi-lo, o assassino, um ex-professor de 53 anos amante incondicional de poesia, ter-se-á irritado ao ponto de esfaquear o oponente, deixando-o pronto para a sepultura (1-0 para a poesia) e fugindo do local, tendo sido detido apenas três dias mais tarde. Faltou dizer, claro, que ambos estavam num bar – e, ao que consta, muitíssimo bêbados; e que noutro bar, uma semana antes, divergências sobre as teorias de Immanuel Kant também já haviam feito uma vítima de disparo de arma de fogo (embora não mortal). Defender um ponto de vista é coisa que aprecio, contra uma certa apatia e o medo de assumir posição. Gosto muito, aliás, de ver como os extraordinários comentadores deste blogue dão opiniões e reagem às minhas e às dos outros leitores. Mas, copos à parte, não creio que seja preciso ir tão longe...

Festejar o amor

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Hoje, que é dia de S. Valentim, use-se o pretexto para visitar o amor posto a nu pela pena de um dos mais dotados ficcionistas portugueses, o já galardoado com o Prémio Pessoa (entre muitas outras distinções) Mário Cláudio. Neste O Triunfo do Amor Português, o autor recorre, porém, mais à riqueza do real do que à própria imaginação para se debruçar sobre uma dúzia de pares famosos das lendas e da história portuguesas, recontando à sua maneira (e de que maneira!) os amores de Pedro e Inês, Camilo e Ana Plácido, Camões e D. Maria, Leonor Teles e o conde de Andeiro, só para citar alguns exemplos. Com uma bonita ilustração de capa de Rogério Ribeiro e um magnífico prefácio de Agustina Bessa-Luís, o amor português é aqui celebrado com mão de mestre, trazendo a um tempo uma prosa madura e não raro irónica, a descrição do peso da culpa nos caminhos do amor e a nossa ilustração sobre alguns casos e episódios de transgressão que foram absolutamente marcantes no nosso passado amoroso histórico e literário, sem omitir os amores homossexuais de António Nobre e Alberto de Oliveira. Como refere Agustina no seu texto de abertura, «se fosse preciso afirmar Mário Cláudio como um escritor, este livro [...] vinha coroar a sua obra».


 


Morte na Ásia

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Abro a excepção para publicar na LeYa um autor estrangeiro que me convenceu ao desvio: o sul-coreano Kim Young-ha (se fosse aqui, chamar-se-ia Young-ha Kim, porque «Kim» é o apelido), considerado pela crítica o nome mais vibrante da sua geração e traduzido em mais de dez países. A sua novela, Tenho o Direito de Me Destruir, com uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira, não é para qualquer dente, por algum atrevimento sexual (com chupas-chupas à mistura e bolinha vermelha ocasional) e bem assim por tratar um tema bastante polémico, o da morte assistida. Mas não se pense que o protagonista e narrador, amante da pintura, ajuda caridosamente a morrer doentes terminais. Nada disso. Ele está, sim, especialmente atento aos deprimidos e solitários (as mulheres que viajam sozinhas ou encontra em museus são alvos preferenciais) e, por ser culto e inteligente, põe à sua disposição um maravilhoso serviço de assistência ao suicídio, munindo-se de um catálogo bastante completo. Vive deste estranho ofício e bastam-lhe dois ou três clientes generosos por ano para ter uma vida pacata e sem dificuldades. Quando termina um trabalho, escreve sobre a pessoa que ajudou a livrar dos seus problemas – é através do seu relato fiel, cínico e criativo que conheceremos Se-yeon, a rapariga por quem dois gémeos estavam doidamente apaixonados e desapareceu do carro de um deles no meio de engarrafamento na neve; ou Mimi, uma artista de vanguarda que não deixava que filmassem as suas performances por ter medo de se ver a si própria. Num cenário que usa Seul para espelhar a velocidade do mundo moderno e os dramas actuais da humanidade, Kim herda uma certa obscuridade de Kafka e uma certa ousadia de Brett Easton Ellis para compor um texto admiravelmente seco, sem palha, e ao mesmo tempo perturbador e exótico. A capa portuguesa, belíssima, é de Rui Garrido.


 


Casas de papel

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Li há uns anos uma deliciosa novela chamada Casa de Papel, de Carlos María Domínguez, escritor argentino residente no Uruguai, na qual os muros de uma casa eram construídos com livros. Nós, que gostamos muito de ler e não resistimos a comprar sempre mais um livro mesmo em tempos de crise, lutamos de certeza com enormes dificuldades de arrumação. Tenho até um amigo que foi dissuadido de carregar a sua biblioteca para uma nova casa que comprou porque o peso era excessivo e se corria o risco de tornar o apartamento de um só piso o duplex do vizinho de baixo. Pois a revista Casa Vogue do Brasil, a pensar nos nossos problemas, resolveu dedicar várias páginas de um dos seus recentes números a casas realmente fantásticas com soluções arquitectónicas geniais para arrumarmos os livros. Casas que existem por esse mundo fora, do Canadá à Suécia, da Alemanha ao Brasil, e cujos proprietários têm bibliotecas incríveis e incrivelmente arrumadas. Claro que, em muitos casos, a coisa não está ao nosso alcance, temos os bolsos quase vazios e muitos dos orgulhosos donos dos lares fotografados devem ser bastante ricos. Mesmo assim, dá sempre para tirar uma ideia ou outra e sonhar o que poderia ser a nossa biblioteca se nos saísse o Euromilhões. O link vai abaixo.


 


http://casavogue.globo.com/Interiores/noticia/2012/12/10-casas-ideais-para-amantes-de-livros.html


 


Dizer e ouvir

Nos anos 1990 lembro-me de comprar muitos CD da (eu dizia «dos») Penguin Café Orchestra, sem nunca chegar a investigar donde vinha o nome desse grupo de músicos. Curiosamente, descobri há pouco tempo existir no Porto um café chamado Pinguim – quiçá apenas uma coincidência, quiçá um estabelecimento de alguém que também ouvia com prazer aquele som. Em todo o caso, a música de que quero falar agora é a das palavras, porque neste Café Pinguim diz-se poesia há vinte e cinco anos todas as segundas-feiras. A ideia nasceu com o falecido crítico e poeta Joaquim Castro Caldas, que ali começou a recitar Pessoa e Almada e acabou por criar o vício de dizer poesia a muitos outros, autores e actores, que levavam livros debaixo do braço e esperavam a ordem do mestre para os ler. Valter Hugo Mãe, Filipa Leal ou Daniel Maia Pinto Rodrigues, todos poetas com obra publicada, começaram ali naquela espécie de laboratório, e até hoje são visitas regulares do Pinguim. Infelizmente, Castro Caldas não está já neste mundo para ver a colectânea de poemas, Antologia da Cave, que foi lançada recentemente na Biblioteca Almeida Garrett (na Invicta) para comemorar os 25 anos de leituras no Café Pinguim, mas substitui-o o actor Rui Spranger, que hoje é quem comanda as hostes. Fazia-me falta um café assim em Lisboa, pois gosto de dizer poesia, minha e de outros, e na capital não conheço onde se possa fazer tal coisa num dia certo e, claro, com público. Quando for ao Porto, espero poder dispor de uma segunda à noite para ir ao Pinguim e, entretanto, vou ouvir os meus velhos CD que têm, aliás, belíssimas capas.

Sozinhos

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Quando um autor nos deixa, não conseguimos falar disso durante muito tempo. Não, embora possa parecer – até pelo destaque que os jornais deram ao assunto –, não me refiro a desacordo de herdeiros em relação a condições contratuais (há mais viúvas e filhos na história da literatura que nos prepararam para não estranharmos certas decisões); e também não falo dos que, mesmo sem queixas de maior, alegam precisar de uma experiência nova – porque, apesar da mágoa (e do prejuízo), tenho consciência de que, com a idade, nos arrependemos sobretudo do que não fizemos e, portanto, aceito e, pelo menos, tento compreender. Falo, sim, de alguém que teria gostado de ficar, de repetir a velha experiência fossem quais fossem as condições contratuais – mas não pôde, porque a morte simplesmente pôde mais, embora ele lhe tenha dado três anos de luta cerrada em que escreveu um romance inesperadamente bem-disposto, três anos de uma força que admiro e invejo e foi uma lição de vida para mim e para quem a soube, sentiu e assistiu, mesmo que às vezes só de longe, só por telefone. Falo de Paulo Bandeira Faria, autor e amigo, que me deixou sozinha no fim do ano passado, que me deixou sem ele e sem os livros que ainda teria podido escrever – e que bons seriam – se a morte, desta vez, não tivesse podido mais do que ele. O último – A Despedida de José Alemparte – anda de novo pelas livrarias a lembrá-lo, e eu aqui a lembrar-vos que não deixem de o ler, porque é um livro que celebra a vida e foi escrito por um homem que a estava a perder. (A Extraordinária Ana B., que também nos tem deixado sozinhos aqui no blogue, elogiou-o muito quando o leu.)


 


Cultura e socialite

Desde sempre me lembro de haver na minha faculdade (a de Letras, em Lisboa) cursos de Português para estrangeiros durante o Verão. No entanto, certamente por causa da vaga de imigrantes de Leste que chegou já no século XXI, passou a haver aulas de Português para estrangeiros ao longo de todo o ano em horário pós-laboral. Pois foi justamente um dos frequentadores destas aulas – um não-português, portanto, e com a cabeça no lugar – que escreveu recentemente ao director de um jornal uma carta, revelando uma justíssima indignação por a sua professora ter levado para a aula a revista Caras, alegando que Lili Caneças ou José Castelo Branco eram «figuras incontornáveis da cultura portuguesa» (mais dois, suponho, que acabarão com os costados no Panteão Nacional). Sei que «cultura» é um termo demasiado abrangente e que quase tudo cabe nele, do cozido à portuguesa ao futebol, passando pelo queijo da Serra e o cão-d’água que Obama adoptou como animal de estimação. Calculo também que o nível médio dos nossos professores tenha vindo a baixar de modo evidente de há quinze ou vinte anos para cá (não podemos pôr todos no mesmo saco, mas, nos anos em que estive no ensino, eram infelizmente muito poucos os meus colegas que liam regularmente, e menos ainda os que liam literatura). Vejo diariamente que até as publicações mais sérias – já para não falar das televisões, que deixei praticamente de ver – não raro dedicam um espaço escandaloso a figuritas de papelão e enredos de vizinhas. Mas... na Faculdade de Letras, onde deveriam ser promovidos os escritores, filósofos e historiadores portugueses, não conseguiram encontrar ninguém para representar a nossa cultura além destas duas completas aberrações? Eu tinha consciência de que isto andava mal, mas não tão mal como realmente anda.

Jornalista e escritor

Hoje, um pouco por falta de tempo, mas também para vos apresentar um sítio sobre livros e autores aonde poderão ir quando quiserem, o Casal das Letras, deixo-vos o link de um texto que ali publiquei recentemente sobre o assunto em título.


 


http://www.casaldasletras.com/convidados.html

Ler como terapia

Conheço cada vez mais pessoas dependentes de antidepressivos. Algumas delas beneficiariam de sessões regulares de psicoterapia, tenho a certeza, mas as consultas são caras e, nestes tempos terríveis, muitas delas não têm qualquer possibilidade de as pagar. Não sou contra os químicos (acho que um comprimido para dormir de vez em quando é muito melhor do que uma noite de insónia) mas a dependência assusta-me e, quanto às depressões, duvido muito de uma cura química. Há, porém, quem sugira para elas um tratamento menos intrusivo (biologicamente, claro) e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido pratica já, em alguns casos, uma terapia que passa pelos livros. Books on Prescription, assim se chama a biblioterapia que receita leituras em vez de fármacos – os efeitos secundários só podem ser bons, digo eu –, é coisa séria, porque os títulos aconselhados são mesmo de leitura obrigatória e é forçoso que os pacientes os aviem na biblioteca ou livraria mais próxima e os leiam para depois falarem sobre eles com o psicólogo ou psiquiatra. Porque ler não acarreta perda do desejo sexual, aumento de peso e outras consequências desagradáveis que têm os comprimidos, parece que, desde que o método foi implantado, em Junho do ano passado, as requisições de livros multiplicaram-se e os pacientes sentiram efectivamente melhorias em termos de saúde mental. Os seus bolsos também agradeceram com este tratamento low-cost e a consciência de que os seus problemas afectam igualmente outras pessoas (o que concluíram das leituras feitas) acabou por lhes retirar parte do peso de cima. É evidente que, para esta terapia poder ser recomendada, os psicoterapeutas têm de ter lido os livros antes, e não sei se em Portugal a classe está suficientemente informada. O que posso dizer é que, em momentos especialmente maus da minha vida, os livros – escritos e lidos – foram a minha salvação.

Prestígio e dinheiro

Há prémios literários prestigiantes, mas com um valor pecuniário relativamente baixo, e prémios realmente chorudos, mas sem grande reputação. Um prémio literário que reúna ambas as coisas é mais difícil, claro, e é um galardão assim que todos os que escrevem naturalmente almejam. Pois os herdeiros do grande T. S. Eliot e a Poetry Book Society têm há vinte anos o Prémio T. S. Eliot para um livro de poesia, que rende nada mais, nada menos do que quinze mil libras ao seu autor, além, evidentemente, de uma honra sem igual (que poeta não gostaria de ter na sua carreira um prémio cujo patrono fosse um dos maiores poetas de sempre?). Entre os vinte distinguidos até hoje, contam-se, pelo menos, dois autores que receberam o Prémio Nobel da Literatura – o irlandês Seamus Heaney, recentemente falecido, e Derek Walcott, natural da ilha de Santa Lucia, que foi nobelizado em 1992 – e ainda o sobejamente conhecido Ted Hughes. Este ano arrecadou-o uma irlandesa, Sinéad Morrissey, com a obra Parallax (que estou em vias de adquirir), uma poetisa que já somou várias distinções importantes e foi a mais jovem de sempre a ganhar o Prémio Patrick Kavanagh, para inéditos, com dezoito anos, embora a obra só tenha visto a luz muitos anos depois. Convém dizer que todos os seus livros anteriores foram finalistas do prémio que agora lhe foi atribuído e que, portanto, era uma vitória mais ou menos esperada.

O que ando a ler

Aconselhada por um ou mais Extraordinários (ou seja, leitores deste blogue) – e apesar da escassez de tempo para o que não é leitura profissional (sim, levo trabalho para casa quase todos os fins-de-semana e ainda tenho mais de sessenta originais em espera) –, pus o dente na saga da família Melrose, de Edward St Aubyn, mais concretamente na primeira das duas novelas que compõem o volume (até agora o único) publicado em Portugal (e que, além de Deixa Lá, inclui Más Novas, mas ainda lá não cheguei). Bastante cínica e um tanto snobe, esta prosa que só podia ser de um inglês que se declara na capa possuir a verve de Oscar Wilde (percebo a ideia, mas não iria tão longe) desconcerta um pouco a princípio, sei lá se por causa de uma tradução vagamente elaborada do poeta Daniel Jonas, mas torna-se rapidamente camisola à medida das figuras e do enredo. A primeira incursão na vida dos Melrose dá-nos a conhecer um David bastante frustrado por não ter podido seguir a carreira de pianista (a febre reumática tramou-lhe os planos), uma Eleanor viciada em álcool e comprimidos (que faz pena, mas irrita bastante) e o pimpolho do casal, Patrick, de cinco anos, que está quase sempre sozinho e, por vezes, parece mais adulto do que os pais (e mais normal). É, de resto, a vida de Patrick, menino bem, filho de gente rica a viver confortavelmente na Provence, que St Aubyn irá acompanhar ao longo de um quinteto de novelas – leio que, em Más Novas, Patrick já terá vinte e dois anos; aqui, porém, ainda é o miúdo dos Melrose que se empoleira no bordo de um poço de costas voltadas para o abismo e leva uma tareia do pai sem perceber porquê (juro que não tem nada que ver com a sua ousadia no poço). Vamos ver no que se transforma. Ainda só li oitenta páginas.