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A mostrar mensagens de junho, 2019

Crónica e Cesariny

Hoje é dia de crónica. O link aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-jun-2019/interior/caes-como-nos-11009502.html


As biografias estão na moda, como o prova uma colecção da Contraponto, para a qual foram convidados jovens autores de nomeada como Bruno Vieira Amaral, Filipa Martins ou Isabel Rio Novo. Além desses trabalhos, uns concluídos, outros em progresso, espero com curiosidade uma biografia de Cesariny pela mão de António Cândido Franco, na Quetzal, intitulada O Triângulo Mágico.

Definições

Lembro-me de um dos autores que publiquei há alguns anos contar que, num encontro literário já não sei bem onde, era tradição, depois do jantar e terminados os trabalhos, os participantes jogarem ao jogo do dicionário. Pedia-se aos escritores presentes que redigissem definições de certas palavras escritas num papelinho: definições bastante sintéticas e enigmáticas ou mais complexas, que de certa forma poderiam constar de um dicionário. Depois, eram lidas alto e os outros tinham de adivinhar de que palavra se tratava. É um exercício interessante pensar numa definição assim e, a seguir, compará-la com a de um dicionário já publicado. Porém, além de sugerir que joguem este jogo em família (sem complicar demasiado a vida aos adolescentes, que têm um vocabulário em geral tão pobrezinho), quero dizer que me lembrei disto por ter lido algures que numa universidade australiana todos os anos pedem aos estudantes que apresentem definições para palavras, termos ou expressões contemporâneos. Este ano, para "politicamente correcto", um aluno (sábio, diria eu) avançou a ideia de que se tratava de "uma doutrina, defendida por uma minoria iludida, que sustenta a ideia de que é inteiramente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo". Eu não diria melhor.


 

Na América

Um dos mais conhecidos escritores negros norte-americanos, James Baldwin, que lutou pelos direitos civis dos negros e, perseguido, acabou por se exilar em França, é o autor de uma pequena maravilha que em português dá pelo título de Se Esta Rua Falasse (no original, a rua tem nome, mas cá fica melhor assim), publicado pela Alfaguara. Não se afastando das questões que sempre precuparam o autor (o racismo e os bodes-expiatórios que foram tantos negros nos Estados Unidos, acusados de crimes que não cometeram e condenados a anos de cadeia onde perderam o melhor da vida), o romance é escrito na primeira pessoa por uma jovem grávida, a querida Tish, incrivelmente apaixonada por Fonny, o seu amigo de infância e namorado de sempre, que se encontra na prisão apenas porque o polícia Bell nunca suportou que um negro tivesse uma namorada tão gira, que fosse um artista (escultor, na verdade) e que andasse à procura de umas águas-furtadas fora do Harlem. A voz é surpreendentemente convincente, e as personagens femininas neste romance (Sharon, Ernestine e o trio da família Hunt) são, realmente, incríveis, apesar de Fonny e o pai não lhes ficarem atrás. O livro foi escrito em Saint-Paul de Vence (creio que era por aí que morava Eduardo Lourenço quando vivia em França) e publicado originalmente nos anos 1970; e não tem nada de panfletário apesar de trazer à tona o racismo e a violência praticada com os negros nos bairros de Nova Iorque. Uma cinta refere que existe (ou existirá) um filme realizado por Barry Jenkins (que realizou o premiado Moonlight), mas desse (ainda) não posso falar.

Ler os mestres

Já aqui falei de um livro muito curioso de Adolfo García Ortega, O Comprador de Aniversários, que parte de uma cena de um ou dois parágrafos descrita em A Trégua, de Primo Levi, para inventar a vida e o passado de uma personagem e dos seus ascendentes na Hungria. Ora, vale a pena lembrar aqui o próprio A Trégua, que se assume como uma espécie de continuação da obra-prima Se Isto É Um Homem, do mesmo escritor italiano; porém, em lugar de descrever o terror do campo de concentração, A Trégua é dedicada ao que se passa a partir do momento em que os alemães, sabendo que os russos estão a caminho, fogem do campo de Buna, abandonando na enfermaria todos os convalescentes e doentes graves, entre os quais, de resto, se encontrava o próprio Levi, delirando de febre. Depois, a viagem até casa, em muitíssimas etapas, acompanhada de figuras verdadeiramente incríveis que se vão cruzando com Levi, alguns companheiros de desgraça e outros polacos postos ao serviço do exército russo, é uma espécie de odisseia cheia de momentos terríveis mas também muito especiais, de cumplicidade, medo, alegria, trauma. A libertação às vezes custa muito. Mas vale sempre a pena. A Trégua também.

Crónica e miniférias

Hoje antecipo a publicação da minha crónica, porque vou aproveitar o feriado para fazer a ponte (e tirar ainda a segunda-feira para me livrar do trânsito do regresso à capital no domingo) e só voltarei ao blogue na próxima terça. Aqui fica, pois, o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/08-jun-2019/interior/a-arte-ou-a-vida-10988163.html


 


 

Saído da casca

É bastante difícil a um escritor português ser traduzido; por mais que a sua língua seja uma das mais faladas do mundo, a verdade é que as editoras estrangeiras raramente têm leitores de português e, se não é muitas vezes um tradutor interessado num livro que o apresenta a um editor, nada se consegue. Se se trata de poesia, ainda é mais difícil, até pela tarefa incrível da tradução, mas a colectânea de poemas Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, saiu da casca, furou o esquema e acaba de ser anunciada como finalista no prestigiado Prémio Literário Camaiori - Francesco Belluomini, em Itália na categoria de prémio internacional. Parabéns ao seu autor! Curiosamente, entre os cinco finalistas, encontra-se também um livro de um poeta espanhol que conheci no ano passado,  José-María Micó, que entre outras coisas traduziu a Divina Comédia, de Dante, e toca guitarra acompanhando a magnífica voz de Marta, sua mulher. Em edições anteriores o Prémio Camaiori foi atribuído a Lawrence Ferlinghetti, Seamus Heaney, Nuno Júdice ou Evgueni Evtuchenko. Mediterrâneo recebeu em 2016 o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.

Branco

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O Livro Branco, de Han Kang, é o mais recente livro da escritora sul-coreana de quem a Dom Quixote já publicou A Vegetariana e Actos Humanos, ambos livros muito originais, o primeiro dos quais recebeu o Man Booker International Prize. Trata-se desta feita de uma meditação sobre a cor, que começa com uma simples lista de coisas brancas: a neve, o sal, a espuma das ondas, o papel, o arroz, os cabelos dos velhos, as cobertas em que a mãe da autora embrulhou a primeira filha, que nasceu prematura, muitos anos antes de existir este livro. É também uma reflexão sobre o luto, o renascimento e a tenacidade do espírito humano, sobre a beleza, a fragilidade e a estranheza da vida: se, por exemplo, a sua irmã tivesse sobrevivido, teria Han Kang chegado a nascer? Poderíamos nós ler a sua história tão tocante? Este é o mais autobiográfico e simultaneamente experimental livro de Han Kang até ao momento: uma pequena obra-prima inesquecível, a dor transformada em promessa pela mão de uma grande escritora contemporânea. Lindo.


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Crónica e lançamento

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Hoje é dia de crónica e o link aqui vai:


 


https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/maria-do-rosario-pedreira/interior/nao-sabenao-responde-10958848.html


No domingo, vamos lançar na Feira do Livro o novo romance de Mário Cláudio, Tríptico da Salvação. Apareça na Praça LeYa, pelas 17h30. A apresentação é do professor Vítor Serrão.


 


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Viajar

A Quetzal tem uma lindíssima colecção de livros de viagem chamada Terra Incognita (também há outra, igualmente bonita, na Tinta-da-China, mas existe há bastante tempo e provavelmente os Extraodinários já a conhecem). Nela, saem este mês dois livros, um dos quais do grande viajante Paul Theroux, que já esteve em Portugal no festival LeV, em Matosinhos, a falar de comboios; mas nesta sua Viagem por África, além do comboio, o norte-americano apanha autocarros e veículos de transporte de gado, jipes e canoas, e vai do Cairo à Cidade do Cabo para descobrir cenários que são mesmo o berço da beleza. O outro livro é de um filósofo contemporâneo: Teoria da Viagem, de Michel Onfray, é um ensaio sobre o que nos leva a desejar tanto viajar e a razão por que alguns têm bicho-carpinteiro e estão sempre prontos para partir, enquanto outros, pelo contrário, gostam de ficar no mesmo lugar como se tivessem raízes que os pregassem ao chão. Duas propostas muito interessantes, cada uma no seu género, sobretudo para quem se interessa pelo tema da viagem.

Um clube de leitura para crianças

Enfrentamos um sério problema em termos de hábitos de leitura e já há estudos que provam que ela faz imensa falta, não apenas para a aquisição de conhecimentos e cultura, mas também para a interiorização de valores como a solidariedade e a empatia. Como de pequenino se torce o pepino, a LeYa teve a belíssima ideia de criar um Clube de Leytura para crianças, em que os pais poderão ter dois livros por mês pelo valor simbólico de 9,90 euros (e, atenção, nem precisam de ser da LeYa) e ainda umas surpresas e brindes. É, porém, a criança que vai receber tudo pelo correio em seu nome, numa caixa à maneira, mês a mês. Esta parece-me uma iniciativa a ter em conta, partilhar e subscrever, pelo que deixo o link para todos os pais, tios e padrinhos (e amigos, claro) de crianças até aos 13 anos. É fácil, é barato e promete dar bons resultados.


nlstore.leya.com/leyaeducacao/2019/CLUBE_DE_LEITURA/clube_de_leYtura_apresentacao.html


 

Crónica

Hoje é dia de partilhar a crónica:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/25-mai-2019/interior/omitir-ou-debater-10935928.html


 


Para quem gosta de mapas, como é o meu caso (mais de olhar para eles do que de segui-los), as Edições 70 publicaram recentemente o livro História do Mundo em 12 Mapas, que reproduz os diferentes mapas do mundo criados ao longo dos séculos e a influência que tiveram na nossa percepção do mundo. Desde a Grécia antiga ao Google, é a não perder.


 

Tríptico

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Empregado de um homem de leis velho e respeitado, Hans Kunsperger sempre invejou o patrão. Mas não foi apenas o desejo de ficar com as suas coisas que o levou a tomar a decisão de o assassinar lentamente. A sua maior ânsia consistia em furtar-lhe o sonho por tantos anos acalentado de encomendar um tríptico representando a Crucifixão, a Deposição e a Ressurreição de Cristo para oferecer à igreja onde fora baptizado. É este tríptico que levará Kunsperger até ao estúdio de Lucas Cranach, pintor de créditos firmados e amigo de Martinho Lutero, onde conhece os dois filhos do artista, um dos quais terá um papel determinante na conclusão da encomenda que verá muitos sucumbirem antes de ser finalmente entregue. Com a poderosa imaginação a que nos acostumou, Mário Cláudio, no ano que comemora o seu 50.o aniversário como escritor, oferece-nos, também ele, um tríptico notável de que é impossível afastarmos os olhos.


 


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Pesadelo

Todos os escritores têm pesadelos, especialmente nas vésperas da saída dos seus livros. Em 2001, uns dias antes de ser publicado o meu segundo livro de poemas, sonhei que uma jornalista de quem eu não gostava me acusava de plagiar um poeta americano. Eu ia à procura do livro desse poeta e era obrigada a concluir que o meu era de facto uma mera tradução involuntária. Não conhecia o poeta, mas quem ia acreditar nisso? No sonho, o pior de tudo era que nem os meus amigos acreditavam em mim. Acordei nessa altura... Porém, nem o pior pesadelo pode equiparar-se ao que Naomi Wolf está a viver na realidade. A dias da saída do seu novo livro, a autora de História da Vagina recebeu uma lição horrível em directo num programa de rádio. É que a tese que defendia em Outrages: Sex, Censorship, and the Criminalization of Love assenta em casos de pessoas condenadas à morte por prática de sodomia e outros actos sexuais; só que a expressão «death recorded» nos documentos que consultou em vários tribunais não quer dizer «execução» ou «sentença de morte», como ela pensava, mas que o juiz se absteve de condenar o réu, convicto de que ele acabaria por receber o perdão real... A escritora nunca mais se vai esquecer disto, evidentemente,  o problema é que todo o livro se baseia em casos que, afinal, não aconteceram e dos quais ela partiu para fazer uma longa reflexão que, afinal, não tem sentido. O editor já deve estar a pensar em quantos livros vão ter de pôr no lixo. Ui, isto é que é mesmo um pesadelo.


 

Novidades

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Aqui há uns tempos, quando estava a reunir letras e poemas para fado oriundos de autores ditos eruditos (com obra publicada exterior ao fado) para uma antologia que ainda não saiu, descobri que Lídia Jorge era autora de uma série de textos que depois foram cantados, nomeadamente pela fadista Mísia. Foi uma boa surpresa, não só porque não lhe conhecia essa faceta, mas porque de facto a qualidade era francamente digna de nota. Agora, vem a notícia fresquinha da publicação do primeiro livro de poemas desta autora reconhecida cá e no estrangeiro pela sua obra ficcional. Ao que parece, Lídia Jorge escrevia poesia há muito mas só agora decidiu publicar uma selecção de 50 textos. A colectânea chama-se Livro das Tréguas e corresponde, segundo a autora, a «uma espécie de autobiografia consentida». Uma nova voz que vale muito a pena acompanhar.


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O que ando a ler

Falei de raspão neste livro que ando agora a ler quando me referi ao número de títulos recentes que se prendiam com a figura da mãe, muitas vezes em tom de luto e saudade. Mas, na verdade, Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Vilas, sendo um livro sobre a orfandade, é muito mais uma homenagem ao pai, o verdadeiro herói do narrador, do que à mãe; fui induzida em erro por ter conhecido o seu autor como poeta em Cartagena das Índias e tê-lo ouvido dizer um lindo poema sobre a ausência da mãe que consta também das últimas páginas deste livro. Mas o pai aqui é o Bach dos pais, enquanto a mãe, com o seu terrível feitio, é «só» a Wagner (o autor gosta de música e atribui nomes de compositores aos seus familiares). Intitulado originalmente Ordesa (um monte aonde o autor ia passear com o pai em pequeno), este livro de memórias e desabafos é talvez das coisas mais ressentidas e magoadas que li até hoje, porque, por um lado, perder pai e mãe é uma solidão indizível, sobretudo para quem não se sente amado por ninguém (incluindo os filhos); e, por outro lado, está sempre presente a raiva imensa de um membro de uma família pobre que queria melhor para os seus pais e se zanga muito com quem teve tudo de mão beijada, como, é só um exemplo, os monarcas espanhóis. Confesso que esperava uma coisa um nadinha diferente, menos rebarbativa, mas este foi considerado livro do ano por muitas publicações espanholas diferentes e de diferentes quadrantes, o que quer dizer que deve ser lido por toda a gente.