Bom Natal
Desejo a todos um óptimo Natal. Sentem-se a ler um livrinho por estes dias. É o que irei fazer também eu. Volto em 2016. Boas festas a todos!
Desejo a todos um óptimo Natal. Sentem-se a ler um livrinho por estes dias. É o que irei fazer também eu. Volto em 2016. Boas festas a todos!
Hoje em dia, os jornais em papel tornam-se frequentemente obsoletos; quando, a caminho do emprego, o rádio do carro dispara as notícias da manhã, já muitos dos textos publicados no Público que trago dentro do saco e acabei de comprar no quiosque da esquina estão ultrapassados, sobretudo se dizem respeito a países com grandes diferenças horárias em relação a Portugal. Claro que é sempre possível consultar a versão online e actualizar a informação – e foi, aliás, o que muita gente passou a fazer, razão pela qual cada vez se vendem cada vez menos exemplares dos jornais em papel. Deveria talvez ter-se apostado mais no jornalismo de investigação para o suporte papel – artigos de fundo escritos por pessoas interessantes que toda a gente quisesse ler; mas os tempos actuais têm outra velocidade e, pelo menos durante a semana, não é crível que alguém que trabalhe possa tirar tempo suficiente para dedicar à leitura de um texto desenvolvido sobre certa matéria. O resultado, porém, é triste: depois do anúncio de que o Diário de Notícias vai ter de vender o seu belo edifício na Avenida da Liberdade; depois da notícia de que os jornais Sol e i vão despedir grande parte do seu pessoal, agora vem a notícia de que o Público tem uma política de rescisões amigáveis que prevê cortes sérios no pessoal (repetindo, no fundo, o que já aconteceu há três anos). Um ano que acaba mal para o jornalismo.
Uma das coisas boas que há na edição independente é a capacidade de fazer coisas que num grupo grande passariam provavelmente despercebidas e não teriam da equipa comercial a atenção necessária. Digo isto a propósito de a Tinta-da-China ir publicar a obra completa de Fernando Assis Pacheco, o jornalista e escritor que morreu à porta de uma livraria (coisa que só lhe fica bem – digo-o sem ironia) e que, além de um poeta notável e mal conhecido, escreveu seguramente divertindo-se muito e contrariando assim a ideia de que os escritores são gente, em geral, muito deprimida. Ainda tive a felicidade de conhecer Assis Pacheco ao vivo nos anos em que dava os meus primeiros passos na edição no mesmo bairro onde ele morava, e sei que não havia televisão em sua casa, pelo que os seus filhos liam bastante. Era um homem culto, o oposto, portanto, do cowboy analfabeto que retrata em Bronco, Angel, primeiro volume da obra completa, saído recentemente para os escaparates; um livro que colige os «fascículos» que escreveu semanalmente para o jornal satírico Bisnau nos anos 1980 com o criativo pseudónimo de William Faulkingway. Humorístico, claro, o folhetim inclui em cada capítulo, à laia de post-scriptum, a suposta resposta a cartas de leitores intrigados com a autoria do folhetim, que não cessavam de avançar hipóteses, todas negadas pelo grande Assis. Não é uma obra-prima, nem pretende sê-lo, mas vale a pena ler a história deste cowboy que nasceu de catorze meses e que apanha que se farta. O prefácio é assinado pelo jornalista Carlos Vaz Marques.
Teimo em associar este nome – Egas Moniz – a uma imagem da minha infância presente no livro de História da instrução primária: o aio de D. Afonso Henriques de corda ao pescoço com a família, pondo a sua vida à disposição na cidade de Toledo. Mas não é desse homem que falarei hoje, antes do nosso único Prémio Nobel antes de Saramago – o cientista de quem em 1949 certamente todos os portugueses se orgulharam, incluindo o ditador, e que se tornou uma figura amada pela Nação. Pois, ao que leio, Egas Moniz era um crítico feroz do regime e, pouco antes das eleições de 1953, deu uma entrevista ao jornal A República dizendo que a comédia iria repetir-se, ou seja, que ganhariam os mesmos com ou sem eleições, até porque os sectores oposicionistas não tinham sido autorizados a fiscalizar o processo eleitoral. E contou que uma das suas obras, intitulada Vida Sexual e dividida em dois tomos – Fisiologia e Patologia –, fora mandada apreender das livrarias; porém, com a popularidade trazida pelo Nobel e a pedido do editor, que alegou ficar altamente prejudicado se não pudesse vender o livro, parece que a censura tomou uma atitude bastante inovadora: a obra poderia ser vendida, sim, mas só no caso de o seu comprador apresentar ao livreiro uma receita médica! Quase apetece pôr o baraço ao pescoço depois de uma destas…
Há muitos anos, quando era a editora de José Luís Peixoto, um dos seus livros foi vendido a uma editora brasileira muito especial: a Cosac & Naify; faziam livros requintados, com materiais especiais e bom gosto, além de escolherem bem os títulos – nada de baixa extracção. Os seus donos, ao que parece, tinham dinheiro e talvez por isso não se importassem muito de não o ganhar com as suas edições de qualidade; mas chega um ponto em que perder dinheiro com a actividade também se torna impossível – e, ao contrário de outras editoras independentes que acabaram por ser vendidas a grandes grupos, a Cosac & Naify declarou preferir fechar portas a ter de fazer livros menores que dêem lucro. Disse numa entrevista o senhor Cosac que «uma editora deve existir exclusivamente para alimentar um projecto cultural» e que, quando viu o seu projecto ameaçado, achou que chegara o momento de encerrar, podendo, desse modo, «perpetuar um sonho belíssimo do qual tantos participaram e que ajudaram a construir». Pois é. Como dizia um outro editor a respeito do assunto, «o sonho continua, o que acabou foi a realidade». Uma maneira de desistir sem perder.
O argumento mais frequente a favor do livro digital e contra o livro em papel é, efectivamente, o facto de este último consumir hectares e hectares de floresta (embora as papeleiras plantem florestas com o propósito exclusivo da produção de papel) e litros e litros de água… É um facto que gostaríamos que assim não fosse, mas… Em todo o caso, um editor independente de livros infantis na Argentina chamado Pequeño Editor teve uma ideia de génio: a de publicar para crianças uma obra ilustrada auto-sustentável , uma espécie de livro-árvore. E como? Pois bem, a receita é uma beleza: o livro, que se chama Mi papá estuve en la selva, não só é impresso com tintas ecológicas em papel reciclado, como traz, incorporadas no papel, sementes de jacarandá – uma árvore linda e em vias de extinção que alegra a Feira do Livro de Lisboa todos os anos e me faz espirrar bastante – que podem e devem ser plantadas depois de lido o livro. Quando as crianças terminam a história, a ideia é devolverem à Natureza o que esta lhes deu, contribuindo assim para o equilíbrio ecológico do Planeta e desenvolvendo nos pequenos leitores uma consciência ambiental. Veja o booktrailer no link abaixo.
Uma mãe só pode ter orgulho nos seus rebentos quando eles atingem conquistas importantes e têm fama por bons motivos. O que não terá então sentido Maria Brontë, que conseguiu ter três filhas escritoras entre os seus seis filhos? Bom, na verdade, Maria morreu muito jovem, pelo que não pôde acompanhar o sucesso de obras como Jane Eyre, da filha mais velha, ou o ainda mais retumbante êxito de O Monte dos Vendavais, da segunda. E, porém, uma descoberta recente leva a crer que, apesar de tudo, a sementinha de Charlotte começou a dar frutos muito cedo. A Sociedade Brontë acaba de descobrir dentro de um livro que pertenceu a Mary – The Remains of Henry Kirke White, de Robert Southey – e que foi passando de geração em geração, acumulando anotações, desenhos e marcas de muitos elementos da família, um conto nunca publicado da talentosa rapariguinha, escrito ainda na adolescência (no qual se retrata, de resto, um reverendo mau que seria provavelmente o antagonista do pai Brontë) e ainda um poema inédito. O biógrafo da família diz que só a descoberta do livro já teria sido boa, mas assim o tesouro é muito mais valioso.
É provável que os leitores deste blogue achem que estou a puxar demasiado a corda, já que esta é, creio, a terceira vez que falo do romance O Coro dos Defuntos, o mais recente agraciado com o Prémio LeYa. Mas acontece que na capital há muitos leitores que não quero privar hoje de assistirem ao lançamento público na Livraria LeYa na Buchholz, lançamento que se segue ao primeiro, realizado na Figueira da Foz, onde vive o autor. A apresentação desta feita será levada a cabo por Maria Carlos Loureiro, que fez parte do júri do Prémio Fernando Namora que seleccionou como finalista o romance anterior de António Tavares – As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia – e, além disso, tem a particularidade de ser igualmente uma figueirense. Apareça, pois, mais logo, às 18h30, e certamente não se arrependerá. Se não puder ir, leia este aquiliniano livro sobre Portugal entre 1968 e 1974, que mostra como se vivia numa aldeia do interior quase medieval enquanto o homem pisava a Lua e o Dr. Barnard transplantava um coração humano. Vemo-nos lá. Até logo.
Não costumo distrair-me com as Horas Extraordinárias, mesmo quando escrevo ou planeio com antecedência; mas hoje, quando cheguei à empresa e fui consultar o blog, o post que cá estava não fazia sentido, pois prendia-se como uma sessão a que eu pensava ir, mas afinal tive de faltar... Tirei-o a correr para não enganar ninguém, mas, como estou cheia de trabalho hoje, quero apenas anunciar que a razão por que não estou onde devia estar a falar com os leitores tem que ver com um outro evento que se realizará mais logo, às 18h30, no Auditório 2 da Gulbenkian: Mário Cláudio irá receber (pela segunda vez!) o Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB pelo seu romance Retrato de Rapaz, um texto delicioso sobre a relação de Leonardo Da Vinci e um seu discípulo sem talento mas cheio de graça. Vá lá fazer-nos companhia! O ministro da Cultura entrega o galardão.
Leio um interessantíssimo artigo no The Atlantic sobre a grande tradição que tem a corrida e o jogging no meio dos escritores, passados e presentes. Jonathan Swift, o autor de As Viagens de Gulliver, por exemplo, era capaz de correr meia milha de duas em duas horas; e a autora de Mulherzinhas confessou no seu diário sentir um prazer tão absoluto em correr que achava ter sido veado ou cavalo noutra reencarnação… Correr dá uma possibilidade única de liberdade e fuga com um propósito definido e, além disso, ajuda a pensar. Joyce Carol Oates alternava a corrida com a escrita quando confrontada com problemas de estrutura da narrativa que tinha em mãos, enquanto Don DeLillo dizia que, depois das longas sessões matinais a escrever, correr o ajudava a sair do mundo ficcional para o real. Segundo o artigo, a acumulação de quilómetros reflecte a acumulação de páginas, e ambas as formas de libertação de energia contribuem para uma sensação de alegria e auto-satisfação. Através da corrida, os escritores aprofundam a sua capacidade de se focar numa única tarefa – seja palavra após palavra, seja quilómetro após quilómetro. Murakami, apesar de ter então já três livros publicados, revelou que só teve a certeza de que conseguia chegar à última linha de um livro quando começou a fazer jogging. Muitos outros escritores inquiridos explicam que é sempre enquanto correm que conseguem resolver impasses nas suas obras.
Deram-me há uns anos um livro de arte belíssimo chamado As Mulheres Que Lêem São Perigosas, que reproduz uma imensidão de obras de pintura e escultura de todos os tempos em que mulheres estão a ler, actividade que as torna, pelos vistos, perigosas. Também existe um livro que foi um best-seller na altura em que foi lançado e esteve quarenta e cinco semanas nos top dos EUA – e traduzido em todo o mundo, incluindo Portugal – intitulado Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, que fala de um clube do livro clandestino organizado por uma ex-professora universitária, no qual ela e outras seis mulheres, suas ex-alunas, pressionadas a não meter o nariz nos livros ocidentais, passavam a obra de Nabokov e outras a pente fino para, afinal, descobrirem e combaterem a pouca liberdade que tinham no Irão. É assim com as mulheres, mas não são só elas quem sofre de falta de liberdade no que toca a leituras. Basta ver o que aconteceu recentemente em Angola, onde uma série de jovens foram presos apenas porque estavam a ler um livro e a debater o seu conteúdo, que era considerado perigoso pelo regime… Esse livro – Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp – acaba de sair em Portugal com a chancela da Tinta-da-China, e o autor, sabendo da história, abdicou dos direitos em favor dos detidos. Leia-o, mesmo que se torne perigoso…
Já aqui falei num interessante ciclo de conversas que leva a designação geral de Os Espaços em Volta (uma alusão a Os Passos em Volta, de Herberto) e é coordenado pelas jornalistas e poetas Inês Fonseca Santos e Filipa Leal. Realiza-se uma vez por mês na Casa Fernando Pessoa em torno de um tema específico sobre o qual os convidados – normalmente duas pessoas de áreas distintas – são interpelados pelas organizadoras. Pois hoje calha-me estar na berlinda a falar sobre «arrependimento» na companhia da minha querida amiga e grande fadista Aldina Duarte. O fado está cheio de arrependimento – ainda há pouco tempo escrevi uma letra para o novo álbum de Ana Moura – Ninharia – que conta a história de uma mulher que, por causa de um ciúme doentio, rifou o amado e se mostra agora arrependida da sua precipitação, certa de que ele era, afinal, o homem da sua vida. Não sou lá muito de me arrepender – confesso – mas, claro, acontece-me de vez em quando pensar, pelo menos, que não devia ter dito o que disse (se calhar até aqui no blogue já ocorreu)… Vamos lá a ver como me saio nesta conversa a quatro, mais logo, às 18h30. Se quiser, apareça; se não for, que não se arrependa.
No mesmo dia em que leio no jornal que o café pode fazer muito pela memória (e eu até posso tomar mais de um porque tenho a tensão arterial baixa), descubro que a poesia estimula a actividade cerebral e é muito mais eficaz na resolução de problemas emocionais do que a leitura de livros de auto-ajuda; mesmo quando é difícil – ou sobretudo quando o é. Especialistas da Universidade de Liverpool em neurociência, psicologia e literatura inglesa monitorizaram a actividade cerebral de trinta voluntários, que leram, primeiro, excertos de textos poéticos clássicos (Pessoa, Shakespeare, T.S. Eliot e muitos outros) e, depois, essas mesmas passagens traduzidas para linguagem coloquial; os resultados mostram que a actividade do cérebro dispara quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, não reagindo de forma especial quando o conteúdo se expressa com fórmulas de uso corrente. Ora, ao que parece, esses estímulos mais fortes mantêm-se durante bastante tempo e potenciam, entre outras coisas, a atenção dos indivíduos, facilitando a aprendizagem. Além disso, segundo um dos autores do estudo, a descrição profunda de experiências emocionais constante na poesia afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas recordações, ajudando o indivíduo a reflectir sobre elas e a entendê-las muito melhor do que nos livros de auto-ajuda. E esta, hein? Com café e poesia temos cabeça para dar e vender…
Já fez uma prova cega de vinhos? Não? Então faça. É divertido e gostoso e, além disso, mostra em que estado está o nosso olfacto e o nosso paladar. Mas provar vinho e literatura ao mesmo tempo pode ser melhor ainda. É disso que se trata no festival Tinto no Branco – A Literatura Posta à Prova, que hoje começa em Viseu e se prolonga até domingo. A iniciativa integra-se noutra maior e já na segunda edição – Vinhos de Inverno – que se realiza no Solar do Dão, uma sala-de-estar aberta a todos os viseenses e visitantes que queiram juntar-se-lhes neste fim-de-semana. Como dizem os organizadores, «há grandes nomes para ouvir e muito para aprender sobre os mundos das letras e dos vinhos e as suas ligações – culturais, simbólicas, espirituais e vivenciais.» Entre os convidados para a mesa, estão, por exemplo, Afonso Cruz, Rui Cardoso Martins, Fernando Dacosta, Francisco José Viegas e Paulo Moreiras (um dos meus autores que mais percebe de vinhos e que os sabe combinar muito bem com os condimentos da língua e da literatura). E, entre as mesas-redondas, não faltarão os habituais espaços de prova de vinhos e contacto com os produtores e enólogos da região e, além de «workshops vínicos», animação musical. Bom vinho e bons livros!
Começou ontem um congresso dedicado à Língua Portuguesa como língua de futuro e organizado pela Universidade de Coimbra, que faz 725 anos e os comemora justamente amanhã (parabéns!). É nesse âmbito que será apresentado hoje à tarde, pela professora Clara Almeida Santos, um livro que publiquei em finais de Outubro e de que já aqui falei – Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, Ministro da Cultura de Cabo Verde, de quem já tinha publicado há uns anos O Novíssimo Testamento, em que Jesus era do sexo feminino. O novo romance, que homenageia os contadores de histórias e foi galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga – Câmara Municipal de Coimbra, decorre ao longo de um período de mais de cem anos e tem como protagonista um condenado à morte que, qual Xerazade, se vai salvando do fuzilamento contando a sua história e atraindo multidões. O anfitrião deste lançamento é o belo Convento de S. Francisco e vamos, claro, bater palmas à Universidade de Coimbra. Se puder, venha fazer-nos companhia e apagar uma das 725 velas.
Quando publiquei o primeiro romance de Nuno Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros), era o meu primeiro autor da Figueira da Foz; pensava que não houvesse muitos mais, mas depressa descobri que Afonso Cruz também ali tinha nascido, bem como Maria Manuel Viana (e há mais, mas poupo-vos ao elenco). Com o segundo romance (Debaixo de Algum Céu), Nuno Camarneiro venceu o Prémio LeYa, que foi o primeiro para a Figueira da Foz; mas este ano o galardoado, António Tavares, é o vice-presidente da Câmara da Figueira, fazendo pensar que os figueirenses são especialmente dotados para a literatura e os prémios e que a Figueira está por isso de parabéns. É lá, de resto, que estarei hoje à tarde para ouvir o professor José Carlos Seabra Pereira, membro do júri, dissertar sobre O Coro dos Defuntos, um romance belíssimo que fala do nosso Portugal entre 1968 e 1974 e das milhas a que estávamos do mundo, que então fervilhava de novidade e convulsão – pronto-a-vestir, idas à Lua, guerra no Vietname, transplantes cardíacos, revolução estudantil em França, supermercados… Se estiver nas imediações, venha fazer-nos companhia. E leia o livro, claro.
Nestes tempos obscuros, o religioso é muitas vezes um tema sensível; mas, ao mesmo tempo, falar das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria pode parecer descabido, atrevido ou até fora do tempo, sobretudo se for numa ficção presumivelmente séria. Porém, é mesmo esse, curiosamente, o ponto de partida do último livro de José Luís Peixoto, uma novela intitulada Em Teu Ventre, que se divide pelos meses de Maio a Outubro de 1917, ano das supostas aparições da Virgem a três primos que pastoreavam. Lúcia, a mais velha, é a protagonista, e o autor trabalha sobre as memórias da verdadeira Lúcia (a dos segredos de Fátima) para lhe construir na infância o quotidiano, no qual há irmãs casadas e solteiras que se juntam aos domingos, um irmão que cuida dos animais, um pai bebedolas com tendência para o jogo e, mais importante do que todos, uma mãe ríspida e crente que repudia as visões da menina, menina que – o leitor sabe – ouve na sua cabeça respostas de árvores, flores e lenços com quem conversa. Concentremo-nos, porém, na mãe – Maria de seu nome – pois este é também um livro sobre a maternidade, já que, a par da história da relação de Lúcia com Maria, temos, entre parênteses, uma voz que fala e que é de outra mãe – a do escritor? – para acusar, lembrar, recriminar o filho pela indiferença, a falta de atenção e de reconhecimento. Para temperar estes dois textos, versículos como os da Bíblia, em duas colunas e numerados, que dão voz a um filho que fala com a sua mãe e que, não por acaso, é o próprio Deus. Dito isto, fica certamente quase tudo por dizer, mas é preciso voltar à leitura para o descobrir.