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A mostrar mensagens de outubro, 2024

Os Papéis do Inglês

«Poeta, romancista, antropólogo, Ruy Duarte de Carvalho é uma figura basilar da literatura angolana pós-colonial. No seu percurso, a vida funde-se com a obra, criando um universo deveras fascinante, onde se colocam as mais importantes questões do colonialismo e do pós-colonialismo.» É assim que o jornalista Manuel Halpern inicia o seu texto na revista Visão sobre o lançamento do filme Os Papéis do Inglês, dedicado ao escritor que nos deixou em 2010, mas que tive o prazer de ver nas Correntes d'Escritas ao lado de Luandino Vieira e Peptela, os três abraçados. Realizado por Sérgio Graciano e com argumento de José Eduardo Agualusa, o filme fala de uns papéis que o pai de Ruy Duarte de Carvalho teria escondido no deserto do Namibe e que o ajudariam a resolver um mistério ocorrido nos anos vinte do século passado. Esta é pois a história de uma busca que tem por protagonista o próprio Ruy Duarte de Carvalho  (é o actor João Pedro Vaz que lhe veste a pele) e que regressa ao passado para nos mostrar as magníficas paisagens do Sul de Angola. Estreou há dias. Vamos ver?

Mafra

Começou ontem, salvo erro, a segunda edição do Festival Literário de Mafra, que decorre até dia 3 de Novembro. Não há desculpa para não ir, porque apanha o fim-de-semana e tem muita coisa para ver e ouvir. Comissariado por José Fanha, a programação inclui leituras, sessões de contos tradicionais, encontros com autores e muito mais. Sendo o tema os 50 anos do 25 de Abril, na abertura cantará Francisco Fanhais no Torreão Sul do Real Edifício de Mafra. Entre os escritores convidados, estarão Dulce Maria Cardoso, João Tordo e Djaimilia Pereira de Almeida. O romancista, poeta e jornalista Nicolau Santos e o economista João Duque são os responsáveis pelo serão de poesia. O prémio literário promovido pelo Município de Mafra será entregue a António José da Costa Neves pelo seu livro O Professor. O público infanto-juvenil terá também direito a histórias contadas por profissionais como Ana Sofia Paiva, Cristina Taquelim, Miguel Horta, António Fontinha e Jorge Serafim. A programação pode ser consultada no link abaixo.


Festival Literário de Mafra | Mafra

A nossa Terra

Vivemos hoje um tempo tremendo em matéria de alterações climáticas. Ouvi falar pela primeira vez do rasgão na camada de ozono nos primeiros anos da década de 1990 e, pouco depois, do que era a ecologia e de como podíamos minimizar os estragos que causávamos constantemente. Na editora onde então trabalhava, publicámos inclusive um guia para jovens consumidores ecológicos, que explicava os perigos para o Planeta de algumas substâncias (como os fosfatos nos detergentes) e ensinava os meninos e meninas a reciclarem muitos materiais. Mas chegámos a 2024 e parece que o que foi feito para salvar a Terra não chegou e que precisamos claramente de entender mais sobre ela para a podermos ajudar. É esse o objectivo do curso que o Professor Galopim de Carvalho vai começar a dar hoje no El Corte Inglés em cinco sessões, sempre à terça-feira, às 18h30, até ao dia 21 de Novembro. Inteligentemente, foi usado um verso de Gedeão para nomear estas lições sobre a Terra, Como Bola Colorida, e entre outras coisas falar-se-á da História da Terra, da Lua e do Sol, da vida humana, dos recursos do Planeta, do ambiente, da temperatura, das rochas, dos monumentos naturais e de muitíssimo mais coisas. Vamos?  

O poeta está de parabéns

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Não é muito comum um poeta ganhar o Prémio Pessoa, mas aconteceu há dois anos a João Luís Barreto Guimarães, um cirurgião plástico do Porto com obra extensa, bastante traduzida, que ainda por cima resolveu criar uma cadeira universitária sobre poesia para os candidatos a médicos no Instituto Abel Salazar, quiçá também para os humanizar e dar a perceber que os seres humanos são bem mais do que apenas corpos. Barreto Guimarães acaba de publicar um livro (Claridade), que tem uma capa lindíssima; e, quase simultaneamente à saída deste novo poemário, recebe nada mais nada menos do que o Prémio de Poesia António Ramos Rosa da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu Aberto Todos os Dias, o livro anterior (cuja capa é igualmente belíssima), que evoca o período da pandemia para logo passar a um quotidiano mais positivo e às coisas que finalmente ficaram «abertas todos os dias». Segundo o editor, trata-se de «uma obra marcada pela ironia, mas também pelo sentido da gravidade, pelo pormenor e pelo retrato de conjunto, pela leitura da solidão mas também do amor, da amizade, das coisas de todos os dias.» Eu gostei muito, e agora vou ler o novo, que também já tenho. Se gostam de poesia, façam o mesmo.


 


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Não desistir

Li no The Guardian um interessante artigo sobre o escritor Hanif Kureishi (dramaturgo, romancista e guionista, vencedor há uns anos do Oscar para melhor argumento adaptado com A Minha Bela Lavandaria) que acaba de publicar em Inglaterra um livro chamado Shattered, sobre a desgraça que lhe aconteceu há cerca de dois anos. Num momento particularmente bom da sua vida, com os filhos criados e apaixonado pela mulher italiana, com dinheiro e a viver meio ano em Inglaterra, meio ano em Itália, estava a ver um jogo de futebol no iPad e a beber uma cervejinha quando teve uma tontura. Levantou-se, deu uns passos e desmaiou. Só que caiu sobre o pescoço e ficou paralítico de um momento para o outro. Nunca mais voltou a andar (diz que nunca mais saiu do rés-do-chão da casa onde mora, de três pisos). Esteve um ano a ser tratado em hospitais junto de outros a quem uma queda no jardim ou um tropeção nas escadas do sótão deixou paraplégios ou tetraplégicos. Kureishi gastou rios de dinheiro em fisioterapia e reabilitação, mas, embora consiga mover as pernas e os braços, não consegue ainda agarrar nada com as mãos. Escrever parecia por isso fora de questão, mas o seu cérebro não está parado e portanto resolveu ditar o livro à mulher, com quem gritava por não ser tão rápida a escrever como ele gostaria (sabe-se que sempre foi um tipo um bocado bruto). Diz-se que o livro é bastante escatológico, mas também um tributo a Camilla e a todos os que estiveram próximos nas alturas piores e não o deixaram desistir. Não consigo imaginar a força necessária para escrever um livro nestas condições. Tiro-lhe por isso o chapéu e presto-lhe homenagem. O artigo/entrevista, de Simon Hattenstone, pode ser lido aqui:


‘My body is broken, but I’m not going to give up’: Hanif Kureishi on life after the accident that paralysed him | Hanif Kureishi | The Guardian

Antepassados vegetarianos

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Guida Cândido, doutorada em História da Alimentação e autora de diversas obras de gastronomia premiadas, entre as quais A Vida Secreta da Cozinha Portuguesa ou Cinco Séculos à mesa, vem revelar-nos no seu novo livro (São Favas Contadas) que os vegetais já andam pelas nossas mesas há vários séculos, mesmo que alguns dos mais usados na culinária portuguesa – como a batata ou o tomate – só tenham marcado presença na Europa depois das viagens de Cristóvão Colombo. A par de 50 receitas que vêm desde o século XVI e estão presentes em livros de cozinha de grandes chefes, conta-nos como os legumes e vegetais contribuíram para a criação de uma ideia de alimentação limpa que haveria de tornar-se uma espécie de filosofia, o vegetarianismo. A professora Isabel Drumond, que assina o prefácio, apresentará hoje este livro na Figueira da Foz, cidade natal da autora. Apareça se estiver nas imediações!


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O Nobel

Na véspera do dia em que foi anunciado o Nobel da Literatura de 2024, uma jornalista da Antena 3, Mariana Oliveira, pediu-me um palpite. Disse-lhe que andava desconsolada com o Prémio, tantas vezes atribuído a pessoas que pouco haviam inovado em termos de linguagem, e oferecido por razões politicamente correctas; mas ela pediu-me que mesmo assim gravasse um depoimento e, começando com as minhas críticas, disse que gostaria que ganhasse alguém como Han Kang, que tivesse feito qualquer coisa de novo. Não tinha esperança, até pela idade da escritora (53 anos apenas), foi mesmo só uma espécie de desabafo. Porém, ao meio-dia, veio a notícia completamente inesperada de que o meu desejo se realizara. Ver em directo foi especial, ouvi aqui na editora baterem palmas logo a seguir e não vos conto os beijos e abraços que recebi nesse dia (ainda assim, a cara da Han Kang deve ter ficado muito mais lambuzada do que a minha). A autora tem publicados em Portugal quatro livros: A Vegetariana (que a trouxe para a ribalta por ter vencido o Prémio Booker Internacional); Atos Humanos, O Livro Branco e Lições de Grego. Estamos quase a lançar o mais recente Despedidas Impossíveis, que sai em simultâneo com a edição inglesa. Leiam a autora, capaz do lírico e do brutal. Para o ano serão outros os editores felizardos.

Pronomes

Em tempos, recebi várias queixas por ter escrito aqui no blogue que uma pessoa que escrevia (e que eu publicara) era extremamente jovem mas «uma senhora escritora»; como essa pessoa era não-binária, levei nas orelhas da Comissão de Igualdade de Género por lhe chamar «senhora» quando na verdade estava a fazer-lhe um elogio. Mas, como um problema nunca vem só, descobri uma das queixosas num vídeo em directo a acusar-me de ter usado «o pronome senhora». Só que «senhora» é substantivo, e não pronome... É o que temos e os pronomes estão mesmo pelas ruas da amargura... Em primeiro lugar, porque uma tradução apressada do impessoal «you» entrou no português e nunca mais vai sair, substituindo um «nós» ou um «se» que seria muito mais normal em frases do tipo «É normal, quando chove, vestir-se/vestirmos uma gabardina» (em vez de «vestires», especialmente se não tratamos por tu o nosso interlocutor); mas ainda pior é termos comido definitivamente os pronomes reflexos em verbos como «reunir», «resignar», «derreter», «casar» e muitos outros, pois uma pessoa «casa-se» mas «casa o filho com uma rapariga adorável», e o pronome reflexo faz toda a diferença, embora hoje as pessoas só casem umas com as outras. É um desabafo porque, vindo a ouvir rádio antes de aqui chegar, soube que as pessoas agora não «se reúnem», apenas «reúnem», não sabemos é o quê.

Escritaria

Hoje começa em Penafiel a 17.ª edição da Escritaria que tem como homenageado o brasileiro Arnaldo Antunes e será mais multidisciplinar ainda do que de costume. Além de Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, estarão presentes Mafalda Veiga, Mia Couto, Martim Sousa Tavares, Luísa Sobral, Rui Reininho, Samuel Úria, Márcia e Adolfo Luxúria Canibal, e muitas das sessões acontecerão num novo espaço cultural da cidade designado Ponto C. Haverá mais concertos, mas também conversas, lançamentos de livros e uma entrevista de fundo ao autor e músico a quem este ano é dedicado o encontro. Num espaço público da cidade, como habitualmente, ficará a silhueta de Arnaldo Antunes junto de uma frase sua. O festival já homenageou Saramago, Manuel Alegre, Miguel Esteves Cardoso, Pepetela, Mário Zambujal, Lobo Antunes, Mário Cláudio e muitos outros cultores da língua portuguesa. Esta edição terminará no dia 27.

Excerto da Quinzena

Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O des­tino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar. Mamãe-Velha lembrava sempre com orgu­lho a origem honrada da nossa casa. Pena que o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direi­tamente o produto do seu trabalho.


E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou-se das imagens que enchiam o nosso mundo. O nasci­mento dos meninos. O balanço da criação. O traba­lho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores. A partida de Papai para a América. A ansiedade quando chegavam cartas. Os melhora­mentos a pouco e pouco introduzidos com os dóla­res que recebíamos. Mamãe deslisava como uma sombra silenciosa no trafêgo da casa. Mamãe-Velha não parava, indo de um lado para outro, como se nada pudesse fazer-se sem a sua fiscalização e os seus gritos. A minha avó só sabia querer a sua gente descompondo.


Ao lado da casa grande, de quatro quartos, ficava a casinha desaguada, onde Mamãe fazia a despensa, e que nos dias de chuva servia para abrigar as gali­nhas da criação. Encostada à casa de moradia, ela tinha de longe, com o seu teto retangular, inclinado para drenar a água, um ar de bezerro a pojar nas mamas da mãe.


Baltasar Lopes, Chiquinho

Chico

O grande escritor de canções Chico Buarque de Holanda é, para quem não saiba, filho de um grande historiador e académico chamado Sérgio Buarque de Holanda, autor, aliás, de livros importantes. Essa circunstância levou o nosso querido músico e cantor, aos nove anos, a viver um período em Roma, onde o seu pai leccionou numa Universidade. Inscrito numa escola internacional, o hoje Prémio Camões aprendeu italiano sobretudo com os títulos dos jornais no quiosque defronte de casa e com a rádio, a cozinheira e a miudagem da rua, uma vez que a maioria dos seus colegas, filhos de diplomatas, falava inglês no colégio. Mas isso não o impediu de conhecer a cidade de lés a lés, percorrida de bicicleta, nem de dançar nos braços de uma actriz como Alida Valli, uma das musas de Visconti. Bambino a Roma, o livro que acaba de sair em Portugal, é um delicioso conjunto de memórias de Chico Buarque do tempo que passou na Cidade Eterna aonde um dia chegam do Brasil as notícias do suicídio de Getúlio Vargas. Bastante saído da casca, já com pulsões sexuais aos nove anos, o bonitão do nosso Chico namorisca as italianas, joga à bola, discute com os irmãos mais velhos e observa uma Roma que não mais esquecerá. Lê-se como um romance.

Um físico prodigioso

Os mais velhos ainda se lembram certamente de um programa de televisão sobre física nuclear anterior ao 25 de Abril, conduzido por António Manuel Baptista. Era estranho, claro, um programa sobre um tema tão específico em horário quase nobre, mas o seu autor sabia de tal forma comunicar que, uma vez, as vendedeiras de um mercado fora de Lisboa lhe confessaram não perceber nada do que dizia mas adorar ouvi-lo falar mesmo assim. Foi este senhor que me meteu na edição em 1987 (era amigo do meu pai e sabia que eu gostava de livros): quando um editor lhe perguntou se conhecia alguém que o pudesse ajudar, não hesitou em recomendar-me para o lugar e foi assim que começou a minha vida editorial. Tenho-lhe uma grande dívida, claro, e mais logo estarei na homenagem e no lançamento de um livro seu, agora reeditado pela Tinta-da-China; chama-se A Ciência no Grande Teatro do Mundo e, para quem não o conheça, vale muito a pena ver a clareza com que as coisas são lá explicadas. É o neto deste prodigioso físico, também António, quem vai conduzir a conversa com Carlos Fiolhais. Não falte. Na Ler Devagar, às 18h30.

Verdes

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Não é há muito que se ouve falar de vegetarianismo ou veganismo, mas os legumes e as leguminosas fizeram desde sempre parte da alimentação dos omnívoros. São Favas Contadas, o novo livro de Guida Cândido, vem revelar-nos que os vegetais já andam pelas nossas mesas há séculos, mesmo que alguns dos mais usados – como a batata ou o tomate – só tenham marcado presença na Europa depois das viagens de Colombo. Mas sabia que, por exemplo, se comiam couves na Roma antiga durante os banquetes para evitar a embriaguez e que, no período medieval, os legumes eram usados como resposta aos jejuns impostos pela Igreja? Que, sendo a motivação inicial do vegetarianismo a pureza espiritual, essa filosofia entusiasmou os Iluministas a ponto de acreditarem que a dieta vegetariana, associada à abstinência do álcool, podia resolver problemas tão graves como a pobreza e a fome no mundo? E que, apesar de o primeiro livro português exclusivamente vegetariano só ter sido publicado em 1916, podemos encontrar receitas com vegetais, em versão doce e salgada, desde o século XVI? Viajemos então com esta especialista em História da Alimentação aos primórdios do vegetarianismo e confeccionemos, tantos séculos depois, cinquenta antigas receitas com trinta espécies de vegetais nas nossas cozinhas modernas.


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Orgia checa

Nunca falho um Philip Roth quando aparece um novo e fico sempre com água na boca enquanto não arranjo tempo para ele. Desta vez arranjar tempo foi fácil, pois estava a terminar outro livro e meti-o logo que o terminei, à frente de uma data deles que esperavam na pilha. Tratava-se ainda por cima de A Orgia de Praga, escrito há quase cinquenta anos mas um dos livros da tetralogia Zuckerman Acorrentado, de que já lera os outros três. Como o título indica, passa-se maioritariamente em Praga, no tempo do comunismo, e fala de como os artistas e escritores checos aí vivem permanentemente espiados pelos soviéticos, vigiados e mesmo castigados, quantas vezes impedidos de escrever e publicar. Olga, por exemplo, passa a vida a pedir a Zuckerman que fornique e se case com ela e a liberte do ostracismo e da violência a que é votada pelo seu país. Tentando reagir a uma vida de opressão, muitos artistas acabam por se vingar em orgias e festas lúbricas nas quais o nosso Zuckerman participa quase sem querer. Não tão interessante como os outros três (O Escritor Fantasma, A Lição de Anatomia e Zuckerman Libertado) e bastante mais curto (lê-se em duas ou três noites), é apesar de tudo um Philip Roth.

Inquietações

No âmbito do FOLIO, o festival literário na bela vila de Óbidos que foi transformada numa enorme livraria pelo saudoso José Pinho, teremos hoje às 18h00 a primeira mesa do FOLIO Autores. Nela participam Hanna Bervoets e Eleanor Catton e a moderação ficará a cargo de Ana Daniela Soares. O tema do FOLIO este ano é "Inquietação", e ninguém mais apropriado para falar dele do que Hanna Bervoets, autora holandesa de um romance elogiadíssimo por Ian McEwan e intitulado Tivemos de Remover Este Post. Trata realmente de coisas muito inquietantes, pois tem como personagens um grupo de jovens com empregos precários que resolvem tentar melhorar o nível de vida aceitando trabalhar para uma poderosa empresa dona de uma rede social muitíssimo frequentada. As suas funções consistem em moderar conteúdos, ou seja, retirar o que é ofensivo segundo as normas da empresa, que na verdade pouco têm que ver com as nossas. Mas saberiam eles, quando aceitaram o trabalho, a dose de violência e inquietação que lhes seria servida a cada hora? Eleanor Catton, por sua vez, foi a vencedora do Man Booker Prize em 2013 com um romance chamado Os Luminares, passado na Nova Zelândia, que trata de outras inquietações, como o tráfico de ópio e a prostituição. Eu vou a Óbidos ouvi-las. Venham também. Até segunda.

O Ruído dos Tempos

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David Machado, autor que escreve para crianças, adolescentes e adultos, que já viu um dos seus romances adaptado ao cinema e já venceu o Prémio Literário da União Europeia, entre outros, publicou há menos de um mês Os Dias do Ruído, uma ficção fascinante sobre a actualidade, em que as redes sociais têm um papel preponderante nas reacções de algumas das personagens, que assim se sentem amadas, acompanhadas, admiradas, mas também ameaçadas e agredidas, ao ponto de terem de recolher-se num esconderijo com medo das palavras e de alguns dos seus autores. O lançamento público ocorre hoje na Cinemateca, sob a forma de uma conversa entre o autor e dois jornalistas, Marta Anjos e Ricardo Alexandre, para a qual quero convidar-vos, se estiverem por Lisboa. Senão, não percam de qualquer forma o livro, que vale muitíssimo a pena e, sobretudo, fica a ecoar durante muito tempo dentro de nós.


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Lembrar e celebrar

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Embora alguns editores estejam periodicamente a trazer ao de cima autores portugueses desaparecidos (como Agustina, Jorge de Sena, Fernando Namora, Alves Redol...), num mundo em que «quem não aparece esquece» existem excelentes autores que tendem a ficar esquecidos (eu, por exemplo, acho que o genial Carlos de Oliveira é um desses casos e aconselho a todos a leitura das suas obras). Mas, além da publicação, há outras coisas que ajudam ao «renascimento» dos escritores, e este ano Vergílio Ferreira teve sorte. Na semana passada, durante o festival Em Nome da Terra foi inaugurada em Melo (Gouveia), terra serrana natal do professor, a Casa Vergílio Ferreira - Para Sempre, que, tendo sido a casa dos seus pais, será um novo espaço cultural que celebrará a sua obra e servirá do mesmo modo de lugar literário inspirador para outros autores, que ali poderão fazer residências literárias com uma bela vista. O festival, que vai na sua 3.ª edição, passará doravante por esta casa, onde se fará também anualmente a entrega do Prémio Vergílio Ferreira. O projecto da «Casa Amarela» teve curadoria de Valter Hugo Mãe e conta com muitos objectos oferecidos pelos netos do escritor, como um relógio «napoleónico», segundo leio no site da Rádio Renascença. A casa está cheia de livros, entre os quais seguramente o romance Para Sempre, no qual o protagonista recorda a sua vida durante uma tarde de Agosto numa casa que supostamente foi aquela. Mais um lugar para visitarmos.


 


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Mães e filhas

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Não escondo que amo profundamente a minha mãe centenária e que sempre tivemos uma boa relação, embora isso não nos tenha dispensado de várias discussões porque, sobre muitas coisas, pensamos de maneira diferente. Já a minha irmã foi sempre mais pai e o feitio da nossa mãe também nunca facilitou as coisas. A relação entre mães e filhas é em muitos casos difícil e não faltam filmes e livros a prová-lo, como A Pianista, de Elfried Jelinek, Carta à Minha Filha, de Maya Angelou, ou Beloved, de Toni Morrison, só para referir alguns. Às vezes, mesmo que o amor seja inegável, mãe e filha não conseguem estar juntas e uma briga acaba por separá-las para a vida. Ora, acaba de ser lançado um romance que fala justamente disto, Como Amar Uma Filha, da israelita Hila Blum, livro finalista do Prémio Fémina em França, no qual a protagonista (a mãe que apenas consegue ver os netos de longe porque não fala com a filha há muito) dialoga com as escritoras que a autora confessa gostar de ler: Susan Sontag, Margaret Atwood ou Alice Munro. A coisa promete e a capa é belíssima. Vou espreitar.


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Mapa cerebral

No início da minha carreira na edição, li muitos livros de divulgação científica e cheguei a traduzir um livro de Carl Sagan que falava da descoberta da área de Broca no cérebro de um Homo sapiens, aquela onde reside a capacidade de associar o pensamento ao discurso, de criar a linguagem. Mas há ainda muito por descobrir em termos do nosso cérebro... No ano em que nasceu Pessoa (1888), um espanhol de 36 anos, Santiago Ramón y Cajal, propôs-se desenhar o sistema nervoso central, célula por célula, em busca do cantinho do cérebro onde se escondiam as ideias dos filósofos, a imaginação científica  e a fantasia literária, mas, claro, logo entendeu que a tarefa era inglória. O primeiro passo para esta missão quixotesca acaba, porém, de ser dado, tendo sido finalmente mapeado o cérebro... da mosca-da-fruta. Não se ria. Trata-se de um insecto com comportamentos quase tão complexos como o ser humano: interpreta canções durante a corte e a cópula; consegue observar, cheirar, ouvir, andar e voar; é capaz de orientar-se em distâncias longas e possui memória de longo prazo. O mapa do cérebro da larva destas moscas tem uma estrutura com 3016 neurónios e 548.000 ligações entre eles. É só preciso multiplicar isto por 100 e temos um cérebro humano adulto. Já não falta tudo para saber onde vão os escritores buscar as suas ideias e histórias... O artigo do El País onde descobri isto pode ser lido aqui:


https://elpais.com/salud-y-bienestar/2024-10-02/el-primer-mapa-de-un-cerebro-adulto-abre-una-nueva-puerta-para-investigar-la-mente.html


 


 


 


 

Excerto da Quinzena

E, no Outono, entrei para a escola.


A 7 de Outubro.


Escrevo em cardinal e não por extenso, porque foi assim que este número nos foi gravado a fogo: o desenho de um punhal deitado que dobrava a lâmina para baixo para se enterrar nos nossos corpos espantados de criança. «7.» Depois desse sete-seta, nunca mais voltaríamos a acreditar na bondade dos adultos. Na primeira classe, aprendíamos que a nossa infância morreria, todos os dias, mais um pouco.


A mãe levou-me pela mão, estrada fora, com outras mulheres que iam acompanhar os filhos no primeiro dia. Riam-se muito e falavam alto, nervosas.


«Ficas com o senhor professor que logo venho-te cá buscar.»


Havia crianças que choravam, que se agarravam à saia das mães, que se despegavam a custo ou à bruta, conforme o caso. Eu, não. Sabia que não adiantaria nada.


Várias mulheres repetiam por delicadeza, bem alto, a voz sempre nervosa:


«E se ele se portar mal, bata-lhe, senhor professor. Arrime-lhe, que tem a minha autorização.»


 


Possidónio Cachapa, A Selva dentro de Casa

O homem das sete vidas

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Na cabeça de Steven, o avô paterno, que via sobretudo nas férias de Verão na aldeia, era igual a todos os avôs que conhecia, sem nada de estranho ou assinalável. Até ao dia em que, já depois da sua morte, lhe foram parar às mãos uns cadernos escritos por ele ao longo de muitos anos, que revelavam uma pessoa completamente diferente: um homem que estava longe de ser bom e que, pertencendo a uma família judia, conseguira a proeza de se tornar gangster, mercenário, espião e até oficial superior das SS durante a Segunda Guerra Mundial, acabando prisioneiro num campo de trabalho russo. E mesmo que se trate de alguém que cometeu crimes hediondos, é impossível aos leitores desta história não sentirem uma secreta admiração por este homem que, tendo vivido tantas vidas em tantos lugares, conseguiu afinal fazer-se esquecer. Steven Braekeveldt, apostado em tirar o avô do anonimato, entrelaça em O Homem Que Se Fez Esquecer ficção e realidade para nos contar uma vida única em episódios que recuam ao final do século XIX e que incluem personalidades conhecidas de todos, entre as quais o escritor John Steinbeck e o repórter Robert Kappa, de quem o protagonista foi amigo quando viveu em Nova Iorque. Uma narrativa alucinante com um ritmo incrível, a não perder.


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O bósnio irreverente

Disse-vos anteontem que iria falar-vos de um autor bósnio, o escritor Velibor Čolić, recentemente dado a conhecer cá em Portugal através de O Livro das Despedidas, o seu primeiro livro escrito originalmente em francês. A França é, de resto, o lugar onde o autor se refugiou depois de ter desertado da guerra da Bósnia, depois de ter sido feito prisioneiro e depois de ter fugido da cadeia, apesar de pesar cento e tal quilos. Tal como ele diz, os editores chamam romance ao que escreveu, mas é só para vender melhor, porque não se trata de um romance. E tem razão, claro, o seu livro é sobre a sua vida, contada sem reservas, com muito álcool à mistura, com sexo, com todas as enormes dificuldades que sente um refugiado político em integrar-se num país novo, um país onde os que vêm de fora são olhados de lado e frequentemente maltratados. Mas talvez aqui a história de todas estas vicissitudes (atenção: o relato é tudo menos um «choradinho» porque este senhor não tem papas na língua e é tão bom a fazer crítica como autocrítica) nem seja o mais importante; o que este livro tem é uma linguagem avassaladoramente inventiva que me fez pensar que em todas as páginas há frases que eu gostaria de coleccionar. E, tratando-se de alguém para quem o francês é a língua do exílio, e não a sua própria língua, dá que pensar como consegue o nosso bósnio escrever tão maravilhosamente. Aconselho mesmo. Em algumas parte fez-me lembrar o filme Eu, Daniel Blake, não sei bem porquê. Mas mais cínico, mais autêntico e menos condescendente. Há bastante tempo que um livro de um autor desconhecido não mexia tanto comigo.

O que ando a ler

Terminei-o ontem e tenho de confessar que, apesar de se tratar de um romance que começa mesmo bem, que promete, que é diferente, acabou por não me convencer. A autora Deborah Levy já cá tem vários publicados e, se não me engano, foi finalista do Booker Prize duas ou três vezes. Porém, este Azul de Agosto não é o meu género de romance e arrastei-me ao longo das suas páginas: quanto a mim, nem constitui uma história bem contada, nem um livro sem grande história mas com uma linguagem ou uma estrutura poderosa. Na verdade, achei-o um livro sobre coisa nenhuma. Talvez o defeito seja meu, pois a autora é, segundo já percebi pelo que tenho lido, muito estimada e considerada, mas mais uma vez é aquele tipo de livro feito à medida para os tempos e as questões fracturantes, o que me parece sempre oportunista, até porque o assunto nada tem que ver com essas questões. Mas, enfim, posso ser eu a envelhecer e a gostar de cada vez  menos coisas, e a premissa até é interessante: uma pianista que deixou o palco em Viena a meio de uma peça de Rachmaninoff e não voltou a tocar (e que gostaria de saber porque foi abandonada em criança e entregue a um mestre de piano, que a adoptou e está agora às portas da morte). Tem uma dupla, que encontra em vários países por onde passa e corre o risco de ser ela mesma. Leiam e dêem-me a vossa opinião.