A eternidade ou um dia

Quando perguntam a um escritor porque escreve – e acontece frequentemente em sessões nas quais o público intervém –, as respostas variam, mas não ultrapassam normalmente meia dúzia de hipóteses. Há quem escreva porque quer e quem escreva porque tem de escrever; há quem escreva porque não sabe fazer mais nada e quem ache que nunca se teria tornado escritor se não tivesse uma vida para lá da escrita; há quem escreva para não morrer e até quem escreva para não matar; há quem escreva para dizer alguma coisa ao mundo e quem não saiba o que diz com o que escreve. Pensa-se desde sempre que os escritores, escrevendo, procuram sobretudo a imortalidade. António Lobo Antunes, por exemplo, numa recente entrevista ao Expresso, mostrou-se convicto de que a sua obra lhe sobreviverá e que ainda vai ser lida durante muitos anos (ele falou em séculos, creio eu). Não sei se sermos lidos depois de mortos é consolo maior do que sermos lidos em vida; talvez seja um certificado de qualidade, é certo, mas, em todo o caso, já cá não estaremos para ver os leitores pegarem nos nossos livros. Não será preferível um encontro com um leitor especial num único dia à desconhecida eternidade?

Comentários

  1. É. É preferível. Por isso digo que a carreira literária se perfaz, na sua pureza, antes da publicidade, antes das vaidades e do show off. Esse encontro já o tive. Tudo o que vier a partir daqui será bem-vindo, mas não será nunca primordial.

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  2. É. É preferível. Por isso digo que a carreira literária se perfaz, na sua pureza, antes da publicidade, antes das vaidades e do show off. Esse encontro já o tive. Tudo o que vier a partir daqui será bem-vindo, mas não será nunca primordial.

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  3. Quando iniciei o curso de Letras, no Brasil, fui frequentar as aulas de teoria da literatura. A professora, a grande escritora brasileira Maria Esther Maciel, fez a pergunta: por que escrever? Esperava a pergunta contrária: por que ler? Lembro que eu disse que escrevia porque gostava. Hoje, tenho a maior certeza do mundo que escrevo para não matar nenhum Alemão metido a besta e que aquela pergunta não era, necessariamente , para mim. Acredito, porém, que o maior desejo de todo escritor, e tem muitos mesmo no mundo, é publicar e, depois, ser lido. A eternidade só é pensada por aqueles que já conseguiram superar os primeiros problemas, que é entrar no meio editorial e, depois, ter o seu público. O que mais deprime na vida literária é o tanto de hierarquia que existe nesse ofício.

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  4. Talvez seja mesmo esse encontro que faça um mover a escrita, um escritor. O encontrar alguém que leu realmente o que o escritor queria dizer. Mesmo o que não disse. O leitor que percebeu integralmente essa tradução do mundo que pode ser a escrita.

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  5. TABACARIA
    […]
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta e eu deixarei versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também e os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas
    […]

    Álvaro de Campos

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  6. Oxalá não se dê com ALA o mesmo que com Enoch Soames (no fabuloso conto de Max Beerbohm ) e daqui a cem anos, depois de fazer um pacto com o diabo e viajar ao futuro, acabe a verificar que o seu nome não consta em lado nenhum...

    Cristina Carvalho

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  7. Recordo-me de um dia ouvir o Pedro Rosa Mendes, citando um outro escritor, dizer que escrevemos para que as pessoas gostem de nós. Creio que, neste contexto, o sentir-se querido só faz sentido enquanto estamos vivos.

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  8. Um dia um jovem escritor madnou um texto a André Gide perguntano no fim: "acha que continue a escrever?" Ao que Gide respondeu: "O quê? Você pode passar sem escrever e ainda hesita???"
    É por isso que se escreve.

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  9. por lapso enganei-me no post. Deixo agora no correcto.

    "(...) Não sei se vou ser capaz de escrever um dia o testamento aberto que tenho na cabeça, (...) umas dúzias de parágrafos em que eu consiga explicar vivo aos vivos como gostaria de ser celebrado morto: o serviço volante à americana em que por umas horas me possam fazer o balanço da vida, as minhas músicas, os meus livros, as minhas pessoas, o meu filho e os filhos do meu filho, e todos os filhos destes e por aí adeante, e os que só são filhos e netos dos que me leram ou do que escrevi e não do meu sangue, para que um dia, daqui a cem, duzentos ou mais anos, a passagem de um livro meu empoeirado ainda emocione, não pela qualidade ou transcendência do que fica escrito, mas por ser uma espécie de seiva do que fui, do que me foi passado e passei, ou seja, do que esses meus descendentes literários serão feitos, que é de mim, filhos e netos de homens ou mulheres que me levaram com eles. É por aí que chegamos todos ao infinito, deixando escrito, contando ou fazendo, revolvendo a terra árida de um só dos nossos leitores , recultivando desertos de palavras ou podando árvores que já não encontram os próprios braços. (...)"

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  10. "De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;"
    Para quem sofre a vida, talvez essa miragem seja um bom consolo. Porque não?

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  11. boa questão...

    e o que é isso de eternidade?

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  12. Antes ser lido em vida, falar com os nossos leitores em encontros, sessões e meetings; só assim se sente a recíproca satisfação de ser lido e apreciado e ler e apreciar. A imortalidade pode esperar...

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  13. Eu esperaria que um escritor escreva para conseguir ver e entender aquilo que nao consegue ver nem entender de outra maneira. De um modo analogo aquele como os cientistas utilizam um telescopio, um microscopio ou um acelerador de particulas; e um cineasta utilizaria uma camera.

    Quando finalmente conseguem ver e transmitir algo genuinamente original atingem a eternidade. As obras, nao os homens.

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  14. Vai há muitos anos, alguém se interessou pelas razões que me levavam a escrever poesia. Não me lembro já, com grande exactidão, da resposta dada, mas tenho a vaga ideia de que não terá sido particularmente esclarecedora.
    Uma coisa é certa, porém: desde aí, não mais parei de pensar na questão. Vou agora, volvidas mais de três décadas, tentar responder-lhe.

    A poesia que faço não é racionalmente tangível, ou seja, não é decifrável por meio da lógica limitada da razão. Talvez nem por mim mesmo. Ela corresponde à tentativa de traduzir para linguagem escrita o pulsar dos meus mapas neurais. Daí, creio, só ser alcançável através do acto de sentir. Tal como é produzida.
    Esse caminho iniciou-se há muito. Digo iniciou-se e não iniciei-o, porque ele vem já muito de trás, antes mesmo de eu ter sido concebido... Eu apenas me limitei a entrar num comboio em andamento. A consciência que desse caminho tenho é errante, mas não sei se o seu sentido o seja!

    Nesse percurso, umas vezes por escolha consciente, outras por um qualquer automatismo estrutural, fui parceiro fiel do acaso em quase tudo, tirando dele o que ele foi tendo para me dar. Em linguagem simbólica, e tomando por referência alguns dos meus poemas, bem posso dizer que, por estradas e vielas, planícies e abismos, devo ter sido um dos seus mais persistentes seguidores; por rumos inesperados, sonhei horizontes inatingíveis, construídos na ilusão de cada passo; lutei até à fadiga, cheguei quase a tocá-los, mas nunca os tive na mão. Eram, acabei por descobri-lo, um sonho cheio de brilho, onde a vontade foi soberana apenas para despertar. No entanto, por muito tempo insisti, dividido entre o palpável de abrir sentidos e os horizontes vãos onde a ambição se constrói e se desfaz.

    Até que, mais adiante, os olhei de longe, o único modo possível de olhar os horizontes, e tive de guardá-los na estante poeirenta das ilusões, como se o erro de quase tudo o que me ensinaram ficasse subitamente descarnado até ao osso. Ali estava o Universo, a única realidade plausível: imponente, coercivo, inesgotável, com sentido.

    Entretanto, em cada passo vencido, fui percebendo que, de tudo isso, de todas as emoções, restavam memórias e sonhos; memórias que se assemelhavam a sonhos e sonhos que pareciam memórias. E um irresistível impulso de fazer algo com essa matéria-prima.
    Os sentidos sei o que os inflamou e por que suaves e dardejantes universos viajaram. Mas não me lembro já quem, de entre vós, me beijou a alma pela primeira vez e me instigou à indagação dos seus silêncios mais profundos, nos quais habitam, certamente, todos os inexprimíveis recolhidos, prontos para a palavra certa e pontual que os conduza à superfície, claros e imperecíveis. Perdoe-me esse poeta, sábio mestre ou olvidado nume a fraca memória, certo de que não desprezei o caminho então soprado. Muito cedo, desde que o primeiro golpe de insídia ou desmando nos atinge, ou o primeiro voo de ave nos transporta céu adentro, libertando, me encontrei sondando a alma, em busca do verbo que com máxima precisão a esculpisse... Exactamente ali, onde perdi o límpido e infinito espaço azul; ali, onde, mesmo sem asas, possível horizonte ou caminho, nos é permitido ser ave, sonho e viagem: a poesia. Ali, tal como sugere um dos meus primeiros poemas, onde, à luz do dia para que todos a vissem, me esmaeceu a inocência: O azul perdi-o criança, trazia-o nas mãos, ao sol, e desbotou.
    Mas só esqueci, não mais... Que algumas lembranças o tempo e o caminho converteram em cãs.
    Ainda assim, lembro-me da primeira porta aberta, ainda mal chegava ao batente, com a abóbada celeste a encandear-me de sonhos, e o movimento das pessoas na rua e o cheiro da mata defronte a chamarem por mim. Ainda lá tenho presa a recordação da aldraba, doirada de purpurina, que os meus bicos de pés me permitiam accionar sobre a porta. A casa pode já lá nem estar, mas permanece edificada em mim; ora recordação de sonhos por erigir, ora fímbria de vento a brincar nos meus cabelos e a povoar-me a cabeça de sonhos ainda sem memória.

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