Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2025

Sexo e literatura

Se já é difícil falar de sexo de forma que não pareça didáctica ou ordinária, escrever cenas de sexo em ficção resulta ainda mais difícil. Cai-se facilmente no literariamente feio (como a mulher a lavar-se no bidé depois de fazer amor), no óbvio (como nos romances de quiosque, com seios sempre perfeitos), nas metáforas de mau gosto (poupo-vos a algumas que até sei de cor) ou até nalguma coisa próxima da pornografia (demasiado descritivo). Mas curiosamente parece que a escritora Sally Rooney quebrou o tabu e teve muito sucesso, tal como Miranda July, de quem temos cá publicado De Quatro, ou a estreante Yael van der Wouden que ganhou um prémio importante com A Guardiã, um romance que ao que parece tem umas quantas cenas de sexo sem nunca perder o nível literário. Leio num artigo que me enviaram que os jovens americanos declararam querer ver menos sexo e mais amor platónico e puro no cinema, mas apreciam muito o sexo em romances e livros de fantasia. Será que ver sexo é que é o problema? Será que ao ler cenas de sexo não as vêem nas suas cabeças? Conheço algumas pessoas que leram De Quatro (algumas jovens) que acharam que tinha sexo a mais; e eu própria achei que, depois do maravilhoso As Malditas, Camila Sosa Villada foi excessiva nas cenas de sexo no livro seguinte que li dela. Estaremos a ficar puritanos? Não sei, tenho de ler o premiado A Guardiã para tirar teimas.


P. S. Amanhã começa Agosto. Boas férias para todos. O blogue volta em Setembro. 

Isabela

Os leitores deste blogue sabem certamente quem é a escritora Isabela Figueiredo, hoje publicada pela Caminho. Ela tornou-se inicialmente conhecida pelo seu livro Caderno de Memórias Coloniais, em que relata sem paninhos quentes a  experiência da sua família em Moçambique quando era uma colónia portuguesa (livro que teve depois uma versão revista e aumentada, que é a que hoje circula) e confirmou o seu talento com o romance A Gorda, que tem umas idas e vindas a África porque a família da história é de retornados (as plantas, a decoração da casa, etc...)  mas é sobretudo a história da dificuldade que tem uma jovem mulher gorda em ter um relacionamento amoroso. O seu terceiro livro, Um Cão no meio do Caminho, foi traduzido em França e vai sair em Setembro, na rentrée, mas já faz parte da lista de semifinalistas do Prémio de Romance da FNAC 2025. Desejamos sorte à autora, claro, que esperamos chegue pelo menos à final, e recomendamos aos Extraordinários que, se não a conhecem, leiam qualquer dos seus livros, que são todos bons, cada um no seu género.

Os homens não lêem mulheres?

Num estudo realizado no Reino Unido por uma ONG chamada Women's Prize Trust (WPT) envolvendo 54.000 livros, concluiu-se que os homens compram sobretudo livros escritos por homens (mais de 80%), parecendo desconfiar de que os livros escritos por mulheres são xaroposos e ocos. Num post de um clube de livro que pelos vistos a rainha Camilla tem, o comentário do argumentista de cinema Richard Curtis (Notting Hill, O Diário de Bridget Jones...) em relação ao livro proposto de uma escritora foi excessivo (qualquer coisa como «Que nojo!»). Felizmente, a própria filha do argumentista parece ter-lhe dado uma lição e sugerido bastantes autoras muito boas; e a atrás referida ONG lançou uma campanha chamada «Homens Que Lêem Mulheres», pedindo a escritores consagrados (Salman Rushdie, Ian McEwan e outros) que falassem das suas escritoras preferidas, levando então o senhor Curtis a mudar de ideias e maravilhar-se com Elizabeth Strout, Chimamanda, Arundhati Roy e mais uma dezena de mulheres escritoras, confessando ter descoberto nelas uma humanidade que até era mais ao seu gosto do que a encontrava nos livros escritos por alguns dos seus autores preferidos. Em Portugal, ao que parece, segundo uma tese defendida na Universidade Nova de Lisboa por Clara Nunes da Silva que teve por amostra 400 leitores (200 homens e 200 mulheres), 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens, o que significa que o padrão se repete provavelmente em todos os países. Faz-nos falta uma ONG como a WPT a ver se as coisas mudam por cá, até porque as mulheres não são esquisitas (lêem livros de homens e mulheres indiferentemente) e, como até lêem mais livros do que os homens, mereciam ser mais lidas por eles.

Os nomes

Lembro-me de que, quando li Alice do Outro Lado do Espelho numa edição da Estampa, naquela colecção de capa preta com folhas azul-claras, nos meus tempos de faculdade, uma pergunta de Alice ficou para sempre na minha cabeça: "Must a name mean something?" Os seus interlocutores, se não me engano Tweedledee e Tweedledum, queriam saber o significava o nome Alice, e ela respondia-lhes com aquela pergunta; um nome tinha de significar alguma coisa? A querida poeta Ana Luísa Amaral chamou a um dos seus últimos livros What's in a name (leiam-no) e esta conversa toda vem a propósito do facto de um colega meu me ter contado que leu no romance de Miguel Bonnefoy de que aqui pus um excerto na última sexta-feira que o nome com que baptizaram a Venezuela não foi dado por acaso; antes de aquele território ser o país que é hoje, tinha uma data de pequenos canais e alguém pensou logo em Veneza, numa Veneza de trazer por casa, enfim, dado os canais serem bem menos sumptuosos. Mas foi por isso que se chamou Venezuela, a prova provada de que os nomes (próprios, claro) têm muitas vezes um significado. É até pena que muitos dos comentadores deste blogue não assinem com os seus verdadeiros nomes, pois talvez descobríssemos neles coisas engraçadas.

Excerto da Quinzena

Ao terceiro dia de vida, Antonio Borjas Romero foi deixado nos degraus de uma igreja, numa rua que hoje tem o seu nome. Ninguém soube dizer exatamente em que data foi encontrado, só se sabe que uma mulher muito pobre tinha o hábito de se sentar ali todas as manhãs, sempre no mesmo sítio, com uma malga de cabaça à sua frente e uma mão frágil estendida a quem passava no adro. Quando viu o bebé, repudiou-o com um gesto de repugnância. Mas a sua atenção foi atraída subitamente por uma caixinha brilhante, escondida entre as dobras da roupa, que alguém ali tinha deixado, como se fosse uma oferenda. Um retângulo de lata, de cor prateada, com arabescos finos gravados. Era uma máquina de enrolar tabaco. Roubou-a e meteu-a no bolso do vestido, desinteressando-se do bebé. Contudo, durante a manhã, apercebeu-se de que os seus tímidos vagidos, os seus gritos hesitantes comoviam os fiéis, que, julgando-os juntos, iam sucessivamente enchendo o fundo da malga com moedas de cobre. Ao chegar a noite, levou-o para um curral, encostou-lhe a boca à teta de uma cabra preta coberta de moscas e, de joelhos debaixo da barriga da cabra, pô-lo a mamar um leite espesso e quente. No dia seguinte, embrulhou-o num pano da cozinha e prendeu-o às ancas. Ao fim de uma semana, começou a dizer que o menino era dela.


Miguel Bonnefoy, O Sonho do Jaguar, tradução de Luísa Benvinda Álvares

Palavrinhas

Estava a pensar por que diabo portugueses e espanhóis, que falam línguas tão semelhantes, têm em certos casos palavras tão diferentes para a mesma coisa. A questão nasceu de um livro de que gosto muito de Eduardo Halfon chamado Luto, que em espanhol se chama Duelo (a palavra que em castelhano quer dizer «luto»). Eu bem sei que, regra geral, os duelos costumam acabar com um morto (e que isso implica o luto da sua família e amigos); mas a verdade é que a «luta» (e o duelo não deixa de ser uma luta para encontrar um vencedor) também pode implicar o luto e é bem parecida com ele em termos de escrita, o que me pôs a pensar se teriam a mesma raiz. Mas não. O luto vem do latim luctum, que significa dor, lástima; a luta vem do latim lucta, que é o exercício de lutar. Já o duelo significa uma luta entre duas pessoas (o du inicial indicia dois, como no nosso «dueto», e vem de duellum). Já o duelo espanhol (luto, portanto) parece estar mais relacionado, afinal com dolo, palavra que também existe em português com o sentido de dor, lástima, prejuízo, e que em francês, entre outras, deu origem a deuil, que é o luto dos parisienses. E tudo por causa do escritor guatemalteco que tem livros rão bons e de ter pensado que hoje faz anos que morreu o meu pai... dia de luto, portanto.

Um Nada que é muito

Se alguém me perguntar o que estou a ler neste momento e eu responder «Nada», vai ser difícil de acreditar. Mas a verdade é que está certíssimo, porque Nada, de Carmen Laforet, é o título do romance que acabei há dias. Nunca tinha lido esta autora e vou querer, de resto, procurar outros livros seus porque foi uma excelente surpresa. Mas, falando de Nada em particular, trata-se de uma história que decorre na Barcelona franquista e conta a história da pobre Andrea (pobre em todos os sentidos, porque não tem um chavo e acontece-lhe de tudo), que vem estudar na capital catalã e fica a morar com os parentes (avó e tios) numa casa onde tudo está a cair aos bocados, vão-se vendendo os móveis e até o pão é racionado, mas há curiosamente uma criada para manter um certo status. A sua sorte é conhecer na universidade Ena, uma rapariga que a adora e que a ajuda, embora também lhe crie grandes preocupações ao envolver-se aparentemente com um dos seus tios, que é um músico genial, mas muito misterioso. Histeria, violência física, fome, mentiras, jogo, um bebé doente... Andrea viverá momentos realmente dramáticos e inesquecíveis nesta casa de doidos onde há vidas e mortes que nos tocam ou nos chocam. Um romance de referência escrito em 1945 sobre a Espanha do pós-guerra civil com cenas que ficam connosco para sempre. 

Gerir a carreira

Os tempos são outros, e o escritor não tem outro remédio senão sair da sua torre de marfim e dar-se a conhecer ao seu público potencial: ter sites na Internet onde noticia prémios e actividades, ir às livrarias e bibliotecas conversar com os leitores, ter páginas nas redes sociais em que  publica posts sobre onde vai estar e o que anda a escrever. E, como é aí que as pessoas mais estão e mais lêem (infelizmente nem sempre um texto de mais de dez linhas), é também aí que, sem pagarem direitos, passam a vida a partilhar o trabalho dos escritores. E estes recebem hoje cada vez menos por essas e por outras (os poetas são umas vítimas, alguns têm todos os seus livros partilhados às postas no Facebook). Vai daí, em muitos países, os escritores aderiram aos «substacks literários», uma forma de ganharem dinheiro, criando newsletters em que os subscritores (fãs e leitores) pagam uma renda mensal ou anual para saberem tricas, lerem obras que o autor ainda não publicou em primeira mão, conhecerem as suas opiniões sobre a actualidade, terem direito a livros autografados antes de toda a gente, enfim, uma data de privilégios que são exclusivos para essa comunidade e que, no fundo, também dão de comer ao autor. O The Guardian traz um interessante artigo sobre estes procedimentos que conta como tanta gente é capaz de pagar entre 35 e 150 libras por ano para estar mais perto dos seus escritores de eleição. Fixe a palavra «substack», um dia destes chega cá e depois nada será como antes. O artigo pode ser lido aqui:


https://www.theguardian.com/books/2025/jul/12/where-authors-gossip-geek-out-and-let-off-steam-15-of-the-best-literary-substacks


 

O mesmo e o contrário

Estava a rever umas provas e precisava de cortar um nadinha de texto para ganhar uma linha, que era precisa um pouco mais abaixo por causa de um travessão de início de diálogo que, por lapso, não tinha saltado para o parágrafo seguinte. E foi então que reparei numa coisa curiosa: a frase dizia que uma mulher estava «desesperada por não saber o paradeiro do filho». Porém, se estivesse «desesperada por saber o paradeiro do filho», na verdade, também pouco mudava (podemos estar desesperados por encontrar alguém). Tirei o «não» e ganhei a linha de que precisava, mas... Como é que uma frase com «não» (negativa) e uma frase sem «não» (afirmativa) podem querer dizer a mesma coisa? Um amigo chamou-me a atenção para o facto de que há mais casos: o verbo «sancionar» também é paradoxal. Implica sanção, castigo, e ao mesmo tempo aprovação. Podem aplicar-se sanções a certas medidas (no sentido de as chumbar); e podem sancionar-se medidas (confirmá-las, ratificá-las). Que esquisito, não é? A língua portuguesa é tramada.

Um Gabo diferente

«Gabo» é a alcunha por que chamavam os amigos e os mais próximos a Gabriel García Márquez, o autor colombiano que escreveu livros incrivelmente imaginativos e que é o autor do mítico (em todos os sentidos) Cem Anos de Solidão, com os inesquecíveis Aureliano Buendía e o cigano Melquíades. Falo deste livro também para vos contar que ele foi inicialmente lançado não na Colômbia, mas na Argentina, país de leitores, e que foi a partir do seu sucesso nesse país que chegou a Espanha e rebentou com tudo, tornando-se depois um êxito mundial. Mas em Barcelona, antes disso, ninguém tinha visto Gabo nem sabia como ele era; e, num livro que o Manel anda a ler (e eu lerei logo a seguir) sobre a vida de Beatriz de Moura, a editora da emblemática Tusquets em Espanha, conta-se que ele aparecia em festas e eventos, e que andava tudo muito intrigado sobre quem seria aquele colombiado baixote de caracóis que vendia haxixe... Só um tempo depois, numa grande festa da Agência Literária Carmen Balcells (que o haveria de representar até hoje), o grande García Márquez foi apresentado ao mundo literário espanhol e ganhou a amizade de muitos escritores e editores. Beatriz de Moura, de resto, foi quem o convenceu a publicar os folhetins de Relato de Um Náufrago, que tinham saído semanalmente num jornal, em livro (que tenho em casa na colecção preta da ASA). Um vendedor de haxixe que ganhou o Nobel... 

Pontes em Oeiras

Imagem

Amanhã começa a Livraria: Festa do Livro de Oeiras, que se prolonga até ao dia 27 de Julho. Decorre no Templo da Poesia, que fica dentro do Parque dos Poetas, e tem este ano o tema «Pontes». Este certame, que celebra o papel das livrarias na divulgação da cultura, terá pavilhões das mais icónicas livrarias portuguesas (Gatafunho, Travessa, Snob, Bichinho do Conto, Tigre de Papel, Ibook...), onde podem ser comprados livros novos e de fundo para as férias, e visa promover o livro e a leitura, bem como o diálogo, com uma programação dedicada a toda a família, e combina literatura, música, teatro e dança (e as pontes que construímos entre elas). Numa das sessões de debate, no sábado 19, às 16h30, vou lá estar com o  Paulo Moreiras, um dos autores que há mais tempo publico, a falar da relação autor-editor (há lá ponte mais bela do que esta) com o também escritor e editor Jorge Reis-Sá. No mesmo dia, será entregue, às 21h00, o Prémio de Poesia (Consagração) a João Luís Barreto Guimarães, sessão precedida por uma conversa entre Anabela Mota Ribeiro e Tatiana Salem Levy sobre autoficção. Mas há muito mais até dia 27, é só consultarem o programa no link que se segue. Divirtam-se!


https://www.oeiras.pt/-/festa-do-livro-no-parque-dos-poetas


FB-TWITTER.jpg

Adeus, JL?

Ainda eu andava na faculdade, creio que no terceiro ou quarto ano, quando saiu o primeiro número do Jornal de Letras, Artes e Ideias, que ficaria mais tarde conhecido simplesmente por JL. Lembro-me de ter comprado esse número inaugural e de ter descoberto que o meu então professor de Teoria da Literatura, Mário Jorge Torres, escrevia lá sobre cinema, e de achar graça porque ia ter aula com ele logo a seguir. O JL cumpriu ao longo destes quase cinquenta anos um papel importantíssimo: num país onde há poucos leitores e cada vez menos jornais com suplementos literários e espaço para livros (que foi dramaticamente reduzido nos jornais diários, nos quais houve tempos em que havia uma página diária dedicada aos livros), o JL deu espaço aos autores de língua portuguesa e aos seus livros, e era distribuído pelos outros países que falam português, nomeadamente o Brasil, onde houve imensíssimos subscritores do jornal durante anos. Depois mudou de mãos... E agora dizem que vai fechar, que vamos ter o último número hoje. Por isso quero dar os parabéns ao seu director, José Carlos Vasconcelos, por um trabalho de décadas quase sem recursos e por não ter desistido quando as coisas se tornaram mesmo impraticáveis, ele que podia ter ido para casa calçar as pantufas há muito tempo. Felicito também os seus jornalistas mais dedicados, preocupando-me com o seu futuro e esperando que consigam um trabalho em breve de que gostem e que sirva, como sempre, a literatura. Obrigada. 

Palavrinhas

Os galegos, quando querem dizer "obrigada", dizem por vezes "graciñas" (leia-se "gracinhas"), o que tem a sua graça, evidentemente. São graças com um sentido diferente do da piada o que espanhóis e italianos dão quando respondem "gracias" ou "grazie", palavras que traduziríamos pelo nosso "obrigado/a". Nessas duas formas, a "graça" vem do latim gratia, que significava "reconhecimento" (por um favor feito). O verbo português "agradecer" tem de alguma forma esta gratia latina lá dentro e corresponde àquele que ficou "grato". Também em línguas não latinas a ideia de graça e reconhecimento está presente em palavras como "Thanks" (inglês), "Danke" (alemão), "Tak" (dinamarquês) ou "Dankjewel" (neerlandês), todas elas, segundo leio, oriundas de um vocábulo proto-germânico que significava o tal reconhecimento pelo favor prestado. Já o "merci" francês tem origem no latim merces (originalmente ligado a pagamentos de mercadorias), para o qual nós temos em português a palavra "mercê", que, sendo um pagamento ou uma recompensa, também evoluiu curiosamente com o sentido de graça e favor (concede-se uma mercê a alguém, por exemplo). O que é mais obscuro para mim é este nosso "obrigado/obrigada" que parece implicar o cumprimento de uma obrigação. Talvez tenhamos sido sempre renitentes em agradecer e alguém nos tenha obrigado a reconhecer o favor...

Homenagem

A Universidade do Porto homenageou recentemente o editor José da Cruz Santos que, se não me engano, foi quem «iniciou» o Manel (Alberto Valente) no mundo dos livros na O Oiro do Dia e que ainda tem a sua livraria/editora Modos de Ler ali ao pé da Leitaria do Paço, na Invicta. Quando entrei na edição, em 1987, havia vários editores como Cruz Santos (o querido Rogério de Moura da Livros Horizonte, por exemplo, ou o Fernando Guedes da Verbo) que faziam projectos de raiz, inventavam colecções, conheciam todos os autores, tinham ideias interessantes. Cruz Santos, além disso, ainda tratava da embalagem (vulgo capa), geralmente bonita. Desde que a edição se industrializou, desapareceram gradualamente os editores deste tipo. Os objectivos são hoje muito diferentes (as vendas, as vendas...), os leitores também (a democratização do ensino criou leitores diferentes) e, sobretudo, as livrarias são uma espécie de mundos que, com poucas excepções, vendem sempre a mesma coisa e pouco espaço têm para livros de nicho. Saudemos então o sobrevivente Cuz Santos, que se mantém fiel aos seus hábitos e à sua independência, e prestemos-lhe justa homenagem. Ele diz que os livros foram a única paixão a que foi fiel a vida inteira, e nós acreditamos. 

Excerto da Quinzena

[...] Queres conhecer o teu pai? Qual pai? Eu vivia com um pai há quatro anos, que me levava à escola todas as manhãs e me lia histórias para adormecer, por isso a minha confusão era compreensível. O verdadeiro, o biológico, disse o psicólogo. Encolhi os ombros porque era uma criança muito educada e era-me difícil dizer que não. Era tão cautelosa que, quando o meu avô me levava à loja de doces e me encorajava a escolher o que quisesse, eu escolhia sempre o mínimo: uma goma, uma pastilha, uma coisa tão pequena que nem merecia um saco. O psicólogo emitiu um relatório favorável, que foi entregue a um juiz, o qual decretou e estipulou um regime de visitas em resposta ao pedido do meu verdadeiro pai. Depois de nove anos, estava farto de que ninguém o procurasse.


 


Aixa de la Cruz, Mudar de Ideias, tradução de Pedro Rapoula 

Voltar aonde nunca se esteve

Agora o Facebook está cheio de páginas em que as pessoas deixam escrito o que andam a ler e fotografam as capas junto de um pequeno resumo ou da sua opinião. Também aparecem páginas pessoais de gente (conhecida ou não) que gosta de partilhar com os Amigos as suas leituras do mês e que fala um bocadinho de cada livro, dizendo de que trata e porque gostou ou não. Há ainda páginas de livrarias com recomendações ("As minhas escolhas" na FNAC é um exemplo), em que autores mais ou menos conceituados ou artistas de várias áreas são filmados (de preferência numa livraria do grupo) a falarem de três livros de que gostaram e a explicarem porquê muito resumidamente. Todas estas páginas têm normalmente uma vastidão de seguidores; e na semana passada, não sei porquê (talvez as opiniões de leitores contagiem outros leitores), andava meio mundo a recomendar O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, que continua a ser o melhor livro sobre os portugueses que vieram para Portugal das ex-Colónias em 1975 e que, muitos deles não tendo aonde regressar por estarem em África há várias gerações, ficaram a viver em hotéis, nos quais famílias inteiras dormiam no mesmo quarto. Fiquei contente, até porque os mais jovens precisam de saber desta história e um romance assim bom é a melhor maneira de a aprenderem.

França e Marrocos

Penso que li todos os livros de Leïla Slimani publicados em Portugal. Não me lembro se comecei pela Canção Doce (que foi, creio, o romance que a tornou mais conhecida) ou por O Jardim do Ogre (a história de uma ninfomaníaca que nos sacode o coração), mas decididamente aquilo que mais me interessou na obra desta escritora foi a trilogia que se inicia com O País dos Outros, continua com Vejam-nos Dançar e termina com o recentemente publicado Levarei o Fogo Comigo. Trata-se da história da família da autora, cuja avó francesa se casou com um rapaz marroquino que conheceu na França da Segunda Guerra Mundial, rapaz que, regressado ao seu país natal com a jovem mulher, assume um comportamento completamente diferente do que tinha na Europa (muitíssimo mais conservador e machista). No segundo volume, conheceremos os filhos deste casal e, no terceiro, as duas netas (sobretudo uma delas, que vai estudar para França e que, no fundo, é a própria Leïla Slimani, hoje a residir em Portugal). Este último volume é, para mim, o melhor, talvez porque seja mais fácil reproduzir as nossas próprias memórias do que as alheias; mas é especialmente importante num tempo em que as migrações, o racismo, a expulsão de refugiados e de trabalhadores estrangeiros, a xenofobia, etc., são assuntos que estão na ordem do dia. Leïla Slimani fala de tudo isto numa história fascinante que mostra como algumas pessoas nunca se conseguem sentir inteiramente de um lugar. Vale a pena começar pelo princípio, claro, mas existe nas primeiras páginas do último livro uma lista das personagens dos 3 volumes que ajuda a esclarecer a história da família se alguém quiser começar pelo fim.

Revisitar

Imagem

Embora alguns autores pensem que têm de publicar um livro todos os anos (ou precisem de o fazer por alguma razão, inclusivamente financeira), outros não parece terem grande pressa e só publicam quando acham mesmo que têm um bom livro pronto. É o caso de Afonso Reis Cabral, que acabou recentemente o seu terceiro romance em dez anos, uma obra-prima de que vos falarei em Setembro, que é quando O Último Avô sairá para as livrarias. Mas entretanto podemos revisitar a sua obra de estreia, o belíssimo O Meu Irmão, que venceu o Prémio LeYa em 2014, foi traduzido em várias línguas e reaparece agora de «capa lavada» numa edição comemorativa dos dez anos da sua publicação. Se ainda não leu este romance incrível sobre a relação de dois irmãos, um dos quais com Síndrome de Down, está na hora. Com um tema difícil, é tudo menos sentimentalista ou coitadinho (pelo contrário) e marca o início de uma carreira literária que só podia ser de sucesso, como se viu, aliás, pela atribuição do Prémio Literário José Saramago ao romance seguinte (Pão de Açúcar). Boa leitura ou releitura!


index (1).jpg


 

Crescer

Imagem

Conheci Aixa de la Cruz por uma entrevista que li no El País e gostei tanto do que ela disse que comprei dois livros seus: As Herdeiras, um romance que tem que ver com a história de quatro mulheres que herdam a casa de uma avó que se suicidou já com bastante idade; e um texto mais confessional e completamente desabrido, mesmo especial, chamado Mudar de Ideias, que é um relato viciante que marca a transição da juventude para a maturidade. Prestes a completar trinta anos, Aixa de la Cruz aborda alguns dos momentos mais significativos da sua vida, desde o dia em que uma das suas melhores amigas quase morreu num acidente de viação até ao seu próprio divórcio, passando pela ressaca de escrever uma tese de doutoramento e pelos seus relacionamentos sexuais com homens e mulheres; com um ritmo incrível, é um relato desassombrado que começa na infância sem «pai biológico» e vai até à sua descoberta do feminismo, em que se confronta com casos polémicos de violência contra as mulheres. Mudar de Ideias é percorrido por uma escrita hipnótica que transmite reflexões acutilantes sobre vários temas de importância social num estilo combativo, que posiciona Aixa de la Cruz não só como uma das melhores escritoras da sua geração, mas também – e acima de tudo – como uma pensadora absolutamente brilhante. A obra venceu o Prémio Euskadi de Literatura em Castelhano, o Prémio Librotea Tapado e foi finalista do Prémio Dulce Chacón. A impensa espanhola considerou esta peça literária ao nível do emblemático Teoria King Kong e eu recomendo-a sem qualquer hesitação para um serão e meio (é um livro breve).


index.jpg

O futuro em Portimão

Imagem

Não sei se alguém que lê este blogue pertence à geração que assistiu em tempos a uma série de televisão espanhola para crianças e adolescentes chamada Verão Azul. Eu já era crescidota para ela, mas, assim mesmo, ficava muitas vezes agarrada ao ecrã por ser tão bem feita e tão realista e interessante para a juventude. Nunca me esqueci por isso do seu nome, e é esse mesmo nome que trago hoje, embora numa perspectiva bem diferente. O Verão Azul de que falo aqui é uma série de encontros culturais que acontecem anualmente em Julho na cidade de Portimão e que este ano têm por tema agregador «O futuro é já ali». As actividades ocorrem ao final da tarde aos sábados (5, 12, 12 e 26), para que se possa aproveitar o dia de praia, e têm organização de João Ventura e José Mário Silva. É justamente este jornalista que irá moderar a sessão em que participo amanhã e que versa sobre o bicho-mau da Inteligência Artificial. Mas todos os sábados há novos temas e novos participantes pelo que, se estiver pelo Algarve, vai ser muito bom sair da rotina e assistir, para variar da areia a escaldar e dos banhos de mar geladinhos. O programa aí vai.


CARTAZ_Verao Azul 2025.jpg


 

Presentes da Feira do Livro

Este ano o balanço da Feira do Livro foi bom para a LeYa, pois superou as vendas do ano anterior. E foi bom também especialmente para mim que, trabalhando num segmento que, em termos de vendas, é «minoritário» (a literatura a sério vende muitíssimo menos do que a auto-ajuda, a ficção comercial ou os livros aconselhados por influenciadores e Booktokers), consegui que o título mais vendido do grupo tivesse sido um dos «meus», coisa rara e (quase) nunca vista.Trata-se de Nem sempre as Árvores Morrem de Pé, de Luísa Sobral (parabéns, Luísa!); e sabemos, claro, que o facto de a autora ser uma artista conhecida ajudou, mas o que me agrada mesmo é que, como o livro é de qualidade, pelo menos aqueles que se sentem atraídos só pela «celebridade» lerão um romance muito bom que as formará em muitos sentidos e que está já em 9.ª edição. Também correu muito bem o novo Prémio LeYa, Pés de Barro, de Nuno Duarte (recomendo vivamente que o leiam), e, claro, os romances de Han Kang, a mais recente vencedora do Prémio Nobel da Literatura, sobretudo Despedidas Impossíveis. Como leitora, fui também brindada com livros muito bons, entre os quais um de que aqui falarei em breve aqui no blogue: o último da trilogia de Leïla Slimani, Levarei o Fogo Comigo, cujo ponto de partida para o título é curiosamente uma frase de Cocteau que também inspirou o título Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Junior. Excepto pela caloraça exageradíssima em alguns dias, uma feira que valeu a pena!

Policiais

Um dia destes, depois de uma tarde de calor infernal na Feira do Livro, estava a olhar para a televisão e a ver passagens de uma série que não acompanho a não ser aos bochechos (é o Manel que a vê) quando apanhei um diálogo curioso. Depois de uma tirada inteligente do detective problemático que detesta os seus superiores, a jovem assistente pergunta-lhe com quem aprendeu ele a dizer aquelas coisas; e ele responde imediadatamente: "Nero Wolfe." Para quem não saiba, este Nero Wolfe é uma personagem criada por Rex Stout, um dos mais conhecidos criadores de romances policiais americanos do século XX, alguns dos quais adaptados ao cinema e à televisão. E os policiais são bons sítios para aprender grandes frases com os detectives malandros e carismáticos, pelo que, regressada de férias e ainda sem grandes assuntos para contar em termos de mundo editorial, aqui vos deixo uma selecção de novos policiais feita pelo The Guardian, um dos quais Fox, de Joyce Carol Oates, autora tantas vezes indicada ao Nobel (isto para vos dizer que a literatura policial não é de forma alguma de segunda categoria, como muitos pensam).


https://www.theguardian.com/books/2025/jun/20/the-best-recent-and-thrillers-roundup


 

O que ando a ler

Quando se deu o 25 de Abril, houve muita gente afecta ao antigo regime que apareceu logo a elogiar o novo (e a sacudir a água do capote). Claro que esse «virar a casaca» foi mesmo muito mal visto pela maioria das pessoas, mas o contrário também acabaria por acontecer: alguém que estivera na luta clandestina ao lado do Partido Comunista de repente era do PSD, baptizava os filhos e casava pela Igreja. É estranho, claro, mas o nosso admirável Julian Barnes, que esteve em Lisboa durante a última Feira do Livro, diz-nos que nem sempre mudar de ideias tem de ter uma carga negativa; e eu acrescento que por vezes é até sinónimo de maturidade. Num pequenino livro chamado justamente Mudar de Ideias, composto por um conjunto de cinco breves ensaios ao estilo que o caracteriza em obras mais longas e densas (como Nada a Temer, por exemplo), Barnes reflecte sobre porque mudamos de opinião a respeito de livros que lemos, da política, da linguagem (sim, as palavras que usamos também vão mudando com o tempo), de nós. É um livrinho bom para um serão, cheio de histórias deliciosas, como aquela ideia de Francis Picabia de que as nossas cabeças são redondas para as ideias poderem mudar de direcção. Um mimo.