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A mostrar mensagens de maio, 2021

Belas histórias

Li a correr algures (num jornal inglês, acho), mas depois, como já não sabia onde, não voltei a encontrar o texto, pelo que já não consigo dizer se foi exactamente assim que as coisas se passaram; mas, tendo-se passado algo de muito parecido com isto, não tem no caso grande importância se o rigor não for o maior. A história é bela: numa livraria, está um senhor leitor que ouve um rapazinho a discutir acaloradamente com a mãe sobre livros, e sobre os livros todos que queria levar. Os livros são caros, já se sabe (embora as pessoas paguem o preço de três livros por um bilhete para um concerto e nunca piem sobre isto, apesar de o concerto só demorar hora e meia, enquanto o livro está na estante para a vida e pode ser emprestado a dezenas de leitores); e o miúdo tem um orçamento, ou seja, só pode escolher só um título, mas, ainda que o saiba, está a apresentar argumentos para convencer a mãe a comprar-lhe dois e está a surpreender o leitor adulto que o ouve à socapa porque não é lá muito comum um menino tão novo perceber tanto do que tem dentro um livro e querer tão desesperadamente levar livros para casa sem ser por imposição da mãe. Resultado: o leitor mais velho comove-se com isto, vai à caixa e compra um cheque-livro, pedindo duas coisas ao livreiro: que o ofereça ao grande futuro leitor e que, sobretudo, não diga que foi ele que lhe deixou aquele presente. Sai da livraria e não chega a ver, claro, o contentamento incrível do miúdo, nem a cara de surpresa da mãe. Só dá presentes anónimos destes quem dá mesmo importância ao futuro da leitura. Abençoado grande leitor.

Excerto da Quinzena

Aos sábados, o jantar era sempre o mesmo em Pencey. Era considerado uma coisa do caraças, por ser bife. Apostava mil palhaços em como só o faziam porque havia uma data de pais de alunos que aos domingos iam visitar os filhos, e o velho Thurmer às tantas achava que as mães todas iam perguntar aos seus queridinhos o que tinham comido ao jantar e eles respondiam: «Bife.» Não me lixem. Haviam de ver os bifes. Umas coisas ínfimas e duríssimas que mal se podiam cortar. Davam-nos sempre aquele puré cheio de grumos na noite do bife e à sobremesa um Brown Betty, que ninguém comia, a não ser talvez os miuditos dos primeiros anos- que não percebiam nada de nada - e tipos como o Ackley, que comiam tudo e mais alguma coisa.


Mas quando saímos do refeitório estava bonito. Havia uns dez centímetros de neve no chão e ainda continuava a cair que era uma loucura. Era bonito como o raio, e começámos todos a atirar bolas de neve e a fazer macacadas por ali à toa. Era uma coisa de putos, mas era um gozo bestial para toda a gente.


Eu não ia sair com ninguém nem coisa que se parecesse, por isso, eu e um amigo que pertencia à equipa de luta livre, o Mal Brossard, decidimos apanhar o autocarro e ir até Agherstown comer um hamburguer e talvez ir ver um filme merdoso [...]


 


J. D. Salinger, À espera no Centeio, tradução de José Lima

Leipzig extraordinária

A partir de hoje, Portugal, que será o país convidado da Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha, em 2022 (deveria ter sido este ano, mas a pandemia não deixou), vai apresentar-se num pequeno festival extraordinário através de vários eventos online até ao dia 30, nomeadamente conversas com autores, algumas delas em inglês, outras em português com tradução simultânea. Estarão presentes, entre outros, a historiadora Irene Pimentel, especialista no tema do Holocausto, os escritores africanos de língua portuguesa Germano Almeida, Ondjaki e Mia Couto, o autor do extremamente bem-sucedido Almoço de Domingo, José Luís Peixoto, e também Patrícia Portela, Isabela Figueiredo e Afonso Reis Cabral, que acaba de publicar na excelente editora Hanser a tradução do seu livro que venceu o prémio Literário José Saramago Pão de Açúcar. Participará ainda a poetisa Ana Luísa Amaral e António Lobo Antunes, um dos escritores mais apreciados na Alemanha. Se está interessado em saber mais e assistir a alguma das sessões, subscreva o canal Youtube do Camões Berlim em Camões Berlim - YouTube.

Revisor privado

Estive recentemente no programa Encontros Imediatos, de João Gobern e Margarida Pinto Correia (para ser mais precisa, no sábado passado), a falar basicamente de mim e do meu trabalho; e, entre outras coisas, referi que com quem mais aprendi até chegar a editora foi com as pessoas que na altura era suposto chefiar, uma vez que o editor estava ausente e me cabia essa função interinamente: os revisores, os paginadores, as pessoas ligadas à produção dos livros. Penso que é fundamental passarmos por todos esses departamentos para percebermos realmente como se faz um livro, e ainda hoje estou grata por ter aprendido tanto. Outra coisa que mencionei é que, como autora, nunca dispensei um editor e um revisor (sobretudo antes de os computadores detectarem erros e gralhas); nem sempre foi o editor que me publicou os livros, porque antes dele já eu tinha consultado leitores «profissionais», nomeadamente o meu «mentor» (José Afonso Furtado) e dado os textos a rever a alguém de confiança. No blogue, para o qual escrevo sempre a correr, não me preocupo exageradamente, confesso, mas é só porque todas as manhãs sei que o meu querido Paulo Moreiras (autor de romances pícaros formidáveis) está a ler-me para os lados de Leiria e a detectar as gralhas e erros que deixei passar. Quando ligo o computador e vejo os e-mails, tenho quase sempre uma mensagem dele a avisar-me dessas distracções. É um luxo. Hoje presto-lhe homenagem, Paulo. Muito obrigada. É tão bom trocar de lugar com os autores de vez em quando.

Moral e dinheiro

Escrevi há tempos aqui no blogue um post sobre o facto de a editora norte-americana da biografia de Philip Roth ter suspendido as vendas e retirado os exemplares do mercado por causa de o seu autor, Blake Bailey, ter sido acusado de ter assediado sexualmente raparigas que tinham sido suas alunas cerca de trinta anos antes. Não foi o único livro a sofrer o mesmo destino (vejam o que aconteceu com o livro de Woody Allen quando a editora desistiu da publicação depois de ter assinado um contrato e até pago um adiantamento chorudo pelo livro). Já aqui comentámos a diferença entre a obra e o autor, defendendo que não podemos confundir as duas coisas e que os leitores não deveriam ser privados da biografia de Roth (os portugueses não o serão) por factos que dizem respeito à vida do seu autor. Mas, segundo um artigo do Público não assinado, concluo que a razão para a retenção dos exemplares nos armazéns da editora não foi, afinal, como aqui pensámos, moral, nem um gesto de solidariedade para com as supostas vítimas de Blake Bailey. A questão é, segundo uma especialista, puramente financeira: a editora não quer ter de pagar balúrdios por veicular uma obra que, de certa forma, possa ofender a moral puritana da América (sim, os ofendidos podem processar a editora por publicar um livro que relate os comportamentos «imorais» de Roth com base no argumento de que estes podem constituir maus exemplos para os mais jovens e levar à repetição de comportamentos). Ao que parece, os autores norte-americanos são hoje obrigados a assinar cláusulas de moralidade muito abrangentes nos contratos com as editoras que, segundo o PEN e outras organizações do mesmo tipo, lhes limitam enormemente a liberdade de expressão e implicam até a devolução dos adiantamentos se o escritor for acusado de algum comportamento indigno nas redes sociais, mesmo que por uma única pessoa, pois isso basta para o livro deixar de se vender e causar um enorme prejuízo à editora. Mesmo nos países moralistas, é sempre o dinheiro a mandar.

Segredos de família

Quando há trinta anos escrevi um romance, estava a fazer o luto da minha avó e foi a forma que encontrei na altura de sarar a ferida. Sei que muito do que lá está aconteceu com a minha família e comigo e não pensei um instante que isso seria um problema (e não foi). A minha jovem autora holandesa Marieke Lucas Rijneveld, cujo O Desassossego da Noite publiquei recentemente, disse, porém, numa entrevista ao The Guardian que a família não tinha querido ler o seu romance e que ela entendia porquê. (O livro começa com a morte do irmão da narradora, e a verdade é que Marieke perdeu um irmão num acidente, pelo que a história pode ter ressonâncias familiares). O norueguês Knausgard, ao falar da mulher e de toda a família em A Minha Luta, perdeu o casamento e a amizade de muitos parentes próximos. Já o escritor Eduardo Halfon, que há muito recupera nos seus romances histórias de família, especialmente aquelas de que ninguém falava em casa, contou uma história bonita a este respeito. Quando acabou Luto, que trata da morte misteriosa de um tio seu quando era criança, recebeu a visita do pai. Este, ao saber que Eduardo dedicara um livro a um assunto «probido», ficou tremendamente desapontado e disse que ninguém devia tornar público o que era privado. Mas o filho convenceu-o de que não era de modo nenhum um devassa da cena familiar, deu ao pai a possibilidade de ler o rascunho e dizer o que não gostava e ele leu-o e adorou. (Com outros romances sobre outras histórias que a família mantinha em segredo, a coisa já não correu tão bem, e há tios que até hoje não lhe falam.) Há famílias que dariam tudo para aparecerem imortalizadas num romance, mas também há sempre quem se zangue e não queira ser personagem de livro...

Erros de ortografia

Comentava há uns tempos com uma escritora portuguesa a quantidade de erros ortográficos que se vêem escarrapachados em todo o lado: no Facebook, nos blogues, nos rodapés dos noticiários da televisão, nos livros daquela editora a quem os autores pagam, até em alguns jornais (há uns anos, um artigo de um jornalista acima de qualquer suspeita tinha como destaque uma frase em que aparecia a palavra «enchame», que ferroada!). No melhor pano cai a nódoa, e é possível que eu própria, apesar de mil cuidados, já tenha cometido algum erro deste tipo. Devemos corrigir as pessoas que conhecemos (sempre em privado, claro!) e tentar que não repitam os erros. Mas que fazer se a própria universidade (em Inglaterra, pelo menos) está a aceitar, perdoar e desvalorizar os erros de ortografia dos estudantes numa tentativa de compensar os alunos que não puderam gozar de uma educação de excelência e frequentaram escolas sem condições? Percebo que tem mais hipóteses de não dar erros quem foi bem ensinado; mas não deveriam ser dadas condições a todas as escolas para ensinarem bem a língua em vez de borrifar para isso e depois desculpar com base no infortúnio? Ainda que as intenções sejam boas, um professor de Inglês que dá erros de ortografia devia ser professor, mesmo de uma escola com alunos difíceis? Um aluno que dá imensos erros na sua própria língua desde pequeno deveria passar de ano? Devemos deixar arrastar estas situações de desconhecimento da língua até à universidade e depois retirar-lhe importância e dizer que não podemos prejudicar mais os que já foram prejudicados pelo ensino anterior? Enfim, parece que tudo redunda sempre no mesmo: a educação. E tem de haver coragem para nivelar por cima, escrutinar e gastar dinheiro a sério com ela. Mais nela do que nos bancos.

O que não muda

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Sabemos pelas notícias de há uma semana para cá que existe uma coisa que não muda: a intolerância religiosa. O conflito israelo-palestiniano, que esteve meio adormecido por uns tempos, está agora ao rubro. Judeus e muçulmanos não se entendem e, no passado, foram os cristãos que expulsaram e perseguiram os judeus. É disso que fala o livro que hoje vos trago, Um Coração Convertido, de Stefan Hertmans (o autor flamengo do maravilhoso Guerra e Terebintina), a história de uma rapariga cristã de famílias nobres que, no século XI, se apaixona (e é correspondida) por um jovem judeu de uma escola rabínica. É por ele, de resto, que foge, muda de nome para Hamoutal e se converte ao judaísmo, embora nunca aprenda exactamente os ritos e orações da nova religião. Mas acaba por casar-se com o seu amado judeu, ter filhos e andar de terra em terra com cartas de recomendação de rabinos para rabinos, pois o pai cristão nunca deixa de oferecer uma recompensa a quem lhe traga a filha de volta num tempo em que os cruzados atravessam a França rumo ao Norte de África. Hamoutal perderá, de resto, o marido num massacre de judeus (e é este o mote que leva Hertmans a escrever esta história)  e também o rasto dos três filhos, que nunca desistirá de procurar, viajando completamente sozinha até ao Egipto, uma proeza quase impossível para uma mulher do seu tempo. A par desta aventura louca, conta-se também a busca do autor pelos documentos que provam como tudo aconteceu.


 


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Prémio Europeu

Existe um Prémio da União Europeia para a Literatura (EUPL) que, no passado, já foi ganho em Portugal por Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz e David Machado, entre outros. Não contempla todos os anos os mesmos países (alguns dos quais não pertencem sequer à União Europeia, como a Albânia ou a Arménia), mas 2021 era ano de premiar de novo um escritor de Portugal. Cada país concorrente tem o seu próprio júri, que também muda de vez para vez; escolhe entre os candidatos, geralmente poucos, que têm de obedecer a regras apertadas, como, por exemplo, ter entre dois e quatro livros (nem mais, nem menos) e estar pouco traduzidos no espaço europeu. No ano em que ganhou David Machado (2015, creio), o júri nacional comunicava a sua decisão à Europa e a Europa comunicava-a ao vencedor, chamava-o a Bruxelas, gravava um vídeo com ele a apresentar o livro, traduzia excertos do seu romance para o promover noutros países, enfim, um trabalho que era bastante produtivo e que acabou por conseguir uma dúzia de traduções do romance. Mas depois do diabo da pandemia as coisas já não se passaram assim: introduziram finalistas (quatro), quiçá para criar suspense e notícias, e organizaram o anúncio... pelo Facebook, que é onde hoje as pessoas mais tempo estão. Entre os quatro finalistas portugueses, estavam dois romances que publiquei no ano passado, um romance de uma autora de quem já fui editora e um romance de um escritor que tem o meu apelido, mas não me é nada: Frederico Pedreira. Foi ele o vencedor com o romance A Lição do Sonâmbulo, publicado pela Companhia das Ilhas. Conheço-o sobretudo como poeta. Parabéns.

Soeiro Pereira Gomes

Nos tempos em que fui professora de Português, encontrava-se entre as leituras obrigatórias para os alunos, creio, do 9.º ano a obra Os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. O romance marcaria várias gerações de leitores (até porque os seus heróis eram também miúdos, os «filhos dos homens que nunca foram meninos») e a primeira edição, com capa de Álvaro Cunhal,  acaba de comemorar oitenta anos. A Quetzal teve, pois, a belíssima ideia de republicar agora este romance neo-realista numa edição muito bonita, para nos trazer de volta (ou apresentar) as personagens Gaitinhas, Guedelhas, Maquineta ou Gineto e mostrar a solidariedade e a coragem por eles vivida nesses anos escuros e tão tremendamente pobres que antecederam o 25 de Abril. A efeméride foi também assinalada pela publicação de uma biografia do escritor, da autoria de Giovanni Ricciardi (Soeiro Pereira Gomes: Uma Biografia Literária) recentemente dada à estampa pela editora Página a Página e apresentada no Museu do Neo-Realismo, em cuja sessão esteve presente o filho de Alves Redol, outro dos expoentes da literatura neo-realista portuguesa. Às vezes, é bom que estes livros retirados das listas de leituras curriculares sejam devolvidos aos leitores para que os mais novos os possam ler e não ignorem aquilo por que passaram os seus avós nem esqueçam que a liberdade de que hoje gozam era então praticamente inexistente.

Uma senhora escritora

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Chama-se Marieke Lucas Rijneveld e é, na verdade, ainda uma menina, aliás, tem cara disso. Embora tenha passado a maior parte da sua vida a trabalhar numa vacaria, isso não a impediu de criar e foi aplaudida e premiada na sua estreia poética. Depois, arriscou o compromisso mais demorado da ficção e, mais uma vez, saiu-se muitíssimo bem, pois a tradução inglesa do seu romance O Desassossego da Noite arrebatou no ano passado o Man Booker International Prize, levando a que fosse traduzida em todo o lado. A tradução portuguesa sai amanhã e preparem-se para a história do desmoronar de uma família, contada sem paninhos quentes por Cas, uma menina de 12 anos. Quando Cas rogou uma praga ao irmão por não a querer levar com ele a patinar, nunca pensou que funcionasse. E agora sente-se profundamente culpada: o gelo estava demasiado quebradiço e levou Matthies para sempre. E, além da culpa insuportável que, como o seu casaco apertado até ao queixo, não mais a deixará, Cas verá a dor abater-se de forma implacável sobre os pais, um casal profundamente conservador e devoto que quer acreditar que Deus chamou Matthies para junto dele, mas que não consegue, mesmo assim, deixar de ficar paralisado pelo desgosto, sem se aperceber de que os outros filhos – Cas, Hanna e Obbe – se vão afastando lentamente para encontrar, no abandono a que foram votados, estratégias que lhes permitam lidar com a tragédia, mesmo que isso implique muitas vezes violência e desassossego. Inspirado num episódio autobiográfico, O Desassossego da Noite, descrito como a «evocação terna e visceral de uma infância presa entre a vergonha e a salvação» pelo presidente do júri do Man Booker Prize,  revela um talento invulgar em alguém tão jovem. Uma menina que é uma senhora a escrever.


O DESASSOSSEGO DA NOITE by Marieke Lucas Rijneveld


 

Excerto da Quinzena

Tive saudades deste livro que li no fim do século passado; e esta cena, particularmente, foi-me evocada pela leitura do livro de Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite, vencedor do Man Booker International Prize, que sai daqui por quatro dias. Uns católicos, outros protestantes, a mesma tristeza em ambos.


Falta pouco para o padre nos vir fazer o exame de Catecismo. O professor tem de nos ensinar como é que se recebe a Sagrada Comunhão. Manda-nos juntar à volta dele. Enche o chapéu de bocadinhos de papel de jornal. Entrega o chapéu ao Paddy, ajoelha-se, diz-lhe para tirar um bocadinho de papel e lho pôr na língua. Mostra como se deve fazer: pôr a língua de fora, receber o bocadinho de papel, esperar um momento, meter a língua para dentro, pôr as mãos, levantar os olhos para o céu, fechar os olhos em adoração, esperar que o papel se derreta na boca, engoli-lo e agradecer a Deus aquela dádiva de receber a paz da Graça Santíssima. No momento em que ele põe a língua de fora, temos de fazer um esforço para não nos rirmos, porque nunca nenhum de nós viu uma língua tão grande e tão vermelha. Ele abre muito os olhos para ver quem é que está na risota, mas não pode dizer nada porque ainda tem Deus na língua e é um momento sagrado. Levanta-se e manda-nos ajoelhar à volta da sala para treinarmos a Sagrada Comunhão. Dá a volta à sala, a pôr-nos bocadinhos de papel na língua e a dizer umas coisas em latim. Alguns dos rapazes riem-se, e ele grita-lhes que, se não pararem com a risota, não é a Sagrada Comunhão que vão receber, mas os Últimos Sacramentos...


 


Frank McCourt, As Cinzas de Angela, tradução de Maria do Carmo Figueira

Todo um mundo novo para aprender

Durante o primeiro confinamento, recebi o convite de uma escritora romena que vive no Reino Unido para colaborar num poema colectivo no qual terão participado, creio, mais de cem poetas do mundo inteiro, sobre o isolamento em pandemia. Aqui em Portugal, lembro-me de terem contribuído Ana Luísa Amaral e Nuno Júdice, por exemplo, mas havia poetas de todos os continentes, uns mais conhecidos do que outros. Quando chegava a nossa vez, tínhamos de ler o que até ali os nossos confrades tinham escrito e tentar que os nossos versos tivessem uma sequência lógica. Era também obrigatório escrever em inglês (uma espécie de língua que serve para todos) e, mais tarde, mandar um pequeno vídeo lendo os versos ao pé da janela da casa onde estivéramos em recolhimento obrigatório para, depois de montado, o poema surgir completo nas vozes de todos os autores. Era um poema no formato «Renga» japonês e a mentora chamou-lhe Poem of Self-Isolation. Depois de publicado numa revista romena, este poema longo vai agora ser traduzido e publicado numa revista literária no Japão. Avisaram-me ontem, pedindo autorização para a reprodução dos meus versos e uma curtíssima biografia. Até aí, tudo normal. Porém, logo a seguir perguntavam se tinha interesse em ser tratada por outro pronome que não o derivado da «cisgeneridade». Confesso a minha ignorância, tive de ir ver de que se tratava, e aprendi que a palavra se aplica quando a identidade corresponde ao sexo com que se nasceu (no meu caso, o pronome seria «ela», mas há quem se refira a si mesmo como «eles» ou de outras formas). De caminho, li uma data de coisas sobre cisgeneridade, trans, homenidade, não-binaridade, etc., e senti que estou a ficar um bocado velha para este mundo novo. Interroguei-me sobre se doravante tenho de inquirir os meus autores sobre se querem ser referidos nas badanas dos seus livros com pronomes diferentes dos «ele» e «ela» que lá estão, junto das suas fotografias que podem, pelos vistos, induzir em erro.

Às cegas

Quando eu era miúda, os adolescentes apaixonados faziam de tudo para jogar ao «Pirilampo» (outros chamavam-lhe «Quarto Escuro»), uma brincadeira às escuras em que era suposto agarrar e identificar alguém e, de caminho, se calhasse ser um par de namorados, dar um beijinho sem os pais verem. Os pais, claro, odiavam a brincadeira e tentavam evitá-la a todo o custo nas festas de anos e outras reuniões que reunissem um número considerável de jovens nas suas casas. Hoje, porém, há uns blind dates menos do que platónicos, que acontecem, vejam lá, com livros (que é, de resto, o assunto que me traz sempre a este blogue). Pois bem: o Teatro Viriato quer fomentar a leitura e, para isso, com o apoio de livrarias, convidou artistas (Pedro Sousa Loureiro, Tiago Lima, Tânia Carvalho, Patrícia Portela ou Dr. Changuito) para aconselharem livros de que gostam e redigirem no site do teatro uma espécie de enigma que levará à descoberta da obra literária escolhida ou, pelo menos, a uma grande curiosidade sobre qual será. Num tempo em que a leitura está a ficar para trás, saúdo esta iniciativa de Susana Cardoso e espero sinceramente que, atrás da graça do jogo, alguns mais jovens se entusiasmem por determinado tema ou estilo e vão à procura do livro em causa. O Blind Book Date ocorre até ao fim do mês, e os pais podem ficar sossegados...

História e ficção

No último fim-de-semana assisti (embora não presencialmente) a um excelente painel do festival cultural alfacinha 5L, conduzido pela excelente jornalista (e também escritora) Isabel Lucas e com a presença dos autores Lídia Jorge, Isabel Rio Novo e Itamar Vieira Júnior. O assunto era, no fundo, a relação entre a história e a ficção, sendo que todos os intervenientes no debate têm livros publicados que tocam de perto factos ou episódios históricos, desde a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a escravatura, a reforma agrária, a vaga de tuberculose no início do século passado, o surgimento do impressionismo ou a biografia do pintor e mecenas Gustave Caillebotte. Sob o nome Tecido da História, poderíamos esperar nessa sessão escritores realmente vocacionados para o romance histórico enquanto retrato de época ou registo de acontecimento épico. Curiosamente, foram autores que não estão minimamente associados a este género literário os convidados a debruçar-se sobre a questão. E que delícia ouvi-los, cada um à sua maneira! Pois ficou claro que, ao contrário da História, que celebra o colectivo e o universal, a Ficção vai à procura do indivíduo, do pessoal, do herói tantas vezes anónimo, para tratar as sujectividades de todos aqueles que nos manuais de História desaparecem sob o manto das mais «objectivas» multidões. Foi tão boa aquela hora de sábado no Museu da Farmácia vista e ouvida aqui de casa... Sabe mesmo bem escutar quem tem realmente coisas para dizer. Obrigada aos quatro. (Para quem queira conhecer alguns dos livros referidos: A Costa dos Murmúrios e os Memoráveis (Lídia Jorge); Rua de Paris em Dia de Chuva e A Febre das Almas Sensíveis (Isabel Rio Novo); Torto Arado (Itamar Vieira Junior).

Livros a Oeste

Amanhã começa mais uma edição de Livros a Oeste, o festival literário que ocorre anualmente na Lourinhã e que tem como curador o jornalista e animador cultural João Morales, homem de sete ofícios que também faz rádio e podcasts e escreve nos jornais. A iniciativa, que já tem uns aninhos e se prolonga este ano até ao dia 15, traduz-se por manifestações culturais e artísticas de diversas áreas, mas, como não podia deixar de ser, privilegia o livro e a leitura e tem uma importante componente escolar em todo o concelho. Muitas dessas sessões pensadas para o público juvenil terão, de resto, lugar nas escolas, aonde os escritores já vão há algum tempo, reservando-se então as apresentações e mesas-redondas vocacionadas para o público adulto à versão digital (que remédio), como vem sendo hábito desde que o vírus se imiscuiu na nossa vida  e mudou os hábitos e rotinas de todos nós. O programa completo pode ser consultado aqui:


https://portaldomunicipe.cm-lourinha.pt/menu/1270/programahttps://www.facebook.com/events/189577986109945/?acontext=%7B%22source%22%3A%2229%22%2C%22ref_notif_type%22%3A%22plan_user_invited%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D&notif_id=1617809662173723&notif_t=plan_user_invited&ref=notif

Milfolhas de volta

Toda a gente gulosa sabe, creio eu, o que é um milfolhas; e em Portugal, por acaso, os milfolhas são geralmente achatados e massudos, enquanto em França são leves, estaladiços e com um leve toque de álcool que lhes cai lindamente. Muita gente se há-de lembrar que o jornal Público teve um suplemento literário chamado «Milfolhas» que durou muitos anos, teve vários directores e ficou  associado a uma colecção de ficção que levava o mesmo nome (Milfolhas) e, se não me engano, teve cem títulos. Estes incluíam o melhor que se escreveu no século XX, de Virginia Woolf a Cesare Pavese, de Gore Vidal a Vargas Llosa, e compuseram as estantes de muitos jovens leitores desse tempo, pois os mais velhos já tinham em casa muitos dos clássicos modernos dessa longa lista. Mas a Milfolhas voltou agora de cara lavada para mostrar mais doze títulos do novo século, desde Os Interessantes, de Meg Wolizer, a Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, desde Némesis, de Roth, a O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho, desde A Gorda, de Isabela Figueiredo (este já está à venda) até Correcções, de Jonathan Franzen. Os lançamentos são mensais e o preço pouco passa dos 10 euros. Tudo junto, são mais de mil folhas por uma bagatela. Não perca!

Novas Cartas Portuguesas

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Este é um daqueles títulos que vêm sempre à tona quando se pensa em livros censurados durante a ditadura, em feminismo, em liberdade e em mulheres de coragem. E a verdade é que as Novas Cartas Portuguesas já têm... 50 anos! O livro foi escrito por três mulheres notáveis (Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta), as duas primeiras infelizmente já desaparecidas (mas presentes nos muitos livros que escreveram), e tem uma edição nas Publicações Dom Quixote com a organização e o comentário avisado da poetisa e professora universitária (e também feminista) Ana Luísa Amaral. Ora, é justamente sobre este livro-marco que hoje se inaugura uma exposição no Museu do Aljube Resistência e Liberdade (no edifício que foi ourora uma prisão política). Chama-se Mulheres e Resistência, Novas Cartas Portuguesas e Outras Lutas e pretende homenagear as mulheres que, ao longo de 48 anos, foram determinantes na luta antifascista e na conquista da liberdade. A exposição ficará aberta até ao final do ano. Entre outras coisas certamente mais interessantes que tem para ver, está um poema meu. Foi um desafio que gostei muito de aceitar.


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Extraordinário

Ora bem, isto é que foi aproveitar a data para não ter de pensar muito no que dizer... Então não é que o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que hoje se comemora, é também o dia do aniversário (já o décimo primeiro, calculem!) deste blogue? Não tinha feito a associação, mas é uma bonita coincidência terem escolhido para celebrar a nossa língua (sem o saber, bem entendido) a mesma data em que eu comecei timidamente estas Horas Extraordinárias, não sonhando que ainda as estaria a alimentar quase diariamente tantos anos volvidos. Já houve momentos em que me senti cansada, momentos em que o teor de certos comentários me levou a pensar se não seria melhor acabar com o blogue ou as vozes à volta dele, alturas em que (sobretudo em pandemia, pois nada se passava) me desunhei para encontrar assunto para cinco dias úteis de textos, mas, enfim, resisti a tudo isso e hoje olho para esta primeira capicua sabendo que estes pequenos textos sobre livros e edição também me ajudaram a reflectir, a manter-me informada, a treinar a mão para a crónica, a desenvolver o meu poder de síntese, a aprender a ouvir os outros e a organizar o tempo. Aos que estão desse lado, sobretudo os que acompanham o blogue desde o começo, obrigada pela companhia. Venham mais onze anos, se a cabeça e o corpo deixarem! Seria extraordinário.

Lisboa literária

Amanhã comemora-se o Dia da Língua Portuguesa e, simultaneamente, inaugura-se um festival literário na capital que, tendo tido a sua primeira edição no ano passado, foi muito afectado pela pandemia e, por isso, pouco se deu por ele. Chama-se 5L este festival alfacinha (e os cinco L correspondem, tanto quanto me parece, às palavras Língua, Livros, Literatura, Leitura, Livrarias) e tem uma extensa programação entre amanhã e domingo, que inclui debates, entrevistas, leituras, cinema, exposições, itinerários e muito mais, com especial destaque para encontros dos escritores com os seus leitores (ainda virtuais, porque o vírus a isso obriga, mas no futuro espera-se que possam ser ao vivo) mediados pela jornalista Raquel Marinho (José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Afonso Cruz e Matilde Campilho são os escolhidos). A sessão inaugural acontece no Teatro São Luiz com a entrega do Prémio Literário da UCCLA e o fecho no Capitólio com um concerto de Sérgio Godinho e a participação do grande pianista Filipe Raposo. Poderá acompanhar tudo pelo link que lhe deixo abaixo e até descarregar o programa para se orientar. De Lisboa para o mundo!


Agenda – Lisboa 5L


 

O que ando a ler

Nem sei explicar bem porque adiei tanto tempo a leitura de um livro que, mal saiu lá fora, me chamou a atenção: não pelo título (O Ano do Pensamento Mágico) que, assim a seco, até pode conduzir a uma ideia errada, mas porque tratava da morte e da saudade de alguém muito próximo e cúmplice (na verdade, o marido da autora, a jornalista e escritora Joan Didion, ao fim de 40 anos juntos!) e da quase impossível superação dessa ausência. Mas, além dessa temática, sobre a qual gosto mesmo de ler (e por isso adoro alguns livros do querido Julian Barnes), sabia que este belo livro não tinha ponta de lamechice (como acho que tem, por exemplo, Paula, de Isabell Allende, que li há mais de vinte anos e fala da morte da sua filha) e era até um livro culto e com bastantes referências literárias. Bem, a minha irmã emprestou-mo e finalmente devorei-o. E é também muito útil para nos mostrar que a vida pode ser sempre pior (quando começa o texto, a filha de Joan Didion está nos Cuidados Intensivos com uma infecção generalizada em coma e, portanto, a escritora precisaria ao seu lado mais do que nunca do marido quando este, inesperadamente, sucumbe a um enfarte). Aconselho vivamente. Uma lição de vida e um objecto literário bastante raro.